Cultura material militar::Elektroboote e seus sucessores::Parte2

DENTRO DAS POSSIBILIDADES cada vez mais restritas do redator-fanático por tecnologia militar, causa:: continua contribuindo para a extensão da cultura submarinística dos seis leitores (contadinhos…). Continuaremos tentando fazer um resumo útil da história dos submarinos modernos, que, como muito do que existe hoje em dia, começou na 2a GM. POR SINAL, os seis leitores ainda não se manifestaram em torno da proposta de um blogue específico sobre as leituras::de::causa:: Já sei até mesmo a primeira série de livros e sites a serem resenhados – e são todos muito bons, porque o redator não perde seu precioso tempo com porcaria::

parte2Durante boa parte da guerra, os submarinos, tanto alemães quanto das outras potências, eram cópias melhoradas dos que tinham atuado na 1ª GM. De fato, eram, em todos os sentidos, “torpedeiros submersíveis”, herdeiros de um tipo de *vaso de guerra de superfície, o “torpedeiro”, concebido este em torno de uma grande inovação surgida no último quartel do século 19 – o torpedo automóvel, uma arma naval que,  por meio de um motor movido a ar comprimido, levava uma carga de explosivos de uns 100 quilos até um alvo, acontecendo o deslocamento abaixo da superfície da água. A novidade era que a carga de combate atingia o alvo em uma área abaixo da linha d´água, onde os vasos de guerra não eram protegidos por blindagem. Um problema adicional era que os canhões dos vasos de guerra da época não atiravam em elevação negativa – ou seja, não havia,  em 1876, quando os primeiros torpedos funcionais entraram em serviço, defesa contra a nova arma.

A questão da entrega do torpedo era outra historia. Os “barcos topedeiros” eram vasos rápidos, manobráveis e que deviam operar baseados nessas capacidades. Funcionaram até que surgiram os canhões de tiro rápido, e depois, por volta do final do século 19, os contratorpedeiros. Mas, a essa altura, o submarino já aparecia como a melhor solução para colocar torpedos no alvo. A furtividade do novo tipo de navio de guerra poderia compensar a baixíssima velocidade e capacidade de manobra. Em resumo: o submarino (cujo primeiro modelo efetivo, o USS Holland, foi adquirido pela Marinha dos EUA em 1900) poderia aproximar-se do alvo sem ser visto.

Durante a navegação de superfície, um submarino tinha (e ainda tem) sua flutuação garantida pela relação entre a flutuabilidade do casco de pressão (que é fixa) e do casco externo (que varia), prevalecendo esta última. Assim, já fica claro: um submarino tem dois cascos. O “casco de pressão” (ou “casco interno”) é uma peça de formato cilídrico feita de aço especial e outros metais de alta resistência, onde ficam a tripulação e os sistemas do barco. O interior dessa peça é totalmente estanque. O “casco externo” é o conjunto de superfícies fixas que envolvem o casco de pressão. Sua flutuabilidade varia por causa de espaços abertos entre os dois, chamados “tanques de lastro”. Esses tanques são abertos na parte inferior e, para manter o conjunto na superfície da água, comportam grande quantidade de ar. A imersão se dá através da abertura de válvulas (chamadas “suspiros”) que permitem a saída do ar desses espaços e a entrada controlada de certa quantidade de água do mar. Essa manobra torna a flutuabilidade negativa e o submarino afunda. A manobra submersa acontece pela impulsão fornecida pelos motores/hélices, pela movimentação de superfícies de controle (hidroplanos e lemes) e pela inundação controlada de tanques de balanço (pequenos tanques de lastro situados adiante e atrás dos tanques de lastro principais).

A geração de submarinos que surgiu em 1907 permanecia a maior parte do tempo na superfície, navegando como um navio comum. Imergia por curtos períodos, em geral para aproximar-se, furtivamente, do adversário.

A aproximação final, ou “engajamento”, era lenta e tinha limites determinados pela reduzida autonomia subaquática. Isso se dava pelo fato de que, quando submerso, o submarino dependia, para funcionar, da quantidade de energia elétrica acumulada em baterias. A  baixa capacidade de acumulação das baterias da época não permitia muito tempo sob a água. Na superfície, o uso de motor diesel para o deslocamento, além de acionar o eixo “do hélice” (no jargão naval, “hélice” é um substantivo masculino) aciona um dínamo que gera corrente contínua, acumulada em células acumuladoras, feitas de chumbo (chamadas “eletrodos”), ácido sulfúrico e água destilada encapsulados. Um número que podia variar entre 55 e 120 células formava baterias, que alimentavam um motor elétrico de potência. Um submarino da 2a GM levava a bordo duas ou três baterias, distribuídas for duas “salas de baterias”. Cada bateria podia pesar de 370 a 600 quilos e o conjunto constituía entre 8 e 16 por cento do deslocamento total do barco. Esses dados são importantes porque o número de baterias determina não só o tempo de submersão como também a velocidade máxima que poderá der alcançada. Na 2ª GM um submarino tipo VII C ficava mergulhado por até três dias, desenvolvendo uma velocidade de uns 4 nós (uns 7 km/h). Em condições extremas, podia desenvolver 17 nós (31 km/h) por uma hora (a mesma velocidade que desenvolvia na superfície). Normalmente, submerso, manobrava a até 10/11 nós (18,5/20 km/h) por cerca de 4 a 5 horas.

O número de unidades de acumuladoras era assim, fundamental para o desempenho do barco. Havia, entretanto, outros entraves. O principal era o fato de que, sendo um “torpedeiro submarino”, a maior parte do deslocamento era feita na superfície, o que exigia que o desenho do casco externo seguisse os parâmetros obedecidos para um navio de superfície – que é um sistema híbrido. Em barcos de superfície, parte do casco fica o tempo todo em contato com a água e outra parte, com o ar da atmosfera. A resistência contra a água é conseguida não apenas pela potência do motor, mas também pelo desenho das “obras vivas”, as partes do casco que negociam com o fluído (também chamadas de “carena”). As “obras mortas” são todas aquelas que estão acima da linha d´água, ou seja, criam atrito com o ar. Num “torpedeiro submarino”, os torpedos são apenas parte do armamento; na superfície, o barco terá de levar canhões e  metralhadoras instalados em posições sobre o casco externo, sendo que os franceses tentaram, no período entreguerras, instalar canhões  de 203 milímetros em torres blindadas. Assim, um submarino do período pareceria uma lancha torpedeira de costados muito baixos e relação desproporcional entre boca (largura de qualquer seção transversal do casco de uma embarcação) e comprimento. 

Os submarinos alemães eram geralmente dotados de um canhão de 88 ou 105 milímetros, anti-navio, um bateria AAe de 30 milímetros e reparos para metralhadoras 7.92 mm. Como todos os outros submarinos, combatiam a maior parte do tempo na superfície. Até mesmo o lançamento de torpedos acontecia, freqüentemente, com o navio emerso, e os canhões eram usados sempre que possível. Era frequente que um submarino, impossibilitado de fugir sob a água, subisse a superfície para lutar, o que era um problema, devido à sua baixa reserva de flutuabilidade. Dificilmente um submarino conseguia ganhar de um vaso de superfície, mesmo dos pequenos (um contratorpedeiro de escolta, por exemplo).

Essa fraqueza condicionou as táticas adotadas pelos U-boats (corruptela em inglês de Unterseeboote, ou “barco submarino”, em alemão) na 2a GM.  O grande confronto entre submarinos e navios de superfície foi a “batalha do Atlântico”, cujo objetivo era interromper o fornecimento de provisões e material bélico para a Inglaterra. No início, os submarinos pareceram ter grande chance de êxito. O problema é que o Grande Almirante Raeder, chefe da Marinha de Guerra e que, na 1a GM, tinha sido oficial de cruzadores, insistiu longo tempo na doutrina de que os grandes navios de superfície eram decisivos na guerra naval. A força de submarinos, durante certo tempo, disputou material e pessoal com os navios de superfície, resultando daí que o número de unidades não era suficiente para conseguir uma vitória completa. O auge da luta deu-se entre meados de 1942 e meados de 1943. No mesmo período, os navios de superfície não corresponderam às expectativas e os submarinos, em pequeno número, tiveram a relativa vantagem de pegar os aliados (ingleses e canadenses, principalmente) de surpresa. A guerra submarina foi lançada de modo irrestrito, o que contrariava as “leis da guerra”. A experiência já tinha sido feita no período final da Grande Guerra, com resultados impressionantes e grande polêmica. Na Segunda Guerra, a Marinha Alemã declarou que não respeitaria as “leis do corso”, que implicavam na abordagem, revista e desembarque da tripulação do navio mercante suspeito, o que anulava totalmente a vantagem do submarino. O ataque a navios mercantes no mar, sem aviso prévio rendeu bem, mesmo depois que comboios passaram a ser organizados. O número de vasos de escoltas disponíveis era desesperadamente baixo e, mesmo depois de 1940, quando pequenos navios fabricados no Canadá diminuíram o deficit, a queda da França colocou os submarinos em posição de vantagem. O estabelecimento de bases em Brest, Lorient e outros portos da costa atlântica francesa permitiu às unidades alemãs ganhar o Atlântico sem passar pelos campos minados no estreito da Dinamarca. Submarinos “de esquadra” (oceânicos) passaram a operar nas águas profundas do Atlântico, o que lhes dava a vantagem da “surpresa tática” - as escoltas de cruzadores, contratorpedeiros e vasos menores sabiam que eles estavam lá, mas não sabiam a hora e a direção do ataque, o que impedia os “comodoros” (oficiais comandantes do comboio) de posicionar adequadamente seus navios. Os alemães não demoraram a aperfeiçoar formas de explorar esse ponto fraco no sistema de comboio. Novas táticas recolhiam informações de vários submarinos e de aviões de reconhecimento e coordenavam grupos de até 15 unidades, que atacavam articuladamente – essa tática foi denominada wolfpack (“matilha“) e passou a ser usada em 1941.  As “matilhas” atacavam à noite, na superfície. Como os submarinos, emersos, eram mais manobráveis do que as escoltas, e, quando a “matilha” era bem coordenada superava o adversaário em número, os efeitos dessa tática foram devastadores. O problema é que o novo comandante da Marinha de Guerra, Grande Almirante Dönitz não contava com número adequado de unidades - ainda que, entre o final de 1941 e meados de 1942 o tráfego entre Inglaterra e Canadá tivesse quase sido interrompido.

Não vamos nos estender mais sobre o assunto, já que existem muitas ótimas descrições da 2a GM na Internet. O que nos importa é que, no que diz respeito à guerra submarina, qualquer possibilidade de vitória alemã estava diretametne condicionada por (1) sua capacidade de colocar barcos no mar e (2) sua capacidade de formar tripulações. Uma patrulha durava, em média, de dois a três meses, após os quais o barco retornava à sua base para reparos. O ideal seria que a patrulha seguinte fosse realizada por outra tripulação, mas os alemães não tinham capacidade de treinar recrutas em número suficiente e em prazo adequado. Ao contrário de combatentes de terra, o combatente naval é um profissional especializado e sua formação demanda tempo. No início da guerra, construir um submarino levava de seis a oito meses, mas um submarinista só ficava “pronto” em cerca de dois anos – quatro, se fosse oficial; com necessidade de colocar mais unidades no mar, depois de 1940, e a elevação drástica das baixas, depois de 1942, o prazo foi sendo paulatinamente diminuído até chegar a seis meses para praças e um ano para oficiais. Conforme os “ases” iam desaparecendo em combate, a Marinha ficava sem instrutores com experiência para passar e inspiradores com sucessos a relatar.

A questão principal, entretanto, foi mesmo a superioridade industrial dos norte-americanos. Já na primeira metade de1941, a Lend-Lease Bill garantia à Inglaterra suprimentos de armas e materiais. Isso aconteceu  junto decisão dos EUA de ampliar a “Zona de Segurança” ao largo da costa atlântica do país e a decisão, concomitante, de coordenar a  segurança da navegação aliada no Atlântico Norte (essa decisão constituiu, de fato, a entrada do país na guerra). Essas medidas, embora não tivessem consequências imediatas, melhoraram a posição da Grã-Bretanha, até então, desesperada.

A partir de então, a corrida foi entre o lançamento de navios mercantes (em 1941 e 1943 foram perdidos mais de 2000 barcos no Atlântico Norte), navios de escolta, por um lado, e submarinos, pelo outro. No auge da campanha submarina, a Marinha de Guerra mantinha em torno de 60 submarinos em patrulha, sendo que 40 estavam no Atlântico Norte.  Outros teatros (o Báltico, o Caribe, a costas africana e, depois de 1942, a costa brasileira) eram considerados secundários e geralmente usados como campo para treinamento de novas tripulações.  Mas o que realmente venceu os U-boats foi a guerra tecnológica.  

No caso dos alemães, o período 1940-1943 viu surgir certas inovações de construção, que tornaram os submarinos mais eficientes. Os cascos passaram a ser produzidos em novos materiais, que diminuiam o peso do conjunto sem perder em resistência, e soldados eletricamente, a pressão, substituindo as unidades que os tinham blindados e rebitados. Esses métodos tornaram a construção mais rápida. O surgimento de baterias pressurizadas também diminuiu o peso desses componentes, aumentando-lhes a eficiência; torpedos mais eficientes, impusionados a ar e com espoletas de proximidade (explodiam debaixo do alvo, aumentando a possibilidade de afundamento) tornaram os ataques mais letais. 

Ainda assim, as escoltas, lentamente, começaram a levar vantagem. Navios menores, concebidos exclusivamente para combater submarinos; patrulhamento aéreo de longa distância, sistemas de deteção aperfeiçoados (radares, sonares, hidrofones direcionais e até mesmo binóculos noturnos) e a enorme vantagem tática obtida com a quebra dos códigos navais alemães elevaram as baixas de submarinos e de tripulações experientes – essas impossíveis de se substituir. Em 1942, a Alemanha afundou 1100 navios mercantes (cerca de 6 milhões de toneladas) e 92 de guerrra, contra 87 perdas; em 1943, as baixas somaram 237 submarinos e mais de 10.000 tripulantes.

O principal submarino oceânico ainda era o Tipo VII, que embora obsoleto, era mantido em produção na falta de algo melhor. A principal questão, segundo constatou um estudo feito pelo Alto-Comando da Marinha de Guerra (OKK, em alemão), era o  fato de que os submarinos tinham de operar na superfície. Enquanto tinham a vantagem da superioridade numérica e da surpresa tática, essa desvantagem era plenamente compensada. A partir do momento em que o adensamento dos comboios passou a juntar 200 navios mercantes e  até 50 escoltas, dotadas inclusive de pequenos porta-aviões (chamados de “navios-aeródromos de escolta”) capazes de lançar até 15 aeronaves de reconhecimentos centenas de quilômetros à frente dos comboios, a situação mudou. Os submarinos passaram a ter de operar a maior parte do tempo submersos, realizando os ataques com base na aproximação e lançamento de torpedos por periscópio, ou com apenas a vela acima d´água. Isso diminuiu de forma dramática a possibilidade de sucesso. Mesmo assim, o surgimento de radares de ondas ultra-curtas, instalados em aeronaves de longo alcance (sistema chamado de H2S) podia frustrar mesmo um ataque conduzido dessa forma, visto que, dependendo da situação do mar, a escolta voadora conseguia “ver” a vela e até mesmo o periscópio ou os tubos “snorkel”. Assim, quando, em maio de 1943, a perda de 43 submarinos obrigou o alto-comando a chamar todas as unidades de volta às bases – o que na prática significava o fim da “batalha do Atlântico”, essa situação não era tão surpreendente.

A resposta? Os alemães tentaram – e conseguiram – reinventar o “torpedeiro submarino” e transforma-lo num tipo de navio de guerra totalmente novo. O “mês negro” da campanha submarina foi também aquele em que o futuro foi apresentado::

 

Tecnologia naval::Elektroboote e seus sucessores::

Ainda estamos no mês dos submarinos, e causa::, no interesse da cultura submarinística de seus seis leitores (contadinhos…), introduz um assunto que certamente contribuirá para que esses famosos “poucos” possam assessorar, caso necessário (e sempre é…) a grande imprensa, quando nossos vibrantes editores resolverem falar mal do governo recorrendo a temas quetais. É um assunto longo e fascinante. Assim, vamos dividi-lo em três partes, de modo a aprofundá-lo ao máximo. Como o redator (nunca generoso o suficiente para compensar a paciência dos “poucos”) pretende que esse tema se articule aos “Submarinos brasileiros” ( você não é um dos poucos, veja aqui, aqui e aqui), esse texto deve ser lido em conjunto, se possível, antes de uma nova leitura do outro. Divirtam-se, pois::

Parte1A Alemanha entrou na guerra em setembro de 1939 com uma máquina militar em todos os sentidos, discutível. Já apontamos, aqui no blogue das boas causas, como a pusilanimidade das potências ocidentais permitiu que uma liderança sem escrúpulos e plena de ousadia, escorada numa máquina militar de porte apenas mediano e preparação discutível, nocauteasse a Europa e, por um par de anos, encostasse o mundo nas cordas. A vantagem alemã, se sabe atualmente, era uma concepção inovadora de como fazer a guerra e como usar equipamentos conceitualmente inovadores – basicamente o motor a combustão interna e o avião.

Dentre as forças armadas alemãs, a marinha de guerra era, de longe, a mais fraca. Os motivos pelos quais um regime militarista tão agressivo abriu mão do controle dos oceanos é fácil de entender, embora a explicação seja complexa – de modo que abriremos mão de nos enfronharmos nela. Na guerra anterior, uma “corrida naval” travada a partir de 1906 com a Inglaterra resultara numa enorme esquadra de batalha que, no fim das contas, permaneceu “engarrafada” nas águas costeiras do Báltico, tendo travado apenas uma grande batalha naval – a batalha da Jutlândia – em que, embora conquistasse uma vitória tática, permaneceu estrategicamente em xeque. Pelo tratado de Versalhes, a Alemanha não poderia mais ter armas ofensivas, e a enorme esquadra foi dividida entre os vencedores ou simplesmente afundada. A partir do programa de rearmamento de 1935, um ambicioso plano naval projetava que, entre 1947 e 1949, a Alemanha teria uma esquadra de superfície capaz de se opor à Grã-Bretanha e superior à da França. Esse plano, denominado “Plano Z”, foi abandonado em 1939, pouco antes do início das hostilidades. Foi considerado por Hitler como um desperdício de material, potencial industrial e humano. Entretanto, até o final de 1940, a Marinha de Guerra (Kriegsmarine) fazia parte do plano estratégico geral do Reich. Os navios de superfície já construídos ou em fase de incorporação foram mantidos dentro de uma concepção de disputar com os soviéticos a superioridade no Báltico e de manter o controle das águas do Mar do Norte adjacentes à Península da Escandinávia. O desempenho pífio na batalha da Noruega (onde foi perdida a quarta parte da esquadra de superfície de primeira classe) acabou levando ao abandono completo do que restava do re-aparelhamento naval.

Nessa época, a Marinha de Guerra dispunha de 57 submarinos organizados em seis esquadrões, dentre os quais 32 eram do tipo “de esquadra”, com capacidade de patrulha oceânica. Os outros 25 eram do tipo costeiros de 250 toneladas de deslocamento. O limitado número de unidades disponíveis (em junho de 1940 estavam em patrulha seis unidades) limitava a possibilidade de que pressão eficaz fosse exercida pela arma submarina. Em março de 1941, a disponibilidade de 30 novas unidades e a aceleração da produção permitiu que a Alemanha lançasse uma campanha muito intensa contra a navegação oceânica da Grã-Bretanha, iniciando o conjunto de ações que passaria a ser conhecido como “Batalha do Atlântico::

Direto da Guerra Fria::SSN classe Akula

Ainda estamos no mês dos submarinos brasileiros – e a polêmica não diminuiu em nada, pelo contrário, aumentou, com a colocação política da França como pole-position para fornecer aeronaves de 5a geração apra a FAB. Mas Segunda-feira é dia de “rapaz”, mas o redator encontrou algo que, no momento, parece mais interessante: uma relíquia da Guerra Fria, mas que talvez possa enriquecer um pouco mais a “cultura submarinística” dos agora seis leitores  (contadinhos…) de causa:: Senhores, conheçam o mais espetacular submarino de ataque jamais construído: a classe “Schucka” (“pique”, uma longa lança usada no fim da Idade Média por tropas a pé, que revolucionou a arte da guerra), nome-código para a OTAN, “Akula” (“Tubarão”, em russo). Não se deve confundir essas  naves com a classe “Tufão”, essa composta por submarinos de patrulha:: 

Os “Akula” surgiram em 1986. A classe é dividida em três subtipos (dados gerais para os “Akula II” aqui), e não são submarinos de patrulha, ou seja, plataformas de lançamento de mísseis balísticos (SSBN, no jargão na Marinha dos EUA), mas *submarinos de ataque (SSN, no jargão na Marinha dos EUA). Sua função principal seria caçar submarinos de patrulha dos EUA; secundariamente, teriam por função atacar vasos de guerra de alta velocidade. Somente em condições especiais seriam lançados contra a navegação mercante. Deslocando mais de 7500 toneladas na superfície e 9100 quando em mergulho, a classe incorporou um sistema de casco duplo composto por um casco interno de pressão e um casco externo mais leve. Esse sistema, o mesmo adotado pelos SSBN da classe “Tufão”, tornou possível aos projetistas desenhar o casco exterior (o casco de imersão) como uma carenagem, de maneira a torna-lo mais hidrodinâmico, o que resultou numa nave muito veloz e extremamente manobrável, quando submersa. Já foram reportados submarinos dessa classe deslocando-se a cerca de 36 nós sob a água.

Submarino nuclear de ataque classe "Akula II", fotografado nas proximidades das Ilhas Sakhalina. O desempenho, em termos de manobrabilidade e velocidade, dessa classe de naves, é superior sob a água do que na superfície.

Submarino nuclear de ataque classe "Akula II", fotografado nas proximidades das Ilhas Sakhalina. O desempenho, em termos de manobrabilidade e velocidade, dessa classe de naves, é superior sob a água do que na superfície.

O principal armamento dessa classe de naves são 4 tubos de 533 mm e 4 de 650 mm. O inventário de vetores  varia de torpedos Tipo 53, de 533 mm, torpedos *Tipo 65, de 650 mm, mísseis superfície-superfície Novator RPK2 Viyugo (SS-N-15 “Starfish”, no jargão da OTAN, com alcance de aproximadamente 45 quilômetros) e Novator *RPK-6 Vodopei (SS-N-16 “Stallion”), ambos mísseis de cruzeiro anti-navio com capacidade de transportar ogivas de explosivo nuclear. Os torpedos anti-navio e anti-submarino, com alcance de até 100 quilômetros, são disparado pelos tubos de 650 mm. Já os de 533 mm são de menor alcance. Mísseis superfície-ar podem ser disparados através dos tubos de 533mm.

As classes “Akula Reforçado” e “Akula II” receberam mais 6 tubos de  533 mm montados no casco externo, que não podiam ser recarregados depois de usados. A baixa disponibilidade dos torpedos Tipo 65 fez com que os soviéticos acrescentassem aos tubos de 650 mm um equipamento que capacitava essas plataformas a utilizar armamento fabricado para os tubos menores. Os tubos de 650 mm também podiam ser usados para lançar minas.

Um dos aspectos distintivos dos “Akula” é o enorme bulbo situado à ré do casco, na posição do leme. Essa estrutura contém um sonar que, lançado a reboque, pode aumentar o grau de varredura e fazer diminuir a interferência dos ruídos de deslocamento do próprio barco, quando em alta velocidade.

Outra vista de um "Akula II" na superfície. Note a estrutura do sonar rebocado, tipo de "abertura sintética".

Outra vista de um "Akula II" na superfície. Note a estrutura do sonar rebocado, tipo de "abertura sintética".

O subtipo “Akula Reforçado” era, de fato, uma melhoria dos “Akula I”, que recebeu sistemas eletrônicos mais modernos, notadamente um sonar de abertura sintética. Mas o subtipo “Akula II”, surgido no início dos anos 1990 era, de fato, uma nova classe, cuja principal novidade era um sistema de diminuição de ruídos. Um novo tipo de sonar foi incorporado, totalmente gerenciado por processadores, e considerado como tendo a mesma performance dos equivalentes norte-americanos. Um outro ponto que, na época, deixou muito apreensivos os planejadores navais do Ocidente foi o fato de que os “Akula II”, submersos, eram mais silenciosos do que seus equivalentes norte-americanos da classe “Los Angeles”. Embora uma série de teorias conspiratórias atribuam os avanços soviéticos à uma suposta colaboração involuntária dos japoneses, ao vender à URSS, no início dos anos 1990, sistemas de desenho computadorizado (CAD) de última geração, de fato a Marinha da URSS vinha se desenvolvendo de modo notável desde os anos 1960. Foi a época em que o almirante-de-esquadra SergeyGorshkov revelou-se um dos maiores pensadores navais surgidos no pós-guerra.  Alçado ao comando da força por Nikita Khrushchev, logrou, a paratir de então, convencer as lideranças soviéticos a fazer pesados investimentos em todos os tipos de equipamento e infra-estrutura. Essa política de longo alcance tornou a URSS, no fim dos anos 1960, uma potência naval global. Assim, os avanços soviéticos na técnica de abafamento de sons subaquáticos explica-se no contexto do desenvolvimento geral da tecnologia naval naquele país.

Depois do fim da União Soviética e da crise econômica que se seguiu, um acordo entre EUA e Rússia implicou na desativação dos submarinos de patrulha da classe *“Tufão”. Os “Akula I” também foram desativados, mas os “Akula Reforçados” e “Akula II” não só continuaram em serviço como foram melhorados.

Em 2008, naves da classe “Akula” se tornaram os únicos submarinos nucleares já exportados. A ìndia arrendou um “Akula II” por período de 10 anos, com opção, ao término, para compra de duas unidades. Informes divulgados no Ocidente dão conta de que o submarino deverá ser entregue no final deste ano. Os indianos estão desenvolvendo o próprio submarino nuclear, mas o projeto tem sofrido sucesivos atrasos, de modo que o arrendamento foi considerado uma solução aceitável. A China também estuda a aquisição de duas unidades::

Recordar é viver::Anos 70:Deténte, SALT e outros quetais::

Parte 2/2:: Não parece fazer sentido, mas fazia, na conjuntura da época. Significava admitir, por via transversa, a afirmação feita, muitos anos antes, por Winston Churchill, de que “uma nação não tem amigos, tem interesses”, e que a busca desses acaba por criar tensão. Pragmaticamente, as nações poderiam viver em tensão permanente, desde que fossem criados e aperfeiçoados mecanismos para que esse estado de coisas fosse mantido sob controle.

Para definir essa visão política, a tal pessoa de 1968 poderia usar uma expressão criada algum tempo depois pela diplomacia brasileira: “pragmatismo responsável”. A comparação faz todo o sentido. O projeto brasileiro, na época, de “potência emergente”, recusava mecanismos que implicassem na aceitação a priori das estruturas do

poder em nível internacional – embora visasse sua reprodução, tanto quanto possível, no interior do país. Defendia a diplomacia brasileira que o Brasil tivesse reconhecidos seus interesses. Nesse sentido, uma das linhas prioritárias da política exterior foi a “correção de rumos” nas relações com os EUA, visando a colocá-las em bases vistas como “mais realistas”. Os conflitos que fatalmente surgiriam deveriam ser encarados como decorrência do relacionamento entre estados soberanos na defesa de seus interesses nacionais. De fato, esse “pragmatismo” era o mesmo que os arquitetos do sistema de poder internacional admitiam como inerente às relações entre as grandes potências. A política internacional não deveria ser excessivamente pragmática a ponto de deixar-se dirigir pelo cinismo, mas também não deveria ser ditada pelo moralismo, sob pena de tornar-se ineficaz ou mesmo temerária. Por outro lado, reações como a do Brasil, na época sob regime autoritário de extrema direita, freqüentemente aplaudido pelos EUA, indicavam as tensões que poderiam resultar dessa linha pragmática de relações internacionais.

Havia, claro, motivos que podem ser considerados, mais do que pragmáticos, práticos, para que fosse adotada uma política de busca da estabilização. No início dos anos 1970, o panorama econômico já não era tão favorável, para os EUA. O longo ciclo de prosperidade apontava o próprio fim. O horizonte internacional não é feito apenas de silhuetas de tanques, aeronaves e mísseis balísticos. É feito também de fábricas, minas, entrepostos de comércio e casas bancárias. A fase excepcional pós 2ª GM, a “Era do Ouro” da visão anglo-americana começava a perder o brilho. Os 25 anos anteriores a 1970 tinham sido estupendos, até mesmo para a URSS e seus parceiros.

O surto de crescimento econômico parecia mundial – embora não fosse. Durante algum tempo, pareceu até mesmo que, economicamente, os regimes socialistas estariam levando vantagem. Nos anos 1950, a URSS e a Europa Oriental cresciam mais rapidamente do que o Ocidente. Até mesmo o Terceiro Mundo colheu rebarbas desse surto: nos 20 anos entre 1950 e 1970, a fome continuou endêmica na África e em certas partes da Ásia, mas diminuiu; a população do Terceiro Mundo dobrou, e na América Latina, mais do que isso; a expectativa de vida aumentou, em média, 7 anos – em certas regiões, 10 anos ou mais. Entretanto, a “Era do Ouro” foi, sobretudo, enganosa, até mesmo para os observadores mais argutos. Aquela pessoa de que falo, se pertencesse à emergente classe média brasileira, teria chances que seus pais jamais teriam sonhado: acesso amplo è educação, um sistema de saúde pública relativamente estruturado, pleno emprego e subsídios à mancheias. Cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro eram, de certa forma, miniaturas em crescimento da economia mundial. Essa pessoa certamente não saberia que os EUA estavam crescendo menos do que seus parceiros europeus e japoneses, e que URSS e seus clientes industrializavam-se rapidamente sem que a industrialização significasse melhorias visíveis de padrão de vida. No mundo socialista, cidadãos bem formados e saudáveis olhavam com inveja para a liberdade e afluência de suas contrapartes ocidentais. Já no Ocidente, os cidadãos dirigiam-se para suas residências subsidiadas, cheias de bens de consumo financiados, em automóveis movidos a combustível excepcionalmente barato. Ouviam rock no rádio e, em casa, se revoltavam diante das notícias sobre as ditaduras latino-americanas e asiáticas, fossem de direita ou de esquerda. Entretanto, nenhum deles duvidava que, dentro de dez anos, a vida seria a mesma. E que, dentro de dez anos, ainda estariam debaixo do guarda-chuva nuclear norte-americano, desfrutando da vantagem adicional de orçamentos de defesa ridiculamente reduzidos em relação ao tamanho que tinham alcançado as economias de seus países.

O fato é que, durante a Guerra Fria, as superpotências assumiram o ônus da defesa de suas esferas de influência. Em ambos os lados, a expansão do chamado “complexo industrial-militar” foi exponencial, mesmo diante do notável crescimento econômico geral. Ainda que os estados ocidentais tenham desviado mais recursos para o buraco estéril dos gastos militares, não o fizeram na proporção de EUA e URSS. No longo prazo, essa opção, decorrência da opção pela estabilidade, seria fatal para a URSS e teria conseqüências notáveis para os EUA: estes trocaram força militar superior por enfraquecimento econômico crescente, frente aos aliados que se viam na obrigação de defender.

Mas não foram esses os motivos que levaram os líderes mundiais a uma improvável mesa de negociações, no início dos anos 1970. De um lado, o dos EUA, foi a condução do problema de como continuar a Guerra Fria quando esta “guerra sem barulho” deixasse, na frente interna, de ser popular – e ela era popular exatamente porque não tinha barulho, nem mortos. Passou a ter no final da década, em função de um conflito localizado, do tipo que deveria ser mantido “empacotado” pela busca da estabilidade. Em 1968, esse brasileiro da classe média que estou imaginando saberia exatamente de que guerra se tratava: o Vietnam.  

No lado soviético, foi o problema de como lidar com o fato de que o bloco comunista, desde meados da década de 1960, já não apresentava a unidade que a “justeza da causa proletária no mundo” deveria solidificar. Ao contrário, as duas potências do bloco socialista tinham deixado de se entender muito antes, em função de diferenças ideológicas e da recusa chinesa em alinhar-se aos interesses soviéticos. Comunistas russos e comunistas chineses andaram, em 1969, se estranhando, ao longo da enorme fronteira entre os dois países. Dois exércitos “vermelhos” foram postos frente a frente, o que até então parecia inimaginável. Mais inimaginável ainda foi o perigo de que a briga por uma ilhota fluvial insignificante degenerasse e um confronto nuclear. Certamente a China não era páreo para a URSS, apesar de dispor de certa quantidade de armas estratégicas. Em 1968, em torno de 300 dos 2000 ICBMs disponíveis pela URSS tinham sido programados para voar em direção à China, e um exército soviético de quase um milhão de efetivos, dispondo de capacidade nuclear tática estava posicionado nas fronteiras sino-soviéticas. Segundo análises da época, o Exército da República Popular da China era mal-treinado, mal-equipado e pior comandado; não dispunha de artilharia e blindados suficientes nem de apoio aéreo, e sua logística era baseada em animais de tração, e, por mais incrível que possa parecer, em braços humanos.

É provável que fosse verdade, e talvez a realidade fosse até pior. Anos antes, o próprio Mao Tsé-tung, o “presidente Mao”, “Grande Timoneiro” da revolução socialista, tinha deslanchado a “grande revolução cultural proletária”, golpe político destinado a compensar a perda de poder observada em função do fracasso do “grande salto para a frente” (eufemismo para a coletivização da agricultura) de 1958-1961. A Revolução Cultural revelou-se uma maluquice tenebrosa, e desorganizou a sociedade chinesa e suas instituições, inclusive o exército. Em 1951, as disciplinadas forças chineses, armadas e treinadas pelos soviéticos desequilibraram a guerra da Coréia, obrigando o Exército e o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA a uma humilhante retirada que quase degenerou em confronto nuclear; em 1968, jovens soldados agitando um livrinho vermelho e disparando para cima suas armas, o “Exército do Povo”, não admitiam a supremacia dos oficiais e impunham “decisões democráticas”. A hierarquia militar, “desvio burguês inaceitável”, foi quase abolida, e os comandantes até o nível de regimento eram escolhidos pela tropa; as grandes unidades e corpos de exército continuavam tendo seus comandantes designados, o que na prática não significava nada, visto que as decisões eram tomadas em “conselhos populares”.

O problema soviético não era, pois, a China, mas o partido que os adversários norte-americanos tomariam, no caso de um confronto entre as duas potências comunistas. Os EUA seriam um aliado desejável, embora a situação da “frente interna” também não era nada fácil. Estavam atolados até o pescoço em uma guerra que deveria ter sido resolvida “em alguns meses, no máximo em um ano”, segundo o general comandante – e, em 1969, isso já fazia mais de 4 anos. Todos os dias a televisão colocava dentro dos lares americanos um vasto cardápio de revolta e contestação, das universidades ao guetos urbanos, dos festivais de rock às Olimpíadas. A juventude ocidental, inclusive – por incrível que pareça, até mesmo a norte-americana – mostrava-se seduzida por líderes como Mao Tsé-tung e Ernesto “Che” Guevara.

Se o problema da URSS não era a China, mas a perspectiva de problemas com os EUA, o da China era estar cercada por dois inimigos poderosos e agressivos – a URSS e a Índia – e um imprevisível – o Japão (nos quais os chineses nunca confiaram).

E, naquela altura, China e EUA tinham alguns pontos em comum. O primeiro deles era a preocupação com a União Soviética, aos olhos de ambos cada vez mais ameaçadora. Em 1968, a rápida mobilização e deslocamento de tropas motorizadas e aerotransportadas contra a Tchecoslováquia lançara uma sombra de preocupação sobre a Europa Ocidental. A invasão fora o primeiro movimento da “doutrina de Brejnev: os países socialistas da Europa (leia-se URSS) teriam direito de intervir em qualquer país que se julgasse no direito de romper o compromisso “democrático” e “político” com o marxismo-leninismo. Em 1967, a União Soviética tinha alcançado a paridade com os EUA, em termos de armas estratégicas. Embora os EUA ainda tivessem alguma vantagem em ogivas múltiplas e mísseis lançados se submarinos, os soviéticos dispunham de mais mísseis, com ogivas de maior poder destrutivo (por exemplo, ogivas termonucleares de 40 megatons, enquanto as dos EUA eram, na maioria, de 2 a 5 megatons).

O Vietnam era outro interesse comum. Aos governantes e ao establishmenth militar norte-americanos aquela se tornaram uma guerra infeliz, na qual aproximadamente 800.000 militares das três corporações lutavam contra fantasmas, ao custo de 40 bilhões de dólares e 12.000 mortos somente em 1968. Nixon queria sair dela, mas não de maneira humilhante. Para os chineses, a “guerra de libertação” do Vietnam e das guerrilhas comunistas já não parecia um ganho político, diante da ameaça soviética. Além do mais, os Guardas Vermelhos tinham, apenas uns dois anos antes, desorganizado o país e obrigado Mao a intervir para deter o caos que se espalhava pelo país.

Assim, EUA e China tinham pontos que os aproximavam, e restaurar a ordem interna era o primeiro deles. Sair do Vietnam, para os norte-americanos significa apaziguar a frente interna; para a China, garantir uma posição favorável diante da URSS.

O caminho estava aberto. Em 1971, Henry Kissinger realizou uma visita secreta a Pequim, na qual ouviu de Chu En-lai que a China faria o que fosse possível para ter Nixon numa visita ao país.

E teria. Cerca de um ano depois. E o mundo não seria mais o mesmo…::

Submarinos brasileiros: a eleição de 2010 desce às profundezas da Amazônia Azul::Parte 2

Os leitores que conseguiram chegar até aqui – e leram não só o texto principal, mas também os recursos adicionais – já devem estar um pouco mais familiarizados com o tema. Mais familiarizados do que os “especialistas” da imprensa diária, certamente estão. Agora vamos entrar no ponto, propriamente dito. Divirtam-se!:: 

Parte2Por volta do início dos anos 1980, a Marinha começou a procurar novos submarinos. A retirada prematura dos Oberon ingleses de serviço, e o envelhecimento das unidades de origem norte-americanas tornaram a aquisição de peças de reposição um verdadeiro pesadelo. Foram examinadas propostas da Itália, Suécia, França e Alemanha. Na época, a indústria naval italiana deixara de projetar submarinos; a Suécia colocava grandes dificuldades para exportação de armas (situação que, na atualidade, mudou radicalmente). Restaram a França e a Alemanha. A França tinha a oferecer a classe Agosta, logo descartada em função do preço. A escolha só poderia ser a do modelo alemão IKL209-1400. Só para esclarecer, “IKL” significa Ingenieurkontor Lübeck Prof Gabler Nachf GmbH, escritório de projetos da empresa de construções navais Howaldtswerke Deutsche Werft (HDW), da cidade de Kiel, Alemanha.   Este era praticamente o único disponível para exportação num mercado naturalmente restrito. Em 1984 foi decidido que seriam adquiridas, inicialmente, duas unidades, uma a ser construída nos estaleiros HDW, em Kiel, Alemanha e outra no Rio de Janeiro. Isso porque as negociações com o governo alemão envolviam um fato novo: a exigência da transferência de tecnologia de construção. Não foram muito simples, mas o momento ajudava: a economia européia, e particularmente a alemã, estava mergulhada numa crise sem precedentes, com alto nível de desemprego industrial, o que facilitou as tratativas, tanto técnicas quanto de financiamento. Apesar das dificuldades, em 1985 o governo brasileiro decidiu adquirir mais duas unidades, a serem construídas no Brasil. Engenheiros e operários especializados foram enviados à Alemanha para estágio em empresas envolvidas no processo, enquanto no Brasil eram realizadas obras no AMRJ. A estatal NUCLEP foi considerada capaz de executar o casco interno (ou “casco de pressão”). Essa empresa já havia adquirido tecnologia metalúrgica avançada, em função do Acordo de Cooperação Nuclear Brasil-Alemanha (de 1975), naquele momento em banho-maria devido à situação econômica calamitosa do Brasil (que acabaria influenciando fortemente o cronograma da parte brasileira do projeto). No AMRJ foram fabricados o casco externo, vela, lemes, sistemas de imersão/emersão e outros equipamentos. O processo envolveu a construção de quatro seções separadas, com peças vindas de diversos lugares, e montadas no Rio de Janeiro.

Denominada no Brasil “classe Tupi“, essas *unidades foram comissionados entre 1989 e 1999. Em 1997 foi decidida a construção de uma quinta unidade, um pouco modificada com base na experiência adquirida pela Marinha na operação dos quatro IKLs brasileiros. A parte brasileira do programa foi profundamente afetada por problemas orçamentários, e a última unidade, em particular, teve sua construção totalmente paralisada em pelo menos duas ocasiões.

Ainda hoje se discute o alcance da transferência de tecnologia realizada ao longo do processo. Construir um navio de guerra não é coisa fácil: implica o domínio de diversas tecnologias e diversos campos científicos; por excelência, é o que se chama de “pesquisa aplicada”. Mas é possível começar a partir da construção de navios mercantes – estes, sistemas bem menos complexos. Construir um submarino já é outra coisa: os conhecimentos de engenharia aplicados a um sistema desses são outro mundo. Foi nesse mundo que o Brasil tentou entrar, no acordo com a Alemanha. Entrou? Boa pergunta…

Uma embarcação comum encontra-se entre dois meios: ar e água. Assim, um navio de superfície possuí duas partes, chamadas, respectivamente, “obras mortas” (as que estão sobre a água) e “obras vivas” (as que interagem dinamicamente com o meio líquido). O desempenho geral tem de ser pensado a partir da combinação das duas partes, mas essa hibridez acaba influindo num aspecto crucial para o desempenho geral de qualquer embarcação: a flutuabilidade. Isso não se aplica ao submarino, cuja ação se dará embaixo d`água – bem, pelo menos depois da 2a GM. Até esse conflito, os submarinos eram,de fato, “barcos submersíveis”, ou seja, barcos de superfície que mergulhavam por curtos períodos para atacar (basta olhar uma fotografia para perceber isso). Na teoria, é uma aplicação técnica determinada pelo uso tático do princípio da surpresa (decorem essa parte…). Com o surgimento do snorkel e o aperfeiçoamento, pelos alemães, do “Tipo XXI“, o “barco  submersível” tornou-se um “submarino”, ou seja, uma belonave planejada para combater debaixo d´água por longo período. Em 1945, a travessia feita por um submarino alemão dotado de snorkel, que apareceu de repente na Argentina depois de fazer dois terços do percurso sem subir à superfície surpreendeu as marinhas aliadas de tal maneira que as fez passar a olhar os submarinos com outros olhos.

O “Tipo XXI” levava em consideração o fato de que o desempenho do submarino quando sob a água dependia de fatores que interferiam com as qualidades hidrodinâmicas do conjunto. Isso quer dizer que o desenho do casco externo e a distribuição do lastro (água admitida em espaços existentes entre o casco de pressão e o casco externo, que faz o barco imergir ou emergir) tinham de ser pensados para funcionar debaixo d´água, e não na superfície, como um navio normal. Esse conceito levou à uma total mudança no desenho do casco (que ficou parecendo com um charuto), a eliminação dos elementos de superestrutura (que se reduziu à vela, que não pode ser eliminada, pois é um tipo de carenagem hidrodinâmica para os mastros: periscópios, antenas e suportes de sensores) e o deslocamento da posição dos hélices e dos lemes de direção e de profundidade. Desse modo, a água deslocada pelo movimento do casco se distribuía por igual, provocando menor turbulência e permitindo maior velocidade. Outro fator que tornou os “Tipo XXI” totalmente diferentes dos “barcos submersíveis” foi o aumento exponencial de sua capacidade de acumular energia elétrica para uso sob a água – quer dizer, os elementos de bateria dentro do casco foram multiplicados por três, o que significava que o uso do motor diesel como acionador do dínamo reduziu-se na mesma proporção. Isso quer dizer: reduziu o tempo de uso do snorkel, e assim, a possibilidade de detecção do atacante.

O pós-guerra levou ao aperfeiçoamento da linha Guppy (acrônimo para Greater Underwater Propulsion Power, no qual o y não significa nada…), dos britânicos classe Porpoise (da qual o Oberon é descendente) e dos soviéticos do programa de construção naval de 1950. Todos eram cópias mais-ou-menos descaradas do avô alemãoAinda hoje, o projeto de submarinos tem de levar em consideração todos os fatores descritos acima. 

Desde então esse tipo de navio só tem “obras vivas”. Sua dinâmica é totalmente diversa, sua estabilidade e capacidade de manobra também tem de ser (os tripulantes de uma fragata não tem de se preocupar com “ir para baixo” – ou tem, pois seria o momento de salvar a pele…). Começa pela engenharia metalúrgica, que permitirá a fabricação dos tiversos tipos de metal resistentes à pressão e à corrosão; também o desenho das superfícies de controle (hidroplanos e lemes) e hélices é um problema, pois geram ruído ao funcionar. E um submarino, antes de mais nada, tem de ser silencioso.

Embora a Marinha tenha adquirido capacidade técnica de fazer toda a manutenção (PGM, de “Programa Geral de Manutenção” – alguns especialistas dizem que era a principal demanda dos militares brasileiros), restam dúvidas se domina completamente o processo de projeto. Esse ponto, só eles mesmos podem esclarecer. Mas o fato é que a seção de vante do submarino, onde se localizam importantes equipamentos (inclusive do sistema de armas) veio pronta da Alemanha; certas partes do sistema de imersão/emersão também são “caixas pretas”, assim como todos os equipamentos eletrônicos. Por outro lado, é duvidoso que os alemães tenham aberto certos aspectos do desenho do casco e dos hélices, estes peças cruciais na fabricação dessas belonaves. É sabido que o IPqM (Instituto de Pesquisas da Marinha) desenvolve programas de pesquisa para o desenho de hélices, bem como de diversos equipamentos eletrônicos e sistemas de armas. Os alemães com certeza não iriam ceder toda a tecnologia, pois, no fim do processo, estariam diante de um possível concorrente. 

Oficiais da Marinha, a começar pelo comandante da corporação, se dizem insatisfeitos com o fato de que os equipamentos eletrônicos são revisados apenas por técnicos alemães. Ainda assim, em 2005, a Marinha parecia satisfeita com seus IKL, cujo desempenho era o melhor de toda a história da Força de Submarinos – possivelmente porque, na nova situação, a Marinha dominava totalmente a capacidade de fazer manutenção – inclusive de adquirir peças e fazer modificações. Nessa época, o governo começou a falar em adquirir duas unidades de um modelo mais novo, o IKL 214, versão do IKL 212, adotado pelas marinhas alemã e italiana, e em modernizar as outras cinco. Na época, foi ventilado nos meios especializados que o contrato, no total, mais de 1,3 bilhões de euros.

Entretanto, na época, duas questões já tinham de ser consideradas: a decisão brasileira de construir um submarino nuclear de ataque (SNB, no jargão militar) e a Estratégia de Nacional de Defesa (sacramentada pela Presidência da República em 18 de dezembro de 2008)::

A história da guerra do ponto de vista dos micróbios::

Pensei nesse tema ao ler um texto já meio antigo (neste ambiente, um mês é tempo pra caramba…) no Darwiniano. Falo do comentário sobre um livro que eu já conhecia. Trança daqui, trança dali, acabei lembrando de outro e de outro, que considero também muito interessantes. E trança daqui, trança dali (com uns pulos na Grande Rede), acabou me ocorrendo o óbvio: com freqüência, micro-organismos acabam sendo convocados para a guerra, para serem engajados na modalidade que é chamada “guerra biológica”. Bom, trança daqui, trança dali, acabei fazendo um pequeno (mas pequeno mesmo…) resumo do “estado atual da questão”. Quem quiser saber mais pode ler dois excelentes textos aqui e aqui. Sugiro que o façam – acaba sendo divertido: no fim, a gente concluí que, sem sombra de dúvida, a humanidade é maluca…

O uso de toxinas produzidas por organismos vivos como armas de guerra, de modo a causar toxinfecções capazes de interferir no esforço de guerra do inimigo é mais difundido do que se possa imaginar. Talvez tão velho quanto a própria guerra. Sociedades de nível tecnológico muito rudimentar perceberam a possibilidade de usar toxinas produzidas por animais como forma de potencializar suas próprias armas, tanto na caça quanto na guerra – suponho que todo mundo já tenha ouvido falar do veneno curare, empregado por sociedades indígenas. Na Antiguidade, não era incomum que fontes de água fossem contaminadas com animais mortos – comportamento que os romanos consideravam “digno de bárbaros e escravos”; também não são incomuns os relatos de cidades sob sítio alvejadas com carcaças de animais e até corpos de vítimas de doença.  A partir do século 18 e, marcadamente, no século 19, os mesmos estudos que identificavam e isolavam agentes microbianos e seus produtos tóxicos, buscando curar ou controlar doenças, acabaram por mostrar ao Estado e seus agentes militares as possibilidades para esse tipo de guerra. No final do século 19, a Alemanha já promovia pesquisas visando determinar o potencial de determinados micro-organismos como arma militar. Na 1a GM, gado contaminado com antraz (infecção bacteriana comum no gado que, em certas condições, pode ser letal para humanos) e melioidose (infecção bacteriana de alta taxa de letalidade) chegou a ser contrabandeado para a Bélgica e França. A convenção de Genebra de 1925 tentou banir o uso desse tipo de meio, pela proibição do uso de armas químicas e biológicas (proibição depois confirmada pela Conferência Mundial de Desarmamento, de 1932), mas sem grande sucesso. Os países não-signatários (como o Japão) ignoravam as normas e os signatários, alegando necessidades de defesa, diminuiam mas não interrompiam as pesquisas.

Desde então, os estudos sobre o uso de armas biológicas colocam diante da humanidade um cenário de pesadelo (e também de non-sense). Os japoneses, durante a 2a GM, utilizaram amplamente os resultados de pesquisas nesse campo, inclusive sobre os melhores vetores dessas armas: milhões de pulgas contaminadas com agentes bacterianos letais foram espalhadas pela China, e também foi testada a pulverização de aerosóis (microgotículas) com culturas de Yersinia Pestis, bactéria causadora da peste pneumônica. Findas as hostilidades, embora diversos militares japoneses fossem julgados como criminosos de guerra por promoverem essas experiências e propor sua utilização maciça, os resultados das pesquisas e a possibilidade de seu uso não foram banidos. Os EUA já tinham suas próprias pesquisas desde 1941, num centro instalado em Fort Detrick, situado em Frederick, Maryland. Por ironia (ou não, sabe-se lá…), essa base estava subordinada ao Comando Médico do Exército dos EUA, e sediava o Programa de Armas Biológicas do Exército. Durante muito tempo, uma das principais linhas de trabalho desse programa foi a viabilização da produção, em escala industrial, de botulina, toxina de altíssimo grau de letalidade produzida por uma bactéria anaeróbica. Embora os EUA neguem até hoje, diz-se que certa quantidade desse material foi levada para a Europa em 1944, em um navio que acabou atingido durante um ataque aéreo. Em 1969, os EUA resolveram ratificar a Conferência de Genebra de 1925, e, na prática, o governo norte-americano passou a assegurar que armas biológicas e químicas nunca seriam usadas ofensivamente. As pesquisas para produção dessas armas foram desativadas e uma agência intergovernamental encarregada de pesquisas sobre bio-defesa passou a coordenar os órgãos existentes.  A União Soviética começou a pesquisar armas biológicas antes da 2a GM, e essas pesquisas foram aceleradas durante a Guerra Fria. No final dos anos 1970, eram conhecidos onze laboratórios em atividade. É interessante (bem, digamos que mais parece humor negro) observar que a pesquisa em engenharia genética, na ex-URSS, se desenvolveu a partir das buscas por armas biológicas eficazes – inclusive uma cepa de varíola que pudesse ser colocada em um míssil intercontinetal. Mesmo após a détente dos anos 1970, os laboratórios soviéticos continuaram funcionando. Com o fim da URSS e as dificuldades econômicas da Rússia, acredita-se que as pesquisas tenham sido reduzidas ao mínimo.

Na atualidade, a ameaça dos agentes biológicos não diminuiu. EUA e Rússia conservam, em laboratórios de alta segurança (mas conservam…) coleções de micro-organismos letais, inclusive da varíola. Embora sem fornecer provas convincentes, os serviços secretos dos EUA e da Grã-Bretanha acusaram o regime baathista do Iraque de promover pesquisas com agentes biológicos; atualmente, a mesma acusação é feita pelos EUA e Israel contra o Irã; a Coréia do Norte é frequentemente acusada pelos EUA e Coréia do Sul de promover pesquisas desse tipo; da China também é dito possuir estoques secretos de agentes biológicos letais. E, por fim, o bioterrorismo é posto como uma das principais ameaças. Todos sabemos que já foram ensaiados ataques que tentavam promover a contaminação por antraz, colocado, em pequenas quantidades, dentro de envelopes de correspondência. Mas, o que não sabemos é que, até agora, foi a única ameaça objetiva registrada::

Recordar é viver::Anos 70: Détente, SALT e outros quetais::

   

Pois é – eis um post de que gosto muito, pelo estilo. Não me lembro bem quando publiquei pela primeira vez, mas lembro que resultou de um dos debates que tínhamos no falecido Weblog, aquele de nosso desaparecido Pedro Doria. Na época, eu estava entusiasmado por ter arrumado o xerox de um livro de Henry Kissinger – Diplomacy - um calhamaço enviado por um amigo que passava uma temporada em Yale. Acabei não lendo, a coisa está atravancando a estante, e acabou que o livro foi lançado, tempos pouco tempo depois, em nossa língua. Um pouco mais cedo, eu o olhava na vitrine de uma das ubíquas “Leitura”, aqui em Belo Horizonte. Comentei com minha mulher – que demonstra grande paciência com minha mania por impressos de todos os tipos: “Eu o comprarei, mas não agora…” Agora, fiquem com as duas partes do post, visto que ainda não finalizei a novela dos submarinos::

Parte 1/2:: Por que o mundo de hoje é como é? Imagino que uma pessoa que tenha vivido os anos 1960 talvez estranhe o clima de instabilidade localizada que vivemos hoje. Nos “fabulosos sessenta” alinhavam-se duas superpotências, uma ameaçando a outra – e à humanidade – como a incineração nuclear instantânea. Por trás das duas, duas zonas geopolíticas de influência, cujos limites eram mutuamente respeitados. E também havia uma espécie de quintal comum, mais conhecido como “Terceiro Mundo”, onde as superpotências disputavam, de maneira atroz, quem iria mandar.

É claro que, para pensar essas coisas, essa pessoa que estou imaginando teria de saber que o palco geopolítico ainda era – digamos… –, em 1968, resultado da estabilidade conseguida pelos vencedores da 2ª GM. Ao longo daqueles 23 anos, a estabilidade fora não apenas mantida, mas aprofundada. Os dois principais atores aprenderam como não deixar que conflitos localizados, como a Guerra da Coréia, os choques no Oriente Médio, a crise de Cuba e a Guerra do Vietnam acabassem por se transformar em conflito generalizado; aprenderam que a ameaça de destruição mútua, por mais paradoxal que pudesse parecer, era a melhor forma de se ter alguma segurança de que o desastre não aconteceria. Absurdos concretos se tornaram ícones dessa estabilidade – a existência de uma cidade enorme dividida em duas por um muro; um país insignificante desafiando com sucesso uma das superpotências, separado dela por 180 quilômetros de água. No entanto, os dois blocos pareciam atuar de forma mais ou menos articulada: Brasil e Coréia do Sul, ou Tchecoslováquia e Coréia do Norte, por exemplo, não faziam exigências aos EUA ou a URSS. Ao contrário, pareciam adaptados ao papel de soldados em uma guerra perene. Chegavam a declarar-se “vencedores” de batalhas imaginárias uns contra os outros.

O próprio contexto por si mesmo apresentava-se como um paradoxo: uma “guerra fria”. Uma guerra com inimigos, estratégia, mobilização, armas e batalhas; e tréguas. Mas uma guerra em que fronteiras eram respeitadas e as batalhas quentes, com tiros e mortes, eram cuidadosamente mantidas restritas.

Os paradoxos eram generalizados: boa parte dos “povos-soldados” nos dois lados era mantida apartada de níveis mínimos de liberdade (pela qual dizia-se lutar) e sem perspectiva visível de prosperidade (a qual, dizia-se, seria geral após a “vitória final”). Mas a vitória final não estava à vista, apenas num virtual horizonte em direção ao qual, afirmavam dos dois lados, os ideólogos, movia-se, inapelavelmente, a história. Até que se completasse esse movimento, e ambos os lados diziam que se completaria confirmando as próprias idéias, o que se deveria buscar era a estabilidade. Por mais injusta que essa fosse. Isso significava manter e apoiar o statu quo ante (o a corruptela “status quo”, termo latino traduzido por “estado existente” que, em 1968, essa pessoa de que falo talvez não conhecesse a tradução exata, mas saberia o significado geral), ou seja, a situação política e social interna não apenas das superpotências, mas também – e tão importante como – das nações coadjuvantes.

Esse contexto paradoxal não livrava o mundo das crises. Em mais de uma oportunidade, os mísseis foram armados e apontados – em 1962 e 1973, por exemplo. As superpotências rosnavam uma para outra e confrontos surgiam o tempo todo, mas a possibilidade de que um desses acabasse degenerando na crise final, gerava mais um paradoxo: se mantinha abertos canais de diálogo e a possibilidade de cooperação.

Paradoxo em cima de paradoxo, essa tal pessoa, vivendo lá no mundo de 1968, talvez considerasse, naquela época, moralmente discutível, mas legítima, a situação geral de “libertícidio” (termo, segundo consta, criado pelo teatrólogo Berthold Brecht, diante da sangrenta repressão à revolta de Berlim, em 1953) e de opressão. E talvez até concordasse com Henry Kissinger, que afirmava – “legitimidade não deve ser confundida com justiça”.

Pois em função da legitimidade criada pela estabilidade, valia à pena tolerar o sacrifício da liberdade e a violação maciça de direitos humanos, de ambos os lados. Os EUA viam como legítima a derrubada e assassinato de um presidente eleito democraticamente e a morte, a sangue frio, de milhares de seus seguidores; a URSS considerava legítima a invasão militar de qualquer de seus aliados (!!!), diante de uma ameaça de mudança no tal statu quo ante. Assim, não é de se estranhar que a situação tivesse evoluído até o paradoxo absoluto de que os lados adversários passassem a considerar como legítima a pretensão de estabilidade interna do outro: “A invasão da Tchecoslováquia nunca chegou a ser assunto de guerra ou paz entre nós e a União Soviética, por mais ignóbil que possa parecer”, afirmou aos jornalistas o Secretário de Estado de Lyndon Johnson, Dean Rusk.

O problema é que a situação paradoxal de sacrifício da liberdade em nome da liberdade futura, da justificação da opressão em nome da luta contra a opressão, da privação como promessa da fartura e da guerra permanente como pressuposto da paz, acabava criando tensões. Não importa como essas tensões se manifestavam ou como eram tratadas pontualmente, mas o fato é que as autoridades, por toda parte do mundo, consideravam que a estabilidade na tensão, e não a paz, era o valor absoluto a ser buscado e alcançado. “A tentativa de um lado de impor uma justiça absoluta será encarada pelo outro como absoluta injustiça. A estabilidade depende da relativa satisfação e, portanto, da relativa insatisfação dos vários estados.” Palavras de Henry Kissinger::

Um sistema de armas às… (Ahhh, quando der… Não tenho tanto tempo quanto gostaria)::

Outro dia recebi um interessante comentário, redigido pelo Paulo Carvalho, que, pelo que parece, faz parte do clube de pesquisadores sobre sistemas de armas avançados. Disse o Paulo (sobre o posto em torno do XB70): “o XB-70 … foi cancelado por causa dos custos astronômicos e pela competição com o SR-71 já que havia planos para uma versão de reconhecimento designada RS-70. Como ambos voavam a mesmas velocidades e altitudes e como o SR-71 foi um sucesso estrondoso (nunca fora abatido apesar dos milhares de mísseis lançados contra ele) a ineficácia contra os mísseis antiaéreos definitivamente não foi a causa do fim do XB-70.”

Possivelmente o Paulo tem razão quanto ao fator “custos”, embora eu não concorde quanto aos mísseis. Entretanto, quando fui verificar informações, descobri que o XB-70 tem uma história muito mais interessante do que supunha minha vã filosofia. De fato, o Paulo, como todos nós, nesse ramo, tinha e não tinha razão. O RS-70 não era uma versão de reconhecimento do Valkyrie, mas uma tentativa feita pela Força Aérea dos EUA de salvar o projeto, criando um “reconhecedor de ataque”, uma aeronave capaz de cumprir ambas as funções em condições de campo de batalha nuclear. De fato, essa geringonça e o SR-71 tinham, em comum, apenas o preço astronômico (voltaremos a falar sobre o “Pássaro Negro” em breve). Para esta edição de Um sistema de armas às terças:: (que não é mais às terças, mas sempre que surgir um tema interessante) levantei um artigo antigo da revista Time onde o debate em torno de gastar ou não uma fortuna com esse novo sistema de armas está colocado. Divirtam-se!::

 

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RS-70: embuste ou superavião?

Time, 30 de março de 1962

 As últimas duas semanas foram tomadas por manobras entre o senador Carl Vinson e a administração Kennedy, mas o bombardeiro que foi a causa do fracasso foi quase ignorado. O que é o RS-70? Por que ele desperta tanta emoção no Pentágono, na Casa Branca e no Congresso? É um embuste ou um superavião?

O RS-70 é o novo “reconhecedor de ataque” da Força Aérea, versão do super-bombardeiro B-70, que vem sendo projetado desde 1953.  Deveria ser uma aeronave verdadeiramente revolucionária, voando a 2.000 mph em altitudes de até 80.000 pés, em distâncias de até 6.000 milhas, sem reabastecimento. A Força Aérea quer gastar US$ 491 milhões no próximo ano fiscal (iniciando em 1o de julho) num programa que poderá colocar os primeiros RS-70 em operação em 1967, até alcançar 150 unidades por volta de 1970, a um custo total que poderá chegar a US$ 10 bilhões. Já o Secretário de Defesa Robert McNamara quer gastar US$ 171 milhões no próximo ano, para colocar no ar três protótipos do RS-70. A discussão entre a Força Aérea e McNamara desenvolve-se em torno de conceitos basicamente diferentes de defesa nacional. Ambos os lados clamam que o outro está totalmente errado. De fato, nenhum dos dois está totalmente certo.

Os argumentos pró. O general Curtis LeMay, chefe do Estado-maior da Força Aérea voou B-17 sobre a Europa, dirigiu os ataques de B-29 contra o Japão, criou o Strategic Air Command como mola-mestra da dissuassão nuclear, e ainda guarda profunda fé  nas aeronaves  pilotadas manualmente , não importa o quanto se desenvolva a tecnologia de mísseis. LeMay argumenta que um homem pode administrar melhor que o cérebro-robô de um míssil a inevitável confusão de um combate. Para exemplificar as vantagens das aeronaves pilotadas, ele pode apontar a recente experiência do astronauta John Glenn, que assumiu o controle do Friendship 7  quando o equipamento automatizado mostrou defeito. Ainda mais importante, se o radar estivesse apontando sinais de um ataque contra os EUA, um RS-70 poderia ser enviado  na direção contrária e avisado a tempo, em caso de alarme falso. Um míssil não retorna: ou vai ou fica.

Os defensores do RS-70 sustentam que a dissuassão nuclear deve  combiner bombardeiros e mísseis para confrontar o inimigo como uma variedade de sistemas de armamentos. Se um não funcionar, o outro funcionará—e o RS-70 é um sistema de armas completo em um só. Esses mesmos defensores apontam que, este ano, cessará a produção dos dois últimos bombardeiros da Força Aérea—o subsônico B-52 e o super-sônico B-58. Se o RS-70 for descontinuado, dizem eles, toda a frota de bombardeiros dos EUA estará eventualmente obsoleta.

A Força Aérea argumenta que o RS-70 será um alvo difícil de acertar. Ainda que os russos construam um caça que possa voar a 2.000 mph, interceptar um RS-70 capaz de cobrir 30 milhas por minuto seria uma tarefa ingrata.  Uma das defesas do RS-70 contra mísseis anti-aéreos seriam as contramedidas eletrônicas altamente secretas. A Força Aérea admite que alguns RS-70 poderiam ser derrubados, mas muitos poderiam passar e aniquilar o inimigo.

O caso contrário. O Secretário de Defesa McNamara acredita em suas planilhas, gráficos e projeções econômicas, tanto quanto o general LeMay crê em suas experiências e intuições. Os dados de McNamara indicam que o dinheiro a ser gasto com o RS-70 poderia ser melhor aplicado em outro lugar. Pelos US$10 bilhões que a Força Aérea quer  gastar no RS-70 até 1970, McNamara diz que os EUA poderiam comprar 2.000 mísseis Minutemen e instalá-los em silos de concreto profundamente enterrados no solo. E, melhor ainda, manter esses 2.000 Minutemen custaria US$2 bilhões nos próximos 5 anos, contra  US$ 3 bilhões pela frota de RS-70.

McNamara também argumenta que os RS-70 não terão utilidade, a menos que sejam equipados com detetores de radar e mísseis nucleares para auto-defesa, ambos ainda não desenhados—e que provavelmente não serão. Um radar do tipo proposto teria de varrer 100.000 milhas quadradas por hora enquanto o avião estivesse viajando a 2.000 m.p.h. a uma altitude de 70.000 pés. Para separar dois pontos a essa distância, afirma McNamara, uma tela de radar teria de ter 15 pés de altura.  Pelo final da década de 1960, McNamara imagina que o trabalho de reconhecimento será feito por versões avançadas do satélite-espião Samos.

Apesar desses argumentos, McNamara admite que as circunstâncias podem mudar  e tornar o RS-70 necessário no futuro. O secretário agora planeja gastar US$52 milhões, no próximo ano fiscal, para verificar se os equipamentos altamente sofisticados requeridos pelo RS-70 podem ser construídos. E, mais ainda, McNamara prometeu a Vinson que parte do dinheiro aprovado pelo Congresso poderá ser gasto na aeronave, “se a tecnologia avançar mais rapidamente do que foi antecipado.

Tanto McNamara quanto a Força Aérea são convincentes em seus argumentos sobre o RS-70. Retirando sua pretendida diretiva congressional ao Presidente, Carl Vinson evita um argumento potencialmente debilitador. Ainda que Bob McNamara esqueça sua promessa de reabrir e reestudar o caso RS-70, ele poderá ter de contar a história::

 

 

 

 

 

 

Um sistema de armas às… (Ahhh, quando der… Não tenho tanto tempo quanto gostaria)::A arma submarina alemã: o argumento do mais fraco (no mar)

Nosso amigo Pax, um interessado em sistemas de armas, postou, outro dia, uma interessante nota aqui no causa::  – a “batida”, em pleno oceano, de dois submarinos nucleares, um francês e outro inglês (andam dizendo que os submarinos ingleses rodam Windows… Deve ser maldade, não?..). Eu sempre disse que o sistema de armas estratégicas britânico e francês é, mais que uma política de dissuação, e junto com as ilhas Malvinas e a Guiana Francesa, a última e nostálgica referência ao tempo em que essas duas “potências” não dependiam dos EUA para se defender. Mas submarinos são submarinos, e um submarino nuclear (segundo apurei, a Marinha Real tem 11 deles e a Marine Nationale, 13) não é pouca coisa. Hoje em dia, não são, de modo algum, os sistemas de armas navais mais avançados, mas ainda mantêm uma capacidade de causar danos inversamente proporcional a seu tamanho e custo. Antigamente se dizia que a arma submarina era “a arma do mais fraco”. Não deixa de ser verdade – na guerra das Malvinas, a existência de dois submarinos classe IKL-209 na Marinha Argentina foi a única ameaça que os britânicos não puderam deixar de considerar – o que alterou de forma notável a organização da força tarefa britânica. Vamos, então, falar alguma coisa sobre submarinos. Não os nucleares, nem os convencionais. Falemos daqueles que ainda hoje atraem muita atenção – os da Kriegsmarine, a marinha de guerra alemã. E já que é quase carnaval, podem tomar esse post como homenagem às papagaiadas imperiais franco-britânicas dignas de um bloco de sujos – como uma batida entre submarinos…::

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Qualquer pessoa que conhece alguma coisa sobre a Segunda Guerra Mundial sabe da importância que, nesse conflito, teve a arma submarina. O “barco submarino” era uma arma nova, então – fez sua estréia na Grande Guerra, e, ainda assim, sob as discussões de se as regras do corso, elaboradas no século XVIII, ainda valeriam nesse novo tipo de guerra contra as rotas mercantes.  As “boas normas” até então usuais diziam que um navio suspeito seria abordado, passaria por inspeção e, caso se encontrasse carga de utilidade bélica, tripulação e passageiros seriam desembarcados e só então, afundado o navio. Depois que a Alemanha resolveu mandar às favas esse “costume tradicional e usual da guerra naval”, o resultado foram quase três milhões de toneladas de navios afundados em pouco mais de um ano, por umas 150 unidades de diversas classes.

O Tratado de Versalhes proibiu a Alemanha de fabricar e possuir armas ofensivas, e os submarinos eram considerados, dentre essas, uma das principais.  Curiosamente, as restrições foram parcialmente suspensas com o Tratado Naval Anglo-Germânico, de 1935. A Alemanha pôde restabelecer uma esquadra que incluía certo número de submarinos. No ano seguinte, quando Hitler determinou o rearmamento pleno, militares e industriais aderiram gostosamente à orgia armamentista que se seguiu, mas a Marinha de Guerra era a menor prioridade, em função da complexidade da construção de navios e das limitações econômicas da Alemanha.

A coisa é mais-ou-menos assim: embora não incorporasse diretamente muita tecnologia, a indústria naval da época era dispendiosa, para qualquer sistema econômico. Um vaso de guerra, não importa o tamanho, agregava pouco mais da metade do peso em em ligas metálicas especiais: metais de alta taxa de dureza, materiais resistentes à corrosão, materiais resistentes ao calor, e por aí vai. Além do mais, um estaleiro exige grande aporte de mão-de-obra especializada, uma logística industrial complicada e instalações difíceis de construir e manter. E a marinha de guerra disputava espaço com a marinha mercante, porque os navios de carga, embora muito menos complexos e dispendiosos, também exigiam investimento razoável.

 

 O início da 2a GM pegou a esquadra alemã com apenas 25 por cento dos navios planejados e ficou claro que não seria possível colocar rapidamente um número de vasos de superfície que possibilitasse participação efetiva na guerra. Assim, foi dada prioridade à construção de submarinos. O alto comando nazista considerava que esses poderiam ser muito mais efetivos  contra os interesses britânicos que os navios de superfície. A participação pífia da Marinha na campanha de 1940 mostrou que a avaliação não era absurda.

 

Os submarinos começaram a guerra sem restrições. Poucos dias após o início do conflito, uma ação espetacular mostrou aos britânicos o tamanho da bobagem que tinham feito em 1935: o submarino U-47 penetrou as defesas (frouxas) de Scapa Flow e afundou um couraçado – velho, mas uma unidade da Marinha Real… E na principal base da Esquadra Metropolitana. Quase seis anos depois, 784 afundamentos e cerca de 28.000 marinheiros mortos, a arma submarina alemã afundara junto com a Alemanha nazista. Não é, entretanto, nosso objetivo contar essa história – existem fontes muito boas, na Grande Rede, e o interessado em submarinos e na guerra que eles travaram pode começar a pesquisar aqui.

 

 Entretanto, um dado sempre despertou minha curiosidade: dentre a enorme quantidade de artefatos gerados pela Segunda Guerra Mundial, alguns itens existem aos milhares: por exemplo, armamento portátil, uniformes, equipamentos de campanha. Outros itens são um tanto mais raros, como por exemplo, tanques e outros veículos de combate. Os navios de guerra estão dentre os mais raros.

 

O motivo é simples: navios de uma nação derrotada não tem muita utilidade, uma vez que precisam do apoio constante de uma estrutura industrial (as bases navais são o que de mais próximo existe de um complexo industrial adaptado para fins militares). Encerrada a guerra, os navios inimigos ou são transformados em sucata ou relegados a usos secundários. Ou descartados: usados como alvos de exercício ou simplesmente afundados.

 

Foi o caso de quase todos os submarinos alemães, após a rendição: a operação Deadlight, conjunto de ações planejadas pelas marinhas norte-americana e inglesa, destinou-se a dar fim aos submarinos entregues pelas tripulações. Calcula-se que um número próximo a 220 unidades tenham sido afundadas pelas próprias tripulações. Outros 39 foram usados em diversos tipos de testes.

 

Restam hoje apenas três submarinos alemães dessa época. Um deles, o mais notório, tem a triste memória de ter sido o único a ser render em combate: o U-505, que atualmente repousa no Museu de Ciência e Indústria de Chicago. O U-2540, depois rebatizado “Wilhem Bauer” encontra-se exposto na cidade de Bremen. O terceiro e mais recente é o U-534, retirado do fundo do mar no final os anos 1990 e atualmente transformado no objeto mais importante em exposição no Museu Naval de Birkenhead Docks, em Liverpool:: 

Um sistema de armas às terças::Atomic Annie::A bomba-A chega ao varejo::

Já que a bomba nuclear iraniana volta à baila, agora sob outra perspectiva (segundo agências de inteligência dos EUA, o Irã não estaria nem perto de conseguir um artefato nuclear…), vamos aproveitar para lembrar o arsenal nuclear também tem “primos pobres”, armas que foram concebidas, testadas, mas, mesmo bem sucedidas, foram relegadas a segundo plano pelos planejadores::

 

 

 

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As primeras bombas atômicas foram desenvolvidas pelos EUA, e tornadas operacionais em 1945. Em função de problemas industriais, sua fabricação foi, a princípio, lenta: a obtenção de matéria físsil era complicada e, sobretudo, muito cara, e não se mostrou suficiente para a fabricação de um número razoável de artefatos. Entre 1945 e 1947, as que foram sendo fabricadas foram reservadas para finalidades estratégicas, ou seja, que pudessem afetar a condução da guerra como um todo, e não o campo de batalha. Outra questão foi considerada: a detonação de explosivo nuclear suficiente para produzir uma explosão de potência equivalente a 20.000 toneladas de TNT (20 quilotons) bastou para arrasar uma cidade de 340.000 habitantes, matando aproximadamente 250.000 deles. A explosão atômica era incontrolável, e não podia ser aplicada de forma a produzir danos calculados. 

Essa não é uma questão pouco importante. Uma regra clássica do planejamento militar de campo diz que a força deve ser usada na medida necessária para submeter o adversário – independente de que medida for essa. A ampliação das dimensões do campo de batalha, observada na guerra moderna e particularmente a partir das duas guerras mundiais, obrigou mudanças no cálculo da aplicação de força necessária. Fatores antes não levados em consideração – como a capacidade econômica do adversário, sua infra-estrutura industrial e de comunicações – passaram a constituir parte importante do planejamento militar. Após o lançamento das bombas atômicas contra o Japão, o que ficou patente foi o fato de que cidades poderiam ser arrasadas muito rapidamente a um custo relativamente baixo. Depois da guerra, oficiais da Força Aérea do Exército dos EUA perceberam que efeitos semelhantes ao da bomba lançada contra Nagasaki exigiriam ataques aéreos envolvendo duzentos bombardeiros pesados durante vários dias, lançando principalmente bombas incendiárias. O explosivo atômico deveria, então, ter seu uso restrito ao campo de batalha estratégico, em função do custo de sua fabricação e dos efeitos que causava.

 Mas o fato é que, logo após o fim da Guerra, a URSS, apesar de economicamente arrasada, dispunha de um exército de dois milhões de efetivos, apoiados por 20.000 tanques e 20.000 canhões de campanha. Isso era suficiente para atravessar a Europa, até as margens do Canal, em dois dias. A superioridade ocidental em aeronaves táticas não chegava a compensar (a experiência dos nazistas e dos soviéticos, amplamente estudadas, tinha mostrado que aeronaves não eram eficazes contra concentrações de blindados bem protegidas por artilharia anti-aérea. A solução talvez fosse, no caso de invasão soviética, disponibilizar armamento nuclear para a defesa.

 

No final do ano de 1949, o Chefe do Equipamento de Artilharia (em inglês, Chief of Ordnance), de acordo com instruções recebidas do Chefe do Estado-maior do Exército, ordenou que fossem feitos estudos para que tubos de 280 mm do tipo M-65, que estavam em desenvolvimento, baseado em modelos alemães capturados, passassem por modificações, de modo a que pudessem disparar projéteis nucleares.

Nessa época, tanto os EUA quanto a URSS já estavam avançados em estudos teóricos para determinar se armas nucleares teriam utilidade no campo de batalha tático (na verdade, a URSS não tinha tido muito sucesso em seus testes nucleares e os EUA dispunham de cerca de 200 artefatos montados em bombas de queda livre). Desde a fase final da Segunda Guerra Mundial, o Exército dos EUA estabeleceu a necessidade de um sistema móvel de artilharia de longo alcance, capaz de atingir alvos estratégicos atrás das linhas inimigas (como centros de comunicações, posições fortificadas, posições inimigas de artilharia de longo alcance, e outros alvos dessa categoria). Pouco depois do fim da guerra, o Pentágono fez uma consulta em torno da possibilidade de artilharia pesada disparar projéteis nucleares, ao invés de grandes cargas de alto-explosivo (como TNT, por exemplo). A inexistência tanto de peças de artilharia para a função – os maiores calibres efetivamente disponíveis (155 mm e 203 mm) não eram adequados – quanto de um artefato nuclear pequeno o suficiente para ser colocado em uma granada de artilharia, atrasaram o desenvolvimento. Além do mais, diversos problemas teóricos e práticos inexistentes num artefato de queda livre, comprometiam o surgimento desse tipo de munição.

Mas não por muito tempo: a miniaturização de artefatos atômicos, tornada possível pela introdução do material denominado Oralloy como matéria físsil, resolveu o problema. O peso do artefato foi reduzido de algumas toneladas para algumas centenas de quilos e, em 1953 surgiu um artefato de aproximadamente 130 centímetros de comprimento, pesando uns 365 quilos, denominado W-9. Era do tipo “pistola”, o mesmo detonado sobre Hiroshima, e gerava uma explosão de potência equivalente. Depois de instalada em uma granada de artilharia, a coisa foi denominada AFAP (Artillery-Fired Atomic Projectil) MK-9. Era disparada por carga de propelente ensacada até uma distância máxima de uns 25 quilômetros, e detonava no ar, a uns 200 metros de altura.
Paralelamente foi desenvolvido o “canhão nuclear”. Tratava-se, de fato, de um tubo calibre 280 mm, assentado em um reparo de recuo hidropneumático de duplo êmbolo capaz de levantar o tubo até uma inclinação de 55 graus. O conjunto era fixado numa carreta de oito rodízios duplos, deslocada por dois tratores de artilharia, um rebocando e outro empurrando. O conjunto todo (tubo, reparo, carreta e tratores) pesava 75,5 toneladas. Não se sabe o motivo, mas a unidade de teste foi apelidada de Atomic Annie. Era, possivelmente, referência à uma peça de artilharia alemã similar que tinha infernizado a cabeça-de-praia de Anzio, e era chamada pelos infantes americanos atolados lá de Anzio Annie.

Em 1952 a geringonça estava pronta, mas a granada nuclear só ficou disponível no ano seguinte. Inicialmente, foram produzidas 80 unidades e o primeiro teste foi programado para o dia 25 de maio de 1953, na instalação militar denominada, na época, Las Vegas Bomb and Gunnery Range, campo de testes situado em Nevada, na localidade chamada Frenchman´s Flat. Era parte de um grande teste denominado Shot GRABLE, que envolvia diversas detonações na atmosfera, partindo de aviões e torres estáticas. Somente um projétil Mk-9 foi disparado nessa ocasião, sendo considerado um sucesso. Os especialistas que estudaram o sistema calcularam que uma detonação similar, em condições reais, poderia arrasar uma área de 10 quilômetros de diâmetro – dimensões maiores do que as do envelope de deslocamento de uma divisão blindada soviética. Esses mesmos especialista consideraram, entretanto, que a distância de 25 quilômetros era muito pequena para assegurar que as posições de defesa ficariam incólumes (de fato, disparar uma bomba atômica e sair inteiro sempre foi um problema…).

atomannie

O trabalho de desenvolvimento continuou e resultou no artefato W-19, disparado por um canhão de 280 mm modificado. O problema é que o sistema era canhestro, difícil de colocar em bateria e de esconder. Em 1963, o desenvolvimento do artefato W-48, com cerca de 85 centímetros de comprimento e pesando quase 58 quilos possibilitou o desenvolvimento da granada tipo AFAP  M-45, adequada para o uso pela peça-padrão da artilharia divisionária do Exército dos EUA, o Field-howitzer 155 mm. Outra vantagem da granada M-45 era o método de detonação do explosivo nuclear, que resultava numa explosão de menos de 0,1 quiloton (100 toneladas de TNT), totalmente adequada para uso tático.
O W-48 permaneceu em uso até 1968, sendo então substituído pela variante W-48-1. Pouco depois, uma nova versão, denominada W-74 foi projetada tendo em vista os novos canhões de 203 mm autopropulsados. Em 1978, toda a munição W-48, W-48-1 e W-74 foi recolhida, dando lugar à versão W-82, adequada às novas peças de artilharia tipo M-785, de 155 mm e capaz de gerar uma explosão de potência aproximada de 2 quilotons. Em 1983, o avanço das conversações SALT II interrompeu o desenvolvimento da artilharia nuclear.
Em 1991 os EUA recolheram definitivamente os projéteis atômicos, no que foi seguido pela Rússia em 1992. Calcula-se que, nessa época, houvesse nos arsenais por volta de 1500 granadas nucleares.
Em seguida, o filminho de sempre. Em geral, o redator sempre faz alguma gracinha com o conteúdo… Por algum motivo, desta vez, ele perdeu o senso de humor…::