Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Drops para o fim de semana::

Um dos livros que maior curiosidade despertou no redator:: até hoje, dentre tudo o que já leu sobre a 2ª GM, foi “Eichmann em Jerusalém”, da filósofa alemã Hannah Arendt. Arendt é *figura muito conhecida no universo da Filosofia e da Ciência Política, com uma obra notável e uma militância destacada – que quase a colocou, em 1933, num campo de concentração. Em 1961 foi enviada a Israel pela revista norte-americana New Yorker, para cobrir o julgamento do tenente-coronel SS Karl Adolf Eichmann, arquicriminoso de guerra nazista. Da reportagem, publicada em cinco partes (se você lê inglês, uma resenha excelente aqui, das próprias páginas da revista mais bem-pensante e pedante dos EUA…), resultou o livro (o pós escrito, de autoria da própria Arendt deve ser lido aqui). Nesse texto, Arendt cunhou a expressão “banalidade do mal”, hoje bastante difundida entre diversas áreas das Ciências Humanas e Sociais. Esse conceito expressa a tese que propõe enxergar sob outra perspectiva as pessoas que cometem crimes indiscritíveis, daqueles que em muito superam as possibilidades de qualquer relés Al Capone ou Fernandinho Beira-Mar. É o caso dos planejadores e administradores da máquina industrial de genocídio dos nazistas, entre 1941 e 1945. Essas pessoas não podem ser consideradas simplesmente fanáticos ensandecidos: na maioria dos casos, são gente comum. Essa gente simplesmente aceitou a premissa de que o Estado, entidade impessoal e onipresente, “sabe o que faz”, e a partir daí se dispôs a participar e empenhar o melhor de suas competências em realizar a tarefa – sem chegar a perguntar, em momento algum, sobre o que estava fazendo. Burocratas, em todos os sentidos, nem piores nem melhores do que os outros burocratas. O trabalho de Arendt insere-se numa crítica à modernidade iluminista que deu co´os burros n´água em duas guerras mundiais, muitas ditaduras assassinas e “lutas pela liberdade” , que no conjunto mataram sabe-se lá quantas dezenas de milhões de pessoas. Arendt, atenta para essa ordem de questão, refletia sobre a responsabilidade coletiva, ou seja, a responsabilidade, que, para bem ou para mal, que a dinâmica histórica aponta. Dizendo de outra maneira – não existe quem esteja isento. Mas, por outro lado, responsabilidades não podem ser consideradas inteiramente individuais. 

Quando Napoleão, ao tomar o poder na França depois da Revolução, disse ‘Assumo a responsabilidade por tudo o que a França já fez, de são Luís ao Comitê de Segurança Pública’, ele estava apenas formulando um tanto enfaticamente um dos fatos básicos de toda a vida política. Em termos gerais, significa pouco mais que afirmar que toda geração, em virtude de ter nascido num continuum histórico, recebe a carga dos pecados dos pais assim como é abençoada com os feitos dos ancestrais. Mas esse tipo de responsabilidade não é o que estamos discutindo aqui; não é pessoal, e só num sentido metafórico alguém pode dizer que sente culpa por aquilo que não ele, mas seu pai ou seu povo fizeram. (Moralmente falando, não é menos errado sentir culpa sem ter feito alguma coisa específica do que sentir-se livre de culpa tendo feito efetivamente alguma coisa.) É bastante concebível que certas responsabilidades políticas entre nações possam algum dia ser julgadas em uma corte internacional; o que é inconcebível é que tal corte venha a ser um tribunal criminal que declare a culpa ou a inocência de indivíduos” (aqui, o redator:: fará o que nunca fez até agora, neste blogue: insistir para a leitura do texto indicado acima, do qual essa citação foi retirada).

O redator vê essa problemático sob dois ângulos, complementares. E não vamos falar apenas dos nazistas. Aqueles doze anos foram o reinado do mal absoluto, um curto-circuito moral que apagou consciências no mundo inteiro – para dizer o mínimo, não foram poucos os países e indivíduos que se deixaram fascinar pelo formigueiro de ordem e trabalho em que a Alemanha pareceu se transformar. É certo que, ao fim e ao cabo, a luta contra o fascismo acabou por mobilizar as melhores energias de parte considerável da humanidade, considerada por indivíduos e instituições. 

Por outro lado, o nazismo tem servido como uma espécie de justificativa moral para boa parte dos absurdos cometidos ao longo dos cinquenta anos seguintes. Afinal, fala-se muito em “liberdade”, “justiça”, “democracia”, “prosperidade”, justificativas para ações injustificáveis como o Vietnam, o Afeganistão, o Iraque. E, em nome desses “princípios”, os estados sentem-se autorizados a tudo.

Fala-se na “pátria”; no “país”; no “sistema”. Figuras abstratas que metaforicamente expressam os interesses e aspirações do que seria “o povo”, a coletividade do país. “Não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer por seu país.” Essa pela construção de retórica esconde uma construção lógica nem tão bela assim. Cada indivíduo pode ser mobilizado por razões que, no fim, ele talvez desconheça. “Eu recebia ordens, não me cabia discuti-las”, disse Eichmann. Militares, cientistas, burocratas, envolvidos  com questões eufemisticamente chamadas “de defesa”, atrás de escrivaninhas, painéis de controle ou computadores, em uniformes ou trajes civis, recebem ordens. Por trás da competência e da impessoalidade, são seres humanos comuns, com sentimentos comuns. Esperam a hora de ir para casa; preocupam-se com filhos, parentes e amigos; têm passatempos que pouco praticam. O excesso de trabalho e de responsabilidades são a tônica de suas tarefas profissionais e carreiras. E mais: usam, constantemente, a expressão “apenas faço meu trabalho”, independente de qual seja esse. Tudo muito natural. Tudo parte da vida.

Assim, essas pessoas, pilotos de jato lançando bombas de fragmentação ou napalm sobre cidades indefesas, cientistas civis planejando mísseis, burocratas coordenando informações militares, não são, de forma alguma, criaturas odientas ou odiosas. São apenas “parte da máquina”, “fazem seu melhor”, “não inventaram o sistema”. Pois bem: em meio a essa vida esmagadoramente comum – banal, enfim - se infiltra o mal.

Em 1984,  gente comum assim ajudou a fazer o “Relógio do Juízo Final” chegar a dois minutos da meia-noite. 

“Fazer coisas terríveis de forma organizada e sistemática baseia-se na ‘naturalização’. Esse é um processo no qual atos feios, degradantes, criminosos e indizíveis tornam-se rotina, e são aceitos como ‘a maneira que as coisas são feitas’. Existe uma forma de dividir e racionalizar o impensável, com a brutalização e morte cometidas por um grupo de indivíduos, outros administrando a máquina (manutenção, suprimentos), e outros mais produzindo equipamentos de matança, ou trabalhando na melhoria da tecnologia (melhores crematórios, napalm aperfeiçoado, bombas de fragmentação cujos fragmentos sejam mais difíceis de localizar dentro do corpo…). É função dos intelectuais militares e outros especialistas, bem como da grande imprensa, naturalizar o impensável para o público em geral. No final de sua vida, Herman Kahn gastou muito tempo tentando tornar palatável a guerra nuclear (On Thermonuclear War: Thinking About the Unthinkable), e este Doutor Strangelove fajuto teve boa aceitação na imprensa. Num excelente artigo intitulado “Normalizing the unthinkable”, publicado no ‘Boletim dos cientistas atomicos’ (Bulletin of Atomic Scientists) de março de 1984, Lisa Peattie descreveu como nos campos de morte nazistas  o trabalho era ‘naturalizado’ para aquelas pessoas aprisionadas a longo tempo, bem como para o pessoal administrativo: ‘Os encanadores da prisão mantinham em bom estado a bomba d´água no crematório e os eletricistas trabalhavam nas cercas eletrificadas. Os gerentes do campo mantinham padrões e processos bem ordenados. Os faxineiros que limpavam o pátio do crematório em Auschwitz tinham de deixá-lo perfeitamente esfregado.’ Peattie foca-se no paralelo entre rotinização nos campos de morte e na preparations para a guerra nuclear, na qual o ‘impensável’ é organizado e preparado, numa divisão de trabalho na qual participam pessoas em muitos níveis. A distância da execução ajuda a obscurecer a resposabilidade. ‘Adolph Eichmann era um funcionário com responsabilidades, deacordo com seu entendimento de responsabilidade. Para ele, estava claro que os líderes do Estado tinham estabelecido as políticas. Sua função era implementá-las, e, afortunadamente, matar qualquer um nunca foi parte de seu trabalho’.” (Se o leitor se safa em inglês, pode ler a íntegra, em inglês,  num desses preciosos blogues perdidos na rede. A palavra “naturalizar” foi usada, aos invés de “normalizar”, que é a do original, visto que essa última tem, em nossa língua, um significado um tanto diverso do que parece ter sido pretendido pelo autor.)

O texto não está focado propriamente na matança industrial executada pelos nazistas, com o beneplácito da população alemã, mas nas diversas matanças, industriais ou não, que tiveram lugar no século 20. Essas, embora sem alcançar o azimute daquela perpetrada pelos nazistas, cabem na linha da reflexão de Arendt: como distribuir a culpa por crimes impensáveis? Até que ponto o estado deve ser chamado a dividir com seus burocratas, a culpa pelo impensável?

Napoleão assumiu a responsabilidade pelas culpas e benefícios da França. Era uma metáfora, claro, e se “a França” foi responsabilizada moralmente pela Argélia, o general Jacques Massu, o carrasco de Argel, agente do estado francês, morreu altamente condecorado e tranquilamente reformado. O estado nazista pôde ser criminalizado por ter sido eliminado em uma guerra. Assim, seus servidores foram co-responsabilizados (e continuam sendo) pelo papel que cumpriam no contexto mais amplo: são considerados cúmplices conscientes, mesmo os que não apertaram nenhum gatilho. Sem a ocorrência de guerras convencionais ou revoluções, essa atribuição-distribuição de responsabilidades fica bem mais difícil. Somente em situações nas quais tal rompimento ocorre, é possível a responsabilização de que fala Arendt, “… [é] bastante concebível que certas responsabilidades políticas entre nações possam algum dia ser julgadas em uma corte internacional; o que é inconcebível é que tal corte venha a ser um tribunal criminal que declare a culpa ou a inocência de indivíduos…”

Se tal criminalização só é possível com Estados derrotados por condições externas ou internas (e mesmo assim, nem sempre), como chamá-los à responsabilidade?  Ninguém jamais tomará a iniciativa de pedir a criminalização do regime stalinista, ainda que a União Soviética tenha desaparecido; o estado sérvio pós-Tito jamais chegou a ser diretamente acusado pelo genocídio acontecido durante as guerras de agressão que promoveu contra a Croávia, Bósnia e Kosovo. De fato, houve responsabilização, por parte do Tribunal Penal Internacional, de gente como Slobodan Milošević, Radovan Karadzic e Ratko Mladic (dentre outros), responsabilizados como indivíduos (alguns chefes militares croatas também foram levados a julgamento). O mesmo aconteceu com o premiê de Ruanda e de alguns outros indivíduos, acusados de crimes contra a humanidade e genocídio, e cujas penas foi consideradas geralmente insuficientes. O governo ruandês instalado após a queda do regime responsável pelo massacre tratou de executar mais de duzentas pessoas consideradas culpadas, após julgamentos sumários. Uma boa pergunta é o que mais poderia ser feito, visto que o TPI não tem os poderes que, de fato, seriam necessários para que as nações de que fala Arendt, fossem responsabilizadas. Por outro lado, um personagem ruandês, Paul Rusesabagina, responsável por salvar as vidas de 1.268 pessoas, em Kigali (capital de Ruanda) e que se tornou uma espécie de consciência nacional, exilado na Bélgica, fez duras declarações tanto contra o regime no poder quanto contra as instituições internacionais.

Nações latino-americanas que passaram por ditaduras homicidas tomaram caminhos diversos. Na Argentina, leis que beneficiavam militares de patente inferior com a impunibilidade por crimes no exercício de função foram revogadas por determinação judicial em 2004, durante o governo de Néstor Kirchner; no Uruguai foi tomada a mesma decisão, em 2008, pelo do governo do presidente Tabaré Vázquez. O conceito de “obediência devida”, invocado para justificar as ações de militares, foi revogado, e em ambos os países, um grande debate ainda tem lugar em torno do tema. “Se o comando superior decide dissolver o Parlamento, uma ordem inconstitucional e ilegal, não deveria ser cumprida pelas Forças Armadas”, declarou o ministro da defesa do Uruguai, José Bayardi. Por outro lado, Brasil e Chile optaram por iniciativas mais brandas.

Temos que admitir que cada caso é um caso. Na Argentina, o Estado de excessão dissolveu-se após uma série de trapalhadas que culminaram com a humilhação nacional do país, a derrota nas Malvinas; no Uruguai, erros sucessivos de administração do governo militar e a oposição popular que daí decorreu levaram à uma transição em que os militares abandonaram o governo sem nenhuma condição prévia; no Brasil e no Chile, saídas negociadas com os regimes implicaram em acordos até hoje contestados. Cada caso é um caso, mas caracterizou esses regimes de excessão s a enorme quantidade de crimes de estado cometidos por seus agentes. Nunca houve nenhum movimento para internacional para responsabilizar esses governos, ou mesmo suas lideranças individuais. Pode-se alegar que foram lutas de facções políticas no contexto da Guerra Fria, e que os EUA e a URSS também deveriam ser responsabilizados por coisas como o Vietnam e o Afeganistão, onde muito mais gente morreu. A idéia da “banalidade do mal” aplica-se à todas as situações descritas acima, e nem todos os servidores dessas ditaduras eram um Sérgio Paranhos Fleury (que dispensa apresentações), um Alfredo Astiz ou um Manuel Contreras. Agentes como esses podem perfeitamente ser comparados aos nazistas, mas outros achavam, sinceramente, estar “apenas cumprindo ordens”. Para os nazistas, essa desculpa não valeu. Mas e para os outros? 

Voltaremos ao assunto, quando os oito ou nove leitores tiverem tido tempo para digerir essas questões::

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::MP40, a “arma do soldado nazista”::

parte1/2Como todo os oito ou nove leitores de causa:: estão cansados de saber,  a 2ª GM foi, por excelência, a guerra da “pistola-metralhadora”, como a 1ª GM foi a guerra da metralhadora. E os famosos “poucos” deste blogue também sabem que “pistola-metralhadora” é uma “arma longa” ou “portátil”, capaz de disparar, em modo plenamente automático, munição pré-preparada. A característica básica dessa “arma portátil” é o fato de utilizar munição de armas curtas (pistolas semi automáticas). Outra característica usual nos modelos mais antigos é o uso do sistema de “recuo direto simples” (em inglês, blowback recoil – mais sobre o tema, aqui) para o trancamento da culatra. 

Essa arma surgiu no final da 1ª GM, um dos desdobramentos da “perda do movimento”, a situação provocada pelo “empate estratégico” ocorrido a partir de dezembro de 1914, quando as forças do Exército do Kaiser foram detidas em seu avanço em direção à Paris. O que se sucedeu foi uma sangrento exercício no qual milhões de homens, armados com milhares de canhões, milhões de metralhadoras pesadas e leves e dezenas de milhões de armas pessoais, atiravam um nos outros sem que nenhum dos dois lados tivesse capacidade para romper a linha adversária. Em 1915 os alemães começaram a testar tropas especiais, destacadas dos efetivos das unidades de “pioneiros” (engenheiros de combate). No final de 1916, o chefe do Estado-maior alemão, general Erich Ludendorff, determinou que cada divisão fosse dotada de um batalhão dessas novas unidades – que, não se sabe exatamente quando, passaram a ser designadas de stosstrüppen (“tropas de choque”). O aperfeiçoamento decisivo deu-se, entretanto, em 1917, quando o coronel Georg Bruchmüller (se você lê inglês, uma ótima biografia desse oficial aqui) resolveu tentar integrar as  “tropas de choque” às táticas de artilharia” flexíveis” que vinha testando. Essas unidades foram empregadas dessa forma, pela primeira vez, na frente oriental. Em maio de 1917, a cidade de Riga foi tomada em menos de uma semana e o sucesso fez com que o Estado-maior Geral determinasse o emprego maciço dessas unidades na frente ocidental. A partir daí os alemães começaram a conceber uma série de táticas especiais, centradas em deslocamentos em velocidade, ao longo de determinados setores do teatro tático (setores onde ocorrem os combates). Durante esses deslocamentos, realizados imediatamente após barragens de artilharia rápidas e concentradas, pequenos grupos de soldados com treinamento e armamento especiais procuravam brechas por onde formações de infantaria convencional pudessem penetrar. As táticas “de infiltração” adotadas pelas “tropas de choque” lançavam mão da velocidade e da surpresa (grande parte das operações eram realizadas de madrugada), e precisavam de armas automáticas para o combate a curta distância. Ou seja, o armamento dessas formações devia ser diferenciado daquele usado pela infantaria convencional.

Ainda em 1917, o general-de-divisão Oskar von Hutier, uma espécie de patrono das novas formações, começou a examinr as armas disponíveis, e concluiu que quase todas eram pesadas e canhestras para o tipo de atuação planejada. Entre os tipos avaliados estavam as pistolas semi-automáticas *Mauser C96*Luger P08. A vantagem que ambas apresentavam era um acessório especial: uma peça de madeira que, fixada à empunhadura da arma, funcionava como coronha e transformava o conjunto em uma pequena carabina; retirada, servia de caixa de transporte. Tanto a C96 quanto a P08 tinham problemas: a primeira foi logo descartada por ser considerada muito frágil; a P08, embora muito suscetível à sujeira, estava disponível numa versão especial, reforçada. Esta se caracterizava pelo cano “pesado” (reforçado) de 200 mm, que aumentava a precisão do tiro, uma mira regulável até 600 metros e um adaptador que permitia disparos de três salvas. No meio da guerra foi desenvolvido um carregador tipo tambor, chamado de *“caracol”, com capacidade para 32 tiros. Foi esse acessório que, embora tendesse a emperrar com facilidade, chamou dos planejadores das “tropas de assalto” para a arma. A Luger “Artilharia” tinha sido originalmente destinada a soldados que estivessem impossibilitados de, em serviço, portar o fuzil regulamentar Mauser G98: artilheiros (daí o nome do modelo), motoristas, mensageiros, motociclistas, etc.

Mas a distribuição da P08 “Artilharia” era um “tapa-buraco”. Hutier buscava uma arma plenamente automática capaz de se deslocar junto com as seções de infantaria. Uma arma assim até já existia: a versão “aligeirada” da metralhadora pesada MG08, de notação *MGo8/15. Essa tinha sido projetada para dotar a infantaria de sufuciente poder de fogo para confrotar, no ataque, as posições defensivas das trincheiras inimigas. Só que a geringonça pesava, com bipé e um carregador preparado (ao invés das fitas de munição convencionais), mais de 18 quilos, e exigia equipagem de quatro homens. Ou seja, era muito canhestra para ser operada em condições de movimento. Em 1915, a Comissão Alemã para Teste de Fuzis decidiu lançar o requerimento para uma nova arma de conceito totalmente novo,  a começar pelo alcance útil – de 100 a 300 metros. Seu comprimento não devia ser maior que 90-100 centímetros - menos que a carabina regulamentar do exército -  e devia disparar, em modo automático, a munição-padrão de armas curtas, calibre 9 mm, pré-armazenada em um carregador  com pelo menos 30 cargas . E, principalmente, o peso não deveria ultrapassar 5 quilos, para permitir a operação individual. Inicialmente, os engenheiros pensaram em uma espécie de “super pistola”, mas os desenhos existentes se mostraram pouco adequadas à adaptação, visto que a alta cadência de tiro das armas automáticas rapidamente destruía o cano e o mecanismo de culatra. O jeito foi aumentar o comprimento e o peso, usando metal mais denso – e, por conseguinte, resistente. Mais importante, a cadência de fogo das metralhadoras convencionais (600-800 salvas por minuto) foi diminuída para algo em torno de 400-450 salvas. A menor intensidade da explosão, devido à munição menos potente, devia preservar a durabilidade do cano e do bloco de culatra; a menor  velocidade de boca aumentaria a durabilidade do cano. 

O projeto aprovado foi apresentado pela equipe do engenheiro Hugo Schmeisser, da empresa Bergmann Waffenfabrik. A *arma apresentada utilizava munição 9X19 Parabellum, e funcionou muito bem em todos os testes. Nesse período, um fato a mais mostrou-se promissor: a cadência menor permitia controlar a arma, durante o disparo, somente com as mãos, o que eliminava a necessidade de um bipé. Para a distribuição, o modelo recebeu a notação MP (Maschinenpistole) 18/I. É curioso que, até hoje, não se descobriu o que significava a letra “I”.

Essa arma foi a avó de todas as pistolas-metralhadoras (vamos passar a chamá-la de “submetralhadora”, que é como o Exército Brasileiro a denomina). Apesar se mostrar produto de alta qualidade, a MP18 foi muito pouco usada durante a 1ª GM, distribuída em números muito baixos (calcula-se que a produção não tenha passado de 10.000 unidades). Como a MG08/15, foi usada principalmente pelas “tropas de assalto”, que deveriam ter pelo menos três fuzileiros por pelotão armados com ela. Embora sua fabricação e uso militar tenham sido proibidos pelo Tratado de Versalhes, o uso policial foi permitido, e logo apareceram versões no calibre 7.65 mm. Quase imediatamente após o final da guerra, vários países começaram a fabricar *armas semelhantes, principalmente para uso policial. As características básicas de todas elas seguiam as da MP18.

Uma dessas características era a ergonomia. A Bergman manteve, no desenho, características de fuzil – a coronha, em madeira, estendia-se desde a parte da caixa de culatra que ficava sob o receptor; esta seção também servia de empunhadura dianteira. Finda a caixa de culatra, a coronha projeta-se para trás, compreendendo essa seção, na Bergman, cerca de um terço o comprimento total da arma (que era de pouco mais de 83 centímetros). Essa solução remonta, nos fuzis, ao final do século 16 e visa facilitar a pontaria. A coronha permite que a arma seja apoiada no ombro do atirador, e assim parte da energia produzida pela explosão da pólvora é absorvida pelo corpo (do coitado…) – que, a cada tiro, leva uma pancada (“coice”) que pode lhe quebrar o omoplata. A ergonomia de fuzil também se expressava, na MP18, numa característica distintiva: o carregador se alojava na lateral da caixa de culatra. Ao que parece, essa solução foi adotada para permitir que o usuário empunhasse a arma com a mão esquerda na frente, enquanto a extensão da coronha apoiava-se no ombro direito. Os desenhistas imaginaram que o uso da pistola-metralhadora seguiria o conceito de tiro de precisão (o atirador aponta diretamente para o alvo). Logo ficou demonstrado o equívoco: o pequeno alcance e a baixa precisão (comparados com os de fuzil) combinados ao fogo automático em condições de movimento mudavam a forma de uso. Já que a arma podia ser controlada apenas com as mãos, a tendência passou a ser o “tiro instintivo”: na altura da barriga, em ângulo com relação ao eixo vertical do corpo, a arma era posta na direção do alvo para o disparo de rajadas curtas (de dois a três segundos, quatro a seis salvas).  Na prática, o que acontecia é que o atirador ignorava o mecanismo de pontaria e o carregador lateral acabava funcionando como empunhadura dianteira, o que tornava o manejo mais confortável. O recuo relativamente suave tornava possível encostar a coronha na barriga ou no braço, coisa que seria impensável com um fuzil.

Essas hipóteses se comprovaram não apenas com a experiência das “tropas de assalto”, mas principalmente durante os distúrbios civis de 1919, na Alemanha, quando a *arma se revelou ideal para combate a curta distância.

Mas tanto quanto o exército do Kaiser, o ramo terrestre das reduzidas “Forças Armadas Nacionais” (Reichswehr) pós 1919 não mostrou lá muito interesse pela submetralhadora. Por volta de 1935, quando, já no governo nazista, se iniciou o rearmamento das forças armadas, a distribuição ampla desse tipo de arma, não foi, em princípio, planejada. Sua utilidade era vista apenas para funções secundárias, e não para tropas de combate. As lições da Guerra do Chaco e da Guerra Civil Espanhola apontavam a funcionalidade da arma, mas apenas em 1937 o Exército começou a procurar por um modelo que pudesse ser largamente distribuído. E, mesmo assim, em função das necessidades observadas no ambiente das forças altamente móveis que estavam sendo criadas, mecanizadas e aeroterrestres. Essas forças precisavam de uma arma leve, compacta e que permitisse ao soldado transportar maior quantidade de munição. Em 1936, uma requisição do Departamento de Armamento do Exército (Heeres Waffenamt) estabeleceu essas características para a nova versão, e ficou claro que a ergonomia de fuzil não servia mais. A empresa alemã Erfurter Maschinenfabrik Gmbh (Erma) iniciou o desenvolvimento de um modelo conformado às especificações apresentadas. 

O problema é que a doutrina alemã mudara pouco, no geral. Fora das forças blindadas, continuavam basicamente as mesmas da 1ª GM, ou seja – o combate de infantaria baseava-se no “peso de fogo”, ou seja, em muito infantes avançando coordenadamente e atirando de forma escalonada e coordenada, com armas que disparassem um projétil relativamente pesado numa distância útil alta com precisão razoável. Esse cartucho já existia: era o IS (Infanterie Spitz, ou Infantaria, Ponteado) em uso desde o final do século anterior, a partir do fuzil G98 e da carabina (fuzil encurtado) *KAR98K. A indústria alemã de armamentos, apesar dos grandes investimentos que recebeu, crescia lentamente e sua capacidade de desdobramento revelou-se limitada. Parecia às mentes cartesianas dos planejadores econômicos e militares um tanto absurdo mandar para o espaço as máquinas e gabaritos, bem como os processos industriais e treinamento dos operários. Não foi outro motivo que a Wehrmacht entrou na guerra usando o mesmíssimo armamento individual da guerra anterior. Nem mesmo um rifle semi-automático, do tipo dos utilizados pelos norte-americanos, foi cogitado::

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Drops para o fim de semana::

E, não é por nada, não, um senhor drops… O texto que se segue é uma tradução da apresentação de uma obra monumental, nuncapublicada em nosso português: A world at arms: A global history of World War II, de Gerhard L. Weinberg. Nascido na Alemanha em 1928. o professor Weinberg serviu como tenente na Inglaterra em 1945, e depois permaneceu um ano no Japão, até 1947, quando deu baixa. Cursou Estudos Sociais na Universidade Estadual de Nova Iorque, em Albany e, em 1951, obteve seu doutorado, na Universidade de Chicago. Desde então, tornou-se um dos grandes especialistas no tema, e seu principal argumento é que a Segunda Guerra Mundial ou é tratada como um todo de partes totalmente articuladas, ou será abordada como narrativa das operações militares. Essa perspectiva global e multidimensional permite ao estudioso perceber como se integravam as diversas regiões do globo e como a tomada de decisões, nas áreas centrais, muitas vezes tinha de levar em consideração regiões totalmente afastadas e personagens aparentemente não muito envolvidos no conflito. É de Weinberg também a idéia de que, sem a perspectiva global, a guerra seria reduzida a conflitos localizados, por mais sangrentos que tenham sido.

O redator aqui lê Weinberg já faz 15 anos, desde que adquiriu, por 66 dólares a edição hardback (um dinheirão, na época) do calhamaço de 1177 páginas (a edição de bolso custa bem mais baratinho). Claro que, desde então, nunca acabou a leitura e, volta-e-meia, é assombrado por idéias de fazer uma tradução – idéias que, invariavelmente, desaparecem diante dos mais de dois quilos que pesa o volume…::  

Quando voltar para casa/Fale a eles sobre nós e diga:/Por seu amanhã /Lhes demos nosso hoje.

Este texto está inscrito num memorial aos soldados britânicos que foram mortos em uma das mais desesperadas e menos conhecidas batalhas da Segunda Guerra Mundial: a luta em torno da cidade de Kohima, na Índia Oriental, não muito longe da fronteira com a Birmânia. A partir desse lugar o exército japonês tinha iniciado a marcha em direção a  Delhi, em 1944. Em Kohima , soldados ingleses e indianos derrotaram uma força japonesa, que era complementada por alguns indianos.  Estes  acreditavam que os japoneses tratariam o povo de seu império colonial tal como tratavam os coreanos - muito melhor do que os britânicos tratavam seus próprios colonizados. O líder daqueles indianos que desejavam a vitória do Japão e Alemanha sobre a Grã-Bretanha,  EUA e  União Soviética, era um homem chamado Subhas Chandras Bose. Ele tinha voado da Índia até a Alemanha, através da União Soviética durante o período do Pacto Nazi-Soviético de Não-Agressão e tinha tido a oportunidade de ver pessoalmente a “maneira  gentil” como os alemães tratavam aqueles que conquistavam. Em 1943 os anfitriões o puseram num submarino e o despacharam para o Oceano Índico, onde foi transferido para um submarino japonês, no qual completou a jornada para a Ásia Oriental.

Essa série de eventos interrelacionados pode servir para ilustrar porque parece apropriado tentar escrever sobre a Segunda Guerra Mundial a partir de uma perspectiva global. Para as origens desse vasto conflito é possível e apropriado buscar um tema que permita ligar diversas histórias complicadas; parece convincente que a política externa da Alemanha de Hitlerfornece tal tema.

A despeito das ambições conflituosas, rivalidades e ideologias das potências mundiais nos anos de 1920 e 1930, é seguro estabelecer que a excessão da Alemanha, nenhuma nação européia considerava como concebível que outra guerra mundial fosse meio apropriado de resolver os problemas que confrontavam. Guerras locais, movimentos agressivos específicos ou tentativas de subversão e erros de cálculo que conduzissem a hostilidades – tudo isso era concebível, e de fato acabou acontecendo. Mas sem a tomada de iniciativa da Alemanha, outro holocausto de alcance mundial teria sido inconcebível para os contemporâneos de todos os países – além de, restrocpectivamente, inimaginável para qualquer historiador. Desse modo, o curso da política externa da Alemanha fornece o mais óbvio princípio organizador para qualquer história das origens da Segunda Guerra Mundial.

Porem, uma vez que os alemães abriram, em setembro de 1939, as hostilidades, o conflito adquiriu sua própria lógica. As iniciativas alemãs dominaram seus primeiros estágios, mas mesmo naquela época, nem sempre seguiram do modo como tinham imaginado seus arquitetos. No verão de 1940 a guerra européia já tinha tomado forma muito diferente daquela que tinha sido confiantemente planejada em Berlim. E a entrada do Japão tornou ainda mais amplo o conflito, como ardentemente queriam e há muito clamavam, os alemães. Ao mesmo tempo, o ataque a Pearl Harbour alterou, de forma dramática, as dimensões e a natureza da guerra. Não fossem as vitórias alemãs de 1940, Certamente os japoneses nunca teriam expandido as hostilidades com a China, abertas por eles em 1937, tornando-as parte de um conflito mais amplo. Sem essas vitórias a luta na Ásia Oriental, ainda que terrível para todos os envolvidos e especialmente para os milhões de chineses mortos nela, teria continuado uma guerra localizada, como tinha sido a outra guerra entre o Japão e China, travada em 1894-95. Mas uma vez que o Japão decidiu estabelecer um novo império no sudeste asiático tinha chegado, nenhum dos participantes pode mais atuar na grande conflagração como teria preferido. Todos teriam de ajustar-se as necessidades – e mesmo aos terrores - do momento.

Em face da complexidade resultante da conflagração, parece impossível delineá-la como tema unidimensional. Por outro lado, muitas das narrativas existentes tratam a guerra de perspectivas curiosamente paroquiais ou compartimentando-a em diferentes áreas geográficas, que passam a ser tratadas como dependências uma das outras. Mas é uma característica da conflagração que tomou o mundo entre 1939 e 1945 que os eventos que a formaram tiveram lugar simuntaneamente em diferentes partes do globo; os líderes e os comandantes fizeram face, de modo simultâneo, a enorme variedade de decisões, e as repercurssões que teriam, em áreas distantes dos centros da crise, essas decisões, tinham de ser sempre levadas em conta.

É desse ponto de vista global que a Segunda Guerra Mundial deve ser abordada, enfatizando-se, em especial, as interrelações entre os diferentes teatros de guerra e as escolhas feitas pelas lideranças. Isso significa que os detalhes sangrentos do combate, do constante desafio do controle do mar e o interminável tédio das sistemáticas operações militares, repentinamente quebrado por situações aterrorizantes, pode ser eliminado, ou, no mínimo, obscurecido. Não é intenção, entretanto, colocar de lado os sacrifícios individuais e coletivos daqueles que, em todos os lugares e de ambos os lados, fizerem a guerra. 

Um problema adicional, e muito particular, parece afetar  grande parte da literatura sobre a Segunda Guerra Mundial. Os especialistas por vezes esquecem o fato de que aqueles que tiveram de fazer escolhas e tomar decisões, em ambos os lados, eram frequentemente influenciados pelas memórias da guerra precedente, de 1914-18, e não tinham- como nós agora temos - a menor perspectiva do que viria depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Eles tinham suas esperanças e seus temores, mas nenhum desses era, com certeza, daqueles que a análise retrospectiva faz surgir, quando se considera uma situação com muitas alternativas a considerar, todas elas repletas de riscos que dificilmente poderiam ter sido concebidos na própria época::

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Prussianos antes, alemães depois e a aceleração da História::

 parte2/2Falávamos da “aceleração da história”, e o redator:: está tentando argumentar que a 2ª GM teria sido a culminância de um processo desses, característico da modernidade. Claro que, produzidos por um historiador amador, os argumentos parecerão capengas, mas pelo menos devem ser suficientes para mostrar como a sociedade alemã que produziu Hitler e seus comparsas foi a mesma formação conservadora que optou, sessenta anos antes, por um processo de unificação que desse à nova nação a cara organizada, burocrática e militarista da Prússia.

Outros sessenta anos antes, o período em que os exércitos franceses levaram a transformação social na ponta de seus estandartes e baionetas, talvez possa ser identificado como outro processo de “aceleração da história”. Embora tivesse mitigado as transformações revolucionárias na França, Napoleão contribuiu para abalar as estruturas tradicionais por toda a Europa. Apesar do conservadorismo, tradicional nos estados da região hoje chamada de “Alemanha”, as idéias liberais introduzidas lá durante a guerra pegaram. Baseada na difusão de pequenas manufaturas e companhias de comércio, certas regiões viram a formação de forte classe empresarialque influenciou o resto da região reivindicando reformas de caráter econômico e administrativo – por exemplo, unificação de padrões de medida e eliminação de restrições à circulação. Essa gente, quando teve de procurar aliados, buscou a burocracia do estado, formada por membros da empobrecida aristocracia rural e (nos extratos mais baixos) por homens de letras, professores e advogados.

A Prússia, desde o final do século 18 vinha passando por forte industrialização, baseada em certos ramos da indústria pesada. Tinha, junto com a região do Reno (também em processo acelerado de mudança econômica), interesse nessas reformas. Só não queria (de fato, seus governantes tinham arrepios diante de tal perspectiva) que elas saíssem do controle da elite política: uma coisa era fazer mudanças no regime de aduanas; outra, muito diferente, era liberalizar o regime de propriedade de terras (lá, o feudalismo só foi abolido de vez em 1900) ou de acesso e progressão no serviço público. Por outro lado, as lideranças empresariais viam na rigidez política uma vantagem, já que a unidade de princípios no governo aumentava a eficiência e prevenia que as reivindicações por mudanças políticas acabassem se desdobrando em demandas por mudanças sociais (um artigo sobre o tema aqui). Curiosamente, ambos os lados – liberais e conservadores – viam na unificação a solução para a fraqueza crônica da região, pela qual tinham desfilado, quase sem oposição, os exércitos franceses do período revolucionário. Entretanto, as diferenças políticas não eram pequenas e eram de difícil conciliação. No ano de 1848, o caldeirão ferveu: diversos Estados alemães viram estourar revoltas civis.

No início, as manifestações juntaram vários segmentos políticos num movimento por um parlamento nacional eleito, que elaborasse a constituição de uma Alemanha unificada. Uma Assembléia Nacional de deputados eleitos em todo o território germânico – o Deutscher Bund – se reuniu para a elaboração da nova constituição nacional. Parte da assembléia defendia uma união que incluísse a Áustria, enquanto outra parte defendia a liderança prussiana e a exclusão da Áustria. A solução encontrada foi entregar o governo aos Hohenzollern (a dinastia prussiana). O problema é que o rei Frederico Guilherme IV não aceitou, nem a Coroa nem a constituição, mesma atitude da casa da Áustria. A carta magna proposta teve o condão de desagradar todo mundo, inclusive a sociedade, que pretendia ver diminuído o poder da nobreza, como na França e Inglaterra. A violenta repressão ao movimento popular acabou por suspender as reformas políticas.

A Revolução de 1848 apontou o caminho que passou a ser visto como mais viável: a unificação alemã liderada pela Prússia e pelos Hohenzollern. A violência dos conflitos de rua e a agitação nas cidades acabou por aumentar a desconfiança das classes empresariais e da classe média urbana, que passaram a ver os ativistas liberais e o operariado como politicamente inconfiáveis. 

E nem todos viam a unificação com simpatia. Aristocratas dos pequenos estados anteviam seus interesses facilmente postos de lado, numa Alemanha unificada; a Áustria, predominantemente católica, temia ver sua predominância no sul da Alemanha questionada. A Prússia não via a Áustria com simpatia, pois esta tinha um peso político inegável, além de economia relativamente próspera. Além do mais, Viena era cabeça de um império multinacional e multi-étnico, onde a língua oficial podia ser o alemão, mas tinham peso grupos culturalmente diversos, que certamente não caberiam numa formação política que via na língua e na cultura mais-ou-menos uniformes sua identidade (um excelente artigo – um  tanto longo – sobre o tema aqui).

Por esses motivos a unificação alemã sob a regência dos prussianos não era projeto sem problemas, mesmo que tal formato fosse visto como mais-ou-menos natural: por volta de 1850, a Prússia, potência militar, superou economicamente a Áustria. A liderança política veio em 1862, com a ascensão ao trono de Guilherme I. O novo rei era também especialista em questões militares, e logo promoveu uma reforma nas forças armadas prussianas, particularmente no Exército Real (Königsheer) – o país tornou-se a principal potência militar centro-européia. Os industriais foram convocados a desenvolver uma forte indústria de armamentos, que se destacou na Europa e  abriu uma tradição de suporte do Estado às indústrias militares e de máquinas.

O projeto conservador de unificação foi de fato coordenado por Otto von Bismarck, ex-embaixador na Rússia e na França, nomeado kanzeller (primeiro-ministro) pelo rei no dia seguinte à coroação. Membro da aristocracia rural alemã favorável a uma monarquia forte, Bismarck sabia muito bem que a aliança com a nobreza rural (junkers), era o esteio da monarquia. Por outro lado, percebeu que a grande burguesia industrial não podia ser ignorada. Assim sua política era bipolar: internamente, apoiou a posição da nobreza rural, garantindo-lhes as prebendas – acesso automático ao Exército e ao funcionalismo público; externamente, implementou os interesses da classe empresarial, por fortalecer a união das aduanas, forma segura e já consolidada de integrar os Estados alemães. O kanzeller também estendeu as reformas militares, além oferecer os métodos prussianos a outros Estados. Exacerbando o sentimento nacionalista, reuniu os Estados contra inimigos externos, em três rápidas guerras, decisivas para consolidar a unificação: A Guerra dos Ducados (1864), contra  Dinamarca, a Guerra Austro-Prussiana (1866) e a Guerra Franco-Prussiana (1870-1871). Bismarck e seu principal assessor militar, o ministro von Möltke (ainda hoje considerado um dos grandes pensadores militares do século 19) promoviam uma estratégia geral de dividir o adversário através de movimentos amplos que buscavam pressioná-los pelos flancos (manobra conhecida como “desbordamento”). Esses procedimentos mostravam grande compreensão, por parte dos prussianos, do espírito da guerra moderna.

É interessante observar que, estruturalmente, as reformas militares de 1862-63 reforçaram a posição da nobreza rural prussiana. Esta comandava camponeses mobilizados na Prússia Oriental, na Silésia e no Brandenburgo. Depois da unificação parte considerável do efetivo passou a ser convocada na Baviera e no Würtemberg, mas o grosso da oficialidade de carreira, assim como o Estado-Maior Geral (de onde saía o comandando do exército), continuou a ser majoritariamente prussiana. Após a unificação, a Prússia – agora 2° Reich -, engajou-se na corrida imperialista, em grande desvantagem para a Inglaterra e a França, e até mesmo para a Itália. O controle de colônias era visto como condição sine-quae-non para a continuidade da expansão capitalista (esse processo foi descrito, de forma magistral, por Lenin, no opúsculo Imperialismo, fase superior do capitalismo) e a guerra imperialista é a resposta para tal impasse, conseqüência lógica do desenvolvimento capitalista em sua fase superior, a dos monopólios e domínio do capital financeiro (mais sobre o tema aqui).

Esta guerra foi a 1a GM, que o Império Alemão lutou com a estrutura organizativa e administrativa prussiana, principalmente o Exército. O enorme esforço representado pelo conflito acabou forçando a estrutura política, depois de 1915, para um regime semelhante a uma ditadura militar. Nenhuma espécie de oposição ou obstáculo aos objetivos militares era tolerada. A coordenação geral era exercida por Hindenburg e principalmente por Ludendorff (que eram ambos prussianos), com o Kaiser aparecendo como figura de proa. A história da “facada nas costas” (que é uma fantasia, mas não inventada pelos nazistas) vem daí – em dado momento, por volta de setembro de 1918, começaram a surgir revoltas e indisciplina principalmente na Marinha (um excelente – e longo… – artigo sobre o tema aqui), por causa da mobilização total que estava provocando escassez de alimentos e de combustíveis. O Kaiser e a estrutura civil agiram rapidamente para tirar a Alemanha da guerra. Claro, isso não seria feito sem a anuência do comando do exército, e não é à toa q os SA diziam, na ascensão do nazismo, que “esses aristocratas de merda perderam uma guerra e com certeza vão perder outra”.

Os nazistas herdaram a estrutura civil e militar prussiana, sem nenhuma mudança. O fim repentino da guerra – o armistício de novembro – e o  fato de que o exército não foi totalmente derrotado (de fato, a situação era de impasse estratégico) fizeram com que a Alemanha não chegasse a ser ocupada. A desmobilização imposta à Alemanha, que entregou seu armamento sem dissolver as forças armadas, acabou, de certa forma, preservando a estrutura militar. O período de agitação política inaugurado em 1919 acabou fazendo com que os aliados aceitassem que a repressão fosse conduzida pelos próprios alemães. Os exércitos privados que lutaram pelo controle das ruas, na década seguinte, se formaram nessa conjuntura, com base na estrutura dos “Corpos Francos”, unidades formadas por combatentes desmobilizados em 1918, mantidos juntos como tropas paramilitares.

Foi o caldo de cultura no qual se alastrou o radicalismo. As SA (Sturm Abteilugen – “Seções de Assalto”) tropa de rua do Partido Nacional-Socialista foram um dos muitos exércitos privados, reforçados, depois de 1929, pela crise geral. Esse período observou intensa disputa entre movimentos que, no panorama da instável democracia liberal, pretendiam mudar o Estado de modo revolucionário. Todos (inclusive os comunistas) pretendiam herdar a estrutura prussiana, embora quisessem se livrar da tradição prussiana. Ernst Röhm, radical militarista, um dos personagens mais interessantes da primeira fase do nazismo, era um desses divergentes. Tinha idéias de formar um exército popular baseado em mobilização massiva e treinamento constante, com as SA no comando da formação de reservas e do treinamento de recrutas, o que significava tirar o poder da aristocracia militar. Acabou assassinado em 1934 por seus comparsas.

No artigo acima (talvez um pouco longo…) vimos diversos exemplos da “aceleração da história”. Trata-se de um conceito decorrente de uma teoria - o “materialismo dialético”, tentativa de tornar científica a disciplina da história. O conjunto de fatores derivados de um determinado movimento histórico combinados, levam à sua superação (para uma introcução bastante completa, clique aqui). O materialismo dialético pretende ser, ao mesmo tempo, o fim da filosofia e o início de uma nova filosofia, que não se limita a pensar o mundo, mas pretende transformá-lo. Esse tipo de ativismo é bastante característico da “modernidade”: o homem se torna sujeito da ação.

Os nazistas pretendiam superar o que sua doutrina via como obstáculos estruturais da sociedade alemã, e assim acelerar a chegada a um objetivo de longo prazo - uma utopia.  Através do equilíbrio forçado e mesmo da eliminação, de contradições inerentes à formação histórica e organização política da Alemanha, visavam uma sociedade sem tensão, uma espécie de formigueiro no qual cada um sabia seu lugar e o futuro seria apenas algo a ser aguardado, e não uma incógnita decorrente do caos inerente à realidade objetiva (os pensadores iluministas já reclamavam disso). A aceleração desse processo seria buscada via rompimento institucional, mas contradições dificilmente são superadas dessa forma, pois a superação cria outras contradições, e acaba determinando a necessidade de novos movimentos de aceleração. O exemplo objetivo desse limite foi a mantenção da estrutura do Estado prussiano, com suas instituições autoritárias por formação (o serviço público) e militaristas (o exército prussiano). A remilitarização de 1935 foi o ponto de chegada de uma série de concessões aos prussianos, que assumiram o processo. A “parte nazista” dizia respeito à coordenação da economia e da produção. O partido tornou-se parte da máquina de Estado, e não apenas coordenação da máquina de Estado, e seus agentes passaram a dizer diretamente às classes empresariais o que fazer. Por outro lado, a estrutura de base continuou a mesma, ou seja, o serviço público se organizando em torno e com a finalidade de servir aos interesses do Estado, e não propriamente ao público (característica do serviço público alemão que Marx, muito tempo antes, já tinha percebido, quando ainda era estudante de doutorado). Os servidores públicos não eram obrigados a se filiar ao partido – apenas se esperava que servissem ao Estado sem discussão. Trata-se de uma espécie de “processo revolucionário pela metade”, mas ainda assim, a característica de rompimento era importante, tanto que os primeiros membros do movimento – Gregor e Otto Strasser, Enst Röhn, Viktor Lütze, se diziam revolucionários lutando contra a sociedade “burguesa”.  

Como não se pode esperar que todo mundo concorde conosco (outra característica inerente ao homem), a única coisa que os nazistas realmente mudaram foi a polícia, por motivos óbvios. Essa instituição passou a ser diretamente subordinada aos governos das “Ländern” (algo como “províncias”, com certo grau de autonomia local - Himmler foi chefe de polícia da lande Prússia). Os nazistas esperavam mudar as estruturas do Estado a partir de uma posição interna, mas sem chegar a mudar as estruturas da sociedade alemã. Foi assim com o Exército: os nazistas não confiavam totalmente nos “aristocratas prussianos”, mas dependiam deles, inclusive para manter a disciplina. Mas, ao mesmo tempo que mantinham e ampliavam os privilégios dos militares, criavam uma estrutura paralela, a Waffen SS – apesar do nome e ter Himmler por comandante nominal , na prática separada da SS policial – que emulava a estrutura do exército. Não se pode afirmar que, com a vitória, essa estrutura acabasse por substituir o Exército tradicional. E nem se pode afirmar o contrário. Por sorte, podemos agora apenas especular:: 

Essa é uma indicação de que os nazistas tinham em mente uma espécie de revolução conservadora, baseada na reestruturação, sem modificações radicais, da sociedade e de suas instituições. Sua ascensão é evento característico da modernidade.  Talvez seja também o ápice da crise de uma modernidade que, como todos os processos humanos, surgiu cheia de defeitos, mas também teve algumas qualidades. E – na opinião do redator:: um tanto pessimista – como em todo processo humano, os defeitos prevaleceram sobre as qualidades…::

Coroação de Guilherme I Hohenzoller como Kaiser do Império da Alemanha em Versalhes (Paris, 1871). Último ato de uma curta guerra (contra os franceses) e de um longo processo. Alegenda em alemão diz "Nós levamos o reino prussiano para a cova". O tempo mostraria que nem tanto...

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Drops para o fim de semana::

Drops extraídos do excelente livro Alemanha, 1945: Da guerra à paz, de Richard Bessel (Companhia das Letras, 2009, 483 p.). O Doutor Bessel é conhecido nos arraiais especializados como dos pesquisador dos temas “fim da guerra”  e “pós-guerra”, e não apenas “pesquisador” (isto o redator:: aqui também é…), mas “bom pesquisador”. O tema é particularmente interessante pois as análises militares frequentemente desviam a atenção, mesmo quando o leitor é especialista, do fato de que, em 8 de maio de 1945 a Europa – incluindo aí os vencedores (claro, com excessão dos EUA) – estava arrasada. Enormes problemas políticos, sociais, econômicos  e humanitários se colocaram diante das potências que ocuparam a Alemanha. Embora tenha sido a base sobre a qual construiu-se a Europa moderna, particularmente sua metade ocidental, esse período traumático tem merecido pouca atenção. O ponto alto da pesquisa de Bessel é exatamente chamar atenção para o fato de que, em 8 de maio, o povo alemão, sem governo, com a instituições civis em colapso e o país em ruínas, mergulhou nas trevas. Também é interessante observar que, dentre as maiores preocupações dos Aliados – que tinham plena consciência dos problemas e da urgência em enfrentá-los -, no topo estava  a assim chamada “desnazificação”, objetivo associado à extirpação do “militarismo prussiano”. O professor Bessel, que leciona História do Século Vinte na Universidade de York, reconhece (e com ele, este redator::) que a desmontagem das estruturas cuja origem era muito anterior ao surgimento do nazismo, e  sobre as quais cresceu a asquerosa besta fascista foi o mais importante e durador produto da vitória. Tudo bem que os acordos entre as potências urdidos meio às pressas e com cada um querendo garantir sua parte do botim nos legaram um mundo injusto, desigual e problemático. E cheio de guerras, quentes e frias. Mas pelo menos a humanidade que vive sobre ele pode pensar em cuidar da vida sem armar, periodicamente, uma matança em escala global. Vale à pena lembrar de vez em quando, que talvez devamos nossas existências ao período que se abriu em 9 de maio daquele ano::

O povo alemão combina, da maneira mais letal, as qualidades do guerreiro e do escravo. Não valorizam a liberdade, e o espetáculo da liberdade alheia lhes parece odioso. Sempre que se tornam fortes buscam uma presa, e seguem com disciplina férrea qualquer um que os lidere nessa busca. O cerne da Alemanha é a Prússia. Ali está a fonte da recorrente pestilência. … A tirania nazista e o militarismo prussianosão os dois principais elementos da vida alemã que precisam ser inteiramente destruídos se a Europa e o mundo quiserem evitar um terceiro conflito ainda mais devastados. (Winston Churchill em discurso na Câmara dos Comuns, 21 de setembro de 1943  – grifo do redator::

É nosso objetivo inflexível destruir o militarismo e o nazismo alemães e garantir que a Alemanha nunca mais perturbe a paz no mundo. Estamos decididos a desarmar e dispersar as forças armadas alemãs; dissolvel para sempre o Estado-Maior alemão, que reiteradamente encontrou meios de fazer ressurgir o militarismo alemão; remover e destruir todos os equipamentos militares alemães; eliminar ou controlar toda a indústria alemã que possa ser usada para a produção militar; exterminar o Partido Nazista, as leis, organizações e instituições nazistas; extirpar todas as influências nazistas e militaristas da vida cultural e econômica do povo alemão; e tomar outras medidas necessárias para a paz e aa segurança do mundo. Não é nosso objetivo destruir o povo da Alemanha, mas só quando o nazismo e o militarismo forem extirpados haverá esperança de vida descente para os alemães e um lugar para eles na política de boa vizinhança das nações. Declaração final da Conferência de Ialta (4-11 de fevereiro de 1945) — grifo do redator::

Convencidos que a causa principal da mais terrível das guerras está na natureza predatória da economia capitalista, do imperialismo do capital financeiro e da consequente depravação moral e política do lumpenproletariat e da pequena burguesia, exigimos que a crise social seja resolvida por intermédio de uma economia socialista. A Alemanha só poderá ser reconstruída economicamente numa base socialista. Construir ou destruir cidades como empreendimento capitalista é tão impossível quanto a reconstrução da indústria com o dinheiro dos contribuintes. Trecho do “Manifesto de Buchenwald”, redigido pelo ativista social-democrata doutor Herman Brill (1895-1959), depois chefe da administração civil da cidade de Weimar, instalado no cargo pelo Exército dos EUA em maio de 1945. Brill vagou de prisão nazista em prisão nazista entre 1938 e 1945, até ser libertado pelos norte-americanos do KZ (campo de concentração) Buchenwald, na Turíngia. Em julho, quando a administração da região foi entregue aos soviéticos, Brill não durou 15 dias no cargo. Opositor da administração comunista instalada a partir de então, acabou se  transferindo para a zona ocidental no fim do ano. Em 1948, foi um dos fundadores do reconstruído SPD (Soziademocratische Partei Deutschlands).

Os horrores do fascismo podem ter ficado para trás, mas temos de aguentar juntos suas consequências catastróficas também no futuro, evitar pacificamente os distúrbios que já se verificam. A educação para a democracia, para a paz e para a liberdade continua sendo a tarefa comum de uma frente unida antifascista tão ampla quanto possível. Não sabemos quais e quantos partidos surgirão na zona francesa. Mas seja a União Democrata-Cristã, sejam os liberais democratas, sejam socialistas ou comunistas, todos hão de reconhecer que a cooperação e a união são a mais importante força-motriz da reconstrução de nossa economia e de nosso novo Estado. [Esta é] a garantia do cumprimento das resoluções dos Aliados em Potsdam, na verdade da existência da nação alemã. Pois nunca mais a velha Alemanha nazista, militarista, imperialista e reacionária deverá ressurgir dos mortos; uma nova Alemanha de trabalho, de democracia forte e de paz honesta deve ser construída. O bloco livre antifascista, formado por todas as forças democráticas, será sempre seu firme alicerce. Trecho do “Manifesto” da Frente Antifascista de Kontantz, publicado pelo jornal Südkurier, da cidade de Konztantz, zona de ocupação francesa.

O Terceiro Reich está praticamente esquecido, todos se opõem a ele, “sempre” se opuseram; e as pessoas têm as idéias mais absurdas sobre o futuro. Victor Klemperer (1881-1960), intelectual mischilinge, no livro To the bitter end: The diaries of Victor Kemplerer 1942-1945.

Quado chegamos à cidade industrial de Halle no fim da tarde, as casas não destruídas estavam ocupadas por tropas de combate. Procuramos um lugar para passar a noite, mas não havia nada. Uma moça russa dirigiu-se a mim num alemão estropiado e perguntou onde estava o Kommandantur. Ela acabara de chegar à cidade, depois de fugir da fazenda onde trabalhava como escrava, e procurava desesperadamente alguém que pudesse ajudá-la. Não tinha nada, só o que levava nas costas, e seus olhos estavam úmidos de choro. Quero ir para casa“, disse, soluçando. Por favor, me ajude a ir para casa. Tenho apenas dezessete anos.” Saul Padover (1905-1981), historiador e professor universitário norte-americano, capitão do Exército do EUA destacado para o Departamento de Serviços Estratégicos (OSS, na sigla em inglês), , abril de 1945.

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Prussianos antes, alemães depois e a aceleração da História::

 

parte1/2No post anterior, abrindo minha comemoração particular,etc., etc., e talvez em função dos sentimentos que esse evento me desperta, usei a afirmativa “pretensões de opressão universal”, para qualificar as ambições alemãs em 1914. É possível que tenha exagerado. E, na linha desse raciocínio, lancei mão de um conceito controverso: “aceleração da História”. Isso diz respeito a queimar etapas do processo histórico (uma reflexão interessante sobre o tema, aqui). Segundo outros teóricos, implica passar do pensamento à ação.

Como o texto provocou pelo menos um contraditório, (pelo Luiz Candido, um dos oito ou nove leitores fiéis de causa:: – na íntegra, o texto está na área de comentários da postagem anterior) , resolvi refletir um pouco e voltar à pesquisa, pois o debate merece complementações, e elas podem começar com a seguinte afirmação – que começo por reconhecer controversa: pelo menos entre 1870 e 1939, e dada a conjuntura histórica do período, a Alemanha tinha a tendência a provocar guerras de agressão.

Falar em “conjuntura histórica” é uma tremenda pretensão. O redator::, embora se admita um tanto delirante (só às vezes – nem sempre…), sabe que essa discussão, no que tange à Alemanha ou qualquer outra formação política, seria tema para um livro – ou vários -, não para um modesto recurso de pesquisa. Entretanto, não podemos deixar de lado certas observações que nos permitam caracterizar a Alemanha do período. E, no caso, temos de estabelecer: essa formação política tem de ser chamada das Reich. Isso significa “o Império”, “o Domínio”. O “Terceiro Império” (ora eles diziam das Drittes Reich, ora das Deutsches Reich) foi inaugurado em 28 de fevereiro de 1933, no evento de um decreto que suspendeu os direitos civis. Então em posição de força  os nazistas acabaram com a experiência republicana inaugurada em 1919 e buscaram estabelecer continuidade com o “Segundo Reich” (uma visão geral do assunto aqui).

Esse conjunto de eventos se insere na linha geral do advento da “modernidade” (mais sobre o tema, aqui) e da busca pelas utopias políticas. A modernidade avança por uma longa seqüência de processos e eventos históricos articulados. Em geral, pode ser caracterizada pelo surgimento dos estados centralizados, pela crise do sistema feudal, pelo racionalismo, pela emergência do capitalismo e pela maquinização da indústria e de amplos setores da vida social. E é plena de tentativas de aceleração da História.

As origens da 2ª GM só podem ser entendidas em continuidade com o processo de unificação da Alemanha. Esse evento foi característico da conjuntura européia da segunda metade do século 19, época de agitação política, reivindicações de descompressão social e mudanças institucionais. No caso da Alemanha, estamos falando de condições históricas e políticas observadas na Europa Central, que incluem o desaparecimento tardio do feudalismo e o caráter do surgimento do capitalismo por lá, a partir do início do século 19.

A região que hoje em dia chamamos de “Alemanha” era, de fato, uma colcha de retalhos de pequenas formações políticas de características feudais, que viviam sob a influência de alguns grandes estados, principalmente a Prússia e a Áustria. Também é bom lembrar que desde a Idade Média a região foi caminho de todas as guerras européias. Essa característica de campo de batalha dos grandes impérios (Rússia, Suécia, Prússia, França, Áustria, Otomano – só para falar dos que me lembro no momento…) influenciou as formações sociais que surgiram lá, particularmente a Prússia. O que entendemos hoje por “soldado alemão” e “exército alemão” era, de fato, o sistema militar prussiano, estabelecido a partir do século 17, e consolidado após a Guerra do Norte (1700-1721). Mas é claro que nenhum leitor de causa:: imagina que exércitos dêem em árvore: essas corporações surgem das condições políticas e estratégicas dos estados que demandam deles para a própria defesa e expansão. E não surgem sozinhos: exércitos bem organizados sucedem à burocracias de estado bem organizadas. Aí está, no caso, o ”xis” da questão.

A formação do Reino da Prússia remonta a 1701. Não é o caso de entrar em detalhes (eles estão no link Prússia, acima) – importa que, desde seus antecedentes, era formação política rigidamente centralizada, na qual o rei governava por delegação da nobreza, e desta saíam os quadros da burocracia de estado e do exército permanente. As profissões de servidor público e de militar acabaram sendo, por causa disso, quase uma segunda natureza para os membros dessa categoria social.

Em torno desse sistema também se formou uma classe média urbana que ocupava cargos intermediários e técnicos do serviço público, e servia ao exército, do qual constituía a reserva. Assim, manter o controle do serviço público e da profissão militar significava manter o status.quo, e vice-versa. Essa característica prussiana não era observada em todos os estados alemães da época, cuja organização variava. O fato é que nenhum deles tinha força para enfrentar a Prússia e a Áustria. Alguns dos estados maiores, como Saxônia, Baviera ou o Württemberg mantinham exércitos permanentes, mas a fraqueza econômica dessas regiões, provocada pelo natureza parasitária das categorias superiores, fazia com que procurassem alianças uns contra os outros e contra os maiores.

É de se perguntar porque as classes populares não se levantaram, como na França e em outros lugares da Europa. Reposta (simples): o controle da burocracia e do exército, assim como a anuência da classe media tornou improvável, em toda a região, o surgimento de regimes mais abertos, ao longo da segunda metade do século 18 e do século 19. Por outro lado, os interesses da nobreza rural e a influência do protestantismo – que propagava a probidade, a equidade e a dedicação – levaram à estruturação de estados relativamente bem organizados, contando com burocracias bem formadas e sólidas e centros de formação de boa qualidade. Ao longo do século 18, alguns princípios do Racionalismo e do Iluminismo foram bem recebidos na região, e contribuíram para melhorar um serviço público que já se destacava com relação aos congêneres da Europa ocidental e mediterrânica. Curiosamente, esse ambiente de racionalidade acabou possibilitando uma convivência menos beligerante das três principais religiões (o catolicismo romano, o luteranismo e o calvinismo), independente de qual delas estivesse mais próxima do centro do poder, o que também contribuía para uma estabilidade política altamente conservadora.

Nesse ambiente aparentemente tolerante, a nobreza não admitia questionamento de sua posição. Como o regime de terras de características feudais persistiu até o século 19, não houve o surgimento de uma classe de pequenos proprietários rurais plebeus, como na Inglaterra ou na França; também não havia nesses estados uma classe comerciante capaz de pressionar por seus interesses. Essas características determinaram o nível econômico da região, muito baixo, em comparação com outras áreas da Europa.

O período das guerras da Revolução Francesa e napoleônico não observou grandes modificações no quadro acima, já que a França seguiu a tendência secular de sua política centro-européia: manipular os pequenos estados alemães de modo a isolar, política e estrategicamente, tanto a Prússia quanto a Áustria. O rompimento da ordem institucional e as desordens sociais do período da Revolução pareceram confirmar os temores da nobreza e das classes médias dos principais estados, e o resultado foi o enrijecimento de um conservadorismo já bastante rígido.  Por outro lado, o período da guerra fez com que em ambos os grupos surgissem pessoas que passaram a ver como aceitável um sistema qualquer que aproximasse os estados, tanto é que foi forte a reação contra a deliberação do Congresso de Viena que indicava a reconstituição do Sacro Império Romano-Germânico, confederação de 300 estados, alguns minúsculos, ingovernável nas condições do século 19. Isso não significava, entretanto, qualquer simpatia das elites pelo liberalismo – por sinal, uma característica da região ao longo de todo o século 19.

Como todos (pelo menos aqui no blogue…) sabemos, tudo que existe na face da terra tem história. À esta altura, o redator:: imagina que, se o leitor chegou até aqui, já está vislumbrando as características que, hoje em dia, identificam o “alemão”: um sujeito metódico, disciplinado, conservador. Ou seja, apegado à ordem. Nem sempre foi assim: essas seriam as características do “prussiano”; nos pequenos reinos, a persistência de relações políticas feudais, sem o contrapeso de um estado rigidamente organizado e hierarquizado, tendia a tornar o ambiente político algo chegado a um caos, entravando qualquer desenvolvimento político e econômico.

A partir desse momento, e misturando no caldeirão o pós-Guerras Napoleônicas, as novas idéias políticas, o desenvolvimento de um capitalismo com características locais e a diversificação social resultante, talvez se aplique a idéia de “aceleração da História”. Veremos isso no próximo post::

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Uma data a ser escrita em ouro

Estejamos todos conscientes: escapamos de algo assim, ou talvez ainda pior.

Dia Oito de Maio de 1945 – assim mesmo: escrito em letras de ouro. Imagino que hoje, em diversos lugares do mundo, pessoas, jovens e idosas, estejam reunidas para comemorar o dia em que foi erradicada do mundo a praga do fascismo, em sua versão mais virulenta: o nacional-socialismo, desde então assombrando a todos nós sob a aglutinação nazismo. Não houve outro modo – tudo que pudesse ter sido lançado contra esse regime teria de ser lançado. A insistência no apaziguamento teria resultado num mundo sob influência fascista, e esse seria tenebroso. Seria um mundo de sombras, talvez de sombras nucleares. Mas certamente seria um mundo da pior desigualdade possível: a da escravização pela violência das armas.

De fato, o fascismo não morreu. Morreram suas possibilidades como forma de organização política. Pensando bem, talvez as únicas “guerras justas” dos últimos cem anos tenham sido as 1ª e 2ª Guerras Mundiais. Guerras contra as pretensões de opressão universal saídas das fantasias de homens de Estado, de governo e de seus seguidores, ensandecidos pela idéia de sociedades perfeitas.

Por “Utopias“. Como o nome diz, “não-lugar”, o “lugar nenhum”, a fantasia renascentista de uma sociedade totalmente equilibrada em suas contradições. Ouvimos muito falar do “fracasso das utopias” (se você ainda não ouviu falar, tudo bem, apure seus ouvidos aqui). A segunda metade do século 19 foi herdeira de mudanças sócio-econômicas revolucionárias, que praticamente libertaram o Ocidente das amarras e limitações impostas pela natureza. Os homens que lançaram, na segunda metade dos Oitocentos, as bases do socialismo e do fascismo não estavam mal-intencionados. Eram pensadores e políticos procurando entender as desigualdades extremas que se consolidaram entre seres aparentemente iguais uns diante dos outros. A resposta, em dado momento, pareceu brilhar em um “não-lugar” que poderia ser construído pela revolução. A ordem institucional equilibrada em seus contrários, baseada na justiça e na lei, vinha sendo construída paulatinamente. Se por um lado apresentava resultados aparentemente defeituosos – em grande medida mantendo e institucionalizando a desigualdade – por outro surgia de modo insuportavelmente lento para as massas que sofriam as consequências das novas tecnologias e da organização social e econômica decorrente. O século 19 foi um século de fábricas sombrias, cidades superlotadas, onde multidões trabalhavam sem recompensa e eram convocadas a lutar em guerras mortíferas que pareciam ter como finalidade aumentar a opressão. Em determinado momento, o rompimento da ordem institucional destinada, aparentemente, a manter tal estado de coisas pareceu a única forma de acelerar a velocidade da mudança. E “aceleração” foi, naquela época, quase um sinônimo de “modernidade”. A passagem do pensamento à ação, de objetos da História a sujeitos da História. Acelerar a caminhada até o “não-lugar”. Trazer a utopia para a realidade.

Não funcionou, e tivemos de passar por duas guerras declaradas e uma implícita, para perceber que a história tem seu próprio ritmo. A 2ª Guerra Mundial e a “Guerra Fria” que se seguiu, nas quatro décadas seguintes foram dois momentos semelhantes e diversos. Semelhantes porque foram o resultado das fantasias de homens de Estado dispostos a acelerar a História. Diversos porque a 2ª Guerra Mundial não teria resultado em uma “Guerra Fria”. A teoria e a prática políticas do nacional-socialismo só admitiam a violência como forma de interação, e a extinção do adversário como objetivo. Não havia meio-termo possível: ou você é como eu, ou está morto. Depois de 1945, as duas potências que, saídas dos escombros da guerra, pretendiam impor as visões de mundo de seus pensadores e governantes, admitiam debater. E uma delas até admitiu – não pacificamente, é verdade – que não tinha dado certo.

Assim, é opinião deste redator:: que o fim da 2ª Guerra Mundial continuará sendo comemorado e festejado, independente das mudanças por quais passe nosso mundo. E é assim que deve ser. O fim da União Soviética não é comemorado por ter sido apenas mais um movimento da História, e, como tal, de interesse da classe de cientistas que chamamos “historiadores”. E o socialismo, que viva, não como forma de organização política, mas como inspiração para a busca de uma sociedade se não justa, pelo menos menos injusta. O fim da 2ª GM e do fascismo, não. Será sempre data de interesse de toda a humanidade.

Pois bem, estamos entrando no mês da comemoração particular do redator:: Que usará de todos os subterfúgios que possa imaginar para convencer os oito leitores (ou já serão nove?..) de que Oito de Maio é uma data a ser escrita em letras de ouro::

O mês da Guerra do Paraguai::Ainda temos alguma coisa a aprender com os gringos::

É razoável considerar que o Brasil não se mete em tantas guerras quanto os EUA e a URSS/Rússia, desde sempre, ou a Grã-Bretanha, no século passado e no anterior. Mas muitos de nossos compatriotas morreram em combate, ao longo de nossa história, e o único cemitério nacional que construímos foi o Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial. Tivemos mortos antes, e tivemos mortos depois. Eles mereceriam alguma homenagem. É muito bom que nossos principais combates, ao longo do século 20, tenham se dado em campos de futebol ao redor do mundo, mas também tivemos mortos em combate, desde então, a maioria deles na espúria “quase-guerra-civil” de 1964-1976. Reconciliações para esse tipo de episódio são sempre difíceis (vide as discordâncias perenes sobre a “Lei da Anistia” e a recente proposta da “Comissão da Verdade“). Mas não seria um ato de reconciliação simbólica sepultar os mortos de ambos os lados em um único cemitério nacional? Eram inimigos mas eram todos brasileiros. Estará o redator delirando? Possivelmente. Mas que seria um belo ato, lá isso seria….

Abaixo, algumas fotos de cemitérios nacionais nos EUA, Rússia, Grã-Bretanha, França e Canadá. São tratados como monumentos de responsabilidade do governo dos respectivos países.

 

Cemitério Nacional de Arlington, Virgínia, o cemitério nacional dos EUA. A imagem mostra o “Dia da Recordação” (Memorial Day), um feriado nacional, por lá, no qual são lembrados os veteranos, vivos e mortos. É um dia de grandes paradas e visitas aos “cemitérios nacionais”, aos memoriais de guerra e aos museus militares. A Administração Nacional de Parques (National Park Service) é responsável pelo funcionamento de 14 cemitérios nacionais, no território norte-americano; a Administração Nacional de Veteranos (U.S. Department of Veteran Affairs), outros tantos.  

Cemitério Estadual dos Soldados, Mississipi. Soldados da União e dos Estados Confederados repousam lado a lado. Quem sabe não acabaram tendo tempo para resolver suas diferenças?.. Apesar de administrados pelos governos estaduais, muitos desses cemitérios são considerados monumentos nacionais – aqui, uma lista completa.

Memorial do Soldado Britânico em Atenas. Homenagem à memória de mais de 2500 militares britânicos mortos em combate nas operações realizadas em território grego na Segunda Guerra Mundial, mantido com fundos providos pelo governo da Grã-Bretanha. Dezenas de cemitérios de combate e memoriais são administrados pela Comissão de Sepulturas de Guerra da Comunidade Britânica, orgão multinacional sediado em Londres.

Cemitério Comunitário de Bailleul, França. Mais de 20.000 mortos de diversas nacionalidades, abatidos na batalha do Somme, na 1a Guerra Mundial.

Neepawa Riverside Cemetery, Ontário, Canadá. Soldados, aviadores e marinheiros canadenses mortos na 2a Guerra Mundial repousam ao lado de alguns de seus camaradas britânicos.

Corneteiro toca um dobrado fúnebre em homenagem aos soldados alemães que repousam em covas individuais no cemitério de Sologubovka, localidade próxima de São Petersburgo (antiga Leningrado). O monumento foi levantado pela Associação Alemã de Sepulturas de Guerra (Volksbund Deutsche Kriegsgräbefürsorge), organização civil federal dedicada a identificar sepultamentos de combate. Repousam lá os restos de cerca de 20.ooo combatentes alemães, metade deles identificados. A Associação espera que, no futuro, os restos de 80.000 combatentes alemães mortos na 2a Guerra Mundial sejam retirados de covas coletivas e sepultados individualmente. Ao contrário do que se imagina, os soviéticos, desde a época de Stalin, procuraram identificar e sepultar os militares estrangeiros mortos em combate em seu território. Existem atualmente 89 cemitérios militares lá, com cerca de 400.000 mortos, identificados ou não::

Datas relevantes de causa:: Dois de fevereiro::

Houve noites tépidas ou manhãs claras, eu lembro. Mas não importa ao monstro. Ele é apenas dentes e morte, o cheiro do frescor não lhe causa espécie. O que olha são apenas os ossos a esmigalhar. (Isaak Bluhmnstein, 16 anos, morto em Stalingrado, ca. novembro, 1942)

Quase ninguém lembrou- o próprio redator ia esquecendo, mas no dia 2 de fevereiro, 66 anos atrás, entre as ruínas da cidade de Stalingrado, às margens do rio Volga, o fascismo entrava em curva descendente. Esse redator sem o menor talento literário poderia escrever outro texto analítico, mas certamente eles já existem por aí, melhores. Então… Rendamos tributo. E, nas entrelinhas, deixemos claro: não podemos esquecer!::

Carta a Stalingrado (Carlos Drummond de Andrade)

Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!/ O mundo não acabou, pois que entre as ruínas outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,/ e o hálito selvagem da liberdade/dilata os seus peitos, Stalingrado,/ seus peitos que estalam e caem,/ enquanto outros, vingadores, se elevam.//A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais./Os telegramas de Moscou repetem Homero./ Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo/ que nós, na escuridão, ignorávamos./ Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,/ na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,/ no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,/ na tua fria vontade de resistir.// Saber que resistes./ Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes./ Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página./ Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena./ Saber que vigias, Stalingrado,/ sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos/pensamentos distantes/dá um enorme alento à alma desesperada e ao coração que duvida.// Stalingrado, miserável monte de escombros,/ entretanto resplandecente!/ As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio./ Débeis em face do teu pavoroso poder,/ mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,/as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta,/ aprendem contigo o gesto de fogo./Também elas podem esperar.// Stalingrado, quantas esperanças!/ Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!/ Que felicidade brota de tuas casas!/ De umas apenas resta a escada cheia de corpos;/ de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança./ Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem
trabalho nas fábricas,/ todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,/ mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,/ ó minha louca Stalingrado! // A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,/ apalpo as formas desmanteladas de teu corpo, / caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,/ sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?/ Uma criatura que não quer morrer e combate,/ contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,/ contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate,/ e vence.// As cidades podem vencer, Stalingrado!/ Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga./ Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo./ Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres, a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.::

Cultura material militar::A linhagem AK::

No posto anterior, que abriu o assunto, vimos alguns detalhes sobre a história do fuzil de assalto AK-47. Opa! AK-47? Não. Nada disso. Esse é um dos erros mais comuns, no que diz respeito a notação do Avtomat Kalashnikova modelo 1947: de fato, as forças armadas e policiais da antiga URSS denominam a arma de AK, simplesmente, e acrescentam mais uma ou duas letras que designam os diversos modelos. Portanto, os (mais ou menos…) oito leitores de causa:: ficam proi-bi-dos de chamar essa venerável peça de engenharia militar de AK-47. Como chamá-la? Bom, veremos adiante, na parte 2::

parte2O fuzil automático de Kalashnikov, modelo 1947 foi adotado no ano de 1947 (quanta inteligência aqui do redator, hein?..). Entretanto, isso não significa que, seis meses depois de tomada a decisão, cada militar soviético estivesse com um deles à bandoleira. Nos 15 meses seguintes foram tomadas providências políticas, organizativas e industriais para que a arma começasse a ser fabricada em massa. A distribuição para as tropas só começou na primeira metade de 1949, e mesmo assim em números bastante modestos – claro, para os padrões da gigantesca máquina militar soviética de então. A produção iniciou-se na enorme Fábrica de Máquinas deIzhevsky, conhecida como  Izhmash (embora enfrentando sérios problemas financeiros, ainda uma das principais instalações industriais de fabricação de armas da Rússia), mas logo se espalhou por diversas outras instalações industriais nas repúblicas soviéticas e nos países da esfera de influência de Moscou.

Tecnicamamente falando, todas as armas da linhagem AK são fuzis de assalto de fogo seletivo, operados por recuperação de gás. É feito principalmente em aço estampado e usinado (o cano e certas partes do bloco de culatra) e madeira laminada (a coronha, o punho de pistola e a empunhadura do cano). Isso resulta num conjunto que, sem a munição, pesa, vazio, 4.300 gramas; introduzidas as 30 cargas de munição M1943, o peso da arma sobe para 4.875 gramas. O comprimento total do conjunto é de 87 centímetros, sendo que o cano ocupa 41,5 centímetros. O alcance efetivo (distância em que o projétil ainda conserva energia para penetrar obstáculos de alguma dureza) é de cerca de 800 metros (dada a velocidade de saída do projetil, de 715 m/s); o alcance útil é de uns 400 metros em modo semi-automático, caindo para 300 se o seletor estiver em modo automático. 

O princípio de operação de toda a família AK é a recuperação de gás (veja aqui um excelente corte do AK, mostrando as peças internas)- por sinal, o mesmo princípio usado pelo fuzil de assalto alemão StuG-44 (observe, nesta foto, detalhes do fuzil de assalto alemão). Como todo leitor de causa:: já sabe na ponta da língua, uma arma de fogo funciona pela expansão violenta de gás resultante da explosão de um propelente – pólvora química, no caso. A expansão do gás impulsiona o projétil, mas boa parte dela se perde no recuo da arma e no “sangramento”, ou seja na perda resultante da saída através dos espaços abertos da arma. As armas automáticas e semi-automáticas funcionam todas por princípios que aproveitam parte dessa energia para rearmar o sistema (coisa que, em armas de repetição, é feita pelo próprio atirador). No caso da “recuperação de gás”, parte desse, que acompanha o projétil até a boca, entra por uma válvula situada na seção superior do cano. Essa válvula dá acesso à um tubo onde se encontra instalado um pistão, ligado por uma haste ao bloco da culatra. O recuo do pistão empurra o conjunto do bloco para trás, e aciona uma peça chamada “ferrolho”. Trata-se de um bloco de aço que, parado, é mantido no lugar pela pressão de uma mola, e mantém a câmara vedada por estar firmemente justaposto às paredes da caixa de culatra (em inglês, essa parte da arma é chamada receiver). Ao ser empurrado, para trás, o ferrolho expõe a câmara da arma, e retira o cartucho vazio (por meio de uma peça chamada “extrator”), que é ejetado através de uma janela que se abre na caixa de culatra. Outra carga é “puxada” para dentro da câmara pelo movimento do bloco e com a ajuda de uma mola instalada no carregador, para então ser empurrada para a posição pelo movimento contrário do bloco, que outra vez veda a câmara (quando da explosão da carga, a vedação é implementada pela deformação das paredes do cartucho). No caso do AK, o pistão tem um curso longo (também é o caso do StuG-44), pois ao longo do percurso a pressão do gás diminuí e, por consequência, o impacto do recuo também, além de mitigar o desgaste das peças. Existem diversos métodos de funcionamento do ferrolho. No caso do AK, trata-se do “ferrolho rotativo”: como diz o nome, uma peça de metal com função de abrir e fechar a câmara. Quando essa peça recua, faz um giro parcial sobre seu eixo; no retorno, o giro se dá no sentido inverso. Os “ciclos de tiro”, ou seja, a  quantidade de vezes que o sistema repete esses movimentos, permitem uma cadência máxima (em condições de laboratório) de 600 salvas por minuto, em modo automático; em modo semi-automático, um bom atirador consegue disparar até 90 salvas por minuto.  Para selecionar  os modos de fogo, basta que o atirador modifique a posição de uma alça situada do lado direito da arma, exatamente acima do gatilho. Essa alça é uma das características mais interessantes do AK – foi redesenhada a partir de uma arma de origem norte-americana. o Remington modelo 8. Quando deslocada para cima, interrompe a trajetória da alavanca de armar (que prepara a arma para o tiro); quando abaixada, a alça libera a alavanca e torna-se o seletor de modo. A pontaria, por sua vez, é feita através de uma alça de mira regulável, graduada de 100 até 800 metros, instalada na parte anterior da caixa da culatra.

Diversas peças do mecanismo do AK, assim como o cano, são cromadas. Essa providência destina-se a diminuir o desgaste provocado pelo gás da explosão da carga, altamente corrosivo. A cromagem também aumenta a durabilidade do conjunto por diminuir a necessidade de manutenção do equipamento. Outro ponto que ajuda é a distância entre as peças, calculada para diminuir o atrito e permitir melhor lubrificação. Todas essas características dão ao AK uma espantosa capacidade de  funcionar em condições adversas: fala-se em armas que, no Vietnam, passavam seis meses sem ser limpas.

A primeira produção do AK encontrou diversos problemas, principalmente relativos aos processos industriais. A fabricação das peças da caixa de culatra revelou-se muito problemática. A peça principal, que constituía o corpo da caixa era estampada, feita em prensas hidraulicas de alta pressão. Algumas peças internas (guias e trilhos que colocavam e mantinham o conjunto ferrolho-extrator no lugar)  tinham de ser soldadas, e o processo resultava mal-acabado. Muitas armas do primeiro lote simplesmente não funciovam e eram rejeitadas. A decisão de interromper a produção seria antes de tudo política, de responsabilidade do Comissariado para a Defesa do Povo, e poderia ter sérias consequências. A opção foi continuar a produção, usando peças de metal usinadas, processo que se mostrou complicado e caro. Entretanto, os engenheiros do arsenal Izhmash (talvez com medo de acabarem no gulag), tiveram uma idéia brilhante: aproveitar os métodos e máquinas-ferramentas usados na fabricação da caixa de culatra dos fuzis de repetição Mosin-Nagant, que tinha semelhanças técnicas com as peças do AK. A idéia funcionou (sorte deles – ainda era a época de Stalin…), a produção do fuzil foi acelerada, mas a distribuição estava comprometida: só iria alcançar números razoáveis a partir de 1956. O peso do conjunto  também aumentou consideravelmente, dadas as diferenças estruturais entre peças estampadas e usinadas.

A versão standart do AK foi logo seguida por outra, de notação AKS, o “S” significando Skladnoy, ou “dobrável”). Era o mesmo AK, mas dotado de uma conhonha rebatível, feita em arame de aço, que se recolhia ao longo da caixa de culatra e empunhadura do cano. Essa versão, que pesava quese um quilo a menos do que a de coronha fixa, destinava-se à distribuição para tropas paraquedistas e motorizadas, e teve os mesmos problemas que a outra versão.

O desenvolvimento do AK e sua distribuição revelaram diversos problemas não apenas com a arma, mas com os processos de fabricação. A partir da modificação dos processos industriais, que resultaram na melhoria de desempenho e permitiram a distribuição em grandes números, novos aperfeiçoamentos foram sendo introduzidos. Os métodos que corrigiram os defeitos de fabricação dos primeiros lotes, foram simplificados, e marcaram o início do redesenho da arma, iniciado em 1957 e aceito em 1959, como AKM (o “m” significando modernizirovanniy ou “modernizado”).

A primeira e mais marcante modificação foi a adoção do processo de estamparia para a fabricação da caixa da culatra. Essa providência destinou-se a diminuir o peso do AK, e foi muito bem sucedida: o peso do conjunto diminuiu em quase 1 quilo. Entretanto, os desenhistas temiam que a resistência da caixa diminuisse, de modo que uma seção tubular cruzada, destinada a reforçar a resistência estrutural. O principal ganho da adoção da caixa de culatra estampada foi a possibilidade de instalar as peças de fixação da mola e do cano através de rebites, enquanto no AK essas peças eram aparafusadas. O aperfeiçoamento de processos de solda elétrica sob pressão permitiram a instalação precisa das guias do ferrolho/ejetor. Diversas outras medidas para economia de peso foram tomadas, utilizando-se, onde fosse possível, materiais mais leves e peças de menor espessura. A coronha também recebeu um compartimento oco, destinado a diminuir o peso do conjunto. Outra inovação foi um freio de boca, destinado a aumentar a estabilidade da arma no momento do tiro.

Fora essas diferenças, o AKM e o AK eram iguais, tanto é que diversas peças eram intercambiáveis. A nova versão do fuzil tinha todas as qualidades da anterior, e tinha tido a maioria dos defeitos resolvidos. O AKM tornou-se arma padrão das forças armadas e policiais da URSS e rapidamente começou a ser distribuído para os países aliados. No caso da China, então em ótimas relações com os soviéticos, os planos do AK foram repassados ainda em 1956, razão da arma ser lá conhecida como “Fuzil automático Tipo 56″. Não se sabe exatamente quantos “Tipo 56″ foram fabricados na China, mas parte considérável deles foi exportada para países do Terceiro Mundo. A maioria dos AK que surpreenderam os combatentes norte-americanos no Vietnam eram de origem chinesa. Uma diferença marcante entre o AK e o “Tipo 56″ era a baioneta, que diferia, entre o original russo e a cópia chinesa: nesta, o equipamento era fixo, sendo girado para trás quando não em uso. Os chineses também logo passaram a produzir o AKS, que recebeu a notação “Tipo 56-I” Em meados dos anos 60, os chineses começaram a fabricar (sem auxílio nem permissão dos russos) uma versão semelhante ao AKM, de notação “Tipo 56-1″. Os três tipos produzidos na China podem ser vistos aqui. Note que o do meio é um “Tipo 56″ original, que se reconhece pela ausência do freio de boca.

Calcula-se que, entre todas as unidades e versões fabricadas, existam mais de 50 milhões de AK e AKM espalhados pelo mundo, o que significa que um em cada três fuzis de assalto existentes sejam Kalashnikov. A arma ainda está em pleno uso, e provavelmente continuará, ainda por muito tempo. A eficácia dessa peça de engenharia mecânica e militar já foi mais que comprovada, e a torna uma das mais importantes armas já projetadas e fabricadas, em qualquer época. O que não impediu que o tempo a tornasse ultrapassada. O problema talvez nem seja propriamente a arma em si, mas o calibre: o cartucho M1943, apesar de sua eficácia e confiabilidade, é pesado e, apesar das características, ainda muito potente. Por volta de meados dos anos 1960, os soviéticos já estavam trabalhando no desenvolvimento de um cartucho de menor calibre. Mas falaremos nisso na parte3::