Causa::

12/09/2009

Recordar é viver::Anos 70:Deténte, SALT e outros quetais::

Parte 2/2:: Não parece fazer sentido, mas fazia, na conjuntura da época. Significava admitir, por via transversa, a afirmação feita, muitos anos antes, por Winston Churchill, de que “uma nação não tem amigos, tem interesses”, e que a busca desses acaba por criar tensão. Pragmaticamente, as nações poderiam viver em tensão permanente, desde que fossem criados e aperfeiçoados mecanismos para que esse estado de coisas fosse mantido sob controle.

Para definir essa visão política, a tal pessoa de 1968 poderia usar uma expressão criada algum tempo depois pela diplomacia brasileira: “pragmatismo responsável”. A comparação faz todo o sentido. O projeto brasileiro, na época, de “potência emergente”, recusava mecanismos que implicassem na aceitação a priori das estruturas do

poder em nível internacional – embora visasse sua reprodução, tanto quanto possível, no interior do país. Defendia a diplomacia brasileira que o Brasil tivesse reconhecidos seus interesses. Nesse sentido, uma das linhas prioritárias da política exterior foi a “correção de rumos” nas relações com os EUA, visando a colocá-las em bases vistas como “mais realistas”. Os conflitos que fatalmente surgiriam deveriam ser encarados como decorrência do relacionamento entre estados soberanos na defesa de seus interesses nacionais. De fato, esse “pragmatismo” era o mesmo que os arquitetos do sistema de poder internacional admitiam como inerente às relações entre as grandes potências. A política internacional não deveria ser excessivamente pragmática a ponto de deixar-se dirigir pelo cinismo, mas também não deveria ser ditada pelo moralismo, sob pena de tornar-se ineficaz ou mesmo temerária. Por outro lado, reações como a do Brasil, na época sob regime autoritário de extrema direita, freqüentemente aplaudido pelos EUA, indicavam as tensões que poderiam resultar dessa linha pragmática de relações internacionais.

Havia, claro, motivos que podem ser considerados, mais do que pragmáticos, práticos, para que fosse adotada uma política de busca da estabilização. No início dos anos 1970, o panorama econômico já não era tão favorável, para os EUA. O longo ciclo de prosperidade apontava o próprio fim. O horizonte internacional não é feito apenas de silhuetas de tanques, aeronaves e mísseis balísticos. É feito também de fábricas, minas, entrepostos de comércio e casas bancárias. A fase excepcional pós 2ª GM, a “Era do Ouro” da visão anglo-americana começava a perder o brilho. Os 25 anos anteriores a 1970 tinham sido estupendos, até mesmo para a URSS e seus parceiros.

O surto de crescimento econômico parecia mundial – embora não fosse. Durante algum tempo, pareceu até mesmo que, economicamente, os regimes socialistas estariam levando vantagem. Nos anos 1950, a URSS e a Europa Oriental cresciam mais rapidamente do que o Ocidente. Até mesmo o Terceiro Mundo colheu rebarbas desse surto: nos 20 anos entre 1950 e 1970, a fome continuou endêmica na África e em certas partes da Ásia, mas diminuiu; a população do Terceiro Mundo dobrou, e na América Latina, mais do que isso; a expectativa de vida aumentou, em média, 7 anos – em certas regiões, 10 anos ou mais. Entretanto, a “Era do Ouro” foi, sobretudo, enganosa, até mesmo para os observadores mais argutos. Aquela pessoa de que falo, se pertencesse à emergente classe média brasileira, teria chances que seus pais jamais teriam sonhado: acesso amplo è educação, um sistema de saúde pública relativamente estruturado, pleno emprego e subsídios à mancheias. Cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro eram, de certa forma, miniaturas em crescimento da economia mundial. Essa pessoa certamente não saberia que os EUA estavam crescendo menos do que seus parceiros europeus e japoneses, e que URSS e seus clientes industrializavam-se rapidamente sem que a industrialização significasse melhorias visíveis de padrão de vida. No mundo socialista, cidadãos bem formados e saudáveis olhavam com inveja para a liberdade e afluência de suas contrapartes ocidentais. Já no Ocidente, os cidadãos dirigiam-se para suas residências subsidiadas, cheias de bens de consumo financiados, em automóveis movidos a combustível excepcionalmente barato. Ouviam rock no rádio e, em casa, se revoltavam diante das notícias sobre as ditaduras latino-americanas e asiáticas, fossem de direita ou de esquerda. Entretanto, nenhum deles duvidava que, dentro de dez anos, a vida seria a mesma. E que, dentro de dez anos, ainda estariam debaixo do guarda-chuva nuclear norte-americano, desfrutando da vantagem adicional de orçamentos de defesa ridiculamente reduzidos em relação ao tamanho que tinham alcançado as economias de seus países.

O fato é que, durante a Guerra Fria, as superpotências assumiram o ônus da defesa de suas esferas de influência. Em ambos os lados, a expansão do chamado “complexo industrial-militar” foi exponencial, mesmo diante do notável crescimento econômico geral. Ainda que os estados ocidentais tenham desviado mais recursos para o buraco estéril dos gastos militares, não o fizeram na proporção de EUA e URSS. No longo prazo, essa opção, decorrência da opção pela estabilidade, seria fatal para a URSS e teria conseqüências notáveis para os EUA: estes trocaram força militar superior por enfraquecimento econômico crescente, frente aos aliados que se viam na obrigação de defender.

Mas não foram esses os motivos que levaram os líderes mundiais a uma improvável mesa de negociações, no início dos anos 1970. De um lado, o dos EUA, foi a condução do problema de como continuar a Guerra Fria quando esta “guerra sem barulho” deixasse, na frente interna, de ser popular – e ela era popular exatamente porque não tinha barulho, nem mortos. Passou a ter no final da década, em função de um conflito localizado, do tipo que deveria ser mantido “empacotado” pela busca da estabilidade. Em 1968, esse brasileiro da classe média que estou imaginando saberia exatamente de que guerra se tratava: o Vietnam.  

No lado soviético, foi o problema de como lidar com o fato de que o bloco comunista, desde meados da década de 1960, já não apresentava a unidade que a “justeza da causa proletária no mundo” deveria solidificar. Ao contrário, as duas potências do bloco socialista tinham deixado de se entender muito antes, em função de diferenças ideológicas e da recusa chinesa em alinhar-se aos interesses soviéticos. Comunistas russos e comunistas chineses andaram, em 1969, se estranhando, ao longo da enorme fronteira entre os dois países. Dois exércitos “vermelhos” foram postos frente a frente, o que até então parecia inimaginável. Mais inimaginável ainda foi o perigo de que a briga por uma ilhota fluvial insignificante degenerasse e um confronto nuclear. Certamente a China não era páreo para a URSS, apesar de dispor de certa quantidade de armas estratégicas. Em 1968, em torno de 300 dos 2000 ICBMs disponíveis pela URSS tinham sido programados para voar em direção à China, e um exército soviético de quase um milhão de efetivos, dispondo de capacidade nuclear tática estava posicionado nas fronteiras sino-soviéticas. Segundo análises da época, o Exército da República Popular da China era mal-treinado, mal-equipado e pior comandado; não dispunha de artilharia e blindados suficientes nem de apoio aéreo, e sua logística era baseada em animais de tração, e, por mais incrível que possa parecer, em braços humanos.

É provável que fosse verdade, e talvez a realidade fosse até pior. Anos antes, o próprio Mao Tsé-tung, o “presidente Mao”, “Grande Timoneiro” da revolução socialista, tinha deslanchado a “grande revolução cultural proletária”, golpe político destinado a compensar a perda de poder observada em função do fracasso do “grande salto para a frente” (eufemismo para a coletivização da agricultura) de 1958-1961. A Revolução Cultural revelou-se uma maluquice tenebrosa, e desorganizou a sociedade chinesa e suas instituições, inclusive o exército. Em 1951, as disciplinadas forças chineses, armadas e treinadas pelos soviéticos desequilibraram a guerra da Coréia, obrigando o Exército e o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA a uma humilhante retirada que quase degenerou em confronto nuclear; em 1968, jovens soldados agitando um livrinho vermelho e disparando para cima suas armas, o “Exército do Povo”, não admitiam a supremacia dos oficiais e impunham “decisões democráticas”. A hierarquia militar, “desvio burguês inaceitável”, foi quase abolida, e os comandantes até o nível de regimento eram escolhidos pela tropa; as grandes unidades e corpos de exército continuavam tendo seus comandantes designados, o que na prática não significava nada, visto que as decisões eram tomadas em “conselhos populares”.

O problema soviético não era, pois, a China, mas o partido que os adversários norte-americanos tomariam, no caso de um confronto entre as duas potências comunistas. Os EUA seriam um aliado desejável, embora a situação da “frente interna” também não era nada fácil. Estavam atolados até o pescoço em uma guerra que deveria ter sido resolvida “em alguns meses, no máximo em um ano”, segundo o general comandante – e, em 1969, isso já fazia mais de 4 anos. Todos os dias a televisão colocava dentro dos lares americanos um vasto cardápio de revolta e contestação, das universidades ao guetos urbanos, dos festivais de rock às Olimpíadas. A juventude ocidental, inclusive – por incrível que pareça, até mesmo a norte-americana – mostrava-se seduzida por líderes como Mao Tsé-tung e Ernesto “Che” Guevara.

Se o problema da URSS não era a China, mas a perspectiva de problemas com os EUA, o da China era estar cercada por dois inimigos poderosos e agressivos – a URSS e a Índia – e um imprevisível – o Japão (nos quais os chineses nunca confiaram).

E, naquela altura, China e EUA tinham alguns pontos em comum. O primeiro deles era a preocupação com a União Soviética, aos olhos de ambos cada vez mais ameaçadora. Em 1968, a rápida mobilização e deslocamento de tropas motorizadas e aerotransportadas contra a Tchecoslováquia lançara uma sombra de preocupação sobre a Europa Ocidental. A invasão fora o primeiro movimento da “doutrina de Brejnev: os países socialistas da Europa (leia-se URSS) teriam direito de intervir em qualquer país que se julgasse no direito de romper o compromisso “democrático” e “político” com o marxismo-leninismo. Em 1967, a União Soviética tinha alcançado a paridade com os EUA, em termos de armas estratégicas. Embora os EUA ainda tivessem alguma vantagem em ogivas múltiplas e mísseis lançados se submarinos, os soviéticos dispunham de mais mísseis, com ogivas de maior poder destrutivo (por exemplo, ogivas termonucleares de 40 megatons, enquanto as dos EUA eram, na maioria, de 2 a 5 megatons).

O Vietnam era outro interesse comum. Aos governantes e ao establishmenth militar norte-americanos aquela se tornaram uma guerra infeliz, na qual aproximadamente 800.000 militares das três corporações lutavam contra fantasmas, ao custo de 40 bilhões de dólares e 12.000 mortos somente em 1968. Nixon queria sair dela, mas não de maneira humilhante. Para os chineses, a “guerra de libertação” do Vietnam e das guerrilhas comunistas já não parecia um ganho político, diante da ameaça soviética. Além do mais, os Guardas Vermelhos tinham, apenas uns dois anos antes, desorganizado o país e obrigado Mao a intervir para deter o caos que se espalhava pelo país.

Assim, EUA e China tinham pontos que os aproximavam, e restaurar a ordem interna era o primeiro deles. Sair do Vietnam, para os norte-americanos significa apaziguar a frente interna; para a China, garantir uma posição favorável diante da URSS.

O caminho estava aberto. Em 1971, Henry Kissinger realizou uma visita secreta a Pequim, na qual ouviu de Chu En-lai que a China faria o que fosse possível para ter Nixon numa visita ao país.

E teria. Cerca de um ano depois. E o mundo não seria mais o mesmo…::

09/08/2009

Colombia e EUA: uma relação longa e problemática::

Parte 1 Para bem ou para mal, a ligação entre Colômbia e EUA não é recente. Desde o século 19, as relações entre os dois países foram fonte frequente de tensão. Na segunda metade do século 19, até o início do século 20, o principal problema foi o istmo do Panamá (detalhes sobre o assunto neste ótimo recurso de pesquisa, o melhor que conheço sobre a história recente da Colômbia).  Essa região, após a retirada dos espanhóis, ficou ligada à  Colômbia, como departamiento. No último quartel do século 19, as comunicações entre Atlântico e Pacífico, intensificadas pela ocupação da região central e a costa oeste dos EUA, despertaram, no governo e no grande capital norte-americanos, interesse na construção de uma *ligação hidroviária entre os dois oceanos. O resultado é que, entre 1860 e 1902 aconteceram 13 intervenções militares dos EUA na região, e, em diversas oportunidades, acordos políticos foram sacramentados dentro de belonaves na Marinha norte-americana.

Em 1902, após a Guerra Hispano-Americana, o presidente Theodore Rooselvelt foi convencido por seus consultores militares da necessidade de construir a tal ligação inter-oceanos. Com o governo colombiano relutante em aceitar um tratado que colocava uma faixa de 10 quilômetros de largura sob mandato direto dos EUA, projetos separatistas começaram a ter livre curso na região, a partir das grandes famílias que lideravam a política local. Em 1903, um levante fomentado pelos EUA e garantido pela presença de forças navais norte-americanas acabou levando ao estabelecimento de uma junta de governo, rapidamente reconhecida por Washington como “governo nacional”. A “Declaração de Independência do Panamá” foi escrita, conforme se soube depois, por um panamenho de ascendência francesa que se encontrava-se, então, hospedado no hotel Waldorf-Astoria, em Nova Iorque, como convidado do governo dos EUA. Este “patriota” também escreveu a constituição panamenha e, de quebra, desenhou a nova bandeira nacional. Chamava-se Philippe Bunau Varilla. Assinou, em nome da junta de governo, um tratado que dava aos EUA “direitos perpétuos” de “uso, ocupação e controle” da obra cuja *construção começou imediatamente.

Apesar desse longo problema e de suas consequências, as relações econômicas com os EUA eram as principais da Colômbia, mesmo naquela época. Os EUA eram o maior mercado para o principal produto colombiano: o café. A ligação era de tal forma estreita que, entre 1918 e 1921, o presidente colombiano Marco Fidel Suárez inaugurou uma doutrina denominada Respice Polum (“Siga a Estrela do Norte”, em latim). Esse estadista considerava que não havia como negar a ligação estreita entre o destino da Colômbia e o da “Estrela do Norte” – os EUA -, em função de serem ambos os países co-habitantes da América, tendo na democracia o maior valor e ligados por laços econômicos. Embora pudesse parecer uma proposta estapafúrdia, as classes dominantes locais, dependentes da produção para exportação e da ligação com os EUA, a apoiaram entusiasticamente. Na década seguinte, embora essa doutrina tivesse sido reafirmada diversas vezes, o país só pareceu te-la abraçado definitivamente a partir do momento em que a “Política de Boa Vizinhança” do governo dos EUA soou como uma espécie de contrapartida ao entusiasmo colombiano. Acordos para a modernização das forças armadas e de fomento às relações econômicas fortaleceram a ligação entre os países durante a 2ª GM. As duas nações continuaram em bons termos mesmo durante o período conhecido por La violencia (1948-1953). A Colombia foi o único país a participar da Força Multinacional das Nações Unidas na Guerra da Coréia e o primeiro a oferecer tropas para a Força de Emergência entabelecida após o incidente do Canal de Suez, em 1956.

O país tornou-se, durante a década de 1960, destino da maior parte da assistência dos EUA à América Latina. A maior porção dessa ajuda destinava-se a possibilitar a manutenção do equilíbrio da balança de pagamentos, ao mesmo tempo que implementava a economia, incentivando a industrialização e promovia reformas sociais tímidas. Ainda assim, politicos e intelectuais colombianos viam a presença dos EUA com desconfiança, e não consideravam que os laços politicos e econômicos trouxessem vantagens reais. De fato, viam esses laços como forma dos EUA manterem a Colômbia em permanente dependência.

Em questões de política internacional, embora a Colômbia se mantivesse alinhada aos EUA , a simpatia pela posição norte-americana no sistema inter-americano começou a declinar fortemente nos anos 1970. A tensão mostrou a cara em 1975, quando o governo López-Michelsen reatou relações com Cuba sem consultar Washington.  Esse líder colombiano também começou a recusar as ofertas de ajuda à Colômbia, sob a alegação de que tal ajuda apenas estreitava a dependência econômica e política dos EUA. À nova postura correspondeu uma política internacional independente que alinhou a Colômbia ao Panamá quando esse último país passou a clamar por um novo tratado sobre o Canal.

A política de não-alinhamento começou a dar sinais de recuo quando o governo sandinista da Nicarágua, em princípio apoiado pela Colômbia, começou a fazer reclamações em torno da manutenção, pelos colombianos, do controle de ilhas caribenhas diante da costa da Nicarágua. O namoro com Cuba sofreu forte estremecimento quando, em 1981, foram descobertas as relações do país comunista com o movimento de oposição armada M-19.  A partir de então, as relações com os EUA voltaram a estreitar-se, com o governo de Julio Turbay Ayalla (1978-1982) que adotou teses de forte viés anticomunista. A Colômbia passou a promover o discurso do presidente dos EUA na época, Ronald Reagan, de que Cuba e a Nicarágua eram a principal fonte de intranquilidade na América Latina. Bogotá voltou a romper relações diplomáticas com Havana depois que o presidente Fidel Castro admitiu o apoio ao M-19. Durante a Guerra das Malvinas, em 1982, o governo Turbay seguiu os EUA no abstenção pela convocação do Tratado Inter-Americano de Assistência Recíproca, o Tratado do Rio de Janeiro, invocado pela Argentina na Organização dos Estados Americanos. Terminada a guerra, a Colômbia tornou-se um dos poucos países latino-americanos que continuou a participar das manobras navais conjuntas com a Marinha dos EUA, realizadas a cada dois anos, no Caribe. A Colômbia também ofereceu tropas para serem mandadas ao Sinai, depois do tratado de paz entre Egito e Israel, de 1979.

As boas relações de Turbay com Washington contribuiram para resolver pendências territoriais colombianas com os EUA, em torno de algumas ilhas desabitadas no Caribe. Na mesma época, o governo colombiano ameaçou a Nicarágua de represálias, em torno da disputa por pelos arquipélagos de Providência e San Andrés, reivindicados pelo governo Sandinista.

O governo seguinte, de Romolo Betancur, embora mantivesse uma retórica conservadora, começou a afastar a Colômbia da política de Reagan para a América Latina. Betancur decidiu rever a posição anti-Argentina e lançou um movimento de solidariedade entre a América Latina e o Terceiro Mundo. Em 1983, Colômbia, com o patrocínio de Cuba e do Panamá, junta-se ao Movimento das Nações Não-Alinhadas.

Os movimentos de Betancur apontavam a preocupação de bloquear a intervenção estrangeira na região do Caribe, que, graças à retórica agressiva dos EUA, podia acabar se tornando teatro do conflito Leste-Oeste. Além disso, o governo Betancur começou a expressar críticas crescentes às políticas econômicas dos EUA e, principalmente, a incapacidade que a superpotência demonstrava em reduzir a demanda interna por drogas. Entre os anos 1970 e 1980, a Colômbia tornou-se o maior fornecedor de cocaína e maconha para os EUA, em função do recuo dos fornecedores asiáticos de ópio.

Esse problema vinha se mostrando o principal da Colômbia, em relação aos EUA. As políticas norte-americanas para o combate de drogas enfatizavam a repressão no interior do país, e vinham acumulando fracasso sobre fracasso. O governo norte-americano começou a projetar ações que levavam o combate às drogas até as fontes de produção – o que implicava na plena cooperação do governo colombiano. A retórica nacionalista de Betancur pareceu, a princípio um entrave, não fosse um fator: a profunda crise econômica com que se defronta a Colômbia. Por volta de 1985, os norte-americanos apelaram exatamente a esse ponto: trocar o apoio colombiano às ações anti-drogas por apoio à renegociação colombiana com o Banco Mundial. O presidente seguinte, Virgilio Barco (1986-1990), tratou de afastar a Colômbia do Movimento Não-Alinhado e a se posicionar com as demandas dos EUA. Essa nova postura reestruturou as relações entre os dois países, que desde então são consideradas excelentes. Barco, um liberal, elaborou programas de combate à pobreza, com o apoio do Banco Mundial, estabeleceu diálogo com a guerrilha de esquerda e, progressivamente alinhou seu país à luta dos EUA contra o tráfico de drogas. Foi exatamente esse ponto que o tornou cada vez mais impopular: os acordos com Washington eram vistos como atentatórios à soberania colombiana e aumentavam a violência do crime organizado.

É dessa época o início da colaboração militar entre Colômbia e EUA. Voltaremos ao assunto, que é prá lá de comprido::

24/07/2009

O mês da Coréia::Daewoo: carros feios, armas… Diga você::

Estávamos na “análise estratégica ampliada”. Acabou me ocorrendo que, em momento algum, cheguei a explicar o que, exatamente, significa “estratégia”. Não posso acusar ninguém de não distinguir “estratégia” de “tática”, se eu mesmo esqueço de explicar a diferença.

Suponho que muitas pessoas saibam. Esse conceito, ultimamente, deixou de ser de interesse exclusivamente do planejamento militar. Fala-se de estratégia em esportes, negócios, e até mesmo nas “estratégias de vida”. A palavra vem do termo grego stratègós (stratos, “exército”, e ago, “liderança”). Designava o líder, em época de guerra, na Grécia clássica. Strategicós, por sua vez, era um termo que designava “os assuntos do general”; já stratiá designava a expedição militar. O sentido atual da palavra na área militar, começou a ser estabelecido no século 17, com a difusão dos Estados nacionais centralizados, da arma de fogo e a ascensão da manobra como forma de evitar o tiro ou minimizar seus efeitos. Trata-se então, como Antoine Henry, barão de Jomini, militar suiço do século 19 (mais sobre Jomini nesse excelente blog, que considero primo do causa::) definiu: a ciência do movimento aplicado ao campo de batalha. Nessa visão, expressa em um livro chamado “Sumário da arte da guerra”, Jomini colocava a estratégia como a principal dentre as cinco divisões da “arte da guerra”. Pois de lá para cá, a noção ampliou-se, passando a envolver o planejamento da guerra como parte das atividades do Estado. O planejamento visa, em última análise, estabelecer objetivos políticos, que envolvem a sobrevivência do Estado a longo prazo e a expansão de suas possibilidades – inclusive de fazer a guerra.

Alguns especialistas chamam essa visão de “grande estratégia”, ou seja a mobilização de recursos nacionais. Caso tenham prestado atenção nas postagens anteriores, devem ter reparado que as duas Coréias não tem feito outra coisa nos últimos 50 anos que não seja planejar a sobrevivência de ambos os Estados, mobilizaondo seus recursos nacionais de modo a expandir suas possibilidades. Essa questão começou a ser discutida por Claus von Clausewitz, que considerava a guerra como ferramenta política. O objetivo em uma guerra seria desarmar o oponente, ou seja, destruir efetivamente a capacidade do oponente de guerrear. Aí é que entra o comprometimento em uma guerra. Quanto mais determinado o inimigo, mais difícil é de removê-lo do conflito. Para tanto, a estratégia aplica-se ao campo militar, mas a “grande estratégia” significa mobilizar tudo de quanto o Estado pode dispor – recursos materiais, humanos e espirituais. Alguns especialistas chamam isso de “política”.

Daí nos interessa falar um pouco do chaebol Daewoo, sobre o qual fiz uma piadinha na postagem anterior. Chaebol  (a palavra, que se pronuncia “tchêe:bêl”, significa “negócio familiar”) indica uma espécie de reunião de empresas, um conglomerado apoiado pelo governo. O termo é ambíguo, porque os principais chaeboi´l são mesmo empresas familiares, que, por motivos políticos mantinham boas relações com o governo. O termo também pode significar “monopólio”, o que significa uma concessão política que elimina a concorrência e  implica em vantagens econômicas. Já vimos, na postagem anterior, a origem dessa forma de organização industrial. Os  chaeboi´l foram capazes de crescer nas taxas astronômicas que observaram devido à essa proximidade com o governo. Deveriam ser capazes de aproveitar os influxos governamentais, de modo a cumprir quotas de expansão e de exportações; por seu lado, o governo garantia um fluxo de investimentos, negociados no exterior, e facilidades bancárias, na Coréia do Sul. A política de universalização da educação, em todos os níveis, o acesso à tecnologia de ponta e altos investimento em pesquisa, nas universidades e nos próprios chaeboi´l completaram o quadro, ao longo das décadas de 1960 e 1970. Mas o fator decisivo foi a relativa estabilidade interna que permitiu uma taxa de lucro maior do que seria possível em um regime de livre negociação. Esse crescimento só era possível graças a intervenção do governo no processo.

Dizendo de outra forma: o regime de organização econômica da Coréia do Sul teve uma ligação simbiótica com os governos ditatoriais iniciados em 1961. Nada tão estranho assim para nós brasileiros: o tipo de capitalismo intervencionista observado aqui se parecia muito com o modelo adotado na República da Coréia. A diferença é que o Estado tinha uma participação direta infinitamente menor do que aqui, e investiu pesadamente em um modelo de educação que privilegiava a formação técnica de mão-de-obra e a pesquisa aplicada. A falência veio exatamente porque o acordo social implicava em taxas de emprego e crescimento artificiais. Quando vieram os problemas, o regime rapidamente entrou em crise.

O que não significa que o modelo não fosse eficaz para os objetivos buscados pelo país, e os chaeboi´l continuaram sendo a forma de organização prevalecente na indústria de ponta, defesa, comércio internacional e, bem menos, no setor financeiro. No final da década de 1980, o modelo, depois de diversos ajustes, a partir do retorno do regime democrático, em 1987, continuou existindo e até ampliou-se. A retração do estado revelou aos próprios estrategistas dos “conglomerados” oportunidades de expansão e competição que a conivência com uma ditadura anticomunista não deixava antever.

O novo panorama criou uma nova especialização: as grandes empresas de produção para exportação migraram para países emergentes como a China, Malásia e Filipinas. Na Coréia foram mantidas as sedes, a estrutura de Pesquisa&Desenvolvimento e o setor de defesa. Neste panorama, a Daewoo Motor Industries pode não ser o maior chaebol coreano, (de fato, não aparece nem mesmo entre os 12 primeiros) mas certamente é um dos primeiros quando se fala no setor de defesa. Uma de suas filiais, a Daewoo Precision Industrial Co. foi estabelecida como empresa de equipamento de defesa em 1981, e em 1986 tornou-se fabricantes de peças de veículos para a matriz. O chaebol Daewoo, um dos maiores da Coréia do Sul, na época, acabou dividido, depois que o fundador e principal executivo Kim Woo-chung, se viu acusado de mentor de uma fraude bilionária. Desde 1999, a empresa foi dividida, e a área de defesa, uma das menores (em 1998 envolvia  4% da companhia) passou para o controle direto do governo.

Kim começou sua empresa em 1967, como uma pequena firma de exportação, batizada de Dae´Woo, (“grande universo”, em coreano).  Durante a Guerra da Coréia, acima da idade de convocação, Kim vendia jornais enquanto freqüentava a universidade, graduando-se em economia. A Daewoo, fundada em meados dos anos 1950, revendia produtos da indústria têxtil, que exportava para o Japão. Na segunda metade dos anos 1960, tinha estabelecido bons contatos em Nova Iorque com compradores de produtos têxteis, o que chamou a atenção do governo sul-coreano. O ditador Park Chung Hee, que mantinha laços de amizade com a família de Kim (espécie de relação muito significativa, no contexto cultural coreano), patrocinou a transformação da Daewoo em uma empresa de mecânica pesada, subsidiando a produção através de empréstimos governamentais a fundo perdido e compras por preços acima do mercado. Kim tornou a empresa lucrativa em cerca de dois anos, e, sempre com apoio do governo, incorporou a seu chaebol um estaleiro, uma fábrica de automóveis e uma fábrica de ferramentas de precisão que, posteriormente, deu origem à fábrica de armas. Nessa época, o favorecimento descarado do governo tornou a empresa o terceiro chaebol, em tamanho e rendimentos.

A experiência de Kim no comércio internacional e nas ante-salas dos governos o fez presença constante nos gabinetes dos EUA, França, Paquistão e em diversos países do Terceiro Mundo, notadamente os produtores de petróleo. A agressividade da empresa a levou a ter aproximadamente 320.000 funcionários, o que era um efetivo quase tão grande quanto o do exército da República.

Os problemas que acabaram com o chaebol, em meados dos anos 1990, relacionam-se com um projeto de expansão que visava tornar a empresa um dos grandes players do mercado mundial de automóveis. A resistência das empresas norte-americanas e européias jogou significativa quantidade de areia na máquina de Kim, numa época em que o apoio governamental já não era nem tão imediato nem tão incondicional quanto fora 20 anos antes.

De qualquer maneira, as encrencas de Kim Woo-chung não são importantes para nós. A questão que quero deixar clara é como, a partir de 1981, com o estabelecimento da estratégia de defesa da Coréia do Sul, a Daewoo viu aí um nicho para incorporar mais uma área a seu inventário empresarial. No final dos anos 1960, os EUA haviam fornecido ao exército coreano certa quantidade de rifles M16A1 (calcula-se que uns cem mil), do tipo empregado pela infantaria dos EUA no Vietnam. Em 1972 a Coréia do Sul retirou-se da Indochina, mas manteve o tipo como arma-padrão de seu exército. Por volta de 1976, o governo sul-coreano resolveu implementar uma indústria local de defesa, e acenou com a possibilidade de distribuir uma arma longa de fabricação local, embora sem a intenção inicial de substituir o M16, existente em grandes quantidades. Ficou estabelecido que uma arma de calibre 5.56X45 NATO seria projetada para substituir a submetralhadora M3 Grease Gun, arma da 2ª GM ainda padrão nas forças armadas da República. A empresa Daewoo Precision Industries Ltd foi formada para atender à demanda governamental. A *carabina de assalto K1 foi seu primeiro produto, cujo desenvolvimento concluiu-se por volta de 1982. O protótipo foi apresentado em 1980 e entrou em serviço em 1981. Os testes e o ciclo de serviço mostraram problemas sérios. A arma destinava-se às forças especiais, e portanto deveria ser silenciosa e discreta, O desenho do supressor de chama, entretanto, além de não resolver aqueles problemas, acabava por gerar forte recuo, que, por sua vez, tornava inadequada a coronha rebatível. Os problemas foram resolvidos através do redesenho da câmara e do supressor de chama. Essa nova versão foi denominada K1A. Essa arma conviveu com o M16A1, sendo distribuída para forças especiais, marinha e polícia, enquanto o rifle norte-americano foi mantido na infantaria.

Ainda em 1982, entretanto, o governo começou a considerar a padronização de todo o armamento. Uma *versão longa da carabina K1A começou a ser testada, com um cano de 46,5 cms e uma coronha convencional, em plástico de alto impacto. Os protótipos surgiram em 1983 e eram, de fato, um redesenho, com relação ao K1A. Este último era uma tentativa de fazer uma submetralhadora usando cartucho de fuzil: a chamada “ação direta de recuo”. Essa opção tornava o conjunto mais leve, mais barato, mas menos resistente. O sistema adotado para o K2 era o de operação por recuperação de gás (leia sobre o assunto no posto “A linhagem FAL”). O tiro é seletivo, alimentado por carregadores de plástico, de 20 ou 30 cargas, utilizando munição 5.56X45 NATO. Em 1987, o K2 começou a ser distribuído regularmente às forças armadas sul-coreanas, e pelo fim dos anos 1980, o M16A1 tinha sido totalmente recolhido.

Com aproximadamente 800.000 efetivos no total, as forças armadas e a policiais sul-coreanas eram uma reserva de mercado bastante promissora. Em função da adaptação das corporações à nova estratégia, lançada em 1979, a Coréia do Sul pretendia assumir parte considerável das responsabilidades de sua defesa nacional. Isso implicava numa completa reestruturação do exército, inclusive em seu rearmamento. Essa corporação tinha, em 1981, aproximadamente 400.000 efetivos. Dois terços eram conscritos convocados para dois anos de serviço ativo, aos 17 anos. Uma vez desmobilizados, esses homens permaneciam como “reserva de primeira linha” até os 34 anos, e podiam ser convocados periodicamente para curtos períodos de serviço ativo – em geral, por volta de duas a três semanas. A reserva somava, segundo estimativas dos EUA, em torno de 1200.000 efetivos potencialmente mobilizáveis. Não se sabe quanto tempo levaria a mobilização completa.  Esse sistema ainda persiste.

Atualmente, o exército mobiliza por volta de 550.000 efetivos, 10.000 dos quais são oficiais. O inventário soma 2.500 tanques, 3.000 veículos blindados de combate e 7.000 sistemas de artilharia de campanha auto-propelidos e auto-rebocados. Esses sistemas incluem grande quantidade de lançadores de foguetes.

Os blindados são, em grande parte, os já obsoletos M48A5K, de fabricação norte-americana, do final dos anos 1950, mas modernizados localmente, no final dos anos 1970. Uma quantidade estimada entre 30 e 50 T80U, de fabricação russa, foi incorporada em 2004/2005, em função de acordos de refinanciamento de dívidas da Rússia. Durante algum tempo, esses blindados foram os mais avançados existentes na península. Tentativas de produzir sob licença o alemão Kraus-Maffei Leopard 1 deram em nada, porque os sul-coreanos concluíram, acertadamente, que se tratava de um modelo prestes a se tornar obsoleto.

Nessa época, o governo militar sul-coreano concluiu que a melhor solução seria produzir um tanque autóctone, levando em consideração os aspectos da nova geração de projetos que surgia nos EUA, Rússia, Alemanha Ocidental e Inglaterra. A indústria local já tinha condições de suportar um projeto desses, mas não tinha experiência. Um projeto local levaria pelo menos dez anos para surgir, assim, os militares e planejadores civis consideraram que a solução seria comprar a licença de um produto estrangeiro. A escolha recaiu no XM1, protótipo do norte-americano M1 Abrahms, que começava a ser distribuído pelo ramo de defesa da Chrysler Motors Company. As negociações quase deram com os burros n´água, quando, no meio do processo a empresa foi vendida para a General Dynamics. Entretanto, os novos donos mantiveram o interesse, em função do incentivo do governo dos EUA. Técnicos sul-coreanos foram despachados para os EUA para conhecimento do projeto e treinamento na General Dynamics Land Systems.

Os dois blindados são similares, mas os projetos são bastante diferentes. O K1 pronto, deslocava 4 toneladas menos que as 55 do M1; a altura entretanto, é ligeiramente maior no K1: 237 cm contra 225 cm (o que, num tanque, faz a maior diferença). A planta de potência do K1 é a mesma do israelense Merkava 3, a Teledyne Continental AVCR-1790, de 1200 hps. A blindagem é do tipo composto metal-cerâmica, Cobham. Posteriormente, a relação peso-potência da alemã MTU MB Ka-501, versão compacta da MB-873 Ka-503 que equipa os tanques Leopard 2, revelou-se melhor, e essa planta de potência foi adotada. Isso levou a que uma transmissão e diversos outros componentes de origem alemã fossem adotados no K1, em sua versão A1. O canhão raiado de 105 mm norte-americano, depois produzido na Coréia do Sul sob a notação KM68, bem como o sistema de controle de fogo Hughes, foram mantidos.

Mas tecnologicamente, o K1A1 acabou se tornando até mais avançado do que o Abrahms, quando recebeu um sistema independente de visão panoramica, do qual o Abrahms não está dotado, por cortes de orçamento. Esse sistema comanda o armamento de forma integrada, através de sensores termais e de visão passiva, o que torna o K1A1 um verdadeiro sistema de armas.

O desenvolvimento do K1 completou-se em 1983 com um protótipo apresentado ao governo sul-coreano. O uso de um motor alemão acabarm por tornar o K1 mais parecido com o Leopard 2 do que com o Abrahms. A empresa escolhida para desenvolver o tanque para produção de série foi a Hyundai Precision, ligado ao chaebol Hyundai. Esse é um dos maiores grupos da Coréia do Sul, fundado em 1947 e, na atualidade, um dos 5 maiores produtores de veículos automores do mundo, bem como de aço, navios e produtos eletrônicos de alta tecnologia. Uma quantidade de 450 K1 foi adquirida, iniciando-se a distribuição em 1985, em alto segredo, e completando-se em 1987, quando o veículo foi revelado ao mundo.

No momento, a empresa está desenvolvendo o K2  Heukpyo (Pantera Negra) equipado com um canhão de 120 mm e 55 calibres, autocarregado. Não existem maiores informações sobre o sistema, mas tem circulado que será equipado com blindagem reativa (capaz de diminuir os danos de munição de carga oca), radar e sistemas de detecção a laser.

O objetivo deste texto não é, enfim, descrever com detalhes o moderno armamento à disposição das forças armadas sul-coreanas. O que quero mostrar é como o planejamento estratégico, a “grande estratégia” envolve mobilizar todos os recursos nacionais de forma coordenada. No caso sul-coreano, uma longa trajetória levou o país de uma nação subdesenvolvida, nos anos 1950 e 1960, para uma das grandes potências econômicas das últimas décadas do século passado e, nos últimos tempos, a um patamar de potência militar equivalente às maiores potências da Europa Ocidental (França, Alemanha e Grã-Bretanha, nessa ordem).  A escalada do país, nos anos 1960, para o lugar de potência industrial e, em seguida, para o de potência tecnológica pôde ocorrer devido ao lugar ocupado pelo país na Guerra Fria, como “primeira linha de contenção da expansão comunista”. Esse papel (o país provavelmente seria arrasado na eventualidade de uma guerra contra a China) levou a que fizesse por merecer certas concessões, que vieram sob a forma de influxos econômicos. Esses influxos, sob a forma de capitais que, nos anos 1960 estavam disponíveis em grande medida e precisavam ser reinvestidos. Mas esses capitais também estiveram disponíveis para o Brasil. A diferença, além do lugar geopolítico do Brasil (cujo papel estratégico nunca foi determinante), foi o tipo de projeto para a sociedade, projeto que a elite daqui nunca conseguiu fazer. Os sul-coreanos, desde os anos 1950, investiram pesadamente em educação, em todos os níveis, e em uma urbanização ordenada, que permitiu ao país montar uma base industrial altamente eficiente. Esses dois aspectos tornaram possível que a entrada de capitais e tecnologia dessem resultados, embora não de imediato::

19/07/2009

O mês da Coréia::Um análise estratégica ampliada::

Parte 3 Então, já sabemos que a República Democrática do Povo da Coréia é uma potência militar média e tem uma quantidade enorme de artilharia de todos os tipos. Entretanto, é curioso como a imprensa trata a República da Coréia como uma pobre Guatemala indefesa diante de Hugo Chavez… Não é exatamente o caso. De fato, temos relativamente pouca informação sobre a Coréia do Sul, tirante, é claro, os carros Hyundai, televisões LG e monitores Samsung, mas isso, convenhamos, é pouco. 

Do fim da Guerra da Coréia até os anos 1990, a República da Coréia evoluiu, de um país totalmente dependente, para a própria defesa, de acordos bilaterais, para uma situação de desenvolvimento auto-sustentado e considerável capacidade militar. Ao contrário da República Democrática do Povo da Coréia, as indústrias civis sul-coreanas mantêm linhas de produtos militares como partes separadas e menos importantes de suas atividades corporativas, mas suficientes para manter suas forças armadas totalmente atualizadas com equipamento local de altíssima qualidade.

A independência econômica e militar da República da Coréia remonta à participação na Guerra do Vietnam. Em 1965, o ditador sul-coreano, general Park Chung-hee, decidiu aceitar o pedido de Washington por tropas para o teatro do SE Asiático. Inicialmente, foram despachadas unidades de combate de pequenas proporções, num total de 5.000 efetivos, em caráter experimental. Em fevereiro de 1966, os norte-americanos se comprometeram, através de um termo de compromisso denominado “Memorando Brown” (em função do embaixador dos EUA em Seul, Winthrop G. Brown), a financiar a modernização do exército da República da Coréia, em troca de um maior envolvimento dessa última na guerra indochinesa. O documento, de 14 pontos, não era muito claro em determinar as obrigações norte-americanas, mas especificava uma força sul-coreana que deveria alcançar, em três anos, aproximadamente 300.000 efetivos. Como resultado, os EUA cederam armamentos pesados e rifles M-16 para as tropas sul-coreanas, que funcionaram como cobertura de retaguarda para o exército dos EUA. Nesse meio tempo, começaram uma série de provocações norte-coreanas, culminando com uma tentativa de  tomar o palácio presidencial, em 21 de janeiro de 1968, e o ataque e aprisionamento do navio-espião Pueblo, da Marinha dos EUA. Uma série de incidentes ao longo da ZDC envolvendo tropas dos EUA em mais de uma oportunidade, atravessou todo o ano de 1969. Em abril, uma aeronave de contramedidas eletrônicas EC-121 acabou sendo derrubada sobre o Mar do Japão. Esse período passou a ser conhecido como “Segunda Guerra da Coréia”. O envolvimento sul-coreano no Vietnam, entretanto, tornou-se uma realidade, e em 1972, quando as unidades começaram a ser retiradas, estavam em operação por volta de 200.000 sul-coreanos. Mais de 5.000 deles morreram em combate.

Temendo o surgimento, na Coréia, de um novo Vietnam, o governo dos EUA resolveu atender os apelos dos parceiros sul-coreanos por maior articulação em termos da segurança local. Foi acordada maior colaboração militar com a República da Coréia, assim como assistência para implementar a economia local. Ainda assim, o ditador sul-coreano, antevendo uma possível futura crise, decidiu adotar uma postura mais ativa em relação à defesa nacional. O surgimento da “Doutrina Nixon”, na qual o governo dos EUA, atolado numa crise econômica, postulava que as nações aliadas assumissem maior participação na própria defesa, foi outro momento decisivo: em 1971 a retirada da península, de uma divisão do exército dos EUA pareceu confirmar a importância da estratégia nacional de Park.

Ainda assim, em setembro de 1971 o governo dos EUA assinou um plano no valor de 1,5 bilhões e dólares, destinado a prover, num período de cinco anos, a reestruturação e modernização das forças de defesa da República da Coréia. Esse plano foi visto como decorrência da diminuição radical do aparato militar norte-americano na região. Foi a primeira grande mudança nas forças armadas sul-coreanas desde a Guerra da Coréia.

A situação sul-coreana, na época, era no mínimo curiosa. Park Chung-hee, um general do exército que havia sido oficial do Exército Imperial Japonês e depois da guerra, militante do Partido dos Trabalhadores da Coréia (chegando a ser condenado à prisão perpétua, por traição, em 1949), tomou o poder em 1961, depois de um curto período de agitação política que se seguiu à tentativa de Singman Rhee em assumir um quarto mandato presidencial resultante de uma eleição claramente fraudada. Exilado Rhee, uma junta militar sob comando de Park assumiu e rapidamente fixou-se no poder, conquistando apoio da classe dirigente e da classe média através de um programa de “moralização da vida nacional”, que removeu da vida pública todos os funcionários civis e militares considerados corruptos. Um “Supremo Conselho para a Reconstrução Nacional, com 32 membros, era o principal órgão dirigente do país. O principal projeto da junta era a construção de uma economia próspera baseada em uma “grande revolução humana”. Uma das primeiras providências foi o fechamento da Assembléia Nacional e a substituição de funcionários civis por militares.

Tendo assumido o poder, Park começou uma série de manobras para manter-se no comando do governo, sob normas de exceção e uma aparência de democracia. Um de seus primeiros atos de governo, em junho de 1961, foi a criação de uma “Agência Central de Informações da Coréia” (KCIA, em inglês), com função de polícia política. A Agência estendeu, em 1962, seus poderes aos campos da economia e das relações internacionais, por inspiração do coronel Kim Chong-p’il. Parente da esposa de Park, o coronel revelou-se um planejador original e criativo conspirador político: acabou sendo um dos principais atores do golpe que, em 1979, acabou custando a vida do ditador.

Os planos da junta militar não deram resultados imediatos, o que começou a desgastar a imagem da junta militar. Para piorar, a KCIA envolveu-se em vários escândalos financeiros e políticos. Os militares respondiam prometendo preparar o retorno à normalidade civil – desde que os políticos ligados ao sistema anterior não participassem do processo. Em março de 1963, Park anunciou um referendo popular para decidir se a junta deveria permanecer no poder por mais quatro anos. A intensa oposição interna era esperada, mas a antipatia dos EUA foi um fator com que Park não contava. O referendo foi cancelado.

 Ao contrário de Rhee, que tentava fazer da Coréia do Sul uma potência regional, com o apoio dos EUA, em detrimento do Japão e da China Comunista, o general tentou adotar uma política pragmática: normalizou as relações com o Japão em 1965 e regularizou, no mesmo ano, a situação das forças norte-americanas na península como “convidadas”.

Park usou a aparente estabilidade e a posição estratégica da Coréia como moeda de troca para trazer investimentos externos para seu país. Interessados em estabelecer medidas de contenção para a expansão comunista na Ásia, os EUA autorizaram o Japão a fazer grandes investimentos na península, enquanto garantiam a segurança da área, investindo no desenvolvimento das forças armadas locais.  O governo de Park, entretanto, proibiu a presença de empresas japonesas em território nacional, estabelecendo a política dos chaebol, conglomerados industriais privados que recebiam empréstimos subsidiados do governo, desde que seguissem as regras econômicas e políticas vigentes. Algumas desses conglomerados tornaram-se empresas gigantes, atuando em toda a cadeia produtiva.

Uma reforma agrária foi promovida e, ao mesmo tempo, a classe média rural era incentivada a estabelecer residência em centros urbanos. Uma mão-de-obra qualificada, formada através de programas de educação universal e valorização da competência e o fluxo de investimentos japoneses, coordenado pelo governo, acabaram criando, na segunda metade dos anos 1970, um parque industrial impressionante, voltado para a exportação de produtos semi-acabados para o Japão e os EUA. Ao mesmo tempo, o governo militar incentivava a expansão de universidades locais e de programas de pós-graduação no exterior. O resultado foi a sofisticação da indústria local, que se tornou produtora de tecnologia de ponta. Nos anos 1980 e 1990, a Coréia do Sul tornou-se um dos maiores economias exportadoras do mundo.

Esse surto explosivo de desenvolvimento econômico e a urbanização acelerada acabaram criando tensões políticas, com forte influência de pequenos movimentos estudantis e sindicais extremamente combativos tentando conquistar espaço à força de reivindicações de democratização, que eram postergadas pelo governo sob a justificativa do “perigo interno e externo”. Em 1971, Park tentou uma grande jogada política: interessado em permanecer no poder, declarou “estado de emergência nacional”, em função de manifestações de estudantes e trabalhadores nas grandes cidades. Em julho do ano seguinte, em meio à crise política, anunciou, num espantoso comunicado conjunto com Kim Il-sung, ditador stalinista da Coréia do Norte, planos para a unificação da península. Foi um magnífico tiro no pé. Manifestações de todas as colorações explodiram por todo o país. O projeto foi abandonado rapidamente, em função da oposição dos EUA, e ao fato de que, aparentemente, Kim Il-sung não conseguiu apoio da URSS e da China para levar a proposta adiante.     

Em 19 de abril de 1973, o general Park, enquanto acompanhava exercícios militares, divulgou o propósito de estabelecer uma estratégia militar independente e desenvolver as forças militares. Os projetos decorrentes dessa diretiva, desenvolvidos pela Junta de Chefes de Estado Maior resultaram em Diretrizes para um Programa de Modernização do Equipamento Militar para cada umas das corporações militares, integrados e, um Plano de Defesa Nacional de Oito Anos (1974-1981), aprovado pelo chefe do governo em fevereiro de 1974.

Nessa época, a situação política do país tornava-se cada vez mais tensa. A situação econômica da Coréia do Sul era delicada, em função da crise mundial do petróleo, que tinha feito retrair os investimentos japoneses no país. A instabilidade criou brechas no sistema de governo, sem que os atores envolvidos chegassem a um consenso sobre o que fazer. Park governava através de sucessivas decretações de estados de emergência, mas a oposição não dava sinais de esmorecer. Em 1979, como a situação econômica só fizesse piorar, conselheiros próximos de Park Chung-hee o instavam a ceder a algumas das reivindicações do movimento de oposição estudantil e reduzir a repressão. A discordância entre as principais figuras do governo acabou resultando, por incrível que pareça em um tiroteio, acontecido durante uma reunião de cúpula no refeitório da sede da KCIA, em 26 de outubro de 1979. Nesse incidente, Park e o diretor da agência de informações perderam a vida. O desaparecimento do ditador e de parte de seu staff abriu um vácuo de poder, e o período posterior foi de competição entre setores dominantes, em meio a levantes estudantis, indisciplina militar e intranqüilidade social. Alguns anos se passariam até que a situação viesse a se estabilizar::

15/07/2009

O mês da Coréia::Uma análise estratégica ampliada::

Parte 2 O grosso das forças terrestres da Coréia do Norte está posicionado na região imediatamente adjacente à ZDC, em posição de ameaçar o Comando das Forças Combinadas e a cidade de Seul. Especialistas ocidentais estimam que setenta por cento do efetivo total (700.000 soldados, 2.000 tanques e 8.000 sistemas de artilharia de todos os tipos) encontre-se à distância máxima de 150 quilômetros da linha de demarcação. Mesmo durante as conversações entre os dois países, o número de tropas não parou de crescer. Informes de inteligência dão conta de 4.000 instalações subterrâneas: depósitos, centros de comando e comunicação, alojamentos, hospitais e facilidades de manutenção; no país inteiro calcula-se que sejam mais de onze mil. Essas instalações, totalmente aprovisionadas, permitem um ataque quase de uma hora para outra.

Entretanto, a maioria do inventário à disposição de forças armadas norte-coreanas remonta aos meados dos anos 1950, quando o Exército Popular foi reconstruído. Por outro lado, a força terrestre não tem experiência de combate e não realiza manobras conjuntas nem mesmo com seu principal aliado, a China Comunista. Boa parte do equipamento, em alguns aspectos, se assemelha ao set de um filme de guerra antigo (talvez sobre a Guerra da Coréia…). O Exército Popular, em julho de 1953, era estimado em 263.000 efetivos. Informes de inteligência de 1968 davam conta de 350.000 ou mais, crescimento acompanhado por uma série de mudanças organizacionais. Foram formados cinco grupos de exército. Nessa época, observou-se forte aproximação com os soviéticos, o que resultou no surgimento de unidades de defesa anti-aérea dotadas de mísseis e canhões controlados por radar. Artilharia de campanha moderna começou a ser vista nos desfiles militares da data nacional. Tanques *T-54 e *JS-2/3 também foram reportados em maior número, além do surgimento de canhões autopropelidos *SU-76. Esse aumento no poder de fogo no EPRDPC foi atribuído ao envolvimento crescente dos EUA na região.

O Exército Popular foi reorganizado a partir dos anos 1980, de modo a adaptar-se, estratégica e taticamente, às novas circunstâncias políticas vividas na península e no mundo. Os anos 1970 observaram forte desenvolvimento econômico e tecnológico na Coréia do Sul, empurrado por investimentos maciços feitos principalmente pelo Japão; em termos tecnológicos, o país tornou-se vanguarda asiática, a partir de uma inteligente política de investimento em educação básica e formação de mão-de-obra de altíssima qualificação, combinados com um regime de dirigismo econômico suportado por uma ditadura militar pró-americana.  Nessa época, a Coréia do Sul começou a tornar-se um dos “Tigres Asiáticos”. Esses fatores possibilitaram a instalação de uma forte indústria local de alta tecnologia, e acabaram influenciando as forças armadas locais. Em meados dos anos 1980, a República da Coréia tornou-se capaz de suprir quase todas as suas necessidades de defesa com equipamento de ponta.

Esses fatores provavelmente explicam a enorme expansão das forças armadas norte-coreanas que, até o início dos anos 1970 montavam uns 400.000 efetivos. Do ponto de vista de comando e administração, a força terrestre foi completamente reorganizada. Com auxílio chinês e soviético, uma indústria local de armamento pesado foi organizada. O principal produto é uma versão simplificada do tanque soviético *T62. Os informes de inteligência mostravam também que os norte-coreanos faziam modificações notáveis no equipamento soviético e chinês, adaptando-os para as condições locais. A partir dos anos 1980, grande quantidade de veículos motorizados, artilharia auto-propulsada e transportes blindados de pessoal (APCs) começaram a aparecer. Em 1992 o país foi dividido em “corpos geográficos convencionais” e as grandes unidades blindadas e mecanizadas, compostas por brigadas de armas combinadas, foram posicionadas próximas de vias de deslocamento, de modo a possibilitar exploração e contra-ataques rápidos. Embora a força terrestre ainda continue sendo, em larga medida, uma força de infantaria, uma década de modernização e reorganização mostrou, no início dos anos 1990, seus efeitos: a mobilidade e o poder de fogo, bem como o treinamento e aprestamento do potencial humano são hoje considerados muito superiores aqueles observados durante a “Segunda Guerra da Coréia”, no final dos anos 1970.

Atualmente, a ordem de batalha identificada pela inteligência ocidental consiste em 153 divisões e brigadas, incluindo 60 divisões e brigadas de infantaria, 25 brigadas de infantaria mecanizada, 13 brigadas blindadas, 25 brigadas de operações especiais e 30 brigadas de artilharia. A Coréia do Norte  posiciona 10 corpos, com um efetivo de sessenta divisões e brigadas  numa área em formato de leque, ao sul da linha Pyongyang-Wonsan.

De 1996 em diante, as forças terrestres norte-coreanas são compostas por vinte comandos, que incluem  quarto corpos mecanizados e dois de artilharia, um Departamento de Instrução de Tanques, um comando de artilharia, e um Departamento de Instrução de Infantaria Ligeira, que controla as força de operações especiais. O equipamento inclui 3.800 tanques, dos quais 800 são do modelo indígena do T62. Aproximadamente 2.800 *BTRs (transportes blindados sobre lagartas, introduzido pelos soviéticos em 1973) estão à disposição das forças mecanizadas. A artilharia dispõe de cerca de 8.300 canhões calibres 76.2 mm, 100 mm, 122 mm, 130 mm, 152 mm e 170 mm, autopropelidos e auto-rebocados, complementados por  2.700 lançadores de foguetes de 107, 122, 132 e 240 mm. A artilharia anti-aérea alcança o número de 12.500 canhões, principalmente do tipo *ZSU23. A doutrina adotada é principalmente soviética, o que implica na utilização de movimentos massivos de tropas blindadas precedidos por grandes barragens de artilharia.

A indústria norte-coreana produz uma variedade de canhões auto-propulsados e rebocados (howitzers) embora, desde os anos 1980 a ênfase tenha sido colocada nos primeiros, inclusive com a montagem de tubos originalmente auto-rebocados em chassis sobre lagartas . A estratégia norte-coreana parece ser baseada no principio da ofensiva, refletindo provavelmente as experiências da Guerra da Coréia e o treinamento soviético. O poder de fogo superior e altamente concentrado permitiria uma maior possibilidade de defesa para as tropas terrestres em avanço.

Tudo isso pode parecer muito impressionante, à primeira vista. Entretanto, a Coréia do Norte não tem sido assim tão bem sucedida em seus esforços para se tornar uma potência militar de primeira linha. Manobras observadas por reconhecimento de satélite mostram que, apesar da modernização do armamento, este continua sendo baseado principalmente em tecnologia da época soviética. Os limitados avanços tecnológicos, que parecem ter dotado o exército de corpos de artilharia relativamente bem-equipados, provendo certa superioridade sobre os adversários do sul, não alcançaram outras áreas. Os anos 1990 parecem diminuir ainda mais as chances de que a Coréia do Norte alcance os padrões militares do Ocidente. O nível tecnológico da indústria local aponta para a crescente obsolescência do equipamento, principalmente a partir do momento em que a China não parece mais disposta a ceder tecnologia de ponta a um aliado que tem se mostrado bastante recalcitrante. Um exemplo dessa dificuldade está na área de defesa anti-aérea. Não há indicação de que sistemas móveis de mísseis ar-superfície (SAM) tenham sido introduzidos. Em paradas, *SA7 Strela 2 (Grail, para a OTAN, sistema “de ombro”, buscador de calor, distribuído a partir de 1970) e SA14/16 Strela 3 (Gremlin e Gimlet, aperfeiçoamentos do anterior, distribuídos a partir de 1974) têm sido vistos, o que sem dúvida aumenta a capacidade defensiva contra alvos próximos. Entretanto, os sistemas de defesa de ponto são ainda baseados principalmente em canhões, e as poucas baterias do obsoleto SA2 Guideline estão distribuídas em torno da capital.

A aviação também é totalmente obsoleta. Ao longo dos últimos anos, o país investiu a quase totalidade dos recursos materiais e humanos no aperfeiçoamento de vetores táticos e estratégicos para explosivo nuclear, com sucesso limitado. Não foram observados investimentos em outros ramos da indústria aeronáutica, o que tornou dramática, em relação ao Ocidente, a disparidade de meios aéreos, tanto em número quanto em tecnologia. Em 1992, a Força Aérea Popular da República Democrática da Coréia (FARDC) dispunha de aproximadamente 1,650 aeronaves de todos os tipos e 70.000 efetivos. Nessa época existiam três comandos de combate aéreo subordinados a um Comando Aéreo, sediado na cidade de Chunghwa; uma divisão aérea abrangia o nordeste do país e o Departamento de Aviação Civil, administrado pelo Conselho de Administração Civil, era considerado reserva de contingência da estrutura militar. Em meados dos anos 1980, uma forte reorganização, coincidindo com o recebimento de novas aeronaves e baterias de mísseis terra-ar, buscou integrar e reorganizar as divisões aéreas com o objetivo de descentralizar e dar maior autoridade e flexibilidade tática aos comandos regionais.

O equipamento, de origem soviética e chinesa, compreende tipos obsoletos, não-compatíveis com o moderno campo de batalha aéreo. Em números, o principal tipo é o MiG21 (Fishbed, para a OTAN, aeronave multifuncional ativa desde o final dos anos 1950), do qual existem cerca de 150 unidades, embora o estado de disponibilidade seja um incógnita. Nos anos 1980 a FARDC recebeu da então União Soviética um lote de caças-bombardeiros táticos MiG23P   e aeronaves de suporte aproximado MiG23ML (ambos derivados do MiG23S, Flogger A para a OTAN, caça multifuncional de geometria variável, surgido em 1969-70)  num total de umas 60 unidades. Da China vieram entre 40 e 150 Nanchang Q5 (Fantan para a OTAN, aperfeiçoamento chinês do MiG19) – o número correto nunca foi determinado exatamente. As principais aquisições foram, entretanto, 35 MiG29 e 35 MiG23, que foram estacionados nas proximidades de Pyongyang, em diversas pequenas bases aéreas.

Durante os anos 1980 também houve grande incremento no número de helicópteros disponíveis para a FARDC. Atualmente, calcula-se que existam aproximadamente 300, a maioria dos quais são Mi2 (Hoplite, na denominação da OTAN), Mi4 (Hound) e Mi8 (Hip), procedentes da URSS e da China. Em 1985, a FARDC conseguiu adquirir, por meio de empresas de fachada, 87 Hughes fabricados nos EUA, modelo Cayuse, que foram adaptados para ataque ao solo. Não se sabe o estado atual de disponibilidade dessas aeronaves, mas são as mais avançadas disponíveis na Coréia do Norte. Hoje em dia, a inteligência sul-coreana acredita que tenham sido disponibilizadas para as forças de infiltração norte-coreanas, pois a Coréia do Sul possui centenas desse modelo em seu inventário.

A Força Naval do Exército Popular da República Democrática do Povo da Coréia é a menos significativa dentre as três forças armadas é uma força naval costeira. Seus principais elementos são 3 fragatas, 10 contratorpedeiros, 23 submarinos costeiros e aproximadamente 100 barcos de patrulha, a maioria equipados com torpedos, e por volta de 340 barcos de apoio, inclusive submarinos-miniatura destinados a operar com as forças especiais do exército. O efetivo é calculado em algo em torno de 150.000 homens. Não existe infantaria naval nem aviação. A função da FNEP é, principalmente, a interdição das águas costeiras, num raio não maior do que 75 quilômetros a partir de suas bases. Os submarinos são a principal arma de ataque. Informes da Marinha dos EUA dão conta de 4 unidades da classe Whiskey, soviéticos, 22 da classe Romeo, chineses e talvez 5 de uma versão local da mesma classe. Esses submarinos são complementados por um número desconhecido de submarnos-minaturas, inclusive os da classe *Sang-O (“Tubarão”), de 277 toneladas, destinado a tarefas de infiltração de forças especiais no território da República da Coréia::

12/07/2009

O mês da Coréia::Uma análise estratégica ampliada::

parte 1Em três partes, este texto é voltado principalmente para fornecer ao interessado uma visão de conjunto da situação atual da península coreana. No início, eu não estava muito preocupado em aprofundar o texto – pretendia, meramente, fazer algumas observações sobre o suposto “poderio militar” da Coréia do Norte. Mas quando o Weblog do Pedro Doria divulgou um texto, supostamente especializado, de um suposto especialista, e as figurinhas carimbadas de sempre dispararam a comentar o tema, achei que valeria à pena gastar algumas horas de meu tempo livre pesquisando o tema. O professor Zhang Lianggui, pesquisador do Partido Comunista Chinês, em Pequim, faz uma única observação sensata em todo o texto: que o poderio nuclear da Coréia do Norte é uma ameaça para a China. Por outro lado, outras observações são, no mínimo, curiosas. Dentre essas, minha favorita é a seguinte: “A Coréia do Norte acredita que ter armamentos nucleares a torna mais forte. Os norte-coreanos acreditam que sua enorme superioridade militar sobre o sul os fariam vencer a guerra.” Isso contraria as opiniões de meia-dúzia de sites especializados  – este aqui, por exemplo, é bastante incisivo: Pyongyang tem a capacidade de começar uma nova guerra da Coréia, mas não de sobreviver à ela.” Certamente ninguém quer um conflito generalizado na região. Nem a Coréia de Norte: “É a lógica de afastar a guerra tornando-a o mais aterradora possível, o que constitui a essência da teoria da ´dissuasão limitada´, materializada pela capacidade de infligir um dano inaceitável através de um ataque a um centro vital.”, diz Alexandre Reis Rodrigues, no meu favorito Jornal de Defesa e Relações Internacionais. Mesmo com bombas nucleares e *Taepodong-2, a Coréia do Norte pode ser qualificada apenas como uma potência militar média. O fato do país estar a beira do abismo econômico, e sem aliados a lança, talvez, num patamar mais baixo ainda.

Bem, análise doutrinária e estratégica implica em certa paciência para lidar com tecnicalidades. Tentei tornar o texto não muito chato, e dividi-lo em três pedaços é parte dessa tentativa.

A coisa é dedicada ao Antônio M, um dos assíduos lá do PD, para que ele aprenda a distinguir “estratégia” de “tática” e não coloque na boca do coitado do MacArthur palavras que ele não poderia ter dito, em 1950…:: 

:: :: :: :: :: :: :: :: :: :: :: 

O plano de contingência dos EUA para a eventualidade de um ataque norte-coreano contra a República da Coréia passou a prever, a partir de 2003, que o grosso das tropas empenhadas no início de uma invasão estarão posicionadas bem longe da ZDC, possivelmente ao sul de Seul. Trata-se de uma mudança radical no planejamento estratégico do Pentágono, vista não sem certo alarme por funcionários tanto do governo dos EUA quanto da Coréia do Sul. O curioso é que essa mudança, que começou a ser implementada em 2004-2005, também provocou certo alarme no governo norte-coreano. Ainda hoje não existe consenso sobre a validade da medida, embora já se admita que, diante do atual balanço de forças na região, e da conjunção de fatores observável, ela foi necessária.

Desde o final da Guerra da Coréia, em 1953, as tropas americanas – atualmente uns 37.000 efetivos (quarto brigadas e diversas unidades especializadas) – estiveram posicionadas em guarnições permanentes ao longo da zona desmilitarizada. Sua presença era mais uma garantia tangível do compromisso dos EUA com a defesa da Coréia do Sul do que propriamente uma efetiva dissuasão. Até os anos 1980, a grande estratégia dos EUA para a região era que, no caso de um ataque do Exército Popular da República Democrática do Povo da Coréia, com efetivos que, em 1979 chegavam a 1, 2 milhões de homens e mulheres, a resposta dos EUA seria um contra-ataque nuclear tático (por incrível que pareça, isso existe…). Aqueles era os tempos da “resposta flexível” (coisa que os leitores de causa:: sabem do que se trata), e se imaginava que uma resposta nuclear poderia ser mantida sob controle, principalmente depois do esfriamento das tensões entre as potências.

Atualmente, os sul-coreanos já não vêem tanta determinação dos EUA em defender a nação aliada. A remoção das tropas da área de um possível engajamento inicial tem sido vista como a retirada do “gatilho” que implicava no envolvimento automático dos americanos. O problema é que Seul, uma cidade de 17 milhões de habitants, fica a meros 75 quilômetros ao sul da ZDC. Se o  grosso das forças norte-americanas  for retirado da região, ou seja, do caminho do rolo compressor norte-coreano de 3200 tanques e 1500 peças de artilharia, nada indica que o “gatilho” será disparado depois de consolidadas as posições invasoras. Segundo analistas nos EUA e na Coréia do Sul, a nova postura norte-americana pode ter encorajado o líder norte-coreano, Kim Jong-il a se sentir mais confiante para desafiar a comunidade internacional e embarcar em aventuras expansionistas.

A nova estratégia norte-americana faz algum sentido. Na hipótese de uma invasão por tropas da República Democrática do Povo da Coréia, as tropas norte-americanas teriam de recuar, de qualquer maneira, até que reforços vindos do Japão e do Havaí permitissem um contra-ataque. Até que isso seja possível, o poder aéreo é a única garantia de certo equilíbrio da situação estratégica e tática. Sob a nova política, as tropas já estarão em posições seguras; certamente terão de sobreviver às barragens de artilharia que irão varrer a região, dada a superioridade inicial dos norte-coreanos.

Tecnicamente, os argumentos são válidos, mas existem outros possíveis. É certo que o ditador norte-coreano não é tão louco quanto pode parecer. A decisão de invadir a Coréia do Sul esbarra, por certo, em outras questões. Em números absolutos, o exército da Coréia do Norte é enorme, mas seu equipamento deixa muito a desejar. Para começar, a Coréia do Norte não possui propriamente uma indústria de armamentos. Produz, certamente, toda a munição e suprimentos de que precisa, e o país de Jong-il mantém-se funcionando mais-ou menos como se já estivesse em guerra, ou seja, estocando armas, munições e suprimentos militares. Além do mais, armas e munições são praticamente o único produto que a Coréia do Norte dispõe para comerciar, embora sejam poucos os países dispostos ao comércio com os norte-coreanos::

01/07/2009

O mês da Coréia::Trinta dias a mais::

Estamos no assunto “Coréia” já se vão 30 dias. Assim, visto que ainda não cheguei nem à metade dos assuntos que pretendia discutir, resolvi estender o “Mês da Coréia”. Serão, assim, “dois meses da Coréia”.

Acho que vale à pena, na medida em que a península é campo representativo de uma série de questões significantes para aquela região da Ásia. Afinal, se trata de uma relíquia da conjuntura imediatamente posterior ao fim da 2a GM e da Guerra Fria: o regime que vigora lá até hoje é burocraticamente centralizado baseado no modelo de partido único, estruturado em torno da figura do líder. Enfim, um modelo stalinista. Até mesmo o esquedista mais empedernido reconhecerá (se não for empedernido E maluco…) que o anacronismo norte-coreano tornou-se uma pedra no sapato de toda a região, inclusive de seu principal patrocinador, a China.  

Funciona mais-ou-menos assim: o regime da Coréia do Norte é formalmente uma “república popular” na qual o povo governa diretamente, através da Assembléia do Partido dos Trabalhadores da Coréia. A filosofia que estrutura as relações entre o governo e o partido é a mesma desde a independência, em 1947: o governo e seus órgãos e instituições são executores das linhas gerais e políticas estabelecidas pelo partido. Tudo isso gira em torno do chuch´e, aplicação do Marxismo-Leninismo à experiência revolucionária norte-coreana, com base na autonomia e soberania do povo coreano. A aplicação do chuch´, em resumo, colocava a total autonomia coreana como objetivo a alcançar, e sua ferramenta, o desenvolvimento de uma cultura socialista própria, em cujo centro está a figura do Grande Líder e “Presidente Eterno” (esta citada na constituição).  A aplicação do chuch´e deveria guiar a revolução de forma unificada e coordenada , num “movimento de equipe” em direção às revoluções político-ideológica e técnico-científica. Dominando o materialismo científico, fonte dessas revoluções, os “corpos superiores”, organizados no partido, supervisionam “corpos menores” (os funcionários do governo) cuja função é levantar as massas de trabalhadores para a revolução. Isso não passa do velho sistema stalinista de colocar comissários políticos em todos os níveis da sociedade, urbanos e rurais, agrícolas e industriais.

Essa linha de ortodoxia deve ser examinada em função da consolidação no poder de Nikita Krushev como líder da União Soviética. O movimento de desestalinização implementado pelo líder soviético era visto na Coréia do Norte com profunda antipatia. Nessa época Kim comandava um plano de reconstrução do país, lançado em 1954 e que buscava o “aprofundamento do socialismo”, com toda a estrutura econômica centralizada e coletivizada. Seguindo o modelo estalinista dos “planos quinquenais”  dos anos 1930, o planejamento foi centrado na indústria pesada e de armamentos. A partir do cessar-fogo de 1953, que não evoluiu para um tratado de paz, a Coréia do Norte manteve forças armadas desproporcionais à sua economia, optando por assumir a defesa do pais sem tropas estrangeiras, ônus que, na Coréia do Sul foi assumido, ao longo do restante dos anos 1950, pelos EUA.

Entretanto, a opção norte-coreana teve como conseqüência o aprofundamento da ortodoxia de Kim e seu afastamento da União Soviética. Krushvev começou a ser criticado como “revisionista” e “anti-marxista”. Entretanto, mesmo a aplicação estrita da chuch´e não impediu o surgimento, no interior do partido, de uma oposição à sua liderança. O resultado foi um expurgo que atravessou o ano de 1957 e eliminou qualquer oposição. 

O cisma sino-soviético a partir de 1962 levou a Coréia do Norte a posicionar-se ao lado da linha chinesa, mas sem nunca chegar a romper com os soviéticos. Kim via os chineses como pouco confiáveis, tendentes à dominação e economicamente ineficientes. A Revolução Cultural da segunda metade dos anos 1960 pareceu confirmar as desconfianças do “líder supremo”. A remoção de Krushev do poder, em 1964 abriu a possibilidade de um reaproximação com Moscou, já que a nova liderança demonstrava pouca disposição para criticar abertamente o passado. Enquanto a China mergulhava no caos, Kim tratou de reconstruir suas relações com o bloco soviético na Europa, aprofundando relações comerciais e econômicas. Nessa época tentou, com menor sucesso, aproximar-se de países do Terceiro Mundo, notadamente árabes e africanos.

Kim foi eleito, em 1966, secretário do PTC (cargo que exerceu desde o fim dos anos 1940, sendo periodicamente reconduzido). Em 1972, uma reforma política aboliu o cargo de primeiro-ministro, e criou o depresidente da república. Essa reforma unificou, em teoria, as esferas de controle do país, e Kim foi eleito para o novo cargo. Desde então, a tendêndia tem sido estreitar o controle do partido sobre todos os órgãos de admistração e economia. A partir de 1990 a predominância tem sido o absoluto controle do partido sobre todos os aspectos da esfera pública. A razão parece ser a influência que teve sobre a Coréia do Norte o colapso dos regimes socialistas e as mudanças de rumo da China, no que tange à economia.

O colapso do “socialismo real” e particularmente as mudanças de rumo na China parecem também ter alterado fortemente o rumo que, em 1980, Kim Il Sung tinha estabelecido para a Coréia do Norte com relação à Coréia do Sul. No diversas vezes adiado 60° Congresso do Partido, realizado entre 10 e 14 de outubro daquele ano, 3.220 delegados (os trabalhos também foram assistidos por 177 delegados de 118 países) reviram, debateram e endossaram, por solicitação do Comitê Central, relatórios do Comitê de Supervisão e de diversos outros órgãos centrais, cobrindo as atividades de praticamente todos os órgãos de governo ao longo dos anteriores dez anos.

No relatório dirigido à plenária do Congresso (em teoria, o órgão supremo de direção do partido), Kim Il Sung delineou uma série de objetivos e políticas para a década que se abria. Propôs o estabelecimento de uma “República Democrática Confederacional da Coréia”, como modo possível de alcançar uma convivência pacífica e independente entre as duas Coréias, até que se chegasse à uma fórmula mutuamente aceitável  de reunificação da península. Kim Il Sung também apresentou uma “política de dez pontos” para o futuro estado unificado e sublinhou que as Coréias deveriam buscar reconhecer e tolerar-se, em seus diferentes sistemas sociais; que o governo unificado central deveria admitir uma base paritária; que ambos os lados deveriam manter autonomia para governar as respectivas regiões, até que uma fórmula razoável unificasse os governos regionais respeitando o as especificidades locais, políticas e administrativas, incorporando cada partido, cada grupo e cada setor dos povos das duas Coréias.

Kim usou, então, pela primeira vez o termo “Três Revoluções” (ideológica, técnica e cultural), enfatizando objetivos que vinham sendo perseguidos desde o início dos anos 1960, com sucesso irregular. Em meados dos anos 1960, o fracasso dos EUA em conter a insurreição comunista no Vietnam do Sul levou Kim a imaginar se conseguiria fazer o mesmo na Coréia do Sul. O resultado foi uma política cada vez mais agressiva contra a Coréia do Sul, que levou a enfrentamentos que quase resultaram em outra guerra, cujos movimentos culminantes ocorreram em 1968 e 1969.

Ao longo da década, a aplicação da chuch´e tinha resultad em um desastre econômico. O regime, encurralado pelos freqüentes insucessos, chegou ao início dos anos 1990 numa situação de virtual isolamento internacional. Os gastos crescentes com as forças armadas (em1994 a Coréia do Norte tinha a quinto maior conjunto de forças armadas do mundo) sufocavam os outros setores da economia, que não apenas estagnavam como encolhiam. Nessa época Kim tinha decidido iniciar um programa de produção de energia nuclear com fins de produção de eletricidade e procurava alternativas para a crise norte-coreana acenando com uma paz negociada e aproximação com o sul, que, desde a década anterior, vivia um extraordinário surto de prosperidade. Seu filho mais velho, Kim Jong-il tinha sido indicado, na reforma de 1972, como seu sucessor, e aparecia como funcionário disciplinado do aparato do partido, encarregado do programa de energia nuclear e de parte da administração do governo.

Em 8 de julho de 1994 Kim Il-Sung morreu repentinamente, aos 82 anos. Após cerimônias fúnebres monumentais, que tomaram 8 dias, seu corpo, embalsamado, foi depositado em um mausoléu público.::

12/06/2009

O mês da Coréia::Um resumo sobre a Guerra da Coréia::

A Coréia do Norte foi organizada rapidamente entre 1946 e 1948, com apoio da União Soviética. Até mesmo o Departamento de Estado norte-americano reconheceu que o norte comunista estruturou-se de modo altamente bem-sucedido, montando rapidamente um sistema político e militar sólido e razoavelmente eficiente. O sistema politico comandado por Pyongyang começou com um Departamento Administrativo das Cinco Províncias, em outubro de 1945. Em fevereiro de 1946 o Departamento foi reorganizado numa nova repartição, denominada Comitê Provisório do Povo Norte-Coreano. Em fevereiro de 1947 o Comitê passou a ser permanente, como órgão de governo da região norte da península. Ainda antes disso, os comunistas, por intermédio de acordos, incorporaram os grupos de esquerda que, sem estar sob o comando único, alinhavam-se na oposição ao modelo político proposto pelos aliados e à presença de ex-colaboradores dos japoneses no governo. Esse movimento completou-se em agosto de 1946, com a criação do Partido dos Operários da Coréia.

As forças armadas norte-coreanas foram criadas em meados de 1946, com apoio técnico e doutrinário da União Soviética. Entre 1946 e 1949, os soviéticos levaram pelo menos 10.000 norte-coreanos para freqüentar academias militares na União Soviética, para se formarem como oficiais. Um sistema de recrutamento baseado no modelo chinês tinha sido instituído logo depois da guerra, e duas divisões de infantaria (por volta de 35.000 efetivos) tinham sido enviadas para participar da guerra civil chinesa (1945-1949), durante a qual foi formado o Exército Voluntário Coreano, dissolvido com a vitória comunista. Com o retorno dessas unidades, a Coréia do Norte dispunha de um núcleo treinado de combatentes altamente motivados.

Em junho de 1950, as forças armadas coreanas tinham um efetivo entre 150.000 e 200.000 combatentes, organizados em oito divisões de infantaria completas, duas divisões de infantaria incompletas e uma *divisão blindada. O equipamento era soviético, do tipo usado na 2ª GM.

Em comparação, os sul-coreanos praticamente não tinham forças armadas dignas do nome. Os efetivos eram reduzidos, o governo não confiava plenamente no comando e, em função disso, não mostrava interesse em desenvolver a estrutura militar. Os equipamentos eram antiquados e praticamente não haviam tanques e artilharia. A aviação era composta por modelos norte-amercanos do início dos anos 1940 (basicamente treinadores avançados T-6 e aeronaves de ligação e observação). Em 25 de junho de 1950, no dia do início da guerra, a Força Aérea da República da Coréia (em inglês, ROKAF) dispunha de 64 pilotos qualificados.

O desenvolvimento da situação após o início da guerra confirmou a desproporção das forças envolvidas. O comando do exército norte-coreano mostrou surpreendente competência, adotando uma estratégia apropriada e tirando proveito da capacidade de movimento de suas forças. Em apenas três dias a capital sul-coreana foi ocupada e, na segunda semana de agosto, as forças do país tinham sido empurradas para o sudeste da península, em torno da cidade de Pusan. Com ajuda de tropas norte-americanas enviadas às pressas, controlavam meros 12.000 km2 de território.

Os norte-coreanos e seus assessores políticos e militares soviéticos e chineses esperavam que, no caso de uma vitória militar rápida seguida do colapso do governo sul-coreano, os norte-americanos abdicariam de intervir no conflito. Tal não aconteceu, e em 26 de junho, Truman ordenou o deslocamento de forças navais norte-americanas para a costa da Coréia do Sul, com ordens de intervir no conflito. Em 30 de junho tropas do exército norte-americano foram despachadas do Japão, ao mesmo tempo que os EUA convocaram o Conselho de Segurança da ONU. Como era esperado, a ONU, através da Resolução 84, posicionou-se em defesa da Coréia do Sul. Os EUA foram autorizados a indicar o comandante das forças a serem providenciadas e essas forças passaram a usar a bandeira da organização como insígnia. O general Douglas MacArthur foi indicado para o cargo e, depois de breve preparação, lançou uma operação anfíbia contra o porto de Inch’on, em 15 de setembro. Ao longo de seis dias (16-22 de setembro), mais de 50.000 efetivos, dos Marines e exército, e quase 7.000 veículos forma desembarcados na região de Inch´on. Os três primeiros dias presenciaram um vitória decisiva, com as tropas dos EUA desbaratando diversos contra-ataques e destruindo uma divisão blindada norte-coreana. A superioridade aérea dos EUA era total e possibilitou que o impulso em direção a Seul acontecesse com relativa facilidade. Em 25 de setembro, o comandante das operações declarou Seul liberada. A vitória só não foi completa porque as forças das Nações Unidas não conseguiram impedir que uma quantidade significativa de tropas norte-coreanas se retirasse para o norte.

No mundo inteiro, os observadores seguiram os norte-americanos na suposição de que a guerra não iria durar muito. Não era uma suposição absurda: as forças das Nações Unidas, compostas por contingentes (a maioria simbólicos) de 23 nações, rapidamente recuperam o território ocupado pelos norte-coreanos e, em outubro de 1950, lançaram-se através do Paralelo 38. Em 19 de outubro, a situação se inverteu de modo diametral. Fortes contingentes da ONU desembarcam na cidade portuária de Wonsan e na província de Riwon, ambas banhadas pelo Mar do Japão, a partir do qual operavam as forças navais da ONU. Tropas sul-coreanas seguindo por terra juntaram-se a esses contingentes para ocupar Pyongyang. Em campos no sul, 135.000 prisioneiros norte-coreanos esperavam, conformados, pelo fim da guerra.

Ninguém poderia imaginar que avaliações equivocadas do governo dos EUA sobre a disposição da China para a luta, somadas ao egocentrismo de MacArthur, acabariam por prolongar a “guerra que estava ganha” por quase dois anos mais.::

10/06/2009

O mês da Guerra da Coréia::Em causa, a Coréia::

Tivemos, ao longo de maio, uma comemoração especial sobre o fim da Segunda Guerra Mundial, enfatizando a participação do Brasil na luta contra o fascismo. É certo que as atribulações do redator fanático por história e tecnologia militar deixaram, infelizmente, pouco tempo para a festa. Por outro lado, enquanto falávamos sobre a Segunda Guerra Mundial, deu às caras um de seus mais acabados produtos: a Coréia. O ditador Kim Jong Il, da Coréia do Norte, último regime verdadeiramente estalinista no mundo, resolveu chamar atenção do dito reativando seu programa de armas estratégicas, ao mesmo tempo que lançava ameaças contra a Coréia do Sul, o Japão e contra o “Grande Satã” - os EUA.

E, curiosamente, o mês de junho marca a passagem do 57º aniversário da eclosão da Guerra da Coréia. Porque não comemorar, pois? Não que guerras sejam fatos a comemorar, mas essa, em particular, tem uma característica interessante e pouco observada. Entre junho de 1950 e julho de 1953, a península foi palco de uma guerra localizada que contrapôs as duas grandes potências, e na qual morreram aproximadamente 900.000 pessoas. Em teoria, essa guerra ainda não terminou, pois não foi assinado um tratado de paz, mas um armistício. Do ponto de vista da mecânica das relações internacionais e das formalidades diplomáticas, as duas Coréias ainda estão, tecnicamente, em guerra. 

 A Coréia do Norte e a Coréia do Sul surgiram do desenlace da Segunda Guerra Mundial e da configuração do mundo que resultou dela, a tal “Guerra Fria” sobre a qual tanto se fala (e, diga-se de passagem, fala-se muita besteira…). A *Península da Coréia, situada no Sudeste da Ásia, é ocupada por dois estados, divididos pelo Paralelo 38N. A maioria das pessoas tende a acreditar que a divisão atual da península resultou da guerra de 1950. Na realidade, é anterior: em 1945, imediatamente após a derrota do Japão, duas zonas de influência foram estabelecidas. O norte, ocupado pela União Soviética, e a partir de 1949, denominada “República Democrática do Povo da Coréia”. Abaixo do paralelo, na zona ocupada por tropas norte-americanas, a ”República da Coréia”, estabelecida em 1948. A origem mais remota dessa divisão encontra-se na Conferência do Cairo, de 1943, na qual os aliados tinham resolvido tirar do Japão suas áreas coloniais. Os EUA, a China e a Grã-Bretanha concordaram que à Coréia deveria ser dada a independência, após as vitória das nações aliadas. A URSS aderiu a esse princípio quando, em maio de 1945, declarou guerra ao Japão. O presidente dos EUA e o chefe do governo soviético concordaram, na Conferência de Ialta,  em estabelecer um mandato internacional para a península, mas o que resultaria desse mandato não foi claramente formulado. O desembarque de forças soviéticas no norte da península, em julho de 1945, levou o governo dos EUA a ter de improvisar uma solução, visto que os norte-americanos não tinham tropas combatentes na região e os soviéticos estavam em posição de ocupar toda a península. Assim, em 15 de agosto, o presidente Harry Truman propôs a Stalin a divisão da Coréia, simplesmente traçando uma linha de coordenada, mais ou menos no meio da região. Stalin aceitou sem discutir. Naquele momento, o líder soviético parecia esperar que os EUA concordassem com a ocupação soviética de parte do território japonês. Ao contrário do que esperava Stalin, Truman convocou uma conferência de ministros aliados, que aconteceu em Moscou, em dezembro de 1945. Os aliados concordaram com um mandato de cinco anos, durante o qual um governo provisório prepararia a independência, sob supervisão das potências vencedoras. Os únicos que não gostaram do acordo foram os coreanos, de todo o espectro político. A direita, sob a liderança do extremista pró-americano Syngman Rhee, aproveitou-se da “ameaça comunista” para consolidar sua base política, em um momento em que, na China, os nacionalistas se viam sob forte pressão dos comunistas locais.  A comissão inter-aliada reuniu-se em Seul até adiar indefinidamente seus trabalhos, no início de 1947. Os soviéticos insistiam que apenas partidos e organizações sem ligação com o período de ocupação japonesa pudessem participar do processo. Isso significava a exclusão automática de amplos setores da política local – burocratas e empresários envolvidos, em diversos graus, com o esforço de guerra japonês. Os EUA recusaram essa fórmula, pois era a garantia que apenas os comunistas participariam do governo, já que constituiam a maioria dos movimentos que tinham se oposto aos japoneses.

O problema é que os EUA não tinham nenhum plano alternativo. A Coréia era, então, muito pouco conhecida pelo governo norte-americano e um problema adicional, observado pelos comandantes das forças de ocupação dos EUA era o fato de que os oficiais militares encarregados de governar a parte sul da península não sabiam nem a língua, nem os costumes e muito menos a história local. Os soviéticos não tiveram tal problema já que passaram o governo da porção norte do Paralelo 38 N ao Partido Operário da Coréia. No sul, o Partido tinha grande influência entre operários e estudantes. Diante da expansão comunista no sul, os EUA passaram a apoiar políticos exilados que retornavam à Coréia, de perfil conservador, e antigos membros da administração no período japonês. Em setembro de 1947, diante do agravamento da situação, o governo norte-americano submeteu o problema coreano às Nações Unidas. Em novembro, a Assembléia Geral reconheceu o direito da Coréia à independência e determinou a realização de eleições para uma assemblèia nacional unificada, no mês de maio do ano seguinte. Os soviéticos se recusaram a submeter o norte da península ao mandato da ONU, o que praticamente determinou a divisão do país, uma vez que os setores políticos comunistas e alguns nacionalistas de esquerda passaram a boicotar a eleição. A política de confronto entre os movimentos políticos locais acabou por diminuir a influência comunista e resultou no isolamento dos progressistas, diante da política de intimidação dos direitistas e da recusa do Partido em fazer alianças.

A Assembléia Nacional eleita em maio de 1948 adotou uma constituição que previa a forma republicana de governo. Syngman Rhee tornou-se o líder da assembléia e preparou, de forma apressada, o estabelecimento da República da Coréia, em agosto de 1948, da qual se tornou presidente. Um mês depois, as autoridades comunistas da área soviética cortaram laços com o governo do sul e proclamaram o estabelecimento da República Democrática do Povo da Coréia – que desde então passou a ser conhecida pela imprensa internacional como “Coréia do Norte”. O governante era o secretário do Partido dos trabalhadores da Coréia, Kim Il Sung. Kim alegava ser o líder legítimo de todos os coreanos, em função de eleições realizadas no norte e de alegadas eleições subterrâneas que teriam acontecido no sul.

Em setembro de 1948 foi criado o Exército da República da Coréia , que logo se viu diante de um motim de unidades formadas por simpatizantes dos comunistas. A revolta foi controlada mas revelou a fragilidade da estrutura militar do novo governo. Em 1949, os EUA não pareciam dispostos a apoiar  a república, que viam como fadada ao fracasso. No final de junho, as forças norte-americanas tinham sido retiradas e apenas duas brigadas (uns 8000 efetivos) permaneceram. Os estrategistas dos EUA pareciam conformados em perder a região e colocaram o país como “área externa ao perímetro de defesa norte-americano na Ásia”. Apenas garantiram, de forma vaga, que, no caso de uma agressão do norte, apoiariam o governo local com tropas.

A guerra veio, com a invasão da Coréia do Sul em junho de 1950. Mas deixemos esse tema para depois…::

23/04/2009

Recordar é viver::Anos 70: Détente, SALT e outros quetais::

   

Pois é – eis um post de que gosto muito, pelo estilo. Não me lembro bem quando publiquei pela primeira vez, mas lembro que resultou de um dos debates que tínhamos no falecido Weblog, aquele de nosso desaparecido Pedro Doria. Na época, eu estava entusiasmado por ter arrumado o xerox de um livro de Henry Kissinger – Diplomacy - um calhamaço enviado por um amigo que passava uma temporada em Yale. Acabei não lendo, a coisa está atravancando a estante, e acabou que o livro foi lançado, tempos pouco tempo depois, em nossa língua. Um pouco mais cedo, eu o olhava na vitrine de uma das ubíquas “Leitura”, aqui em Belo Horizonte. Comentei com minha mulher – que demonstra grande paciência com minha mania por impressos de todos os tipos: “Eu o comprarei, mas não agora…” Agora, fiquem com as duas partes do post, visto que ainda não finalizei a novela dos submarinos::

Parte 1/2:: Por que o mundo de hoje é como é? Imagino que uma pessoa que tenha vivido os anos 1960 talvez estranhe o clima de instabilidade localizada que vivemos hoje. Nos “fabulosos sessenta” alinhavam-se duas superpotências, uma ameaçando a outra – e à humanidade – como a incineração nuclear instantânea. Por trás das duas, duas zonas geopolíticas de influência, cujos limites eram mutuamente respeitados. E também havia uma espécie de quintal comum, mais conhecido como “Terceiro Mundo”, onde as superpotências disputavam, de maneira atroz, quem iria mandar.

É claro que, para pensar essas coisas, essa pessoa que estou imaginando teria de saber que o palco geopolítico ainda era – digamos… –, em 1968, resultado da estabilidade conseguida pelos vencedores da 2ª GM. Ao longo daqueles 23 anos, a estabilidade fora não apenas mantida, mas aprofundada. Os dois principais atores aprenderam como não deixar que conflitos localizados, como a Guerra da Coréia, os choques no Oriente Médio, a crise de Cuba e a Guerra do Vietnam acabassem por se transformar em conflito generalizado; aprenderam que a ameaça de destruição mútua, por mais paradoxal que pudesse parecer, era a melhor forma de se ter alguma segurança de que o desastre não aconteceria. Absurdos concretos se tornaram ícones dessa estabilidade – a existência de uma cidade enorme dividida em duas por um muro; um país insignificante desafiando com sucesso uma das superpotências, separado dela por 180 quilômetros de água. No entanto, os dois blocos pareciam atuar de forma mais ou menos articulada: Brasil e Coréia do Sul, ou Tchecoslováquia e Coréia do Norte, por exemplo, não faziam exigências aos EUA ou a URSS. Ao contrário, pareciam adaptados ao papel de soldados em uma guerra perene. Chegavam a declarar-se “vencedores” de batalhas imaginárias uns contra os outros.

O próprio contexto por si mesmo apresentava-se como um paradoxo: uma “guerra fria”. Uma guerra com inimigos, estratégia, mobilização, armas e batalhas; e tréguas. Mas uma guerra em que fronteiras eram respeitadas e as batalhas quentes, com tiros e mortes, eram cuidadosamente mantidas restritas.

Os paradoxos eram generalizados: boa parte dos “povos-soldados” nos dois lados era mantida apartada de níveis mínimos de liberdade (pela qual dizia-se lutar) e sem perspectiva visível de prosperidade (a qual, dizia-se, seria geral após a “vitória final”). Mas a vitória final não estava à vista, apenas num virtual horizonte em direção ao qual, afirmavam dos dois lados, os ideólogos, movia-se, inapelavelmente, a história. Até que se completasse esse movimento, e ambos os lados diziam que se completaria confirmando as próprias idéias, o que se deveria buscar era a estabilidade. Por mais injusta que essa fosse. Isso significava manter e apoiar o statu quo ante (o a corruptela “status quo”, termo latino traduzido por “estado existente” que, em 1968, essa pessoa de que falo talvez não conhecesse a tradução exata, mas saberia o significado geral), ou seja, a situação política e social interna não apenas das superpotências, mas também – e tão importante como – das nações coadjuvantes.

Esse contexto paradoxal não livrava o mundo das crises. Em mais de uma oportunidade, os mísseis foram armados e apontados – em 1962 e 1973, por exemplo. As superpotências rosnavam uma para outra e confrontos surgiam o tempo todo, mas a possibilidade de que um desses acabasse degenerando na crise final, gerava mais um paradoxo: se mantinha abertos canais de diálogo e a possibilidade de cooperação.

Paradoxo em cima de paradoxo, essa tal pessoa, vivendo lá no mundo de 1968, talvez considerasse, naquela época, moralmente discutível, mas legítima, a situação geral de “libertícidio” (termo, segundo consta, criado pelo teatrólogo Berthold Brecht, diante da sangrenta repressão à revolta de Berlim, em 1953) e de opressão. E talvez até concordasse com Henry Kissinger, que afirmava – “legitimidade não deve ser confundida com justiça”.

Pois em função da legitimidade criada pela estabilidade, valia à pena tolerar o sacrifício da liberdade e a violação maciça de direitos humanos, de ambos os lados. Os EUA viam como legítima a derrubada e assassinato de um presidente eleito democraticamente e a morte, a sangue frio, de milhares de seus seguidores; a URSS considerava legítima a invasão militar de qualquer de seus aliados (!!!), diante de uma ameaça de mudança no tal statu quo ante. Assim, não é de se estranhar que a situação tivesse evoluído até o paradoxo absoluto de que os lados adversários passassem a considerar como legítima a pretensão de estabilidade interna do outro: “A invasão da Tchecoslováquia nunca chegou a ser assunto de guerra ou paz entre nós e a União Soviética, por mais ignóbil que possa parecer”, afirmou aos jornalistas o Secretário de Estado de Lyndon Johnson, Dean Rusk.

O problema é que a situação paradoxal de sacrifício da liberdade em nome da liberdade futura, da justificação da opressão em nome da luta contra a opressão, da privação como promessa da fartura e da guerra permanente como pressuposto da paz, acabava criando tensões. Não importa como essas tensões se manifestavam ou como eram tratadas pontualmente, mas o fato é que as autoridades, por toda parte do mundo, consideravam que a estabilidade na tensão, e não a paz, era o valor absoluto a ser buscado e alcançado. “A tentativa de um lado de impor uma justiça absoluta será encarada pelo outro como absoluta injustiça. A estabilidade depende da relativa satisfação e, portanto, da relativa insatisfação dos vários estados.” Palavras de Henry Kissinger::

Próxima Página »

Blog no WordPress.com.