Causa::

04/10/2009

É um bom dia para pensar::

Arquivado em: Cara nova, Frases, Personalidades — bitt @ 14:54
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O redator já percebeu que a coluna Duas frases para para pensar:: e sua sucessora, Duas frases: é um bom dia para pensar:: estão dentre as seções mais acessadas aqui do blog-recurso de pesquisa. Não resta, pois, dúvida que os famosos poucos (os aqui de causa::, não os de Winston Churchill) são altamente intelectualizados e vivem a procurar meios de massagear os cérebros. Assim, em homenagem a todos, mais uma vez a coluna muda de formato. Primeiro, passa a ter o nome aí em cima; segundo, os textos vão agora aparecer em três formatos: curtinhos, de uma ou duas frases; curtos, de um parágrafo; longos, que podem ter vários parágrafos. Sempre com origem em alguma coisa interessante que o redator suponha que seja pertinente ao assunto e aos interesses dos poucos. E divirtam-se::

E, antes que esqueça: o redator está tentado a abrir outro blog/recurso de pesquisa: livros::de::causa:: com resenhas quinzenais sobre os livros e outros blogs que formam a substância do causa:: Gostaria de opiniões e sugestões dos poucos. Seria lido, ou seria perda de tempo?..::

É preciso compreender que o maior dos males que pode oprimir os povos civilizados deriva das guerras, mas certamente não tanto das guerras atuais e passadas quanto do armamento constante, crescente e infindável para as guerras futuras. Todos os poderes das naçõesestão dedicados a isso, assim como todos os frutos da cultura que possam ser empregados para construir uma cultura ainda mais forte. Immanuel Kant. Começo especulativo da história humana (1786)

… a ficção e a imaginação popular muitas vezes agem em conjunto para difundir espontaneamente uma idéia, a fim de poder fazê-la passar do domínio da fantasia ao da realidade. A antevisão dos escritores de ficção foi reconhecida após os ataques terroristas às Torres Gêmeas e ao Pentágono, em 11 de setembro. Depois desse golpe audacioso, o FBI visitou Hollywood para conhecer os possíveis cenários terroristas que os roteiristas já teriam concebido para a nova era da “guerra assimétrica”. P. D. Smith. Os homens do fim do mundo.O verdadeiro Dr. Fantástico e o sonho da arma total (2008). Pág. 98

10/06/2009

O mês da Guerra da Coréia::Em causa, a Coréia::

Tivemos, ao longo de maio, uma comemoração especial sobre o fim da Segunda Guerra Mundial, enfatizando a participação do Brasil na luta contra o fascismo. É certo que as atribulações do redator fanático por história e tecnologia militar deixaram, infelizmente, pouco tempo para a festa. Por outro lado, enquanto falávamos sobre a Segunda Guerra Mundial, deu às caras um de seus mais acabados produtos: a Coréia. O ditador Kim Jong Il, da Coréia do Norte, último regime verdadeiramente estalinista no mundo, resolveu chamar atenção do dito reativando seu programa de armas estratégicas, ao mesmo tempo que lançava ameaças contra a Coréia do Sul, o Japão e contra o “Grande Satã” - os EUA.

E, curiosamente, o mês de junho marca a passagem do 57º aniversário da eclosão da Guerra da Coréia. Porque não comemorar, pois? Não que guerras sejam fatos a comemorar, mas essa, em particular, tem uma característica interessante e pouco observada. Entre junho de 1950 e julho de 1953, a península foi palco de uma guerra localizada que contrapôs as duas grandes potências, e na qual morreram aproximadamente 900.000 pessoas. Em teoria, essa guerra ainda não terminou, pois não foi assinado um tratado de paz, mas um armistício. Do ponto de vista da mecânica das relações internacionais e das formalidades diplomáticas, as duas Coréias ainda estão, tecnicamente, em guerra. 

 A Coréia do Norte e a Coréia do Sul surgiram do desenlace da Segunda Guerra Mundial e da configuração do mundo que resultou dela, a tal “Guerra Fria” sobre a qual tanto se fala (e, diga-se de passagem, fala-se muita besteira…). A *Península da Coréia, situada no Sudeste da Ásia, é ocupada por dois estados, divididos pelo Paralelo 38N. A maioria das pessoas tende a acreditar que a divisão atual da península resultou da guerra de 1950. Na realidade, é anterior: em 1945, imediatamente após a derrota do Japão, duas zonas de influência foram estabelecidas. O norte, ocupado pela União Soviética, e a partir de 1949, denominada “República Democrática do Povo da Coréia”. Abaixo do paralelo, na zona ocupada por tropas norte-americanas, a ”República da Coréia”, estabelecida em 1948. A origem mais remota dessa divisão encontra-se na Conferência do Cairo, de 1943, na qual os aliados tinham resolvido tirar do Japão suas áreas coloniais. Os EUA, a China e a Grã-Bretanha concordaram que à Coréia deveria ser dada a independência, após as vitória das nações aliadas. A URSS aderiu a esse princípio quando, em maio de 1945, declarou guerra ao Japão. O presidente dos EUA e o chefe do governo soviético concordaram, na Conferência de Ialta,  em estabelecer um mandato internacional para a península, mas o que resultaria desse mandato não foi claramente formulado. O desembarque de forças soviéticas no norte da península, em julho de 1945, levou o governo dos EUA a ter de improvisar uma solução, visto que os norte-americanos não tinham tropas combatentes na região e os soviéticos estavam em posição de ocupar toda a península. Assim, em 15 de agosto, o presidente Harry Truman propôs a Stalin a divisão da Coréia, simplesmente traçando uma linha de coordenada, mais ou menos no meio da região. Stalin aceitou sem discutir. Naquele momento, o líder soviético parecia esperar que os EUA concordassem com a ocupação soviética de parte do território japonês. Ao contrário do que esperava Stalin, Truman convocou uma conferência de ministros aliados, que aconteceu em Moscou, em dezembro de 1945. Os aliados concordaram com um mandato de cinco anos, durante o qual um governo provisório prepararia a independência, sob supervisão das potências vencedoras. Os únicos que não gostaram do acordo foram os coreanos, de todo o espectro político. A direita, sob a liderança do extremista pró-americano Syngman Rhee, aproveitou-se da “ameaça comunista” para consolidar sua base política, em um momento em que, na China, os nacionalistas se viam sob forte pressão dos comunistas locais.  A comissão inter-aliada reuniu-se em Seul até adiar indefinidamente seus trabalhos, no início de 1947. Os soviéticos insistiam que apenas partidos e organizações sem ligação com o período de ocupação japonesa pudessem participar do processo. Isso significava a exclusão automática de amplos setores da política local – burocratas e empresários envolvidos, em diversos graus, com o esforço de guerra japonês. Os EUA recusaram essa fórmula, pois era a garantia que apenas os comunistas participariam do governo, já que constituiam a maioria dos movimentos que tinham se oposto aos japoneses.

O problema é que os EUA não tinham nenhum plano alternativo. A Coréia era, então, muito pouco conhecida pelo governo norte-americano e um problema adicional, observado pelos comandantes das forças de ocupação dos EUA era o fato de que os oficiais militares encarregados de governar a parte sul da península não sabiam nem a língua, nem os costumes e muito menos a história local. Os soviéticos não tiveram tal problema já que passaram o governo da porção norte do Paralelo 38 N ao Partido Operário da Coréia. No sul, o Partido tinha grande influência entre operários e estudantes. Diante da expansão comunista no sul, os EUA passaram a apoiar políticos exilados que retornavam à Coréia, de perfil conservador, e antigos membros da administração no período japonês. Em setembro de 1947, diante do agravamento da situação, o governo norte-americano submeteu o problema coreano às Nações Unidas. Em novembro, a Assembléia Geral reconheceu o direito da Coréia à independência e determinou a realização de eleições para uma assemblèia nacional unificada, no mês de maio do ano seguinte. Os soviéticos se recusaram a submeter o norte da península ao mandato da ONU, o que praticamente determinou a divisão do país, uma vez que os setores políticos comunistas e alguns nacionalistas de esquerda passaram a boicotar a eleição. A política de confronto entre os movimentos políticos locais acabou por diminuir a influência comunista e resultou no isolamento dos progressistas, diante da política de intimidação dos direitistas e da recusa do Partido em fazer alianças.

A Assembléia Nacional eleita em maio de 1948 adotou uma constituição que previa a forma republicana de governo. Syngman Rhee tornou-se o líder da assembléia e preparou, de forma apressada, o estabelecimento da República da Coréia, em agosto de 1948, da qual se tornou presidente. Um mês depois, as autoridades comunistas da área soviética cortaram laços com o governo do sul e proclamaram o estabelecimento da República Democrática do Povo da Coréia – que desde então passou a ser conhecida pela imprensa internacional como “Coréia do Norte”. O governante era o secretário do Partido dos trabalhadores da Coréia, Kim Il Sung. Kim alegava ser o líder legítimo de todos os coreanos, em função de eleições realizadas no norte e de alegadas eleições subterrâneas que teriam acontecido no sul.

Em setembro de 1948 foi criado o Exército da República da Coréia , que logo se viu diante de um motim de unidades formadas por simpatizantes dos comunistas. A revolta foi controlada mas revelou a fragilidade da estrutura militar do novo governo. Em 1949, os EUA não pareciam dispostos a apoiar  a república, que viam como fadada ao fracasso. No final de junho, as forças norte-americanas tinham sido retiradas e apenas duas brigadas (uns 8000 efetivos) permaneceram. Os estrategistas dos EUA pareciam conformados em perder a região e colocaram o país como “área externa ao perímetro de defesa norte-americano na Ásia”. Apenas garantiram, de forma vaga, que, no caso de uma agressão do norte, apoiariam o governo local com tropas.

A guerra veio, com a invasão da Coréia do Sul em junho de 1950. Mas deixemos esse tema para depois…::

21/04/2009

Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::Dragões das Minas::

E já que hojé é dia 21 de abril…::

Tiradentes em uniforme da Regimento de Dragões das Minas. Imagem (muito idealizada) de José Washt Rodrigues, 1940

Tiradentes em uniforme da Regimento de Dragões das Minas. Imagem (muito idealizada) de José Washt Rodrigues, 1940

O nome ”dragão” (em inglês dragoon) refere-se a um soldado de cavalaria leve, em oposição às tropas de “cavalaria couraçada”. Essas tropas descendem da cavalaria auxiliar que, no início da Idade Moderna, dirigia-se ao campo de batalha montada, mas combatia a pé, como infantaria. A partir do século XVI, com a disseminação de armas de fogo e de lançadores de flechas mecânicos extremamente potentes (chamados *bestas), tropas couraçadas começaram a sumir dos campos de batalha, e a cavalaria, em particular, ganhou novas missões: reconhecimento e incursões de flanco. Portavam armamento consideravelmente mais leve, como arcos, sabres, lanças e armas de fogo adaptadas para serem usadas com uma única mão.  As armaduras, durante algum tempo usadas por *tropas a pé, no início do século XVIII, tinham sido totalmente abandonadas, por não proverem proteção eficaz contra armas de fogo. Foi mantido apenas o capacete, em metal ligeiro, dotado de uma crista rígida destinada a prover alguma proteção contra golpes de sabre. No Brasil colonial [para mais informações sobre a defesa da colônia, clique aqui], essas tropas eram, em geral de*milícias“, ou seja, tropas da “2a linha”, que complementavam a ”1a linha”, ou seja, o exército profissional. Essas tropas tinham organização parecida com  do exército, mas eram providas por pessoal local, moradores das freguesias em torno da sede.:: 

17/04/2009

Duas frases para pensar::Afinal, é Sexta-Feira::

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E já que o Paquistão está mostrando a que veio…::

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Não há nada errado com as diferenças intelectuais que emergem da liberdade de pensamento, desde que tais diferenças fiquem confinadas aos debates intelectuais.

(Pervez Musharraf, presidente do Paquistão entre 1999 e 2007, amigo número 1 dos EUA na administração Bush, 2006.)

O Paquistão já foi chamado o mais aliado dos aliados dos Estados Unidos. Agora, seremos conhecidos por sermos os mais não-aliados. Talvez, no futuro, as coisas mudem novamente, mas não depende de nós.

(Zulfikar Ali Bhutto, presidente do Paquistão entre 1971 e 1973 e primeiro-ministro entre 1973 e 1977, fundador do Partido do Povo do Paquistão, em entrevista ao jornal New York Times.)::

11/04/2009

Duas frases para pensar: afinal, é Sexta-feira::

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Já que está todo mundo falando do delegado-estrela e seus relatórios como antecâmara do estado policial (seja lá o que isso for), vamos ver algumas observações de quem realmente entende do assunto. J. Edgar Hoover, chefe do  FBI e um dos maiores exemplos de sobrevivente encontrável em qualquer serviço público do mundo.::

A Justiça é incidental para a lei e a ordem.

Somos somente uma organização de levantamento de fatos. Não inocentamos nem condenamos ninguém.

 

 

28/03/2009

Duas frases para pensar::Afinal, é Sexta-feira::

Arquivado em: Brasil, Frases, Personalidades — bitt @ 01:44
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Saiu tarde, mas… Ainda é Sexta-feira… E por sinal, com notícias de nossa guerra particular, e uma homenagem ao amigo distante o Pax, comandante da nau Notícias da corrupção. Eu entendo do assunto – admiro os bons soldados. (Ambas as frases foram cortadas do blog  do PD, mas poderiam ter sido ditas por Lucian K. Truscott Jr.)::

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 Tá tudo caindo na rede. E tá duro de acompanhar. Mas vamos lá.

Aponte tua metralhadora desengonçada, a la Mr X, pros alvos certos.

Para comparar, duas frases de Truscott.

Temos de ir adiante. E – homem, acredite - iremos!

Deixe-me dizer- lhe uma coisa, e trate de não se esquecer disso: … você luta guerras para vencer.::

20/03/2009

Duas frases para pensar::Afinal, é Sexta-feira::

Duas só, não, quatro – semana passada não teve…

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O poder em vontade, a vontade em ambição/E a ambição, lobo universal,/Duplamente acompanhada de vontade e de poder,/Precisa fazer uma vítima/E, por fim, se autodevorar.

William Shakespeare (1554-1616), Troilus and Cressida

Em vez de unidade entre as grandes potências – tanto política quanto econômica – depois da guerra, há desunião completa entre a União Soviética e seus satélites de um lado, e o resto do mundo de outro. Em suma, são dois mundos, em vez de um.

Charles E. Bohlen (1904-1974), 1947

O poder militar que ocupava o alto do sistema deparou … com poder ainda maior baseado na vontade popular na base. Como no jogo de crocket em Alice no País das Maravilhas, em que os malhos eram flamingos e as bolas eram ouriços, os peões no jogo da Guerra Fria, erroneamente vistos como objetos inanimados pelas superpotências, ganharam vida em suas mãos  e começaram, universalmente e sem interrupção, a tratar de seus planos e ambições.

Jonathan Schell (1943), 2003

Um mundo melhor será aquele em que as promessas de desarmamento se realizem, os preceitos do Direito Internacional sejam obedecidos pelas grandes potências, as diferenças econômicas entre os Estados se reduzam e o meio ambiente seja preservado.

Samuel Pinheiro Guimarães Neto (1939), 2007

07/03/2009

Duas frases para pensar::Afinal, é sexta-feira::

Bem, de fato, é sábado, mas compensarei com um volume bem grande de temas para pensar::

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Se, conforme Mrs. [Margaret] Tatcher – “não existe essa coisa de sociedade”, então, com o passar do tempo, as pessoas haveriam de perder o respeito por bens definidos socialmente. E essim ocorreu, pois a Grã-Bretanha no final da Era Tatcher começou a assumir algumas das piores características do modelo norte-americano que a Dama de Ferro tanto admirava. Os serviços que permaneciam ligados ao setor público ficavam à míngua, enquanto a riqueza se acumulava nos setores “emancipados” da economia … Os espaços públicos ficavam ao deus-dará. O índice de delitos e deliqüência cresceu na proporção do aumento da fatia da população relegada à pobreza permanente.

Tony Judt. Pós-Guerra. Uma história da Europa desde 1945, 2004. 

(Livro que o redator recomenda, entusiasticamente, para todos que pretendam entender o estado de coisas atual na Europa e… no Brasil.)

Especificamente, desde o princípio da Grande Depressão podemos ver claros presságios das catástrofes futuras olhando para o último ano de cada década. Entre 1929 e 1989 houve sete desses anos e nenhum deles se passou sem um acontecimento que marcasse época em algum lugar do planeta. A cada vez, uma revolução sangrenta, um fracasso econômico ou uma grande guerra  estourou para traumatizar o mundo na maior parte da década seguinte.

Ravi Batra. The crash of the millennium, 1999.

(Até ler esse livrinho – não todo, mas boa parte…-, desse pop-star acadêmico com certa vocação para profeta do apocalipse capitalista , o redator não acreditava em premonição…) 

04/03/2009

Um sistema de armas às… (Ahhh, quando der… Não tenho tanto tempo quanto gostaria)::

Outro dia recebi um interessante comentário, redigido pelo Paulo Carvalho, que, pelo que parece, faz parte do clube de pesquisadores sobre sistemas de armas avançados. Disse o Paulo (sobre o posto em torno do XB70): “o XB-70 … foi cancelado por causa dos custos astronômicos e pela competição com o SR-71 já que havia planos para uma versão de reconhecimento designada RS-70. Como ambos voavam a mesmas velocidades e altitudes e como o SR-71 foi um sucesso estrondoso (nunca fora abatido apesar dos milhares de mísseis lançados contra ele) a ineficácia contra os mísseis antiaéreos definitivamente não foi a causa do fim do XB-70.”

Possivelmente o Paulo tem razão quanto ao fator “custos”, embora eu não concorde quanto aos mísseis. Entretanto, quando fui verificar informações, descobri que o XB-70 tem uma história muito mais interessante do que supunha minha vã filosofia. De fato, o Paulo, como todos nós, nesse ramo, tinha e não tinha razão. O RS-70 não era uma versão de reconhecimento do Valkyrie, mas uma tentativa feita pela Força Aérea dos EUA de salvar o projeto, criando um “reconhecedor de ataque”, uma aeronave capaz de cumprir ambas as funções em condições de campo de batalha nuclear. De fato, essa geringonça e o SR-71 tinham, em comum, apenas o preço astronômico (voltaremos a falar sobre o “Pássaro Negro” em breve). Para esta edição de Um sistema de armas às terças:: (que não é mais às terças, mas sempre que surgir um tema interessante) levantei um artigo antigo da revista Time onde o debate em torno de gastar ou não uma fortuna com esse novo sistema de armas está colocado. Divirtam-se!::

 

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RS-70: embuste ou superavião?

Time, 30 de março de 1962

 As últimas duas semanas foram tomadas por manobras entre o senador Carl Vinson e a administração Kennedy, mas o bombardeiro que foi a causa do fracasso foi quase ignorado. O que é o RS-70? Por que ele desperta tanta emoção no Pentágono, na Casa Branca e no Congresso? É um embuste ou um superavião?

O RS-70 é o novo “reconhecedor de ataque” da Força Aérea, versão do super-bombardeiro B-70, que vem sendo projetado desde 1953.  Deveria ser uma aeronave verdadeiramente revolucionária, voando a 2.000 mph em altitudes de até 80.000 pés, em distâncias de até 6.000 milhas, sem reabastecimento. A Força Aérea quer gastar US$ 491 milhões no próximo ano fiscal (iniciando em 1o de julho) num programa que poderá colocar os primeiros RS-70 em operação em 1967, até alcançar 150 unidades por volta de 1970, a um custo total que poderá chegar a US$ 10 bilhões. Já o Secretário de Defesa Robert McNamara quer gastar US$ 171 milhões no próximo ano, para colocar no ar três protótipos do RS-70. A discussão entre a Força Aérea e McNamara desenvolve-se em torno de conceitos basicamente diferentes de defesa nacional. Ambos os lados clamam que o outro está totalmente errado. De fato, nenhum dos dois está totalmente certo.

Os argumentos pró. O general Curtis LeMay, chefe do Estado-maior da Força Aérea voou B-17 sobre a Europa, dirigiu os ataques de B-29 contra o Japão, criou o Strategic Air Command como mola-mestra da dissuassão nuclear, e ainda guarda profunda fé  nas aeronaves  pilotadas manualmente , não importa o quanto se desenvolva a tecnologia de mísseis. LeMay argumenta que um homem pode administrar melhor que o cérebro-robô de um míssil a inevitável confusão de um combate. Para exemplificar as vantagens das aeronaves pilotadas, ele pode apontar a recente experiência do astronauta John Glenn, que assumiu o controle do Friendship 7  quando o equipamento automatizado mostrou defeito. Ainda mais importante, se o radar estivesse apontando sinais de um ataque contra os EUA, um RS-70 poderia ser enviado  na direção contrária e avisado a tempo, em caso de alarme falso. Um míssil não retorna: ou vai ou fica.

Os defensores do RS-70 sustentam que a dissuassão nuclear deve  combiner bombardeiros e mísseis para confrontar o inimigo como uma variedade de sistemas de armamentos. Se um não funcionar, o outro funcionará—e o RS-70 é um sistema de armas completo em um só. Esses mesmos defensores apontam que, este ano, cessará a produção dos dois últimos bombardeiros da Força Aérea—o subsônico B-52 e o super-sônico B-58. Se o RS-70 for descontinuado, dizem eles, toda a frota de bombardeiros dos EUA estará eventualmente obsoleta.

A Força Aérea argumenta que o RS-70 será um alvo difícil de acertar. Ainda que os russos construam um caça que possa voar a 2.000 mph, interceptar um RS-70 capaz de cobrir 30 milhas por minuto seria uma tarefa ingrata.  Uma das defesas do RS-70 contra mísseis anti-aéreos seriam as contramedidas eletrônicas altamente secretas. A Força Aérea admite que alguns RS-70 poderiam ser derrubados, mas muitos poderiam passar e aniquilar o inimigo.

O caso contrário. O Secretário de Defesa McNamara acredita em suas planilhas, gráficos e projeções econômicas, tanto quanto o general LeMay crê em suas experiências e intuições. Os dados de McNamara indicam que o dinheiro a ser gasto com o RS-70 poderia ser melhor aplicado em outro lugar. Pelos US$10 bilhões que a Força Aérea quer  gastar no RS-70 até 1970, McNamara diz que os EUA poderiam comprar 2.000 mísseis Minutemen e instalá-los em silos de concreto profundamente enterrados no solo. E, melhor ainda, manter esses 2.000 Minutemen custaria US$2 bilhões nos próximos 5 anos, contra  US$ 3 bilhões pela frota de RS-70.

McNamara também argumenta que os RS-70 não terão utilidade, a menos que sejam equipados com detetores de radar e mísseis nucleares para auto-defesa, ambos ainda não desenhados—e que provavelmente não serão. Um radar do tipo proposto teria de varrer 100.000 milhas quadradas por hora enquanto o avião estivesse viajando a 2.000 m.p.h. a uma altitude de 70.000 pés. Para separar dois pontos a essa distância, afirma McNamara, uma tela de radar teria de ter 15 pés de altura.  Pelo final da década de 1960, McNamara imagina que o trabalho de reconhecimento será feito por versões avançadas do satélite-espião Samos.

Apesar desses argumentos, McNamara admite que as circunstâncias podem mudar  e tornar o RS-70 necessário no futuro. O secretário agora planeja gastar US$52 milhões, no próximo ano fiscal, para verificar se os equipamentos altamente sofisticados requeridos pelo RS-70 podem ser construídos. E, mais ainda, McNamara prometeu a Vinson que parte do dinheiro aprovado pelo Congresso poderá ser gasto na aeronave, “se a tecnologia avançar mais rapidamente do que foi antecipado.

Tanto McNamara quanto a Força Aérea são convincentes em seus argumentos sobre o RS-70. Retirando sua pretendida diretiva congressional ao Presidente, Carl Vinson evita um argumento potencialmente debilitador. Ainda que Bob McNamara esqueça sua promessa de reabrir e reestudar o caso RS-70, ele poderá ter de contar a história::

 

 

 

 

 

 

02/03/2009

Duas frases para pensar::Afinal é sexta-feira::

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Bem, de fato, é segunda, mas… Carnaval desorganiza tudo::

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E se algum físico lograsse realizar o maior dos sonhos de sua ciência e nos ensinasse a liberar a energia contida no átomo, toda a raça humana viveria sob ameaça de uma destruição instantânea.

William McDougall, psicólogo inglês, no livro World Chaos, the Responsability of Science (1932)

Apelo a todos os cientistas, em todos os países, para que interrompam e abandonem por completo o trabalho destinado à criação, ao desenvolvimento, ao aperfeiçoamento e à prudução de novas armas nucleares -e, por extensão, outras armas com potencial de destruição em massa, tais como armas químicas e biológicas.

Hans Bethe, coordenador da equipe de físicos teóricos e químicos do Projeto Manhattan para o desenvolvimento do explosivo nuclear, Nova Iorque, 1995

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