Causa::

13/11/2009

É um bom dia para pensar::

O historiador P. D. Smith escreveu um livro que foi recentemente traduzido para nosso português, e tem sido a leitura de cabeceira do redator nos últimos dois meses: Os homens do fim do mundo. Leitura um tanto pesada, mas esclarecedora aobre as relações entre guerra e ciência. E também sobre as relações quase sempre ambíguas dos cientistas com os assuntos da guerra e da política. Sugiro uma olhada cuidadosa não só aos sete leitores (contadinhos…), mas a todos quanto estejam realmentei interessados em entender um pouco mais sobre os nós de nossa modernidade. Em seguida, uma pequena amostra, selecionada de modo a também comemorar o fim da primeira matança industrial da história, que pudemos comemorar dois dias atrás – 11 de novembro, 1918::

Nenhum tiro foi disparado … um número considerável de russos envenenados pelo gás … jaziam deitados ou retorcidos, em condição lamentável. Senti-me profundamente envergonhado e perturbado. Afinal de contas, também sou culpado por essa tragédia. Otto Hahn, citado por P. D. Smith, p. 112.

Nunca esquecerei o que vi em Ypres, depois do ataque a gás. Homens caídos ao longo de toda a estrada entre Poperinghe e Ypres, exaustos, ofegantes, limpando um muco amarelo de suas bocas, com os rostos azuis e atormentados. Era horroroso, e era tão pouco o que podíamos fazer por eles. Nenhum texto de nenhum livro que eu tenha visto descreve, ou sequer chega perto, do horror daquelas cenas. Você saía daquele lugar com vontade de ir imediatamente ao encontro dos alemães para esganá-los, para que eles pagassem de algum modo pela sua ação diabólica. Melhor a morte súbita do que aquela agonia horrível. G. W. G. Hughes, tenente-coronel, Corpo Médico do Exército Britânico, citado por P. D. Smith, p. 117.

Como se fosse sob um mar verde/ Nos meus sonhos, diante de minha vista impotente/ Ele me procura, engasgado, soluçando e se afogando. Wilfred Owen (poeta-soldado, morto em ação na batalha do rio Sambre, 4 de março de 1918) Dulce et Decorum est, citado por P. D. Smith, p. 115.

Primeiro surpresa; em seguida, medo; depois, quando os primeiros flocos da nuvem os envolveram, deixando-os asfixiados e em agonia por não poder respirar – pânico. Os que conseguiam mover-se tratavam de escapar e de afastar-se, em geral em vão, da nuvem que os seguia inexoravelmente. Samuel Auld, químico, major do exército britânico, autor de um livro clássico sobre armas químicas, descrevendo um ataque com gás de cloro, na Frente Ocidental, em 1915, citado por P. D. Smith, p. 115.

26/03/2009

Cultura material militar::Capacetes (Parte 2)

Nunca imaginei que o assunto “capacetes” fosse tão interessante. O que sei é que a cultura material militar é assunto bastante variado, e inúmeros interessados. Acho Muitos dos que escrevem sobre o assunto são historiadores da tecnologia, que buscam aprofundar todos os aspectos dessa questão. Mas boa parte dos interessados escritores e leitores são, por exemplos, colecionadores de “militaria”, ou seja, de antiguidades produzidas pela atividade militar, seja na guerra ou fora dela; outros, também extremamente ativos, são os artesãos produtores e colecionadores de soldadinhos de brinquedo e modelismo militar em geral. Essas práticas, apesar do nome, não são coisa de criança, mas um dos hobbies mais praticados no mundo, que envolve um mercado de bilhões de dólares e milhões de aficcionados.::

 

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O capacete francês tipo “Adrian” foi, então, distribuído a outros exércitos, mesmo antes da 1a GM terminar. Grande número deles chegou até as tropas russas destacadas para servir na Frente Ocidental. Os russos se interessaram pela proteção individual, e consta que tinham tentado introduzir chapas de metal sob seus tradicionais quépis. Os primeiros capacetes entregues às tropas do czar eram de fabicação francesa e tinham a águia de duas cabeças da dinastia Romanov estampada na metade anterior.
Não levou muito tempo para que os russos começassem a produzir seus capacetes na indústria local. Tratava-se de uma cópia simplificada do “Adrian”, e foi introduzida em 1916. Nessa versão, a ventilação (constituída, nos exemplares franceses, por orifícios localizados por baixo de uma “crista” metálica situada no topo da carapaça), era menos definida, tornando o equipamento um tanto desconfortável de usar. O item era distribuído às tropas sem insígnias ou distintivos.

A Revolução de Outubro de 1917 tirou a Rússia da Guerra, sem que houvesse acontecido qualquer outra medida que não o tratado de Brest-Litovski, o que deixou os enormes exércitos russos mais-ou-menos intocados, embora bastante maltratados pelas condições da paz. A Guerra Civil que estourou logo a seguir colocou lançou, uns contra os outros, vários exércitos e milícias razoavelmente dotados de efetivos, armamentos e suprimentos: diversas facções de partidários do czar (geralmente conhecidos como “brancos”), simpatizantes liberais, milicianos religiosos e anarquistas e o Exército Vermelho. Poucas dessas tropas, entretanto, tinham, em seu equipamento individual padrão algum tipo de capacete. É certo que muitos dos “Adrian” de fabricação local estavam em mãos das diversas tropas, mas também eram vistos, em alguma quantidade, capacetes alemães capturados e, em menor número, o modelo usado pelo exército austro-húngaro.
Depois da vitória do Exército Vermelho, e da consolidação da União Soviética, em dezembro de 1922, o novo governo começou a reorganizar as forças militares. Essa reorganização significou um novo ordenamento na distribuição de armas e equipamentos, e os capacetes disponíveis foram padronizados, sendo mantidos apenas os “Adrian” locais, nos quais a estrela vermelha, símbolo do novo estado substituiu a águia Romanov.

O período entre-guerras testemunhou a reorganização social, econômica e militar do país, mas, em termos gerais, os uniformes de campanha da época do Império Russo foram mantidos, exceto pelo abandono de cores que, como o branco, remetiam à casa Romanov. Alguns experimentos com novos modelos de capacete foram feitos, mas em pequena escala e sem grande conseqüência. Um dos modelos testados, do qual restou certo número de exemplares, tinha formato semelhante ao modelo 1916 alemão. Em 1936, entretanto, foi introduzido um modelo que seria padronizado, conhecido como Kaska M36, também chamado SSh36 (de Stalnoy Shlyem – capacete de aço) ou, menos frequentemente, “Schvartz” (em função do desenhista, Aleksandr Shvartz), trata-se de um modelo que os especialistas entendem como de transição, conservando certas características da versão russa do “Adrian”, como o sistema de ventilação tipo “crista” – embora alguns digam que também seria projetado para suportar golpes de sabre, mas já com o desenho que se consolidaria na 2a GM. Em 1940, esse modelo começou a ser substituído pelo Kaska M40, que já tinha o desenho que, em fotografias e filmes, reconhecemos como “capacete russo”.  

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Equipe de lança-chamas, Berli, 1945. Os dois combatentes usam o capacete SSh40; o soldado em primeiro plano usa um tipo primitivo de colete à prova de balas.

Um dado interessante é o fato de que os capacetes russos, desde o “Schvartz”, eram usados pelos soldados junto com o casquete militar (pilotka), que, colocado sob a armação interna de lona, tornava o conjunto mais confortável.

O M40 tinha, no interior de sua armação, espaço suficiente para que o casquete fizesse parte do conjunto. Em 1941, quando da invasão da URSS, o SSh36 já estava em processo de substituição, nas tropas de linha de frente. Pequenas modificações, introduzidas ao longo da guerra (em função do grande número de fábricas dedicadas a produzir esse item de equipamento) não mudaram o desenho, considerado, ainda hoje, muito bom. Esse modelo continuaria em serviço, nas diversas nações do Pacto de Varsóvia, até os anos 1990.

Acabou? Não – essa conversa de capacetes ainda vai durar. Esperem pela próxima semana ou mandem mensagens pedindo pelamordedeussss que o redator mude de assunto…:: 

18/03/2009

Cultura material militar::Capacetes::Parte I::

Capacetes militares talvez estejam dentre os itens mais representativos dos exércitos. Embora sejam uma peça de equipamento militar e um item de proteção individual, a utilidade desses artefatos transcende sua mera materialidade. Capacetes praticamente simbolizam a atividade militar por excelência. Quando um general quer parecer combatente, põe na cabeça um capacete de aço (basta lembrar da famosa fotografia de Patton, fazendo pose com um capacete cromado). Mais do que isso, capacetes representam, através de uma operação lingüística chamada metonímia, a própria guerra. Afinal, o que vem à cabeça de todo mundo, diante da simples silhueta de um Stahlhelm M1935?.. O que é um Stahlhelm?.. É o que vamos ver, em seguida.

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Capacetes feitos de metal, madeira ou couro, foram usados desde a Antigüidade, para proteger a cabeça dos combatentes. Podem ser considerados a primeira forma de proteção corporal, juntamente com os escudos, e certamente antecederam outras peças como peitorais, perneiras e manoplas. Mas o surgimento da arma de fogo tornou esse tipo de proteção inócuo, visto que a metalurgia da época não oferecia materiais resistentes contra um tiro de pólvora. Os capacetes acabaram relegados a funções cerimoniais, .

Até o final do século 19, as “coberturas” (como os militares chamam, até hoje, qualquer tipo de chapéu) tinham a função de proteger o soldado contra condições climáticas (sol, chuva, etc.) e compor o uniforme (são ótimo lugar para se usar distintivos, insígnias, cores…). Com a eclosão da 1ª GM, as novas condições de combates nas trincheiras da Frente Ocidental provocaram enorme número de ferimentos na cabeça, em ambos os lados. Ficou evidente que era necessário algum tipo de equipamento para, pelo menos, diminuir o grau de incidência daquele tipo de casualidade.

O desastre do Marne, em setembro de 1914, precipitou a mudança dos uniformes franceses, que, até aquele ano ainda eram compostos por uma túnica azul-ferrite (um azul quase negro) e calças… vermelhas (acreditem vocês  ou não). No final do ano, começaram a ser distribuídos entre as tropas os uniformes horizon-bleu (“azul-celeste”), e, junto com eles, os soldados franceses começaram a receber um novo tipo de quépi. Esses quépis trouxeram algumas tentativas de aumentar a proteção ao soldado: pequenas placas e carapaças de metal adaptadas ao interior do chapéu.

Conforme a guerra avançava, os especialistas médicos notaram que a maioria dos ferimentos na cabeça não eram provocados por balas, mas por pedaços de metal pequenos, de baixa velocidade e trajetória irregular (“estilhaços”), resultantes da fragmentação de projéteis de artilharia. Contra uma bala de rifle moderna, ogival (pontiaguda) e impulsionada por pólvora química (“sem fumaça”), não havia proteção possível – a não ser que o soldado estivesse disposto a usar na cabeça uma carapaça de quatro ou cinco quilos; já contra estilhaços, uma chapa de metal relativamente delgada poderia ser suficiente.

Pouco depois do Marne, pelo final do ano, surgiu o boato de que os soldados estavam usando panelas e sopeiras de metal na cabeça. Essa história talvez tenha resultado da confusão provocada, em observadores da imprensa, pelo surgimento de uma carapaça de metal, distribuída aos soldados pelo intendente-geral do exército, general Agust Louis Adrian, em 1914. Segundo se conta, essa desconfortável peça de equipamento passou a ser usada principalmente para tomar sopa. Longa vida ao sempre criativo soldado de linha, independente da nacionalidade…  

Ainda assim, durante algum tempo, o exército francês insistiria em distinguir, em combate, tropas especiais através de elmos coloridos e brilhantes: dragões e couraceiros, sapadores e artilheiros. Esses artefatos cerimoniais, sobrevivências de uma época em que espadas e lanças eram armas efetivas, dificilmente serviam no ambiente da guerra industrial plena. Logo seriam eclipsados pelos “cascos de aço”.

O modelo francês, denominado “Adrian”, aperfeiçoamento do equipamento distribuído em 1914, passou a fazer parte do equipamento padrão da infantaria. Isso foi em meados de 1915. Oficialmente denominado “M15” o modelo “Adrian” era baseado no capacete usado pelos bombeiros franceses, embora sua construção fosse muito mais complexa, devido à necessidade de aumentar a funcionalidade. Várias peças de metal estampado, muito delgadas (no máximo 0,7 mm de espessura) eram soldadas e rebitadas juntas. O resultado era uma carapaça de tamanho padrão, dotada de abas, frontal e traseira, e um tipo de crista, que protegia orifícios de ventilação (quatro ou cinco, dependendo da origem). A armação interna consistia em dois anéis de tiras de couro, em forma de “D”, presos ao corpo de metal por alças. Essa estrutura, provida de cadarços, apoiava o conjunto no alto da cabeça do usuário, que o regulava para seu tamanho apertando ou afrouxando os cadarços. Esse sistema tinha a vantagem de prover alguma ventilação, pois mantinha a carapaça de metal ligeiramente afastada do couro cabeludo do usuário. O conjunto era preso à cabeça por uma alça (“jugular”), regulada por fivela deslizante. O conjunto pesava aproximadamente 1000 gramas, o que tornava seu uso um tanto desconfortável.

Cinco fábricas foram montadas para fabricar capacetes, e calcula-se que, pelo final de 1915, uns três milhões já estivessem disponíveis.

O “Adrian” era entregue aos soldados em acabamento horizon-bleu, semelhante ao do uniforme M14. Como a pintura, esmaltada, tendia a refletir luz, por volta do final do ano os franceses introduziram uma cobertura de tecido, azul-claro ou cáqui. Embora a idéia fosse boa, oficiais médicos imaginaram que o tecido, introduzido em ferimentos na cabeça, pudesse provocar complicações sérias, e aconselharam que fosse abandonada, o que aconteceu pouco depois.

O enorme número de capacetes fabricado durante a guerra (estima-se que tenha alcançado mais de seis milhões de unidades) fez com que o “Adrian” continuasse a ser utilizado também no período entre-guerras. E que fosse adotado, ainda durante a guerra, por outras nações, tão díspares quanto a Bélgica e o Brasil (que recebeu alguns em 1917, trazidos pelos observadores enviados à Europa, mas não o adotou). Os mais improváveis soldados a usar o “Adrian”, entretanto, foram os russos – tanto dos do exército do czar quanto seus sucessores comunistas.

Vamos ver este ponto depois. Como essa matéria é longa, vamos dividi-la em caítulos, para que o redator e os leitores tenham mais diversão… Ah, até lá, vejam esse filminho recolhido no… Vocês sabem onde. Eu mesmo nunca tinha visto nada tão didático…::

28/08/2007

Um sistema de armas às terças Krupp Fliegendabwehrkanonne 8,8::

O Fliegendabwehrkanonne 8,8 cm, mais conhecido entre as tropas da Wehrmacht como “acht-acht”, e entre os aliados como “88”, surgiu em 1928, como Flak 18, desenhado pelas Usinas Krupp, de Essen, na Alemanha. A origem dessa arma remonta à Guerra Franco-Prussiana de 1870. Durante o sítio de Paris, os franceses lançaram mão de alguns balões aerostáticos para observação do movimento das tropas prussianas. O exército imperial solicitou às Usinas Krupp que providenciassem uma arma eficaz contra o equipamento francês, e o resultado foi o BAK 37 (de Balone Abwehrkanonne, “canhão de defesa contra balões”). Tratava-se de uma peça de campanha de 3,7 cm que, perdendo as rodas e ganhando traves de madeira, era montada em uma carroça, num reparo que permitia uma elevação de aproximadamente 60 graus. Esse modelo continuou em atividade após o fim das hostilidades.

Em 1909, quando começaram a ser introduzidas na Alemanha as primeiras aeronaves de uso militar, o exército observou que, a uma altura de mais de 2500 metros (teto máximo das aeronaves daquela época), tanto o BAK 37 quanto as metralhadoras usando o cartucho IS 7,92 mm eram totalmente ineficazes. Entretanto, aquela altura, as aeronaves não eram consideradas ameaça, de modo que, no início da Primeira Guerra Mundial, o exército alemão não dispunha de nenhuma arma genuinamente anti-aérea.

O desenvolvimento da aviação, durante a Grande Guerra, foi notável. Todos os beligerantes perceberam a superioridade do avião sobre o balão, como meio de observação, e logo essas aeronaves começaram a ser caçadas tanto por aeronaves especialmente concebidas (os “caças”), quanto por salvas disparadas do chão. Ainda assim, o armamento anti-aéreo que começou, então, a ser desenvolvido constituía-se de tubos de canhões de campanha de médio calibre montados sobre reparos que permitiam uma ampla elevação. Para aeronaves que voavam no máximo a 3000-3500 metros de altitude, isso parecia ser suficiente.

Entretanto, a partir de 1916 começaram a surgir aeronaves multi-motores, capazes de alcançar um teto máximo de 4500 m a uma velocidade de 120 km/h – eram os primeiros bombardeiros pesados. Em vista dessa nova ameaça, em 1916 a Krupp adaptou o canhão de campanha de 8,8 cm colocando-o sobre numa plataforma com rodas, rebocada por um caminhão. Para ser colocada em “bateria” (posição de tiro) as rodas eram removidas e quatro braços dotados de macacos estabilizavam o conjunto, que pesava uns 7300 kg. A elevação máxima chegava a 70 graus, pois descobriu-se que um valor maior poderia desestabilizar a arma durante o disparo. Essa, de ação semi-automática (expulsava o cartucho vazio da câmara sem necessidade de ação humana), foi denominada Geschütze 8,8 Flak (Flug Abwehr Kanonne, “canhão de defesa contra vôo”). Utilizava munição de 9500 g, sendo que o projétil de alto explosivo pesava 2770 g, com uma velocidade de boca de 785 m/s, o que permitia que atingisse a altitude de 3850 m (a mesma peça, empregada em terra, tinha alcance de 10.800 m).







Um dos primeiros exemplares de Geschütze 8,8 Flak - Flug Abwehr Kanonne em testes de fábrica, por volta de 1916



 

 

 

Durante a guerra, o 8,8 cm foi utilizado na defesa dos parques industriais do Reno e do Rhür, sendo que alguns chegaram a ser instalados em Berlim. Depois do final da guerra, o Tratado de Versalhes proibiu a Alemanha de desenvolver e fabricar armas anti-aéreas, de modo que os novos desenhos que estavam sendo concebidos foram abandonados.

Durante o período entreguerras, o desenvolvimento da aviação militar foi notável. Nos anos 1920 começaram a aparecer aviões que facilmente superavam a velocidade de 350 km/h e alcançavam um teto máximo de 6000 m. A velocidade de boca do projétil passou a ser crucial, visto que era necessário um projétil que não desacelerasse muito rapidamente devido à força da gravidade.

A resposta dos engenheiros alemães seria o Flak 18 (o “F” mudado para Fliegend “equipamento voador”, ou “aeronave”; hoje em dia, a palavra “Flak” é uma espécie de gíria para “defesa anti-aérea”). Este começou a ser concebido na primeira metade dos anos de 1920, quando o Reichswehr, o exército nacional que havia sido organizado após a guerra, realizando estudos chegou a conclusão de que havia necessidade de uma artilharia anti-aérea pesada. Os militares alemães concluíram que o menor calibre aceitável era o 7,5 cm, e uma arma começou a ser concebida na Suécia, junto com os arsenais Bofors. Na fase de protótipo, os engenheiros perceberam que o desenvolvimento desse projétil para maiores velocidades de boca seria problemático. O exército então solicitou um calibre maior, demanda atendida tanto pela Krupp quanto pela Rheinmetall.

O calibre 8,8 foi considerado ideal, mas se teve de desenhar um novo cartucho. Essa nova munição, de projétil ogival, montada junto com o estojo, pesava 10400 g e tinha uma velocidade de boca de 820 m/s, alcançando um teto máximo de 8900 m. Empregado como peça de artilharia de campanha, tinha um alcance de 14800 m. Os protótipos não poderiam ser testados na Alemanha, de modo que a equipe de projeto transferiu-se para a Suécia, iniciando o projeto de um canhão em torno desse novo cartucho.

O resultado foi um canhão cujo tubo era forjado em uma única peça, de 56 calibres de comprimento, com câmara de operação semi-automática, que permitia a extração do estojo vazio e introdução de um novo independente da parada do recuo. Isto permitia uma cadência de fogo de 15 a 20 disparos por minuto, dependendo da habilidade da tripulação. O conjunto era montado sobre um reparo cruciforme, que permitia conteira de 360 graus com uma elevação de 77 graus. Uma vez posto em bateria, ficava fixado sobre macacos reguláveis. Para transporte os braços laterais da “cruz” eram rebatidos e dois eixos de rodas, introduzidos. O peso do conjunto era de 4985 kg. Ficou pronto por volta de 1929.







As duas primeiras versões do acht-acht, em primeiro plano o Flak 18 e Flak 36, ao fundo. Note as diferenças no cano das duas versões



 

 

 

A construção e testes dos protótipos cercou-se de segredo, visto que a remilitarização alemã ainda não tinha acontecido. O cano era fabricado em uma peça única, o que tornava o conjunto extremamente difícil de reparar, e muito dispendioso. Isso se devia ao fato de que, em função da rapidez da cadência de fogo, o desgaste do cano mostrou-se muito maior do que o esperado, sendo que a taxa maior acontecia na região imediatamente anterior à boca. A enorme pressão aplicada ali pela alta velocidade e alta taxa de giro axial do projétil e pela saída dos gases provocava atrito no raiamento, que acabava por perder a eficiência. Esse problema não foi corrigido imediatamente, pois a nova peça pareceu muito eficaz. Começou a ser distribuída em 1933, como Flak 18 8.8 cm.

Diversas modificações foram sendo introduzidas, conforme a peça ia sendo testada pelo exército. A principal delas consistiu na divisão do cano em três peças separadas: câmara, seção central e seção de boca, unidos por uma espécie de jaqueta. A divisão tornava a manutenção mais fácil e diminuía o custo do conjunto. Essa modificação teve de ser acompanhada por outras, no reparo, na plataforma e na carreta de transporte.

Testes de campo realizados em 1935 e 1937 mostraram que a nova arma poderia ser empregada como canhão de apoio à infantaria, além de estabelecer a precisão e potência do projétil AAe. Embora o tubo continuasse o mesmo, diversas mudanças no reparo e na plataforma foram feitas ,de modo a tornar o conjunto mais estável durante o tiro. Uma nova carreta de transporte for desenhada, na qual a posição das rodas foi abaixada e o mecanismo de fixação da plataforma na carreta, modificado, de modo que a altura do conjunto canhão,
reparo-plataforma podia ser regulada antes da remoção da carreta. Essa nova plataforma, denominada Sonderanhänger 201 (“carreta especial 201”) se mostrou eficaz o suficiente para permitir o tiro em ângulos fechados de elevação, sem a remoção da plataforma da carreta, o que permitiu o uso do canhão contra alvos terrestres. Essa nova versão foi distribuída como Flak 36.

A Guerra Civil espanhola iria prover um vasto campo de testes para as novas armas alemãs. Hitler resolveu, por questões políticas, enviar um corpo de voluntários, que nada mais eram do que especialistas das forças armadas, cujo maior contingente pertencia à Luftwaffe. Como a artilharia anti-aérea era responsabilidade desse ramo da Wehrmacht, alguns Flak 18 e 36 foram acrescentados ao inventário de armamentos levados para a Espanha.

Algumas modificações de projeto foram acrescentadas os novos canhões, em função da experiência espanhola. A carreta e a plataforma se tornaram ainda mais estáveis. Essas modificações não chegaram a resultar em uma nova versão, mas confirmaram as potencialidades do projetil 8,8, inclusive como munição antitanque. Na Espanha, o canhão foi utilizado nesta função em algumas oportunidades, mas o número de peças disponíveis era muito pequeno para possibilitar testes de campo efetivos, embora alguns tanques republicanos e pontos fortificados tenham sido destruídos através do chamado “tiro tenso”. Para essa função foi aperfeiçoado um mecanismo de pontaria baseado em um visor telescópico, que passou a ser distribuído em 1938.








Vista lateral e superior do Flak 37. Observe-se a versão final da plataforma



 

 

 

 

O Flak acht-acht constituiu um autêntico sistema de armas. Ainda que o canhão (o sistema tubo-reparo-plataforma) tivesse atingido um ponto de razoável eficácia, não constituía, por si só, um real sistema de defesa anti-aérea. O passo seguinte foi o aperfeiçoamento do sistema de pontaria, que passou a ser integrado a um sistema de controle de fogo. O centro desse sistema de controle de fogo era o aparelho conhecido como Übertragung 30 (“transportador 30”). Um computador de dados analógico, conhecido como Voraussichter (“preditor”) compilava dados de telemetria, constituídos por velocidade aproximada, altitude e direção da aeronave inimiga, levantados através de observação via instrumentos óticos. Compilados os dados, eram convertidos em sinais elétricos e transmitidos para um sistema de lâmpadas situado na plataforma do canhão. O impulso elétrico acendia uma lâmpada, e o operador da peça tinha então de mover ponteiros correspondentes, até que estes cobrissem a lâmpada acesa. O sistema, lançado no início dos anos 1930, se demonstrou insatisfatório, e, em em 1939 surgiu o “Transportador 39”, que introduzia motores elétricos sincronizados, operando um conjunto de ponteiros a partir de sinais elétricos enviados pelo “preditor”. Outro conjunto de ponteiros era ligado mecanicamente à plataforma. O apontador operava estes últimos por meio de rotores mecânicos, de modo que coincidissem com aqueles que indicavam os dados compilados pelo previsor. Os dados para ajuste de pontaria eram, então, transmitidos à plataforma, permitindo que o canhão fosse colocado em posição de disparo. Este sistema revelou-se extremamente preciso, e foi a base da defesa anti-aérea da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Durante a guerra, aperfeiçoamentos consistindo na ligação do “preditor” com aparelhos de radar melhoraram consideravelmente a eficácia do sistema.

Em 1940, todas as versões do acht-acht instaladas em “Carretas especiais 201” receberam escudos para dar às tripulações alguma proteção, quando o canhão estivesse atuando como peça terrestre.

No início da guerra, a Luftwaffe previu a necessidade de contar com um Flak cujo teto de emprego fosse ainda maior, visto que os bombardeiros quadrimotores ingleses e norte-americanos podiam operar a 8000 metros de altura. Esse canhão precisaria, portanto, ter uma velocidade de boca inda maior, o que implicava num novo tubo e nova plataforma. A Rheinmetall-Borsig começou a estudar o projeto por volta do final de 1941, e os primeiros exemplares começaram a ser distribuídos em no início de 1943, designados como Flak 41. A nova versão tinha peso total de 11240 kg e peso de combate de 7800 kg. O projétil também foi totalmente redesenhado, de modo a atingir uma velocidade de boca de cerca de 1000 m/s, o que o fazia alcançar 6336 m, com um projétil de 9200 g. Incorporava um mecanismo de disparo elétrico, operacional quando o canhão estivesse sendo usado contra alvos terrestres. Neste caso, seu alcance chegava a 15000 m, eficaz até 10000m, o que o tornava uma arma antitanque imbatível: o projétil perfurante podia penetrar blindagens de até 210 mm, com inclinação de 50 graus. O Flak 41 deu origem à primeira versão do canhão 8,8 especializada para luta antitanque: o PAK 43/41 (Panzer Abwehrkanonne, “canhão de defesa contra blindados”).





Flak 36 como canhão de apoio terrestre, no norte da África, 1941. Note-se o escudo protetor da guarnição


 

 

A carreira do acht-acht abrangeu toda a guerra, e esse se tornaria praticamente sinônimo de canhão alemão. A última versão especializada seria produzida, com pequenas modificações, para instalação como armamento de blindados, denominada KwK 36 (KampfwagenKanonn, “canhão de carro de combate”), de 56 calibres.


O projetil 8,8 cm AAe, visto em corte. Note-se o fuso de pressão e o receptáculo interior, capaz de conter mais de três quilos de alto explosivo


 

 

Dados não muito precisos indicam que por volta de 17000 tubos calibre 8,8 cm tenham sido produzidos durante a guerra, número que sobre a cerca de 19000 tubos caso sejam somados aqueles especialmente projetados para uso em veículos blindados::

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