Causa::

23/11/2009

Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::

É um bom jogo, esse. Está dando pra ver um dos caras na foto, não é? Mas existem três deles. Dá pra encontrar, na lata, primeira olhadinha? Sem ter de examinar com algum cuidado? Experimente e, depois, conte aqui para o redator: difícil de acreditar, não é? A foto foi publicada na capa do “Jornal da Infantaria”, de fevereiro de 1944, e mostra três snipers durante testes com padrões disruptivos de camuflagem, em um campo de provas do Exército dos EUA, em Nevada. O exército norte-americano tomou contato com a camuflagem através dos alemães, que, no início da guerra, já a utilizavam de forma mais-ou-menos generalizada. Peças de uniforme e de equipamento (como, por exemplo, os Zeltbahnen, ponchos que podiam ser usados como  tendas) nos padrões *Splittermuster (“padrão lascado”) e *Sumpfmuster (“padrão-pântano”) remontavam a 1931 e foram adotados em 1932 tanto pelo exército quanto pela infantaria da Luftwaffe. Conforme a guerra avançava, a disseminação de tecidos sintéticos na confecção de uniformes e peças de equipamento em tecido tornou ainda mais comuns os padrões de camuflagem. A questão é que os norte-americanos não simpatizavam com os padrões camuflados, e só a contragosto resolveram avaliar padrões disruptivos. Em 1942, o Exército dos EUA distribuiu um uniforme camuflado reversível, para uso nas selvas do Teatro do Pacífico: um dos lados tinha um padrão de formas irregulares arredondadas, em tons predominantemente verdes, o outro, em tons de marrom. Segundo fontes da época, o padrão marrom reproduzia o traje geralmente usado por caçadores de patos, e foi chamado, por este motivo Duck Pattern.  Os fuzileiros navais, que também receberam o traje, não o avaliaram bem. Relatórios apontavam que o padrão era muito eficaz para indivíduos estáticos, mas tinha efeito contrário quando usado em movimento. O Exército logo desistiu do uso de tais uniformes; os fuzileiros o mantiveram para a cobertura de capacete, que se tornou bastante característico do uniforme do USMC na 2a GM. É provável que a avaliação de campanha dos padrões camuflados tenha levado a testes de padrões como os da foto. Em campanha, o uniforme verde-oliva predominou até a Guerra do Vietnam, quando os padrôes camuflados começaram a ser adotados de forma mais ampla, primeiro por forças especiais, depois pela infantaria.::

15/11/2009

Tecnologia naval::Elektroboote e seus sucessores::Parte3

E eis que já era tempo! Finalmente chegam aos sete leitores (contadinhos…) de causa:: as partes finais da série sobre as origens dos modernos submarinos. Com esta série, o redator pretende fornecer elementos para aumentar a cultura submarinística dos sete leitores, de forma que qualquer um deles possa dar esclarecimentos aos redatores da imprensa escrita, falada e televisada. E se (como é muito provável) o assunto acabar esquecido, diante dos melhores temas para se falar mal do governo, pelo menos servirá para umas duas ou três horas de diversão… Divirtam-se, pois!::

parte3O submarino Tipo XXI, denominado, por seus projetistas, de Elektroboot (“barco elétrico”) é o avô de todos os submarinos atuais. Boa parte dos conceitos usados por todas as nações atualmente fabricantes de submarinos surgiram desse projeto, elaborado a partir da primavera de 1943. Em princípio, o conjunto de ações tinha um objetivo muito simples: devolver à Alemanha a superioridade que sua arma submarina tinha conquistado de 1940 até o início de 1942, e havia perdido fragorosamente.

O Tipo XXI é descendente de um projeto que tinha se arrastado durante anos, com resultados irregulares: o submarino Tipo XVIII. Tratava-se de uma unidade que estava sendo projetada em torno de uma turbina em desenvolvimento pela companhia do engenheiro Helmuth Walter (a mesma que projetou os motor-foguete do caça Me163 Komet). Esse novo tipo de submarino, quando em combate, seria movido por uma turbina de alto desempenho, acionada a peróxido de hidrogênio (que os alemães chamavam de Perhydrol), que lhe possibilitaria alcançar altas velocidades subaquáticas. Como a turbina não alcançou os resultados esperados, a equipe de Walter imaginou a possibilidade de obter oxigênio para mover seus motores diesel a partir da decomposição do Perhydrol, de forma a carregar baterias dos motores elétricos sob a água. A lentidão do desenvolvimento e os problemas observados no projeto, diante das perdas sofridas pelos submarinos entre o final de 1942 e o início de 1943 apontaram a necessidade de outra abordagem (uma explicação sobre os princípios desse projeto aqui).

Para que o desempenho subaquático esperado para o “Tipo XVIII” fosse realmente alcançado, um novo desenho de casco, baseado em nova filosofia foi imaginado: torná-lo altamente hidrodinâmico, planejado para permanecer submerso durante muito tempo sem chegar a ter a manobrabilidade comprometida pelas características híbridas dos “torpedeiros submarinos”.  

Dois engenheiros, Schürer e Bröking, tiveram a idéia de aproveitar os enormes tanques nos quais ficaria, no modelo proposto, o Perhydrol, para alojar baterias. O caso é que, no desenho proposto para o modelo Walter, um outro casco de pressão tinha sido acrescentado ao convencional, de modo a proporcionar armazenagem segura para o combustível altamente instável. O resultado era um casco de cujas seções lembravam um “oito”, feito em chapas de aproximadamente 3 centímetros de espessura, em liga de aço-alumínio, e que podia suportar mergulhos de até 280 metros. A parte inferior do “oito” constituiu uma enorme sala de baterias. Com as células extras acrescentadas, o desempenho do submarino crescia de forma exponencial.

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Seção de um "Tipo XXI" sendo transportada para a montagem. É notável a forma de "oito" do casco de pressão. Também é notável a solução hidrodinâmica do casco externo.

O desenho do novo vaso de guerra completou-se em junho de 1943. Os engenheiros acreditavam que poderia estar pronto para o serviço ativo por volta do inverno de 1944.

Era um desenho concebido para ser um “submarino verdadeiro” (aqui, uma impressionante animação digital pelo artista Jessi Hardin, caso você tenha o Adobe Flashplayer instalado), cujo campo de manobra seria as profundezas do Atlântico. Os conceitos incorporados eram não-convencionais, a começar pelo desempenho, muito além de qualquer coisa disponível, fosse pela Alemanha, fosse por seus inimigos: acreditava-se que a velocidade submersa poderia chegar a 18 nós (33,3 km/h), sob a água, maior do que na superfície, de 12 nós (22,2 km/h). Equipamentos de condicionamento e purificação de ar, chuveiros de água doce e lâmpadas de luz ultra-violeta, incorporados ao projeto, mostravam que o tipo tinha sido pensado para permanecer muito mais tempo submerso do que qualquer outro modelo existente: em certas condições o Tipo XXI podia permanecer até 11 dias sob a água, depois desses emergindo apenas por períodos muito curtos, de até cinco horas, ou usando o tubo esnorquel por tempo equivalente, para recarregar baterias.

Era no desenho do casco, totalmente limpo, sem quaisquer apêndices que não fossem absolutamente necessários, que as características de “submarino” apareciam claramente. Até mesmo os hidroplanos de proa podia ser recolhidos quando não estivesse em uso; não haviam canhões nos conveses e as baterias AAe de 20 mm eram montadas em torres de controle remoto incorporadas à vela. Equipamentos que tinham de se estender para operar (esnorquel, antenas e periscópios) se recolhiam para dentro da vela. Até mesmo esta parte teve seu desenho modificado: ao invés do posto de vigia tradicional, situado no alto daquela estrutura, uma espécie de convés aberto para o exterior, três pequenas aberturas eram fechadas por escotilhas, abrindo-se apenas quando necessário. Essas características “limpas” do desenho também resultavam numa assinatura de sonar mais discreta, e em um desempenho hidrodinâmico silencioso, o que tornava o Tipo XXI muito mais difícil de detectar do que os outros submarinos até então disponíveis.

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O U2540, atualmente em exposição no Museu Marítimo de Bremerhaven. As linhas limpas do casco interno anunciam a nova tendência para o desenho de submarinos.

O Tipo XXI incorporava equipamentos eletrônicos inovadores, inclusive um sonar ativo/passivo capaz de identificar e seguir diversos alvos. Montado na roda-de-proa, esse novo tipo de sonar permitia o lançamento de torpedos sem ter contato visual com o alvo, a partir de uma profundidade de até cinqüenta metros. Essa era outra característica que tornava essa classe de submarinos diversa de todas as outras existentes até então. Novos sistemas constituídos por carregadores automatizados de torpedos tornavam possível o lançamento de seis salvas (até seis torpedos em cada salva) em cerca de vinte minutos. Nos modelos anteriores, recarregar um único tubo podia tomar dez minutos, o que tornava o Tipo XXI muito mais ágil do que seus antecessores, tanto para atacar quanto para desengajar-se do combate. O desenho interno aumentou a capacidade de alojar torpedos de 14, no Tipo VIIC, para 23 unidades.

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Concepção artística de um submarino Tipo XXI submerso. Observe-se a protuberância na roda-de-proa, onde está instalado o moderníssimo sonar ativo-passivo Nibelungen. O trabalho é do artista digital Jessi Hardin.

A situação desesperada da arma submarina, em 1943, tornou o projeto a mais alta prioridade para a Marinha de Guerra, mas os outros tipos disponíveis continuaram sendo produzidos, notadamente os tipos VIIC e IXC, visto que não havia nada para substituí-los. Para acelerar os prazos de entrega, a técnica de construção do novo submarino foi modificada com base nos métodos usados na indústria de automóveis e de aeronaves. Oito seções modulares eram fabricadas em diferentes plantas industriais e, depois de transportadas por hidrovia, eram montadas num estaleiro. Esperavam os engenheiros que, com essa providência, poderiam explorar melhor as capacidades de cada unidade industrial, com a vantagem adicional de tornar mais difícil para os bombardeios aliados influir na produção. As dificuldades de alocação de material e mão-de-obra, combinadas com prazos irrealísticos e providências adicionais temerárias (como a eliminação de testes estáticos e da construção de protótipos) criaram diversos problemas, que se somaram aqueles que derivavam da originalidade do projeto. O novo método de construção não ajudou: fabricadas de maneira apressada, as seções modulares, depois de prontas, não atendiam aos padrões estabelecidos para o projeto. Em alguns casos, nem sequer chegavam a se adaptar direito umas às outras. Essa situação, combinada com a confusão estabelecida pelos bombardeios aliados – que, nessa época, tinham se tornando um problema real – acabou por criar gargalos industriais e logísticos de superação complicada, e atrasar todo o processo. O lançamento da primeira unidade deveria acontecer em maio de 1944, como comemoração da Marinha pelo aniversário de Hitler. Aconteceu, mas foi, no mínimo, um fiasco: o submarino foi mantido flutuando por bóias e rapidamente recolocado em doca seca, para ajustes e reparos. As unidades seguintes apresentaram problemas sérios na soldagem do casco de pressão e dos tanques de lastro, e tiveram de ser praticamente reconstruídas. Na prática, a pressa em completar o projeto fez o ano de 1944 ser perdido e as primeiras unidades aprovadas para serviço ativo foram entregues à Marinha em abril de 1945. Além do mais, os massivos bombardeios aliados freqüentemente danificavam as plantas industriais e os estaleiros, e chegaram até mesmo a destruir unidades prontas. Problemas adicionais foram provocados, curiosamente, pelo sucesso obtido nos testes de mar: a velocidade subaquática e a capacidade de lançar torpedos de grande profundidade exigiram o aperfeiçoamento de novas táticas; as diversas inovações da máquina exigiram outros métodos de treinamento, não apenas para as tripulações como para o pessoal de apoio em terra.

Os alemães esperavam que a produção inicial colocasse 300 unidades no mar, por volta de meados de 1944, alcançando 1000 unidades pelo início do ano seguinte. Dos 120 Tipo XXI que estavam em diferentes estágios de construção, no final do mês de abril de 1945, somente dois chegaram a ser mandados para o mar, em patrulha. Ainda que não tivessem entrado em combate, com o fim da guerra os relatórios apresentados pelos comandantes mostraram claramente as qualidades do projeto. Um desses barcos, o U2511 chegou a 600 metros de um cruzador britânico sem ser notado, armou os torpedos, mas no último momento, fez meia volta e regressou à base. Tinha recebido ordens do BdU (Befehlshaber der U-boote – “Comando dos Submarinos”), para suspender as operações. Essa última ação mostrou que, aquela altura, eles certamente não venceriam a guerra, mas seriam uma grande dor-de-cabeça para os aliados::

10/11/2009

Polícia para quem precisa de Polícia: não é rima nem solução::parte3

E eis que o redator prometeu e cumpriu! (Por incrível que pareça…) A seguir, a conclusão do artigo sobre as polícias brasileiras, com especial carinho às Polícias Militares dos estados brasileiros::

parte3Não é que não existam polícias militarizadas fora do Brasil. De fato, essas corporações também estão presentes em diversos países do mundo, sendo chamadas, genericamente, de “gendarmarias“. Essa instituição remete-se à uma tradição medieval européia, e a raiz da palavra é a expressão do francês arcaico gen d´armes, “gente de armas”. Se trata de corporações policiais cuja organização copia a das militares. Seus integrantes, denominados gendarmes, são policiais militarizados, e suas tarefas são principalmente o policiamento civil, embora em alguns países também cumpram funções de inteligência, guarda de fronteiras, guarda marítima e policiamento interno das forças armadas (lembram-se da feldgendarmerie dos filmes de guerra?.. Se você lê inglês, achará o texto interessante). A principal diferença para as Polícias Militares brasileiras é que, enquanto aquelas são em geral subordinadas à uma autoridade nacional (quase sempre o ministro do interior), no Brasil são corporações estaduais, subordinadas ao governador do estado. 

As Polícias Militares brasileiras não tinham equivalente no período colonial – muito embora algumas dessas corporações encontrem seus antecedentes em tropas de milícias e ordenanças (como, por exemplo, o Regimento de Dragões das Minas, criado no século 18). A primeira corporação militarizada foi a Guarda Real de Polícia da Corte, criada pelo Príncipe Regente D. João em 1809. Em Portugal havia uma corporação equivalente, formada em 1801, que recebeu ordens de permanecer em Lisboa quando da invasão francesa.

O modelo da tropa portuguesa e da equivalente criada no Rio de Janeiro (que a PMRJ reivindica como antecedente direto) foi a  guarda surgida na França em 1791. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão estabelecia que a segurança era direito natural e imprescindível, e os funcionários públicos encarregados de zelar por esse direito deviam servir a todos os cidadãos, e não apenas ao Estado e seus interesses. A tropa criada no Rio de Janeiro, entretanto, tinha nos negros e libertos, ou seja, nas classes mais pobres da sociedade colonial, o objeto de sua ação, pois a aristocracia portuguesa tinha dessas pessoas grande desconfiança. Os efetivos da Guarda eram recrutados entre as tropas de linha, e sua atuação caracterizava-se pela extrema violência. Ao longo da permanência da Corte portuguesa no Rio de Janeiro, outros corpos policiais foram sendo criados, em Minas Gerais, no Pará, no Maranhão, na Bahia e em Pernambuco. Com excessão de Minas Gerais, onde a corporação não chegou a ser regulamentada, os outros corpos eram baseados no modelo adotado no Rio de Janeiro, constituídos com estrutura baseada na da tropa de linha: corpos de oficiais, estado-maior, companhias de infantes e de cavalaria, todos devidamente uniformizados e armados.

Esses corpos funcionaram de maneira irregular até 1831, quando da abdicação do imperador. Os governos regenciais realizaram reformas significativas nas forças armadas brasileiras, notadamente no exército, corporação que não gozava da confiança das classes políticas em função do estado permanente de indisciplina das tropas. O efetivo foi sendo paulatinamente diminuído, os oficiais (em boa parte estrangeiros), demitidos e os mercenários, dispensados. O Ato Adicional à Constituição de 1824 tentou contornar a situação extinguindo as milícias e ordenanças (tropas temporárias mobilizadas nas províncias, cuja origem remontava ao período colonial)  e criando a Guarda Nacional, espécie de força auxiliar diretamente comandada pela aristocracia terratenente. A Guarda Real de Polícia e seus equivalentes provinciais foram extintos, substituídos pelo Corpo de Guardas Municipais Voluntários. Embora autorizadas a criarem corporações do mesmo tipo, as províncias não estavam obrigadas a isso. Os legislativos locais passaram a fixar, anualmente, por solicitação do Presidente da Província, qual o efetivo das forças policiais – o que não significava que fossem, de fato, contratadas. Esse sistema nunca funcionou plenamente, e as Guardas Municipais foram sendo desmobilizadas, substituídas por Corpos Policiais – tratava-se de  mudança significativa, equivalente, de fato, à reestruturação da corporação, cujo modelo foi o exército. Alguns especialistas na matéria consideram que são esses Corpos, de fato, os antecedentes das PMs estaduais. É possível observar nessas iniciativas certa inspiração liberal (alguns artigos da constituição dos EUA foram copiados), caracterizada na tentativa de mobilizar cidadãos para as tarefas de defesa nacional e segurança pública. Mas o fascíno liberal tinha fôlego curto numa sociedade escravista, e o que havia, de fato, era a desconfiança das classes proprietárias com relação às classes pobres e aos escravos, e da possível predominância política do Rio de Janeiro.

Durante a Guerra do Paraguai, os Corpos Policiais acabaram sendo mobilizados para completar os efetivos de tropas despachadas para a frente de combate. Nessa época, não era incomum que o governo pensasse em desmilitarizar a polícia. O problema maior era a carência de recursos financeiros, obstáculo para a implantação de uma solução desse tipo. A guerra agravou a falta de dinheiro, e em algumas províncias  os Corpos Policiais quase deixaram de existir. No Rio de Janeiro tentou-se a criação, em 1866, de uma força policial civil, a Guarda Urbana. Essa nova corporação deveria atuar junto com o Corpo Policial, que não perderia suas características de força policial composta por um quadro militar, enquanto a nova seria composta por pessoal civil uniformizado. Muito pouco eficiente, essa guarda civil foi praticamente desativada depois de 1883 e extinta, definitivamente, com a Proclamação da República.

Entretanto, o novo regime não apenas manteve os Corpos Policiais como acrescentou-lhes a designação “militar”. Com a promulgação da Constituição de 1891, com sua tendência fortemente federalista, as províncias, transformadas em ”Estados da Federação”, passaram a ter o controle pleno dos “Corpos Militares de Polícia” e é dessa época a nomenclatura que passaram a ter, nos estados: “Força Pública”, em São Paulo; “Brigada Militar”, no Rio Grande do Sul; “Regimento de Segurança”, no Paraná - foram alguns dos nomes adotados. Na prática, essas tropas passaram a funcionar como uma espécie de exército local controlado pelo governador, preparado para resistir à possíveis intervenções do governo central. Os estados mais ricos (como São Paulo e Minas Gerais) montaram forças dotadas de armamento militar e recebendo treinamento desnecessário às tarefas policiais cotidianas. A Força Pública do Estado de São Paulo chegou até mesmo a adquirir armamento para a luta de trincheiras, aviação e artilharia anti-aérea (foi a primeira corporação militar no Brasil a contar com tal tipo de arma). Às vésperas da Revolução de 30, era o segundo exército da América Latina, em efetivo, atrás apenas do próprio Exército Brasileiro; já a Força Pública de Minas Gerais contratou um coronel suiço para funcionar como instrutor de operações de guerra. Em 1915, no bojo de uma reforma, o Exército conseguiu que as forças policiais militarizadas dos estados, a começar pela Brigada Militar de Capital e o Corpo de Bombeiros, fossem, em caso de emergência nacional, incorporadas. Embora os militares vissem a militarização das polícias com desconfiança, havia certa unidade de princípios e até afinidade entre as corporações, procurando as polícias militarizadas copiar doutrinas e padrões comportamentais do exército. Isso resultou na emulação da estrutura, com unidades “de infantaria” e “de cavalaria”, batalhões, companhias e pelotões organizados e comandados como na força terrestre e equivalência de postos para oficiais, graduados e praças. Observou-se também a adoção de uniformes de passeio e de serviço iguais aos do exército e a tentativa de se apropriação da tradição militar nacional.

O resultado dessa trajetória foi que, na Revoluções de 1930 os “exércitos estaduais” se posicionaram conforme a tendência observada do governador a que estivessem subordinados. Em São Paulo, imediatamente após a consolidação do novo regime, o Governo Provisório diminuiu drasticamente os efetivos da corporação e apreendeu armamento considerado inadequado. Ainda assim, a Força Pública constituiu o núcleo do exército revolucionário que, durante três meses, resistiu às forças federais – em grande parte também formadas por efetivos policiais mobilizados nos estados.

Tudo isso resultou durante o período, em algum grau de desmobilização das polícias militarizadas estaduais. Certamente, num regime como foi o de Vargas, a polícia iria assumir papel fundamental, passando a lhe caber, além das funções tradicionais de manutenção da ordem pública e controle das classes subalternas, também o monitoramento e controle de grupos políticos dissidentes e possíveis “inimigos do Estado”. Nos primeiros meses de seu governo, Vargas promoveu um expurgo nas polícias civis do Distrito Federal e dos estados. Quadros vistos como de oposição, de pouca confiança ou mesmo como “indiferentes” foram substituídos por pessoal de confiança. Situação de todo inusitada, a polícia do Distrito Federal passou a ser órgão da presidência da República, respondendo diretamente ao ministro da Justiça. As polícias estaduais passaram a se reportar, através dos interventores estaduais, à polícia do Distrito Federal. O objetivo dessas mudanças era criar uma rede nacional de vigilância política, centralizada na capital da República e articulada pela Polícia Civil, que, na prática, transformou-se em polícia política. A inspiração vinha dos serviços de segurança da Alemanha nazista, onde estagiaram diversos policiais brasileiros. A Polícia Militar do Distrito Federal foi, nesse quadro, peça fundamental na articulação de um “esquema militar ” de sustentação do governo, esquema que sobreviveria mesmo após a queda do regime, em 1945. Em 1946 a nova constituição implementou uma reforma parcial da organização policial, devolvendo o controle aos governadores - mas o sistema de polícia política não chegou a ser desativado.

As polícias militares voltaram ao controle civil, após mais de dez anos subordinadas ao Exército. As funções atribuídas à essas corporações se diversificaram bastante, o que implicou no aumento do efetivo e na especialização interna. Durante o regime Vargas, com os efetivos bastante diminuídos, as polícias militares atuavam basicamente nas grandes cidades, como uma espécie de guarda republicana, e no interior, como destacamentos de policiamento independentes. Nas grandes cidades o policiamento de rua era exercido por guardas civis, ramo das polícias civis. Isso resultou em problemas de jurisdição entre as corporações policiais, o que até então nunca tinha sido registrado. 

O golpe militar de 1964, ao implantar um regime discricionário, ampliou o poder das Forças Armadas mas, para estender o controle da sociedade, teve de recorrer ao aparato policial existente. O resultado foi a disseminação da violência policial, com o afrouxamento dos controles sobre a atuação das corporações, controle que já não era, de modo algum, rígido. A extensão do conceito de “segurança nacional” resultou em um estado policial, em que cada órgão, independente do caráter, era visto como “de segurança”. Decorre daí uma série de consqüências estapafúrdias, como a transformação de quartéis de bombeiros em “centros de triagem de presos políticos” (eufemismo para ”centro de tortura”), implantação de “divisões de segurança e informações” (na prática, um tipo de polícia política interna dos órgãos públicos) em repartições como a Legião Brasileira de Assistência e a Companhia Brasileira de Armazés Gerais, e a instrução a psiquiatras e psicólogos militares para vigiar seus pacientes. A disseminação de ”métodos de abordagem direta” resultou em que praticamente o único método de investigação utilizado era a violência física contra o detido. A “cobrança de resultados” e a independência de ação gozada por membros de serviços de segurança (chamados, na época,  ”comunidade de informações”) acabou gerando uma situação de anarquia em todos os níveis e no transbordamento desses métodos para virtualmente todas as esferas de atuação policial.

Nesse contexto, foi reservado à polícia militar o papel de força auxiliar ativa, e não apenas de “reserva de contingência”, como tinha sido até então. As corporações passaram à subordinação do Exército, formalizada em 1967 com a criação da  Inspetoria Geral das Polícias Militares (IGPM). A Constituição Federal de 1967 manteve as polícias militares sob controle dos governadores, mas introduziu uma novidade: unificou o aparato policial e extinguiu as guardas civis. Os efetivos dessas foram absorvidos na tropa, que passou a ser responsável pelo patrulhamento ostensivo das cidades – quer dizer, pelo controle do espaço urbano e da circulação de pessoas e bens. A oficialidade PM começou a frequentar cursos especializados em levantamento e análise de informações e de contra-insurgência; a tropa recebeu treinamento de controle de multidões e de combate à ações de guerrilha urbana e rural. 

O comando civil, por sua vez, mostrou-se meramente decorativo, pois cabia ao Ministro do Exército a nomeação dos comandantes das forças policiais. Oficiais do Exército na ativa eram freqüentemente designados para o comando, à revelia dos chefes do executivo local. A política de segurança pública passou a ser elaborada pelas Forças Armadas, com base em seminários realizados na Escola Superior de Guerra. Essas mudanças de conceito geraram distorções que ainda hoje afetam a concepção e condução das ações de segurança pública.

Toda essa situação chegou ao ápice com a transfência para a Justiça Militar da competência de julgar crimes cometidos em serviço. Essa medida, de 1977, foi justificada como decorrência da “situação de guerra” vivida pelo país, que pedia (segundo o regime militar e sua claque política) a “flexibilização” da interpretação das ações realizadas contra inimigos do Estado armados e decididos, e do resultado dessas ações. Rapidamente, essa concepção – em última análise, absoluta liberdade de ação para os elementos em campo - foi incorporada às tarefas policiais propriamente ditas, que passaram a ser vistas como ações de uma guerra interminável contra o crime.

As políticas implementadas pelo regime militar, de “desenvolvimento a qualquer custo”, resultaram em crescente deterioração das condições sociais e urbanas do país, que explodiram nos anos 1980, numa crise econômica e social aparentemente interminável. Nas grandes cidades, um das conseqüências mais visíveis e virulentas foi o ambiente de guerra não declarada, com um nível por vezes absurdo de insegurança e violência. O regime civil reestabelecido em 1985 não demonstrou vontade política de reverter a situação criada ao longo das duas décadas anteriores. Para agravar a situação, durante a Constituinte inaugurada em 1987, as diversas acomodações feitas entre antigos adversários políticos tornados aliados de ocasião criaram distorções que acabaram incorporadas ao texto constitucional. Especialistas concordam que, com relação à segurança pública, a mais séria delas é a manutenção, intocado, do caráter das polícias militares de forças auxiliares e reserva do Exército, aprodundado durante o regime militar. O controle civil, representado pelo comando dos governadores, restabelecido pela Constituição, acabou anulado pela subordinação à lei federal. Os governadores nomeiam os comandantes das polícias, mas estão proibidos de tomar a iniciativa de reestruturar o aparato policial em caráter local. Essa contradição resulta em que o estado de São Paulo continua vendo como “motivo de orgulho” ter um exército de 100.000 efetivos em “guerra contra o crime”.

É essa a situação atual. Claro que reformar a polícia não significará o restabelecimento da ordem urbana. Tem sido constatado, ultimamente, que o problema de fundo é a total falência do modelo de cidade vigente no Brasil, implantado durante o regime militar mas mantido e até estendido ao longo dos últimos 25 anos – o tempo de vigência, em nosso país, do estado de direito. É preciso, antes de mais nada, pensar que talvez nossos paradigmas, de tão obsoletos, não dêem mais resposta alguma a nossos problemas. Mas enquanto não aparece alguém disposto a encarar seriamente o problema, reformar uma polícia militar concebida para ver pobres como inimigos e o meio urbano como campo de batalha talvez seja um começo::

Por sinal, é impossível não citar um ótimo recurso – não apenas de pesquisa, mas de reflexão – para quem esteja interessado no assunto: o blogue surpreendentemente bom, Policiamento inteligente. Ao longo dos dias em que o redator aqui do causa:: pesquisou um tema com o qual não tem lá muita intimidade, bebeu e embededou-se com o texto agradável e erudito do soldado PM Aderivaldo.::

09/11/2009

Polícia para quem precisa de Polícia: não é rima nem solução::parte2

O redator jurou pela saúde dos filhos que não tem e pela lisura de nosso políticos, que publicaria a prometida seqüência ainda hoje. Que nossos representantes fiquem honestos não seria má idéia, mas péssima idéia seria, por outro lado, que meia dúzia – de duas ou três… – antigas namoradas do redator aparecessem de repente pedindo testes de DNA. Assim, como não crê o redator em bruxas, etc. etc., aí vai a parte 2, que, espera, trará mais alguns esclarecimentos sobre o assunto “polícia”. Divirtam-se pois os sete leitores (contadinhos…):: 

parte2De um modo geral, o termo “polícia militar” não corresponde à definição corrente que temos dele. Se trata, de fato, de efetivos militares, parte das forças armadas, que exercem o poder de polícia, conforme já esclarecido acima, nos limites institucionais e físicos das forças armadas. Isso significa que às “polícias militares” caberá manter a integridade e a segurança dos membros das forças armadas, das propriedades militares, investigar crimes militares e deter suspeitos desses crimes. No Brasil, esse tipo de polícia é chamado de “Polícia do Exército”, “Polícia Naval” ou Polícia da Aeronáutica”, dependendo da corporação de que estivermos falando.

Mas falar de “polícia militar”, relativamente às forças armadas, não tem nada haver com “justiça militar” – que também existe em quase todos os países que tem forças armadas e alcança os cidadãos incorporados à essas forças, bem como aqueles que, mesmo em situação de civis, tenham cometido crimes tipificados como crimes militares. Nos EUA, por exemplo, os militares estão sob as regras estabelecidas pelo Códico Uniforme de Justiça Militar (UCJMUniform Code of Military Justice), que se aplica a todos os membros de corporações uniformizadas dos Estados Unidos: Exército, Força Aérea, Marinha, Corpo de Fuzileiros Navais. A Guarda Costeira e os membros de serviços civis, como a Administração Nacional de Atmosfera e Oceanos (NOAA) e o Serviço de Saúde Pública (por exemplo), quando operando, por determinação presidencial, militarizados (geralmente acontece em tempo de guerra ou de emergência nacional), também ficam subordinados ao UCJM, assim como os membros da Guarda Nacional dos EUA em período de incorporação e alunos de escolas militares de todas as corporações.

A Justiça Militar dos EUA tem advogados, juízes e promotores militares, mas as punições previstas no Código Uniforme podem, dependendo da gravidade do ilícito, ser de ordem administrativa, determinadas pelo comandante do infrator. Já as medidas penais ficam a cargo das Cortes Marciais, e podem ir de medidas administrativas (admoestação, verbal ou escrita; treinamento adicional; reprimenda e punição não-judicial) até a demissão. Ilícitos mais sérios são enviados aos Tribunais Militares, compostos de  Cortes Sumárias, formadas por oficiais militares, prevendo penas de multa e prisão temporária. As Cortes Especiaìs lidam com crimes de maior gravidade, e são formadas por oficiais especialmente indicados. Essas Cortes podem sentenciar a penas de prisão até um ano e “baixa desonrosa”.

No caso da Grã-Bretanha, as funções de justiça militar são responsabilidade do Juiz-Advogado Geral (em inglês, JAG – Judge Advocate General), um juiz civil indicado pela Coroa Britânica para presidir a justiça militar. Já no caso francês, uma lei de 1982, relativa à instrução e ao julgamento de infrações militares e de segurança do Estado modificou os códigos de procedimento penal e de justiça militares, suprimindo, em tempo de paz, o Alto Tribunal Permanente bem como os tribunais menores das forças armadas. Em tempo de guerra, a juridição militar sobre certos crimes foi mantida. Entretanto, continua existindo um “Código de Justiça Militar”, só que as infrações relacionadas, assim como as infrações comuns cometidas por militares em serviço ativo passaram à competência da justiça comum. Entretanto, existe uma alta corte e tribunais especializados que cuidam da instrução de processos por crimes militares, bem como do julgamento de tais crimes. A acusação, nesses casos, é conduzida por procuradores da República especialmente designados. A Alemanha, depois de 1955, também aboliu as cortes militares em tempo de paz, e os autores de crimes militares cometidos em tempo de serviço são entregues à justiça comum.

No Brasil, a Justiça Militar federal é exercida pelo Superior Tribunal Militar. Essa corte foi criada em 1º de abril de 1808, pelo Príncipe-Regente D. João, com a denominação de Conselho Supremo Militar e de Justiça. Após a proclamação da República, passou a chamar-se Supremo Tribunal Militar e, depois de 1946, assumiu o nome atual. No Brasil os juízes do STM são escolhidos pelo presidente da República entre oficiais-generais das forças armadas, que são a maioria no Tribunal. Cinco dos 15 membros são juízes civis. O exercício do cargo de Ministro do STM é vitalício.

Vemos então que a expressão “polícia militar” nada tem com a “Justiça Militar” e, para complicar as coisas, no Brasil, “Polícia Militar” não tem nada haver com “polícia militar”. Não é que não exista algo semelhante à “Polícia Militar” (brasileira), em outros países. Em geral essa função é exercida por uma instituição também militarizada, chamada genericamente de “Gendarmeria”. Essa palavra se remete à instituições medievais e seu radical é a expressão gen d´armes, ou seja, gente de armas, em francês arcaico. São, de fato  polícias militarizadas, responsáveis por tarefas policiais convencionais, mas consideradas fora do escopo das polícias civis. São estruturadas em uma hierarquia vertical, como nas forças armadas, e, administrativamente, em unidades com tarefas específicas de policiamento e defesa civil. São geralmente vinculadas aos ministérios do interior, e não são consideradas reserva das forças armadas::

26/10/2009

Cultura Material militar::A linhagem FAL::Parte 3::O FAL no Brasil

Faz alguns meses, publicamos uma série de posts denominada “A linhagem FAL“. Como tantas outras séries aqui no blogue das boas causas, essa também acabou atropelada por outros assuntos que então pareceram, ao redator um tanto atabalhoado, mais momentosos. Como a próxima semana será pesada, e o redator não terá tanto tempo disponível para divertir seus sete leitores (contadinhos…) quanto gostaria, segue a 3a parte, revista e ampliada. Por sinal, causa:: declara, com satisfação, que contou com a preciosa ajuda do historiador militar Adler Homero Castro e do coronel (QEMA-R1) José Paulo Lopes Lima. A maior parte das informações me foram repassadas por esses dois cientistas, porque faltam, em nosso país, fontes públicas confiáveis sobre a história e dinâmica de nossas Forças Armadas.  Podem agradecer, então, aos dois…::

PARTE3Em 1960, o Exército Brasileiro era uma força relativamente grande. Sua ordem de batalha podia colocar em campo uns 140.000 efetivos, dos quais talvez uns 40.000 pudessem ser considerados – por padrões algo lenientes… - tropas de primeira linha. No final dos anos 1950,  a força terrestre brasileira podia alinhar algo como um corpo blindado – uma divisão blindada e duas de infantaria motorizada, uma divisão convencional de cavalaria (com cavalos, acreditem ou não…) e cinco divisões de infantaria.

Desde a 2a GM, a intensa relação com o exército dos EUA tinha moldado o Exército Brasileiro à imagem do norte-americano.  As doutrinas francesas foram definitivamente abandonadas, e  a instrução era feita, em grande parte, por militares dos EUA, que ensinavam a seus colegas brasileiros as novas práticas desenvolvidas durante a 2a GM e, logo depois, na Guerra da Coréia. Entretanto, certas práticas norte-americanas eram de difícil assimilação em um país pobre e pouco industrializado.  

O armamento com que o Exército Brasileiro contava em seu inventário passou, em conseqüência da 2a GM, por um notável salto tecnológico. Entretanto, em termos de armamento individual o principal item do EB em 1945 era o fuzil de carregamento manual Mauser DWM calibre 7X57 mm, o “Mauser brasileiro“. A aquisição dessa arma se deu em 1908, em números que, segundo alguns especialistas, alcançavam 600.000 unidades  – o que é muito curioso, pois seria quantidade suficiente para dotar cada oficial, graduado e soldado com quatro ou cinco armas, e ainda sobrar um montão… Claro que, em tal volume, essas armas, mesmo depois de obsoletas, equiparam as tropas durante muito tempo. Assim, o jeito era tentar, vez por outra, modernizar o tal “mauser brasileiro” com pequenas modificações físicas. Por exemplo, em 1934, a arma foi encurtada para se equiparar à uma “carabina”, ou seja, uma arma geralmente disponível para as tropas de cavalaria. No jargão do Exército Brasileiro, esse item é denominada “mosquetão”, e tem o comprimento de cerca de 100 centímetros, enquanto o fuzil teria cerca de 120 centímetros.

Mas modernizações cosméticas não fazem milagres, e problema era que o calibre 7X57 mm se tornou obsoleto para uso militar antes da 2a GM. Assim, em diversos momentos, essas armas passaram por adaptações em arsenais nacionais para utilizar cartuchos mais modernos. Quando a FEB chegou à Itália, o armamento que seus efetivos receberam era padronizado com o dos norte-americanos, de modo que a arma distribuída aos pracinhas foi o US Rifle M903, calibre .30-06 (7,62X63 mm) Springfield. Isso teve conseqüências duradouras: depois da guerra, boa parte do armamento de infantaria disponível para o Exército Brasileiro usava calibres norte-americanos. O BAR (Browning Automatic Rifle, uma espécie de metralhadora ligeira usada como apoio da esquadra de infantaria), alguns rifles Springfield e *Garand e a metralhadora ligeira Browning M919, a pistola Colt M911, as submetralhadoras M3 e INA usavam, os primeiros, o calibres 7,62X63 mm e os três últimos, o .45 ACP. Essa munição passou a ser fabricada no país nos anos 1950.

Em função dessa disponibilidade de armamento norte-americano, no final dos anos 1940 houve uma tentativa de tornar o calibre .30-06 padrão das forças militares brasileiras. O resultado foi um mosquetão, baseado no “mauser brasileiro”, distribuído em pequenas quantidades a partir de 1949. Em 1951, nova tentativa geraria uma arma não muito diferente – ambas as experiências foram feitas no Arsenal de Itajubá, Minas Gerais. Mas ainda não era o que o Exército pretendia. Nessa época, já era evidente a tendência mundial para a adoção de armas automáticas e semi-automáticas. O acaso então entrou no jogo – só não se pode dizer se contra ou a favor do Brasil.

Por sinal, o acaso começou a conspirar no segundo semestre de 1945, quando a FEB voltou ao Brasil. Embora a tropa brasileira tenha deixado para trás todo seu equipamento, pôde conservar certa quantidade de canhões alemães e italianos de diversos tipos, várias peças de equipamento de campanha de nossos adversários, os arquivos da FEB e alguns documentos alemães e italianos. O item mais numeroso trazido para o Brasil eram armas portáteis capturadas aos alemães e seus aliados. Não se sabe exatamente quantas vieram, mas calcula-se um número de alguns milhares. Muitos desses itens eram exemplares do que os alemães tinham de mais moderno, inclusive os fuzis automáticos MP42 e StuG44 (que seriam a origem dos fuzis de assalto) e metralhadoras de uso geral MG42 (a “Lurdinha”). Também haviam alguns exemplares das duas versões do Gewehr 43 (Mauser e Walther), uma tentativa frustrada dos alemães em criar um fuzil semelhante ao Garand norte-americano.

As armas alemães foram examinadas pelas áreas técnicas do Exército e, em 1952, o arsenal de Itajubá recebeu ordens de fazer uma cópia do G43(M), o exemplar que, durante a guerra, tinha sido apresentado pelo escritório Mauser, de Berlim. O produto resultante, considerado por todos que o examinaram como extremamente tosco, foi denominado “Mosquetão M954”. Era um G43(M) adaptado para usar o cartucho Springfield.

Não se sabe exatamente porque as autoridades locais resolveram que copiar o G43(M) era uma boa idéia. Alguns pesquisadores especializados (que, no Brasil, são poucos, muito poucos) acreditam que dois fatores tenham se combinado para gerar o equívoco: a existência, em Itajubá, de máquinas-ferramentas de origem alemã, adquiridas em 1934, um, e dois, o fato de que a patente do G43(M) tinha perdido a validade, por ser este uma arma militar – as de armas civis e de polícia continuaram valendo. Outro fato relevante é que, embora faltasse Garand, em função da Guerra da Coréia, outras armas “calibre pontotrinta” foram generosamente distribuídas: o BAR, a metralhadora M1919 e boa quantidade de fuzis M903. Assim, era natural que a tentativa de uma arma indígena visasse o cartucho .30-06 (cuja patente fora cedida ao Exército a preço de banana), e que essa arma tentasse adaptar um Mauser, com o qual os militares brasileiros tinham intimidade de mais de 40 anos.

O terceiro e mais relevante ponto do equívoco: nessa época, as principais autoridades, aqui, acompanhavam o debate sobre o novo calibre de armas de infantaria, que se travava na Europa e nos EUA. A doutrina norte-americana, amplamente repassada aqui, privilegiava a concentração de fogo, de modo que, era esperado, os EUA acabariam mantendo a tradição de um cartucho mais potente. O que os militares brasileiros não sabiam é que o M1 era considerado excelente, mas, por volta de meados dos anos 1950 o insucesso das tentativas em torná-lo totalmente automático apontavam para sua substituição. Na Europa, a tendência era pela adoção do cartucho 7.62X51 NATO, e os europeus insistiam que toda a munição usada em armas de infantaria fosse padronizada. O resultado do debate – que foi uma disputa política – foi a adoção de uma versão do FN-FAL pela Inglaterra e Canadá e do Heckler-Koch G3 pela nova Bundeswehr. Os norte-americanos concordaram, afinal, em adotar o 7.62 NATO, desde que numa arma de desenho local – que foi o M14. Este era um produto excelente, mas que teve vida curta, atropelado pelo encontro, no Vietnam, com os fuzis de assalto AK47.  

Segundo Adler Homero Castro, talvez o maior pesquisador brasileiro no tema “cultura material militar”, o Exército Brasileiro sempre teve o azar de tomar decisões cruciais quando no contrapé. O caso  do calibre Springfield foi uma dessas decisões, e o Exército acabou ultrapassado pelo debate sobre as novas armas de infantaria. Ao que parece, as questões de política interna também contribuíram para engrossar o caldo. No final dos anos 1950, a Marinha, já envolvida na disputa pelo controle da aviação naval, adquiriu, sem consulta prévia às autoridades superiores (se é que havia alguma…), dois lotes de M14 e certa quantidade de munição. As armas deveriam equipar o Corpo de Fuzileiros Navais – que já contava com o Garand em seu inventário. É possível que o Exército, não querendo ter sua própria ”disputa fraterna” com a Marinha, tenha sido compelido a decidir, de uma hora para outra, pela aquisição de um “pacote completo” de armamanto individual. A tendência mundial era, então, o 7.62X51 NATO – então esse acabou prevalecendo. A empresa belga FN Herstal, dona da patente, antecipou-se à concorrência e ofereceu a licença para a fabricação local de seu desenho. A contrapartida era o fornecimento do ferramental e o respeito ao projeto do fuzil. À primeira vista, parecia “mamão com açúcar”: uma arma moderna, de graça e sem necessidade de investimento em pesquisa; na prática, a longo prazo as forças armadas brasileiras se viram atreladas às decisões de um fornecedor externo.

Embora não existam ainda provas conclusivas, parece que a decisão belga foi motivada pelo exame, pelos militares brasileiros, do Heckler-Koch G3, fabricado na Alemanha com base no desenho espanhol CETME – era outro 7.62 NATO. Pouco depois (no início dos anos 1970) o HK acabou adquirido pela Aeronáutica, para sua infantaria de guarda. O fato de que, num espaço de uma década, três modelos de armamento tenham sido adquiridos no mínimo indica certa falta de planejamento no que diz respeito à questões de defesa, em nosso país.

Em 1967, a chegada dos novos fuzis automáticos, em números que alcançavam 30.000 exemplares, entre os primeiro (diretamente importado) e segundo (fabricado em Itajubá) lotes já tinha se completado. Foi então tomada uma decisão surpreendente: o Exército resolveu converter uns 10.000 Mauser 7X57 miliímetros em uma arma aparentada com o FAL, só que numa versão de carregamento manual. Essa nova arma, destinada ao treinamento de recrutas, foi denominada ”Mosquetão M968 7.62“. O cano foi substitúído por uma versão idêntica à do FAL e a câmara, adaptada para o novo calibre. O conjunto era um pouco mais leve, tinha o cano mais curto e a alavanca de manejo, recurvada. O modelo foi fábricado em Itajubá e distribuído entre as unidades consideradas “de segunda linha”. O “Mosquefal”  empregava munição(inclusive granadas de bocal e munição especial para atiradores de escol), baioneta e material de manutenção de primeiro escalão iguais às do M964 (notação do FAL brasileiro). A arma era destinada ao adestramento básico de fuzileiros da infantaria, e também foi distribuída pelas polícias militares em todo o país.

No Brasil, o FAL gerou toda uma linhagem industrial. A atual IMBEL – empresa de economia mista pertencente ao Ministério da Defesa – fabricou três modelos da arma: o Fuzil Automático Leve (FAL), o Fuzil Automático Pesado (FAP - uma versão dotada de bipé, que só dispara em modo automático) – e a versão ”Para-FAL”, com coronha rebatível, e cano encurtado, para emprego de unidades aerotransportadas, de selva e de forças especiais. A produção local começou no início de 1965 e continuou até 1983, subindo a mais de 200.000 unidades deste fuzil. Em 1997 foi apresentada uma versão local, denominada “MD97“, adaptada ao calibre 5.45 NATO. Hoje em dia, calcula-se que, entre todas as versões, as forças armadas e forças policiais brasileiras tenham por volta de 400.000 FAL em seus estoques – o que é uma quantidade surpreendentemente pequena, considerando que essas forças sobem – se computada a reserva de emprego imediato (reservistas com menos de cinco anos de baixa, sexo masculino e idade até 34 anos) – a mais de um milhão de efetivos::

20/10/2009

O redator insiste: só parece guerra, mas não é – é incúria geral, mesmo::

PARA gáudio da imprensa diária carioca e brasileira, o “crime organizado” dos morros da Cidade Maravilhosa conseguiu, afinal “derrubar um helicópetero”. Um AS350B2 do Grupo Aéreo e Marítmo da Polícia Militar do Rio de Janeiro foi abatido no sábado com um tiro, provavelmente de arma automática. De lamentável, principalmente a morte de dois policiais militares. A comemorar, o sangue-frio, espírito de sacrifício e (last but not least – ou sera o contrário?..) treinamento de primeira, demonstrados pelo piloto, que conseguiu evitar uma tragédia ainda maior, que seria a queda da aeronave sobre as pobres moradias dos trabalhadores, estudantes e donas-de-casa que nada tem com a história.

Até o momento, nenhum resultado pericial indicou o que realmente aconteceu. A aposta aqui do redator é que um projetil 7.62X51 mm NATO perfurou o tanque de combustível ou algum ponto sensível da turbina (o modelo 350B2 tem apenas uma). A primeira hipótese é a mais provável, em função do rápido incêndio que que tomou a aeronave logo após o pouso. De qualquer maneira, perícia de acidentes aéreos é coisa para peritos, e, sobre isso o redator não irá palpitar.

Mas de tiro, causa:: entende. Foi um tiro ao acaso? Quase com certeza – nisso o redator não apenas palpita, como aposta. Dificilmente o “crime organizado” teria em seu poder armas anti-aéreas (os motivos já foram explicados aqui no blogue mesmo). As armas do tráfico têm de ser relativamente fáceis de transportar e esconder. Esse é apenas um dos motivos. Querem outro? Todos quanto tiverem prestado serviço militar ou, pelo menos, estado perto de um fuzil-metralhador, sabem que usar um negócio desses é uma pedreira. Uma arma assim não é feita para disparar salvas singelas, mas apenas rajadas, o que a torna difícil de manter estável. Tomemos como exemplo uma das armas citadas pela reportagem do “vibrante matutino” carioca “O Globo”, a FN Herstal “MINIMI” 5.56X45 mm (arma do padrão NATO , usada também pelos EUA): pesa 7,5 quilos sem a munição, tem quase 80 centímetros de comprimento é feita, principalmente, para disparo parado, com o atirador deitado e o conjunto apoiado num bipé. Não é sem razão: sua função, como a de todo fuzil-metralhador, é dar apoio de fogo à esquadra de infantaria, nas mãos de um atirador especializado, geralmente mais “parrudo” que o resto da tropa (no Exército dos EUA, por algum motivo, esses caras são chamados de “Pig“). Só que a “MINIMI” não é uma arma contra aeronaves. O cartucho 5.56 NATO é muito pouco potente para lidar contra coisas minimamente protegidas – aeronaves ou veículos militares de blindagem leve (como, por exemplo, um Urutu ou um MOWAG). As armas anti-aéreas leves continuam operando munição 7,62 NATO.

O Exército Brasileiro não opera, até o momento, qualquer versão da “MINIMI“. Os Fuzileiros Navais adotaram, já fazem pelo menos dez anos, o calibre 5.56X45 NATO, e tem o M16A2 mod. 705 como arma-padrão e  a *M249 como fuzil de apoio de fogo do Grupo de Combate FN. Mais acessível a “usuários” do tipo que temos em mente seria a *MAG M1971. Trata-se de uma metralhadora leve de uso geral, calibre 7,62X51 mm. Num tripé, ou dotada de um bipé e operada por um atirador relativamente treinado (e muito forte…), essa arma, de mais de 11 quilos e aproximadamente 125 centímetros de comprimento, com cadência de fogo de até 1000 salvas por minuto. Essa é extremamente letal, num ambiente restrito. Aí sim, é perfeitamente possível derrubar uma aeronave. Só que o redator continua apostando que os “irregulares” que as forças especiais da PMERJ costuma a enfrentar, nessas ocasiões, não teriam cacife para organizar a estrutura necessária para defesa de ponto contra aeronaves. Se tivessem uma tal infra, poderiam perfeitamente botar o BOPE para correr. E não põem – pelo contrário, a lista de baixas foi de 10X0. Placar que, por sí, dá a quem entenda um pouco do assunto, diversas informações.

Mas, como em agosto (e sempre…), novamente os redatores “especializados” continuam entendendo profundamente do assunto. Além da “MINIMI”, outra arma citada, por exemplo, é uma metralhadora “.30″ “calibre 7.92X57″ ”fabricada na antigo República da Tchecoslováquia”, “com capacidade de tiro capaz de derrubar um helicóptero”. Pela madrugada! Certamente entre os seis leitores (contadinhos…) de causa:: não consta nenhum redator do “vibrante”. Vejamos:  a Lehky Kulomet ZB (de zbrojovka, “empresa“) vz 26 (modelo 1926) é uma metralhadora leve que se tornou um dos desenhos mais bem sucedidos do período entreguerras. Só que o calibre 7.92X57 nada tem com o “ponto trinta”: um é o antigo Mauser da Wehrmacht, o “IS” (Infanterie, Spitz), que, até onde se saiba, poderá ser conseguido em museus ou em fábricas de material bélico para colecionadores e re-enacters (que não deve ser a diversão preferida dos traficantes cariocas). Já o “ponto trinta”, o “.30-06″ Springfield, no jargão do exército dos EUA, ou 7.62X63 mm, foi o calibre utilizado em armas de infantaria dos EUA a partir de 1906 até os anos 1950. Ainda existe e é fácil de conseguir, pois grande quantidade de armas militares usa essa munição, inclusive as mal-fadadas “metralhadoras .30″, de que tanto falam os redatores do “vibrante”. O curioso é que essas armas poderiam estar mesmo nas mãos do tráfico carioca. O redator chato encontrou na Grande Rede uma lista de armamentos desativados e preparados para destruição, pelo Exército. Lá estão relacionadas pelo menos 100 CZs convertidas para o calibre 7 mm (o calibre do Exército até  a conversão para o padrão norte-americano, no início dos anos 1940). Também estão relacionadas nessa lista mais de mil (é isso aí – um milhar) *metralhadoras Browning dos modelos 1919A4 e M1919A6 (este último, uma preciosidade). Seria perfeitamente possível disparar uma arma dessas contra um helicóptero ou pequeno avião,  e destruí-lo. Ainda assim, o redator continua duvidando dessa possibilidade, pelos mesmíssimos motivos.

Pois então, a posição de causa:: continua a mesma de agosto – o problema não será resolvido pela pura e simples militarização da questão, e nem com o sacrifício disfarçado do estado de direito tão duramente conquistado, de modo a criar dois países – o nosso e o deles. O “vibrante”, hoje (19 de outubro), faz uma cobertura que procura analisar apenas o confronto – como se uma briga de bandidos pés-rapados fosse a invasão israelense contra a Faixa de Gaza (e certamente ninguém será, no caso, levado ao Tribunal Penal Internacional): quem dispõe de que tipo de armamento.Questões mais sérias, citadas apenas tangencialmente pela reportagem, não são sequer propostas para debate por quem as levantou. A mais séria dessas é a que coloca a possibilidade da ação de invasão de uma comunidade favelada bem no coração da cidade do Rio de Janeiro ter sido planejada dentro de várias penitenciárias federais de segurança máxima. Neste ponto, é bom citar o comentário de um dos seis leitores (contadinhos…) do blogue, o Luiz Candido.  Diz o LC: Não há como evitar a conclusão: não se trata mais de criminosos comuns, assim como o seu tipo de associação não é mais devidamente classificado em nosso código penal. Os conceitos usuais e o aparato jurídico disponível simplesmente não são suficientes para tratar de uma situação deste tipo. Devo dizer que continuo discordando. O fato de nosso código penal não dar mais conta das demandas da atual sociedade brasileira é um problema político, e assim tem de ser resolvido. Não será enquanto reús dos mais diversos artigos puderem ser eleitos para todos os níveis do poder legislativo; não será enquanto a venerável Ordem dos Advogados do Brasil continuar exigindo privilégios para seus membros, privilégios que acabam por beneficiar justamente os “organizadores” do crime organizado; não será enquanto os policiais, agentes penitenciários, defensores e promotores públicos não tiverem melhoradas ao máximo possível suas condições de trabalho; não será enquanto os trabalhadores, as mães, os estudantes – enfim, o povo das comunidades faveladas – não passarem a ser tratados como cidadãos, ao invés de um problema a ser resolvido com “… a arma Metralhadora Leve de dotação do Exército Israelense até que este desenvolvesse a IMI NEGEV…” (nem cortar direito um texto besta da Internet essa gente sabe – ô raça…) e com o “… caveirão do ar, o ‘helicóptero Huey’ II…” E, claro, com acusações de negligência e descaso para com o Rio, insinuadas contra o Exército Brasileiro. Este que, muito sabiamente, não quer colocar sobre a parte mais frágil do Rio de Janeiro um helicóptero de assalto tripulado por homens que vivem em constante estado de estresse. 

Analisar armamento e pegar as bobagens alarmistas de nossa imprensa é fácil. Difícil é oferecer respostas que nos façam a todos acordar do pesadelo de sábado passado::

17/10/2009

Cultura material militar::O afundamento do U869

O TEXTO que os seis leitores (contadinhos..) de causa:: poderão ler em seguida é de autoria do pesquisador naval e mergulhador norte-americano Harold Moyers. Ao que parece, foi escrito por encomenda da Guarda Costeira dos EUA. Essa corporação, normalmente  subordinada ao Departamento de Segurança Interna dos EUA  é, de fato, uma espécie de reserva de contingência da Marinha. Em tempos de paz, tem por função policiar as águas costeiras e adjacentes ao território nacional. Em tempo de guerra é colocada, no todo ou em parte, sob o comando da Marinha, não sem algum estresse. Na 2a GM, tal subordinação aconteceu a partir de 1 de novembro de 1941. A Guarda Costeira chegou a reunir 175.000 efetivos, dos quais quais mais de 80.000 compunham tripulações de  802 navios, dos quais 288 eram da Marinha, inclusive 30 CTEs (contratorpedeiro de escolta, navios de baixo custo, cerca de 1400 tons de deslocamento e velocidade máxima de uns 21 nós) e 75 fragatas de patrulha, principalmente na escolta de comboios atlânticos. Durante um desses ocorreu a história que é contada a seguir pelo pesquisador Moyers. Encontrei o texto no site da corporação, enquanto levantava material para os posts sobre submarinos alemães. A tradução procura respeitar ao máximo as idéias do autor, embora o redator tenha convertido alguns termos técnicos, como os postos das marinhas alemã e dos EUA, para seus equivalentes na Marinha Brasileira. Antes que esqueça: o trecho grifado ao final do texto está no original em inglês::

Na noite de 11 de fevereito de 1945, o CTE U.S. *Howard D. Crow, operado por uma tripulação da  Guarda Costeira dos EUA , dirigia-se no rumo de 143°S, a sudeste do canal Ambrose para o porto de Nova Iorque. O navio estava no mar havia 8 horas, e tinha se juntado à escolta do comboio CU 58. Os nazistas acabavam de fracassar em sua ofensiva terrestre na Europa Ocidental (a contra-ofensiva das Ardenas, mais conhecida como batalha do Bulge”), e as forças aliadas estavam então assegurando a vitória. Os Estados Unidos da América, intocado pelas bombas e emergindo como a maior potência industrial do mundo, era saudado como o “arsenal da democracia”; esse arsenal era transportado através do Atlântico por navios como aqueles que compunham o comboio CU 58.

Naquele estágio da Guerra, era quase suicídio atacar um comboio com escolta. A expectativa de  vida de um U-Boat era de duas patrulhas. Por volta  volta de1945, um submarino atacante poderia esperar afundar um navio apenas, antes de ser detectado. Poucos anos antes, a situação era completamente diferente. Os submarinistas alemães estavam estavam desfrutando do que eles chamavam “o tempo feliz”. Os comboios aliados estavam sendo maltratados por matilhas de submarinos. Esses ataques coordenados, geralmente à noite, eram eram conduzidos com sucesso ao longo de dias, nos vastos espaços abertos do oceano. Um marinheiro tinha razões para temer a aproximação do poente, e as perspectivas de sobreviver eram ralas, nas águas frias e escuras do Atlântico Norte. Tripulantes de navios de munição ou navios-tanques cheios de gasolina de aviação dificilmente sabiam o que os havia atingido. Para esses homens, a espera era pior do que o desfecho.

A virada da guerra era pouco reconfortante para os homens no CU 58. Navios ainda estavam sendo perdidos, embora numa taxa bem mais baixa que antes, e os tripulantes desses navios ainda congelavam até a morte entre os destroços. Os homens homens liam nos jornais que a guerra logo estaria acabada; eles vinham desafiando os atacantes, em alguns casos, por mais de cinco anos. Os marinheiros mercantes sofriam mais baixas que seus adversários dos U-Boats. Muitos sentiam o estresse de ter de repetir o desafio outras vezes, agora que o fim da guerra estava à vista. Já os homens do Howard D. Crow não sentiam que o fim estivesse assim tão próximo para eles. A invasão de Iwo Jima e Okinawa ainda os assombrava e a estratégia aliada da “Europe first” tinha deixado o inimigo japonês para os EUA enfrentarem, e esse inimigo parecia muito vivo. Para os homens do Crow e de outros navios de escolta, a recompense pelo duro trabalho no Atlântico seria mais trabalho duro no Pacífico.

A tripulação do submarino alemão U-869 se fez ao mar, dois meses antes, numa realidade diferente.  Eles se sentiam como como condenados. Aquela era sua sua primeira patrulha e não havia nenhuma expectativa de que retornassem à base como heróis, ao som de  fanfarras e com belas garotas  admirando os pendões de vitória que flutuariam sobre a vela. Os U-Boats tinham tinham “>abandonado as agradáveis bases francesas e  recuado para as novas e áridas bases da costa norueguesa, onde onde ficavam constantemente sob ataque. As vitória eram raras e os pendões comemorativos, mais mais raros ainda. Eles tinham partido de Kristanstand, na Noruega, em 5 de dezembro de 1944, buscando um ponto no oceano algumas centenas de milhas several ao sul da Islândia, a partir do qual seriam direcionados, por mensagens codificadas de rádio, para sua estação de patrulha. Em 29 de dezembro de 1944, o Comando de Submarinos enviou uma mensagem para que se posicionassem ao largo da costa de Nova Jersey. A ordem foi retirada quando o U-869 respondeu que estava com pouco combustível. O jovem comandante do navio, capitão-tenente Hellmut Neuerburg, tinha sido particularmente cauteloso em sua viagem até o ponto destacado. Neuerburg, de 28 anos, estava em sua primeira patrulha de combate e, sem dúvida os numerosos retratos de comandantes de barcos perdidos, nas paredes do rancho dos oficiais, o tinham alarmado. Ao invés de tomar a rota entre a Irlanda e a Islândia, Neuerburg decidiu cruzar pela trilha mais longa, porém menos patrulhada, ao sul da Groenlândia. Daí seu baixo suprimento de combustível. O Comando de Submarinos o redirecionou para as proximidades do Estreito de Gibraltar, onde ele teria mais tempo para operar em patrulha. Ele era esperado de volta em 1 de fevereiro de 1945.

Ao entardecer do dia 11 de fevereiro de 1945, o tempo estava encoberto e fazia um calor inesperado. Sobre o mar calmo, uma brisa de leste se fazia sentir. O capitão-tenente John Nixon comandava o Crow, e o segundo-tenente I. G. “George” King era seu oficial de guerra anti-submarina (ASW – Anti-Submarine Warfare – Officer, em inglês). As 16:39 o operador de sonar, Howard Denson, avisou, aos berros, sobre um forte  contato de sonar. Este era uma máquina que produzia um ruído agudo sob a água, e então analisava o eco de retorno. Um bom operador operador aprendia a distinguir um objeto de metal do fundo do oceano ou de um cardume. Denson era um bom operador, membro da guarnição original do Crow. Como a maioria dos operadores, ele conhecia bem seu equipamento de sonar, conforme testemunhava a cada vez mais desigual Batalha do Atlântico. O contato tinha sido tão forte que o oficial ASW King, mesmo antes das ordens do comandante, determinou preparativos imediatos para um ataque com o lançador “hedge hog”. Um “hedge hog” era uma arma  anti-submarina especial, instalada na coberta de proa do CTE. Disparava 24 foguetes adiante do navio. No lançador, os foguetes pareciam um porco-espinho, um “hedge hog”, como diziam os ingleses. Cada foguete  entregava uma cabeça de combate de 17,2 quilos que detonava por espoleta de contato. Os foguetes caíram na água e rapidamente afundaram até explodir, ao atingir o fundo de areia.

O CTE aproximou-se do alvo submerso  às 16:53, quatorze minutes após o primeiro contato. O marinheiro de primeira classe-carpinteiro Robert Quigiy estava na coberta inferior à ré do Crow. Ele não sabia do ataque até que os foguetes foram disparados. Pelo menos um deve ter detonado e a violência da explosão foi tamanha que que o marinheiro Quigiy pensou que tinham tomado um torpedo. Ele correu para a coberta superior a tempo de testemunhar o surgimento de uma língua de óleo sobre a superfície do mar. “O que está acontecendo?” perguntou ao artilheiro Ted Sieviec. Sieviec era seu companheiro de beliche e tinha participado da ação com o hedge hog. “Estamos atacando um submarino”, foi a resposta.

O Crow imediatamente pediu ajuda. O CTE USS *Koiner respondeu ao chamado e dirigiu-se  para noroeste, alcançando o Crow depois de 27 quilômetros em velocidade máxima. Também foi  dirigido ao CINCLANT (Comandante-em-Chefe do Atlântico) um requerimento para o envio de um Grupo de Caça e Destruição. Esses grupos grupos eram formados por navios mais pesados, normalmente um *NAE (navio-aeródromo de escolta) e contratorpedeiros de esquadra. Uma vez alcançado o teatro, esses grupos caçavam o alvo pelo tempo que fosse necessário, até destrui-lo. O Crow e o Koiner  solicitaram a intervenção do GCD pois  precisavam retornar às suas posições na escolta do comboio o mais depressa possível. A ausência deixava os mercantes vulneráveis ao ataque de algum outro submarino que estivesse à espreita.

O Crow continuou  ataque enquanto esperava pela substituição. Às 17:17 quatro cargas de profundidade foram lançadas sobre um contato que se movia vagarosamente. Esse ataque resultou em bolhas de ar e mais óleo aparecendo na superfície. Vinte e cinco minutos depois outras três cargas foram lançadas, e mais bolhas e óleo surgiram no mar. Às 18:00 o Koiner chegou e juntou-se ao ataque, que agora era feito contra um alvo estacionado sobre o fundo do mar. Com a retirada do Crow, o capitão-de-corveta Judson, do Koiner atacou o alvo imóvel três vezes, cada ataque ataque resultando em mais óleo sobre na superfície, embora o contato continuasse imóvel. Judson ordenou que uma lancha fosse lançada e que um oficial investigasse as águas escuras sobre o local do ataque. A lancha recolheu óleo  e retornou ao Koiner. O comandante Judson ordenou que ambos os navios retornassem às suas posições junto ao comboio CU 58. Às 17:26 os dois CTEs colocaram-se à caminho, e Judson classificou o contacto como não sendo um submarino, e CINCLANT foi notificado que o GCD não era mais necessário. A tripulação do Howard D. Crow, decepcionada, não conseguia  acreditar no julgamento do comandante, pois cargas de profundidade lançadas a esmo não produzem bolhas de ar e trazem óleo à superfície. Eles sentiam nas tripas que tinham pegado um submarino. No relatório da escolta do CU 58, o evento evento “ataque a um destroço submarino ou coisa do gênero”. O evento deu-se em um ponto inexato do oceano, mais-ou-menos nas coordenadas 39.30 N, 72.58 W. Sessenta anos anos depois do ataque, Charles Judson, então com 92 anos, ainda recorda aquela noite. “Eu acho que atropelamos um destroço, que não se moveu durante todo o tempo do ataque”. O comboio CU 58 cruzou o Atlântico sem outros incidentes.

 Depois da guerra, uma pesquisa exaustiva foi feita, para determinar o destino de cada um dos U-Boats alemães. A iniciativa visava, em parte, estabelecer a quem seria creditado cada afundamento. Cada pesquisa levava em conta informações de variadas fontes, mas principalmente o Diário de Atividades da Costa Oriental (os registros de atividades navais do comando da Marinha dos EUA), bem como fontes alemãs. Especialistas envolvidos nas pesquisas anotaram o ataque realizado pelos CTEs Howard D. Crow e Koiner , mas se  mostraram inclinados a levar em conta o relatório do comandante Judson.O Comando de Submarinos da Kriegsmarine mantinha  cuidadosos registros, e  nenhum U-Boat era dado como  operando ao largo de Nova Jersey em fevereiro de 1945. O navio de Hellmut Neuerburg, o U-869, figurava como tendo naufragado ao largo de Gibraltar. Essa era sua área de patrulha e a Marinha alemã registra que diversas tentativas de contato falharam. Depois da guerra foram encontrados três registros de ataques após contatos na região de Gibraltar, nos quais o alvo foi dado como afundado. Esses registros estrabelecem um ataque em 28 de fevereiro de 1945 pelo *USS Fowler, junto com o CS (caça-submarinos) francês L’Indiscret. Esse ataque f oi dado como classe “B” (provável).

Quarenta e seis anos depois, um grupo de mergulhadores de profundidade especializados em explorar destroços no Atlântico fez uma descoberta inacreditável: umsubmarino alemão Tipo IX. Os mergulhadores liderados por John Chatterton, fizeram um cuidadoso trabalho para identificar o navio. A história foi contada no livro Shadow Divers. Os mergulhadores, a começar por Chatterton, e também Richie Kohler e John Yurga, tinham um problema inversamente diferente daquele que os pesquisadores navais tinham tido, depois do fim da guerra: os primeiros tinham um U-Boat afundado sem ataque; os últimos, um ataque sem U-Boat. Os dois conjuntos de informação não se ligavam, ainda que o registro do ataque e o destroço encontrado estivessem bem perto um do outro. Os registros oficiais da Marinha não falavam em ataques no período de fevereiro de 1945. Os alemães diziam que não havia submarines no local, naquela época. O barco tornou-se um mistério e, em seu característico bom humor, Chatterton passou a chamar seu achado de “U-Who”.

Em 1997, Chatterton conseguiu tirar dos destroços uma etiqueta que solucionou o mistério do destroço: era mesmo o U-869. Uma cuidadosa análise de registros de Inteligência naval  indicou que talvez o submarino não tenha  recebido a mensagem que ordenava seu deslocamento para Gibraltar e, obviamente, continuou em curso para a costa de Nova Jersey. Mas por que ele afundou? O trio de mergulhadores levantou a teoria de um possível torpedo desgovernado: o submarino teria disparado um torpedo que se desgovernou e acertou o próprio barco.  Aquela altura da guerra, os U-Boats levavam torpedos acústicos que buscavam ruídos de hélices em alta rotação. Esse tipo de armamento era primariamente defensivo, e, em teoria, uma escolta em alta velocidade, atacando um submarino poderia ser destruída pelo disparo desse tipo de torpedo. O problema é que esse armament mostrou-se pouco confiável, e a principal razão para que essa teoria tenha sido aceita é o fato de que especialista da Marinha Britânica, depois de ver filmes feitos nos destroços chamaram atenção para o grande buraco na sala de controle do submarino, que seria muito maior do que os provocados por cargas de profundidade. Outra razão era, simplesmente – o que mais poderia ter afundado o navio? Os registros não apontavam um ataque nessa área. A teoria do “torpedo desgovernado” decolou. O mais notável é que o submarino não tinha um, mas dois danos: havia também um grande buraco na coberta superior, à altura da sala de torpedos. Esse dano, a teoria do “torpedo desgovernado” não explicava.

É uma falácia dizer que somente um torpedo poderia ter causado os danos observáveis no U-869. Um impacto de torpedo não poderia ter feito dois grandes buracos separados por uma distância de mais de 17 metros. A cabeça de combate de um torpedo alemão tipo T-5 levava 274 quilos de alto explosivo. Uma carga de profundidade norte-americana Mark 7 “lata de lixo” levava quase a mesma coisa (240 quilos). A razão pela qual os torpedos quase sempre produzem mais danos é a proximidade da detonação. As cargas de profundidade lançadas pelo Crow estavam reguladas para explodir a mais-ou-menos 60 metros de profundidade. Muitos membros da tripulação lembram que, durante o treinamento, acontecido ao largo de Corpus Christi, Texas, eles regulavam  as cargas de profundidade para explodir a menos de 20 metros de profundidade. O resultado era, com freqüência, danos sérios em navios navios em folha, que tinham de voltar para o dique, para reparos. A partir de então, as cargas cargas passaram a ser reguladas para explodir o mais fundo possível, e a regulagem de 60 metros, dada a profundidade do lugar, fazia sentido. O U-869 encontra-se pousado sob 70 metros de água, e o diâmetro do casco é de pouco menos de 7 metros, o que significa que uma carga de profundidade pode ter detonado junto do casco de pressão. Isso pode esplicar a distância entre os dois buracos no casco do U-869. Junte a esses danos, 40 anos sendo espancado por pesos de 10 toneladas usados nas redes de pesca oceânica e veremos que não é tão absurdo que os buracos tenham resultado de cargas de profundidade. Aqueles que conhecem destroços subaquáticos freqüentemente encontram navios reduzidos a um monte de metal retorcido.

O U-869 está assentado a 8,3 quilômetros do lugar onde o Crow e o Koiner atacaram. Naquele tempo, a navegação não era uma ciência exatamente exata, e, no mar, oito quilômetros é uma distância bem pequena. Se, após a guerra, os pesquisadores navais tivessem sabido da presença de um submarino na área, em fevereiro de 1945, certamente teriam examinado os relatórios dos CTEs mais cuidadosamente. O fato mais interessante sobre o ataque do Crow/Koiner é exatamente a data, 11 de 1945. O U-Boat tinha relatado sua chegada à posição de 56.21 N, 26.45 W, em 6 de janeiro. Nesse ponto, a jornada tinha sido de 3834 quilômetros, desde a Noruega, ou quase 128 quilômetros por dia. O Comando de Submarinos da Kriegsmarine esperava que a  unidade se posicionasse próximo a Gibraltar em 1 de fevereiro de 1945. Isso dá a distância de 3278 quilômetros, o que resulta nos mesmos 128 quilômetros por dia. O U-Boat, entretanto, nunca alcançou Gibraltar, mas um ponto ao largo de Nova Jersey, cuja distância era de 4500 quilômetros, desde a Noruega. Registrando 128 quilômetros por diateria levado 35 dias para alcançar o lugar onde afundou. Essa data poderia ter sido o dia 11 de fevereiro, ou seja, o dia exato do ataque dos CTEs norte-americanos.

À luz dessas novas informações, um outro fim pode ser estabelecido para o U-869. Chegando à sua área de patrulha, nas movimentadas águas da costa de Nova Jersey, o navio logo detectou o som de um comboio. Navegando abaixo da superfície, seus motores diesel aspirando ar através de um tubo schnorkel, o U-869 tentou se posicionar na rota de aproximação do comboio CU 58. Repentinamente, o operador dos hidrofone captou o som da aproximação de navios de guerra movendo-se rapidamente. O jovem comandante buscou águas profundas. A detonação de um “hedge hog”  levou o pânico à tripulação, conforme o U-Boat deslizava pelo fundo. Embora gravemente danificado, o submarino continuou ativo, tentado livrar-se; foguetes “hedge hog” não são suficientes para destruir um U-boat de 1.120 toneladas de deslocamento. O submarino move-se lentamente pelo fundo quando o Crow lança suas cargas de profundidade. É impossível saber qual dano ocorreu primeiro, o da sala de torpedos de vante ou o da sala de controle. Ambos podem ter sido instantânea e catastroficamente fatais. O comandante Judson estava provavelmente correto em dizer que os CTEs tinham atacado um destroço – só que era um destroço com pouco mais de uma hora e meia de existência.

É muito provável que o ataque de 11 de fevereiro de 1945 tenha sido responsável pelo afundamento do U-869. O ataque provavelmente frustou a interceptação do comboio CU-58.  Já é tempo de dar a esses idosos heróis o reconhecimento que eles merecem::

16/10/2009

Cultura material militar::Elektroboote e seus sucessores::Parte2

DENTRO DAS POSSIBILIDADES cada vez mais restritas do redator-fanático por tecnologia militar, causa:: continua contribuindo para a extensão da cultura submarinística dos seis leitores (contadinhos…). Continuaremos tentando fazer um resumo útil da história dos submarinos modernos, que, como muito do que existe hoje em dia, começou na 2a GM. POR SINAL, os seis leitores ainda não se manifestaram em torno da proposta de um blogue específico sobre as leituras::de::causa:: Já sei até mesmo a primeira série de livros e sites a serem resenhados – e são todos muito bons, porque o redator não perde seu precioso tempo com porcaria::

parte2Durante boa parte da guerra, os submarinos, tanto alemães quanto das outras potências, eram cópias melhoradas dos que tinham atuado na 1ª GM. De fato, eram, em todos os sentidos, “torpedeiros submersíveis”, herdeiros de um tipo de *vaso de guerra de superfície, o “torpedeiro”, concebido este em torno de uma grande inovação surgida no último quartel do século 19 – o torpedo automóvel, uma arma naval que,  por meio de um motor movido a ar comprimido, levava uma carga de explosivos de uns 100 quilos até um alvo, acontecendo o deslocamento abaixo da superfície da água. A novidade era que a carga de combate atingia o alvo em uma área abaixo da linha d´água, onde os vasos de guerra não eram protegidos por blindagem. Um problema adicional era que os canhões dos vasos de guerra da época não atiravam em elevação negativa – ou seja, não havia,  em 1876, quando os primeiros torpedos funcionais entraram em serviço, defesa contra a nova arma.

A questão da entrega do torpedo era outra historia. Os “barcos topedeiros” eram vasos rápidos, manobráveis e que deviam operar baseados nessas capacidades. Funcionaram até que surgiram os canhões de tiro rápido, e depois, por volta do final do século 19, os contratorpedeiros. Mas, a essa altura, o submarino já aparecia como a melhor solução para colocar torpedos no alvo. A furtividade do novo tipo de navio de guerra poderia compensar a baixíssima velocidade e capacidade de manobra. Em resumo: o submarino (cujo primeiro modelo efetivo, o USS Holland, foi adquirido pela Marinha dos EUA em 1900) poderia aproximar-se do alvo sem ser visto.

Durante a navegação de superfície, um submarino tinha (e ainda tem) sua flutuação garantida pela relação entre a flutuabilidade do casco de pressão (que é fixa) e do casco externo (que varia), prevalecendo esta última. Assim, já fica claro: um submarino tem dois cascos. O “casco de pressão” (ou “casco interno”) é uma peça de formato cilídrico feita de aço especial e outros metais de alta resistência, onde ficam a tripulação e os sistemas do barco. O interior dessa peça é totalmente estanque. O “casco externo” é o conjunto de superfícies fixas que envolvem o casco de pressão. Sua flutuabilidade varia por causa de espaços abertos entre os dois, chamados “tanques de lastro”. Esses tanques são abertos na parte inferior e, para manter o conjunto na superfície da água, comportam grande quantidade de ar. A imersão se dá através da abertura de válvulas (chamadas “suspiros”) que permitem a saída do ar desses espaços e a entrada controlada de certa quantidade de água do mar. Essa manobra torna a flutuabilidade negativa e o submarino afunda. A manobra submersa acontece pela impulsão fornecida pelos motores/hélices, pela movimentação de superfícies de controle (hidroplanos e lemes) e pela inundação controlada de tanques de balanço (pequenos tanques de lastro situados adiante e atrás dos tanques de lastro principais).

A geração de submarinos que surgiu em 1907 permanecia a maior parte do tempo na superfície, navegando como um navio comum. Imergia por curtos períodos, em geral para aproximar-se, furtivamente, do adversário.

A aproximação final, ou “engajamento”, era lenta e tinha limites determinados pela reduzida autonomia subaquática. Isso se dava pelo fato de que, quando submerso, o submarino dependia, para funcionar, da quantidade de energia elétrica acumulada em baterias. A  baixa capacidade de acumulação das baterias da época não permitia muito tempo sob a água. Na superfície, o uso de motor diesel para o deslocamento, além de acionar o eixo “do hélice” (no jargão naval, “hélice” é um substantivo masculino) aciona um dínamo que gera corrente contínua, acumulada em células acumuladoras, feitas de chumbo (chamadas “eletrodos”), ácido sulfúrico e água destilada encapsulados. Um número que podia variar entre 55 e 120 células formava baterias, que alimentavam um motor elétrico de potência. Um submarino da 2a GM levava a bordo duas ou três baterias, distribuídas for duas “salas de baterias”. Cada bateria podia pesar de 370 a 600 quilos e o conjunto constituía entre 8 e 16 por cento do deslocamento total do barco. Esses dados são importantes porque o número de baterias determina não só o tempo de submersão como também a velocidade máxima que poderá der alcançada. Na 2ª GM um submarino tipo VII C ficava mergulhado por até três dias, desenvolvendo uma velocidade de uns 4 nós (uns 7 km/h). Em condições extremas, podia desenvolver 17 nós (31 km/h) por uma hora (a mesma velocidade que desenvolvia na superfície). Normalmente, submerso, manobrava a até 10/11 nós (18,5/20 km/h) por cerca de 4 a 5 horas.

O número de unidades de acumuladoras era assim, fundamental para o desempenho do barco. Havia, entretanto, outros entraves. O principal era o fato de que, sendo um “torpedeiro submarino”, a maior parte do deslocamento era feita na superfície, o que exigia que o desenho do casco externo seguisse os parâmetros obedecidos para um navio de superfície – que é um sistema híbrido. Em barcos de superfície, parte do casco fica o tempo todo em contato com a água e outra parte, com o ar da atmosfera. A resistência contra a água é conseguida não apenas pela potência do motor, mas também pelo desenho das “obras vivas”, as partes do casco que negociam com o fluído (também chamadas de “carena”). As “obras mortas” são todas aquelas que estão acima da linha d´água, ou seja, criam atrito com o ar. Num “torpedeiro submarino”, os torpedos são apenas parte do armamento; na superfície, o barco terá de levar canhões e  metralhadoras instalados em posições sobre o casco externo, sendo que os franceses tentaram, no período entreguerras, instalar canhões  de 203 milímetros em torres blindadas. Assim, um submarino do período pareceria uma lancha torpedeira de costados muito baixos e relação desproporcional entre boca (largura de qualquer seção transversal do casco de uma embarcação) e comprimento. 

Os submarinos alemães eram geralmente dotados de um canhão de 88 ou 105 milímetros, anti-navio, um bateria AAe de 30 milímetros e reparos para metralhadoras 7.92 mm. Como todos os outros submarinos, combatiam a maior parte do tempo na superfície. Até mesmo o lançamento de torpedos acontecia, freqüentemente, com o navio emerso, e os canhões eram usados sempre que possível. Era frequente que um submarino, impossibilitado de fugir sob a água, subisse a superfície para lutar, o que era um problema, devido à sua baixa reserva de flutuabilidade. Dificilmente um submarino conseguia ganhar de um vaso de superfície, mesmo dos pequenos (um contratorpedeiro de escolta, por exemplo).

Essa fraqueza condicionou as táticas adotadas pelos U-boats (corruptela em inglês de Unterseeboote, ou “barco submarino”, em alemão) na 2a GM.  O grande confronto entre submarinos e navios de superfície foi a “batalha do Atlântico”, cujo objetivo era interromper o fornecimento de provisões e material bélico para a Inglaterra. No início, os submarinos pareceram ter grande chance de êxito. O problema é que o Grande Almirante Raeder, chefe da Marinha de Guerra e que, na 1a GM, tinha sido oficial de cruzadores, insistiu longo tempo na doutrina de que os grandes navios de superfície eram decisivos na guerra naval. A força de submarinos, durante certo tempo, disputou material e pessoal com os navios de superfície, resultando daí que o número de unidades não era suficiente para conseguir uma vitória completa. O auge da luta deu-se entre meados de 1942 e meados de 1943. No mesmo período, os navios de superfície não corresponderam às expectativas e os submarinos, em pequeno número, tiveram a relativa vantagem de pegar os aliados (ingleses e canadenses, principalmente) de surpresa. A guerra submarina foi lançada de modo irrestrito, o que contrariava as “leis da guerra”. A experiência já tinha sido feita no período final da Grande Guerra, com resultados impressionantes e grande polêmica. Na Segunda Guerra, a Marinha Alemã declarou que não respeitaria as “leis do corso”, que implicavam na abordagem, revista e desembarque da tripulação do navio mercante suspeito, o que anulava totalmente a vantagem do submarino. O ataque a navios mercantes no mar, sem aviso prévio rendeu bem, mesmo depois que comboios passaram a ser organizados. O número de vasos de escoltas disponíveis era desesperadamente baixo e, mesmo depois de 1940, quando pequenos navios fabricados no Canadá diminuíram o deficit, a queda da França colocou os submarinos em posição de vantagem. O estabelecimento de bases em Brest, Lorient e outros portos da costa atlântica francesa permitiu às unidades alemãs ganhar o Atlântico sem passar pelos campos minados no estreito da Dinamarca. Submarinos “de esquadra” (oceânicos) passaram a operar nas águas profundas do Atlântico, o que lhes dava a vantagem da ”surpresa tática” - as escoltas de cruzadores, contratorpedeiros e vasos menores sabiam que eles estavam lá, mas não sabiam a hora e a direção do ataque, o que impedia os “comodoros” (oficiais comandantes do comboio) de posicionar adequadamente seus navios. Os alemães não demoraram a aperfeiçoar formas de explorar esse ponto fraco no sistema de comboio. Novas táticas recolhiam informações de vários submarinos e de aviões de reconhecimento e coordenavam grupos de até 15 unidades, que atacavam articuladamente – essa tática foi denominada wolfpack (“matilha“) e passou a ser usada em 1941.  As “matilhas” atacavam à noite, na superfície. Como os submarinos, emersos, eram mais manobráveis do que as escoltas, e, quando a “matilha” era bem coordenada superava o adversaário em número, os efeitos dessa tática foram devastadores. O problema é que o novo comandante da Marinha de Guerra, Grande Almirante Dönitz não contava com número adequado de unidades - ainda que, entre o final de 1941 e meados de 1942 o tráfego entre Inglaterra e Canadá tivesse quase sido interrompido.

Não vamos nos estender mais sobre o assunto, já que existem muitas ótimas descrições da 2a GM na Internet. O que nos importa é que, no que diz respeito à guerra submarina, qualquer possibilidade de vitória alemã estava diretametne condicionada por (1) sua capacidade de colocar barcos no mar e (2) sua capacidade de formar tripulações. Uma patrulha durava, em média, de dois a três meses, após os quais o barco retornava à sua base para reparos. O ideal seria que a patrulha seguinte fosse realizada por outra tripulação, mas os alemães não tinham capacidade de treinar recrutas em número suficiente e em prazo adequado. Ao contrário de combatentes de terra, o combatente naval é um profissional especializado e sua formação demanda tempo. No início da guerra, construir um submarino levava de seis a oito meses, mas um submarinista só ficava “pronto” em cerca de dois anos – quatro, se fosse oficial; com necessidade de colocar mais unidades no mar, depois de 1940, e a elevação drástica das baixas, depois de 1942, o prazo foi sendo paulatinamente diminuído até chegar a seis meses para praças e um ano para oficiais. Conforme os “ases” iam desaparecendo em combate, a Marinha ficava sem instrutores com experiência para passar e inspiradores com sucessos a relatar.

A questão principal, entretanto, foi mesmo a superioridade industrial dos norte-americanos. Já na primeira metade de1941, a Lend-Lease Bill garantia à Inglaterra suprimentos de armas e materiais. Isso aconteceu  junto decisão dos EUA de ampliar a “Zona de Segurança” ao largo da costa atlântica do país e a decisão, concomitante, de coordenar a  segurança da navegação aliada no Atlântico Norte (essa decisão constituiu, de fato, a entrada do país na guerra). Essas medidas, embora não tivessem consequências imediatas, melhoraram a posição da Grã-Bretanha, até então, desesperada.

A partir de então, a corrida foi entre o lançamento de navios mercantes (em 1941 e 1943 foram perdidos mais de 2000 barcos no Atlântico Norte), navios de escolta, por um lado, e submarinos, pelo outro. No auge da campanha submarina, a Marinha de Guerra mantinha em torno de 60 submarinos em patrulha, sendo que 40 estavam no Atlântico Norte.  Outros teatros (o Báltico, o Caribe, a costas africana e, depois de 1942, a costa brasileira) eram considerados secundários e geralmente usados como campo para treinamento de novas tripulações.  Mas o que realmente venceu os U-boats foi a guerra tecnológica.  

No caso dos alemães, o período 1940-1943 viu surgir certas inovações de construção, que tornaram os submarinos mais eficientes. Os cascos passaram a ser produzidos em novos materiais, que diminuiam o peso do conjunto sem perder em resistência, e soldados eletricamente, a pressão, substituindo as unidades que os tinham blindados e rebitados. Esses métodos tornaram a construção mais rápida. O surgimento de baterias pressurizadas também diminuiu o peso desses componentes, aumentando-lhes a eficiência; torpedos mais eficientes, impusionados a ar e com espoletas de proximidade (explodiam debaixo do alvo, aumentando a possibilidade de afundamento) tornaram os ataques mais letais. 

Ainda assim, as escoltas, lentamente, começaram a levar vantagem. Navios menores, concebidos exclusivamente para combater submarinos; patrulhamento aéreo de longa distância, sistemas de deteção aperfeiçoados (radares, sonares, hidrofones direcionais e até mesmo binóculos noturnos) e a enorme vantagem tática obtida com a quebra dos códigos navais alemães elevaram as baixas de submarinos e de tripulações experientes – essas impossíveis de se substituir. Em 1942, a Alemanha afundou 1100 navios mercantes (cerca de 6 milhões de toneladas) e 92 de guerrra, contra 87 perdas; em 1943, as baixas somaram 237 submarinos e mais de 10.000 tripulantes.

O principal submarino oceânico ainda era o Tipo VII, que embora obsoleto, era mantido em produção na falta de algo melhor. A principal questão, segundo constatou um estudo feito pelo Alto-Comando da Marinha de Guerra (OKK, em alemão), era o  fato de que os submarinos tinham de operar na superfície. Enquanto tinham a vantagem da superioridade numérica e da surpresa tática, essa desvantagem era plenamente compensada. A partir do momento em que o adensamento dos comboios passou a juntar 200 navios mercantes e  até 50 escoltas, dotadas inclusive de pequenos porta-aviões (chamados de “navios-aeródromos de escolta”) capazes de lançar até 15 aeronaves de reconhecimentos centenas de quilômetros à frente dos comboios, a situação mudou. Os submarinos passaram a ter de operar a maior parte do tempo submersos, realizando os ataques com base na aproximação e lançamento de torpedos por periscópio, ou com apenas a vela acima d´água. Isso diminuiu de forma dramática a possibilidade de sucesso. Mesmo assim, o surgimento de radares de ondas ultra-curtas, instalados em aeronaves de longo alcance (sistema chamado de H2S) podia frustrar mesmo um ataque conduzido dessa forma, visto que, dependendo da situação do mar, a escolta voadora conseguia “ver” a vela e até mesmo o periscópio ou os tubos “snorkel”. Assim, quando, em maio de 1943, a perda de 43 submarinos obrigou o alto-comando a chamar todas as unidades de volta às bases – o que na prática significava o fim da “batalha do Atlântico”, essa situação não era tão surpreendente.

A resposta? Os alemães tentaram – e conseguiram – reinventar o “torpedeiro submarino” e transforma-lo num tipo de navio de guerra totalmente novo. O “mês negro” da campanha submarina foi também aquele em que o futuro foi apresentado::

 

08/10/2009

Tecnologia naval::Elektroboote e seus sucessores::

Ainda estamos no mês dos submarinos, e causa::, no interesse da cultura submarinística de seus seis leitores (contadinhos…), introduz um assunto que certamente contribuirá para que esses famosos “poucos” possam assessorar, caso necessário (e sempre é…) a grande imprensa, quando nossos vibrantes editores resolverem falar mal do governo recorrendo a temas quetais. É um assunto longo e fascinante. Assim, vamos dividi-lo em três partes, de modo a aprofundá-lo ao máximo. Como o redator (nunca generoso o suficiente para compensar a paciência dos “poucos”) pretende que esse tema se articule aos “Submarinos brasileiros” ( você não é um dos poucos, veja aqui, aqui e aqui), esse texto deve ser lido em conjunto, se possível, antes de uma nova leitura do outro. Divirtam-se, pois::

Parte1A Alemanha entrou na guerra em setembro de 1939 com uma máquina militar em todos os sentidos, discutível. Já apontamos, aqui no blogue das boas causas, como a pusilanimidade das potências ocidentais permitiu que uma liderança sem escrúpulos e plena de ousadia, escorada numa máquina militar de porte apenas mediano e preparação discutível, nocauteasse a Europa e, por um par de anos, encostasse o mundo nas cordas. A vantagem alemã, se sabe atualmente, era uma concepção inovadora de como fazer a guerra e como usar equipamentos conceitualmente inovadores – basicamente o motor a combustão interna e o avião.

Dentre as forças armadas alemãs, a marinha de guerra era, de longe, a mais fraca. Os motivos pelos quais um regime militarista tão agressivo abriu mão do controle dos oceanos é fácil de entender, embora a explicação seja complexa – de modo que abriremos mão de nos enfronharmos nela. Na guerra anterior, uma “corrida naval” travada a partir de 1906 com a Inglaterra resultara numa enorme esquadra de batalha que, no fim das contas, permaneceu “engarrafada” nas águas costeiras do Báltico, tendo travado apenas uma grande batalha naval – a batalha da Jutlândia – em que, embora conquistasse uma vitória tática, permaneceu estrategicamente em xeque. Pelo tratado de Versalhes, a Alemanha não poderia mais ter armas ofensivas, e a enorme esquadra foi dividida entre os vencedores ou simplesmente afundada. A partir do programa de rearmamento de 1935, um ambicioso plano naval projetava que, entre 1947 e 1949, a Alemanha teria uma esquadra de superfície capaz de se opor à Grã-Bretanha e superior à da França. Esse plano, denominado “Plano Z”, foi abandonado em 1939, pouco antes do início das hostilidades. Foi considerado por Hitler como um desperdício de material, potencial industrial e humano. Entretanto, até o final de 1940, a Marinha de Guerra (Kriegsmarine) fazia parte do plano estratégico geral do Reich. Os navios de superfície já construídos ou em fase de incorporação foram mantidos dentro de uma concepção de disputar com os soviéticos a superioridade no Báltico e de manter o controle das águas do Mar do Norte adjacentes à Península da Escandinávia. O desempenho pífio na batalha da Noruega (onde foi perdida a quarta parte da esquadra de superfície de primeira classe) acabou levando ao abandono completo do que restava do re-aparelhamento naval.

Nessa época, a Marinha de Guerra dispunha de 57 submarinos organizados em seis esquadrões, dentre os quais 32 eram do tipo “de esquadra”, com capacidade de patrulha oceânica. Os outros 25 eram do tipo costeiros de 250 toneladas de deslocamento. O limitado número de unidades disponíveis (em junho de 1940 estavam em patrulha seis unidades) limitava a possibilidade de que pressão eficaz fosse exercida pela arma submarina. Em março de 1941, a disponibilidade de 30 novas unidades e a aceleração da produção permitiu que a Alemanha lançasse uma campanha muito intensa contra a navegação oceânica da Grã-Bretanha, iniciando o conjunto de ações que passaria a ser conhecido como “Batalha do Atlântico::

29/09/2009

Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::Intervenção em Honduras::

AF-1-Skyhawks

Piloto no cockpit de um McDonnell Douglas A4M "Skyhawk" do esquadrão VF1, da Aviação Naval da Marinha Brasileira

O assunto foi sugerido pelo Luís Cândido, um dos seis leitores (contadinhos…) de causa:: A hipótese: a crise em Honduras se agrava; os distúrbios de rua se tornam cada vez mais sérios e o “governo de fato” considera a presença de Manuel Zelaya na embaixada brasileira uma ameaça à seguridad nacional. O “presidente de fato” fala, publicamente, em invadir o prédio da legação brasileira, para prender o albergado, caso nosso governo brasileiro não tome uma posição quanto ao status de Zelaya. Nessa situação, até que ponto as FA brasileiras estariam capacitadas para uma intervenção em Honduras, para garantir a integridade dos membros da legação e dos cidadãos brasileiros?

Embora a hipótese seja um tanto absurda (o Brasil tem tradição de, historicamente, buscar soluções negociadas em contendas com outros países), a pergunta é fácil de responder: uma operação dessas é de realização impossível. Em primeiro lugar porque,  provavelmente, no dia em que os EUA permitirem uma intervenção militar estrangeira em seu perímetro metropolitano de defesa, fará uma manhã fria no inferno. Mas, já que estamos especulando, digamos que o inferno tenha refrescado e eles permitissem… Ainda restaria perguntar o que Hugo Chavéz e seus aliados bolivarianos na América Central pensariam do assunto. Chavéz teria de ser consultado, o que, possivelmente acabaria, de vez, com o sossego de Lula, diante da oposição interna. Além das dificuldades diplomáticas, uma potência militar de terceira classe, como é o caso do Brasil, não tem recursos materiais para montar operação de tal complexidade. Uma intervenção assim ou seria uma operação de Forças Especiais ou uma convencional. Considerados ambos os casos, faltam ao país e às FA os meios necessários. Mas vamos deixar a coisa mais divertida e considerar a loucura maior: uma intervenção convencional. A Marinha de Guerra não tem meios para transportar, de uma vez, uma mini-força expedicionária, (“mini” mesmo…): um batalhão de infantaria mecanizado (cerca de 750 efetivos) do Exército, uma unidade de desembarque dos fuzileiros navais com duas companhias reforçadas (uns 500 efetivos) e as unidades de apoio necessárias (engenharia, manutenção, saúde, etc.). Como comparação, o deslocamento de forças do tipo da Minustah (“Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti”), com pouco mais de 1200  efetivos (um batalhão do Exército reforçado por uma companhia de Fuzileiros e unidades de engenharia e saúde) foi feito em etapas. No caso de uma operação de guerra (coisa que a Minustah não é concebida para realizar), todo o efetivo teria de ser transportado de uma vez. Seriam pelo menos 2500 homens (isso para uma operação de pequeno porte). Os problemas começariam antes mesmo de que a mini-força de invasão se colocasse a caminho. Honduras é um pequeno país da América Central, mas, ainda assim, é banhado por dois oceanos: o Golfo de Honduras e Mar das Caraíbas (por onde possui fronteira marítima com a Colômbia), ficam no Atlântico, e a costa lá é aberta e pouco recortada; no Pacífico, o golfo de Fonseca implicaria em passar pelas cercanias de El Salvador e Nicarágua (um exame detalhado do mapa de Honduras é possível aqui).  Embora Tegucigalpa seja relativamente próxima da região do golfo de Fonseca (uns 250 quilômetros, por estrada pavimentada), por essa via, a FT brasileira teria de cruzar o Canal do Panamá. A opção mais viável seria o Atlântico. Caso conseguisse chegar até a costa de Honduras sem maiores percalços (o que é duvidoso), a força principal, uma vez em terra, teria de se deslocar até Tegucigalpa, pois, nessa opção, a capital hondurenha fica bem para o interior. Imaginando que seja possível desembarcar em algum ponto entre as cidades de Trujillo (576 quilômetros de Tegucigalpa) e La Ceiba (403 quilômetros), essa força, sendo mecanizada, teria um monte de caminhões  – uns 70, pelo menos, levando em conta que, em combate, um caminhão médio transporta 16 infantes e seu equipamento. Os caminhões seriam para a infantaria de campanha; a força de choque, com efetivo de companhia (120 combatentes) deve ser equipada com veículos blindados ”Cascavel“ e “Urutu“  em númedo de 30 ou mais unidades.  Também estariam no inventário canhões de campanha rebocados, defesa anti-aéreos e veículos especializados (postos de comando, suprimentos, apoio e manutenção e ambulâncias). Isso daria, por baixo, uns 150 veículos. Deixando de lado as questões “de onde sairia o combustível?” e “os hondurenhos não vão tentar se defender?’ (dados sobre o exército de Honduras aqui, em inglês…), uma força dessas constitui uma coluna com acima de mil metros de extensão, e tem de ser desdobrada (ou seja - 1. nem todo mundo entra em combate; 2. os que entram, não entram todos ao mesmo tempo; 3. os que estão em combate não se deslocam todos ao mesmo tempo nem na mesma direção). Além disso, um contingente teria de ficar na cabeça-de-praia, garantindo a permanência da FT – o que implicaria montar uma pequena base temporária. De mais a mais, Tegucigalpa é uma cidade de um e meio milhão de habitantes, que se espalha por uma área de 100 quilômetros quadrados. Um batalhão reforçado de infantaria motorizado não ocupa uma cidade assim, por menores que sejam as possibilidades que o país tenha de se defender… Agora, vamos ao problema mesmo: Honduras tem a maior força aérea da região, que possui 12 F5E fornecidos pelos EUA no final dos anos 1980 e A37 Dragonfly, aeronaves de contra-insurgência obtidas dos EUA (algumas informações e fotos sobre as FA de Honduras, aqui ou aqui, se você lê inglês). O armamento inclui certa quantidade de mísseis Sidewinder. Não se sabe a disponibilidade do equipamento - que não deve ser grande coisa – mas a principal base fica exatamente na cidade de La Ceiba – a poucos minutos de vôo da hipotética cabeça-de-praia. Mesmo que a FAH tenha seu equipamento em regime de disponbilidade média, e apenas três dúzias de pilotos de combate razoavelmente treinados, constituiria uma dor-de-cabeça para a força agressora, principalmente durante o deslocamento. Os A4 da Marinha (que, por aqui, são chamados AF1 – um ótimo ensaio sobre essa aeronave, aqui) dificilmente poderiam enfrentar os F5E de Honduras – ainda que os pilotos brasileiros sejam reputados como excelentes – visto que não dispõem de outro armamento que não sejam os dois canhões internos de 20 milímetros. Ainda assim, é certo que não conseguiriam se manter em ação a partir de um NAe (“navio-aeródromo”, no jargão da Marinha, ou seja, “porta-aviões”) durante mais de 10 dias. E isso se a FT incluísse um número de navios de apoio que a Marinha Brasileira não dispõe. E, principalmente: uma força militar não opera a partir de navios durante tempo prolongado – precisa de bases em terra. O exemplo citado pelo Luís, da força expedicionária inglesa no Atlântico Sul, constitui uma situação totalmente especial num contexto bastante específico. E essa força foi montada por uma potência (ainda que, como disse ele, secundária), capaz de colocar no mar mais de 40 navios de uma vez. Mesmo assim, não fosse o apoio dos EUA, nem teriam chegado à metade do caminho::

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