Cultura material militar::Pistola Colt .45 ACP – O clássico da FEB::


Clássico mesmo. Ou me citem outra arma pessoal que, desenhada no início do século 20, é até hoje conhecida como verdadeiro paradigma de pistola semi-automática? Pensaram em alguma? Talvez a Luger 9 mm. Serve… Mas não é páreo, pois depois da 2ª GM tornou-se peça de colecionador e souvenir dos soldados aliados. A Colt continuou sua trajetória por mais quatro décadas.

É uma arma realmente confiável: resistente, potente, precisa e fácil de desmontar e limpar. Essas eram, entretanto, apenas algumas das vantagens apresentadas pela Colt .45 (11,45 mm). Durante 70 anos, foi a pistola oficial das forças armadas dos Estados Unidos, e seu excelente desempenho contribuiu para que fosse utilizada também por dezenas de outras forças armadas, em todo o mundo. Amplamente conhecida através do cinema, acabou por se tornar objeto de desejo de quase todos os entusiastas, sejam atiradores utilitários, atiradores esportivos ou colecionadores. Falar dela é falar um pouco de como desenvolvimento da tecnologia é geralmente motivado por problemas objetivos. Sem exagero, a Colt .45 ACP, junto com o Mauser KAR98K, o Garand M1 e o Kalashnikov AK47, é mais do que simples artefato – é um documento sobre o período histórico em que existiu::

Já falamos em algum lugar dessa série que a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária da FEB era organizada como uma divisão de infantaria regular do exército dos EUA. Isso significava que um enorme número de armas, em volume nunca sonhado, até então por um pé-de-poeira brasileiro, distribuído entre os três regimentos e suas tropas complementares. Consistia em 16.245 armas individuais: fuzis M1903 versões A1e A2, e Garand, carabinas M1, submetralhadoras (M1A1 Thompson e M3 Grease Gun) e fuzis-metralhadores BAR. Essas eram as armas efetivamente usadas por uma esquadra de infantaria. Entretanto, havia outro tipo de arma, que, embora aparecesse pouco, também fazia parte do equipamento individual de oficiais e graduados (cabos e soldados não os recebiam): eram os revólveres Smith&Wesson M1917 e a pistola semi-automática Colt .45. Eram consideradas “armas pessoais”, que, dentre outras funções, simbolizavam a autoridade do oficial ou do graduado (sub-oficiais e sargentos). Mas a pistola também pode ser uma arma de defesa individual, embora, segundo boa parte da bibliografia, depois da 1ª GM as armas longas se tornaram potentes e precisas o suficiente para, no combate, relegar a pistola a uma posição secundária. O surgimento da pistola Colt, está intrinsecamente ligado à invenção do cartucho .45 ACP, pelo projetista John Moses Browning. Desde a segunda metade do século 19, a Cavalaria do Exército dos EUA vinha procurando novos tipos de armas curtas para equipar suas tropas. Por volta de 1890, o revolver que tinha sido padrão naquela corpo, o *Colt M1873 de Ação Simples “Exército”, calibre .45 (Colt Single Action Army, ou simplesmente Colt Army), também conhecido como Peacemaker, já tinha sido substituído. A Cavalaria adotou, na falta de coisa melhor, um revólver de ação dupla (podia ser disparado a partir da pressão do gatilho, sem ter de ter o cão armado antes) de calibre .38 Long, que as tropas logo perceberam ser bem menos eficaz do que o anterior, quando disparado contra um oponente disposto a morrer lutando. Essa constatação, feita durante os combates nas Filipinas, em 1898, disparou a discussão, até hoje não resolvida, do “poder de parada” (em inglês stopping power) e fez com que os soldados preferissem as antigas armas, que se revelaram, naquela situação, até mais eficazes do que o fuzil Krag da infantaria dos EUA. Pouco mais tarde, em 1904, experiências conduzidas pelo Exército, os Testes Thompson-LaGarde fizeram os militares concluir que o calibre .45 (11,45 mm) era o mínimo a ser adotado para uma arma individual.

Browning já vinha trabalhando, em associação com a Colt Firearms Manufacturing, em um cartucho calibre .41, (10,41 mm), projetado para uma pistola automática denominada Browning Automatic Pistol, que estava em fase de protótipo. Em 1905 o Exército consultou a fábrica sobre a possibilidade de redesenhar essa arma para um cartucho calibre .45, a empresa respondeu com uma arma que foi denominada Colt M1905, projetada para um novo cartucho, denominado *.45 ACP (significando Automatic Colt Pistol). Esse cartucho foi desenvolvido por Browning e surgiu em 1904. Testado por diversos laboratórios especializados, foi considerado pouco potente, devido à baixa velocidade inicial (em torno de 235 m/s). Diversas sugestões foram incorporadas, a principal das quais o aumento da carga de pólvora química, que passou a 230 grãos (15 gramas – o “grão” é uma medida para carga de munição para armas portáteis onde 7000 grãos equivalem a 4535 gramas), o que elevou a velocidade inicial para 260 m/s, o que pareceu aceitável para os militares.

A partir de 1906, o Exército testou protótipos apresentados por seis indústrias, todos desenhados para o calibre .45 ACP. Três fabricantes tiveram selecionados seus produtos (um dos quais a Deutsche Waffen und Munitionfabrik, que apresentou uma versão da Luger adaptada para o cartucho .45), e, em 1910, uma nova série de testes fez a Colt .45 ser declarada vencedora.

O exército encomendou certa quantidade de exemplares para testes nas unidades militares, e, no final do ano, a arma foi oficialmente adotada, como *Colt M1911 calibre .45 ACP. Tratava-se de uma arma do *sistema chamado “recuo curto”, no qual o cano está preso ao ferrolho durante o percurso do recuo provocado pelo disparo e recua por um percurso menor que o comprimento do estojo do cartucho. Em certo ponto, o cano deixa de recuar sendo retido em seu percurso por uma ressalto. O ferrolho continua seu deslocamento, extraindo e ejetando o estojo vazio, recolocando outro proveniente do carregador.

Entre 1911 e 1914, cerca de 50.000 Colts M1911 foram distribuídas, e, nessa época, o Exército inventariou as sugestões enviadas pelos usuários e introduziu diversas delas, a principal das quais foi o redesenho no sistema de acionamento, que permitiu que a arma, muito pesada (1130 gramas, sem as oito cargas de munição) pudesse ser manejada com apenas uma mão. Essa versão foi distribuída como United States Pistol, cal. .45, M1911. Outras medidas da pistola eram mais, digamos, aceitáveis: comprimento total de 210 mm, comprimento do cano de 127 mm.

Essa arma cumpriu o que o Exército dos EUA esperava dela: substituir por uma pistola automática os revólveres calibre .38 regulares. Durante a 1ª GM foram feitas algumas modificações destinadas a aumentar a segurança do manuseio e da operação. Mas as principais modificações aconteceram em 1926, inclusive mudanças no desenho da capa superior da mola do recuperador e na empunhadura de segurança instalada no cabo. Também foram feitas modificações na maça e alça de mira e no gatilho, cuja ergonomia foi modificada para facilitar o manejo.Esse desenho melhorado recebeu a notação *M1911A1. Permaneceria em serviço até meados dos anos 1980. Alguns especialistas calculam que quase três milhões de Colts, em diversas versões, tenham sido fabricadas.

A pistola semi-automática Colt foi adotada por 14 nações como arma militar, e foi vendida em mais de 50 outras. Esteve presente em todas as campanhas dos EUA no século 20. O Exército dos EUA a retirou de serviço em 1985, depois de alguns anos experimentando uma série de outros modelos. Atualmente, o cartucho 9X19 mm Parabelum é o padrão para arma pessoal, e a pistola Beretta 92S, conhecida nos EUA como M9 substituiu a Colt. 

A Colt M1911A1 esteve entre as primeiras armas repassadas para a FEB. De fato, mesmo antes da guerra, a arma foi adquirida diretamente da fábrica pelo governo brasileiro, em 1937, e começou a ser entregue em 1938. Essa versão “brasileira” é facilmente reconhecida pelas armas da República e a inscrição “EXÉRCITO BRASILEIRO”, gravadas do lado direito. Com a chegada da FEB ao teatro italiano, Colts foram repassadas às tropas brasileiras diretamente dos estoques norte-americanos. Não há, entretanto, registro de seu uso em combate. Depois da 2a GM, o calibre .45 ACP e as armas desenhadas em torno dele foram amplamente adotados pelas forças armadas brasileiras, em função da forte influência que a doutrina norte-americana passou a ter no país. Em meados dos anos 1950, a munição .45 começou a ser fabricada no Brasil, e até mesmo uma *submetralhadora passou a ser fabricada em torno desse cartucho, embora nunca tenha funcionado direito::

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4 comentários sobre “Cultura material militar::Pistola Colt .45 ACP – O clássico da FEB::

  1. gostei pra caramba das histórias dessas armas…
    mas oq eu queria mesmo era descobrir como fabricar uma arma

    • Boa questão, companheiro!
      Se vc tiver acesso à uma boa oficina de serralheiro, pode fazer uma arma de fogo simples sem gde dificuldade.

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