Causa::

24/07/2009

O mês da Coréia::Daewoo: carros feios, armas… Diga você::

Estávamos na “análise estratégica ampliada”. Acabou me ocorrendo que, em momento algum, cheguei a explicar o que, exatamente, significa “estratégia”. Não posso acusar ninguém de não distinguir “estratégia” de “tática”, se eu mesmo esqueço de explicar a diferença.

Suponho que muitas pessoas saibam. Esse conceito, ultimamente, deixou de ser de interesse exclusivamente do planejamento militar. Fala-se de estratégia em esportes, negócios, e até mesmo nas “estratégias de vida”. A palavra vem do termo grego stratègós (stratos, “exército”, e ago, “liderança”). Designava o líder, em época de guerra, na Grécia clássica. Strategicós, por sua vez, era um termo que designava “os assuntos do general”; já stratiá designava a expedição militar. O sentido atual da palavra na área militar, começou a ser estabelecido no século 17, com a difusão dos Estados nacionais centralizados, da arma de fogo e a ascensão da manobra como forma de evitar o tiro ou minimizar seus efeitos. Trata-se então, como Antoine Henry, barão de Jomini, militar suiço do século 19 (mais sobre Jomini nesse excelente blog, que considero primo do causa::) definiu: a ciência do movimento aplicado ao campo de batalha. Nessa visão, expressa em um livro chamado “Sumário da arte da guerra”, Jomini colocava a estratégia como a principal dentre as cinco divisões da “arte da guerra”. Pois de lá para cá, a noção ampliou-se, passando a envolver o planejamento da guerra como parte das atividades do Estado. O planejamento visa, em última análise, estabelecer objetivos políticos, que envolvem a sobrevivência do Estado a longo prazo e a expansão de suas possibilidades – inclusive de fazer a guerra.

Alguns especialistas chamam essa visão de “grande estratégia”, ou seja a mobilização de recursos nacionais. Caso tenham prestado atenção nas postagens anteriores, devem ter reparado que as duas Coréias não tem feito outra coisa nos últimos 50 anos que não seja planejar a sobrevivência de ambos os Estados, mobilizaondo seus recursos nacionais de modo a expandir suas possibilidades. Essa questão começou a ser discutida por Claus von Clausewitz, que considerava a guerra como ferramenta política. O objetivo em uma guerra seria desarmar o oponente, ou seja, destruir efetivamente a capacidade do oponente de guerrear. Aí é que entra o comprometimento em uma guerra. Quanto mais determinado o inimigo, mais difícil é de removê-lo do conflito. Para tanto, a estratégia aplica-se ao campo militar, mas a “grande estratégia” significa mobilizar tudo de quanto o Estado pode dispor – recursos materiais, humanos e espirituais. Alguns especialistas chamam isso de “política”.

Daí nos interessa falar um pouco do chaebol Daewoo, sobre o qual fiz uma piadinha na postagem anterior. Chaebol  (a palavra, que se pronuncia “tchêe:bêl”, significa “negócio familiar”) indica uma espécie de reunião de empresas, um conglomerado apoiado pelo governo. O termo é ambíguo, porque os principais chaeboi´l são mesmo empresas familiares, que, por motivos políticos mantinham boas relações com o governo. O termo também pode significar “monopólio”, o que significa uma concessão política que elimina a concorrência e  implica em vantagens econômicas. Já vimos, na postagem anterior, a origem dessa forma de organização industrial. Os  chaeboi´l foram capazes de crescer nas taxas astronômicas que observaram devido à essa proximidade com o governo. Deveriam ser capazes de aproveitar os influxos governamentais, de modo a cumprir quotas de expansão e de exportações; por seu lado, o governo garantia um fluxo de investimentos, negociados no exterior, e facilidades bancárias, na Coréia do Sul. A política de universalização da educação, em todos os níveis, o acesso à tecnologia de ponta e altos investimento em pesquisa, nas universidades e nos próprios chaeboi´l completaram o quadro, ao longo das décadas de 1960 e 1970. Mas o fator decisivo foi a relativa estabilidade interna que permitiu uma taxa de lucro maior do que seria possível em um regime de livre negociação. Esse crescimento só era possível graças a intervenção do governo no processo.

Dizendo de outra forma: o regime de organização econômica da Coréia do Sul teve uma ligação simbiótica com os governos ditatoriais iniciados em 1961. Nada tão estranho assim para nós brasileiros: o tipo de capitalismo intervencionista observado aqui se parecia muito com o modelo adotado na República da Coréia. A diferença é que o Estado tinha uma participação direta infinitamente menor do que aqui, e investiu pesadamente em um modelo de educação que privilegiava a formação técnica de mão-de-obra e a pesquisa aplicada. A falência veio exatamente porque o acordo social implicava em taxas de emprego e crescimento artificiais. Quando vieram os problemas, o regime rapidamente entrou em crise.

O que não significa que o modelo não fosse eficaz para os objetivos buscados pelo país, e os chaeboi´l continuaram sendo a forma de organização prevalecente na indústria de ponta, defesa, comércio internacional e, bem menos, no setor financeiro. No final da década de 1980, o modelo, depois de diversos ajustes, a partir do retorno do regime democrático, em 1987, continuou existindo e até ampliou-se. A retração do estado revelou aos próprios estrategistas dos “conglomerados” oportunidades de expansão e competição que a conivência com uma ditadura anticomunista não deixava antever.

O novo panorama criou uma nova especialização: as grandes empresas de produção para exportação migraram para países emergentes como a China, Malásia e Filipinas. Na Coréia foram mantidas as sedes, a estrutura de Pesquisa&Desenvolvimento e o setor de defesa. Neste panorama, a Daewoo Motor Industries pode não ser o maior chaebol coreano, (de fato, não aparece nem mesmo entre os 12 primeiros) mas certamente é um dos primeiros quando se fala no setor de defesa. Uma de suas filiais, a Daewoo Precision Industrial Co. foi estabelecida como empresa de equipamento de defesa em 1981, e em 1986 tornou-se fabricantes de peças de veículos para a matriz. O chaebol Daewoo, um dos maiores da Coréia do Sul, na época, acabou dividido, depois que o fundador e principal executivo Kim Woo-chung, se viu acusado de mentor de uma fraude bilionária. Desde 1999, a empresa foi dividida, e a área de defesa, uma das menores (em 1998 envolvia  4% da companhia) passou para o controle direto do governo.

Kim começou sua empresa em 1967, como uma pequena firma de exportação, batizada de Dae´Woo, (“grande universo”, em coreano).  Durante a Guerra da Coréia, acima da idade de convocação, Kim vendia jornais enquanto freqüentava a universidade, graduando-se em economia. A Daewoo, fundada em meados dos anos 1950, revendia produtos da indústria têxtil, que exportava para o Japão. Na segunda metade dos anos 1960, tinha estabelecido bons contatos em Nova Iorque com compradores de produtos têxteis, o que chamou a atenção do governo sul-coreano. O ditador Park Chung Hee, que mantinha laços de amizade com a família de Kim (espécie de relação muito significativa, no contexto cultural coreano), patrocinou a transformação da Daewoo em uma empresa de mecânica pesada, subsidiando a produção através de empréstimos governamentais a fundo perdido e compras por preços acima do mercado. Kim tornou a empresa lucrativa em cerca de dois anos, e, sempre com apoio do governo, incorporou a seu chaebol um estaleiro, uma fábrica de automóveis e uma fábrica de ferramentas de precisão que, posteriormente, deu origem à fábrica de armas. Nessa época, o favorecimento descarado do governo tornou a empresa o terceiro chaebol, em tamanho e rendimentos.

A experiência de Kim no comércio internacional e nas ante-salas dos governos o fez presença constante nos gabinetes dos EUA, França, Paquistão e em diversos países do Terceiro Mundo, notadamente os produtores de petróleo. A agressividade da empresa a levou a ter aproximadamente 320.000 funcionários, o que era um efetivo quase tão grande quanto o do exército da República.

Os problemas que acabaram com o chaebol, em meados dos anos 1990, relacionam-se com um projeto de expansão que visava tornar a empresa um dos grandes players do mercado mundial de automóveis. A resistência das empresas norte-americanas e européias jogou significativa quantidade de areia na máquina de Kim, numa época em que o apoio governamental já não era nem tão imediato nem tão incondicional quanto fora 20 anos antes.

De qualquer maneira, as encrencas de Kim Woo-chung não são importantes para nós. A questão que quero deixar clara é como, a partir de 1981, com o estabelecimento da estratégia de defesa da Coréia do Sul, a Daewoo viu aí um nicho para incorporar mais uma área a seu inventário empresarial. No final dos anos 1960, os EUA haviam fornecido ao exército coreano certa quantidade de rifles M16A1 (calcula-se que uns cem mil), do tipo empregado pela infantaria dos EUA no Vietnam. Em 1972 a Coréia do Sul retirou-se da Indochina, mas manteve o tipo como arma-padrão de seu exército. Por volta de 1976, o governo sul-coreano resolveu implementar uma indústria local de defesa, e acenou com a possibilidade de distribuir uma arma longa de fabricação local, embora sem a intenção inicial de substituir o M16, existente em grandes quantidades. Ficou estabelecido que uma arma de calibre 5.56X45 NATO seria projetada para substituir a submetralhadora M3 Grease Gun, arma da 2ª GM ainda padrão nas forças armadas da República. A empresa Daewoo Precision Industries Ltd foi formada para atender à demanda governamental. A *carabina de assalto K1 foi seu primeiro produto, cujo desenvolvimento concluiu-se por volta de 1982. O protótipo foi apresentado em 1980 e entrou em serviço em 1981. Os testes e o ciclo de serviço mostraram problemas sérios. A arma destinava-se às forças especiais, e portanto deveria ser silenciosa e discreta, O desenho do supressor de chama, entretanto, além de não resolver aqueles problemas, acabava por gerar forte recuo, que, por sua vez, tornava inadequada a coronha rebatível. Os problemas foram resolvidos através do redesenho da câmara e do supressor de chama. Essa nova versão foi denominada K1A. Essa arma conviveu com o M16A1, sendo distribuída para forças especiais, marinha e polícia, enquanto o rifle norte-americano foi mantido na infantaria.

Ainda em 1982, entretanto, o governo começou a considerar a padronização de todo o armamento. Uma *versão longa da carabina K1A começou a ser testada, com um cano de 46,5 cms e uma coronha convencional, em plástico de alto impacto. Os protótipos surgiram em 1983 e eram, de fato, um redesenho, com relação ao K1A. Este último era uma tentativa de fazer uma submetralhadora usando cartucho de fuzil: a chamada “ação direta de recuo”. Essa opção tornava o conjunto mais leve, mais barato, mas menos resistente. O sistema adotado para o K2 era o de operação por recuperação de gás (leia sobre o assunto no posto “A linhagem FAL”). O tiro é seletivo, alimentado por carregadores de plástico, de 20 ou 30 cargas, utilizando munição 5.56X45 NATO. Em 1987, o K2 começou a ser distribuído regularmente às forças armadas sul-coreanas, e pelo fim dos anos 1980, o M16A1 tinha sido totalmente recolhido.

Com aproximadamente 800.000 efetivos no total, as forças armadas e a policiais sul-coreanas eram uma reserva de mercado bastante promissora. Em função da adaptação das corporações à nova estratégia, lançada em 1979, a Coréia do Sul pretendia assumir parte considerável das responsabilidades de sua defesa nacional. Isso implicava numa completa reestruturação do exército, inclusive em seu rearmamento. Essa corporação tinha, em 1981, aproximadamente 400.000 efetivos. Dois terços eram conscritos convocados para dois anos de serviço ativo, aos 17 anos. Uma vez desmobilizados, esses homens permaneciam como “reserva de primeira linha” até os 34 anos, e podiam ser convocados periodicamente para curtos períodos de serviço ativo – em geral, por volta de duas a três semanas. A reserva somava, segundo estimativas dos EUA, em torno de 1200.000 efetivos potencialmente mobilizáveis. Não se sabe quanto tempo levaria a mobilização completa.  Esse sistema ainda persiste.

Atualmente, o exército mobiliza por volta de 550.000 efetivos, 10.000 dos quais são oficiais. O inventário soma 2.500 tanques, 3.000 veículos blindados de combate e 7.000 sistemas de artilharia de campanha auto-propelidos e auto-rebocados. Esses sistemas incluem grande quantidade de lançadores de foguetes.

Os blindados são, em grande parte, os já obsoletos M48A5K, de fabricação norte-americana, do final dos anos 1950, mas modernizados localmente, no final dos anos 1970. Uma quantidade estimada entre 30 e 50 T80U, de fabricação russa, foi incorporada em 2004/2005, em função de acordos de refinanciamento de dívidas da Rússia. Durante algum tempo, esses blindados foram os mais avançados existentes na península. Tentativas de produzir sob licença o alemão Kraus-Maffei Leopard 1 deram em nada, porque os sul-coreanos concluíram, acertadamente, que se tratava de um modelo prestes a se tornar obsoleto.

Nessa época, o governo militar sul-coreano concluiu que a melhor solução seria produzir um tanque autóctone, levando em consideração os aspectos da nova geração de projetos que surgia nos EUA, Rússia, Alemanha Ocidental e Inglaterra. A indústria local já tinha condições de suportar um projeto desses, mas não tinha experiência. Um projeto local levaria pelo menos dez anos para surgir, assim, os militares e planejadores civis consideraram que a solução seria comprar a licença de um produto estrangeiro. A escolha recaiu no XM1, protótipo do norte-americano M1 Abrahms, que começava a ser distribuído pelo ramo de defesa da Chrysler Motors Company. As negociações quase deram com os burros n´água, quando, no meio do processo a empresa foi vendida para a General Dynamics. Entretanto, os novos donos mantiveram o interesse, em função do incentivo do governo dos EUA. Técnicos sul-coreanos foram despachados para os EUA para conhecimento do projeto e treinamento na General Dynamics Land Systems.

Os dois blindados são similares, mas os projetos são bastante diferentes. O K1 pronto, deslocava 4 toneladas menos que as 55 do M1; a altura entretanto, é ligeiramente maior no K1: 237 cm contra 225 cm (o que, num tanque, faz a maior diferença). A planta de potência do K1 é a mesma do israelense Merkava 3, a Teledyne Continental AVCR-1790, de 1200 hps. A blindagem é do tipo composto metal-cerâmica, Cobham. Posteriormente, a relação peso-potência da alemã MTU MB Ka-501, versão compacta da MB-873 Ka-503 que equipa os tanques Leopard 2, revelou-se melhor, e essa planta de potência foi adotada. Isso levou a que uma transmissão e diversos outros componentes de origem alemã fossem adotados no K1, em sua versão A1. O canhão raiado de 105 mm norte-americano, depois produzido na Coréia do Sul sob a notação KM68, bem como o sistema de controle de fogo Hughes, foram mantidos.

Mas tecnologicamente, o K1A1 acabou se tornando até mais avançado do que o Abrahms, quando recebeu um sistema independente de visão panoramica, do qual o Abrahms não está dotado, por cortes de orçamento. Esse sistema comanda o armamento de forma integrada, através de sensores termais e de visão passiva, o que torna o K1A1 um verdadeiro sistema de armas.

O desenvolvimento do K1 completou-se em 1983 com um protótipo apresentado ao governo sul-coreano. O uso de um motor alemão acabarm por tornar o K1 mais parecido com o Leopard 2 do que com o Abrahms. A empresa escolhida para desenvolver o tanque para produção de série foi a Hyundai Precision, ligado ao chaebol Hyundai. Esse é um dos maiores grupos da Coréia do Sul, fundado em 1947 e, na atualidade, um dos 5 maiores produtores de veículos automores do mundo, bem como de aço, navios e produtos eletrônicos de alta tecnologia. Uma quantidade de 450 K1 foi adquirida, iniciando-se a distribuição em 1985, em alto segredo, e completando-se em 1987, quando o veículo foi revelado ao mundo.

No momento, a empresa está desenvolvendo o K2  Heukpyo (Pantera Negra) equipado com um canhão de 120 mm e 55 calibres, autocarregado. Não existem maiores informações sobre o sistema, mas tem circulado que será equipado com blindagem reativa (capaz de diminuir os danos de munição de carga oca), radar e sistemas de detecção a laser.

O objetivo deste texto não é, enfim, descrever com detalhes o moderno armamento à disposição das forças armadas sul-coreanas. O que quero mostrar é como o planejamento estratégico, a “grande estratégia” envolve mobilizar todos os recursos nacionais de forma coordenada. No caso sul-coreano, uma longa trajetória levou o país de uma nação subdesenvolvida, nos anos 1950 e 1960, para uma das grandes potências econômicas das últimas décadas do século passado e, nos últimos tempos, a um patamar de potência militar equivalente às maiores potências da Europa Ocidental (França, Alemanha e Grã-Bretanha, nessa ordem).  A escalada do país, nos anos 1960, para o lugar de potência industrial e, em seguida, para o de potência tecnológica pôde ocorrer devido ao lugar ocupado pelo país na Guerra Fria, como “primeira linha de contenção da expansão comunista”. Esse papel (o país provavelmente seria arrasado na eventualidade de uma guerra contra a China) levou a que fizesse por merecer certas concessões, que vieram sob a forma de influxos econômicos. Esses influxos, sob a forma de capitais que, nos anos 1960 estavam disponíveis em grande medida e precisavam ser reinvestidos. Mas esses capitais também estiveram disponíveis para o Brasil. A diferença, além do lugar geopolítico do Brasil (cujo papel estratégico nunca foi determinante), foi o tipo de projeto para a sociedade, projeto que a elite daqui nunca conseguiu fazer. Os sul-coreanos, desde os anos 1950, investiram pesadamente em educação, em todos os níveis, e em uma urbanização ordenada, que permitiu ao país montar uma base industrial altamente eficiente. Esses dois aspectos tornaram possível que a entrada de capitais e tecnologia dessem resultados, embora não de imediato::

19/07/2009

O mês da Coréia::Um análise estratégica ampliada::

Parte 3 Então, já sabemos que a República Democrática do Povo da Coréia é uma potência militar média e tem uma quantidade enorme de artilharia de todos os tipos. Entretanto, é curioso como a imprensa trata a República da Coréia como uma pobre Guatemala indefesa diante de Hugo Chavez… Não é exatamente o caso. De fato, temos relativamente pouca informação sobre a Coréia do Sul, tirante, é claro, os carros Hyundai, televisões LG e monitores Samsung, mas isso, convenhamos, é pouco. 

Do fim da Guerra da Coréia até os anos 1990, a República da Coréia evoluiu, de um país totalmente dependente, para a própria defesa, de acordos bilaterais, para uma situação de desenvolvimento auto-sustentado e considerável capacidade militar. Ao contrário da República Democrática do Povo da Coréia, as indústrias civis sul-coreanas mantêm linhas de produtos militares como partes separadas e menos importantes de suas atividades corporativas, mas suficientes para manter suas forças armadas totalmente atualizadas com equipamento local de altíssima qualidade.

A independência econômica e militar da República da Coréia remonta à participação na Guerra do Vietnam. Em 1965, o ditador sul-coreano, general Park Chung-hee, decidiu aceitar o pedido de Washington por tropas para o teatro do SE Asiático. Inicialmente, foram despachadas unidades de combate de pequenas proporções, num total de 5.000 efetivos, em caráter experimental. Em fevereiro de 1966, os norte-americanos se comprometeram, através de um termo de compromisso denominado “Memorando Brown” (em função do embaixador dos EUA em Seul, Winthrop G. Brown), a financiar a modernização do exército da República da Coréia, em troca de um maior envolvimento dessa última na guerra indochinesa. O documento, de 14 pontos, não era muito claro em determinar as obrigações norte-americanas, mas especificava uma força sul-coreana que deveria alcançar, em três anos, aproximadamente 300.000 efetivos. Como resultado, os EUA cederam armamentos pesados e rifles M-16 para as tropas sul-coreanas, que funcionaram como cobertura de retaguarda para o exército dos EUA. Nesse meio tempo, começaram uma série de provocações norte-coreanas, culminando com uma tentativa de  tomar o palácio presidencial, em 21 de janeiro de 1968, e o ataque e aprisionamento do navio-espião Pueblo, da Marinha dos EUA. Uma série de incidentes ao longo da ZDC envolvendo tropas dos EUA em mais de uma oportunidade, atravessou todo o ano de 1969. Em abril, uma aeronave de contramedidas eletrônicas EC-121 acabou sendo derrubada sobre o Mar do Japão. Esse período passou a ser conhecido como “Segunda Guerra da Coréia”. O envolvimento sul-coreano no Vietnam, entretanto, tornou-se uma realidade, e em 1972, quando as unidades começaram a ser retiradas, estavam em operação por volta de 200.000 sul-coreanos. Mais de 5.000 deles morreram em combate.

Temendo o surgimento, na Coréia, de um novo Vietnam, o governo dos EUA resolveu atender os apelos dos parceiros sul-coreanos por maior articulação em termos da segurança local. Foi acordada maior colaboração militar com a República da Coréia, assim como assistência para implementar a economia local. Ainda assim, o ditador sul-coreano, antevendo uma possível futura crise, decidiu adotar uma postura mais ativa em relação à defesa nacional. O surgimento da “Doutrina Nixon”, na qual o governo dos EUA, atolado numa crise econômica, postulava que as nações aliadas assumissem maior participação na própria defesa, foi outro momento decisivo: em 1971 a retirada da península, de uma divisão do exército dos EUA pareceu confirmar a importância da estratégia nacional de Park.

Ainda assim, em setembro de 1971 o governo dos EUA assinou um plano no valor de 1,5 bilhões e dólares, destinado a prover, num período de cinco anos, a reestruturação e modernização das forças de defesa da República da Coréia. Esse plano foi visto como decorrência da diminuição radical do aparato militar norte-americano na região. Foi a primeira grande mudança nas forças armadas sul-coreanas desde a Guerra da Coréia.

A situação sul-coreana, na época, era no mínimo curiosa. Park Chung-hee, um general do exército que havia sido oficial do Exército Imperial Japonês e depois da guerra, militante do Partido dos Trabalhadores da Coréia (chegando a ser condenado à prisão perpétua, por traição, em 1949), tomou o poder em 1961, depois de um curto período de agitação política que se seguiu à tentativa de Singman Rhee em assumir um quarto mandato presidencial resultante de uma eleição claramente fraudada. Exilado Rhee, uma junta militar sob comando de Park assumiu e rapidamente fixou-se no poder, conquistando apoio da classe dirigente e da classe média através de um programa de “moralização da vida nacional”, que removeu da vida pública todos os funcionários civis e militares considerados corruptos. Um “Supremo Conselho para a Reconstrução Nacional, com 32 membros, era o principal órgão dirigente do país. O principal projeto da junta era a construção de uma economia próspera baseada em uma “grande revolução humana”. Uma das primeiras providências foi o fechamento da Assembléia Nacional e a substituição de funcionários civis por militares.

Tendo assumido o poder, Park começou uma série de manobras para manter-se no comando do governo, sob normas de exceção e uma aparência de democracia. Um de seus primeiros atos de governo, em junho de 1961, foi a criação de uma “Agência Central de Informações da Coréia” (KCIA, em inglês), com função de polícia política. A Agência estendeu, em 1962, seus poderes aos campos da economia e das relações internacionais, por inspiração do coronel Kim Chong-p’il. Parente da esposa de Park, o coronel revelou-se um planejador original e criativo conspirador político: acabou sendo um dos principais atores do golpe que, em 1979, acabou custando a vida do ditador.

Os planos da junta militar não deram resultados imediatos, o que começou a desgastar a imagem da junta militar. Para piorar, a KCIA envolveu-se em vários escândalos financeiros e políticos. Os militares respondiam prometendo preparar o retorno à normalidade civil – desde que os políticos ligados ao sistema anterior não participassem do processo. Em março de 1963, Park anunciou um referendo popular para decidir se a junta deveria permanecer no poder por mais quatro anos. A intensa oposição interna era esperada, mas a antipatia dos EUA foi um fator com que Park não contava. O referendo foi cancelado.

 Ao contrário de Rhee, que tentava fazer da Coréia do Sul uma potência regional, com o apoio dos EUA, em detrimento do Japão e da China Comunista, o general tentou adotar uma política pragmática: normalizou as relações com o Japão em 1965 e regularizou, no mesmo ano, a situação das forças norte-americanas na península como “convidadas”.

Park usou a aparente estabilidade e a posição estratégica da Coréia como moeda de troca para trazer investimentos externos para seu país. Interessados em estabelecer medidas de contenção para a expansão comunista na Ásia, os EUA autorizaram o Japão a fazer grandes investimentos na península, enquanto garantiam a segurança da área, investindo no desenvolvimento das forças armadas locais.  O governo de Park, entretanto, proibiu a presença de empresas japonesas em território nacional, estabelecendo a política dos chaebol, conglomerados industriais privados que recebiam empréstimos subsidiados do governo, desde que seguissem as regras econômicas e políticas vigentes. Algumas desses conglomerados tornaram-se empresas gigantes, atuando em toda a cadeia produtiva.

Uma reforma agrária foi promovida e, ao mesmo tempo, a classe média rural era incentivada a estabelecer residência em centros urbanos. Uma mão-de-obra qualificada, formada através de programas de educação universal e valorização da competência e o fluxo de investimentos japoneses, coordenado pelo governo, acabaram criando, na segunda metade dos anos 1970, um parque industrial impressionante, voltado para a exportação de produtos semi-acabados para o Japão e os EUA. Ao mesmo tempo, o governo militar incentivava a expansão de universidades locais e de programas de pós-graduação no exterior. O resultado foi a sofisticação da indústria local, que se tornou produtora de tecnologia de ponta. Nos anos 1980 e 1990, a Coréia do Sul tornou-se um dos maiores economias exportadoras do mundo.

Esse surto explosivo de desenvolvimento econômico e a urbanização acelerada acabaram criando tensões políticas, com forte influência de pequenos movimentos estudantis e sindicais extremamente combativos tentando conquistar espaço à força de reivindicações de democratização, que eram postergadas pelo governo sob a justificativa do “perigo interno e externo”. Em 1971, Park tentou uma grande jogada política: interessado em permanecer no poder, declarou “estado de emergência nacional”, em função de manifestações de estudantes e trabalhadores nas grandes cidades. Em julho do ano seguinte, em meio à crise política, anunciou, num espantoso comunicado conjunto com Kim Il-sung, ditador stalinista da Coréia do Norte, planos para a unificação da península. Foi um magnífico tiro no pé. Manifestações de todas as colorações explodiram por todo o país. O projeto foi abandonado rapidamente, em função da oposição dos EUA, e ao fato de que, aparentemente, Kim Il-sung não conseguiu apoio da URSS e da China para levar a proposta adiante.     

Em 19 de abril de 1973, o general Park, enquanto acompanhava exercícios militares, divulgou o propósito de estabelecer uma estratégia militar independente e desenvolver as forças militares. Os projetos decorrentes dessa diretiva, desenvolvidos pela Junta de Chefes de Estado Maior resultaram em Diretrizes para um Programa de Modernização do Equipamento Militar para cada umas das corporações militares, integrados e, um Plano de Defesa Nacional de Oito Anos (1974-1981), aprovado pelo chefe do governo em fevereiro de 1974.

Nessa época, a situação política do país tornava-se cada vez mais tensa. A situação econômica da Coréia do Sul era delicada, em função da crise mundial do petróleo, que tinha feito retrair os investimentos japoneses no país. A instabilidade criou brechas no sistema de governo, sem que os atores envolvidos chegassem a um consenso sobre o que fazer. Park governava através de sucessivas decretações de estados de emergência, mas a oposição não dava sinais de esmorecer. Em 1979, como a situação econômica só fizesse piorar, conselheiros próximos de Park Chung-hee o instavam a ceder a algumas das reivindicações do movimento de oposição estudantil e reduzir a repressão. A discordância entre as principais figuras do governo acabou resultando, por incrível que pareça em um tiroteio, acontecido durante uma reunião de cúpula no refeitório da sede da KCIA, em 26 de outubro de 1979. Nesse incidente, Park e o diretor da agência de informações perderam a vida. O desaparecimento do ditador e de parte de seu staff abriu um vácuo de poder, e o período posterior foi de competição entre setores dominantes, em meio a levantes estudantis, indisciplina militar e intranqüilidade social. Alguns anos se passariam até que a situação viesse a se estabilizar::

07/03/2009

Duas frases para pensar::Afinal, é sexta-feira::

Bem, de fato, é sábado, mas compensarei com um volume bem grande de temas para pensar::

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Se, conforme Mrs. [Margaret] Tatcher – “não existe essa coisa de sociedade”, então, com o passar do tempo, as pessoas haveriam de perder o respeito por bens definidos socialmente. E essim ocorreu, pois a Grã-Bretanha no final da Era Tatcher começou a assumir algumas das piores características do modelo norte-americano que a Dama de Ferro tanto admirava. Os serviços que permaneciam ligados ao setor público ficavam à míngua, enquanto a riqueza se acumulava nos setores “emancipados” da economia … Os espaços públicos ficavam ao deus-dará. O índice de delitos e deliqüência cresceu na proporção do aumento da fatia da população relegada à pobreza permanente.

Tony Judt. Pós-Guerra. Uma história da Europa desde 1945, 2004. 

(Livro que o redator recomenda, entusiasticamente, para todos que pretendam entender o estado de coisas atual na Europa e… no Brasil.)

Especificamente, desde o princípio da Grande Depressão podemos ver claros presságios das catástrofes futuras olhando para o último ano de cada década. Entre 1929 e 1989 houve sete desses anos e nenhum deles se passou sem um acontecimento que marcasse época em algum lugar do planeta. A cada vez, uma revolução sangrenta, um fracasso econômico ou uma grande guerra  estourou para traumatizar o mundo na maior parte da década seguinte.

Ravi Batra. The crash of the millennium, 1999.

(Até ler esse livrinho – não todo, mas boa parte…-, desse pop-star acadêmico com certa vocação para profeta do apocalipse capitalista , o redator não acreditava em premonição…) 

12/08/2008

Minha comemoração particular do fim da Segunda Guerra Mundial (e ainda não chegou ao fim…)

Afinal, qual foram os custos econômicos da Segunda Guerra Mundial?

Quando se fala em Segunda Guerra Mundial, sempre se pensa – corretamente – que a derrota dos nazistas significou a eliminação de um enorme problema para toda a humanidade. De fato, essa visão é correta, mas o esforço mundial – talvez a única vez em que a humanidade realmente optou por escolher uma boa causa – teve custos. Os custos morais, conhecemos bem; os humanos, ninguém ignora. Mas e os custos econômicos? Todo mundo sabe que guerra é uma coisa cara, e quanto terá custado a Segunda Mundial?

Existem muitos estudos a respeito. Esse blogueiro fanático por tecnologia nunca foi chegado à economia – apenas o necessário pra poder ler jornal sem se sentir idiota. Entretanto, tentarei, nesse “post” – depois de um mês de férias – levantar algumas questões. Nada de muito complicado, pois se Guido Mantega certamente quebraria a cara caso tentasse falar de couraças sloop e esteiras de alto torque, o redator também pagará mico se tentar aprofundar-se demais.

Agradeço a sugestão do tema à Vânia Grosso, que, aparentemente, perde tempo lendo meus papers de “pesquisador de domingo”. Eu mesmo nunca tinha pensado em visitar esse assunto.

Então, obrigado, Vânia! :c) E divirtam-se todos! Não deixem de visitar o blog, pois irei, como sempre faço, melhorando os recursos de pesquisa, ao longo da semana.

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Os custos? Numa palavra: imensos. Num número? 5 trilhões de dólares.

Parece muito? E é. Foi calculado pela Universidade de Oxford, em 1986. Em números de 1940, dá uns 288 bilhões de dólares. Em qualquer língua, é um dinheirão.  Mas “enquanto muitos observadores falam sobre o estímulo econômico que resultaram dos gastos da guerra, e os aspectos que dizem respeito à formação do caráter militar de nosso tempo, muitos economistas vêem a guerra como um ônus insuperável para os participantes diretos, bem como os indiretos. Os custos indiretos da guerra envolvem os gastos dos estados envolvidos, dos materiais destruídos e danificados, e os custos sociais da perda de vidas. Ainda que reconheçam esses custos, os economistas, de longa data  têm também reconhecido os impactos adicionais e decorrentes que a guerra teve sobre a vida econômica de participantes e não-participantes.”

O texto acima, extrato de um artigo maior e bastante interessante, que apresenta esse aspecto da Segunda Guerra e levanta questões inusitadas sobre o assunto. Mas vejamos um tópico que todos podemos entender: pensemos nas fotografias e nos documentários. Até hoje, nunca se observou destruição igual (ainda bem!..). A infra-estrutura industrial e urbana da Europa sofreu danos da ordem de 65 por cento (algo como se, em cada cem casas, 65 tivessem sido destruídas ou sofrido algum estrago); no caso da União Soviética, é impossível calcular. Aproximadamente 40 milhões de pessoas perderam a vida, e uns 100 milhões sofreram ferimentos; dentre estes, cerca de 5 milhões ficaram inválidos, de alguma forma. Em resumo: a Europa Ocidental chegou em 8 de maio de 1945 quase falida; a Rússia européia, totalmente arruinada; o Japão, queimado quase até o nível do solo. O mundo tinha muitas feridas para lamber.

Havia também o problema de que a indústria, em todos os países, estava totalmente adaptada para a produção de guerra. As outras áreas, ditas “civis” ou “de tempo de paz” tinham sido reduzidas ao máximo. Basta ver que, nos EUA, entre 1941 e 1946, não foram produzidos automóveis para o mercado civil (apenas por encomenda do governo, para coisas tipo polícia, ambulâncias, ônibus e táxis); a produção de mobiliário ou roupas civis, em alguns países (a Alemanha e a União Soviética, por exemplo) reduziu-se em mais de 80 por cento. Isso tudo constituiu um problema, pois quando a guerra acaba, não se trata apenas de parar de produzir material militar, mas adaptar toda a indústria para um tipo de produção cuja lógica e organização são inteiramente diferentes daquelas adotadas até então. A indústria bélica lança mão de projetos, fabricação e controle de qualidade diferentes dos adotados pela indústria civil. Uma fábrica de eletrônicos (como a Philco, em Filadélfia, ou a Telefunken, de Berlim, vamos dizer) tem, por exemplo, preocupações com o acabamento do produto que a indústria militar não precisa ter. Essa última leva em conta, em seus produtos, principalmente a funcionalidade. O produto não precisa ser bonito, e sua ergonomia tem de estar totalmente articulada com a finalidade de uso. Em tempos de guerra, a indústria bélica também não precisa se preocupar em disputar mercado. Os governos compram tudo; financiamento da produção, cobrança e pagamento de impostos também mudam completamente. Veja-se, por exemplo, os acordos lend-lease (“empréstimo e arrendamento”), inventados por Rooselvelt em 1940, para ajudar a Inglaterra: tudo quanto é tipo de equipamento militar passou a ser entregue aos britânicos com descontos de até 80 por cento no preço final – e financiado. Uma boa parte desses descontos era obtida através da redução nos impostos normalmente cobrados à indústria. Só isso, entretanto, não bastava: os governos tinham de financiar a indústria, e se financiavam emitindo títulos de várias espécies (os mais conhecidos eram os “bônus de guerra”, pagáveis após o fim da guerra  – até o governo brasileiro fez isso…). Isso significa que, depois da guerra, a dívida terá de ser paga. Ou seja: muitos governos (o Reino Unido, por exemplo), acabaram a guerra quebrados.

Este foi um dos motivos (não o único) que levou o Partido Conservador de Churchill a perder a eleição geral de 1945. O que a oposição lá começou a se perguntar é como o Estado cumpriria as promessas feitas à população quando a mobilização geral começou, em 1940 (a tal “finest hour” do verão de 1940). Segundo o governo conservador, depois da guerra aconteceria o advento de um verdadeiro paraíso para as classes trabalhadoras. Na Inglaterra, as promessas do governo colocaram em movimento mudanças sociais profundas, liberando as reinvindicações da sociedade. Essas possibilidades foram sistematizadas em 1941, num documento chamado “Relatório Beveridge” (de William Beveridge, um economista conservador a serviço do Partido Trabalhista). Esse documento analisava as mudanças que teriam de ser implementadas pelo governo, depois da guerra, nos serviços sociais, e concluía que o objetivo dos governantes – independente da coloração política – teria de ser manter o pleno emprego como forma de expandir a economia e financiar a coisa toda. O problema é que, já a partir de 1943, ficou claro que não haveria dinheiro para pagar essas mudanças. John Bull estava com os bolsos vazios.

Se era assim na Grã-Bretanha, imagine-se no resto do mundo. Poucos países ganharam com a guerra, exceto os Estados Unidos. Estes entraram na guerra quando a situação militar estava mais-ou-menos consolidada – a Alemanha tinha sido contida (já tinha perdido a Batalha da Inglaterra e sido detida diante de Moscou) e o Japão, apesar do arranque inicial, era, de fato, um adversário de segunda categoria. A mobilização da sociedade norte-americana já tinha começado, paulatinamente, desde 1939. A conversão da indústria foi feita por via de uma articulação através de comissões de alto nível armadas pela administração Rooselvelt. Foram convocados líderes de classe, tanto capitalistas quanto trabalhadores, e a sociedade foi chamada à luta por via das organizações civis – imprensa, igrejas, escolas, agências de seviços – acenando o governo com o final definitivo da Depressão.

Além disso, os EUA não foram atingidos pelos combates (o que, na guerra moderna, faz enorme diferença) e teve apenas danos periféricos em sua infra-estrutura, como perda de navios mercantes e instalações no ultramar. Uma vantagem pouco conhecida foi o fato de que, como os EUA se mantiveram neutros após o início das hostilidades na Europa, os capitalistas norte-americanos não retiraram seus investimentos da Alemanha imediatamente, e puderam faze-lo de forma planejada. Em muitos casos a retirada foi feita com a anuência dos nazistas. E esses investimentos não eram pequenos.

Um exemplo desse processo é interessante: o gigantesco trust General Motors Co. era dono de 100 por cento da empresa Opel, de Hamburgo. Essa empresa, produtora de veículos civis e máquinas industriais, passou, a partir de 1937, a produzir o caminhão médio “Blitz S“, que se tornou, em 1938, o principal veículo de transporte não-protegido da Wehrmacht (Forças Armadas Alemãs). Em 1939, o governo nazista propôs a aquisição, a médio prazo, de 20000 desses veículos. No ano seguinte, acabou propondo a aquisição do controle da empresa, encerrando a participação dos norte-americanos e a produção de veículos civis. A GM pode, assim, retirar seus capitais da Alemanha antes que os dois países se tornassem inimigos. Aconteceu a mesma coisa com diversas outras empresas – inclusive algumas fábricas de armamento.

Outro ponto crucial foi o fato de que, a partir de 1940, a “City” londrina deixou de ser o ponto de convergência dos capitais excedentes do mundo. Em termos simples, isso quer dizer que o dinheiro gerado pelos investimentos produtivos britânicos era reinvestido e redirecionado por bancos situados em Londres. Essa situação já estava mudando desde a Primeira Guerra Mundial, com Nova Iorque se convertendo no ponto de cruzamento do capital financeiro internacional. Depois de 1940, essa situação mudou em definitivo, e Wall Street transformou-se na “esquina mundial” do dinheiro. Talvez tenha sido esse o grande ganho dos EUA com a guerra: a grana do planeta passou a ter seu pouso em Nova Iorque. Isso significou que, a médio prazo, as fontes de financiamento da economia produtiva em todo o mundo passavam a depender de banqueiros dos EUA. Passou a valer a máxima de que “quem parte e reparte e não fica com a maior parte ou é bobo ou não tem arte” – e todos sabemos que “arte” nunca faltou ao grande capital norte-americano…

Claro que uma situação assim não teria sido possível sem um total acordo das autoridades políticas e econômicas dos EUA, e a anuência – ainda que forçada – dos britânicos e dos “governos no exílio” instalados em Londres (que, na prática, não mandavam nada, mas eram mantidos cuidadosamente com vistas ao pós-guerra). A partir de 1942, quando a vitória dos Aliados tornou-se questão de tempo, Rooselvelt começou a sonhar com o  “mundo de paz” após a guerra, e seus planejadores receberam ordens de pensar em como funcionaria esse mundo. A principal idéia foi que as potências – na época, imaginava-se EUA, Reino Unido (o que incluía Canadá e Austrália) URSS e China – constituiriam uma espécie de “supervisão geral” para a manutenção da paz e dos meios da paz. A base dessa “supervisão” seria as Nações Unidas e seu Conselho de Segurança. Claro que a idéia estava fadada ao fracasso, mas o projeto teve alguns resultados eficazes: um dos principais foi a conferência de Bretton Woods (bucólica cidadezinha no estado norte-americano de New Hampshire), realizada em julho de 1944. Essa conferência (na verdade, foram diversas, realizadas simultaneamente, com a presença de mais de 700 delegados de 44 países) estabeleceu um sistema de gerenciamento econômico internacional, que modelou regras para as relações comerciais e financeiras entre os países centrais e entre estes e periferia econômica do mundo. O resultado foi uma ordem monetária totalmente negociada – e melhor, chancelada por acordos diplomáticos entre Estados teoricamente soberanos. As resoluções do acordo final de Bretton Woods, estabeleceram, debaixo do guarda-chuva da ONU, a criação do Fundo Monetário Internacional (nosso FMI “velho de guerra”) e do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (o BIRD do “faça como eu digo”).

Bretton Woods não foi pouca coisa. Em meados de 1944, estava claro que um dos resultados da guerra era a criação de um enorme excedente de capital, produzido pela atividade econômica ampliada, nos EUA, Canadá e Austrália, e em regiões periféricas (como o Brasil, a Argentina e a África do Sul), e pela retração sem precedentes, nos anos anteriores, do comércio internacional regular. Esse excedente poderia provocar um enorme surto inflacionário, queda da produção e desemprego – este possivelmente agravado pela desmobilização de 25 milhões de combatentes, em todo o Ocidente. No conjunto, algo semelhante à Grande Depressão de 1929. Mas a experiência da Depressão tinha sido bem absorvida, à essa altura.

Na época em que o desastre econômico de 1929 se espalhava, as nações, aferradas ao sistema liberal, imaginaram que a instituição de controles e barreiras comerciais e de medidas gerenciais internas restritivas, tudo somado às “leis naturais do mercado”, acabariam resolvendo a crise. Não resolveram, e trouxeram, adicionalmente, o perigo de rompimento estrutural do sistema. A idéia geral levada a Bretton Woods (relativamente bem-intencionada) pelos economistas e pensadores reformistas, era evitar a repetição da situação observada entre 1930 e 1939. Nesse período, a retração do comércio internacional minou o sistema internacional de pagamentos, aprofundando a crise e criando um círculo vicioso. A política das maiores economias foi “safar-se empobrecendo o vizinho mais fraco”: aumentar tarifas alfandegárias de modo a implementar a competitividade das próprias economias e assim reduzir déficits da balança de pagamentos. Isso teve efeito contrário, a diminuição generalizada do comércio, não só mundial, mas também interno e, por conseqüência, da produção. O desemprego foi massivo. Em 1944, a idéia era que um sistema monetário mundial unificado preveniria uma nova crise.

Outro problema, articulado ao anterior, era a “aterrissagem” da economia de guerra. Em 1919, a reconversão da indústria tinha provocado uma enorme confusão, atenuada pela relativa prosperidade mundial. Não era o caso, então. A destruição generalizada e a situação de agitação social na Europa exigiria investimentos de emergência, o que dificultaria a readaptação do parque industrial.

Dois eventos indicaram o caminho a ser seguido: a Guerra Fria e o Plano Marshall.

A Guerra Fria, iniciada já em 1948, com o bloqueio de Berlim, mostrou que os EUA deveriam continuar no papel de “arsenal da democracia”, apenas reduzindo a escala. Ou seja: em vez de 350.000 aeronaves, 2.500.000 veículos de todos os tipos (inclusive 1.000.000 de caminhões) e 50.000 navios (inclusive 30.000 navios mercantes), passariam a produzir uns 20 por cento disso. Os investimentos em Pesquisa e Desenvolvimento, principalmente na área de tecnologia e processos não diminuiriam – muito pelo contrário. Os EUA se tornariam o “laboratório do mundo”, tornando-se a “esquina da ciência e da tecnologia”, ao mesmo tempo que a “esquina do dinheiro”. Diversas guerras periféricas, surgidas a partir de 1946, como a Revolução Chinesa, a Coréia, o Oriente Médio e as diversas guerras de descolonização mostraram que seria fértil do jardim da indústria bélica.

O segundo evento foi o Plano Marshall. Trata-se de desdobramento da Doutrina Truman – basicamente, o conjunto de iniciativas dos EUA para conter a expansão do comunismo soviético e das agitações sociais. Oficialmente chamado “Programa de Recuperação Européia”, foi o principal plano dos EUA para a reconstrução dos aliados europeus, inclusive a Grã-Bretanha. O nome extra-oficial vem de George C. Marshall, comandante das Forças Armadas dos EUA durante a guerra e então Secretário de Estado dos Estados Unidos.

O plano de reconstrução foi desenvolvido em uma conferência das nações européias, em julho de 1947. Inicialmente, era previsto que a URSS e seus aliados também seriam convidados, mas o governo soviético avaliou que os acordos propostos pelos EUA significariam um retrocesso nas vantagens obtidas durante a guerra (a URSS teve um enorme desenvolvimento econômico durante o conflito, além de consolidar politicamente, o sistema comunista). Assim, Stalin determinou que nenhum país da esfera soviética estaria presente. O plano permaneceu em operação por quatro anos, a partir da assinatura do protocolo de intenções dos governos. Durante esse período, algo em torno de 13 bilhões de dólares em assistência financeira, técnica e econômica (equivalentes, hoje em dia a uns 150 bilhões de dólares) foram oferecidos aos aliados. A contrapartida foi a criação da Organização Européia de Cooperação e Desenvolvimento, sob supervisão da ONU, e a adesão incondicional ao métodos norte-americanos de organização e gerência.

Esse dinheiro era uma gota no oceano calculado em 1,5 trilhão de dólares, que foi o rendimento, calculado no início dos anos 1950, obtido diretamente pelo sistema econômico dos EUA, com a guerra. O Japão e a Alemanha perderam o status de potências militares, sendo o primeiro ocupado pelos EUA e o segundo dividido em dois Estados, Alemanhas Ocidental e Oriental. A Inglaterra e a França, simplesmente falidas, perderam seus impérios coloniais, e, com estes, foi-se a ordem econômica internacional pré-guerra. Teria início então uma nova fase, com o mundo dividido entre o capitalismo e o comunismo, num embate ideólogico e econômico entre americanos e soviéticos, que persistiria por mais de quatro décadas.

Tangencialmente, Canadá e Austrália também ganharam com a guerra, visto que boa parte do que restava do capital disponível em circulação no Império Britânico foi transferida para esses países. É bem conhecida a “mudança de endereço” dos ativos do Banco da Inglaterra para o Canadá, em 1940, e suas conseqüências. Esse país, formalmente membro da Comunidade Britânica, saiu da guerra como a quarta potência econômica do mundo, recebendo inclusive parte das indústrias e trabalhadores especializados que não puderam permanecer na Inglaterra, em função da luta contra a Alemanha.

Em menor escala, a Austrália também foi afetada positivamente, embora fortemente afetada pela interrupção das comunicações com a Europa (o mesmo se deu com a Nova Zelândia) e pela guerra no Pacífico, contra o Japão. Esses dois países passaram, a partir de 1942, a constituir uma das duas retaguardas das operações contra o Império Nipônico, o que significou que passaram a ser amplamente subsidiados pelos EUA. Embora tenham contribuído com o esforço de guerra de maneira considerável, como o Canadá, não chegaram a ter grandes prejuízos, pois os combates ficaram longe de seus territórios. O problema é que foram todos bastante afetados pela participação no esforço de guerra britânico, já que, em teoria, constituíam um único organismo político, e estavam obrigados por acordos que remontavam ao final do século XIX, a colaborar ativamente na defesa das Ilhas Britânicas e do Império. Basta dizer que um terço dos efetivos das forças armadas britânicas era constituído por naturais do Canadá. Ainda assim, a economia canadense, muito afetada pela Grande Depressão – era fornecedora de matérias-primas, alimentos e insumos para a Grã-Bretanha – recuperou-se com a guerra, embora tenha se tornado, no processo, ainda mais dependente dos EUA do que era da “velha Albion”.

A periferia, para variar, não ganhou nada com a guerra. Países como Argentina, Uruguai, Brasil e África do Sul acumularam enormes créditos com os países centrais – inclusive os EUA -, dinheiro que poderia ter sido aplicados no desenvolvimento sócio-econômico dessas regiões. A Argentina tinha aproximadamente 2 bilhões de dólares em ativos, e a enorme vantagem de que esses ativos estavam, em grande parte, disponíveis, pois o país conseguiu ficar neutro durante quase toda a guerra, vendendo matérias-primas e alimentos tanto para os EUA quanto para a Grã-Bretanha, e recebendo investimentos e “dinheiro fugido” da Alemanha. Um plano de desenvolvimento mal-elaborado e a megalomania de Juan Domingo Perón, que pretendia tornar o país uma potência regional, acabaram com grana em menos de vinte anos (o que confirma outra máxima: “o tolo e seu dinheiro logo se separam”). Perón e seus sucessores tiveram a fantasia de estabelecer uma indústria local de armamento, e contrataram engenheiros alemães, nazistas irrecuperáveis, que não se mostravam dispostos a trabalhar nem mesmo para o Ocidente. No caso do Brasil, pode-se dizer, com certeza, que o país foi vergonhasamente tungado por seu aliado. “O tratamento com o Brasil, no pós-guerra, foi muito injusto. Não tivemos ressarcimento dos ônus impostos pela guerra por termos sido excluídos da Conferência de Reparações de Guerra, em Paris, conforme nos estava assegurado pelos Acordos de YALTA e POTSDAM.O alinhamento automático aos EUA, a partir de 1947, representado pela adesão incondicional ao “sistema panamericano” (outro desdobramento da “doutrina Truman”), viria a render mais problemas que vantagens. Não recebemos bens de capital para o nosso desenvolvimento, a fim de sair da economia de guerra para a de paz sem grande descompasso.” Mais do que isso, fomos chamados a “colaborar” na reconstrução da Europa (!!!), gastando nossos créditos em bens de consumo da renascida indústria deles (automóveis Citroën, Renault “rabo-quente” e Morris, relógios e máquinas fotográficas feitas na Alemanha Ocidental e máquinas de costura italianas) e bugigangas, muitas bugigangas de “matéria plástica”, que pelo menos renderam muita gozação.

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Por agora, é isso aí. Caso alguém mostre interesse, voltamos ao assunto. Se ninguém mostrar, voltamos também. De qualquer forma, aproveitem: minha comemoração não deve ultrapassar agosto. Em setembro, vou comemorar outra coisa… :c))

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