Cultura material militar::Minié: a arma da Guerra do Paraguai::


Já que o redator parte do princípio de que conhecemos pouco nossa história, evidentemente que os inúmeros desdobramentos dela, conheceremos menos ainda. Assim, a história da técnica não será exatamente a especialidade mais conhecida mesmo entre interessados. Fanático por tecnologia, o redator resolveu dar uma espiada na cultura material militar do período da Guerra do Paraguai. O resultado foi que, ao contrário do que se possa imaginar, as forças armadas do Império do Brasil não estavam assim tão mal equipadas, durante aquele conflito. Embora as autoridades da época não tenham dado grande atenção ao Exército (a Marinha foi tratada um pouco melhor), a partir dos anos 1850, a seqüência de conflitos na região do Prata, ou seja, conflitos internacionais, fez com que o governo olhasse com maior cuidado para a capacidade de seus militares. Abaixo, examinaremos uma das armas revolucionárias que surgiram no século 19, revolução que alcançou os campos de batalha sul-americanos::  

parte 1Embora travada em um ambiente economicamente periférico e tecnologicamente insignificante, do ponto de vista da inovação, a Guerra do Paraguai incorporou, de ambos os lados, alguns avanços significativos, que ajudaram a tornar o conflito um dos mais mortíferos do século 19. Um desses avanços foi o fuzil Minié, distribuído em grandes números para o exército do Império. Essa foi uma das mais importantes inovações técnicas no campo de batalha do século 19. Surgiu em 1849 como conseqüência da invenção do projetil Minié, em 1847. A arma de Minié era, de fato, um conjunto de inovações adotadas em torno de um novo tipo de projétil. Em algum lugar do blogue das boas causas falamos de como uma das formas de melhorar a precisão do tiro seria raiar o cano da arma, de forma a imprimir ao projétil movimento giratório, de modo a estabilizar seu centro de gravidade e, por conseguinte, a trajetória de vôo. O problema é que, nas armas de antecarga (carregadas pela boca), os projéteis ou tinham de deslizar por dentro do cano, até a câmara da arma, ou tinham de ser forçadas até lá por uma haste, o que tornava o carregamento muito lento. Com o raiamento do cano, o processo se tornou ainda mais complicado, pois o projétil, ao moldar-se às raias, descia de maneira ainda mais lenta. Uma idéia que surgiu no final dos Setecentos foi usar projéteis cujo calibre, apenas ligeiramente inferiores ao diâmetro do cano da arma, se deformavam com a explosão do propelente, amoldando-se ao cano e, conseqüentemente, ao raiamento. O projétil de Minié foi uma idéia revolucionária, mas não surgiu da noite para o dia. Foi inventado pelo capitão do Exército Francês Claude Etienne Minié, mas teve a ajuda do colega Henri-Gustave Delvigne. Delvigne foi o inventor de um fuzil raiado eficiente, em 1826, utilizando um projétil de formato esférico que seria socado através da vareta contra uma superfície semi-esférica, adaptando-se assim ao raiamento do cano. O problema era que o método de carregamento deformava o projétil, comprometendo-lhe a eficiência. Delvigne teve então a idéia de introduzir na parte posterior do projétil de chumbo um pequeno taco de madeira. Essa peça deveria limitar a deformação do projétil, sem impedir que este se amoldasse aos sulcos do raiamento. A inovação mostrou-se bastante eficiente, e difundiu-se rapidamente em todos os exércitos. O raiamento tornava o disparo muito mais preciso e aumentava o alcance da arma sem exigir um notável aumento do tamanho do cano. Esse fator marcou a superioridade dos fuzis sobre as armas de alma lisa, então ainda muito comuns.

O fuzil Minié, assim como seu predecessor, o Delvigne, ainda eram, tecnicamente, mosquetes, mas isso não é ainda muito importante. O ponto de inflexão foi o ano de 1830, quando Delvigne iniciou o desenvolvimento dos projéteis cilíndrico-cônicos. Posteriormente, a introdução de ranhuras Tamisier (nome do inventor do processo, um oficial francês de artilharia) tornou os projéteis bem mais estáveis, embora tornassem o amoldamento às raias mais complicado. Na mesma época, outro oficial francês (era definitivamente a era dos franceses…) descobriu uma forma de controlar a deformação do projétil, introduzindo um pino no centro da câmara, bem mais longo do que essa parte e fixado à culatra da arma. Esse pino fazia o projétil deformar-se quando pressionado contra ele pela vareta, amoldando-se às raias. Só que, nesse processo, o projétil tomava um formato alongado e mais aerodinâmico. Essas inovações, que surgiram umas após as outras, desde o início dos oitocentos, convergiram no *projétil Minié: tratava-se de um projétil cilíndrico-cônico feito de uma liga macia de chumbo. O Minié era ligeiramente menor do que o diâmetro do cano, e tinha quatro ranhuras bem pronunciadas, que eram preenchidas com graxa, e o interior era oco desde a base, em formato cônico. A novidade é que o capitão Minié substituíra o taco de madeira por um pequeno tarugo de metal, acoplado de maneira folgada à parte inferior do interior oco, mas sem o preencher. O carregamento acontecia com o atirador deixando a pólvora negra escorrer para a câmara, e em seguida fazendo o projétil deslizar para sua posição, sobre a pólvora. Era necessária apenas uma pancada com a vareta, pois a graxa ajudava o projétil a deslizar. Acionado o gatilho, a explosão do propelente lançava o tarugo de metal para a parte vaia do espaço cônico dentro da bala, uma fração de segundo antes do início da trajetória desta através do cano. O resultado é que o tarugo, mais duro que o chumbo, fazia o projétil expandir-se o suficiente para amoldar-se ao raiamento, sem deformação notável, mas suficiente para obturar a câmara e potencializar a expansão dos gases gerados pela explosão. A graxa, derretida pelo súbito aquecimento, tornava mais fácil o trajeto.

Testes realizados em 1849 demonstraram que a potência de um disparo usando o sistema Minié era capaz de penetrar duas pranchas duplas de madeira-de-lei separadas por 50 centímetros, a uma distância de uns 15 metros; entre os soldados começou um falatório que dizia que, a mil metros, um disparo de Minié atravessava um homem e sua mochila, e ainda poderia derrubar o cara que estivesse atrás dele. Posteriormente, os boatos aumentaram: a mil metros, um disparo de Minié atravessava uma linha de 15 homens.

Mesmo assim, a distribuição do novo fuzil foi lenta, embora diversos exércitos o tenham testado. Durante a Guerra Civil Americana (1861-1865) tornou-se a principal arma de infantaria em ambos os lados. Os motivos que assustavam os combatentes eram os mesmos que tornaram a arma popular entre eles: a alta velocidade e o calibre aumentado pela deformação do projétil (em alguns casos, chegava a 18 mm) tornava qualquer ferimento incapacitante, se não mortal.

O fuzil Minié, do ponto de vista técnico, era uma arma de antecarga, com um fecho de percurssão que utilizava o sistema “de fulminante”. O calibre era de 18 mm (existiram versões em outros calibres), e o peso do projétil cilíndrico-cônico girava em torno de 32,4 g – a variação, quando acontecia, era mínima. O cano tinha o comprimento de 95.8 cm, para um comprimento total da arma de pouco mais de 140 cm. O peso era de cerca de 4,8 quilos. Seu alcance eficaz era de mais de 1000 metros, mas a precisão era bem razoável  a até 550 metros. Uma novidade bastante notável eram as novas alças de mira, capazes de apontar arma dentro das novas distâncias úteis.

Soldados negros do Exército da União armados com fuzis Minié. A revista Harper´s, criada em 1857, com base em Nova Iorque, notabilizou-se por enviar correspondentes de guerra que seguiam nos calcanhares das tropas em combate.

Um dado que deve ser levado em consideração é que o período em que surgiu o Minié foi o da Segunda Revolução Industrial. Essa segunda fase da Revolução Industrial teve grandes avanços na aplicação de conhecimentos científicos que resultaram em novas técnicas em siderurgia e metalurgia, bem como nos diversos ramos da indústria metal-mecânica. Esses desenvolvimentos afetaram todo o processo produtivo, permitindo a padronização confiável de peças mecânicas em metal. Essa padronização abriu a possibilidade de que uma arma robusta e precisa fosse distribuída em números razoáveis, afetando não apenas as doutrinas, mas também a logística dos exércitos.

O interesse gerado pela nova arma logo ultrapassou as fronteiras da França. Quase todos os países capazes de fabricar armas copiaram o projétil e *a arma (a da foto é um modelo fabricado na França para os japoneses, em 1866). O Brasil não era capaz de fabricar uma peça de tal complexidade, mas adquiriu uma pequena quantidade para testes, que foram realizados na Guerra contra Oribe e Rosas (1851); nessa campanha, outras armas de última geração também foram experimentadas, colocadas à disposição de pequenas frações de tropas. Por volta de 1860, (segundo informações levantadas por Adler Homero Castro), cerca de 2700 armas do sistema Minié, entre fuzis (armas de infantaria) e clavinas (armas mais curtas, de cavalaria), comprados na Bélgica, estavam em serviço. Em 1863, uma grande quantidade de armas desse modelo foi adquirida. Isso pode parecer que o Exército Imperial buscava padronizar seu equipamento, e isso talvez possa ser considerado correto. Mas é difícil promover qualquer processo de padronização num país sem infra-estrutura industrial. As compras são, geralmente de oportunidade, feitas segundo exista disponibilidade no mercado internacional. Com virtualmente todos os exércitos do mundo buscando adquirir a arma, nem sempre os fornecedores dispunham de estoques. Pouco depois dessa grande aquisição, outra foi feita, só que de armas que seguiam o modelo Enfield – fuzil-mosquete Enfield Pattern (Modelo) 1853, que a literatura especializada por vezes chama de P53 Enfield –, modificação da patente francesa feita na Real Fábrica de Armas Leves (RSAF, em inglês), situada em Enfield Lock, Grã-Bretanha.

Soldados confederados mortos em uma trincheira. Notar os fuzis P53, largados na cena.

O P53 era, basicamente, o fuzil Minié, mas disparava um projétil simplificado, sem as raias Tamisier. Nesse novo desenho, o tarugo de metal foi substituído por um de madeira ou argila. Posteriormente, o projétil deixou de ter um tarugo, pois se verificou que a explosão era suficiente para deformar o projétil e forçá-lo no raiamento sem provocar maiores problemas.

Em princípio, P53 e o Minié francês eram armas iguais, mas a decisão do governo brasileiro em adquirir lotes de ambas rapidamente causou grande número de problemas. Segundo Adler Homero, a alça de mira das primeiras Miniés, era regulada em braças (unidade de medida portuguesa usada no Brasil, até 1865), e a das P53 estavam em jardas (unidade do sistema de medidas britânico). O resultado é que, a partir de 1865, com a adoção do sistema métrico, a conversão tornou-se um problema. Mas isso nem era problema: em braças ou jardas, as armas disparavam. Mas a pequena diferença (0,14 mm – quatorze décimos de milímetro) entre o calibre das duas armas era outra coisa. Essa diferença pode até parecer insignificante, principalmente em armas de antecarga, mas o fato é que o projétil das armas belgas não entrava nas inglesas; já o projétil de calibre menor, usado nas armas belgas, acabava não provocando o forçamento adequado nas raias. O resultado é que o projétil perdia a estabilidade logo após no início do vôo.

A seguir, veremos algumas consequências do uso militar do sistema Minié, principalmente no Brasil::

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3 pensamentos sobre “Cultura material militar::Minié: a arma da Guerra do Paraguai::

  1. Muito bem exposto e com conteúdo que me serviram para descobrir a reliquília que tenho dentro de casa… uma baioneta de encaixe do “FUZIL MINIÉ”, em perfeito estado.
    muito obrigado.
    CARLOS

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