
É quase terça-feira, mas ainda é Sete de Setembro. Vocês lembraram? causa:: é, digamos, um recurso de pesquisa que se orgulha de sua Pátria, embora isso não signifique ignorar os problemas e as vicissitudes – que, todos sabemos, não são poucos. Mas, como diz o historiador Benedict Anderson, “o nacionalismo é como um corpo saudável, e ter uma nacionalidade é considerado tão natural como ter um nariz”. O redator concorda, e acrescentaria que Pátria é a soma dos valores da Nação com o sentimento individual de pertencimento. Em Sete de Setembro, nós, brasileiros, deveríamos comemorar a esperança em um futuro comum, e para cada um de nós, melhor do que o presente::
É curioso que os militares, em geral, parecem considerar-se mais “patriotas” do que o resto de nós. Por outro lado, muitos de nós, civis, parecem achar que “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas“. Nem uma coisa, nem outra. A confusão, de ambos os lados, vem de que, de fato, todos conhecemos mal nossa história, e quando conhecemos, é uma “versão oficial” qualquer. A história, quando na “versão oficial” (aquela cheia de nomes, datas, batalhas, homens sérios, etc, etc), é um abrigo seguro e confortável para algumas certezas – que de certas, não tem nada. Por certo, conhecer a história que foi vivida, aquela cheia de luta, trabalho, construção, discordância, vitória, derrota – ou seja, aquela de que as pessoas, militares e civis, são os atores – é o melhor caminho para derrubar abrigos e certezas. A história mostra que, se não forem pertencimento e responsabilidade comum, o passado nunca é o que parece e o futuro, apenas incerto.
E já que estamos falando no assunto, vamos apresentar a tropa histórica do Exército Brasileiro – o 1° Regimento de Cavalaria de Guardas, também conhecido como “Dragões da Independência”. Os leitores de causa:: (os cinco, contadinhos…) já sabem do que se trata um “dragão”(um soldado de cavalaria ligeira). O que os leitores de causa:: não sabem (mas logo irão saber) é que uma coisa não tem nada com a outra.
Em 1820, quando as Cortes ordenaram a volta do então regente D. Pedro a Portugal, os grandes proprietários de terras do Rio de Janeiro resolveram recrutar uma milícia. Com aproximadamente dois mil homens, se destinava a enfrentar qualquer tentativa das autoridades portuguesas de embarcar o príncipe à força, para a Europa. Nos tumultuados meses em que a autoridade portuguesa começou a ser fortemente contestada e a região das províncias de São Paulo e Minas Gerais, entrou em estado de quase-sedição, o grupo acompanhava o futuro imperador do Brasil conforme ele tentava apagar os incêndios políticos que estouravam por toda parte. Em maio de 1822, uma revolta na região de Sorocaba ameaçava descambar em levante, e D. Pedro se abalou para lá, acompanhado por uma escolta a cavalo que se autodenominava “Leais Paulistas” e “Leais Mineiros”. Era o grupo que tinha trazido para o Rio os tais dois mil milicianos. Homens muito ricos, proprietários de escravos e comerciantes com grandes interesses econômicos no Rio de Janeiro, podiam despender dinheiro para recrutar tropas e comprar armas. Esses “leais” passaram, após esse episódio, a se denominar a “Guarda de Honra”.
Foi durante essa viagem que D. Pedro recebeu a conhecida carta das Cortes, e resolveu separar o Brasil de Portugal. Em dezembro de 1822, a “Guarda de Honra” transformou-se na “Imperial Guarda de Honra”. Só que não era uma unidade militar, mas uma tropa civil, na qual o serviço era temporário. Nada tinha com o exército regular (a tropa paga pelo governo). Os componentes, sendo grandes proprietários em seus locais de origem, eram oficiais das tropas de milícias e, assim, conservavam o posto. Muito provavelmente, queriam distância da tropa regular. O uniforme e o equipamento foram desenhados pelo artista francês Jean-Baptiste Debret (também autor da bandeira nacional) e era pago pelo aspirante a guarda. A cor da farda, o branco, foi homenagem à imperatriz Leopoldina, arquiduquesa da Áustria; o capacete, de modelo bávaro, mostra não um “dragão”, mas um grifo, símbolo da Casa de Bragança, à qual pertencia o imperador e foi adotado por ocasião de seu segundo casamento.
É preciso chamar atenção para o fato de que a “Guarda de Honra”, no episódio do “Grito”, não estava fardada do jeito que aparece no quadro “Independência do Brasil” – assim como D. Pedro não usava a “jaqueta curta” e calças de montaria – por sinal, os cavalos também não eram cavalos árabes (que, naquela época, nem existiam no Brasil). Foi tudo imaginado por Pedro Américo, quando fez a pintura, em 1882. A “Guarda de Honra” foi dissolvida em 1832, pouco após a abdicação de seu inspirador.
Já o Primeiro Regimento de Cavalaria de Guarda tem origem em 1763, com a instituição do Vice-Reino do Brasil. Nessa ocasião, foram constituídos os Esquadrões de Cavalaria de Guarda do Vice-Rei, estes uma tropa paga regular, ou “tropa de linha”, como se dizia na época, com sede no Rio de Janeiro. Em 1808, essa unidade foi núcleo do Primeiro Regimento de Cavalaria do Exército, aquartelado na capital. Essa unidade existiu ao longo de todo o Império do Brasil. Um destacamento dela acompanhava D. Pedro, no episódio do Ipiranga.
Em 1824, a unidade teve seu designativo mudado para Primeiro Regimento de Cavalaria de Linha. Seu batismo de combate foi na batalha de Passo do Rosário, em janeiro de 1826. Nesse encontro, no qual teve a “honra” de não debandar, como aconteceu com a cavalaria gaúcha de milícias, o “Primeiro de Cavalaria” foi quase dizimado. Em 1831, o “Primeiro de Cavalaria” foi reunido com o “Segundo de Cavalaria”, este sediado em Vila Rica, formando o Primeiro Corpo de Cavalaria. Em 1839, com o exército já drasticamente reduzido em efetivos, passou a denominar-se Primeiro Regimento de Cavalaria Ligeira. Tinha uns 800 efetivos, comandados por um tenente-coronel.
Em 1889, o “Primeiro de Cavalaria Ligeira” passou a ser designado Primeiro Regimento de Cavalaria, e, em 1908, mudou de novo, para Primeiro Regimento de Cavalaria Independente (o que nada tem com a Independência…). Mas o nome não pegou, e, em 1915, voltou ao de antes.
Em 1916, o escritor-deputado Gustavo Barroso (dentre outras coisas, criador do Museu Histórico Nacional e, com Plínio Salgado, de uma versão nacional do fascismo europeu chamada “integralismo”) começou uma campanha para que o Exército criasse uma “tropa histórica”. A idéia não passou na Câmara dos Deputados, mas, em 1936, Getúlio Vargas, interessado em criar símbolos nacionais que referissem um passado idealizado, adotou a idéia, e fez com que o Exército passasse a designar o “Primeiro de Cavalaria” com o título honorífico de “Dragões da Independência”. Essa unidade passou a envergar, em paradas e solenidades, o uniforme da Imperial Guarda de Honra, um pouco modificado. Mesmo que uma coisa não tenha nada a ver com a outra…::



