Causa::

17/09/2009

Direto da Guerra Fria::SSN classe Akula

Ainda estamos no mês dos submarinos brasileiros – e a polêmica não diminuiu em nada, pelo contrário, aumentou, com a colocação política da França como pole-position para fornecer aeronaves de 5a geração apra a FAB. Mas Segunda-feira é dia de “rapaz”, mas o redator encontrou algo que, no momento, parece mais interessante: uma relíquia da Guerra Fria, mas que talvez possa enriquecer um pouco mais a “cultura submarinística” dos agora seis leitores  (contadinhos…) de causa:: Senhores, conheçam o mais espetacular submarino de ataque jamais construído: a classe “Schucka” (“pique”, uma longa lança usada no fim da Idade Média por tropas a pé, que revolucionou a arte da guerra), nome-código para a OTAN, “Akula” (“Tubarão”, em russo). Não se deve confundir essas  naves com a classe “Tufão”, essa composta por submarinos de patrulha:: 

Os “Akula” surgiram em 1986. A classe é dividida em três subtipos (dados gerais para os “Akula II” aqui), e não são submarinos de patrulha, ou seja, plataformas de lançamento de mísseis balísticos (SSBN, no jargão na Marinha dos EUA), mas *submarinos de ataque (SSN, no jargão na Marinha dos EUA). Sua função principal seria caçar submarinos de patrulha dos EUA; secundariamente, teriam por função atacar vasos de guerra de alta velocidade. Somente em condições especiais seriam lançados contra a navegação mercante. Deslocando mais de 7500 toneladas na superfície e 9100 quando em mergulho, a classe incorporou um sistema de casco duplo composto por um casco interno de pressão e um casco externo mais leve. Esse sistema, o mesmo adotado pelos SSBN da classe “Tufão”, tornou possível aos projetistas desenhar o casco exterior (o casco de imersão) como uma carenagem, de maneira a torna-lo mais hidrodinâmico, o que resultou numa nave muito veloz e extremamente manobrável, quando submersa. Já foram reportados submarinos dessa classe deslocando-se a cerca de 36 nós sob a água.

Submarino nuclear de ataque classe "Akula II", fotografado nas proximidades das Ilhas Sakhalina. O desempenho, em termos de manobrabilidade e velocidade, dessa classe de naves, é superior sob a água do que na superfície.

Submarino nuclear de ataque classe "Akula II", fotografado nas proximidades das Ilhas Sakhalina. O desempenho, em termos de manobrabilidade e velocidade, dessa classe de naves, é superior sob a água do que na superfície.

O principal armamento dessa classe de naves são 4 tubos de 533 mm e 4 de 650 mm. O inventário de vetores  varia de torpedos Tipo 53, de 533 mm, torpedos *Tipo 65, de 650 mm, mísseis superfície-superfície Novator RPK2 Viyugo (SS-N-15 “Starfish”, no jargão da OTAN, com alcance de aproximadamente 45 quilômetros) e Novator *RPK-6 Vodopei (SS-N-16 ”Stallion”), ambos mísseis de cruzeiro anti-navio com capacidade de transportar ogivas de explosivo nuclear. Os torpedos anti-navio e anti-submarino, com alcance de até 100 quilômetros, são disparado pelos tubos de 650 mm. Já os de 533 mm são de menor alcance. Mísseis superfície-ar podem ser disparados através dos tubos de 533mm.

As classes “Akula Reforçado” e ”Akula II” receberam mais 6 tubos de  533 mm montados no casco externo, que não podiam ser recarregados depois de usados. A baixa disponibilidade dos torpedos Tipo 65 fez com que os soviéticos acrescentassem aos tubos de 650 mm um equipamento que capacitava essas plataformas a utilizar armamento fabricado para os tubos menores. Os tubos de 650 mm também podiam ser usados para lançar minas.

Um dos aspectos distintivos dos “Akula” é o enorme bulbo situado à ré do casco, na posição do leme. Essa estrutura contém um sonar que, lançado a reboque, pode aumentar o grau de varredura e fazer diminuir a interferência dos ruídos de deslocamento do próprio barco, quando em alta velocidade.

Outra vista de um "Akula II" na superfície. Note a estrutura do sonar rebocado, tipo de "abertura sintética".

Outra vista de um "Akula II" na superfície. Note a estrutura do sonar rebocado, tipo de "abertura sintética".

O subtipo ”Akula Reforçado” era, de fato, uma melhoria dos “Akula I”, que recebeu sistemas eletrônicos mais modernos, notadamente um sonar de abertura sintética. Mas o subtipo “Akula II”, surgido no início dos anos 1990 era, de fato, uma nova classe, cuja principal novidade era um sistema de diminuição de ruídos. Um novo tipo de sonar foi incorporado, totalmente gerenciado por processadores, e considerado como tendo a mesma performance dos equivalentes norte-americanos. Um outro ponto que, na época, deixou muito apreensivos os planejadores navais do Ocidente foi o fato de que os “Akula II”, submersos, eram mais silenciosos do que seus equivalentes norte-americanos da classe “Los Angeles”. Embora uma série de teorias conspiratórias atribuam os avanços soviéticos à uma suposta colaboração involuntária dos japoneses, ao vender à URSS, no início dos anos 1990, sistemas de desenho computadorizado (CAD) de última geração, de fato a Marinha da URSS vinha se desenvolvendo de modo notável desde os anos 1960. Foi a época em que o almirante-de-esquadra SergeyGorshkov revelou-se um dos maiores pensadores navais surgidos no pós-guerra.  Alçado ao comando da força por Nikita Khrushchev, logrou, a paratir de então, convencer as lideranças soviéticos a fazer pesados investimentos em todos os tipos de equipamento e infra-estrutura. Essa política de longo alcance tornou a URSS, no fim dos anos 1960, uma potência naval global. Assim, os avanços soviéticos na técnica de abafamento de sons subaquáticos explica-se no contexto do desenvolvimento geral da tecnologia naval naquele país.

Depois do fim da União Soviética e da crise econômica que se seguiu, um acordo entre EUA e Rússia implicou na desativação dos submarinos de patrulha da classe *“Tufão”. Os “Akula I” também foram desativados, mas os “Akula Reforçados” e “Akula II” não só continuaram em serviço como foram melhorados.

Em 2008, naves da classe “Akula” se tornaram os únicos submarinos nucleares já exportados. A ìndia arrendou um “Akula II” por período de 10 anos, com opção, ao término, para compra de duas unidades. Informes divulgados no Ocidente dão conta de que o submarino deverá ser entregue no final deste ano. Os indianos estão desenvolvendo o próprio submarino nuclear, mas o projeto tem sofrido sucesivos atrasos, de modo que o arrendamento foi considerado uma solução aceitável. A China também estuda a aquisição de duas unidades::

12/09/2009

Recordar é viver::Anos 70:Deténte, SALT e outros quetais::

Parte 2/2:: Não parece fazer sentido, mas fazia, na conjuntura da época. Significava admitir, por via transversa, a afirmação feita, muitos anos antes, por Winston Churchill, de que “uma nação não tem amigos, tem interesses”, e que a busca desses acaba por criar tensão. Pragmaticamente, as nações poderiam viver em tensão permanente, desde que fossem criados e aperfeiçoados mecanismos para que esse estado de coisas fosse mantido sob controle.

Para definir essa visão política, a tal pessoa de 1968 poderia usar uma expressão criada algum tempo depois pela diplomacia brasileira: “pragmatismo responsável”. A comparação faz todo o sentido. O projeto brasileiro, na época, de “potência emergente”, recusava mecanismos que implicassem na aceitação a priori das estruturas do

poder em nível internacional – embora visasse sua reprodução, tanto quanto possível, no interior do país. Defendia a diplomacia brasileira que o Brasil tivesse reconhecidos seus interesses. Nesse sentido, uma das linhas prioritárias da política exterior foi a “correção de rumos” nas relações com os EUA, visando a colocá-las em bases vistas como “mais realistas”. Os conflitos que fatalmente surgiriam deveriam ser encarados como decorrência do relacionamento entre estados soberanos na defesa de seus interesses nacionais. De fato, esse “pragmatismo” era o mesmo que os arquitetos do sistema de poder internacional admitiam como inerente às relações entre as grandes potências. A política internacional não deveria ser excessivamente pragmática a ponto de deixar-se dirigir pelo cinismo, mas também não deveria ser ditada pelo moralismo, sob pena de tornar-se ineficaz ou mesmo temerária. Por outro lado, reações como a do Brasil, na época sob regime autoritário de extrema direita, freqüentemente aplaudido pelos EUA, indicavam as tensões que poderiam resultar dessa linha pragmática de relações internacionais.

Havia, claro, motivos que podem ser considerados, mais do que pragmáticos, práticos, para que fosse adotada uma política de busca da estabilização. No início dos anos 1970, o panorama econômico já não era tão favorável, para os EUA. O longo ciclo de prosperidade apontava o próprio fim. O horizonte internacional não é feito apenas de silhuetas de tanques, aeronaves e mísseis balísticos. É feito também de fábricas, minas, entrepostos de comércio e casas bancárias. A fase excepcional pós 2ª GM, a “Era do Ouro” da visão anglo-americana começava a perder o brilho. Os 25 anos anteriores a 1970 tinham sido estupendos, até mesmo para a URSS e seus parceiros.

O surto de crescimento econômico parecia mundial – embora não fosse. Durante algum tempo, pareceu até mesmo que, economicamente, os regimes socialistas estariam levando vantagem. Nos anos 1950, a URSS e a Europa Oriental cresciam mais rapidamente do que o Ocidente. Até mesmo o Terceiro Mundo colheu rebarbas desse surto: nos 20 anos entre 1950 e 1970, a fome continuou endêmica na África e em certas partes da Ásia, mas diminuiu; a população do Terceiro Mundo dobrou, e na América Latina, mais do que isso; a expectativa de vida aumentou, em média, 7 anos – em certas regiões, 10 anos ou mais. Entretanto, a “Era do Ouro” foi, sobretudo, enganosa, até mesmo para os observadores mais argutos. Aquela pessoa de que falo, se pertencesse à emergente classe média brasileira, teria chances que seus pais jamais teriam sonhado: acesso amplo è educação, um sistema de saúde pública relativamente estruturado, pleno emprego e subsídios à mancheias. Cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro eram, de certa forma, miniaturas em crescimento da economia mundial. Essa pessoa certamente não saberia que os EUA estavam crescendo menos do que seus parceiros europeus e japoneses, e que URSS e seus clientes industrializavam-se rapidamente sem que a industrialização significasse melhorias visíveis de padrão de vida. No mundo socialista, cidadãos bem formados e saudáveis olhavam com inveja para a liberdade e afluência de suas contrapartes ocidentais. Já no Ocidente, os cidadãos dirigiam-se para suas residências subsidiadas, cheias de bens de consumo financiados, em automóveis movidos a combustível excepcionalmente barato. Ouviam rock no rádio e, em casa, se revoltavam diante das notícias sobre as ditaduras latino-americanas e asiáticas, fossem de direita ou de esquerda. Entretanto, nenhum deles duvidava que, dentro de dez anos, a vida seria a mesma. E que, dentro de dez anos, ainda estariam debaixo do guarda-chuva nuclear norte-americano, desfrutando da vantagem adicional de orçamentos de defesa ridiculamente reduzidos em relação ao tamanho que tinham alcançado as economias de seus países.

O fato é que, durante a Guerra Fria, as superpotências assumiram o ônus da defesa de suas esferas de influência. Em ambos os lados, a expansão do chamado “complexo industrial-militar” foi exponencial, mesmo diante do notável crescimento econômico geral. Ainda que os estados ocidentais tenham desviado mais recursos para o buraco estéril dos gastos militares, não o fizeram na proporção de EUA e URSS. No longo prazo, essa opção, decorrência da opção pela estabilidade, seria fatal para a URSS e teria conseqüências notáveis para os EUA: estes trocaram força militar superior por enfraquecimento econômico crescente, frente aos aliados que se viam na obrigação de defender.

Mas não foram esses os motivos que levaram os líderes mundiais a uma improvável mesa de negociações, no início dos anos 1970. De um lado, o dos EUA, foi a condução do problema de como continuar a Guerra Fria quando esta “guerra sem barulho” deixasse, na frente interna, de ser popular – e ela era popular exatamente porque não tinha barulho, nem mortos. Passou a ter no final da década, em função de um conflito localizado, do tipo que deveria ser mantido “empacotado” pela busca da estabilidade. Em 1968, esse brasileiro da classe média que estou imaginando saberia exatamente de que guerra se tratava: o Vietnam.  

No lado soviético, foi o problema de como lidar com o fato de que o bloco comunista, desde meados da década de 1960, já não apresentava a unidade que a “justeza da causa proletária no mundo” deveria solidificar. Ao contrário, as duas potências do bloco socialista tinham deixado de se entender muito antes, em função de diferenças ideológicas e da recusa chinesa em alinhar-se aos interesses soviéticos. Comunistas russos e comunistas chineses andaram, em 1969, se estranhando, ao longo da enorme fronteira entre os dois países. Dois exércitos “vermelhos” foram postos frente a frente, o que até então parecia inimaginável. Mais inimaginável ainda foi o perigo de que a briga por uma ilhota fluvial insignificante degenerasse e um confronto nuclear. Certamente a China não era páreo para a URSS, apesar de dispor de certa quantidade de armas estratégicas. Em 1968, em torno de 300 dos 2000 ICBMs disponíveis pela URSS tinham sido programados para voar em direção à China, e um exército soviético de quase um milhão de efetivos, dispondo de capacidade nuclear tática estava posicionado nas fronteiras sino-soviéticas. Segundo análises da época, o Exército da República Popular da China era mal-treinado, mal-equipado e pior comandado; não dispunha de artilharia e blindados suficientes nem de apoio aéreo, e sua logística era baseada em animais de tração, e, por mais incrível que possa parecer, em braços humanos.

É provável que fosse verdade, e talvez a realidade fosse até pior. Anos antes, o próprio Mao Tsé-tung, o “presidente Mao”, “Grande Timoneiro” da revolução socialista, tinha deslanchado a “grande revolução cultural proletária”, golpe político destinado a compensar a perda de poder observada em função do fracasso do “grande salto para a frente” (eufemismo para a coletivização da agricultura) de 1958-1961. A Revolução Cultural revelou-se uma maluquice tenebrosa, e desorganizou a sociedade chinesa e suas instituições, inclusive o exército. Em 1951, as disciplinadas forças chineses, armadas e treinadas pelos soviéticos desequilibraram a guerra da Coréia, obrigando o Exército e o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA a uma humilhante retirada que quase degenerou em confronto nuclear; em 1968, jovens soldados agitando um livrinho vermelho e disparando para cima suas armas, o “Exército do Povo”, não admitiam a supremacia dos oficiais e impunham “decisões democráticas”. A hierarquia militar, “desvio burguês inaceitável”, foi quase abolida, e os comandantes até o nível de regimento eram escolhidos pela tropa; as grandes unidades e corpos de exército continuavam tendo seus comandantes designados, o que na prática não significava nada, visto que as decisões eram tomadas em “conselhos populares”.

O problema soviético não era, pois, a China, mas o partido que os adversários norte-americanos tomariam, no caso de um confronto entre as duas potências comunistas. Os EUA seriam um aliado desejável, embora a situação da “frente interna” também não era nada fácil. Estavam atolados até o pescoço em uma guerra que deveria ter sido resolvida “em alguns meses, no máximo em um ano”, segundo o general comandante – e, em 1969, isso já fazia mais de 4 anos. Todos os dias a televisão colocava dentro dos lares americanos um vasto cardápio de revolta e contestação, das universidades ao guetos urbanos, dos festivais de rock às Olimpíadas. A juventude ocidental, inclusive – por incrível que pareça, até mesmo a norte-americana – mostrava-se seduzida por líderes como Mao Tsé-tung e Ernesto “Che” Guevara.

Se o problema da URSS não era a China, mas a perspectiva de problemas com os EUA, o da China era estar cercada por dois inimigos poderosos e agressivos – a URSS e a Índia – e um imprevisível – o Japão (nos quais os chineses nunca confiaram).

E, naquela altura, China e EUA tinham alguns pontos em comum. O primeiro deles era a preocupação com a União Soviética, aos olhos de ambos cada vez mais ameaçadora. Em 1968, a rápida mobilização e deslocamento de tropas motorizadas e aerotransportadas contra a Tchecoslováquia lançara uma sombra de preocupação sobre a Europa Ocidental. A invasão fora o primeiro movimento da “doutrina de Brejnev: os países socialistas da Europa (leia-se URSS) teriam direito de intervir em qualquer país que se julgasse no direito de romper o compromisso “democrático” e “político” com o marxismo-leninismo. Em 1967, a União Soviética tinha alcançado a paridade com os EUA, em termos de armas estratégicas. Embora os EUA ainda tivessem alguma vantagem em ogivas múltiplas e mísseis lançados se submarinos, os soviéticos dispunham de mais mísseis, com ogivas de maior poder destrutivo (por exemplo, ogivas termonucleares de 40 megatons, enquanto as dos EUA eram, na maioria, de 2 a 5 megatons).

O Vietnam era outro interesse comum. Aos governantes e ao establishmenth militar norte-americanos aquela se tornaram uma guerra infeliz, na qual aproximadamente 800.000 militares das três corporações lutavam contra fantasmas, ao custo de 40 bilhões de dólares e 12.000 mortos somente em 1968. Nixon queria sair dela, mas não de maneira humilhante. Para os chineses, a “guerra de libertação” do Vietnam e das guerrilhas comunistas já não parecia um ganho político, diante da ameaça soviética. Além do mais, os Guardas Vermelhos tinham, apenas uns dois anos antes, desorganizado o país e obrigado Mao a intervir para deter o caos que se espalhava pelo país.

Assim, EUA e China tinham pontos que os aproximavam, e restaurar a ordem interna era o primeiro deles. Sair do Vietnam, para os norte-americanos significa apaziguar a frente interna; para a China, garantir uma posição favorável diante da URSS.

O caminho estava aberto. Em 1971, Henry Kissinger realizou uma visita secreta a Pequim, na qual ouviu de Chu En-lai que a China faria o que fosse possível para ter Nixon numa visita ao país.

E teria. Cerca de um ano depois. E o mundo não seria mais o mesmo…::

19/07/2009

O mês da Coréia::Um análise estratégica ampliada::

Parte 3 Então, já sabemos que a República Democrática do Povo da Coréia é uma potência militar média e tem uma quantidade enorme de artilharia de todos os tipos. Entretanto, é curioso como a imprensa trata a República da Coréia como uma pobre Guatemala indefesa diante de Hugo Chavez… Não é exatamente o caso. De fato, temos relativamente pouca informação sobre a Coréia do Sul, tirante, é claro, os carros Hyundai, televisões LG e monitores Samsung, mas isso, convenhamos, é pouco. 

Do fim da Guerra da Coréia até os anos 1990, a República da Coréia evoluiu, de um país totalmente dependente, para a própria defesa, de acordos bilaterais, para uma situação de desenvolvimento auto-sustentado e considerável capacidade militar. Ao contrário da República Democrática do Povo da Coréia, as indústrias civis sul-coreanas mantêm linhas de produtos militares como partes separadas e menos importantes de suas atividades corporativas, mas suficientes para manter suas forças armadas totalmente atualizadas com equipamento local de altíssima qualidade.

A independência econômica e militar da República da Coréia remonta à participação na Guerra do Vietnam. Em 1965, o ditador sul-coreano, general Park Chung-hee, decidiu aceitar o pedido de Washington por tropas para o teatro do SE Asiático. Inicialmente, foram despachadas unidades de combate de pequenas proporções, num total de 5.000 efetivos, em caráter experimental. Em fevereiro de 1966, os norte-americanos se comprometeram, através de um termo de compromisso denominado “Memorando Brown” (em função do embaixador dos EUA em Seul, Winthrop G. Brown), a financiar a modernização do exército da República da Coréia, em troca de um maior envolvimento dessa última na guerra indochinesa. O documento, de 14 pontos, não era muito claro em determinar as obrigações norte-americanas, mas especificava uma força sul-coreana que deveria alcançar, em três anos, aproximadamente 300.000 efetivos. Como resultado, os EUA cederam armamentos pesados e rifles M-16 para as tropas sul-coreanas, que funcionaram como cobertura de retaguarda para o exército dos EUA. Nesse meio tempo, começaram uma série de provocações norte-coreanas, culminando com uma tentativa de  tomar o palácio presidencial, em 21 de janeiro de 1968, e o ataque e aprisionamento do navio-espião Pueblo, da Marinha dos EUA. Uma série de incidentes ao longo da ZDC envolvendo tropas dos EUA em mais de uma oportunidade, atravessou todo o ano de 1969. Em abril, uma aeronave de contramedidas eletrônicas EC-121 acabou sendo derrubada sobre o Mar do Japão. Esse período passou a ser conhecido como “Segunda Guerra da Coréia”. O envolvimento sul-coreano no Vietnam, entretanto, tornou-se uma realidade, e em 1972, quando as unidades começaram a ser retiradas, estavam em operação por volta de 200.000 sul-coreanos. Mais de 5.000 deles morreram em combate.

Temendo o surgimento, na Coréia, de um novo Vietnam, o governo dos EUA resolveu atender os apelos dos parceiros sul-coreanos por maior articulação em termos da segurança local. Foi acordada maior colaboração militar com a República da Coréia, assim como assistência para implementar a economia local. Ainda assim, o ditador sul-coreano, antevendo uma possível futura crise, decidiu adotar uma postura mais ativa em relação à defesa nacional. O surgimento da “Doutrina Nixon”, na qual o governo dos EUA, atolado numa crise econômica, postulava que as nações aliadas assumissem maior participação na própria defesa, foi outro momento decisivo: em 1971 a retirada da península, de uma divisão do exército dos EUA pareceu confirmar a importância da estratégia nacional de Park.

Ainda assim, em setembro de 1971 o governo dos EUA assinou um plano no valor de 1,5 bilhões e dólares, destinado a prover, num período de cinco anos, a reestruturação e modernização das forças de defesa da República da Coréia. Esse plano foi visto como decorrência da diminuição radical do aparato militar norte-americano na região. Foi a primeira grande mudança nas forças armadas sul-coreanas desde a Guerra da Coréia.

A situação sul-coreana, na época, era no mínimo curiosa. Park Chung-hee, um general do exército que havia sido oficial do Exército Imperial Japonês e depois da guerra, militante do Partido dos Trabalhadores da Coréia (chegando a ser condenado à prisão perpétua, por traição, em 1949), tomou o poder em 1961, depois de um curto período de agitação política que se seguiu à tentativa de Singman Rhee em assumir um quarto mandato presidencial resultante de uma eleição claramente fraudada. Exilado Rhee, uma junta militar sob comando de Park assumiu e rapidamente fixou-se no poder, conquistando apoio da classe dirigente e da classe média através de um programa de “moralização da vida nacional”, que removeu da vida pública todos os funcionários civis e militares considerados corruptos. Um “Supremo Conselho para a Reconstrução Nacional, com 32 membros, era o principal órgão dirigente do país. O principal projeto da junta era a construção de uma economia próspera baseada em uma “grande revolução humana”. Uma das primeiras providências foi o fechamento da Assembléia Nacional e a substituição de funcionários civis por militares.

Tendo assumido o poder, Park começou uma série de manobras para manter-se no comando do governo, sob normas de exceção e uma aparência de democracia. Um de seus primeiros atos de governo, em junho de 1961, foi a criação de uma “Agência Central de Informações da Coréia” (KCIA, em inglês), com função de polícia política. A Agência estendeu, em 1962, seus poderes aos campos da economia e das relações internacionais, por inspiração do coronel Kim Chong-p’il. Parente da esposa de Park, o coronel revelou-se um planejador original e criativo conspirador político: acabou sendo um dos principais atores do golpe que, em 1979, acabou custando a vida do ditador.

Os planos da junta militar não deram resultados imediatos, o que começou a desgastar a imagem da junta militar. Para piorar, a KCIA envolveu-se em vários escândalos financeiros e políticos. Os militares respondiam prometendo preparar o retorno à normalidade civil – desde que os políticos ligados ao sistema anterior não participassem do processo. Em março de 1963, Park anunciou um referendo popular para decidir se a junta deveria permanecer no poder por mais quatro anos. A intensa oposição interna era esperada, mas a antipatia dos EUA foi um fator com que Park não contava. O referendo foi cancelado.

 Ao contrário de Rhee, que tentava fazer da Coréia do Sul uma potência regional, com o apoio dos EUA, em detrimento do Japão e da China Comunista, o general tentou adotar uma política pragmática: normalizou as relações com o Japão em 1965 e regularizou, no mesmo ano, a situação das forças norte-americanas na península como “convidadas”.

Park usou a aparente estabilidade e a posição estratégica da Coréia como moeda de troca para trazer investimentos externos para seu país. Interessados em estabelecer medidas de contenção para a expansão comunista na Ásia, os EUA autorizaram o Japão a fazer grandes investimentos na península, enquanto garantiam a segurança da área, investindo no desenvolvimento das forças armadas locais.  O governo de Park, entretanto, proibiu a presença de empresas japonesas em território nacional, estabelecendo a política dos chaebol, conglomerados industriais privados que recebiam empréstimos subsidiados do governo, desde que seguissem as regras econômicas e políticas vigentes. Algumas desses conglomerados tornaram-se empresas gigantes, atuando em toda a cadeia produtiva.

Uma reforma agrária foi promovida e, ao mesmo tempo, a classe média rural era incentivada a estabelecer residência em centros urbanos. Uma mão-de-obra qualificada, formada através de programas de educação universal e valorização da competência e o fluxo de investimentos japoneses, coordenado pelo governo, acabaram criando, na segunda metade dos anos 1970, um parque industrial impressionante, voltado para a exportação de produtos semi-acabados para o Japão e os EUA. Ao mesmo tempo, o governo militar incentivava a expansão de universidades locais e de programas de pós-graduação no exterior. O resultado foi a sofisticação da indústria local, que se tornou produtora de tecnologia de ponta. Nos anos 1980 e 1990, a Coréia do Sul tornou-se um dos maiores economias exportadoras do mundo.

Esse surto explosivo de desenvolvimento econômico e a urbanização acelerada acabaram criando tensões políticas, com forte influência de pequenos movimentos estudantis e sindicais extremamente combativos tentando conquistar espaço à força de reivindicações de democratização, que eram postergadas pelo governo sob a justificativa do “perigo interno e externo”. Em 1971, Park tentou uma grande jogada política: interessado em permanecer no poder, declarou “estado de emergência nacional”, em função de manifestações de estudantes e trabalhadores nas grandes cidades. Em julho do ano seguinte, em meio à crise política, anunciou, num espantoso comunicado conjunto com Kim Il-sung, ditador stalinista da Coréia do Norte, planos para a unificação da península. Foi um magnífico tiro no pé. Manifestações de todas as colorações explodiram por todo o país. O projeto foi abandonado rapidamente, em função da oposição dos EUA, e ao fato de que, aparentemente, Kim Il-sung não conseguiu apoio da URSS e da China para levar a proposta adiante.     

Em 19 de abril de 1973, o general Park, enquanto acompanhava exercícios militares, divulgou o propósito de estabelecer uma estratégia militar independente e desenvolver as forças militares. Os projetos decorrentes dessa diretiva, desenvolvidos pela Junta de Chefes de Estado Maior resultaram em Diretrizes para um Programa de Modernização do Equipamento Militar para cada umas das corporações militares, integrados e, um Plano de Defesa Nacional de Oito Anos (1974-1981), aprovado pelo chefe do governo em fevereiro de 1974.

Nessa época, a situação política do país tornava-se cada vez mais tensa. A situação econômica da Coréia do Sul era delicada, em função da crise mundial do petróleo, que tinha feito retrair os investimentos japoneses no país. A instabilidade criou brechas no sistema de governo, sem que os atores envolvidos chegassem a um consenso sobre o que fazer. Park governava através de sucessivas decretações de estados de emergência, mas a oposição não dava sinais de esmorecer. Em 1979, como a situação econômica só fizesse piorar, conselheiros próximos de Park Chung-hee o instavam a ceder a algumas das reivindicações do movimento de oposição estudantil e reduzir a repressão. A discordância entre as principais figuras do governo acabou resultando, por incrível que pareça em um tiroteio, acontecido durante uma reunião de cúpula no refeitório da sede da KCIA, em 26 de outubro de 1979. Nesse incidente, Park e o diretor da agência de informações perderam a vida. O desaparecimento do ditador e de parte de seu staff abriu um vácuo de poder, e o período posterior foi de competição entre setores dominantes, em meio a levantes estudantis, indisciplina militar e intranqüilidade social. Alguns anos se passariam até que a situação viesse a se estabilizar::

15/07/2009

O mês da Coréia::Uma análise estratégica ampliada::

Parte 2 O grosso das forças terrestres da Coréia do Norte está posicionado na região imediatamente adjacente à ZDC, em posição de ameaçar o Comando das Forças Combinadas e a cidade de Seul. Especialistas ocidentais estimam que setenta por cento do efetivo total (700.000 soldados, 2.000 tanques e 8.000 sistemas de artilharia de todos os tipos) encontre-se à distância máxima de 150 quilômetros da linha de demarcação. Mesmo durante as conversações entre os dois países, o número de tropas não parou de crescer. Informes de inteligência dão conta de 4.000 instalações subterrâneas: depósitos, centros de comando e comunicação, alojamentos, hospitais e facilidades de manutenção; no país inteiro calcula-se que sejam mais de onze mil. Essas instalações, totalmente aprovisionadas, permitem um ataque quase de uma hora para outra.

Entretanto, a maioria do inventário à disposição de forças armadas norte-coreanas remonta aos meados dos anos 1950, quando o Exército Popular foi reconstruído. Por outro lado, a força terrestre não tem experiência de combate e não realiza manobras conjuntas nem mesmo com seu principal aliado, a China Comunista. Boa parte do equipamento, em alguns aspectos, se assemelha ao set de um filme de guerra antigo (talvez sobre a Guerra da Coréia…). O Exército Popular, em julho de 1953, era estimado em 263.000 efetivos. Informes de inteligência de 1968 davam conta de 350.000 ou mais, crescimento acompanhado por uma série de mudanças organizacionais. Foram formados cinco grupos de exército. Nessa época, observou-se forte aproximação com os soviéticos, o que resultou no surgimento de unidades de defesa anti-aérea dotadas de mísseis e canhões controlados por radar. Artilharia de campanha moderna começou a ser vista nos desfiles militares da data nacional. Tanques *T-54 e *JS-2/3 também foram reportados em maior número, além do surgimento de canhões autopropelidos *SU-76. Esse aumento no poder de fogo no EPRDPC foi atribuído ao envolvimento crescente dos EUA na região.

O Exército Popular foi reorganizado a partir dos anos 1980, de modo a adaptar-se, estratégica e taticamente, às novas circunstâncias políticas vividas na península e no mundo. Os anos 1970 observaram forte desenvolvimento econômico e tecnológico na Coréia do Sul, empurrado por investimentos maciços feitos principalmente pelo Japão; em termos tecnológicos, o país tornou-se vanguarda asiática, a partir de uma inteligente política de investimento em educação básica e formação de mão-de-obra de altíssima qualificação, combinados com um regime de dirigismo econômico suportado por uma ditadura militar pró-americana.  Nessa época, a Coréia do Sul começou a tornar-se um dos “Tigres Asiáticos”. Esses fatores possibilitaram a instalação de uma forte indústria local de alta tecnologia, e acabaram influenciando as forças armadas locais. Em meados dos anos 1980, a República da Coréia tornou-se capaz de suprir quase todas as suas necessidades de defesa com equipamento de ponta.

Esses fatores provavelmente explicam a enorme expansão das forças armadas norte-coreanas que, até o início dos anos 1970 montavam uns 400.000 efetivos. Do ponto de vista de comando e administração, a força terrestre foi completamente reorganizada. Com auxílio chinês e soviético, uma indústria local de armamento pesado foi organizada. O principal produto é uma versão simplificada do tanque soviético *T62. Os informes de inteligência mostravam também que os norte-coreanos faziam modificações notáveis no equipamento soviético e chinês, adaptando-os para as condições locais. A partir dos anos 1980, grande quantidade de veículos motorizados, artilharia auto-propulsada e transportes blindados de pessoal (APCs) começaram a aparecer. Em 1992 o país foi dividido em “corpos geográficos convencionais” e as grandes unidades blindadas e mecanizadas, compostas por brigadas de armas combinadas, foram posicionadas próximas de vias de deslocamento, de modo a possibilitar exploração e contra-ataques rápidos. Embora a força terrestre ainda continue sendo, em larga medida, uma força de infantaria, uma década de modernização e reorganização mostrou, no início dos anos 1990, seus efeitos: a mobilidade e o poder de fogo, bem como o treinamento e aprestamento do potencial humano são hoje considerados muito superiores aqueles observados durante a “Segunda Guerra da Coréia”, no final dos anos 1970.

Atualmente, a ordem de batalha identificada pela inteligência ocidental consiste em 153 divisões e brigadas, incluindo 60 divisões e brigadas de infantaria, 25 brigadas de infantaria mecanizada, 13 brigadas blindadas, 25 brigadas de operações especiais e 30 brigadas de artilharia. A Coréia do Norte  posiciona 10 corpos, com um efetivo de sessenta divisões e brigadas  numa área em formato de leque, ao sul da linha Pyongyang-Wonsan.

De 1996 em diante, as forças terrestres norte-coreanas são compostas por vinte comandos, que incluem  quarto corpos mecanizados e dois de artilharia, um Departamento de Instrução de Tanques, um comando de artilharia, e um Departamento de Instrução de Infantaria Ligeira, que controla as força de operações especiais. O equipamento inclui 3.800 tanques, dos quais 800 são do modelo indígena do T62. Aproximadamente 2.800 *BTRs (transportes blindados sobre lagartas, introduzido pelos soviéticos em 1973) estão à disposição das forças mecanizadas. A artilharia dispõe de cerca de 8.300 canhões calibres 76.2 mm, 100 mm, 122 mm, 130 mm, 152 mm e 170 mm, autopropelidos e auto-rebocados, complementados por  2.700 lançadores de foguetes de 107, 122, 132 e 240 mm. A artilharia anti-aérea alcança o número de 12.500 canhões, principalmente do tipo *ZSU23. A doutrina adotada é principalmente soviética, o que implica na utilização de movimentos massivos de tropas blindadas precedidos por grandes barragens de artilharia.

A indústria norte-coreana produz uma variedade de canhões auto-propulsados e rebocados (howitzers) embora, desde os anos 1980 a ênfase tenha sido colocada nos primeiros, inclusive com a montagem de tubos originalmente auto-rebocados em chassis sobre lagartas . A estratégia norte-coreana parece ser baseada no principio da ofensiva, refletindo provavelmente as experiências da Guerra da Coréia e o treinamento soviético. O poder de fogo superior e altamente concentrado permitiria uma maior possibilidade de defesa para as tropas terrestres em avanço.

Tudo isso pode parecer muito impressionante, à primeira vista. Entretanto, a Coréia do Norte não tem sido assim tão bem sucedida em seus esforços para se tornar uma potência militar de primeira linha. Manobras observadas por reconhecimento de satélite mostram que, apesar da modernização do armamento, este continua sendo baseado principalmente em tecnologia da época soviética. Os limitados avanços tecnológicos, que parecem ter dotado o exército de corpos de artilharia relativamente bem-equipados, provendo certa superioridade sobre os adversários do sul, não alcançaram outras áreas. Os anos 1990 parecem diminuir ainda mais as chances de que a Coréia do Norte alcance os padrões militares do Ocidente. O nível tecnológico da indústria local aponta para a crescente obsolescência do equipamento, principalmente a partir do momento em que a China não parece mais disposta a ceder tecnologia de ponta a um aliado que tem se mostrado bastante recalcitrante. Um exemplo dessa dificuldade está na área de defesa anti-aérea. Não há indicação de que sistemas móveis de mísseis ar-superfície (SAM) tenham sido introduzidos. Em paradas, *SA7 Strela 2 (Grail, para a OTAN, sistema “de ombro”, buscador de calor, distribuído a partir de 1970) e SA14/16 Strela 3 (Gremlin e Gimlet, aperfeiçoamentos do anterior, distribuídos a partir de 1974) têm sido vistos, o que sem dúvida aumenta a capacidade defensiva contra alvos próximos. Entretanto, os sistemas de defesa de ponto são ainda baseados principalmente em canhões, e as poucas baterias do obsoleto SA2 Guideline estão distribuídas em torno da capital.

A aviação também é totalmente obsoleta. Ao longo dos últimos anos, o país investiu a quase totalidade dos recursos materiais e humanos no aperfeiçoamento de vetores táticos e estratégicos para explosivo nuclear, com sucesso limitado. Não foram observados investimentos em outros ramos da indústria aeronáutica, o que tornou dramática, em relação ao Ocidente, a disparidade de meios aéreos, tanto em número quanto em tecnologia. Em 1992, a Força Aérea Popular da República Democrática da Coréia (FARDC) dispunha de aproximadamente 1,650 aeronaves de todos os tipos e 70.000 efetivos. Nessa época existiam três comandos de combate aéreo subordinados a um Comando Aéreo, sediado na cidade de Chunghwa; uma divisão aérea abrangia o nordeste do país e o Departamento de Aviação Civil, administrado pelo Conselho de Administração Civil, era considerado reserva de contingência da estrutura militar. Em meados dos anos 1980, uma forte reorganização, coincidindo com o recebimento de novas aeronaves e baterias de mísseis terra-ar, buscou integrar e reorganizar as divisões aéreas com o objetivo de descentralizar e dar maior autoridade e flexibilidade tática aos comandos regionais.

O equipamento, de origem soviética e chinesa, compreende tipos obsoletos, não-compatíveis com o moderno campo de batalha aéreo. Em números, o principal tipo é o MiG21 (Fishbed, para a OTAN, aeronave multifuncional ativa desde o final dos anos 1950), do qual existem cerca de 150 unidades, embora o estado de disponibilidade seja um incógnita. Nos anos 1980 a FARDC recebeu da então União Soviética um lote de caças-bombardeiros táticos MiG23P   e aeronaves de suporte aproximado MiG23ML (ambos derivados do MiG23S, Flogger A para a OTAN, caça multifuncional de geometria variável, surgido em 1969-70)  num total de umas 60 unidades. Da China vieram entre 40 e 150 Nanchang Q5 (Fantan para a OTAN, aperfeiçoamento chinês do MiG19) – o número correto nunca foi determinado exatamente. As principais aquisições foram, entretanto, 35 MiG29 e 35 MiG23, que foram estacionados nas proximidades de Pyongyang, em diversas pequenas bases aéreas.

Durante os anos 1980 também houve grande incremento no número de helicópteros disponíveis para a FARDC. Atualmente, calcula-se que existam aproximadamente 300, a maioria dos quais são Mi2 (Hoplite, na denominação da OTAN), Mi4 (Hound) e Mi8 (Hip), procedentes da URSS e da China. Em 1985, a FARDC conseguiu adquirir, por meio de empresas de fachada, 87 Hughes fabricados nos EUA, modelo Cayuse, que foram adaptados para ataque ao solo. Não se sabe o estado atual de disponibilidade dessas aeronaves, mas são as mais avançadas disponíveis na Coréia do Norte. Hoje em dia, a inteligência sul-coreana acredita que tenham sido disponibilizadas para as forças de infiltração norte-coreanas, pois a Coréia do Sul possui centenas desse modelo em seu inventário.

A Força Naval do Exército Popular da República Democrática do Povo da Coréia é a menos significativa dentre as três forças armadas é uma força naval costeira. Seus principais elementos são 3 fragatas, 10 contratorpedeiros, 23 submarinos costeiros e aproximadamente 100 barcos de patrulha, a maioria equipados com torpedos, e por volta de 340 barcos de apoio, inclusive submarinos-miniatura destinados a operar com as forças especiais do exército. O efetivo é calculado em algo em torno de 150.000 homens. Não existe infantaria naval nem aviação. A função da FNEP é, principalmente, a interdição das águas costeiras, num raio não maior do que 75 quilômetros a partir de suas bases. Os submarinos são a principal arma de ataque. Informes da Marinha dos EUA dão conta de 4 unidades da classe Whiskey, soviéticos, 22 da classe Romeo, chineses e talvez 5 de uma versão local da mesma classe. Esses submarinos são complementados por um número desconhecido de submarnos-minaturas, inclusive os da classe *Sang-O (“Tubarão”), de 277 toneladas, destinado a tarefas de infiltração de forças especiais no território da República da Coréia::

12/07/2009

O mês da Coréia::Uma análise estratégica ampliada::

parte 1Em três partes, este texto é voltado principalmente para fornecer ao interessado uma visão de conjunto da situação atual da península coreana. No início, eu não estava muito preocupado em aprofundar o texto – pretendia, meramente, fazer algumas observações sobre o suposto “poderio militar” da Coréia do Norte. Mas quando o Weblog do Pedro Doria divulgou um texto, supostamente especializado, de um suposto especialista, e as figurinhas carimbadas de sempre dispararam a comentar o tema, achei que valeria à pena gastar algumas horas de meu tempo livre pesquisando o tema. O professor Zhang Lianggui, pesquisador do Partido Comunista Chinês, em Pequim, faz uma única observação sensata em todo o texto: que o poderio nuclear da Coréia do Norte é uma ameaça para a China. Por outro lado, outras observações são, no mínimo, curiosas. Dentre essas, minha favorita é a seguinte: “A Coréia do Norte acredita que ter armamentos nucleares a torna mais forte. Os norte-coreanos acreditam que sua enorme superioridade militar sobre o sul os fariam vencer a guerra.” Isso contraria as opiniões de meia-dúzia de sites especializados  – este aqui, por exemplo, é bastante incisivo: Pyongyang tem a capacidade de começar uma nova guerra da Coréia, mas não de sobreviver à ela.” Certamente ninguém quer um conflito generalizado na região. Nem a Coréia de Norte: “É a lógica de afastar a guerra tornando-a o mais aterradora possível, o que constitui a essência da teoria da ´dissuasão limitada´, materializada pela capacidade de infligir um dano inaceitável através de um ataque a um centro vital.”, diz Alexandre Reis Rodrigues, no meu favorito Jornal de Defesa e Relações Internacionais. Mesmo com bombas nucleares e *Taepodong-2, a Coréia do Norte pode ser qualificada apenas como uma potência militar média. O fato do país estar a beira do abismo econômico, e sem aliados a lança, talvez, num patamar mais baixo ainda.

Bem, análise doutrinária e estratégica implica em certa paciência para lidar com tecnicalidades. Tentei tornar o texto não muito chato, e dividi-lo em três pedaços é parte dessa tentativa.

A coisa é dedicada ao Antônio M, um dos assíduos lá do PD, para que ele aprenda a distinguir “estratégia” de “tática” e não coloque na boca do coitado do MacArthur palavras que ele não poderia ter dito, em 1950…:: 

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O plano de contingência dos EUA para a eventualidade de um ataque norte-coreano contra a República da Coréia passou a prever, a partir de 2003, que o grosso das tropas empenhadas no início de uma invasão estarão posicionadas bem longe da ZDC, possivelmente ao sul de Seul. Trata-se de uma mudança radical no planejamento estratégico do Pentágono, vista não sem certo alarme por funcionários tanto do governo dos EUA quanto da Coréia do Sul. O curioso é que essa mudança, que começou a ser implementada em 2004-2005, também provocou certo alarme no governo norte-coreano. Ainda hoje não existe consenso sobre a validade da medida, embora já se admita que, diante do atual balanço de forças na região, e da conjunção de fatores observável, ela foi necessária.

Desde o final da Guerra da Coréia, em 1953, as tropas americanas – atualmente uns 37.000 efetivos (quarto brigadas e diversas unidades especializadas) – estiveram posicionadas em guarnições permanentes ao longo da zona desmilitarizada. Sua presença era mais uma garantia tangível do compromisso dos EUA com a defesa da Coréia do Sul do que propriamente uma efetiva dissuasão. Até os anos 1980, a grande estratégia dos EUA para a região era que, no caso de um ataque do Exército Popular da República Democrática do Povo da Coréia, com efetivos que, em 1979 chegavam a 1, 2 milhões de homens e mulheres, a resposta dos EUA seria um contra-ataque nuclear tático (por incrível que pareça, isso existe…). Aqueles era os tempos da “resposta flexível” (coisa que os leitores de causa:: sabem do que se trata), e se imaginava que uma resposta nuclear poderia ser mantida sob controle, principalmente depois do esfriamento das tensões entre as potências.

Atualmente, os sul-coreanos já não vêem tanta determinação dos EUA em defender a nação aliada. A remoção das tropas da área de um possível engajamento inicial tem sido vista como a retirada do “gatilho” que implicava no envolvimento automático dos americanos. O problema é que Seul, uma cidade de 17 milhões de habitants, fica a meros 75 quilômetros ao sul da ZDC. Se o  grosso das forças norte-americanas  for retirado da região, ou seja, do caminho do rolo compressor norte-coreano de 3200 tanques e 1500 peças de artilharia, nada indica que o “gatilho” será disparado depois de consolidadas as posições invasoras. Segundo analistas nos EUA e na Coréia do Sul, a nova postura norte-americana pode ter encorajado o líder norte-coreano, Kim Jong-il a se sentir mais confiante para desafiar a comunidade internacional e embarcar em aventuras expansionistas.

A nova estratégia norte-americana faz algum sentido. Na hipótese de uma invasão por tropas da República Democrática do Povo da Coréia, as tropas norte-americanas teriam de recuar, de qualquer maneira, até que reforços vindos do Japão e do Havaí permitissem um contra-ataque. Até que isso seja possível, o poder aéreo é a única garantia de certo equilíbrio da situação estratégica e tática. Sob a nova política, as tropas já estarão em posições seguras; certamente terão de sobreviver às barragens de artilharia que irão varrer a região, dada a superioridade inicial dos norte-coreanos.

Tecnicamente, os argumentos são válidos, mas existem outros possíveis. É certo que o ditador norte-coreano não é tão louco quanto pode parecer. A decisão de invadir a Coréia do Sul esbarra, por certo, em outras questões. Em números absolutos, o exército da Coréia do Norte é enorme, mas seu equipamento deixa muito a desejar. Para começar, a Coréia do Norte não possui propriamente uma indústria de armamentos. Produz, certamente, toda a munição e suprimentos de que precisa, e o país de Jong-il mantém-se funcionando mais-ou menos como se já estivesse em guerra, ou seja, estocando armas, munições e suprimentos militares. Além do mais, armas e munições são praticamente o único produto que a Coréia do Norte dispõe para comerciar, embora sejam poucos os países dispostos ao comércio com os norte-coreanos::

01/07/2009

O mês da Coréia::Trinta dias a mais::

Estamos no assunto “Coréia” já se vão 30 dias. Assim, visto que ainda não cheguei nem à metade dos assuntos que pretendia discutir, resolvi estender o “Mês da Coréia”. Serão, assim, “dois meses da Coréia”.

Acho que vale à pena, na medida em que a península é campo representativo de uma série de questões significantes para aquela região da Ásia. Afinal, se trata de uma relíquia da conjuntura imediatamente posterior ao fim da 2a GM e da Guerra Fria: o regime que vigora lá até hoje é burocraticamente centralizado baseado no modelo de partido único, estruturado em torno da figura do líder. Enfim, um modelo stalinista. Até mesmo o esquedista mais empedernido reconhecerá (se não for empedernido E maluco…) que o anacronismo norte-coreano tornou-se uma pedra no sapato de toda a região, inclusive de seu principal patrocinador, a China.  

Funciona mais-ou-menos assim: o regime da Coréia do Norte é formalmente uma “república popular” na qual o povo governa diretamente, através da Assembléia do Partido dos Trabalhadores da Coréia. A filosofia que estrutura as relações entre o governo e o partido é a mesma desde a independência, em 1947: o governo e seus órgãos e instituições são executores das linhas gerais e políticas estabelecidas pelo partido. Tudo isso gira em torno do chuch´e, aplicação do Marxismo-Leninismo à experiência revolucionária norte-coreana, com base na autonomia e soberania do povo coreano. A aplicação do chuch´, em resumo, colocava a total autonomia coreana como objetivo a alcançar, e sua ferramenta, o desenvolvimento de uma cultura socialista própria, em cujo centro está a figura do Grande Líder e “Presidente Eterno” (esta citada na constituição).  A aplicação do chuch´e deveria guiar a revolução de forma unificada e coordenada , num “movimento de equipe” em direção às revoluções político-ideológica e técnico-científica. Dominando o materialismo científico, fonte dessas revoluções, os “corpos superiores”, organizados no partido, supervisionam “corpos menores” (os funcionários do governo) cuja função é levantar as massas de trabalhadores para a revolução. Isso não passa do velho sistema stalinista de colocar comissários políticos em todos os níveis da sociedade, urbanos e rurais, agrícolas e industriais.

Essa linha de ortodoxia deve ser examinada em função da consolidação no poder de Nikita Krushev como líder da União Soviética. O movimento de desestalinização implementado pelo líder soviético era visto na Coréia do Norte com profunda antipatia. Nessa época Kim comandava um plano de reconstrução do país, lançado em 1954 e que buscava o “aprofundamento do socialismo”, com toda a estrutura econômica centralizada e coletivizada. Seguindo o modelo estalinista dos “planos quinquenais”  dos anos 1930, o planejamento foi centrado na indústria pesada e de armamentos. A partir do cessar-fogo de 1953, que não evoluiu para um tratado de paz, a Coréia do Norte manteve forças armadas desproporcionais à sua economia, optando por assumir a defesa do pais sem tropas estrangeiras, ônus que, na Coréia do Sul foi assumido, ao longo do restante dos anos 1950, pelos EUA.

Entretanto, a opção norte-coreana teve como conseqüência o aprofundamento da ortodoxia de Kim e seu afastamento da União Soviética. Krushvev começou a ser criticado como “revisionista” e “anti-marxista”. Entretanto, mesmo a aplicação estrita da chuch´e não impediu o surgimento, no interior do partido, de uma oposição à sua liderança. O resultado foi um expurgo que atravessou o ano de 1957 e eliminou qualquer oposição. 

O cisma sino-soviético a partir de 1962 levou a Coréia do Norte a posicionar-se ao lado da linha chinesa, mas sem nunca chegar a romper com os soviéticos. Kim via os chineses como pouco confiáveis, tendentes à dominação e economicamente ineficientes. A Revolução Cultural da segunda metade dos anos 1960 pareceu confirmar as desconfianças do “líder supremo”. A remoção de Krushev do poder, em 1964 abriu a possibilidade de um reaproximação com Moscou, já que a nova liderança demonstrava pouca disposição para criticar abertamente o passado. Enquanto a China mergulhava no caos, Kim tratou de reconstruir suas relações com o bloco soviético na Europa, aprofundando relações comerciais e econômicas. Nessa época tentou, com menor sucesso, aproximar-se de países do Terceiro Mundo, notadamente árabes e africanos.

Kim foi eleito, em 1966, secretário do PTC (cargo que exerceu desde o fim dos anos 1940, sendo periodicamente reconduzido). Em 1972, uma reforma política aboliu o cargo de primeiro-ministro, e criou o depresidente da república. Essa reforma unificou, em teoria, as esferas de controle do país, e Kim foi eleito para o novo cargo. Desde então, a tendêndia tem sido estreitar o controle do partido sobre todos os órgãos de admistração e economia. A partir de 1990 a predominância tem sido o absoluto controle do partido sobre todos os aspectos da esfera pública. A razão parece ser a influência que teve sobre a Coréia do Norte o colapso dos regimes socialistas e as mudanças de rumo da China, no que tange à economia.

O colapso do “socialismo real” e particularmente as mudanças de rumo na China parecem também ter alterado fortemente o rumo que, em 1980, Kim Il Sung tinha estabelecido para a Coréia do Norte com relação à Coréia do Sul. No diversas vezes adiado 60° Congresso do Partido, realizado entre 10 e 14 de outubro daquele ano, 3.220 delegados (os trabalhos também foram assistidos por 177 delegados de 118 países) reviram, debateram e endossaram, por solicitação do Comitê Central, relatórios do Comitê de Supervisão e de diversos outros órgãos centrais, cobrindo as atividades de praticamente todos os órgãos de governo ao longo dos anteriores dez anos.

No relatório dirigido à plenária do Congresso (em teoria, o órgão supremo de direção do partido), Kim Il Sung delineou uma série de objetivos e políticas para a década que se abria. Propôs o estabelecimento de uma “República Democrática Confederacional da Coréia”, como modo possível de alcançar uma convivência pacífica e independente entre as duas Coréias, até que se chegasse à uma fórmula mutuamente aceitável  de reunificação da península. Kim Il Sung também apresentou uma “política de dez pontos” para o futuro estado unificado e sublinhou que as Coréias deveriam buscar reconhecer e tolerar-se, em seus diferentes sistemas sociais; que o governo unificado central deveria admitir uma base paritária; que ambos os lados deveriam manter autonomia para governar as respectivas regiões, até que uma fórmula razoável unificasse os governos regionais respeitando o as especificidades locais, políticas e administrativas, incorporando cada partido, cada grupo e cada setor dos povos das duas Coréias.

Kim usou, então, pela primeira vez o termo “Três Revoluções” (ideológica, técnica e cultural), enfatizando objetivos que vinham sendo perseguidos desde o início dos anos 1960, com sucesso irregular. Em meados dos anos 1960, o fracasso dos EUA em conter a insurreição comunista no Vietnam do Sul levou Kim a imaginar se conseguiria fazer o mesmo na Coréia do Sul. O resultado foi uma política cada vez mais agressiva contra a Coréia do Sul, que levou a enfrentamentos que quase resultaram em outra guerra, cujos movimentos culminantes ocorreram em 1968 e 1969.

Ao longo da década, a aplicação da chuch´e tinha resultad em um desastre econômico. O regime, encurralado pelos freqüentes insucessos, chegou ao início dos anos 1990 numa situação de virtual isolamento internacional. Os gastos crescentes com as forças armadas (em1994 a Coréia do Norte tinha a quinto maior conjunto de forças armadas do mundo) sufocavam os outros setores da economia, que não apenas estagnavam como encolhiam. Nessa época Kim tinha decidido iniciar um programa de produção de energia nuclear com fins de produção de eletricidade e procurava alternativas para a crise norte-coreana acenando com uma paz negociada e aproximação com o sul, que, desde a década anterior, vivia um extraordinário surto de prosperidade. Seu filho mais velho, Kim Jong-il tinha sido indicado, na reforma de 1972, como seu sucessor, e aparecia como funcionário disciplinado do aparato do partido, encarregado do programa de energia nuclear e de parte da administração do governo.

Em 8 de julho de 1994 Kim Il-Sung morreu repentinamente, aos 82 anos. Após cerimônias fúnebres monumentais, que tomaram 8 dias, seu corpo, embalsamado, foi depositado em um mausoléu público.::

27/06/2009

O mês da Coréia::A América Latina e a Guerra da Coréia::

Em 27 de junho de 1950, apenas dois dias depois da invasão da Republica da Coréia pelas tropas da República Democrática da Coréia, os EUA levaram o caso ao Conselho de Segurança da ONU. O Secretário Geral, rapidamente, considerou o evento uma agressão contra a liberdade e solicitou aos países-membros que disponibilizassem tropas para emprego imediato sob a bandeira das Nações Unidas.

Com relação a América Latina, o Departamento de Estado dos EUA via uma oportunidade para atuar colaborativamente com a Organização dos Estados Americanos.  Diplomatas norte-americanos concentraram esforços na Bolívia, Chile, Uruguai, México, Peru e Brasil. Os resultados foram decepcionantes: Bolívia e Uruguai chegaram a oferecer tropas, mas logo voltaram atrás, diante da má reação da população; Chile e México, temendo reações adversas, despediram os enviados dos EUA sem nenhuma promessa de comprometimento de qualquer espécie. Peru e Brasil mostraram certo interesse em contribuir com a ONU, desde que os EUA se comprometessem em aumentar substancialmente a assistência econômica e militar.

O Pentágono, por sua vez, não via nenhuma vantagem em mobilizar nações não-comunistas cuja contribuição militar  dependeria totalmente dos EUA, num momento em que o país não tinha nem pessoal nem equipamento nem munição em números suficientes para as próprias necessidades. De início, os EUA estabeleceram que as nações dispostas a lutar “pela liberdade e contra a agressão comunista” teriam de financiar parte da própria contribuição, e residia aí parte do problema, já que os países da região encararam a imposição como sinal de descaso. Posteriormente, os departamentos de Estado e de Defesa concordaram em providenciar o equipamento e transporte das tropas através de um empréstimo especial, pelo qual as nações participantes pagariam. A divulgação dessa proposta foi o suficiente para que 29 nações oferecessem assistência militar, médica ou econômica, embora nenhuma fosse da América Latina.

O relacionamento político-diplomático do Brasil com a Coréia do Sul teve início em junho de 1949. O Brasil foi o oitavo país do mundo e o segundo latino-americano (o primeiro foi o Chile) a reconhecer oficialmente a república coreana. Os motivos que levaram ao estabelecimento de relações diplomáticas com a República da Coréia se articulam ao contexto da Guerra Fria. Nos anos que se seguiram a formação da ONU o Brasil se integrava ao bloco ocidental, liderado pelos EUA. Em 1950, a representação brasileira votou favoravelmente às decisões da ONU que condenavam o conflito entre o norte e o sul da Coréia. Os EUA, entretanto, demandavam do Brasil atuação mais incisiva, solicitando o envio de tropas. Em prinípio, o governo Dutra viu na situação uma oportunidade para arrancar dos EUA tanto ajuda econômica quanto militar, mas, diante da retiscência dos enviados norte-americanos, retraiu-se, limitando o auxílio à abertura de uma linha de crédito para a aquisição de matérias primas e ao envio de alimentos e medicamentos para a Coréia do Sul.

Não é que não tenham acontecidos reações à situação na Ásia. O Exército brasileiro, cuja oficialidade tinha postura conservadora, tendia a considerar a guerra como manifestação da luta entre “bloco democrático” e “bloco comunista”. Poucos dias após a abertura do conflito, todas as guarnições militares foram colocadas de prontidão e em seguida, os comandantes militares consultaram o governo sobre a possibilidade do país se juntar ao esforço da ONU contra os comunistas. É possível que tenha havido alguma pressão dos oficiais norte-americanos que serviam no Brasil junto à Missão Militar dos EUA, treinando os militares locais.

Fora o nervosismo militar, a única manifestação observada aconteceu na cidade de Recife. A Rádio Jornal do Comércio organizou, junto com as autoridades eclesiásticas da região, uma missa pelo fim da Guerra da Coréia, que reuniu aproximadamente 40 mil pessoas no estádio do Retiro.

O fato é que não havia concordância interna sobre que atitude tomar, e a questão acabou posta em segundo plano. Militares, políticos conservadores e até setores da Igreja alegavam que os acordos militares de assistência múua entre Brasil e EUA deviam ser cumpridos. Mas nem no interior do Exército havia concordância: as alas nacionalistas discordavam fortemente de qualquer envolvimento brasileiro e chegavam a criticar o governo sul-coreano. Em artigo publicado na imprensa, o capitão Humberto Freire de Andrade teceu duras críticas contra o governo de Singman Rhee, que afirmava responsável pela guerra, e chegava a elogiar o norte comunista pelas políticas sociais e a realização de uma reforma agrária. Esse Freire de Andrade, pouco mais de dez anos depois acabou transferido para a reserva pelo Ato Institucional n° 3, de 9 de abril de 1964…

O único governo latino-americano a se manifestar foi o da Colômbia, chefiado pelo conservador Mariano Ospina Perez, então em fim de mandato. De imediato, a fragata  “Almirante Padilla” foi posta à disposição do Comando Unificado das Nações Unidas. Em 14 de julho, nova solicitação da ONU postulou ajuda militar efetiva, e levou o governo colombiano a disponibilizar tropas, mas sem indicar o efetivo, e quando estariam prontas.

Os problemas começaram imediatamente. Deslocando 2290 toneladas e tripulada por 190 oficiais e marinheiros, a “Almirante Padilla”, ex-PF (patrol frigate, em inglês) USS “Groton”, fazia parte de uma classe “Tacoma“, navios construídos às centenas durante a 2ª GM, para escolta de comboios. Terminada a guerra, esses navios, em variados estados de conservação, foram postos em reserva, e, posteriormente, repassados aos governos de aliados menores, dentro dos programas de ajuda militar. Em 1947 os EUA cederam a “Groton” para a Colômbia. O estado de conservação do navio, que já não era bom, deteriorou-se rapidamente, e a Colômbia não dispunha de instalações especializadas para repará-lo. O governo norte-americano, interessado em tornar a defesa da Coréia do Sul um “caso mundial”, dispôs-se a realizar reparos de urgência no navio, o que obrigou a Marinha da Colômbia a deslocá-lo para San Diego, Califórnia, onde chegou em setembro. Em novembro de 1950 foi considerado em condições de operar, e navegou para o Japão, onde chegou em abril de  1951. Foi incorporado, em 1 de maio, à uma força naval multinacional, a “Força Tarefa 95”, comandada pelo contra-almirante Alan Smith, na base naval de Sasebo. O navio colombiano foi designado para o GT 95.5, com funções de vigilância, escolta e bloqueio de uma área do litoral norte-coreano. Posteriormente, a fragata “Capitán Tono” (ex-USS “Bisbee”) substituiu a “Almirante Padilla”, que retornou à Colômbia. A “Capitán Tono”, curiosamente, era um navio da classe da “Almirante Padilla”, adquirido na própria Coréia para possibilitar a continuação da atuação colombiana lá. A Marinha da Colômbia permaneceu em operação na região até 11 de outubro de 1955, ou seja, mais de dois anos depois de firmado o armistício. A “Almirante Padilha” teve, em 1964, o inglório fim de naufragar depois de encalhar em rochedos no Caribe.

Quanto às forças de terra, a situação foi mais complicada ainda. A Colômbia, estava, na época, mergulhada em uma crise política, com o Congresso nacional fechado e vivendo uma virtual ditadura civil-militar. Ospina se preparava para entregar o governo a seu sucessor, Laureano Gómez. Anticomunista convicto e líder de uma ala radical dos conservadores, Gómez via o envio de tropas para combater ao lado da ONU como forma de diminuir a antipatia dos norte-americanos pelos conservadores colombianos, que não escondiam o fascínio pelo fascismo. Assumindo o novo governo em 1 de agosto, no dia 7 o ministro da guerra formalizou a vaga oferta de tropas. Em 1951, depois de uma confusa chamada de voluntários, e em meio a rumores de golpe de estado, a unidade, com aproximadamente 1100 efetivos, dirigiu-se para 12 semanas de treinamento nas proximidades de Bogotá. Em 21 de maio de 1951, embarcada em um transporte da Marinha dos EUA, partiu para o Oriente. Seu comandante era o tenente-coronel de infantaria Jaime Polanía Puyo, que se queixava amargamente da falta de equipamento e do baixo nível das tropas. A tropa colombiana desembarcou em Pusan, na Coréia do Sul, em 16 de junho, sendo saudada pelo presidente da República da Coréia em pessoa. Agregado ao 8º Exército dos EUA, imediatamente foi colocada em instrução de 6 semanas, e recebeu parte de seu equipamento de combate. Ao fim do treinamento a unidade foi incorporada ao 21º Regimento da 24ª Divisão de Infantaria do Exército dos EUA.

 Batalhão_Colombia

O comandante da 24ª Divisão, general-de-brigada Blackshear Bryan colocou o Batalhão Colômbia no 21º RI devido a este ser comandado por um hispano-americano fluente em espanhol, coronel Ginés Pérez. A base da unidade era a localidade de Chunchon. O “Batalhão Colômbia” foi considerado reserva do 21º RI, e a avaliação dos norte-americanos foi que a unidade dificilmente teria condições de entrar em combate. Ainda assim, um arranjo político fez com que uma companhia colombiana fosse enviada, em 7 de agosto, data nacional, realizando patrulhas de reconhecimento ofensivo.  

O “Batalhão Colômbia” permaneceu em ação até o fim das hostilidades. A tropa colombiana ainda permaneceria na península até o final de outubro de 1954. O número de baixas subiu a 131 mortos em combate, 69 desaparecidos e 448 feridos em ação, totalizando 648 baixas, sobre um toal de 3.089 combatentes que passaram pelo teatro coreano ao longo desse tempo, integrados a três batalhões que se sucederam. Proporcionalmente, o número de ccasualidades foi 21 por cento, o que é extremamente alto – os norte-americanos, por exemplo, sofreram, proporcionalmente em torno de 11 por cento de casualidades.

A alta proporção de baixas sofridas pelo “Batalhão Colômbia” tem sido atribuídas a diversos motivos, que vão desde o baixo nível de treinamento, passando por equipamento inadequado, operações mal-planejadas, emprego em condições adversas, até a implicância do novo comandante norte-americano do 31º Regimento de Infantaria dos EUA, coronel William Kern. Esse oficial substituiu o hispano-americano coronel Pérez, e foi acusado de enviar os colombianos para situações de combate para os quais os colombianos não estariam preparados. De qualquer forma, os colombianos ainda hoje se orgulham da atuação de sua pequena unidade no contexto daquele grande conflito::

12/06/2009

O mês da Coréia::Um resumo sobre a Guerra da Coréia::

A Coréia do Norte foi organizada rapidamente entre 1946 e 1948, com apoio da União Soviética. Até mesmo o Departamento de Estado norte-americano reconheceu que o norte comunista estruturou-se de modo altamente bem-sucedido, montando rapidamente um sistema político e militar sólido e razoavelmente eficiente. O sistema politico comandado por Pyongyang começou com um Departamento Administrativo das Cinco Províncias, em outubro de 1945. Em fevereiro de 1946 o Departamento foi reorganizado numa nova repartição, denominada Comitê Provisório do Povo Norte-Coreano. Em fevereiro de 1947 o Comitê passou a ser permanente, como órgão de governo da região norte da península. Ainda antes disso, os comunistas, por intermédio de acordos, incorporaram os grupos de esquerda que, sem estar sob o comando único, alinhavam-se na oposição ao modelo político proposto pelos aliados e à presença de ex-colaboradores dos japoneses no governo. Esse movimento completou-se em agosto de 1946, com a criação do Partido dos Operários da Coréia.

As forças armadas norte-coreanas foram criadas em meados de 1946, com apoio técnico e doutrinário da União Soviética. Entre 1946 e 1949, os soviéticos levaram pelo menos 10.000 norte-coreanos para freqüentar academias militares na União Soviética, para se formarem como oficiais. Um sistema de recrutamento baseado no modelo chinês tinha sido instituído logo depois da guerra, e duas divisões de infantaria (por volta de 35.000 efetivos) tinham sido enviadas para participar da guerra civil chinesa (1945-1949), durante a qual foi formado o Exército Voluntário Coreano, dissolvido com a vitória comunista. Com o retorno dessas unidades, a Coréia do Norte dispunha de um núcleo treinado de combatentes altamente motivados.

Em junho de 1950, as forças armadas coreanas tinham um efetivo entre 150.000 e 200.000 combatentes, organizados em oito divisões de infantaria completas, duas divisões de infantaria incompletas e uma *divisão blindada. O equipamento era soviético, do tipo usado na 2ª GM.

Em comparação, os sul-coreanos praticamente não tinham forças armadas dignas do nome. Os efetivos eram reduzidos, o governo não confiava plenamente no comando e, em função disso, não mostrava interesse em desenvolver a estrutura militar. Os equipamentos eram antiquados e praticamente não haviam tanques e artilharia. A aviação era composta por modelos norte-amercanos do início dos anos 1940 (basicamente treinadores avançados T-6 e aeronaves de ligação e observação). Em 25 de junho de 1950, no dia do início da guerra, a Força Aérea da República da Coréia (em inglês, ROKAF) dispunha de 64 pilotos qualificados.

O desenvolvimento da situação após o início da guerra confirmou a desproporção das forças envolvidas. O comando do exército norte-coreano mostrou surpreendente competência, adotando uma estratégia apropriada e tirando proveito da capacidade de movimento de suas forças. Em apenas três dias a capital sul-coreana foi ocupada e, na segunda semana de agosto, as forças do país tinham sido empurradas para o sudeste da península, em torno da cidade de Pusan. Com ajuda de tropas norte-americanas enviadas às pressas, controlavam meros 12.000 km2 de território.

Os norte-coreanos e seus assessores políticos e militares soviéticos e chineses esperavam que, no caso de uma vitória militar rápida seguida do colapso do governo sul-coreano, os norte-americanos abdicariam de intervir no conflito. Tal não aconteceu, e em 26 de junho, Truman ordenou o deslocamento de forças navais norte-americanas para a costa da Coréia do Sul, com ordens de intervir no conflito. Em 30 de junho tropas do exército norte-americano foram despachadas do Japão, ao mesmo tempo que os EUA convocaram o Conselho de Segurança da ONU. Como era esperado, a ONU, através da Resolução 84, posicionou-se em defesa da Coréia do Sul. Os EUA foram autorizados a indicar o comandante das forças a serem providenciadas e essas forças passaram a usar a bandeira da organização como insígnia. O general Douglas MacArthur foi indicado para o cargo e, depois de breve preparação, lançou uma operação anfíbia contra o porto de Inch’on, em 15 de setembro. Ao longo de seis dias (16-22 de setembro), mais de 50.000 efetivos, dos Marines e exército, e quase 7.000 veículos forma desembarcados na região de Inch´on. Os três primeiros dias presenciaram um vitória decisiva, com as tropas dos EUA desbaratando diversos contra-ataques e destruindo uma divisão blindada norte-coreana. A superioridade aérea dos EUA era total e possibilitou que o impulso em direção a Seul acontecesse com relativa facilidade. Em 25 de setembro, o comandante das operações declarou Seul liberada. A vitória só não foi completa porque as forças das Nações Unidas não conseguiram impedir que uma quantidade significativa de tropas norte-coreanas se retirasse para o norte.

No mundo inteiro, os observadores seguiram os norte-americanos na suposição de que a guerra não iria durar muito. Não era uma suposição absurda: as forças das Nações Unidas, compostas por contingentes (a maioria simbólicos) de 23 nações, rapidamente recuperam o território ocupado pelos norte-coreanos e, em outubro de 1950, lançaram-se através do Paralelo 38. Em 19 de outubro, a situação se inverteu de modo diametral. Fortes contingentes da ONU desembarcam na cidade portuária de Wonsan e na província de Riwon, ambas banhadas pelo Mar do Japão, a partir do qual operavam as forças navais da ONU. Tropas sul-coreanas seguindo por terra juntaram-se a esses contingentes para ocupar Pyongyang. Em campos no sul, 135.000 prisioneiros norte-coreanos esperavam, conformados, pelo fim da guerra.

Ninguém poderia imaginar que avaliações equivocadas do governo dos EUA sobre a disposição da China para a luta, somadas ao egocentrismo de MacArthur, acabariam por prolongar a “guerra que estava ganha” por quase dois anos mais.::

23/04/2009

Recordar é viver::Anos 70: Détente, SALT e outros quetais::

   

Pois é – eis um post de que gosto muito, pelo estilo. Não me lembro bem quando publiquei pela primeira vez, mas lembro que resultou de um dos debates que tínhamos no falecido Weblog, aquele de nosso desaparecido Pedro Doria. Na época, eu estava entusiasmado por ter arrumado o xerox de um livro de Henry Kissinger – Diplomacy - um calhamaço enviado por um amigo que passava uma temporada em Yale. Acabei não lendo, a coisa está atravancando a estante, e acabou que o livro foi lançado, tempos pouco tempo depois, em nossa língua. Um pouco mais cedo, eu o olhava na vitrine de uma das ubíquas “Leitura”, aqui em Belo Horizonte. Comentei com minha mulher – que demonstra grande paciência com minha mania por impressos de todos os tipos: “Eu o comprarei, mas não agora…” Agora, fiquem com as duas partes do post, visto que ainda não finalizei a novela dos submarinos::

Parte 1/2:: Por que o mundo de hoje é como é? Imagino que uma pessoa que tenha vivido os anos 1960 talvez estranhe o clima de instabilidade localizada que vivemos hoje. Nos “fabulosos sessenta” alinhavam-se duas superpotências, uma ameaçando a outra – e à humanidade – como a incineração nuclear instantânea. Por trás das duas, duas zonas geopolíticas de influência, cujos limites eram mutuamente respeitados. E também havia uma espécie de quintal comum, mais conhecido como “Terceiro Mundo”, onde as superpotências disputavam, de maneira atroz, quem iria mandar.

É claro que, para pensar essas coisas, essa pessoa que estou imaginando teria de saber que o palco geopolítico ainda era – digamos… –, em 1968, resultado da estabilidade conseguida pelos vencedores da 2ª GM. Ao longo daqueles 23 anos, a estabilidade fora não apenas mantida, mas aprofundada. Os dois principais atores aprenderam como não deixar que conflitos localizados, como a Guerra da Coréia, os choques no Oriente Médio, a crise de Cuba e a Guerra do Vietnam acabassem por se transformar em conflito generalizado; aprenderam que a ameaça de destruição mútua, por mais paradoxal que pudesse parecer, era a melhor forma de se ter alguma segurança de que o desastre não aconteceria. Absurdos concretos se tornaram ícones dessa estabilidade – a existência de uma cidade enorme dividida em duas por um muro; um país insignificante desafiando com sucesso uma das superpotências, separado dela por 180 quilômetros de água. No entanto, os dois blocos pareciam atuar de forma mais ou menos articulada: Brasil e Coréia do Sul, ou Tchecoslováquia e Coréia do Norte, por exemplo, não faziam exigências aos EUA ou a URSS. Ao contrário, pareciam adaptados ao papel de soldados em uma guerra perene. Chegavam a declarar-se “vencedores” de batalhas imaginárias uns contra os outros.

O próprio contexto por si mesmo apresentava-se como um paradoxo: uma “guerra fria”. Uma guerra com inimigos, estratégia, mobilização, armas e batalhas; e tréguas. Mas uma guerra em que fronteiras eram respeitadas e as batalhas quentes, com tiros e mortes, eram cuidadosamente mantidas restritas.

Os paradoxos eram generalizados: boa parte dos “povos-soldados” nos dois lados era mantida apartada de níveis mínimos de liberdade (pela qual dizia-se lutar) e sem perspectiva visível de prosperidade (a qual, dizia-se, seria geral após a “vitória final”). Mas a vitória final não estava à vista, apenas num virtual horizonte em direção ao qual, afirmavam dos dois lados, os ideólogos, movia-se, inapelavelmente, a história. Até que se completasse esse movimento, e ambos os lados diziam que se completaria confirmando as próprias idéias, o que se deveria buscar era a estabilidade. Por mais injusta que essa fosse. Isso significava manter e apoiar o statu quo ante (o a corruptela “status quo”, termo latino traduzido por “estado existente” que, em 1968, essa pessoa de que falo talvez não conhecesse a tradução exata, mas saberia o significado geral), ou seja, a situação política e social interna não apenas das superpotências, mas também – e tão importante como – das nações coadjuvantes.

Esse contexto paradoxal não livrava o mundo das crises. Em mais de uma oportunidade, os mísseis foram armados e apontados – em 1962 e 1973, por exemplo. As superpotências rosnavam uma para outra e confrontos surgiam o tempo todo, mas a possibilidade de que um desses acabasse degenerando na crise final, gerava mais um paradoxo: se mantinha abertos canais de diálogo e a possibilidade de cooperação.

Paradoxo em cima de paradoxo, essa tal pessoa, vivendo lá no mundo de 1968, talvez considerasse, naquela época, moralmente discutível, mas legítima, a situação geral de “libertícidio” (termo, segundo consta, criado pelo teatrólogo Berthold Brecht, diante da sangrenta repressão à revolta de Berlim, em 1953) e de opressão. E talvez até concordasse com Henry Kissinger, que afirmava – “legitimidade não deve ser confundida com justiça”.

Pois em função da legitimidade criada pela estabilidade, valia à pena tolerar o sacrifício da liberdade e a violação maciça de direitos humanos, de ambos os lados. Os EUA viam como legítima a derrubada e assassinato de um presidente eleito democraticamente e a morte, a sangue frio, de milhares de seus seguidores; a URSS considerava legítima a invasão militar de qualquer de seus aliados (!!!), diante de uma ameaça de mudança no tal statu quo ante. Assim, não é de se estranhar que a situação tivesse evoluído até o paradoxo absoluto de que os lados adversários passassem a considerar como legítima a pretensão de estabilidade interna do outro: “A invasão da Tchecoslováquia nunca chegou a ser assunto de guerra ou paz entre nós e a União Soviética, por mais ignóbil que possa parecer”, afirmou aos jornalistas o Secretário de Estado de Lyndon Johnson, Dean Rusk.

O problema é que a situação paradoxal de sacrifício da liberdade em nome da liberdade futura, da justificação da opressão em nome da luta contra a opressão, da privação como promessa da fartura e da guerra permanente como pressuposto da paz, acabava criando tensões. Não importa como essas tensões se manifestavam ou como eram tratadas pontualmente, mas o fato é que as autoridades, por toda parte do mundo, consideravam que a estabilidade na tensão, e não a paz, era o valor absoluto a ser buscado e alcançado. “A tentativa de um lado de impor uma justiça absoluta será encarada pelo outro como absoluta injustiça. A estabilidade depende da relativa satisfação e, portanto, da relativa insatisfação dos vários estados.” Palavras de Henry Kissinger::

04/03/2009

Um sistema de armas às… (Ahhh, quando der… Não tenho tanto tempo quanto gostaria)::

Outro dia recebi um interessante comentário, redigido pelo Paulo Carvalho, que, pelo que parece, faz parte do clube de pesquisadores sobre sistemas de armas avançados. Disse o Paulo (sobre o posto em torno do XB70): “o XB-70 … foi cancelado por causa dos custos astronômicos e pela competição com o SR-71 já que havia planos para uma versão de reconhecimento designada RS-70. Como ambos voavam a mesmas velocidades e altitudes e como o SR-71 foi um sucesso estrondoso (nunca fora abatido apesar dos milhares de mísseis lançados contra ele) a ineficácia contra os mísseis antiaéreos definitivamente não foi a causa do fim do XB-70.”

Possivelmente o Paulo tem razão quanto ao fator “custos”, embora eu não concorde quanto aos mísseis. Entretanto, quando fui verificar informações, descobri que o XB-70 tem uma história muito mais interessante do que supunha minha vã filosofia. De fato, o Paulo, como todos nós, nesse ramo, tinha e não tinha razão. O RS-70 não era uma versão de reconhecimento do Valkyrie, mas uma tentativa feita pela Força Aérea dos EUA de salvar o projeto, criando um “reconhecedor de ataque”, uma aeronave capaz de cumprir ambas as funções em condições de campo de batalha nuclear. De fato, essa geringonça e o SR-71 tinham, em comum, apenas o preço astronômico (voltaremos a falar sobre o “Pássaro Negro” em breve). Para esta edição de Um sistema de armas às terças:: (que não é mais às terças, mas sempre que surgir um tema interessante) levantei um artigo antigo da revista Time onde o debate em torno de gastar ou não uma fortuna com esse novo sistema de armas está colocado. Divirtam-se!::

 

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RS-70: embuste ou superavião?

Time, 30 de março de 1962

 As últimas duas semanas foram tomadas por manobras entre o senador Carl Vinson e a administração Kennedy, mas o bombardeiro que foi a causa do fracasso foi quase ignorado. O que é o RS-70? Por que ele desperta tanta emoção no Pentágono, na Casa Branca e no Congresso? É um embuste ou um superavião?

O RS-70 é o novo “reconhecedor de ataque” da Força Aérea, versão do super-bombardeiro B-70, que vem sendo projetado desde 1953.  Deveria ser uma aeronave verdadeiramente revolucionária, voando a 2.000 mph em altitudes de até 80.000 pés, em distâncias de até 6.000 milhas, sem reabastecimento. A Força Aérea quer gastar US$ 491 milhões no próximo ano fiscal (iniciando em 1o de julho) num programa que poderá colocar os primeiros RS-70 em operação em 1967, até alcançar 150 unidades por volta de 1970, a um custo total que poderá chegar a US$ 10 bilhões. Já o Secretário de Defesa Robert McNamara quer gastar US$ 171 milhões no próximo ano, para colocar no ar três protótipos do RS-70. A discussão entre a Força Aérea e McNamara desenvolve-se em torno de conceitos basicamente diferentes de defesa nacional. Ambos os lados clamam que o outro está totalmente errado. De fato, nenhum dos dois está totalmente certo.

Os argumentos pró. O general Curtis LeMay, chefe do Estado-maior da Força Aérea voou B-17 sobre a Europa, dirigiu os ataques de B-29 contra o Japão, criou o Strategic Air Command como mola-mestra da dissuassão nuclear, e ainda guarda profunda fé  nas aeronaves  pilotadas manualmente , não importa o quanto se desenvolva a tecnologia de mísseis. LeMay argumenta que um homem pode administrar melhor que o cérebro-robô de um míssil a inevitável confusão de um combate. Para exemplificar as vantagens das aeronaves pilotadas, ele pode apontar a recente experiência do astronauta John Glenn, que assumiu o controle do Friendship 7  quando o equipamento automatizado mostrou defeito. Ainda mais importante, se o radar estivesse apontando sinais de um ataque contra os EUA, um RS-70 poderia ser enviado  na direção contrária e avisado a tempo, em caso de alarme falso. Um míssil não retorna: ou vai ou fica.

Os defensores do RS-70 sustentam que a dissuassão nuclear deve  combiner bombardeiros e mísseis para confrontar o inimigo como uma variedade de sistemas de armamentos. Se um não funcionar, o outro funcionará—e o RS-70 é um sistema de armas completo em um só. Esses mesmos defensores apontam que, este ano, cessará a produção dos dois últimos bombardeiros da Força Aérea—o subsônico B-52 e o super-sônico B-58. Se o RS-70 for descontinuado, dizem eles, toda a frota de bombardeiros dos EUA estará eventualmente obsoleta.

A Força Aérea argumenta que o RS-70 será um alvo difícil de acertar. Ainda que os russos construam um caça que possa voar a 2.000 mph, interceptar um RS-70 capaz de cobrir 30 milhas por minuto seria uma tarefa ingrata.  Uma das defesas do RS-70 contra mísseis anti-aéreos seriam as contramedidas eletrônicas altamente secretas. A Força Aérea admite que alguns RS-70 poderiam ser derrubados, mas muitos poderiam passar e aniquilar o inimigo.

O caso contrário. O Secretário de Defesa McNamara acredita em suas planilhas, gráficos e projeções econômicas, tanto quanto o general LeMay crê em suas experiências e intuições. Os dados de McNamara indicam que o dinheiro a ser gasto com o RS-70 poderia ser melhor aplicado em outro lugar. Pelos US$10 bilhões que a Força Aérea quer  gastar no RS-70 até 1970, McNamara diz que os EUA poderiam comprar 2.000 mísseis Minutemen e instalá-los em silos de concreto profundamente enterrados no solo. E, melhor ainda, manter esses 2.000 Minutemen custaria US$2 bilhões nos próximos 5 anos, contra  US$ 3 bilhões pela frota de RS-70.

McNamara também argumenta que os RS-70 não terão utilidade, a menos que sejam equipados com detetores de radar e mísseis nucleares para auto-defesa, ambos ainda não desenhados—e que provavelmente não serão. Um radar do tipo proposto teria de varrer 100.000 milhas quadradas por hora enquanto o avião estivesse viajando a 2.000 m.p.h. a uma altitude de 70.000 pés. Para separar dois pontos a essa distância, afirma McNamara, uma tela de radar teria de ter 15 pés de altura.  Pelo final da década de 1960, McNamara imagina que o trabalho de reconhecimento será feito por versões avançadas do satélite-espião Samos.

Apesar desses argumentos, McNamara admite que as circunstâncias podem mudar  e tornar o RS-70 necessário no futuro. O secretário agora planeja gastar US$52 milhões, no próximo ano fiscal, para verificar se os equipamentos altamente sofisticados requeridos pelo RS-70 podem ser construídos. E, mais ainda, McNamara prometeu a Vinson que parte do dinheiro aprovado pelo Congresso poderá ser gasto na aeronave, “se a tecnologia avançar mais rapidamente do que foi antecipado.

Tanto McNamara quanto a Força Aérea são convincentes em seus argumentos sobre o RS-70. Retirando sua pretendida diretiva congressional ao Presidente, Carl Vinson evita um argumento potencialmente debilitador. Ainda que Bob McNamara esqueça sua promessa de reabrir e reestudar o caso RS-70, ele poderá ter de contar a história::

 

 

 

 

 

 

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