Cultura material militar::O motor, a doutrina militar alemã e sua mudança::

A doutrina de blindados desenvolvida, ao longo dos anos 1920, pelo exército alemão, enfatizava o equilíbrio entre mobilidade, velocidade, proteção e poder de fogo. Isso não é nenhuma novidade para quem conheça um pouco de história militar e história da tecnologia. História da tecnologia? Pois é: algumas pessoas dizem que a história militar é um desdobramento da história da tecnologia e eu diria que concordo com essa afirmação. Parte da história militar não pode ser estudada sem levar em consideração a “técnica”, o procedimento ou conjunto de procedimentos que têm por objetivo alcançar determinado resultado, não importa se diga respeito à ciência, à tecnologia, às artes ou até à religião ou à magia. Isso quer dizer que a “técnica”, embora seja, necessariamente, sistemática, não exclui a criatividade. Só que coloca essa capacidade humana em conjuntos organizados de procedimentos, que podem ser modificados e transmitidos. A “tecnologia”, explicam alguns especialistas, é parte da técnica, e envolve o conhecimento, interpretação, aplicação e estudo dessas, e de suas variáveis, aplicações e desenvolvimento, ao longo da trajetória de uma determinada sociedade. Dentro do escopo da tecnologia se encontra o conhecimento das técnicas acumulado ao longo do proceso de sua criação: pesquisa, projeto, produção, aperfeiçoamento e acumulação. Essas definições (muito superficiais) permitem, desde logo, establecer porque consideramos, aquí no causa:: , a história militar como desdobramento da história das técnicas e da tecnología: os homens sempre mostraram muita aplicação em procurar meios cada vez mais eficazes de se matarem uns aos outros.

Assim, pode não ser má idéia gastarmos algum tempo com a história da tecnologia. E, particularmente, com a história da tecnologia de motores::

parte1/1O homem sempre teve de se movimentar, para conseguir se manter vivo. No início dos tempos, usava as próprias pernas; depois de algum tempo, aprendeu a recrutar animais para carregá-lo ou carregar carga. E logo começou a imaginar artefatos que permitissem melhorar sua capacidade de usar a energia produzida pelo próprio corpo e pelo corpo dos animais que empregava. O movimento é parte da vida, de modo que foi assim que surgiram barcos, rodas, carroças e carretas, que se tornaram parte constituinte do arsenal de artefatos que tornam mais fácil o trabalho humano e a luta para melhorar a vida.

Criar movimento depende, então, de acumular e acionar certa quantidade de energia mecânica. É isso que chamamos, genericamente, de “motor”. Sem entrar em muitos detalhes, podemos dizer que “motor” é um mecanismo que produz força para colocar alguma coisa em movimento. Assim, o conjunto que incluí cavalo, arreios e varais é o ”motor” de uma carroça; o sistema de velas, mastros e cordame é o “motor” de um navio à vela. Ambos são dispositivos ou aparelho (não importa se rudimentares) que transformam um dado tipo de energia em energia mecânica e daí, em movimento – que, por sua vez irá necessariamente resultar em mais energia mecânica.

Durante milhares de anos, a única fonte de energia foi a natureza. O homem aprendeu, no início de sua trajetória, a agenciar certos processos naturais em benefício próprio: colocar um animal para puxar uma carroça faz parte desse aprendizado, assim como utilizar remos para mover um barco. O problema é que esses processos implicam em quantidade relativamente pequena de energia e é difícil obter mais a partir deles. Nada impede, por exemplo, que uma carroça chegue a 120 km/h, desde que você arreie nela vinte ou trinta cavalos. Só que será um tanto complicado controlar vinte ou trinta cavalos, e a tendência é que esses acabem destruindo a carroça: o excesso de energia se torna um problema.

Observando a natureza e seus processos, o homem logo deve ter observado que, entre a conversão de energia e o trabalho, boa parte da primeira se perde – por sinal, a maioria dela se perde. A questão que, desde então, tem sido objeto da atenção de filósofos, cientistas e tecnólogos é como controlar melhor a geração e transmissão de energia, de modo a otimizar sua aplicação ao trabalho.  

A expansão de gás logo foi percebida como uma das, e uma das melhores, formas de geração e conversão de energia: trata-se de um processo químico que muda, rápidamente, o estado da matéria de sólido para gás. O gás é o estado da matéria em que a forma e o volume se tornam instáveis e muito influenciáveis pelas mudanças de temperatura ou pressão. Por isto mesmo, um gás pode se expandir de modo espontâneo ou forçado e chegar a ocupar a totalidade do recipiente que o contém. Em função de suas características, os gases também são classificados como “fluídos”, ou seja, substâncias que se deformam continuamente quando submetidos a certa quantidade de tensão (a força com que um corpo, não importa o estado, reage quando submetido à tração – falando em português claro, quando empurrado).  

A queima de uma substância qualquer produz maior ou menor quantidade de gás, e essa quantidade se dispersa pelo meio ambiente, levando embora boa parte da energia invertida no processo. No caso do fogo, é o que chamamos de “fumaça”. Imagino que os homens das cavernas devessem observar isso, enquanto cozinhavam ou aqueciam suas moradias; quando deixaram de ser homens das cavernas, continuaram observando esse processo e devem ter imaginado (aí, eu não me meteria a dizer quando…) se aquela fumaça não serviria para alguma coisa. Devem ter observado (devem, não – alguns pensadores gregos observaram mesmo) que, em certas condições, essa “fumaça” conseguia deslocar objetos sólidos: dirigida através de uma válvula (um buraco), podia movimentar alavancas (um conjunto de bielas não passa de uma alavanca metida à besta…). Quem sabe estas não poderiam acionar eixos de polias ou eixos de rodas?..

Não é especulação minha: a idéia existe desde a Antiguidade, mas não basta ficar olhando fumaça (seria uma aplicação da função, bem conhecida por alguns, de “fiscalizar a natureza”) para deduzir uma máquina a vapor ou locomotiva. Mas, basicamente, a idéia ainda é a mesma: você converte um sólido em gás através da aplicação de energia calórica, dirige esse gás e o põe a trabalhar em alguma coisa – gerar movimento. O problema é que a energia mecânica (a da expansão do gás, que põe um trem ou bomba hidráulica em movimento) tem que movimentar, antes, o sistema do motor – as válvulas, pistões e alavancas que movimentam as tais rodas. Nesse processo, parte considerável do montante de energia produzido é desperdiçada sem fazer o trabalho para o qual a máquina foi concebida.

O problema está no combustível e no controle da queima do combustível. No caso que estamos examinando, toda produção de energia dá-se por conversão de calor em alguma outra forma de energia (até mesmo a energia do vento ou produzida por um cavalo, mas isso não vem ao caso aqui). Só que controlar calor é um problema sempre difícil de resolver. Quer experimentar? Coloque um bife diretamente no fogo. Sacou? O controle é exercido diminuindo-se o fogo, o que cria um problema adicional: quanto menos fogo, menos calor e mais tempo levará para o bife fritar. Existe uma forma um pouco mais sofisticada: colocar o bife dentro de uma frigideira. Esta constitui um anteparo que controla de forma muito rudimentar, mas eficiente, a aplicação de energia calórica sobre o bife, já que parte considerável é usada par aquecer a frigideira e mantê-la quente. Só uma pequena parte chega ao bife.

Ou seja, o “xis” da questão como produzir e usar o calor. Não pode ser muito rápido nem muito devagar. Voltamos ao combustível. A melhor maneira de produzir fogo é queimar carvão: este tem uma boa capacidade de produzir energia calórica, mas queima relativamente devagar. Além do mais, jogando-se água nele, o calor pode ser controlado. Água e fogo, juntas produzem vapor, um fluído gasoso que se expande muito rapidamente, mas não tão rápido que não possa ser controlado através de uma válvula – basicamente um buraco que o conduza na direção desejada (uma chaminé é uma válvula…). Caso você evapore a água num lugar fechado, a expansão do vapor resultará em pressão; se você colocar uma válvula no lugar certo, a passagem do fluído através dela, além de ser dirigida, aumentará a velocidade da expansão (a tensão exercida pelas paredes da câmara combinada à velocidade da expansão forçará o vapor através da válvula). Se você colocar, atrás da válvula, um objeto de massa não maior do que a massa do vapor contido na câmara, essa massa mais a velocidade da passagem através da válvula serão suficientes para deslocá-lo (calcular isso exige equações matemáticas bastante complexas, mas, acredite: de forma simplificada, é assim que funciona). Desse jeito, o vapor pode ser controlado de modo a executar um trabalho de forma constante.

É claro que explicar do jeito que estamos fazendo faz a coisa parecer fácil, mas levou milhares de anos até que todos os problemas decorrentes desse processo fossem resolvidos. Um deles é o fato de que quanto mais rápida a queima, mais rápida a produção de gás e maior a energia decorrente; quanto mais energia, mais difícil o controle, até o limite em que a quantidade de energia destrói o sistema. O carvão, mineral ou vegetal produz relativamente pouco calor, de modo que se você quer mais, acrescente mais carvão. Essa virtude é também um problema, porque quanto menos calor, menos energia e quanto mais calor, mais energia, mas isso exige mais combustível.

A máquina a vapor, inventada no século 17, reúne tudo o que foi explicado acima. O combustível utilizado para produzir energia calórica, o carvão mineral ou vegetal, era eficiente, disponível em grandes quantidades e seus princípios eram empiricamente bem conhecidos. Só que o controle da produção de calor exigia que a energia fosse usada para converter água em vapor, que, no caso, é chamado de “fluído de trabalho”. Quanto maior o trabalho, maior a quantidade de vapor necessária e, portanto, maior quantidade de combustível, que geraria mais calor, mais energia, por conseguinte, necessitaria de uma maquina maior – e mais pesada. Portanto, mais peso, mais calor e… Assim por diante. Por isso os trens eram tão bons sobre trilhos: a estrada de ferro fornecia ao conjunto uma plataforma resistente e estável para o deslocamento da geringonça toda, coisa que não aconteceria numa estrada de terra.    

No início do século 19, alguém teve a idéia de usar gás diretamente para produzir calor mais rápido. A idéia era um ovo de Colombo. Ao invés de usar a evaporação de água para converter o calor em energia mecânica, o gás é aquecido diretamente e se expande rapidamente numa sucessão, controlada numa câmara, de ciclos térmicos obtidos através da expansão e compressão do próprio gás. Ao invés de envolver duas partes – a caldeira para produzir o tal “fluído de trabalho”, e o motor propriamente dito, a queima é transferida para interior do próprio motor. Pequenas quantidades de gás, comprimidas e expandidas em grande velocidade, são aquecidas e alcançam rapidamente temperaturas bem altas. Uma série de válvulas reune o gás aquecido resultante, o coloca para fazer o trabalho de mover o pistão e o conjunto de bielas, e o dispensa do sistema aos poucos, conforme a temperatura abaixa.

Esse princípio só pôde ser alcançado quando uma série de conhecimentos de física chamados de “termodinâmica” foi reunida, a partir do século 17, e resultou, no século seguinte, em tecnologia que possibilitou sua conversão em sistemas mecânicos eficientes. Isso quer dizer que o desenvolvimento da tecnologia não anda necessariamente junto com o desenvolvimento da ciência. Em geral teóricos, os cientistas apontam, através da observação e interpretação da natureza, caminhos que terão de ser trilhados pela turma dos “tecnólogos”: engenheiros, químicos, metalúrgicos, e por aí vai.

O processo descrito acima implica em uma série de outros problemas que não interessam aqui. O que interessa é que os “motores de combustão interna” tinham a grande vantagem de serem menores e potencialmente mais eficientes, quer dizer, poderiam gerar mais energia mecânica em relação ao próprio peso. Assim poderiam gastar menos combustível, pois o peso do combustível também seria menor do que aquele exigido pelos motores “de combustão externa”. As plataformas também poderiam ser menores e não precisariam de trilhos, poderiam usar as mesmas estradas que as carroças e carretas. Por sinal, esses motores poderiam ser colocados nas próprias carroças e carretas. Não é por outro motivo que os primeiro veículos movidos por motores à combustão interna forma chamados de “carruagens sem cavalos”. Era isso que eram, mesmo: carroças metidas à besta.

A esta altura, aqueles dentre os nove ou dez assíduos de causa:: que não são engenheiros devem estar se perguntando: “o que diabos isso tudo tem a ver com a doutrina alemã de blindados?..” Tirando o fato de os tanques são movidos por motor à combustão interna? Chegaremos lá::

Outras observações estratégicas sobre um período chato::Pode ficar pior sim, senhor Tiririca::

Winston Leonard Spencer Churchill (Blenheim, Woodstock, Oxfordshire, Inglaterra, 1874 – Londres, Inglaterra, 1965) foi um estadista britânico. Isto, dez dentre os nove ou dez leitores assíduos deste blogue:: sabem; também sabem os assíduos que esse inglês, amante de charutos, vinho do porto e do sol mediterrânico, pintor amador e um dos maiores escritores modernos em língua inglesa, é um dos musos de causa:: Não sem razão.

Dizia o grande inglês que “a democracia é o pior sistema de governo, à exclusão de todos os demais.” É uma frase interessante, repetida ad nauseam por todos os conservadores, direitistas e liberticidas. O próprio Churchill era um conservador direitista, embora talvez seja injusto chamá-lo de liberticida – afinal, se nos livramos do fascismo, foi em parte graças à teimosia dele.

Mas, como toda frase, as de Churchill com freqüência precisam ser examinadas contra um contexto mais amplo, para que façam sentido – ou mais sentido. Essa a que se refere o redator:: faz parte de um discurso dirigido à Câmara dos Comuns, em 11 de novembro de 1947. Churchill, então líder dos conservadores, manifestava oposição a que nova limitação aos poderes da Câmara Alta do Parlamento Britânico – a “Câmara dos Lordes” – fosse estabelecida. Esse corpo de representantes, não-eleito, hereditário, representava a si mesmo, e essa representação se expressava na capacidade de interferer fortemente com os assuntos do governo, capacidade estabelecida no século 14 e que desde então vinha se mantendo, contra diversas tentativas de limitá-la. A última tentativa era aquela: o governo trabalhista de Clement Atlee pretendia emendar o Ato do Parlamento, de 1911, de modo a limitar a capacidade daquela câmara em interferir com iniciativas do governo. O contexto, então, era o das reformas radicais que estavam sendo introduzidas na organização econômica britânica, na qual amplos setores da indústria seriam nacionalizados. Temia o governo trabalhista que a Câmara Alta tentasse alterar o processo em que a Inglaterra pós-2ª GM finalmente se reinventava, buscando acomodar, em termos mais justos, os milhões de soldados e operários que, estoicamente, tinham derramado o sangue, suor e lágrimas que pavimentaram o caminho até a vitória. Já para as “classes superiores”, aquelas que desfrutaram, ao longo de dois séculos, os benefícios da transformação econômica, a proposta punha mais amarras a um poder que minguava. Sobre isso, disse o temível polemista e brilhante orador Churchill: “… é o sentimento mais disseminado em nosso país, e que a opinião pública expressa através de todos os meios constitucionais, que o povo deve governar, governar continuamente, e deverá formar, guiar e controlar as ações dos ministros que são seus servos, e não seus senhores.” Ou seja, no entendimento de Churchill – e, podemos subentender, da maioria de seus liderados conservadores –, não seria preciso limitar os poderes das classes superiores, amplamente representados na Câmara Alta do Parlamento Britânico – esses poderes estavam limitados pelos poderes conferidos, por tradição, à opinião pública.

Descrevendo o sistema eleitoral de representação majoritária britânico, o historiador setecentista François Guizot aponta sua origem nas necessidades da sociedade inglesa, nos séculos 13 e 14. O sistema eleitoral decorrente, no século 15, não obedecia nem a regras originárias nas Ciências Políticas, nem aos interesses deste ou daquele grupo. Era um sistema formado observando-se os costumes cotidianos aceitos pela sociedade. Os princípios que regulavam o processo eleitoral eram, assim, absoluta novidade. Daí sua absoluta originalidade.

Dentre as novidades, aquela que parece provocar a advertência de Churchill: no entendimento dele, a sociedade já dispunha de meios para expresser sua opinião e impor sua vontade, meios consolidados em séculos de tradição. Esse longo processo teria tornado a democracia “o menos pior dos sistemas”: a tradição também teria incorporado os defeitos: uma hierarquia reconhecida por lei que cabia ao povo respeitar, pois os mecanismos embutidos no processo contrabalançavam, naturalmente, o desequilíbrio inerente ao mesmo.

Examinar a coisa hoje faz suspeitar que Churchill tivesse razão: esse processo vem sendo crescentemente contestado e, depois de séculos, o sistema é visto com certa desconfiança pelo eleitorado britânico. Sinal dos tempos: o sistema, dito bipartidário, não parece mais suficiente para expressar a opinião do corpo de eleitores, e mostra, através de freqüentes pesquisas de opinião, tendências ao desdobramento. Os mecanismos “tradicionais”  de correção, então, funcionam – inclusive para indicar o clamor pela mudança.

Assim funciona a democracia representativa. Contra os defeitos, os mecanismos de autorregulação. E entre nós? Um dos possíveis defeitos da democracia brasileira seria, na visão de setores bastante amplos da sociedade, sua essência: o amplo direito de votar e ser votado. Não são poucos os cidadãos que reclamam do fato de que “todo mundo vota”, e não é nem preciso ter muito trabalho para encontrar exemplos disso. O redator:: não lembra qual dos ministros de Costa e Silva disse, na época do AI-5, que era absurdo valer o voto dele tanto quanto o de uma empregada doméstica… ou teria sido lavadeira?.. (diria que foi o da Aeronáutica… Algum dos assiduos lembra?..); o general João Figueiredo abriu seu consulado (1979-1985) com a taxativa afirmação: “Um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar.” E o negro Edson Arantes dos Nascimento, embranquecido pelo contato purificador das elites? É preciso lembrar a opinião dele?

Em tempos mais recentes, um colunista brindou-nos a todos com esta: “O Brasil é dominado por uma massa de pobres ignorantes. Eles estão decidindo por nós. E estão decidindo muito mal. Isso se não confundirem os algarismos e apertarem os botões errados.

Afirmativas como essas levam o redator:: a pensar quais são os meios de defesa que a democracia brasileira tem contra seus próprios defeitos. Imediatamente surge a figura daquele que, em algum momento futuro, talvez venha a ser lembrado como a figura-símbolo desta eleição: o cidadão Francisco Everaldo Oliveira da Silva. Certamente não conhecemos Francisco Everaldo – mas conhecemos seu alter-ego, o palhaço Tiririca. Sobre Tiririca, diz um blogueiro: “como impedir que uma extravagância como Tiririca (ops, Francisco Everaldo Oliveira Silva) vire deputado federal? Só tem um jeito: não votar nele. Nenhum outro.

Churchill também dizia – e foi essa frase que fez o redator:: elege-lo muso do blogue:: que quem não sabe história, não sabe nada. A perspicácia de Churchill, expressa no monumental “Uma história dos povos de lingual inglesa”, faz o redator:: lembrar de nossa própria história e de seus bons constadores. Por exemplo, o sociólogo Roberto Schwartz. Em ensaio no mínimo tão monumental quanto o de Churchill, Schwartz sugere que, em nosso país, as idéias estão fora do lugar. Em termos muito simplificados (causa:: não pretende ser espaço de resenha das idéias do coração do redator::): baseado em premissas marxianas, Schwarcz, por meio da análise da dinâmica interna de algumas grandes obras literárias do século 19, busca a contradição básica da formação social brasileira. Na opinião dele, é em Machado de Assis que a tal contradição aparece de forma mais perfeita. No Brasil, a estrutura é atrasada e colonial enquanto a superestrutura seria adiantada e liberal. Essa contradição residiria na persistência do regime de produção escravista convivendo com um sistema político de estilo inglês. Schwarz denomina esse método machadiano de “comédia ideológica”, que teria seu momento maior em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Dom Casmurro”: Bentinho e Brás Cubas estariam sendo porta-vozes de uma denúncia de classe. Schwarz postula que Capitu é vítima dessa elite que vence, mas não leva, visto que a contradição, perpetuada pela elite como meio de dominação,  resulta em uma “sociedade pela metade” – tese que é expressa de forma genial no título do livro – “Ao vencedor, as batatas”. (análises mais aprofundada, aqui e aqui). O século 19 é, pois, tão esclarecedor, para nós, quanto o século 14 seria para a Grá-Bretanha – só precisamos conhece-lo melhor.

Voltemos a nossa época e a nosso drama: buscamos a democracia, sistema louvado por dez entre dez liberticidas, mas uma em que um cidadão habilitado pela norma constitucional ao se apresentar para ser votado, possa, por “extravagância”, ser inabilitado por outros cidadãos habilitados. Curiosa democracia, de cujo exame resulta o seguinte: o cidadão Francisco Everaldo deveria não ter direito de ser votado. Centenas de outros cidadãos que se manifestam através da Grande Rede parecem pensar exatamente assim. Deveríamos criar mecanismos que impedissem Tiririca de participar do processo eleitoral – qual seja: aperfeiçoar a democracia é limitá-la, plenamente, à uma parte do corpo de cidadãos. 

Uma tal providência imunizaria a democracia brasileira contra “piadas” como a candidatura do palhaço Tiririca. Motivo: vivemos numa sociedade imperfeita, sofrendo as dores do crescimento. O sistema partidário não exprime, à perfeição, a realidade do país, e os partidos são meros “balcões de negócios”. Cabe reduzi-los. Na Inglaterra são apeenas dois, os que realmente contam, consolidados pela tradição -e pela “educação política”; nos EUA, idem.

Mas, pensando bem… O palhaço Tiririca teria qualquer possibilidade de obter legenda num PT das elites sindicais ou num PSDB da inteligentzia paulista? Ou num PMDB dos grotões? Não é, entretanto, o caso de impedir o cidadão Francisco Everaldo de votar – por sinal, ele e outras extravagâncias têm de votar, para aprender. Algum dia, chegamos lá. Por ora, devemos impedir não que Francisco Everaldo eleja, mas se eleja. A maioria do corpo de cidadãos vota mal, e deve ser defendido de si mesmo. Estaríamos ouvindo aí (ou seria apenas impressão do redator:: admitidamente delirante?..) ecos do sistema de voto censitário, o tal “voto da mandioca“?

Pois se a democracia é imperfeita, aperfeiçoa-la não seria aprofundar a imperfeição, buscando meios de retornar ao século 19. Alguns cidadãos parecem vislumbrar o problema. No momento em que louvou a candidatura de outra “extravagância”, a “Mulher-Pera”, o senador Eduardo Suplicy talvez estivesse tentando, machadianamente, meter o dedo no âmago da contradição – e sabia no que se metia. Sua declaração de apoio à curvilínea candidata atraiu o deboche, desde a elite do jornalismo áulico até blogueiros moderninhos. Puro método machadiano: os democratas manifestam-se contra a democracia…

Talvez Suplicy aceite uma ajudinha – menos machadiana – do redator::: se  a democracia brasileira sobreviver será por arte de seus defeitos, e o principal deles é por outro lado, sua capacidade de se autorregular – a possibilidade de que o direito de assumir mandatos escape da elite “educada” e chegue até as “extravagâncias”. É nesse momento que o drama da sociedade brasileira fica mais evidente, e a teatralização do processo eleitoral apontará uma hierarquização atroz, tida pelas elites – e por seus clientes pequeno-burgueses –, mais do que “natural”, necessária. Pelo menos até o dia que aprendamos.

Esse post não deve, pois, causar estranheza nos nove ou dez leitores. Falamos de estratégia, na versão atualmente conhecida como “grande estratégia”, aquela que mobiliza todos os recursos nacionais. E uma nação partida - como atualmente é dito – em “andar de cima” e “andar de baixo” não se torna potência. Portanto, tirem as patas do direito do proletariado a candidatar-se seja lá ao que for – e se eleger. É estratégico que as extravagâncias obtenham mandatos, pois elas apontam direto para a contradição que nos governa. Ao contrário do que diz Tiririca, pode ficar pior, sim: no dia em que nossas elites e seus clientes derem um jeito de garantir que o grosso da população – os feios, os mal-vestidos, os que vivem na espiral alucinante do trabalho na fábrica – não possam mais se eleger. Nesse dia, a democracia deixará de ser o “menos pior” dos sistemas de governo, para tornar-se apenas mais um entre os piores::

Mais observações estratégicas sobre um período chato e outra comparação estapafúrdia::

O destino que aguarda o PSDB?.. Coluna alemã massacrada em Falaise (Normandia, agosto de 1944).

Já que a análise das eleições, no planeta blogue, continua estupenda, causa::, que não é do ramo, opta por divertir os assíduos estabelecendo comparações estapafúrdias… mas talvez, nem tanto. A de hoje apareceu logo cedo, num clarão provocado pela revista dos bons blogues sobre o tema. Um deles, particularmente interessante, pode ser lido no blogue do “intelectual clandestino” Hugo Albuquerque, o “Descurvo”. Basicamente, Hugo defende que a manutenção do governo paulista pelo PSDB é condição de sobrevivência para o partido, que, em caso contrário, acabaria quase um partido nanico. Diz o “clandestino”, a certa altura: “Nesse aspecto, a manutenção do governo paulista é essencial para a existência do PSDB enquanto um partido grande. Além do Governo FHC, o privatismo em São Paulo foi um dos sustentáculos fundamentais do tucanato. Depois da desindustralização de bons nacos do estado e de sua estagnação econômica severa aguda nos anos 80 e 90, a privatização do aparelho público, seja pelo sistema de concessões ou pelo esvaziamento dos serviços públicos, tornou-se um meio interessante para o PSDB se manter no poder: Esse parasitismo público era o meio para manter a hegemonia, construindo saídas para grupos empresariais falidos – que giravam em torno da indústria – e assim produzir uma saída razoável para o Capital, o que deu incrivelmente certo pela falta de uma oposição no plano estadual e pela bem-sucedida máquina de propaganda local. Esses setores tornaram-se a mola propulsora do partido. Dilma já está em primeiro em São Paulo e o partido precisa garantir Alckmin contra Mercadante, senão é fim de jogo. Uma derrota parece difícil de acontecer, mas eleições estaduais têm variações na intenção de voto sempre bem voláteis  e os riscos são claros.” Diria que a postulação é aguda, como são diversas outras que o redator:: tem encontrado por aí. Mas esta é particularmente aguda por lembrar uma das piores situações me que se pode ver metido um comandante de exércitos em campanha.

Indo ao ponto: o partido do “Zé” se encontra num “bolsão”. E de bolsão, causa:: entende. Resumindo, é quase um cerco, quando uma grande formação militar se vê quase totalmente privada de contato direto com suas próprias linhas, lhe restando apenas um corredor de comunicações com o exterior, o que acaba expondo o que quer que transite por ali a forte assédio pelo adversário. A solução, em geral, é tentar retirar o máximo possível de tropas e equipamentos antes que a “boca do saco” se feche. Quando isso acontece e se estabelece o cerco (ou “caldeirão”, como dizem os alemães) as coisas se tornam muito mais difíceis, visto que as forças trancadas são fervidas até o desmanche.

A situação atual do PSDB evoca ao redator:: reconhecidamente delirante duas situações da 2ª GM: Staingrado e Falaise. Pensando bem, a situação da candidatura “Zé” ainda não evoca Stalingrado – causa:: imagina que os nove ou dez leitores conheçam esta última muito bem, mas vale lembrar que Stalingrado foi um cerco que resultou em uma catástrofe local – embora não tenha sido uma batalha decisiva. Ainda assim, essa campanha marca o limite da blitzkrieg na Frente Oriental, e é considerada como um dos pontos de inflexão da guerra. A operação foi desencadeada pelos alemães na segunda semana de dezembro de 1941. Na primeira fase, grupos de choque formados por divisões blindadas, divisões de infantaria e divisões motorizadas empurraram os soviéticos e os colocaram em situação crítica. O mágico von Manstein, autor, quase dois anos antes, na Frente Ocidental, do truque do “Corte de Foice”, lançou as vanguardas blindadas e motorizadas em pequenos grupos. Essa fase foi uma aula de blitzkrieg – movimento sem parar, facilitado pelas condições do terreno (o solo, congelado, era ideal para o corrida dos blindados). Uma série de golpes em diferentes lugares em rápida sucessão, encontrar um ponto instável, para onde convergiu o grosso da infantaria – o malfadado Sexto Exército era, basicamente, uma reunião de unidades convencionais. De início, pareceu que os alemães poderiam romper as linhas soviéticas e envolver o adversário, mas a luta dentro da cidade em ruínas converteu-se num impasse. A resistência dos flancos soviéticos manteve abertas as linhas de comunicação, por onde convergiram reforços que possibilitaram o contra-ataque. À esta altura, a vanguarda blindada alemã estava esgotada e teve de parar – e a oportunidade da vitória escapou. A força de von Manstein, ao tentar liberar o Sexto Exército, viu-se reduzida à metade de seus efetivos. Acabou forçada a se retirar, abandonando a cidade. Após este revés, os alemães não conseguiram mais restaurar a situação favorável na curva do rio Don e caíram na defensiva. Alguma similaridade com a situação atual do PSDB? Possivelmente: após os erros da fase inicial da campanha, com o “Zé” tentando se fazer passar por “candidato do Lula”, dificilmente a candidatura voltará à ofensiva ou conseguirá “estabilizar a frente” – ou seja, chegar até um segundo turno. O grande erro, causa:: concluí, depois de examinar os blogues dos especialistas, foi não perceber que Dilma, de fato, é Lula amanhã, e que de fato, o grosso do eleitorado a vê como continuação do governo Lula. Aqui em Minas, onde vive o redator::, eleitores de Anastasia têm dito que “o modelo de Aécio” ainda não está maduro. O que parece significar que até a classe média, por mais antipatia que tenha de Lula (e aqui em Minas, a ntipatia não poderia ser maior…) está com medo de apostar em outra coisa.

De uma forma um tanto envergonhada, boa parte dos blogueiros parece declarar, nas entrelinhas, que a oposição está morta (se algum dos nove ou dez leitores duvidar, recomenda o redator:: exame atento do último parágrafo desta ótima análise). Até mesmo o lado direitoba, curiosamente parece estar jogando a toalha…: “Eu não vejo como Dilma Roussef possa deixar de ganhar a eleição. Assim como não vejo como Dilma Roussef possa deixar de ser um desastre. Ela poderia evitar o desastre se fizesse um governo à direita do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, principalmente em questões econômicas, o que ela nunca fará. Continuará com a atual política econômica por falta de alternativa. É claro que é melhor do que socialismo puro e simples. Mas é claro, também, que isso não bastará.” 

Talvez ainda haja, por outro lado, tempo para escapar do bolsão, e aí entra o governo de São Paulo e uma possível analogia com a situação de Falaise – ainda que resultando num quase apocalipse para a Wehrmacht na França (depois dessa operação, o território francês foi liberado em três meses), os analistas concordam que a escapada através do corredor permitiu a sobrevida que teve a Alemanha nazista. Diz umespecialista: “Apesar do que tem sido dito, a batalha do bolsão de Falaise não foi a ‘Stalingrado da Normandia’. Cerca de 100.000 alemães conseguiram escapar através da rede lançada pelos Aliados, entre 12 e 20 de agosto.. Embora tivessem de abandonar a maior parte de seu equipamento, junto com 50.000 prisioneiros e mais de 6.000 mortos”.

Mas, afinal, o redator:: pode estar em surto. Os famosos poucos leitores de causa:: poderão refletir sobre mais esta comparação estapafúrdia após examinarem, aqui, este excelente texto sobre o assunto. Mas não custa lembrar – guerra só se resolve quando o inimigo abaixa as armas e assina a rendição. Eleição… Sabe-se lá o que pode acontecer, antes que as urnas revelem o resultado…::

Um rapaz das Forças Especiais::Regimento Sampaio::

Formatura comemorativa na passagem do 242° aniversário.

Como todos os oito ou nove leitores assíduos já devem ter percebido, toda vez que causa:: passa por um período de vacas magras (em função das 202 atividades que o redator:: mantém ao mesmo tempo…), no período seguinte, uma porção de textos desencontrados começam a ser postados. É quase como se todos os assíduos tivessem de ter seus  variados gostos em torno de história militar, estratégia, cultura material militar, curiosidades, etc., etc.,  satisfeitos. Assim, visto que ante-ontem foi publicado um texto mais “cabeça”, hoje o redator:: continuará dando vaza a sua insistência nessa coisa antiga e fora de moda chamada “tradição”, abominada por cada nove entre dez intelectuais moderninhos.

E para fazer com que essas pessoas (que não entenderam os objetivos do apelo de Dunga ao patriotismo – voltaremos a esse assunto, que dá muita liga…) torçam o nariz com ainda maior intensidade, vamos apresentar, hoje, a mais tradicional dentre as tradicionais unidades de “infantaria combatente” (como são chamadas, no EB as unidades de pronto emprego): o Primeiro Batalhão de Infantaria Motorizado (Escola), mais conhecido como “Regimento Sampaio”.

Como pesquisador amador de assuntos militares, o redator:: , embora entenda a importância da tradição como fator aglutinador de qualquer corporação, civil ou militar, não simpatiza com a genealogia de unidades militares que descobre origem de tropas blindadas brasileiras lá no Portugal manuelino. O contexto dos exércitos e da guerra no Antigo Regime torna impossível, na opinião aqui do blogue, traçar continuidades reais entre as unidades atuais e aquelas apontadas, trezentos ou quatrocentos anos atrás, como suas antecessoras. Assim, causa:: não irá buscar as origens do Regimento Sampaio no Terço do Rio de Janeiro (ou “Terço Velho“), tropa criada por ordem do governador-geral do Brasil, Mem de Sá, em 1567. O Terço Velho existiu de modo mais-ou-menos intermitente ao longo de todo o período colonial, e, em 1793, formou, com uma unidade trazida de Portugal em 1767, o Primeiro Regimento de Infantaria do Rio de Janeiro. Essa unidade foi depois incorporada ao exército da nação que se formou em 1822.

A Guerra do Paraguai, por outro lado, já permite traçar maiores continuidades com nossa época. Em 1864 a abertura das hostilidades do Paraguai contra Brasil e Argentina, encontra o “Primeiro de Infantaria” na região sul do continente, onde havia participado das guerras no Uruguai. Em 1865, o comandante do Exército Imperial na região do conflito, general Manuel Luís Osório, mandou criar uma nova unidade, a Terceira Divisão de Infantaria (3ª DI), que reuniu algumas unidades. Seu primeiro comandante foi o coronel Antônio de Sampaio. Dentro da genealogia militar que causa:: prefere levantar, este é o primeiro galho da árvore genealógica do Regimento Sampaio.

A 3ª DI, em função de ser lançada sempre na primeira linha, acabou recebendo dos soldados o apelido de “Divisão Encouraçada“. Seu comandante, pouco depois promovido a brigadeiro, sempre se destacava por “comer chumbo” junto com a tropa. Não é tão estranho: era um soldado de carreira, tendo iniciado sua trajetória militar em 1830, quando sentou praça no Exército Imperial. Seriamente ferido na batalha de Tuiuti, em 24 de maio de 1866 (curiosamente, data de seu aniversário…), morreu quando era evacuado para a retaguarda. Os restos do brigadeiro cumpriram um périplo que deve ter sido quase tão grande quanto as marchas que a “Encouraçada” cumpriu durante os mais de cinco anos da conflagração (o leitor que se interessar pelas andanças dos ossos do patrono da infantaria brasileira pode clicar aqui; um histórico da 3ª DI, aqui). O título honorífico de “Divisão Encouraçada” foi atribuído à 3ª Divisão de Exército, uma grande unidade de cavalaria mecanizada constituída em 1979, dentro da reorganização do Exército Brasileiro.

O segundo – e muito mais frondoso – “galho genealógico” do “Regimento Sampaio” cresce a partir da reorganização do Exército Brasileiro levada a efeito a partir de 1908, pelo ministro da Guerra marechal Hermes da Fonseca. A reorganização era reivindicação dos militares que vinha desde a segunda metade do século 19. Uma das principais proposições era a profissionalização do exército. A partir de 1905, o péssimo estado da força terrestre (e também da Marinha, mas as desventuras desta ficam para outra vez…) e as constantes questões de fronteiras, que poderiam exigir, eventualmente, intervenção militar, tornavam urgente uma completa reforma. Uma das providências foi a negociação do envio de uma “missão militar” à Alemanha. Entre 1908 e 1910, três grupos de oficiais militares brasileiros lá estagiaram, para observar as doutrinas e métodos utilizados naquele país. De volta ao Brasil, esses jovens oficiais tornaram-se alvo do interesse, principalmente, da jovem oficialidade, grupo que via com desconfiança os generais (“gordos e acomodados”) e, principalmente, os civis (os “casacas”, “egoístas e dissimulados”) . Um forte movimento de conotação política, disfarçado sob a égide de “profissionalização”, surgiu entre essa oficialidade, e seus integrantes foram apelidado, algo pejorativamente, de “jovens turcos”. O termo acabou sendo adotado pelo próprio movimento, pois os militares brasileiros simpatizavam com o espírito reformador dos oficiais turcos. Esses, aglutinados em um movimento militar liderado pelo major Mustafah Kemal Atatürk (“pai dos turcos”), reivindicavam a modernização da sociedade turca no início dos anos 1910. Durante a 1ª GM, Kemal revelou-se competente comandante de tropas, o que só fez aumentar sua popularidade entre os militares brasileiros (mais sobre os jovens turcos?.. Dê uma paradinha aqui).

Esses oficiais brasileiros criaram, em 1913, a revista “A Defesa Nacional“, a princípio destinada a veicular as idéias do grupo. Logo a publicação (que existe até hoje) se tornou veículo das idéias políticas da jovem oficialidade, e foi fator para o sucesso das reformas.

Um dos principais pontos da reorganização era a transferência das principais unidades militares para sítios situados fora das cidades. Muitos oficiais “tarimbeiros” (de tropa) reclamavam que, dispersa pela cidade do Rio de Janeiro, a corporação não tinha como realizar exercícios em nível maior que o de batalhão. Uma das propostas setoriais apresentadas e levadas a cabo foi a construção da Vila Militar (hoje em dia bairro de classe média na Zona Oeste da cidade). O lugar era, originalmente, uma grande fazenda, e, no início do século 20, gastava-se um dia de marcha para chegar até lá. A construção de quartéis e residências começou em meados de 1908, e correu paralela à reestruturação do exército, ficando pronta em 1915. A demora deveu-se, em parte, a dificuldades em se localizar um sítio que fosse adequado a grandes exercícios militares, e à necessidade de instalar uma via férrea que ligasse a capital aos quartéis.

A reforma do Exército também implicou na introdução de nova doutrina, que tornasse a força capaz adotar, pelo menos em parte, os procedimentos da guerra moderna que as potências  européias estavam praticando, desde meados do século 19. Esse novo estilo de guerra tinha ficado evidente no rápido conflito entre franceses e alemães: movimentos amplos e rapidamente executados, iniciativa e poder de fogo superior apontavam para a superioridade da organização militar alemã. Foram essas novas normas organizativas que a reforma de Hermes da Fonseca tentou implantar no Brasil – embora não houvesse comparação possível entre a formação social alemã e a brasileira. Dentro desse espírito, o Exército da República – que então não tinha completado ainda duas décadas - buscou se reinventar, e foi criado, em 1908, o Primeiro Regimento de Infantaria, depois de extinto o antigo, aquele criado no final do século 18. Como diversas outras criadas na época, a nova unidade baseava-se no modelo “ternário”, adotado pelo exército alemão. Isso quer dizer que era organizado em torno de três batalhões, cada um com aproximadamente 700 homens (três companhias mais tropas especializadas). Para a formação do “Primeiro”, foram reunidos três batalhões, que já existiam desde o Império: o Primeiro de Infantaria (cujo quartel ficava em São Cristóvão), o Sétimo de Infantaria e o Vigésimo de Infantaria, unidades que remontavam ao Império, com longa tradição militar e experiência de combate. Essas unidades foram reformadas e reunidas na nova unidade orgânica.

O “Primeiro de Infantaria” foi uma das primeiras unidades do EB a emigrar para a Vila Militar. A partir de então, esteve presente em diversos eventos de caráter político, como a Revolução de 1930, a Guerra Civil de São Paulo, em 1932, e a repressão à Intentona Comunista de 1935. Em 1940, seguindo a tendência do Estado Novo em valorizar a história como fonte da tradição e do espírito de corpo, que levou à adoção de diversos personagens militares como patronos das forças singulares, armas e especialidades militares, o então “Primeiro de Infantaria” recebeu a denominação de “Regimento Sampaio”. O próprio Sampaio foi guindado à condição de “patrono da arma de infantaria”. 

Em 1943, com o Brasil em guerra contra o Eixo e a criação da  FEB, o “Regimento Sampaio” foi designado para integrar a divisão de infantaria a ser formada. Um dos motivos (talvez o principal) é bastante prosaico: geralmente, os chefes políticos do Exército cumpriam seus períodos de oficiais inferiores (segundos- e primeiros-tenentes, capitães e majores) em regimentos aquartelados na Vila Militar, para ficarem perto do Rio de Janeiro; outro motivo é que o “Primeiro” sempre foi considerado unidade de elite, e não passava pela cabeça dos chefes do Exército deixá-lo de fora da FEB – ainda que o estado de aprestamento não fosse lá dos melhores. Como, diga-se de passagem não era em todo o Exército.

A formação da FEB incluiu também os regimentos 6º de Infantaria (de Caçapava, São Paulo, o “Regimento Ipiranga“) e 11° de Infantaria (de São João Del Rei, Minas Gerais, atualmente 11° Batalhão de Infantaria de Montanha, o “Regimento Tiradentes”, atualmente os “boinas cinzas”, unidade de Pronto Emprego). Claro que a inclusão dessas unidades visava premiar, politicamente, os principais estados da Federação, embora a incorporação de efetivos tenha sido feita em todo o Brasil. O país teria certa dificuldade (para sermos condescendentes…) em formar uma tropa capaz de combater em contexto moderno. A organização do Exército baseava-se ainda nos ensinamentos da Missão Militar Francesa, contratada depois da 1ª GM. A FEB teve de se adequar à organização adotada pelos norte-americanos, que, por sua vez, vinham reorganizando suas forças armadas desde o final dos anos 1930. Os EUA tinham adotado, a partir de 1939, uma estrutura orgânica e administrativa semelhante aquelas adotadas na Europa. Contando com um potencial humano superior ao da Alemanha (em 1940, tinha uma população de uns 170 milhões de habitantes, contra 90 milhões da Alemanha), os planejadores norte-americanos imaginaram que poderiam contornar certos problemas aumentando o tamanho das grandes unidades (as divisões).

Neste porto, vale um parentese para examinar exatamente o que constitui uma “divisão” – no caso que nos interessa, uma divisão no formato norte-americano, aquele que foi copiado pela FEB – e pelo “Primeiro de Infantaria”.

Os EUA mobilizaram sessenta e sete divisões de infantaria durante a 2ª GM, dentre as  quais em torno de quarenta eram consideradas “de primeira linha”. Quarenta e duas divisões serviram no ETO (Teatro de Operações Europeu) e no MTO (Teatro de Operações do Mediterrâneo); as restantes 23 foram alocadas no PTO (Teatro de Operações do Pacífico). Essas unidades eram baseadas em conceito relativamente novo – de fato, tinham sido formadas para a guerra que se avizinhava.

A primeira forma de organização divisional adotada pelos EUA surgiu durante a 1ª GM. Eram organizadas com base no modelo francês, mas, depois da Guerra esse modelo foi substituído por outro, híbrido, que adotava a organização “ternária” – cada divisão possuía três regimentos de infantaria e cada regimento era dotado de três batalhões. Completavam a unidade elementos de artilharia divisionária, formados por quatro batalhões; um esquadrão motorizado de reconhecimento com certa capacidade de choque; unidade de engenharia, serviços médicos e pessoal administrativo. O Estado-maior era único, atendendo a toda divisão, embora os regimentos tivessem os seus.  O comandante era um general de duas estrelas (no exército dos EUA, major-general), que podia ter um general de uma estrela (brigadeiro, posto inexistente no Exército Brasileiro) ou um coronel como assistentes. A artilharia era comandada por outro brigadeiro, os regimentos de infantaria, por coronéis, e tenente-coronéis comandavam os batalhões. Essa organização foi consolidada em 1940-1941. Por volta do início de 1943, com a estabilização da frente do Pacífico e o início dos preparativos para os desembarques no norte da África, a dificuldade de formar oficiais e, principalmente, encontrar oficiais para serem promovidos a generais fez com que os postos de comando intermediários fossem rebaixados. Os regimentos de menor efetivo (como os de cavalaria, ou seja, infantaria blindada) ou de segunda linha (como os de colored troops, unidades de negros comandadas por oficiais brancos da Guarda Nacional e de engenharia de contruções) passaram a ser comandados por tenentes-coronéis, e os batalhões de infantaria, por majores com experiência de tropa (mais tarde, de combate).

A dotação de pessoal e veículos das grandes unidades era constantemente aumentada, com base na experiência de combate. Em meados de 1944, chegou ao ponto de reunir pouco mais de 14.300 efetivos, uns cinqüenta canhões de campanha (três baterias de obuses 105 mm – em inglês, field howitzer , rebocados por caminhões, e uma bateria de obuses 155 mm); havia também uma bateria de canhões AT de 57 mm e cerca de 1400 veículos. As divisões de infantaria “de primeira” também dispunham de algo entre oito e doze aeronaves ligeiras de observação.

Os regimentos de infantaria reproduziam a organização da divisão, cada qual com três batalhões, cada um com três companhias; em cada batalhão, uma quarta companhia encarregava-se dos “petrechos pesados”, ou seja, metralhadoras pesadas – montadas em tripés e operadas por uma “seção” de quatro homens – e morteiros leves. Os batalhões dispunham de uma quarta companhia, “de comando e serviços”, que reunia Inteligência, Reconhecimento, Comunicações, Engenharia, Saúde e Administração, alcançando, quando completos, pouco mais de 900 efetivos, comandados por um tenente-coronel ou major. No total, um regimento de infantaria, comandado por um coronel, reunia cerca de 3.300 efetivos. Já as unidades “divisionárias”, que reuniam o pessoal da artilharia divisionária, comunicações, engenharia de combate, transportes, logística, saúde, administração, o Estado-maior e, em certos casos, infantaria de reserva, chegavam a 5.000 efetivos.

Em teoria, era um organização capaz de dar conta de um setor de frente de aproximadamente trinta quilômetros de largura e profundidade variável, conforme o terreno. A experiência de combate mostrou que a teoria, na prática, era outra, e de fato, bastavam algumas semanas em combate para que a frente se tornasse “porosa”, já que as baixas não eram repostas em tempo hábil. Esse era o problema que os alemães não tinham conseguido resolver, depois de 1943; os norte-americanos só vieram a senti-lo plenamente no final de 1944, com a inesperada contra-ofensiva das Ardenas.

A FEB foi organizada como um tropa norte-americana do tipo descrito acima, o que não foi feito sem bastante trabalho. A principal unidade era a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária que, com pequenas diferenças (por exemplo, não recebeu obuses 105 automóveis, que se tornaram comuns na época da chegada à Itália, não tinha artilharia anti-aérea e o principal armamento de infantaria era o fuzil M1903 Springfield), era igual às divisões de infantaria norte-americanas. O “Primeiro de Infataria” era o primeiro regimento da FEB. A organização da tropa começou com estágios de oficiais nos cursos regulares de infantaria e artilharia, em Fort Benning, Georgia e, mais tarde, com toda a tropa instruída no Brasil conforme os  padrões norte-americanas e complementando a instrução na Itália, nas diversas “Escolas Treinamento de Comando e Combate” (Leadership and Battle Training School). Valeu à pena – apesar das controvérsias que existem até hoje, no geral, a tropa brasileira se saiu bem. E graças ao período de quase nove meses integrado ao MTO, o Exército Brasileiro tomou contato com as doutrinas militares que iriam prevalecer nas seguintes três décadas, adquiriu experiência de combate e, principalmente, constituiu uma tradição de inestimável valor memorial. 

De volta ao Brasil, a FEB foi mantida como base para o que talvez tenha sido a maior reorganização pela qual o EB passou desde sua criação como corporação de estado, em 1822. Envolvidos na Guerra Fria, os norte-americanos queriam conquistar a fidelidade das forças armadas de seus aliados periféricos, cujas sociedades consideravam suscetíveis à “influência de Moscou”. Dentre outros, dois métodos se destacaram: oferecer o concurso de instrutores militares e disponibilizar a esses aliados certa quantidade de armamento relativamente moderno a preços subsidiados, através dos Acordos de Cooperação Militar e dos Programas de Vendas Estrangeiras (Foreign Military Sales) que decorreram deles, a partir de 1947. O resultado é que, dez anos após o final da 2ª GM, o Brasil estava entre os aliados mais confiáveis dos EUA e o Exército tinha alcançado o maior efetivo desde a Guerra do Paraguai, sendo o maior da América Latina, e talvez um dos três maiores do Hemisfério Sul. No início dos anos 1960, podia colocar em campo, caso necessário, um corpo blindado (uma divisão blindada e duas motorizadas) e cinco divisões de infantaria, com um complemento de umas 200 peças de artilharia de campanha dos mais variados calibres.

Embora a base da estrutura persistisse aquela adotada para a FEB e depois disseminada pelos instrutores norte-americanos, diversas reorganizações administrativas e orgânicas foram implementadas, ao longo da segunda metade do século 20. Um aspecto que, entretanto, ainda ligava o exército de então aquele reformado em 1908 era a Vila Militar, que, em 1960, era o maior aquartelamento de tropas terrestres da América Latina.

Do ponto de vista organizacional, algumas mudanças foram sendo implementadas nos anos 1950, de modo a aumentar a eficiência administrativa. Mas apenas nos anos 1970 o Exército passou por nova reestruturação, que viria a modificar a organização adotada nos anos imeditamente posteriores à Segunda Guerra Mundial. O novo formato começou a ser estudado no final dos anos 1960, e buscava dar à força terrestre maior flexibilidade, baseada sobretudo em padrões mais avançados de integração e mobilidade. As antigas grandes unidades de armas (divisões de cavalaria e infantaria e os regimentos de cavalaria mecanizada e blindada) foram reunidas em grandes unidades denominadas “Divisões de Exército”, formações de todas as armas, capazes de alto grau de iniciativa. As principais unidades orgânicas passaram a ser as brigadas, unidades de arma, de efetivo maior do que o dos antigos regimentos, organizadas em torno de tropas motorizadas, com complementos próprios de artilharia e engenharia. Essa nova proposta de organização levou, em 1971, à extinção do Primeiro Regimento de Infantaria e, em seu lugar foi criado o 1° Batalhão de Infantaria Motorizado (Escola), ou 1° BIMtz(Es). Essa unidade é concebida para ser referência do Exército Brasileiro, no que tange à aplicação de doutrinas e métodos, e foi integrado à uma nova grande unidade,  a 9ª Brigada de Infantaria Motorizada, núcleo do Grupamento de Unidades Escola do EB.

A 9ª BdaInfMtz, dentro da nova doutrina, que vem sendo implantada no Exército desde os anos 1980, é uma das unidades da Força de Deslocamento Rápido/Pronto Emprego. A idéia do Pronto Emprego firmou-se quando o Exército, a partir dos anos 1980, posto diante de sucessivos cortes de verba e da diminuição progressiva de seu orçamento, passou, na prática, a ser divido em dois (embora nenhum milico admita isso…): o Pronto Emprego e o resto. O Pronto Emprego – cujo conceito baseia-se em discussões realizadas, nos anos 1990, no âmbito da ONU – é parte do EB capaz de ser rapidamente mobilizada e colocada, em caso de necessidade, em condições de deslocamento, por terra, ar ou mar. Sob a essa designação estão unidades consideradas de elite, com dotação de pessoal, equipamentos e suprimentos mantidos, tanto quanto possível, próximos do ideal. A FDR está subordinada administrativamente à 1ª Divisão de Exército, e a 9ª Motorizada é considerada núcleo dessa força, juntamente com os pára-quedistas, os “boinas cinzas” e os aeromóveis - e também os Fuzileiros Navais. Suas principais unidades são o “Primeiro de Infantaria”, o “Segundo de Infantaria” (o tradicionalíssimo “Dois de Ouro”, que disputa com o “Sampaio” a honra de ser a mais antiga unidade do EB…), o 15° Regimento de Cavalaria Mecanizado (Escola), o também tradicional “ReCMec”, a primeira motorizada do Exército formada no espírito das novas doutrinas, em 1946 (vale à pena dar uma paradinha aqui), o Batalhão Escola de Engenharia, o tradicional (como não seria, devem estar se perguntando os oito ou nove leitores…) “Batalhão Villagran Cabrita”  e o Batalhão Escola de Comunicações. Outras unidades estão integradas à esta brigada, mas o “Primeiro de Infantaria” junto com as outras duas (o “Dois de Ouro” e o “ReCMec”), são as jóias da coroa, não só do GUES, mas do Exército Brasileiro::

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Drops para o fim de semana::

Tropas britânicas embarcando para evacuação, nos primeiros dias da "Operação Dínamo", Dunquerque (costa norte da França), maio, 1940: avaliação política equivocada ou erro militar crasso?..

Em 2006 caiu nas mãos do redator:: um livro fascinante: “As entrevistas de Nuremberg” (o livro pode ser consultado, com restrições, aqui). Não é preciso explicar a nenhum leitor assíduo ou eventual de causa:: o que foi o Tribunal Militar Internacional. Leitor de causa:: ou não, todo mundo sabe que o TMI, ao longo da ano de 1946, julgou os principais criminosos nazistas. Foram réus do, tribunal, instalado na cidade de Nuremberg, Hermann Göring, Rudolf Hess, Joachim von Ribbentrop, Robert Ley, Wilhelm Keitel, Ernst Kaltenbrunner, Alfred Rosemberg, Hans Frank, Wilhelm Frick, Julius Streicher, Wilhelm Funk, Hjalmar Sclacht, Gustav Krupp, Karl Dönitz, Erich Raeder, Baldur Von Schirach, Fritz Sauckel, Alfred Jodl, Martins Borman, Franz von Papen, Arthur Seyss-Inquart, Albert Speer, Constantin von Neurath e Hans Fritzche. Os vinte e três “grandes criminosos” foram indiciados por diversos crimes, sendo alguns deles responsabilizados por provocarem deliberadamente a Segunda Guerra Mundial (planejar uma guerra de agressão) e ter cometido atrocidades durante as operaações militares para a conquista de territórios estrangeiros (violação das leis e costumes da guerra), oprimindo e matando a população inocente (crimes contra a humanidade). As acusações específicas iam do assassínio político ao extermínio de etnias religiosas, passando por crimes militares, escravização e pilhagem. O Tribunal Militar Internacional não se encerrou no grande processo, mas continuou, em uma série de treze julgamentos realizados entre 1945 e 1949. Nesses processos foram acusados e julgados uma série de funcionários civis e militares, responsabilizados por crimes relacionados aos “grandes crimes”.

Durante o julgamento principal, um médico do Exército dos EUA, major Leon Nathaniel Goldensohn, especializado em psiquiatria, foi designado para monitorar a saúde mental dos acusados.  Seu trabalho era feito com base em entrevistas diárias que abrangiam dezenas de nazistas de primeira linha, entre os levados ao tribunal como réus e outros convocados como testemunhas. O trabalho durou até meados de 1946 e resultou em dentenas de páginas de anotações, que, após ser transferido, Goldenshn conservou em seu poder. O médico morreu  em 1961. Suas notas ficaram esquecidas, até seu irmão as recuperar e editar para publicação, em 2004. O livro foi lançado em nossa língua no ano seguinte.

As entrevistas, em si, não têm nada de surpreendente: todos os acusados tentam se safar, e, em geral, da maneira usual. Nenhum deles foi responsável por nada, tudo tinha sido culpa de Hitler, de Himmler, de Borman (mortos, claro…) ou dos outros envolvidos, presentes ou não. Interessante mesmo é o panorama da Alemanha pré-Hitler que vaza das falas dos entrevistados, assim como a trajetória  dos acusados até o poder – enfim, a visão de mundo daquela gente.

Baseado nas entrevistas de alguns líderes militares, o redator:: resolveu fazer a experiência de analisar uma grande operação da 2ª GM mesclando a fala de homens que tiveram indubitável importância na direção da guerra, e trechos que são esclarecedores sobre esses mesmos temas, recolhidos em outras excelentes publicações disponíveis em português.

Um dos entrevistados que fala de forma mais clara é o general-marechal-de-campo (em alemão, general feldmarshall) Ewald von Kleist. Este cavalariano clássico, que, quase por acaso se viu comandando tanques, teve uma carreira destacada durante a guerra. Na campanha da França, foi designado comandante de um grupo blindado, o “Panzergrüppe Kleist“, formado a partir do 22° Corpo de Exército. O “grupo blindado Kleist” (na 2ª GM, unidades assim designadas tinham a primeira letra do nome do comandante estampadas em todos os veículos) alcançou e cruzou o rio Meuse, nas proximidades de Sedan em 13 de maio, abrindo assim uma brecha em forças francesas muito superiores. Continuou avançando, tendo os especialistas Guderian e Reinhardt como pontas-de-lança, no melhor estilo “guerra-relâmpago”, até as margens do canal Aire-Saint Omer, alcançado três dias depois. Uma vez cumprido esse objetivo, recebeu a surpreendente ordem superior de deter suas forças, que estavam virtualmente intocadas (tinham sofrido 11 por cento de baixas) e dispunham de combustível suficiente. Kleist decidiu ordenar que alguns elementos de vanguarda cruzassem o canal explorando o caminho até a cidade de Hazebrouck, importante entrocamento ferroviário. O Oberkommando des Heeres (OKH, Alto comando do Exército, formado em 1936) entretanto, reforçou a ordem de alto e Kleist teve de retirar os dois regimentos que estavam às portas da cidade. Ao longo dos três dias seguintes, todo o grupo foi mantido em posição. Depois se descobriu que o alto-comando do Exército tinha desconfiado de uma armadilha, dada a facilidade com que os blindados estavam avançando por toda a França. Durante a segunda fase da campanha, Kleist recebeu o controle da 16ª Divisão Blindada e do 14° Corpo Motorizado. Seu grupo de combate atacou a partir de Amiens e conquistou uma cabeça-de-ponte sobre o rio Oiser. Dali até o porto de Dunquerque seria um pulo. Entretanto, em 24 de maio, Kleist novamente recebeu ordens de alto, desta vez no canal do rio Aa, à sudeste de Dunquerque. A tropa de Kleist terminou a campanha alguns dias depois, às portas de Lyon. O general soube, mais tarde, que a ordem tinha partido de Hitler, em pessoa.

Convocado pelo TMI como testemunha (posteriormente, foi julgado e condenado por crimes de guerra cometidos sob sua direção, na Iugoslávia, em seguida entregue aos soviéticos para novo julgamento), seu depoimento é um dos mais interessantes dentre os que aparecem no livro de Goldensohn. Sobre a surpreendente ordem de alto no canal do Aa, diz Kleist que…

“… os ingleses conseguiram escapar da armadilha em Dunquerque, tão cuidadosamente armada por mim, apenas com a ajuda pessoal de Hitler. Havia um canal de Arras a Dunqurque e eu já havia atravessado esse canal, e minhas tropas ocupavam que se projetavam sobre Flandres. Portanto, meu grupo de blindados tinham o controle de Dunquerque e da área onde os britânicos estavam imobilizados. O fato é que os ingleses não teriam conseguido chegar em Dunquerque porque estavam sob a minha mira. Aí Hitler ordenou pessoalmente que eu retirasse minhas tropas daquelas colinas.”

Essa situação tem muitas interpretações. Inúmeros historiadores costumam a dizer que talvez Hitler pretendesse dar um refresco aos britânicos, para que estes pudessem decidir o que fazer. Até então a intuição política de Hitler tinha funcionado bem, e ele possivelmente imaginava que os britânicos iriam acabar resolvendo negociar. Em uma excelente síntese publicada na Inglaterra em 1990 e no Brasil em 1993, o historiador canadense Martin Kitchen parece ter dúvidas exatamente nessa direção:

“Os motivos de Hitler continuam a ser uma espécie de mistério. Rundestedt afirmou … que Hitler permitiu deliberadamente que os britânicos escapassem, na esperança de chegar a um acordo político. No dia 17 de maio ele comunicara … sua intenção de dividir o mundo com os britânicos. … os britânicos tinham de … aceitar a dominação germânica no continente europeu e poderiam conservar a supremacia naval e o Império. No dia 21 de maio, Halder foi informado de que o governo alemão tinha esperança de chegar a um acordo com a Grã-Bretanha sobre a divisão do mundo. … no dia 2 de junho, Hitler declarou … que tinha confiança em que a Grã-Bretanha aceitaria uma ´paz razoável´, que o deixaria livre para dar prosseguimento à sua ‘missão realmente grande’ de esmagar a União Soviética. O Império Britânico, insistira, tinha um papel vital a desempenhar, em nome da raça branca.”

O historiador britânico Ian Kershaw pensa diferente. Falando sobre o incidente, no livro “1940-1941 – Dez decisões que mudaram o mundo“, ele coloca diretamente sua discordância:

“Quando Hitler visitou o quartel-general de seu comandante ocidental, coronel-general Gerd von Rundestedt, na manhã de 24 de maio, os panzers já estavam menos de 24 quilômetros ao sul de Dunquerque. Depois de avaliar a situação militar com Rundestedt, Hitler deu a ordem para o avanço ser interrompido naquele ponto e não prosseguir até Dunquerque. A decisão logo veio a ser vista como uma oportunidade crucial perdida de acabar com as forças derrotadas do Exército britânico. Tentando justificar um grande erro militar, Hitler posteriormente sugeriu que não quisera destruir o Exército britânico, a espinha dorsal do Império. Isso não passou de uma racionalização para salvar as aparências. Na verdade, ele estava apenas seguindo a recomendação militar de seu comandante de campo, Rundestedt, que quisera preservar suas unidades motorizadas para a investida final para o sul, para concluir a campanha. Longe de querer preservar o Exército britânico, Hitler foi levado por Göring, comandante-em-chefe da Aeronáutica alemã, a acreditar que a Luftwaffe acabaria com tudo.”

É provável que ambos os historiadores estejam corretos (Kitchen não descarta a hipótese do erro militar), mas o depoimento de von Kleist aponta para a análise de Kershaw:

“Hitler achou que era arriscado demais. Eram absurdas as ordens dele naquela época. Poderíamos ter aprisionado ou exterminado totalmente o exército britânico, não fosse a ordem estúpida de Hitler. A prova é que, três dias depois, os ingleses ocuparam as colinas, e fui obrigado a atacá-los de novo para tirá-los de lá. O grosso das tropas inglesas, porém, já havia atingido Dunquerque e estava fugindo em pequenos barcos. O triste disso é que eu poderia ter capturado o exército britânico, ou uma parte tão grande, que uma invasão da Inglaterra teria sido uma questão simples.”

Um outra questão, entretanto, são as divergências que haviam dentro do próprio exército alemão, entre os generais “de blindados” e os tradicionais – estes no comando. Rundestedt fazia parte da ala tradicional, que via limites nas possibilidades das forças motorizadas. Aristocrata prussiano, no exército desde 1892, oficial de estado-maior desde 1907, general-de-brigada em 1932, general-de-exército em 1938, Rudestedt expressava as mais arraigadas tradições da infantaria prussiana. De fato, emanava dele a preocupação com a distensão aparentemente excessiva dos blindados. Rudestedt era um infante que buscava a modernização da infantaria, tanto que, em 1934, juntou-se a um projeto que introduzia caminhões como transportes de tropas, ao invés das tradicionais carroças; também se interessou pelo uso de tanques como “artilharia móvel” nas divisões de infantaria. O general advogava a coordenação entre blindados e forças de infantaria, ainda que da forma tradicional. Mas, em geral, os analistas acham que ele, de fato, não acreditava nos blindados. Convocado da reserva para o serviço ativo, em 1939, durante a Campanha do Ocidente foi designado comandante do Grupo de Exércitos A. O Sichelschnitt (“Golpe de foice”), desbordamento através das Ardenas, idéia de Manstein, foi entusiasticamente advogado pelo velho comandante. Entretanto, também foi o militar que esteve no meio da “crise de Arras”.

Foi um momento de pânico no alto-comando, cuja origem esteve na facilidade, não prevista, do avanço das forças motorizadas através da França e da Bélgica. Quando, em 21 de maio, um contra-ataque britânico mostrou-se surpreendentemente bem sucedido, e quase resultou numa derrota da 7ª Divisão Blindada, a “Divisão Fantasma” de Rommel, na área de Arras, alguns comandantes alemães parecem ter perdido a calma. O comandante do 4° Exército suspendeu todos os movimentos das forças motorizadasaté que a situação fosse controlada, e o resultado é que o rápido avanço do Grupo Blindado Kleist foi também desacelerado. Rundstedt, reunido com Hitler, mostrou-se muito preocupado com a falta de coordenação entre tropas motorizadas e infantaria, que poderia deixar os blindados descobertos.  Em 23 de maio, ele sugeriu que as formações blindadas fossem detidas. Hitler mostrou-se favorável à medida, e desautorizou as ordens em contrário emitidas pelo OKH. A diminuição de velocidade transformou-se numa ordem de alto, que durou até 27 de maio. Foi nesse período que as tropas da Força Expedicionária Britânica escaparam através do Canal. Essa prudência excessiva seria apenas a expressão da personalidade de um comandante pouco afeito a assumir riscos. Sempre tinha sido assim, desde a execução do plano de Manstein. Segundo o historiador militar Earl F. Ziemke, autor de uma biografia militar de Rundestedt…

“No quartel-general do Grupo de Exércitos A, na tarde do dia 17, Hitler deu pleno apoio a uma avaliação na qual Rundestedt ‘enfatizava a situação delicada do flanco sul’, e acreditava que nada era mais importante para toda a operação do que uma prontidão defensiva, absolutamente segura no Aisne e no Somme. … preocupava-se com a possibilidade de seu flanco esquerdo ficar exposto com a travessia do Meuse que, esperava, estivesse fortemente defendido. Guderian ficou desolado ao descobrir que Rundestedt acreditava que divisões panzers e motorizadas não poderiam cruzar rios sem ajuda da infantaria.”

Von Brauchitsch e Halder discordaram, e tomaram a decisão – correta – de ordenar que o ataque prosseguisse, ainda que sem consultar Hitler. Esses dois também não confiavam totalmente nos tanques, mas acreditavam no que estavam vendo – o enorme sucesso do novo estilo de guerra. Segundo o historiador Andrew Roberts, no excelente “Hitler e Churchill: segredos da liderança”caso Rundestedt pudesse ter decidido, ainda assim seguiria as diretrizes de Hitler, que, durante toda a campanha do Ocidente, mostrou-se hesitante. Para ele, a blitzkrieg teria sido mais krieg e menos blitz. Em meio a essas hesitações que a Inglaterra pôde salvar-se, naquele momento.::

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::MP40, a “arma do soldado nazista”::

parte2/2Mas havia um problema: a doutrina que estava sendo estudada para as nova “tropas blindadas” (em alemão, Panzertrüppen) implicava em maior poder de fogo individual. As unidades a serem empregadas (regimentos e batalhões) em combate seriam necessariamente menores do que as das forças convencionais, em função da disponibilidade de veículos motorizados em cada grande unidade (divisão). Os planejadores esperavam que as frações (companhias, pelotões e esquadras), transportadas em veículos protegidos especiais ou em caminhões convencionais, pudessem compensar a diminuição dos efetivos combinando velocidade e poder de fogo. As frações de “infantaria blindada” (panzergrenadieren, em alemão) deveriam ser lançadas diretamente nos setores de combate a partir dos transportes motorizados que seguiriam os “carros blindados” (panzerwagen, em alemão),o que tornava o potente cartucho convencional (o IS 7.92) dispensável, já que o tiro não seria disparado de grande distância. Melhor seria uma arma com grande cadência de fogo – e que o combatente pudesse transportar maior quantidade de munição preparada. A submetralhadora pareceu a solução ideal, simplesmente por existir. 

As experiências com armas pesadas especiais (os tanques), tropas blindadas, motorizadas e mesmo pára-quedistas remontavam ao final dos anos 1920 e início dos 1930. Os oficiais que conceituaram essas tropas eram todos de patente intermediária (majores e tenentes-coronéis), ou seja, não mandavam nada, e o Estado-maior geral desprezava armas automáticas e veículos motorizados. A subida dos nazistas ao poder mudou o panorama. Hitler interessou-se por um manual que apresentava a teoria do assunto, e tornou-se uma espécie de advogado das forças blindadas.

Foi nessa época (1934) que as forças blindadas começaram a “pegar”, em função de exercícios teóricos e simulações de campo bem-sucedidos. Ainda assim, o apego dos generais aos conceitos tradicionais persistiu: mesmo com o sucesso das novas experiências, a doutrina alemã não chegou a mudar. O tiro individual a longa distância continuou a ser enfatizado. Vários infantes disparando ao mesmo tempo, apoiados por uma ou mais metralhadoras, criariam o peso de fogo necessário para superar o adversário.

Assim, podemos dizer que o Exército Alemão de 1939 dispunha de duas categorias de tropas bem diferenciadas: as forças blindadas e o resto do exército. As primeiras, compostas por dez divisões blindadas, sete divisões de infantaria motorizada e três divisões “ligeiras” (divisões blindadas com um efetivo menor de tanques e veículos motorizados), representavam apenas sete por cento do efetivo total – no início da guerra, uns 130.000 militares (o Exército todo montava pouco mais de 1.800.000 efetivos, nessa época). Mas era “outro exército”, com a introdução dos blindados sobre lagartas, transportes de tropas e apoio logístico motorizado, comunicações por rádio e aplicação de interdição e apoio aéreo aproximado. Essas tropas receberam uma quantidade maior de submetralhadoras: uma em cada quatro armas. A outras três continuaram a ser os fuzis de repetição convencionais. No exército “comum”, menos de dez por cento da dotação total de armas de infantaria era composta por submetralhadoras.

Esse “exército comum” era formado basicamente de divisões de infantaria do tipo clássico. Eram transportadas para a frente em trens, deslocavam-se a pé na última parte do trajeto ou, quando necessário, em veículos tirados a cavalo. Nessas unidades, o armamento continuou a ser o convencional, com a diferença de que a esquadra de combate passou a ser equipada com uma metralhadora ligeira fazendo o papel de fuzil-metralhador (a partir de 1934, a excelente MG34 passou a ser distribuída em grandes números). 

Pouco antes da guerra, as possibilidades das forças blindadas foram confirmadas na prática, em 12 de março de 1938, no rápido deslocamento para a ocupação da Áustria. Por volta dessa época, chegou a ser discutida a distribuição de submetralhadoras para todo o exército, em função de informações sobre o exército russo. Mas os métodos de atuação continuaram virtualmente os mesmos da guerra anterior, apesar de algumas modificações introduzidas em função da distribuição de metralhadoras ligeiras. Aí também interferiu a questão econômica. No início dos anos 1930, os estoques de carabinas KAR98K, herdadas da 1ª GM ainda eram enormes. Na confusão do pós-guerra anterior, quando a Alemanha não foi propriamente desarmada, depósitos militares tinham sido preservados pelas tropas francas que proliferaram pelo país. Em 1935, com a retomada da conscrição universal, o aumento repentino do tamanho do exército exigiu grande quantidade de equipamento individual. As armas herdadas da Grande Guerra foram distribuídas às tropas, e as fábricas continuaram a produzi-las utilizando tecnologia, gabaritos e ferramental já disponíveis. Muitos dos industriais e engenheiros alegavam que não haveria tempo para desenhar e colocar em produção uma nova arma-padrão. Estudos de um fuzil semi-automático foram postergados.

E o Exército não dispunha nem mesmo de grande quantidade de submetralhadoras. Essa arma tinha tido sua fabricação, em calibres superiores a 7.65, proibida pelo Tratado de Versalhes. O resultado é que uma variedade de tipos teve que ser adquirida para as tropas especializadas que necessitavam delas: Bergmans e Ermas do tipo das forças policiais foram encomendadas. Ainda assim, Departamento de Armamento do Exército (em alemão, Heeres Waffenamt- HWA), reestruturação do Departamento Nacional de Armamento (em alemão, Reichsswaffen Amt) resolveu que um novo modelo era necessário e lançou a requisição. A companhia Erfurter Maschinenfabrik (ERMA), fábrica de máquinas estabelecida em 1922, foi escolhida em 1936 para desenhar a nova arma. O resultado foi a Maschinepistole Modell 1936 – ou, simplesmente, MP36.

Essa arma, considerada pelos especialistas como um modelo de teste de conceito, era projeto do engenheiro Heinrich Vollmer, que, em 1925, apresentou para testes a Vollmer Maschinenpistole VMP 1925. Com o receptor colocado abaixo da caixa de culatra e o carregador em posição vertical, a VMP 1925 disparava apenas em modo automático, não tinha chave de segurança e sua alça de mira contava apenas três posições: branco, cem e duzentos metros. Embora a arma tenha sido reprovada nos testes, o IWG (Inspektion für Waffen und Gerät, Inspetoria para Armamentos e Equipamento, seção do RWA) resolveu apoiar o desenvolvimento do protótipo. 

Em 1926 Vollmer modificou o carregador de seu projeto, adotando um desenho de 30 cargas escalonadas, tipo caixa, que foi considerado muito fácil de usar. O receptor voltou à posição lateral, do lado esquerdo da caixa de culatra.  A nova versão foi designada VMP 1928 e Vollmer continuou trabalhando em seu desenvolvimento. Em 1930, uma nova versão foi apresentada, a VMP 1930.

Essa versão era externamente muito similar ao modelo anterior. A principal modificação era interna: um tubo telescópico que continha a mola recuperadora e a mantinha permanentemente ligada ao ferrolho. Essa peça aumentou a confiabilidade da arma, além de ter tornado mais fácil a desmontagem em campo, por diminuir o número de peças que a compunham, reduzidas a apenas quatro: cano e receptor, ferrolho e mola recuperadora, caixa de culatra e coronha. Foram fabricadas umas 400 VMP 1930 até que o IWG cortou o financiamento de Vollmer. Embora o Exército tenha alegado problemas técnicos não satisfatoriamente resolvidos (mais exatamente, uma cadência de fogo excessivamente alta), é mais provável que tenha sido mesmo a recessão de 1929, que, em 1930, atingiu duramente a Alemanha.

Vollmer não conseguiu recursos para fabricar a arma e acabou vendendo a patente para a ERMA em 1931. O projeto, ligeiramente modificado, virou a EMP (ERMA Maschinepistole), nos calibres 7.65X22 mm Luger, 7.63X25 Mauser e 9X19 mm Parabellum, e se tornou um sucesso de vendas. Tirante as inovações mecânicas, as EMP não eram diferentes das outras armas do tipo: o sistema era o recuo direto a partir da culatra aberta, o tiro era seletivo e a ergonomia, ainda a de fuzil. Em 1936, com a requisição do Exército, a ERMA apresentou uma  versão da EMP, redenhada pelo próprio Vollmer. A principal novidade foi uma mudança radical da ergonomia. O desenho da coronha de fuzil foi mudado para empunhadura de madeira dotada de um punho de pistola na extremidade. A coronha fixa foi substituída por uma peça feita em arame de aço, que podia ser rebatida em 180 graus, para baixo da caixa de culatra, sendo que a placa de apoio girava até ficar totalmente alojada atrás do receptor. Mesmo com muitas peças, como a caixa de culatra e o receptor, fabricadas em metal usinado, era um pouco mais leve do que suas antecessoras, devido ao redesenho.

O surgimento desse desenho pode ser creditado aos estudos dos planejadores das tropas motorizadas e dos pára-quedistas (fällschrimjägern),  e de requisições feitas diretamente ao HWA. Parece claro que o objetivo inicial com essa nova submetralhadora era dotar as novas tropas de uma arma adequada à doutrina. O Exército “comum” nunca mostrou interesse por armas longas automáticas, como já vimos. O novo desenho foi ainda pior recebido, pois a doutrina da infantaria convencional colocava que uma forte coronha de madeira era necessária não apenas em função do tiro, mas também, porque, em situação de combate próximo, essa poderia ser usada como porrete. Uma submetralhadora “de infantaria” teria, pois, de ter coronha convencional. O impasse só foi resolvido por Hitler, em pessoa. Ainda assim, o Exército não chegou a testar a arma, e poucos exemplares (calcula-se que não mais de 500 unidades) foram fabricados.  

Em 1938, o Departamento de Armamento do Exército lançou nova requisição para submetralhadora. A ERMA apresentou uma nova versão da MP36, com alguns detalhes redesenhados. A empunhadura passou a ser de baquelite (um tipo de resina sintética), o seletor de fogo foi eliminado e as peças de metal usinado foram simplificadas, o que resultou na mudança da posição do receptor – na MP36, este era ligeiramente inclinado para a frente. Em agosto de 1938, a arma foi aprovada e começou a ser distribuída quase imediatamente. Recebeu a notação *MP38. Com a coronha rebatida, media 63 centímetros de comprimento, sendo que 25,1 centímetros correspondiam ao cano; com a  coronha em posição, o comprimento total aumentava para 83 centímetros. O peso era de pouco mais de 4100 gramas. A cadência de fogo subia a 450-500 salvas por minuto, com uma velocidade de saída do projétil de aproximadamente 380 m/s. Isso tornava o alcance útil não maior do que 200 metros. A baixa cadência de fogo possibilitava uma precisão um pouco maior do que de modelos como a M1928 norte-americana (a Thompson), com cadência de 600 salvas – a MP38 sequer tinha compensador de boca. Também não possuía seletor de tiro, sendo somente possível disparar em rajadas. Essas características tornaram as miras graduáveis usadas até então totalmente inúteis, e essas foram substituida por um sistema de placas rebatíveis com uma fenda no centro, reguladas para distâncias de 100 e 200 metros, articuladas a um visor tipo *grão de centeio. A arma podia ser transportada pelo usuário em diversas posições, conforme as necessidades das forças motorizadas e aeroterrestres: tinha características estudadas para facilitar o uso em veículos motorizados, principalmente os transportes blindados meia-lagarta SdKfz 250/51, dotados de escotilhas laterais que permitiam o tiro em movimento. Abaixo do cano, logo atrás da boca, um ressalto foi projetado para manter o cano em posição, impedindo a arma de, quando utilizada por soldados embarcados, atirar para dentro da cabine do veículo.

Durante a campanha da Polônia, uma série de problemas da MP38 foram apontados. O pior era a tendência a disparar sem intervenção do atirador. Com um tranco relativamente fraco, mesmo se a alavanca de armar se encontrasse em posição de segurança, o ferrolho saltava da posição (um corte na parte superior traseira da caixa de culatra) e ia violentamente para a frente, fazendo o disparo. Esse problema foi corrigido com o redesenho da mola recuperadora (cuja tensão foi reduzida) e do percussor, mas principalmente com um novo dispositivo de segurança. Na MP38 (aqui, uma vista em corte da arma e de suas principais peças, que eram desmontadas em campo – “1° escalão de manutenção”) a alavanca de armar era fixa; na nova versão, passou a ser trancada pelo atirador na posição de segurança: na posição “culatra aberta” (o bloco de culatra puxado para trás), a alavanca era fixada no ressalto de segurança e rebatida para cima. Tinha de ser destrancada antes de ser colocada em posição “armada” (puxado o bloco totalmente para trás). A versão de transição, chamada de MP38/40, distribuída em 1940, recebeu esse dispositivo. Outro defeito era a mola do carregador. Feita em metal barato, rapidamente perdia a elasticidade, e fazia a arma travar, quando as 32 cargas eram colocadas lá. Os soldados contornavam o problema colocando apenas 30 ou 31 cartuchos (na *foto, granadeiro blindado com uma MP38 da versão original. Note que, para evitar disparo acidental, o soldado retirou o carregador da arma).

Mas o principal problema não era de operação: a fabricação era difícil e, sobretudo, muito cara. As peças usinadas eram difíceis de produzir e tornavam o tempo de fabricação e a razão homens/hora bastante altos. No início de 1940, visando a distribuição massiva, o Exército ordenou modificações no projeto e nos métodos de produção. Por volta dos meados daquele ano, uma nova arma começou a ser distribuída, externamente semelhante, porém menos dispendiosa e complexa de fabricar do que a anterior. Essa versão, considerada intermédia (MP38/40), serviu de base para a produção da versão definitiva, a *MP40.

A MP40 passou a usar largamente a estamparia em aço laminado de baixo nível de carbono, que permitia o uso de solda elétrica por pontos; muito pouco aço de liga de alta qualidade aparece em suas especificações, nas poucas peças usinadas que foram mantidas. A caixa de culatra e o receptor foram as principais peças modificadas, sendo que esta última passou a ser feita através do esticamento e recorte de uma folha de aço-carbono de 1,5 mm de espessura. Essas novas características permitiam que as peças pudessem ser fabricadas em pequenas metalúrgicas usando o método de prensagem. Este sistema permitiu a fabricação da arma em diferentes locais, por equipes menores de operários.

O desenho básico da MP40 não viria a sofrer modificações durante o resto da guerra. É hoje reconhecida pelos historiadores como a origem da segunda geração de submetralhadoras, e abriu uma tendência amplamente seguida mesmo pelos adversários.

A MP40 era, em geral, superior às armas semelhantes, como a Sten britânica e a PPSh41 soviética, embora esta tivesse como vantagem o carregador tipo “tambor”, de 71 cargas. O peso menor do cartucho 7.62 tornava possível a maior carga de munição. Tentando compensar essa desvantagem, em 1943 um carregador duplo foi apresentado pela fábrica austríaca Steyr, mas era canhestro e não chegou a aprovar. O fato é que, depois de 1941, as enormes quantidades de PPSh capturadas tornaram essa arma popular entre os soldados da Wehrmacht, que tendiam a utilizar as submetralhadoras soviéticas, embora essas não apresentassem nenhuma qualidade intrinsicamente superior à arma alemã.

Mais de um milhão de MP40 foram fabricadas durante a guerra, o que perfaz quase a metade dos dois milhões de submetralhadoras fabricadas pela Alemanha. Ainda assim, a distribuição nunca chegou a alcançar sequer o nível de um em cada dez efetivos. Geralmente a arma era distribuída a líderes de pelotão e graduados. Em algumas unidades motorizadas de elite, como as 1ª, 2ª e 3ª divisões blindadas Waffen SS (“SS Armadas”, uma espécie de SS militarizada, totalmente separada da estrutura da SS Geral), Panzer Lehr e Gross Deutschland, a quantidade de armas automáticas era substancialmente maior, mesmo assim sem alcançar todo o efetivo. 

Um dado curioso é o fato de que ingleses e norte-americanos se referiam à ERMA como “Schmeisser”, embora os irmãos engenheiros, projetistas de diversas armas usadas pela Wehrmacht nunca tenham estado envolvidos com o projeto ou suas adaptações. É possível que o equívoco se devesse ao fato de que algumas das primeiras MP38 de série tenham sido produzidos na Haenel, fábrica da qual Schmeisser era projetista chefe. Lá ele participou ativamente dos projetos da MP41 (uma submetralhadora que visava equipar tropas de infantaria) e do StuG44. O fato é que a origem dessa confusão, observada principalmente entre os norte-americanos, nunca chegou a ser esclarecida. Em diversas ocasiões, depoimentos de prisioneiros alemães mostravam que estes frequentemente se espantavam com a insistência, até mesmo dos oficiais dos EUA, em usar a nomenclatura errada::

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial::Drops para o fim de semana::

Um dos livros que maior curiosidade despertou no redator:: até hoje, dentre tudo o que já leu sobre a 2ª GM, foi “Eichmann em Jerusalém”, da filósofa alemã Hannah Arendt. Arendt é *figura muito conhecida no universo da Filosofia e da Ciência Política, com uma obra notável e uma militância destacada – que quase a colocou, em 1933, num campo de concentração. Em 1961 foi enviada a Israel pela revista norte-americana New Yorker, para cobrir o julgamento do tenente-coronel SS Karl Adolf Eichmann, arquicriminoso de guerra nazista. Da reportagem, publicada em cinco partes (se você lê inglês, uma resenha excelente aqui, das próprias páginas da revista mais bem-pensante e pedante dos EUA…), resultou o livro (o pós escrito, de autoria da própria Arendt deve ser lido aqui). Nesse texto, Arendt cunhou a expressão “banalidade do mal”, hoje bastante difundida entre diversas áreas das Ciências Humanas e Sociais. Esse conceito expressa a tese que propõe enxergar sob outra perspectiva as pessoas que cometem crimes indiscritíveis, daqueles que em muito superam as possibilidades de qualquer relés Al Capone ou Fernandinho Beira-Mar. É o caso dos planejadores e administradores da máquina industrial de genocídio dos nazistas, entre 1941 e 1945. Essas pessoas não podem ser consideradas simplesmente fanáticos ensandecidos: na maioria dos casos, são gente comum. Essa gente simplesmente aceitou a premissa de que o Estado, entidade impessoal e onipresente, “sabe o que faz”, e a partir daí se dispôs a participar e empenhar o melhor de suas competências em realizar a tarefa – sem chegar a perguntar, em momento algum, sobre o que estava fazendo. Burocratas, em todos os sentidos, nem piores nem melhores do que os outros burocratas. O trabalho de Arendt insere-se numa crítica à modernidade iluminista que deu co´os burros n´água em duas guerras mundiais, muitas ditaduras assassinas e “lutas pela liberdade” , que no conjunto mataram sabe-se lá quantas dezenas de milhões de pessoas. Arendt, atenta para essa ordem de questão, refletia sobre a responsabilidade coletiva, ou seja, a responsabilidade, que, para bem ou para mal, que a dinâmica histórica aponta. Dizendo de outra maneira – não existe quem esteja isento. Mas, por outro lado, responsabilidades não podem ser consideradas inteiramente individuais. 

Quando Napoleão, ao tomar o poder na França depois da Revolução, disse ‘Assumo a responsabilidade por tudo o que a França já fez, de são Luís ao Comitê de Segurança Pública’, ele estava apenas formulando um tanto enfaticamente um dos fatos básicos de toda a vida política. Em termos gerais, significa pouco mais que afirmar que toda geração, em virtude de ter nascido num continuum histórico, recebe a carga dos pecados dos pais assim como é abençoada com os feitos dos ancestrais. Mas esse tipo de responsabilidade não é o que estamos discutindo aqui; não é pessoal, e só num sentido metafórico alguém pode dizer que sente culpa por aquilo que não ele, mas seu pai ou seu povo fizeram. (Moralmente falando, não é menos errado sentir culpa sem ter feito alguma coisa específica do que sentir-se livre de culpa tendo feito efetivamente alguma coisa.) É bastante concebível que certas responsabilidades políticas entre nações possam algum dia ser julgadas em uma corte internacional; o que é inconcebível é que tal corte venha a ser um tribunal criminal que declare a culpa ou a inocência de indivíduos” (aqui, o redator:: fará o que nunca fez até agora, neste blogue: insistir para a leitura do texto indicado acima, do qual essa citação foi retirada).

O redator vê essa problemático sob dois ângulos, complementares. E não vamos falar apenas dos nazistas. Aqueles doze anos foram o reinado do mal absoluto, um curto-circuito moral que apagou consciências no mundo inteiro – para dizer o mínimo, não foram poucos os países e indivíduos que se deixaram fascinar pelo formigueiro de ordem e trabalho em que a Alemanha pareceu se transformar. É certo que, ao fim e ao cabo, a luta contra o fascismo acabou por mobilizar as melhores energias de parte considerável da humanidade, considerada por indivíduos e instituições. 

Por outro lado, o nazismo tem servido como uma espécie de justificativa moral para boa parte dos absurdos cometidos ao longo dos cinquenta anos seguintes. Afinal, fala-se muito em “liberdade”, “justiça”, “democracia”, “prosperidade”, justificativas para ações injustificáveis como o Vietnam, o Afeganistão, o Iraque. E, em nome desses “princípios”, os estados sentem-se autorizados a tudo.

Fala-se na “pátria”; no “país”; no “sistema”. Figuras abstratas que metaforicamente expressam os interesses e aspirações do que seria “o povo”, a coletividade do país. “Não pergunte o que seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer por seu país.” Essa pela construção de retórica esconde uma construção lógica nem tão bela assim. Cada indivíduo pode ser mobilizado por razões que, no fim, ele talvez desconheça. “Eu recebia ordens, não me cabia discuti-las”, disse Eichmann. Militares, cientistas, burocratas, envolvidos  com questões eufemisticamente chamadas “de defesa”, atrás de escrivaninhas, painéis de controle ou computadores, em uniformes ou trajes civis, recebem ordens. Por trás da competência e da impessoalidade, são seres humanos comuns, com sentimentos comuns. Esperam a hora de ir para casa; preocupam-se com filhos, parentes e amigos; têm passatempos que pouco praticam. O excesso de trabalho e de responsabilidades são a tônica de suas tarefas profissionais e carreiras. E mais: usam, constantemente, a expressão “apenas faço meu trabalho”, independente de qual seja esse. Tudo muito natural. Tudo parte da vida.

Assim, essas pessoas, pilotos de jato lançando bombas de fragmentação ou napalm sobre cidades indefesas, cientistas civis planejando mísseis, burocratas coordenando informações militares, não são, de forma alguma, criaturas odientas ou odiosas. São apenas “parte da máquina”, “fazem seu melhor”, “não inventaram o sistema”. Pois bem: em meio a essa vida esmagadoramente comum – banal, enfim - se infiltra o mal.

Em 1984,  gente comum assim ajudou a fazer o “Relógio do Juízo Final” chegar a dois minutos da meia-noite. 

“Fazer coisas terríveis de forma organizada e sistemática baseia-se na ‘naturalização’. Esse é um processo no qual atos feios, degradantes, criminosos e indizíveis tornam-se rotina, e são aceitos como ‘a maneira que as coisas são feitas’. Existe uma forma de dividir e racionalizar o impensável, com a brutalização e morte cometidas por um grupo de indivíduos, outros administrando a máquina (manutenção, suprimentos), e outros mais produzindo equipamentos de matança, ou trabalhando na melhoria da tecnologia (melhores crematórios, napalm aperfeiçoado, bombas de fragmentação cujos fragmentos sejam mais difíceis de localizar dentro do corpo…). É função dos intelectuais militares e outros especialistas, bem como da grande imprensa, naturalizar o impensável para o público em geral. No final de sua vida, Herman Kahn gastou muito tempo tentando tornar palatável a guerra nuclear (On Thermonuclear War: Thinking About the Unthinkable), e este Doutor Strangelove fajuto teve boa aceitação na imprensa. Num excelente artigo intitulado “Normalizing the unthinkable”, publicado no ‘Boletim dos cientistas atomicos’ (Bulletin of Atomic Scientists) de março de 1984, Lisa Peattie descreveu como nos campos de morte nazistas  o trabalho era ‘naturalizado’ para aquelas pessoas aprisionadas a longo tempo, bem como para o pessoal administrativo: ‘Os encanadores da prisão mantinham em bom estado a bomba d´água no crematório e os eletricistas trabalhavam nas cercas eletrificadas. Os gerentes do campo mantinham padrões e processos bem ordenados. Os faxineiros que limpavam o pátio do crematório em Auschwitz tinham de deixá-lo perfeitamente esfregado.’ Peattie foca-se no paralelo entre rotinização nos campos de morte e na preparations para a guerra nuclear, na qual o ‘impensável’ é organizado e preparado, numa divisão de trabalho na qual participam pessoas em muitos níveis. A distância da execução ajuda a obscurecer a resposabilidade. ‘Adolph Eichmann era um funcionário com responsabilidades, deacordo com seu entendimento de responsabilidade. Para ele, estava claro que os líderes do Estado tinham estabelecido as políticas. Sua função era implementá-las, e, afortunadamente, matar qualquer um nunca foi parte de seu trabalho’.” (Se o leitor se safa em inglês, pode ler a íntegra, em inglês,  num desses preciosos blogues perdidos na rede. A palavra “naturalizar” foi usada, aos invés de “normalizar”, que é a do original, visto que essa última tem, em nossa língua, um significado um tanto diverso do que parece ter sido pretendido pelo autor.)

O texto não está focado propriamente na matança industrial executada pelos nazistas, com o beneplácito da população alemã, mas nas diversas matanças, industriais ou não, que tiveram lugar no século 20. Essas, embora sem alcançar o azimute daquela perpetrada pelos nazistas, cabem na linha da reflexão de Arendt: como distribuir a culpa por crimes impensáveis? Até que ponto o estado deve ser chamado a dividir com seus burocratas, a culpa pelo impensável?

Napoleão assumiu a responsabilidade pelas culpas e benefícios da França. Era uma metáfora, claro, e se “a França” foi responsabilizada moralmente pela Argélia, o general Jacques Massu, o carrasco de Argel, agente do estado francês, morreu altamente condecorado e tranquilamente reformado. O estado nazista pôde ser criminalizado por ter sido eliminado em uma guerra. Assim, seus servidores foram co-responsabilizados (e continuam sendo) pelo papel que cumpriam no contexto mais amplo: são considerados cúmplices conscientes, mesmo os que não apertaram nenhum gatilho. Sem a ocorrência de guerras convencionais ou revoluções, essa atribuição-distribuição de responsabilidades fica bem mais difícil. Somente em situações nas quais tal rompimento ocorre, é possível a responsabilização de que fala Arendt, “… [é] bastante concebível que certas responsabilidades políticas entre nações possam algum dia ser julgadas em uma corte internacional; o que é inconcebível é que tal corte venha a ser um tribunal criminal que declare a culpa ou a inocência de indivíduos…”

Se tal criminalização só é possível com Estados derrotados por condições externas ou internas (e mesmo assim, nem sempre), como chamá-los à responsabilidade?  Ninguém jamais tomará a iniciativa de pedir a criminalização do regime stalinista, ainda que a União Soviética tenha desaparecido; o estado sérvio pós-Tito jamais chegou a ser diretamente acusado pelo genocídio acontecido durante as guerras de agressão que promoveu contra a Croávia, Bósnia e Kosovo. De fato, houve responsabilização, por parte do Tribunal Penal Internacional, de gente como Slobodan Milošević, Radovan Karadzic e Ratko Mladic (dentre outros), responsabilizados como indivíduos (alguns chefes militares croatas também foram levados a julgamento). O mesmo aconteceu com o premiê de Ruanda e de alguns outros indivíduos, acusados de crimes contra a humanidade e genocídio, e cujas penas foi consideradas geralmente insuficientes. O governo ruandês instalado após a queda do regime responsável pelo massacre tratou de executar mais de duzentas pessoas consideradas culpadas, após julgamentos sumários. Uma boa pergunta é o que mais poderia ser feito, visto que o TPI não tem os poderes que, de fato, seriam necessários para que as nações de que fala Arendt, fossem responsabilizadas. Por outro lado, um personagem ruandês, Paul Rusesabagina, responsável por salvar as vidas de 1.268 pessoas, em Kigali (capital de Ruanda) e que se tornou uma espécie de consciência nacional, exilado na Bélgica, fez duras declarações tanto contra o regime no poder quanto contra as instituições internacionais.

Nações latino-americanas que passaram por ditaduras homicidas tomaram caminhos diversos. Na Argentina, leis que beneficiavam militares de patente inferior com a impunibilidade por crimes no exercício de função foram revogadas por determinação judicial em 2004, durante o governo de Néstor Kirchner; no Uruguai foi tomada a mesma decisão, em 2008, pelo do governo do presidente Tabaré Vázquez. O conceito de “obediência devida”, invocado para justificar as ações de militares, foi revogado, e em ambos os países, um grande debate ainda tem lugar em torno do tema. “Se o comando superior decide dissolver o Parlamento, uma ordem inconstitucional e ilegal, não deveria ser cumprida pelas Forças Armadas”, declarou o ministro da defesa do Uruguai, José Bayardi. Por outro lado, Brasil e Chile optaram por iniciativas mais brandas.

Temos que admitir que cada caso é um caso. Na Argentina, o Estado de excessão dissolveu-se após uma série de trapalhadas que culminaram com a humilhação nacional do país, a derrota nas Malvinas; no Uruguai, erros sucessivos de administração do governo militar e a oposição popular que daí decorreu levaram à uma transição em que os militares abandonaram o governo sem nenhuma condição prévia; no Brasil e no Chile, saídas negociadas com os regimes implicaram em acordos até hoje contestados. Cada caso é um caso, mas caracterizou esses regimes de excessão s a enorme quantidade de crimes de estado cometidos por seus agentes. Nunca houve nenhum movimento para internacional para responsabilizar esses governos, ou mesmo suas lideranças individuais. Pode-se alegar que foram lutas de facções políticas no contexto da Guerra Fria, e que os EUA e a URSS também deveriam ser responsabilizados por coisas como o Vietnam e o Afeganistão, onde muito mais gente morreu. A idéia da “banalidade do mal” aplica-se à todas as situações descritas acima, e nem todos os servidores dessas ditaduras eram um Sérgio Paranhos Fleury (que dispensa apresentações), um Alfredo Astiz ou um Manuel Contreras. Agentes como esses podem perfeitamente ser comparados aos nazistas, mas outros achavam, sinceramente, estar “apenas cumprindo ordens”. Para os nazistas, essa desculpa não valeu. Mas e para os outros? 

Voltaremos ao assunto, quando os oito ou nove leitores tiverem tido tempo para digerir essas questões::