Causa::

28/10/2009

Um rapaz (das Forças Especiais)às Terças::Forças Especiais do Exército Brasileiro::

ForçasEspeciais_BR

Integrantes do 1 ° Batalhão de Forças Especiais do Exército Brasileiro. Em primeiro plano, um atirador de escol, vestindo “traje Ghillie“, carrega um Fuzil M964 7,62 dotado de mira telescópica OIP Belgio 3X6 (p´ra lá de obsoleta…).  Em segundo plano, elementos de Forças de infiltração portam o modelo-padrão. O FAL é uma boa arma para atiradores de escol (snipers, em inglês), devido à potência do cartucho e ao peso da arma, que a torna bastante estável durante o disparo. Como disse o leitor “Anônimo”, um dos famosos sete (contadinhos…) os “cabôco”  usam o padrão chamado Ragged Leaf Lizard Pattern, disruptivo de três cores: verde-escuro e castanho sobre fundo verde-claro. Apesar do nome (também aparece como Brazilian Army Lizard Pattern, segundo a terminologia adotada pelo International Camouflage Pattern Index), esse padrão foi desenvolvido por aqui mesmo, nos anos 1980, baseado no padrão M63 usado na Africa pelo exército colonial português. É considerado excelente para combate em ambiente tropical. Esses uniformes deixam no leigo incauto (como boa parte dos jornalistas da imprensa diária…) a impressão de desbotados, o que indicaria a indigência em que vivem as FA nacionais. É apenas parcialmente correto, e vale esclarecer que a aparência é proposital. O padrão busca inclusive simular o brilho provocado pelo excesso de luz característico das regiões equatoriais::

26/10/2009

Cultura Material militar::A linhagem FAL::Parte 3::O FAL no Brasil

Faz alguns meses, publicamos uma série de posts denominada “A linhagem FAL“. Como tantas outras séries aqui no blogue das boas causas, essa também acabou atropelada por outros assuntos que então pareceram, ao redator um tanto atabalhoado, mais momentosos. Como a próxima semana será pesada, e o redator não terá tanto tempo disponível para divertir seus sete leitores (contadinhos…) quanto gostaria, segue a 3a parte, revista e ampliada. Por sinal, causa:: declara, com satisfação, que contou com a preciosa ajuda do historiador militar Adler Homero Castro e do coronel (QEMA-R1) José Paulo Lopes Lima. A maior parte das informações me foram repassadas por esses dois cientistas, porque faltam, em nosso país, fontes públicas confiáveis sobre a história e dinâmica de nossas Forças Armadas.  Podem agradecer, então, aos dois…::

PARTE3Em 1960, o Exército Brasileiro era uma força relativamente grande. Sua ordem de batalha podia colocar em campo uns 140.000 efetivos, dos quais talvez uns 40.000 pudessem ser considerados – por padrões algo lenientes… - tropas de primeira linha. No final dos anos 1950,  a força terrestre brasileira podia alinhar algo como um corpo blindado – uma divisão blindada e duas de infantaria motorizada, uma divisão convencional de cavalaria (com cavalos, acreditem ou não…) e cinco divisões de infantaria.

Desde a 2a GM, a intensa relação com o exército dos EUA tinha moldado o Exército Brasileiro à imagem do norte-americano.  As doutrinas francesas foram definitivamente abandonadas, e  a instrução era feita, em grande parte, por militares dos EUA, que ensinavam a seus colegas brasileiros as novas práticas desenvolvidas durante a 2a GM e, logo depois, na Guerra da Coréia. Entretanto, certas práticas norte-americanas eram de difícil assimilação em um país pobre e pouco industrializado.  

O armamento com que o Exército Brasileiro contava em seu inventário passou, em conseqüência da 2a GM, por um notável salto tecnológico. Entretanto, em termos de armamento individual o principal item do EB em 1945 era o fuzil de carregamento manual Mauser DWM calibre 7X57 mm, o “Mauser brasileiro“. A aquisição dessa arma se deu em 1908, em números que, segundo alguns especialistas, alcançavam 600.000 unidades  – o que é muito curioso, pois seria quantidade suficiente para dotar cada oficial, graduado e soldado com quatro ou cinco armas, e ainda sobrar um montão… Claro que, em tal volume, essas armas, mesmo depois de obsoletas, equiparam as tropas durante muito tempo. Assim, o jeito era tentar, vez por outra, modernizar o tal “mauser brasileiro” com pequenas modificações físicas. Por exemplo, em 1934, a arma foi encurtada para se equiparar à uma “carabina”, ou seja, uma arma geralmente disponível para as tropas de cavalaria. No jargão do Exército Brasileiro, esse item é denominada “mosquetão”, e tem o comprimento de cerca de 100 centímetros, enquanto o fuzil teria cerca de 120 centímetros.

Mas modernizações cosméticas não fazem milagres, e problema era que o calibre 7X57 mm se tornou obsoleto para uso militar antes da 2a GM. Assim, em diversos momentos, essas armas passaram por adaptações em arsenais nacionais para utilizar cartuchos mais modernos. Quando a FEB chegou à Itália, o armamento que seus efetivos receberam era padronizado com o dos norte-americanos, de modo que a arma distribuída aos pracinhas foi o US Rifle M903, calibre .30-06 (7,62X63 mm) Springfield. Isso teve conseqüências duradouras: depois da guerra, boa parte do armamento de infantaria disponível para o Exército Brasileiro usava calibres norte-americanos. O BAR (Browning Automatic Rifle, uma espécie de metralhadora ligeira usada como apoio da esquadra de infantaria), alguns rifles Springfield e *Garand e a metralhadora ligeira Browning M919, a pistola Colt M911, as submetralhadoras M3 e INA usavam, os primeiros, o calibres 7,62X63 mm e os três últimos, o .45 ACP. Essa munição passou a ser fabricada no país nos anos 1950.

Em função dessa disponibilidade de armamento norte-americano, no final dos anos 1940 houve uma tentativa de tornar o calibre .30-06 padrão das forças militares brasileiras. O resultado foi um mosquetão, baseado no “mauser brasileiro”, distribuído em pequenas quantidades a partir de 1949. Em 1951, nova tentativa geraria uma arma não muito diferente – ambas as experiências foram feitas no Arsenal de Itajubá, Minas Gerais. Mas ainda não era o que o Exército pretendia. Nessa época, já era evidente a tendência mundial para a adoção de armas automáticas e semi-automáticas. O acaso então entrou no jogo – só não se pode dizer se contra ou a favor do Brasil.

Por sinal, o acaso começou a conspirar no segundo semestre de 1945, quando a FEB voltou ao Brasil. Embora a tropa brasileira tenha deixado para trás todo seu equipamento, pôde conservar certa quantidade de canhões alemães e italianos de diversos tipos, várias peças de equipamento de campanha de nossos adversários, os arquivos da FEB e alguns documentos alemães e italianos. O item mais numeroso trazido para o Brasil eram armas portáteis capturadas aos alemães e seus aliados. Não se sabe exatamente quantas vieram, mas calcula-se um número de alguns milhares. Muitos desses itens eram exemplares do que os alemães tinham de mais moderno, inclusive os fuzis automáticos MP42 e StuG44 (que seriam a origem dos fuzis de assalto) e metralhadoras de uso geral MG42 (a “Lurdinha”). Também haviam alguns exemplares das duas versões do Gewehr 43 (Mauser e Walther), uma tentativa frustrada dos alemães em criar um fuzil semelhante ao Garand norte-americano.

As armas alemães foram examinadas pelas áreas técnicas do Exército e, em 1952, o arsenal de Itajubá recebeu ordens de fazer uma cópia do G43(M), o exemplar que, durante a guerra, tinha sido apresentado pelo escritório Mauser, de Berlim. O produto resultante, considerado por todos que o examinaram como extremamente tosco, foi denominado “Mosquetão M954”. Era um G43(M) adaptado para usar o cartucho Springfield.

Não se sabe exatamente porque as autoridades locais resolveram que copiar o G43(M) era uma boa idéia. Alguns pesquisadores especializados (que, no Brasil, são poucos, muito poucos) acreditam que dois fatores tenham se combinado para gerar o equívoco: a existência, em Itajubá, de máquinas-ferramentas de origem alemã, adquiridas em 1934, um, e dois, o fato de que a patente do G43(M) tinha perdido a validade, por ser este uma arma militar – as de armas civis e de polícia continuaram valendo. Outro fato relevante é que, embora faltasse Garand, em função da Guerra da Coréia, outras armas “calibre pontotrinta” foram generosamente distribuídas: o BAR, a metralhadora M1919 e boa quantidade de fuzis M903. Assim, era natural que a tentativa de uma arma indígena visasse o cartucho .30-06 (cuja patente fora cedida ao Exército a preço de banana), e que essa arma tentasse adaptar um Mauser, com o qual os militares brasileiros tinham intimidade de mais de 40 anos.

O terceiro e mais relevante ponto do equívoco: nessa época, as principais autoridades, aqui, acompanhavam o debate sobre o novo calibre de armas de infantaria, que se travava na Europa e nos EUA. A doutrina norte-americana, amplamente repassada aqui, privilegiava a concentração de fogo, de modo que, era esperado, os EUA acabariam mantendo a tradição de um cartucho mais potente. O que os militares brasileiros não sabiam é que o M1 era considerado excelente, mas, por volta de meados dos anos 1950 o insucesso das tentativas em torná-lo totalmente automático apontavam para sua substituição. Na Europa, a tendência era pela adoção do cartucho 7.62X51 NATO, e os europeus insistiam que toda a munição usada em armas de infantaria fosse padronizada. O resultado do debate – que foi uma disputa política – foi a adoção de uma versão do FN-FAL pela Inglaterra e Canadá e do Heckler-Koch G3 pela nova Bundeswehr. Os norte-americanos concordaram, afinal, em adotar o 7.62 NATO, desde que numa arma de desenho local – que foi o M14. Este era um produto excelente, mas que teve vida curta, atropelado pelo encontro, no Vietnam, com os fuzis de assalto AK47.  

Segundo Adler Homero Castro, talvez o maior pesquisador brasileiro no tema “cultura material militar”, o Exército Brasileiro sempre teve o azar de tomar decisões cruciais quando no contrapé. O caso  do calibre Springfield foi uma dessas decisões, e o Exército acabou ultrapassado pelo debate sobre as novas armas de infantaria. Ao que parece, as questões de política interna também contribuíram para engrossar o caldo. No final dos anos 1950, a Marinha, já envolvida na disputa pelo controle da aviação naval, adquiriu, sem consulta prévia às autoridades superiores (se é que havia alguma…), dois lotes de M14 e certa quantidade de munição. As armas deveriam equipar o Corpo de Fuzileiros Navais – que já contava com o Garand em seu inventário. É possível que o Exército, não querendo ter sua própria ”disputa fraterna” com a Marinha, tenha sido compelido a decidir, de uma hora para outra, pela aquisição de um “pacote completo” de armamanto individual. A tendência mundial era, então, o 7.62X51 NATO – então esse acabou prevalecendo. A empresa belga FN Herstal, dona da patente, antecipou-se à concorrência e ofereceu a licença para a fabricação local de seu desenho. A contrapartida era o fornecimento do ferramental e o respeito ao projeto do fuzil. À primeira vista, parecia “mamão com açúcar”: uma arma moderna, de graça e sem necessidade de investimento em pesquisa; na prática, a longo prazo as forças armadas brasileiras se viram atreladas às decisões de um fornecedor externo.

Embora não existam ainda provas conclusivas, parece que a decisão belga foi motivada pelo exame, pelos militares brasileiros, do Heckler-Koch G3, fabricado na Alemanha com base no desenho espanhol CETME – era outro 7.62 NATO. Pouco depois (no início dos anos 1970) o HK acabou adquirido pela Aeronáutica, para sua infantaria de guarda. O fato de que, num espaço de uma década, três modelos de armamento tenham sido adquiridos no mínimo indica certa falta de planejamento no que diz respeito à questões de defesa, em nosso país.

Em 1967, a chegada dos novos fuzis automáticos, em números que alcançavam 30.000 exemplares, entre os primeiro (diretamente importado) e segundo (fabricado em Itajubá) lotes já tinha se completado. Foi então tomada uma decisão surpreendente: o Exército resolveu converter uns 10.000 Mauser 7X57 miliímetros em uma arma aparentada com o FAL, só que numa versão de carregamento manual. Essa nova arma, destinada ao treinamento de recrutas, foi denominada ”Mosquetão M968 7.62“. O cano foi substitúído por uma versão idêntica à do FAL e a câmara, adaptada para o novo calibre. O conjunto era um pouco mais leve, tinha o cano mais curto e a alavanca de manejo, recurvada. O modelo foi fábricado em Itajubá e distribuído entre as unidades consideradas “de segunda linha”. O “Mosquefal”  empregava munição(inclusive granadas de bocal e munição especial para atiradores de escol), baioneta e material de manutenção de primeiro escalão iguais às do M964 (notação do FAL brasileiro). A arma era destinada ao adestramento básico de fuzileiros da infantaria, e também foi distribuída pelas polícias militares em todo o país.

No Brasil, o FAL gerou toda uma linhagem industrial. A atual IMBEL – empresa de economia mista pertencente ao Ministério da Defesa – fabricou três modelos da arma: o Fuzil Automático Leve (FAL), o Fuzil Automático Pesado (FAP - uma versão dotada de bipé, que só dispara em modo automático) – e a versão ”Para-FAL”, com coronha rebatível, e cano encurtado, para emprego de unidades aerotransportadas, de selva e de forças especiais. A produção local começou no início de 1965 e continuou até 1983, subindo a mais de 200.000 unidades deste fuzil. Em 1997 foi apresentada uma versão local, denominada “MD97“, adaptada ao calibre 5.45 NATO. Hoje em dia, calcula-se que, entre todas as versões, as forças armadas e forças policiais brasileiras tenham por volta de 400.000 FAL em seus estoques – o que é uma quantidade surpreendentemente pequena, considerando que essas forças sobem – se computada a reserva de emprego imediato (reservistas com menos de cinco anos de baixa, sexo masculino e idade até 34 anos) – a mais de um milhão de efetivos::

20/10/2009

O redator insiste: só parece guerra, mas não é – é incúria geral, mesmo::

PARA gáudio da imprensa diária carioca e brasileira, o “crime organizado” dos morros da Cidade Maravilhosa conseguiu, afinal “derrubar um helicópetero”. Um AS350B2 do Grupo Aéreo e Marítmo da Polícia Militar do Rio de Janeiro foi abatido no sábado com um tiro, provavelmente de arma automática. De lamentável, principalmente a morte de dois policiais militares. A comemorar, o sangue-frio, espírito de sacrifício e (last but not least – ou sera o contrário?..) treinamento de primeira, demonstrados pelo piloto, que conseguiu evitar uma tragédia ainda maior, que seria a queda da aeronave sobre as pobres moradias dos trabalhadores, estudantes e donas-de-casa que nada tem com a história.

Até o momento, nenhum resultado pericial indicou o que realmente aconteceu. A aposta aqui do redator é que um projetil 7.62X51 mm NATO perfurou o tanque de combustível ou algum ponto sensível da turbina (o modelo 350B2 tem apenas uma). A primeira hipótese é a mais provável, em função do rápido incêndio que que tomou a aeronave logo após o pouso. De qualquer maneira, perícia de acidentes aéreos é coisa para peritos, e, sobre isso o redator não irá palpitar.

Mas de tiro, causa:: entende. Foi um tiro ao acaso? Quase com certeza – nisso o redator não apenas palpita, como aposta. Dificilmente o “crime organizado” teria em seu poder armas anti-aéreas (os motivos já foram explicados aqui no blogue mesmo). As armas do tráfico têm de ser relativamente fáceis de transportar e esconder. Esse é apenas um dos motivos. Querem outro? Todos quanto tiverem prestado serviço militar ou, pelo menos, estado perto de um fuzil-metralhador, sabem que usar um negócio desses é uma pedreira. Uma arma assim não é feita para disparar salvas singelas, mas apenas rajadas, o que a torna difícil de manter estável. Tomemos como exemplo uma das armas citadas pela reportagem do “vibrante matutino” carioca “O Globo”, a FN Herstal “MINIMI” 5.56X45 mm (arma do padrão NATO , usada também pelos EUA): pesa 7,5 quilos sem a munição, tem quase 80 centímetros de comprimento é feita, principalmente, para disparo parado, com o atirador deitado e o conjunto apoiado num bipé. Não é sem razão: sua função, como a de todo fuzil-metralhador, é dar apoio de fogo à esquadra de infantaria, nas mãos de um atirador especializado, geralmente mais “parrudo” que o resto da tropa (no Exército dos EUA, por algum motivo, esses caras são chamados de “Pig“). Só que a “MINIMI” não é uma arma contra aeronaves. O cartucho 5.56 NATO é muito pouco potente para lidar contra coisas minimamente protegidas – aeronaves ou veículos militares de blindagem leve (como, por exemplo, um Urutu ou um MOWAG). As armas anti-aéreas leves continuam operando munição 7,62 NATO.

O Exército Brasileiro não opera, até o momento, qualquer versão da “MINIMI“. Os Fuzileiros Navais adotaram, já fazem pelo menos dez anos, o calibre 5.56X45 NATO, e tem o M16A2 mod. 705 como arma-padrão e  a *M249 como fuzil de apoio de fogo do Grupo de Combate FN. Mais acessível a “usuários” do tipo que temos em mente seria a *MAG M1971. Trata-se de uma metralhadora leve de uso geral, calibre 7,62X51 mm. Num tripé, ou dotada de um bipé e operada por um atirador relativamente treinado (e muito forte…), essa arma, de mais de 11 quilos e aproximadamente 125 centímetros de comprimento, com cadência de fogo de até 1000 salvas por minuto. Essa é extremamente letal, num ambiente restrito. Aí sim, é perfeitamente possível derrubar uma aeronave. Só que o redator continua apostando que os “irregulares” que as forças especiais da PMERJ costuma a enfrentar, nessas ocasiões, não teriam cacife para organizar a estrutura necessária para defesa de ponto contra aeronaves. Se tivessem uma tal infra, poderiam perfeitamente botar o BOPE para correr. E não põem – pelo contrário, a lista de baixas foi de 10X0. Placar que, por sí, dá a quem entenda um pouco do assunto, diversas informações.

Mas, como em agosto (e sempre…), novamente os redatores “especializados” continuam entendendo profundamente do assunto. Além da “MINIMI”, outra arma citada, por exemplo, é uma metralhadora “.30″ “calibre 7.92X57″ ”fabricada na antigo República da Tchecoslováquia”, “com capacidade de tiro capaz de derrubar um helicóptero”. Pela madrugada! Certamente entre os seis leitores (contadinhos…) de causa:: não consta nenhum redator do “vibrante”. Vejamos:  a Lehky Kulomet ZB (de zbrojovka, “empresa“) vz 26 (modelo 1926) é uma metralhadora leve que se tornou um dos desenhos mais bem sucedidos do período entreguerras. Só que o calibre 7.92X57 nada tem com o “ponto trinta”: um é o antigo Mauser da Wehrmacht, o “IS” (Infanterie, Spitz), que, até onde se saiba, poderá ser conseguido em museus ou em fábricas de material bélico para colecionadores e re-enacters (que não deve ser a diversão preferida dos traficantes cariocas). Já o “ponto trinta”, o “.30-06″ Springfield, no jargão do exército dos EUA, ou 7.62X63 mm, foi o calibre utilizado em armas de infantaria dos EUA a partir de 1906 até os anos 1950. Ainda existe e é fácil de conseguir, pois grande quantidade de armas militares usa essa munição, inclusive as mal-fadadas “metralhadoras .30″, de que tanto falam os redatores do “vibrante”. O curioso é que essas armas poderiam estar mesmo nas mãos do tráfico carioca. O redator chato encontrou na Grande Rede uma lista de armamentos desativados e preparados para destruição, pelo Exército. Lá estão relacionadas pelo menos 100 CZs convertidas para o calibre 7 mm (o calibre do Exército até  a conversão para o padrão norte-americano, no início dos anos 1940). Também estão relacionadas nessa lista mais de mil (é isso aí – um milhar) *metralhadoras Browning dos modelos 1919A4 e M1919A6 (este último, uma preciosidade). Seria perfeitamente possível disparar uma arma dessas contra um helicóptero ou pequeno avião,  e destruí-lo. Ainda assim, o redator continua duvidando dessa possibilidade, pelos mesmíssimos motivos.

Pois então, a posição de causa:: continua a mesma de agosto – o problema não será resolvido pela pura e simples militarização da questão, e nem com o sacrifício disfarçado do estado de direito tão duramente conquistado, de modo a criar dois países – o nosso e o deles. O “vibrante”, hoje (19 de outubro), faz uma cobertura que procura analisar apenas o confronto – como se uma briga de bandidos pés-rapados fosse a invasão israelense contra a Faixa de Gaza (e certamente ninguém será, no caso, levado ao Tribunal Penal Internacional): quem dispõe de que tipo de armamento.Questões mais sérias, citadas apenas tangencialmente pela reportagem, não são sequer propostas para debate por quem as levantou. A mais séria dessas é a que coloca a possibilidade da ação de invasão de uma comunidade favelada bem no coração da cidade do Rio de Janeiro ter sido planejada dentro de várias penitenciárias federais de segurança máxima. Neste ponto, é bom citar o comentário de um dos seis leitores (contadinhos…) do blogue, o Luiz Candido.  Diz o LC: Não há como evitar a conclusão: não se trata mais de criminosos comuns, assim como o seu tipo de associação não é mais devidamente classificado em nosso código penal. Os conceitos usuais e o aparato jurídico disponível simplesmente não são suficientes para tratar de uma situação deste tipo. Devo dizer que continuo discordando. O fato de nosso código penal não dar mais conta das demandas da atual sociedade brasileira é um problema político, e assim tem de ser resolvido. Não será enquanto reús dos mais diversos artigos puderem ser eleitos para todos os níveis do poder legislativo; não será enquanto a venerável Ordem dos Advogados do Brasil continuar exigindo privilégios para seus membros, privilégios que acabam por beneficiar justamente os “organizadores” do crime organizado; não será enquanto os policiais, agentes penitenciários, defensores e promotores públicos não tiverem melhoradas ao máximo possível suas condições de trabalho; não será enquanto os trabalhadores, as mães, os estudantes – enfim, o povo das comunidades faveladas – não passarem a ser tratados como cidadãos, ao invés de um problema a ser resolvido com “… a arma Metralhadora Leve de dotação do Exército Israelense até que este desenvolvesse a IMI NEGEV…” (nem cortar direito um texto besta da Internet essa gente sabe – ô raça…) e com o “… caveirão do ar, o ‘helicóptero Huey’ II…” E, claro, com acusações de negligência e descaso para com o Rio, insinuadas contra o Exército Brasileiro. Este que, muito sabiamente, não quer colocar sobre a parte mais frágil do Rio de Janeiro um helicóptero de assalto tripulado por homens que vivem em constante estado de estresse. 

Analisar armamento e pegar as bobagens alarmistas de nossa imprensa é fácil. Difícil é oferecer respostas que nos façam a todos acordar do pesadelo de sábado passado::

14/10/2009

Um rapaz (das Forças Especiais) às Segundas::

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Segundas?.. Não seria às Terças?.. Tanto faz. E já que continuamos no assunto “marinha”, um membro do SEAL da Marinha norte-americana durante a invasão do Afeganistão. A carabina M4A1 calibre 5.56 mm NATO com visor telescópico Trijicon ACOG (Advanced Combat Optical Gunsight) 4X, retícula iluminada de fibra ótica, instalado em  RIS (Rail Interface SystemDaniel Defense Inc. tipo Picantinny e empunhadura de plástico de alto impacto, está com a coronha rebatida. A coloração da arma, aplicada com uma película plástica, destina-se a dificultar a visualização. Trata-se de uma arma especial para forças especiais, e é exatamente o que o *SEAL (acrônimo de Sea, Air and Land, que também quer dizer “foca” em inglês) é. Essa força foi criada em 1962, pela Marinha dos EUA. Em 1961 o Chefe de Operações Navais recomendou a formação de tropas especializadas em contra-guerrilha, capazes de operar a partir do mar, terra e ar. Não foi à-toa. A época era a do envolvimento norte-americano no Vietnam, em 1961-1962.  John Kennedy ficou muito impressionado com a atuação dos “boinas-verdes“, e imaginava poder vencer a guerra com tropas treinadas em táticas não-convencionais, altamente motivadas e politicamente engajadas. No caso do SEAL, os primeiros voluntários eram membros de Equipes de Demolição Submarina (UDT, em inglês), formadas durante a Segunda Guerra Mundial, conhecidos como Frogmen (“homens-rãs”).  O primeiro teatro de operações foi o Vietnam do Sul, fazendo levantamento subaquático, reconhecimento de áreas de desembarque e demolição, além de assessorar as forças especiais do Vietnam do Sul. Eventualmente, atendiam demandas da CIA em operações encobertas, mas essa é outra história::

05/10/2009

Um rapaz (das Forças Especiais) às Segundas::

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Efetivo do Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil integrado ao Grupamento Operativo de Fuzileiros Navais Haiti (GrOpFzNav HAITI), tropa integrada à Brigada Haiti da Força de Paz Haiti, unidade brasileira da Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (MINUSTAH) - o redator sabe que a profusão de “Haiti” parece piada, mas não é… A unidade é composta por 235 efetivos (uma companhia de infantaria e elementos de unidades especializadas) procedentes de várias unidades do CFN-MB. O GrOpFzNav HAITI conta com 43 viaturas, sendo que cinco são do tipo VBTP Mowag “Piranha”, recém-adquiridas pela Marinha. Como força de estabilização exercendo, basicamente, missões de caráter policial e social, o GrOpFzNav HAITI (assim como a Brigada Haiti) não possui artilharia de nenhuma espécie nem quaiquer outros meios ofensivos.

O soldado da foto aponta sua carabina M4A1 dotada de visor de precisão REFLEX  EOTech série 552 instalado sobre trilho Picatinny (um tipo de acessório para armas portáteis projetado no arsenal de Picatinny, Nova Jersey, EUA) durante uma operação de rua em Port-au-Prince.  Essa arma é geralmente distribuída a efetivos dos Batalhão de Operações Especiaisindica. No capacete tipo PASGT (Personel Armour System Ground Troops)M88, um sistema individual de comunicações. O CFN foi a primeira corporação a adotar o capacete de fibra de aramida, já em meados dos anos 1980, quando foi adquirido um punhado de IDF OR 402, capacete padrão das Forças de Defesa de Israel::

05/08/2009

Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::

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bandidos

Bom, são dois, mas vamos dar desconto: dois desses “irregulares” valem um – quando muito – regular…  Por sinal, a carabina Colt AR15A3 que o do boné empunha está faltando peça (que é removível)…

Agora, sem brincadeira, alguém sério acha que esses caras são páreo para a turma do BOPE?::

24/07/2009

O mês da Coréia::Daewoo: carros feios, armas… Diga você::

Estávamos na “análise estratégica ampliada”. Acabou me ocorrendo que, em momento algum, cheguei a explicar o que, exatamente, significa “estratégia”. Não posso acusar ninguém de não distinguir “estratégia” de “tática”, se eu mesmo esqueço de explicar a diferença.

Suponho que muitas pessoas saibam. Esse conceito, ultimamente, deixou de ser de interesse exclusivamente do planejamento militar. Fala-se de estratégia em esportes, negócios, e até mesmo nas “estratégias de vida”. A palavra vem do termo grego stratègós (stratos, “exército”, e ago, “liderança”). Designava o líder, em época de guerra, na Grécia clássica. Strategicós, por sua vez, era um termo que designava “os assuntos do general”; já stratiá designava a expedição militar. O sentido atual da palavra na área militar, começou a ser estabelecido no século 17, com a difusão dos Estados nacionais centralizados, da arma de fogo e a ascensão da manobra como forma de evitar o tiro ou minimizar seus efeitos. Trata-se então, como Antoine Henry, barão de Jomini, militar suiço do século 19 (mais sobre Jomini nesse excelente blog, que considero primo do causa::) definiu: a ciência do movimento aplicado ao campo de batalha. Nessa visão, expressa em um livro chamado “Sumário da arte da guerra”, Jomini colocava a estratégia como a principal dentre as cinco divisões da “arte da guerra”. Pois de lá para cá, a noção ampliou-se, passando a envolver o planejamento da guerra como parte das atividades do Estado. O planejamento visa, em última análise, estabelecer objetivos políticos, que envolvem a sobrevivência do Estado a longo prazo e a expansão de suas possibilidades – inclusive de fazer a guerra.

Alguns especialistas chamam essa visão de “grande estratégia”, ou seja a mobilização de recursos nacionais. Caso tenham prestado atenção nas postagens anteriores, devem ter reparado que as duas Coréias não tem feito outra coisa nos últimos 50 anos que não seja planejar a sobrevivência de ambos os Estados, mobilizaondo seus recursos nacionais de modo a expandir suas possibilidades. Essa questão começou a ser discutida por Claus von Clausewitz, que considerava a guerra como ferramenta política. O objetivo em uma guerra seria desarmar o oponente, ou seja, destruir efetivamente a capacidade do oponente de guerrear. Aí é que entra o comprometimento em uma guerra. Quanto mais determinado o inimigo, mais difícil é de removê-lo do conflito. Para tanto, a estratégia aplica-se ao campo militar, mas a “grande estratégia” significa mobilizar tudo de quanto o Estado pode dispor – recursos materiais, humanos e espirituais. Alguns especialistas chamam isso de “política”.

Daí nos interessa falar um pouco do chaebol Daewoo, sobre o qual fiz uma piadinha na postagem anterior. Chaebol  (a palavra, que se pronuncia “tchêe:bêl”, significa “negócio familiar”) indica uma espécie de reunião de empresas, um conglomerado apoiado pelo governo. O termo é ambíguo, porque os principais chaeboi´l são mesmo empresas familiares, que, por motivos políticos mantinham boas relações com o governo. O termo também pode significar “monopólio”, o que significa uma concessão política que elimina a concorrência e  implica em vantagens econômicas. Já vimos, na postagem anterior, a origem dessa forma de organização industrial. Os  chaeboi´l foram capazes de crescer nas taxas astronômicas que observaram devido à essa proximidade com o governo. Deveriam ser capazes de aproveitar os influxos governamentais, de modo a cumprir quotas de expansão e de exportações; por seu lado, o governo garantia um fluxo de investimentos, negociados no exterior, e facilidades bancárias, na Coréia do Sul. A política de universalização da educação, em todos os níveis, o acesso à tecnologia de ponta e altos investimento em pesquisa, nas universidades e nos próprios chaeboi´l completaram o quadro, ao longo das décadas de 1960 e 1970. Mas o fator decisivo foi a relativa estabilidade interna que permitiu uma taxa de lucro maior do que seria possível em um regime de livre negociação. Esse crescimento só era possível graças a intervenção do governo no processo.

Dizendo de outra forma: o regime de organização econômica da Coréia do Sul teve uma ligação simbiótica com os governos ditatoriais iniciados em 1961. Nada tão estranho assim para nós brasileiros: o tipo de capitalismo intervencionista observado aqui se parecia muito com o modelo adotado na República da Coréia. A diferença é que o Estado tinha uma participação direta infinitamente menor do que aqui, e investiu pesadamente em um modelo de educação que privilegiava a formação técnica de mão-de-obra e a pesquisa aplicada. A falência veio exatamente porque o acordo social implicava em taxas de emprego e crescimento artificiais. Quando vieram os problemas, o regime rapidamente entrou em crise.

O que não significa que o modelo não fosse eficaz para os objetivos buscados pelo país, e os chaeboi´l continuaram sendo a forma de organização prevalecente na indústria de ponta, defesa, comércio internacional e, bem menos, no setor financeiro. No final da década de 1980, o modelo, depois de diversos ajustes, a partir do retorno do regime democrático, em 1987, continuou existindo e até ampliou-se. A retração do estado revelou aos próprios estrategistas dos “conglomerados” oportunidades de expansão e competição que a conivência com uma ditadura anticomunista não deixava antever.

O novo panorama criou uma nova especialização: as grandes empresas de produção para exportação migraram para países emergentes como a China, Malásia e Filipinas. Na Coréia foram mantidas as sedes, a estrutura de Pesquisa&Desenvolvimento e o setor de defesa. Neste panorama, a Daewoo Motor Industries pode não ser o maior chaebol coreano, (de fato, não aparece nem mesmo entre os 12 primeiros) mas certamente é um dos primeiros quando se fala no setor de defesa. Uma de suas filiais, a Daewoo Precision Industrial Co. foi estabelecida como empresa de equipamento de defesa em 1981, e em 1986 tornou-se fabricantes de peças de veículos para a matriz. O chaebol Daewoo, um dos maiores da Coréia do Sul, na época, acabou dividido, depois que o fundador e principal executivo Kim Woo-chung, se viu acusado de mentor de uma fraude bilionária. Desde 1999, a empresa foi dividida, e a área de defesa, uma das menores (em 1998 envolvia  4% da companhia) passou para o controle direto do governo.

Kim começou sua empresa em 1967, como uma pequena firma de exportação, batizada de Dae´Woo, (“grande universo”, em coreano).  Durante a Guerra da Coréia, acima da idade de convocação, Kim vendia jornais enquanto freqüentava a universidade, graduando-se em economia. A Daewoo, fundada em meados dos anos 1950, revendia produtos da indústria têxtil, que exportava para o Japão. Na segunda metade dos anos 1960, tinha estabelecido bons contatos em Nova Iorque com compradores de produtos têxteis, o que chamou a atenção do governo sul-coreano. O ditador Park Chung Hee, que mantinha laços de amizade com a família de Kim (espécie de relação muito significativa, no contexto cultural coreano), patrocinou a transformação da Daewoo em uma empresa de mecânica pesada, subsidiando a produção através de empréstimos governamentais a fundo perdido e compras por preços acima do mercado. Kim tornou a empresa lucrativa em cerca de dois anos, e, sempre com apoio do governo, incorporou a seu chaebol um estaleiro, uma fábrica de automóveis e uma fábrica de ferramentas de precisão que, posteriormente, deu origem à fábrica de armas. Nessa época, o favorecimento descarado do governo tornou a empresa o terceiro chaebol, em tamanho e rendimentos.

A experiência de Kim no comércio internacional e nas ante-salas dos governos o fez presença constante nos gabinetes dos EUA, França, Paquistão e em diversos países do Terceiro Mundo, notadamente os produtores de petróleo. A agressividade da empresa a levou a ter aproximadamente 320.000 funcionários, o que era um efetivo quase tão grande quanto o do exército da República.

Os problemas que acabaram com o chaebol, em meados dos anos 1990, relacionam-se com um projeto de expansão que visava tornar a empresa um dos grandes players do mercado mundial de automóveis. A resistência das empresas norte-americanas e européias jogou significativa quantidade de areia na máquina de Kim, numa época em que o apoio governamental já não era nem tão imediato nem tão incondicional quanto fora 20 anos antes.

De qualquer maneira, as encrencas de Kim Woo-chung não são importantes para nós. A questão que quero deixar clara é como, a partir de 1981, com o estabelecimento da estratégia de defesa da Coréia do Sul, a Daewoo viu aí um nicho para incorporar mais uma área a seu inventário empresarial. No final dos anos 1960, os EUA haviam fornecido ao exército coreano certa quantidade de rifles M16A1 (calcula-se que uns cem mil), do tipo empregado pela infantaria dos EUA no Vietnam. Em 1972 a Coréia do Sul retirou-se da Indochina, mas manteve o tipo como arma-padrão de seu exército. Por volta de 1976, o governo sul-coreano resolveu implementar uma indústria local de defesa, e acenou com a possibilidade de distribuir uma arma longa de fabricação local, embora sem a intenção inicial de substituir o M16, existente em grandes quantidades. Ficou estabelecido que uma arma de calibre 5.56X45 NATO seria projetada para substituir a submetralhadora M3 Grease Gun, arma da 2ª GM ainda padrão nas forças armadas da República. A empresa Daewoo Precision Industries Ltd foi formada para atender à demanda governamental. A *carabina de assalto K1 foi seu primeiro produto, cujo desenvolvimento concluiu-se por volta de 1982. O protótipo foi apresentado em 1980 e entrou em serviço em 1981. Os testes e o ciclo de serviço mostraram problemas sérios. A arma destinava-se às forças especiais, e portanto deveria ser silenciosa e discreta, O desenho do supressor de chama, entretanto, além de não resolver aqueles problemas, acabava por gerar forte recuo, que, por sua vez, tornava inadequada a coronha rebatível. Os problemas foram resolvidos através do redesenho da câmara e do supressor de chama. Essa nova versão foi denominada K1A. Essa arma conviveu com o M16A1, sendo distribuída para forças especiais, marinha e polícia, enquanto o rifle norte-americano foi mantido na infantaria.

Ainda em 1982, entretanto, o governo começou a considerar a padronização de todo o armamento. Uma *versão longa da carabina K1A começou a ser testada, com um cano de 46,5 cms e uma coronha convencional, em plástico de alto impacto. Os protótipos surgiram em 1983 e eram, de fato, um redesenho, com relação ao K1A. Este último era uma tentativa de fazer uma submetralhadora usando cartucho de fuzil: a chamada “ação direta de recuo”. Essa opção tornava o conjunto mais leve, mais barato, mas menos resistente. O sistema adotado para o K2 era o de operação por recuperação de gás (leia sobre o assunto no posto “A linhagem FAL”). O tiro é seletivo, alimentado por carregadores de plástico, de 20 ou 30 cargas, utilizando munição 5.56X45 NATO. Em 1987, o K2 começou a ser distribuído regularmente às forças armadas sul-coreanas, e pelo fim dos anos 1980, o M16A1 tinha sido totalmente recolhido.

Com aproximadamente 800.000 efetivos no total, as forças armadas e a policiais sul-coreanas eram uma reserva de mercado bastante promissora. Em função da adaptação das corporações à nova estratégia, lançada em 1979, a Coréia do Sul pretendia assumir parte considerável das responsabilidades de sua defesa nacional. Isso implicava numa completa reestruturação do exército, inclusive em seu rearmamento. Essa corporação tinha, em 1981, aproximadamente 400.000 efetivos. Dois terços eram conscritos convocados para dois anos de serviço ativo, aos 17 anos. Uma vez desmobilizados, esses homens permaneciam como “reserva de primeira linha” até os 34 anos, e podiam ser convocados periodicamente para curtos períodos de serviço ativo – em geral, por volta de duas a três semanas. A reserva somava, segundo estimativas dos EUA, em torno de 1200.000 efetivos potencialmente mobilizáveis. Não se sabe quanto tempo levaria a mobilização completa.  Esse sistema ainda persiste.

Atualmente, o exército mobiliza por volta de 550.000 efetivos, 10.000 dos quais são oficiais. O inventário soma 2.500 tanques, 3.000 veículos blindados de combate e 7.000 sistemas de artilharia de campanha auto-propelidos e auto-rebocados. Esses sistemas incluem grande quantidade de lançadores de foguetes.

Os blindados são, em grande parte, os já obsoletos M48A5K, de fabricação norte-americana, do final dos anos 1950, mas modernizados localmente, no final dos anos 1970. Uma quantidade estimada entre 30 e 50 T80U, de fabricação russa, foi incorporada em 2004/2005, em função de acordos de refinanciamento de dívidas da Rússia. Durante algum tempo, esses blindados foram os mais avançados existentes na península. Tentativas de produzir sob licença o alemão Kraus-Maffei Leopard 1 deram em nada, porque os sul-coreanos concluíram, acertadamente, que se tratava de um modelo prestes a se tornar obsoleto.

Nessa época, o governo militar sul-coreano concluiu que a melhor solução seria produzir um tanque autóctone, levando em consideração os aspectos da nova geração de projetos que surgia nos EUA, Rússia, Alemanha Ocidental e Inglaterra. A indústria local já tinha condições de suportar um projeto desses, mas não tinha experiência. Um projeto local levaria pelo menos dez anos para surgir, assim, os militares e planejadores civis consideraram que a solução seria comprar a licença de um produto estrangeiro. A escolha recaiu no XM1, protótipo do norte-americano M1 Abrahms, que começava a ser distribuído pelo ramo de defesa da Chrysler Motors Company. As negociações quase deram com os burros n´água, quando, no meio do processo a empresa foi vendida para a General Dynamics. Entretanto, os novos donos mantiveram o interesse, em função do incentivo do governo dos EUA. Técnicos sul-coreanos foram despachados para os EUA para conhecimento do projeto e treinamento na General Dynamics Land Systems.

Os dois blindados são similares, mas os projetos são bastante diferentes. O K1 pronto, deslocava 4 toneladas menos que as 55 do M1; a altura entretanto, é ligeiramente maior no K1: 237 cm contra 225 cm (o que, num tanque, faz a maior diferença). A planta de potência do K1 é a mesma do israelense Merkava 3, a Teledyne Continental AVCR-1790, de 1200 hps. A blindagem é do tipo composto metal-cerâmica, Cobham. Posteriormente, a relação peso-potência da alemã MTU MB Ka-501, versão compacta da MB-873 Ka-503 que equipa os tanques Leopard 2, revelou-se melhor, e essa planta de potência foi adotada. Isso levou a que uma transmissão e diversos outros componentes de origem alemã fossem adotados no K1, em sua versão A1. O canhão raiado de 105 mm norte-americano, depois produzido na Coréia do Sul sob a notação KM68, bem como o sistema de controle de fogo Hughes, foram mantidos.

Mas tecnologicamente, o K1A1 acabou se tornando até mais avançado do que o Abrahms, quando recebeu um sistema independente de visão panoramica, do qual o Abrahms não está dotado, por cortes de orçamento. Esse sistema comanda o armamento de forma integrada, através de sensores termais e de visão passiva, o que torna o K1A1 um verdadeiro sistema de armas.

O desenvolvimento do K1 completou-se em 1983 com um protótipo apresentado ao governo sul-coreano. O uso de um motor alemão acabarm por tornar o K1 mais parecido com o Leopard 2 do que com o Abrahms. A empresa escolhida para desenvolver o tanque para produção de série foi a Hyundai Precision, ligado ao chaebol Hyundai. Esse é um dos maiores grupos da Coréia do Sul, fundado em 1947 e, na atualidade, um dos 5 maiores produtores de veículos automores do mundo, bem como de aço, navios e produtos eletrônicos de alta tecnologia. Uma quantidade de 450 K1 foi adquirida, iniciando-se a distribuição em 1985, em alto segredo, e completando-se em 1987, quando o veículo foi revelado ao mundo.

No momento, a empresa está desenvolvendo o K2  Heukpyo (Pantera Negra) equipado com um canhão de 120 mm e 55 calibres, autocarregado. Não existem maiores informações sobre o sistema, mas tem circulado que será equipado com blindagem reativa (capaz de diminuir os danos de munição de carga oca), radar e sistemas de detecção a laser.

O objetivo deste texto não é, enfim, descrever com detalhes o moderno armamento à disposição das forças armadas sul-coreanas. O que quero mostrar é como o planejamento estratégico, a “grande estratégia” envolve mobilizar todos os recursos nacionais de forma coordenada. No caso sul-coreano, uma longa trajetória levou o país de uma nação subdesenvolvida, nos anos 1950 e 1960, para uma das grandes potências econômicas das últimas décadas do século passado e, nos últimos tempos, a um patamar de potência militar equivalente às maiores potências da Europa Ocidental (França, Alemanha e Grã-Bretanha, nessa ordem).  A escalada do país, nos anos 1960, para o lugar de potência industrial e, em seguida, para o de potência tecnológica pôde ocorrer devido ao lugar ocupado pelo país na Guerra Fria, como “primeira linha de contenção da expansão comunista”. Esse papel (o país provavelmente seria arrasado na eventualidade de uma guerra contra a China) levou a que fizesse por merecer certas concessões, que vieram sob a forma de influxos econômicos. Esses influxos, sob a forma de capitais que, nos anos 1960 estavam disponíveis em grande medida e precisavam ser reinvestidos. Mas esses capitais também estiveram disponíveis para o Brasil. A diferença, além do lugar geopolítico do Brasil (cujo papel estratégico nunca foi determinante), foi o tipo de projeto para a sociedade, projeto que a elite daqui nunca conseguiu fazer. Os sul-coreanos, desde os anos 1950, investiram pesadamente em educação, em todos os níveis, e em uma urbanização ordenada, que permitiu ao país montar uma base industrial altamente eficiente. Esses dois aspectos tornaram possível que a entrada de capitais e tecnologia dessem resultados, embora não de imediato::

22/07/2009

Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::707th SOF

SKorSnipers

Certo, certo… Não é terça… Mas compenso com um time completo de atiradores de escol sul-coreanos. Trata-se da Batalhão 707 de Forças de Operações Especiais. A especialidade dessa unidade do Exército da República da Coréia é o contra-terrorismo e atividades de controle de retaguarda. São todos militares profissionais, selecionados em unidades de forças especiais e comandos, com pelo menos 5 anos de carreira e treinamento em armas, táticas e artes marciais. Também devem ser atiradores particularmente habilidosos. Esse grupo exibe o ”fuzil de tiro especial” SSG 69 (Scharfschützengewehr 69), 7.62X51 NATO, de ferrolho, produzido pela empresa austríaca Steyr-Manlicher. Sinceramente… Esses caras parecem indefesos?::

14/07/2009

Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::O mês da Coréia::

Elemento das forças especiais sul-coreanas. A arma é uma pistola-metralhadora Daewoo K7, 9X19 mm. O chaebol ("conglomerado") Daewoo é um conjunto de empresas sul-coreanas de mecânica pesada e alta tecnologia, criado em 1967 por Kim Woo Chong, capitalista local de porte médio, que recebeu fortes subsidios do governo militar da época. Não fabrica apenas carros feios, mas também armas feias.

Elemento das forças especiais sul-coreanas. A arma é uma pistola-metralhadora Daewoo K7, 9X19 mm. O chaebol ("conglomerado") Daewoo é um conjunto de empresas sul-coreanas de mecânica pesada e alta tecnologia, criado em 1967 por Kim Woo Chong, capitalista local de porte médio, que recebeu fortes subsidios do governo militar da época. Não fabrica apenas carros feios, mas também armas feias.

17/06/2009

Cultura material militar::O mês da Coréia::PPSh

A esta altura, todo mundo já sabe que o mês de junho marca o 59° aniversário da eclosão da Guerra da Coréia. Como já vimos em outro lugar, em 1945, pelo menos em aparência era concordância entre os aliados uma solução de consenso para a situação política da península. Na prática, as áreas de ocupação soviética e norte-americana passaram a se organizar por conta própria a partir de 1946. No norte, sob controle de tropas soviéticas, uma administração nos moldes da URSS foi montada, a partir de 1946, contando inclusive com um dispositivo militar, baseado nas unidades guerrilheiras sob controle centralizado. O futuro líder da Coréia do Norte, Kim Il-sung, depois de conduzir guerrilhas na fronteira entre a Manchúria e a Coréia do Norte, refugiou-se na União Soviética e acabou a 2ª GM como capitão do Exército Vermelho.  Durante a guerra, a guerrilhas coreanas eram armadas principalmente com equipamento fornecido pela China. Isto significava que o principal armamento disponível era de origem norte-americana, pois os soviéticos não queriam provocar os japoneses, mantendo-se neutros durante toda a guerra no Extremo Oriente.

Encerrada a 2ª GM, a situação mudou radicalmente. Com a ocupação da porção norte da península, os soviéticos passaram a fornecer apoio técnico e logístico ao governo estabelecido em sua zona de ocupação, logo após a Conferência de Moscou, realizada em dezembro de 1945. Nessa época, os coreanos incorporados ao Exército Vermelho retornaram à Coréia,  e os soviéticos passaram a fornecer grandes quantidades de material bélico estocado da 2ª GM, e que estava, naquele momento, sendo substituído. O novo exército norte-coreano recebeu tanques T-34/85 (que, na URSS, começou a ser substituído, em 1947, pelo *modelo T-54), canhões de emprego geral de *ZIS-3/76 mm e submetralhadoras PPSh. Esta última se tornou a principal arma da infantaria norte-coreana durante a guerra que se seguiu::

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A origem das submetralhadoras remonta ao final da 1ª GM. A tentativa de superar o impasse da guerra de trincheiras mostrou que um dos problemas (não o único) era a incapacidade das pequenas unidades de infantaria (esquadras e pelotões) em concentrar fogo de modo suficiente para superar posições de metralhadoras. A criação, pelos alemães, de forças especiais de infantaria conhecidas como “Tropas de choque” (Stösstruppen), altamente móveis e destinadas a procurar oportunidades de infiltração na linha de defesa adversária apontou a necessidade de uma nova arma de infantaria. Essa arma deveria ser leve e capaz de prover fogo em peso suficiente para confrontar posições teoricamente mais fortes. A resposta foi a adoção de uma arma com a conformação de uma pistola semi-automática, utilizando o mesmo tipo de munição (cartuchos curtos com projetis arredondados), mas capaz de disparar em rajadas.

Essa arma era a submetralhadora, ou como a chamaram os alemães, “pistola-metralhadora”. A primeira arma a incorporar totalmente o conceito de submetralha surgiu em 1918, desenhada por Louis Schmeiser e fabricada por Bergman Waffenfabrik. A *Maschinenpistole Model 1918, ou MP18 usava o cartucho Parabellum 9X19 do exército alemão. No período pós-guerra, o exame dessa arma por ingleses e norte-americanos, e seu uso durante a guerra civil na União Soviética levaram ao surgimento de diversos modelos similares, distribuídos principalmente entre forças policiais. A Guerras do Chaco foi o primeiro conflito no qual o uso militar de submetralhadoras mostrou-se viável e fez a balança pender para um dos lados. Nas guerras Civil Espanhola e Russo-Finlandesa, a submetralhadora consolidou-se como arma de infantaria, e alguns especialistas chegaram a afirmar que a era dos fuzis de ferrolho teria chegado ao fim. Essa previsão não se realizou devido a certos limitações que os engenheiros não conseguiram superar: baixa potência do projetil de pistola e sua baixa precisão. Entretanto, os teóricos da Wehrmacht consideraram, a partir de 1936, que a sub-metralhadora poderia ser complemento ao poder de fogo dos fuzis de ferrolho, principalmente no combate à curta distância. Unidades de infantaria chegaram a distribuir uma submetralhadora para cada dez fuzis; nas unidades motorizadas essa proposção chegava até 4X10, sendo que em unidades de choque (infantaria das divisões blindadas e pára-quedistas) a proporção era de 5X10.

Versão original da Pistolet Pulemjot Shapagina 41, com alça de mira graduada para até 500 metros

Versão original da Pistolet Pulemjot Shapagina 41, com alça de mira graduada para até 500 metros

Entretanto, foi no Exército Vermelho que essas experiências alcançaram seu grau mais extremo. Seu instrumento foi a Pistolet-pulemjot Shpagina 41 (“pistola-metralhadora de Shpagin”) ou PPSh-41. Concebida pelo armeiro Georgii Shpagin, em 1940 e distribuída a partir da primeira metade de 1941.

Infantaria soviética. Em primeiro plano, um soldado aponta uma PP Sh 41

Infantaria soviética. Em primeiro plano, um soldado aponta sua PP Sh 41 versão 1943

No início de 1940, Shpagin, desenhista do ateliê Krokov (localidade nas cercanias de Moscou) começou a projetar uma nova submetralhadora. Até então, o Exército Vermelho estava equipado com o modelo PPD (Pistolet-pulemjot Degtyarova), concebido a partir de 1934 com base na alemã Bergman MP-28. Na Guerra de Inverno na Finlândia, tropas finlandesas equipadas com submetralhadoras mostraram superioridade arrasadora em situações de combate aproximado. A *PPD, modelos 34 e 38, foi modificada e distribuída com com base nessa experiência. Entretanto, era cara e difícil de fabricar, e sua manutenção, fora de condições de quartel, bastante complicada. Um ano depois, a invasão alemã e a retirada desorganizada do Exército Vermelho fez com que enormes quantidades de armas fossem abandonadas, e as fábricas não se mostravam capazes de substitui-las na mesma proporção.

A PPSh-41 foi concebida para ser uma alternativa barata e simples às PPD. Todas as partes, com excessão do cano, eram em metal estampado (o que diminuía o tempo de fabricação pela metade) e a maior parte da montagem era feita através de solda elétrica. A parte mais complexa do conjunto era o carregador tipo tambor, de 71 cargas, copiado exatamente do modelo usado pela filandesa *Suomi KP-31.

Tratava-se de uma arma acionada por ação de recuo simples, operando a partir da câmara aberta (quando armada, o extrator permanecia aberto). Sua cadência de fogo chegava a 900 salvas por minuto, o que era considerado demasiado alto para condições de combate de infantaria. Essa cadência era permitida em função do uso do cartucho “TT” 7.62X25 (Tokarev) modelo 1930 (cópia adaptada do cartucho alemão Mauser 7,63 mm), que possibilitava ao projétil uma velocidade de boca de até 450 metros por segundo. A PPSh 41 podia disparar em regime automático e semi-automático, embora os modelos posteriores a 1943 permitissem o disparo apenas em automático. A alta cadência de fogo a tornava uma arma instável, com forte tendência a elevar o cano, que um compensador/freio de boca rudimentar tentava corrigir. Essa característica tornava o tiro pouco preciso, e a efetividade do disparo dificilmente ultrapassava 100 metros. A alça de mira das primeiras versões podia ser regulada para até 500 metros; as versões posteriores passaram a ser dotadas de uma alça com apenas duas marcações: 100 e 200 metros. Em combate, a arma era geralmente apontada por alinhamento do cano com o alvo. O carregador tipo tambor (na imagem, o da Suomi, idêntico aos soviéticos) era considerado um dos pontos altos da arma. Entretanto, era difícil de municiar, seu transporte era incômido e a fabricação rústica o tornava frágil. Modelos posteriores da arma incorporaram um carregador convencional, tipo caixa, de 35 cargas.

As grandes qualidades da “pá-pá-txá” (como era chamada pelos usuários) eram a resistência e durabilidade. Capaz de suportar grande quantidade de sujeira e variações extremas de temperatura, necessitava de pouca manutenção. A *desmontagem era muito simples e o número de peças, relativamente pequeno. Um pino na parte posterior do receptor era solto, deixando que a metade superior fosse movida para cima, num movimento basculante. O interior do receptor se abria, expondo o bloco de culatra e a mola.

Quase 5,5 milhões de exemplares desta arma foram produzidos até ao fim da 2ª GM. Para termo de comparação, a Alemanha produziu, entre 1938 e 1945, aproximadamente 2,5 milhões de submetralhadoras, das quais mais de 1 milhão eram MP38/40

Depois de 1941, * unidades alemãs em combate permitiam que seus integrantesusassem a PPSh, chegando algumas a estocar munição “TT”. As dimensões entre os dois cartuchos eram próximas, o que levou a Wehrmacht a considerar a adaptação da enorme quantidade de PPSh capturadas em 1941 para disparar munição 9X19 mm. A adaptação obrigava a mudança do cano e do uso de um adaptador no receptor, de modo a permitir o uso do carregador de 32 cargas da ERMA MP38. A adaptação recebeu a notação MP717(r).

A produção continuou até pelo menos 1950, quando foi descontinuada em função da padronização do fuzil de assalto AK47. Entretanto, as grandes quantidades estocadas foram distribuídas entre os países da Europa Oriental e aos *aliados asiáticos. Quantidades consideráveis também foram fabricadas por alguns desses países. A República Popular da Coréia foi um dos países a receber enormes quantidades de armas soviéticas. Nesta *imagem, armas soviéticas da 2a GM, com uma PPSh versão 43. Essas armas foram capturadas no perímetro de Pusan. Curiosamente, o rifle no centro é um Arisaka 7,7 japonês.

As táticas desenvolvidas pelo Exército Vermelho durante a guerra baseavam-se no uso de submetralhadoras por infantes cuja atuação seguia o princípio da massa e da velocidade. Transportados até o campo de batalha em caminhões não protegidos ou montados no dorso de tanques, os infantes eram lançados diretamente contra as linhas inimigas, disparando suas armas logo após saltarem dos veículos, ou após percorrerem distâncias não muito grandes, depois de desmontarem dos caminhões. O peso de fogo era a única garantia de sucesso dessa tática, e tinha de ser conseguido a qualquer custo, daí a adoção quase universal de submetralhadoras. Entretanto, essa tática costumava a provocar grandes baixas, sem contar a dependência da disponibilidade de veículos e de quantidades consideráveis de combustível. Como forma de compensar a superioridade dos defensores alemães, em geral ocupando posições preparadas, os soviéticos faziam preceder os assaltos de infantaria móvel por pesadas barragens de artilharia. O uso massivo de foguetes não guiados articulava-se a esse contexto. Esse tipo de tática exigia grandes concentrações de tropas, o que explica a opção soviética pelo esforço ao longo da região dos rios Don-Dnieper, mobilizando forças moderadas nas outras frentes.

O Exército Popular da República Democrática da Coréia foi treinado para adotar essas mesmas táticas. A superioridade numérica e em volume de armamentos – notadamente o número de tanques e peças de artilharia) destinava-se a reproduzir, tanto quanto possível, a forma soviética de fazer a guerra. Até mesmo a proporção relativamente pequena de aviação espelhava o fato de que, no teatro europeu, as forças soviéticas acostumaram-se a lutar com pouco apoio aéreo. A vitória pareceu fácil, no início, em função da desproporção numérica. As forças armadas da República da Coréia, além de menores em efetivos, praticamente não dispunham de tanques e artilharia. Conforme os EUA, sob a bandeira da ONU, começaram não apenas a empenhar efetivos consideráveis no teatro coreano, como treinar e armar tropas sul-coreanas, a incapacidade da Coréia do Norte em substituir as pesadas baixas que sofreu entre setembro e novembro de 1950 quase significaram a derrota.

A PPSh teve, tanto nas mãos dos norte-coreanos quanto, a partir de novembro de 1950, dos 300.000 “voluntários” chineses enviados para a Coréia, notável participação na Guerra da Coréia. Pode-se dizer que foi o último conflito no qual submetralhadoras tiveram papel de destaque. A partir de então, essa praticamente desapareceu como arma de infantaria, ficando restrita às Forças Especiais e corporações de polícia.::

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