Causa::

16/11/2009

Tecnologia naval::Elektroboot e seus sucessores::Parte4

 Podemos todos detestar os nazistas – mesmo quem tem pedra na cabeça, no lugar de cérebro, detesta. Mas com a engenharia alemã é outra coisa – todos temos certa tendência em apreciar as armas alemãs da 2a GM (as atuais também são bem interessantes…). Em muitos casos, é exagero, mas em outros, os produtos da inventividade e da organização científica alemãs ainda marcam nossa época. E não é só o redator fanático por tecnologia militar que acha… Não estamos falando do Elektroboot? Pois então leiam a parte 4, em seguida::
 
 
 
 

USSPICKEREL

O SS 524 "Pickerel" em treinamento de emersão de emergência, 1952. É notável a semelhança do casco com o desenho dos "Tipo XXI".

 

parte4Nos anos que se seguiram à guerra, o desenho de submarinos foi totalmente revolucionado pelo contacto das principais marinhas aliadas com o Tipo XXI. Das 113 unidades que estavam prontas para incorporação em maio de 1945, e que não foram afundadas pelas tripulações, duas foram transferidas para os EUA, quatro para a URSS (embora existam suspeitas de que o número tenha sido maior), uma para a Inglaterra e uma para a França.

Os exemplares incorporados pela Marinha dos EUA foram exaustivamente examinados e testados entre 1946 e 1949. Os destroços de um desses submarinos foram encontrados recentemente, ao largo da Flórida, onde foi afundado pelos norte-americanos, após o fim do programa, num teste de armas anti-submarino.

O exame das duas unidades levou à conclusão de que toda a frota de submarinos da Marinha dos EUA estava ultrapassada (o *USS Wahoo, comissionado em julho de 1943, típico “submarino de esquadra” norte-americano). Um programa de construção foi proposto, mas como existiam quase duas centenas de unidades construídas nos três anos anteriores, as autoridades navais optaram por modernizar as que estivessem em melhor estado. O primeiro programa foi a instalação de um equipamento equivalente ao esnorquel alemão, para testes, no USS Irex (classe Tench, construído em 1944), em 1947.     

O programa Greater Underwater Propulsion Power (GUPPY – o “y” não quer dizer nada, mas fazia o acrônimo combinar com o nome de um peixinho decorativo muito popular nos EUA…) era muito mais amplo. Foi estabelecido como alternativa de menor custo para modernizar parte dos barcos da força norte-americana de submarinos, os mais modernos, das classes Gato, Balao e Tench. O programa GUPPY acabou resultando em diversas fases. O GUPPY I dotou os barcos selecionados com esnorquel; eliminou a maioria das partes desnecessárias das “obras mortas” (passadiços e instrumentos na  torre, canhões, mastros e outros elementos da coberta); melhorou o desenho das “obras vivas”, de modo a dar maior uniformidade ao casco externo, tornando-o tão hidrodinâmico quanto possível (o *USS Odax, lançado em abril de 1945, cuja conversão completou-se em 1947, depois transferida para a Marinha Brasileira. Observe-se a vela tipo “Eletric Boat”, depois substituídas pelo tipo “Portsmouth” em todas as unidades). Também foram feitas melhorias na motorização, acrescentadas novas baterias e novos equipamentos eletrônicos.

A instalação de novas baterias esteve entre as principais modificações. Quatro unidades acumuladoras (baterias), compostas por 504 células, cada uma delas capaz de sustentar proximadamente 25 por cento a mais de carga que os tipos anteriores, melhoraram significativamente o desempenho subaquático do navio. Entretanto, essas novas baterias tinham um sério problema de durabilidade, além de provocarem problemas ambientais. Apesar dessa desvantagem, o ganho geral mostrou-se compensador: os barcos remodelados chegavam a alcançar 17-18 nós (30-33 km/h) submersos. Um total de 50 unidades foram convertidas.

A segunda parte do programa deu origem à classe Guppy II. Essa era basicamente igual à classe Guppy I, exceto em alguns detalhes da vela, que foi redesenhada para acomodar novos mastros de combate que alojavam os sistemas de admissão de ar e exaustão de gases do esnorquel e as antenas dos equipamentos eletrônicos. Os barcos da série Guppy II tiveram melhorias na motorização, que possibilitavam melhor desempenho, e novos equipamentos eletrônicos, inclusive unidades de radar de última geração. Um total de 24 unidades foi convertido.

Um problema com o programa GUPPY II era o preço – os submarinos veteranos da 2a GM tinham de ser praticamente reconstruídos. O programa GUPPY IA, lançado em 1951, foi uma tentativa de baixar o custo da conversão. O programa GUPPY IIA, lançado em 1954, redesenhou certas partes do casco externo, de modo a melhorar o desempenho subaquático. A essa altura, os engenheiros da Marinha e da indústria tinham descoberto que não adiantava melhorar a motorização se a parte hidrodinâmica também não fosse muito melhorada. Essa derivação do programa instalou uma vela totalmente redesenhada, uma nova proa, e motores iguais aos dos GUPPY II. Mudanças na arquitetura interna permitiram a instalação de novos equipamentos eletrônicos, unidades de refrigeração e condicionadores de ar. A aparência externa da série IIA era, à primeira vista, semelhante à II.

Em meados dos anos 1950, alguns barcos da classe GUPPY IA foram convertidos para a série GUPPY IB, destinados à transferência para marinhas aliadas. Os equipamentos eletrônicos de última geração foram substituídos por “modelos de exportação” muito simplificados, mas, de resto, eram iguais aos IA. Por sinal, esse era um problema que começava a ser observado pelos projetistas: a grande quantidade de equipamento eletrônico que, pelos meados dos anos 1950 começou a ser incorporada aos navios de guerra, em geral, e aos submarinos, em particular. No caso dos submarinos, a questão era particularmente séria, porque os controles de direção, equipamentos de sonar e de direção de tiro computadorizado tomavam muito espaço e consumiam energia extra. Entre 1959 e 1963, até mesmo unidades já convertidas para o padrão GUPPY II tiveram de voltar para a doca seca, para serem cortados e aumentados em uns 4 metros na área da sala de controle. Nesse novo espaço, foram instalados os novo equipamentos de sonar e de direção de tiro. Essas novas unidades tornaram-se a série GUPPY III.

Até o programa GUPPY II e suas variantes, um dos problemas não resolvidos eram as baterias, que não apenas atravancavam o espaço interno como criavam desconforto  ambiental. Em 1959, o programa GUPPY III buscava, dentre outros aperfeiçoamentos, resolver esse problema. Os engenheiros navais optaram por alongar uma das unidades assim como retirar um dos motores diesel, situado à vante da belonave e considerado desnecessário. Desse modo foram criados novos espaços internos, o que possibilitou alterações que, provinham maior área para equipamentos eletrônicos e para a tripulação. Todos as unidades do padrão II foram convertidos para o padrão III.

Os GUPPY III ficaram em atividade até o final dos anos 1970. É interessante observar que, após o programa GUPPY, foram construídos nos EUA os SSK (submarinos convencionais, no jargão da Marinha norte-americana) da classe *Tang, da qual seis unidades, que incorporavam os desenvolvimentos do programa GUPPY, tiveram suas quilhas batidas entre 1946 e 1948, e foram lançadas no início dos anos 1950. Foram os últimos submarinos convencionais que saíram de um estaleiro norte-americano. Desde 1963, quando o programa de conversão completou-se, os EUA desistiram de, de SSK), optando por uma força totalmente composta por submarinos nucleares::

10/06/2009

O mês da Guerra da Coréia::Em causa, a Coréia::

Tivemos, ao longo de maio, uma comemoração especial sobre o fim da Segunda Guerra Mundial, enfatizando a participação do Brasil na luta contra o fascismo. É certo que as atribulações do redator fanático por história e tecnologia militar deixaram, infelizmente, pouco tempo para a festa. Por outro lado, enquanto falávamos sobre a Segunda Guerra Mundial, deu às caras um de seus mais acabados produtos: a Coréia. O ditador Kim Jong Il, da Coréia do Norte, último regime verdadeiramente estalinista no mundo, resolveu chamar atenção do dito reativando seu programa de armas estratégicas, ao mesmo tempo que lançava ameaças contra a Coréia do Sul, o Japão e contra o “Grande Satã” - os EUA.

E, curiosamente, o mês de junho marca a passagem do 57º aniversário da eclosão da Guerra da Coréia. Porque não comemorar, pois? Não que guerras sejam fatos a comemorar, mas essa, em particular, tem uma característica interessante e pouco observada. Entre junho de 1950 e julho de 1953, a península foi palco de uma guerra localizada que contrapôs as duas grandes potências, e na qual morreram aproximadamente 900.000 pessoas. Em teoria, essa guerra ainda não terminou, pois não foi assinado um tratado de paz, mas um armistício. Do ponto de vista da mecânica das relações internacionais e das formalidades diplomáticas, as duas Coréias ainda estão, tecnicamente, em guerra. 

 A Coréia do Norte e a Coréia do Sul surgiram do desenlace da Segunda Guerra Mundial e da configuração do mundo que resultou dela, a tal “Guerra Fria” sobre a qual tanto se fala (e, diga-se de passagem, fala-se muita besteira…). A *Península da Coréia, situada no Sudeste da Ásia, é ocupada por dois estados, divididos pelo Paralelo 38N. A maioria das pessoas tende a acreditar que a divisão atual da península resultou da guerra de 1950. Na realidade, é anterior: em 1945, imediatamente após a derrota do Japão, duas zonas de influência foram estabelecidas. O norte, ocupado pela União Soviética, e a partir de 1949, denominada “República Democrática do Povo da Coréia”. Abaixo do paralelo, na zona ocupada por tropas norte-americanas, a ”República da Coréia”, estabelecida em 1948. A origem mais remota dessa divisão encontra-se na Conferência do Cairo, de 1943, na qual os aliados tinham resolvido tirar do Japão suas áreas coloniais. Os EUA, a China e a Grã-Bretanha concordaram que à Coréia deveria ser dada a independência, após as vitória das nações aliadas. A URSS aderiu a esse princípio quando, em maio de 1945, declarou guerra ao Japão. O presidente dos EUA e o chefe do governo soviético concordaram, na Conferência de Ialta,  em estabelecer um mandato internacional para a península, mas o que resultaria desse mandato não foi claramente formulado. O desembarque de forças soviéticas no norte da península, em julho de 1945, levou o governo dos EUA a ter de improvisar uma solução, visto que os norte-americanos não tinham tropas combatentes na região e os soviéticos estavam em posição de ocupar toda a península. Assim, em 15 de agosto, o presidente Harry Truman propôs a Stalin a divisão da Coréia, simplesmente traçando uma linha de coordenada, mais ou menos no meio da região. Stalin aceitou sem discutir. Naquele momento, o líder soviético parecia esperar que os EUA concordassem com a ocupação soviética de parte do território japonês. Ao contrário do que esperava Stalin, Truman convocou uma conferência de ministros aliados, que aconteceu em Moscou, em dezembro de 1945. Os aliados concordaram com um mandato de cinco anos, durante o qual um governo provisório prepararia a independência, sob supervisão das potências vencedoras. Os únicos que não gostaram do acordo foram os coreanos, de todo o espectro político. A direita, sob a liderança do extremista pró-americano Syngman Rhee, aproveitou-se da “ameaça comunista” para consolidar sua base política, em um momento em que, na China, os nacionalistas se viam sob forte pressão dos comunistas locais.  A comissão inter-aliada reuniu-se em Seul até adiar indefinidamente seus trabalhos, no início de 1947. Os soviéticos insistiam que apenas partidos e organizações sem ligação com o período de ocupação japonesa pudessem participar do processo. Isso significava a exclusão automática de amplos setores da política local – burocratas e empresários envolvidos, em diversos graus, com o esforço de guerra japonês. Os EUA recusaram essa fórmula, pois era a garantia que apenas os comunistas participariam do governo, já que constituiam a maioria dos movimentos que tinham se oposto aos japoneses.

O problema é que os EUA não tinham nenhum plano alternativo. A Coréia era, então, muito pouco conhecida pelo governo norte-americano e um problema adicional, observado pelos comandantes das forças de ocupação dos EUA era o fato de que os oficiais militares encarregados de governar a parte sul da península não sabiam nem a língua, nem os costumes e muito menos a história local. Os soviéticos não tiveram tal problema já que passaram o governo da porção norte do Paralelo 38 N ao Partido Operário da Coréia. No sul, o Partido tinha grande influência entre operários e estudantes. Diante da expansão comunista no sul, os EUA passaram a apoiar políticos exilados que retornavam à Coréia, de perfil conservador, e antigos membros da administração no período japonês. Em setembro de 1947, diante do agravamento da situação, o governo norte-americano submeteu o problema coreano às Nações Unidas. Em novembro, a Assembléia Geral reconheceu o direito da Coréia à independência e determinou a realização de eleições para uma assemblèia nacional unificada, no mês de maio do ano seguinte. Os soviéticos se recusaram a submeter o norte da península ao mandato da ONU, o que praticamente determinou a divisão do país, uma vez que os setores políticos comunistas e alguns nacionalistas de esquerda passaram a boicotar a eleição. A política de confronto entre os movimentos políticos locais acabou por diminuir a influência comunista e resultou no isolamento dos progressistas, diante da política de intimidação dos direitistas e da recusa do Partido em fazer alianças.

A Assembléia Nacional eleita em maio de 1948 adotou uma constituição que previa a forma republicana de governo. Syngman Rhee tornou-se o líder da assembléia e preparou, de forma apressada, o estabelecimento da República da Coréia, em agosto de 1948, da qual se tornou presidente. Um mês depois, as autoridades comunistas da área soviética cortaram laços com o governo do sul e proclamaram o estabelecimento da República Democrática do Povo da Coréia – que desde então passou a ser conhecida pela imprensa internacional como “Coréia do Norte”. O governante era o secretário do Partido dos trabalhadores da Coréia, Kim Il Sung. Kim alegava ser o líder legítimo de todos os coreanos, em função de eleições realizadas no norte e de alegadas eleições subterrâneas que teriam acontecido no sul.

Em setembro de 1948 foi criado o Exército da República da Coréia , que logo se viu diante de um motim de unidades formadas por simpatizantes dos comunistas. A revolta foi controlada mas revelou a fragilidade da estrutura militar do novo governo. Em 1949, os EUA não pareciam dispostos a apoiar  a república, que viam como fadada ao fracasso. No final de junho, as forças norte-americanas tinham sido retiradas e apenas duas brigadas (uns 8000 efetivos) permaneceram. Os estrategistas dos EUA pareciam conformados em perder a região e colocaram o país como “área externa ao perímetro de defesa norte-americano na Ásia”. Apenas garantiram, de forma vaga, que, no caso de uma agressão do norte, apoiariam o governo local com tropas.

A guerra veio, com a invasão da Coréia do Sul em junho de 1950. Mas deixemos esse tema para depois…::

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