1967 – Que vitória foi essa, afinal?::

Embora o assunto já esteja sumindo da imprensa, continua quente nos blogs. Assim, vou colocar à disposição a última parte do texto sobre a origem dos atuais problemas de Israel – problemas que, parece, não vão terminar tão cedo. Sugiro queo leitor procure os posts sobre o assunto que aparecem com freqüência no Weblog do Pedro Doria, inclusive o último, em torno da “história de Israel”. Eu diria que a leitura do texto que se segue (e do post anterior, que ele complementa) pode ajudar a aprofundar o ótimo texto do PD. Divirtam-se – ou enraiveçam-se. Depende do ponto de vista.

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Até hoje é questão de debate entre historiadores e cientistas políticos, se a guerra era mesmo necessária. De fato, analistas israelis admitem que, desde 1956, os judeus foram responsáveis por 80% dos incidentes de fronteira com a Síria (embora alegassem o contrário) e também que sabiam de que Nasser não tinha condições políticas nem militares de se lançar numa guerra. Embora o historiador israelense Tom Segev (autor de um ótimo estudo sobre a sociedade israeli do pós-guerra: Israel in 1967. And the land changed its visage) admita essas possibilidades, alega em seu livro que “os israelenses estavam convencidos que ele queria destruir Israel”. Era o que aparecia na imprensa estrangeira, alimentada pela Agência Judaica. Mas até então, a política agressiva de Israel tinha sido contraproducente, em termos de resultados.

Seguev também alega que a agressividade árabe fortaleceu, no governo de Israel, a idéia de uma “defesa preventiva”, baseada em dois princípios: ataques aéreos preemptivos e movimentos rápidos de tropas blindadas e motorizadas, criando zonas de defesa avançadas. Estrategicamente, a guerra foi um sucesso estrondoso: Israel atingiu todos os objetivos, e ainda se viu em posição de grande vantagem estratégica. A imagem de Davi derrotando Golias atraiu alguma simpatia para a nação judaica, da opinião pública internacional, e particularmente nos EUA.

Em seu livro, Segev lista o que considera as principais consequências da guerra: os judeus orientais, fortemente marginalizados na sociedade israeli, mas parte importante das FDI, tiveram seu papel reconhecido e foram plenamente integrados;
o nacionalismo de direita passou a ser visto como legítimo por boa parte da população – a ascensão política de Menachem Begin (de certa feita chamado de “nazista” por ben Gurion) começou então); os israelenses descobriram os palestinos; Israel, até então um estado fundamentalmente laico, se abriu ao judaísmo.


Entretanto, a vitória parece ter desorientado mesmo a população de Israel.

 

Nos anos seguintes, começou a ser observado um resultado curioso: uma parcela considerável da população viu a vitória-relâmpago como um sinal de que o povo de Deus estava finalmente reconquistando a simpatia do Criador.

 

 

 

O fundamentalismo judaico sempre esteve associado a facções religiosas radicais em Israel e nos EUA. Esses movimentos condenam o acordo de paz entre palestinos e israelenses, que prevê a devolução dos territórios conquistados por Israel. Para eles, a entrega de terras bíblicas, como Hebron, Jericó e Nablus, na Cisjordânia, é uma afronta à vontade de Deus. Ela contraria a aspiração judaica do retorno a uma Grande Israel, similar aos tempos do rei Davi, que por volta de 1000 a.C. pacificou a região e transformou Jerusalém em centro religioso. A questão deixou de ser meramente estratégica – se é que algum dia foi.

 

 

 

Segev rejeita o argumento do historiador israelense Benny Morris, de lamentar hoje que Israel não tenha “concluído a tarefa”, expulsando os palestinos da Cisjordânia em 1967: “Essa questão é moralmente ilegítima… Seria um crime contra a humanidade”. Ainda que críticos possam concordar com Morris ou discordar dele, não é possível pensar a polítca israeli atual sem levar em conta o peso do fundamentalismo judeu na orientação do governo local. A política de colonização da Cisjordânia é o elemento objetivo desse papel do fundamentalismo. A efervescência dessas idéias levou ao assassinato, em 1995, do primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Rabin, mentor do acordo de paz ao lado de Yasser Arafat. O culpado, Yigal Amir, era membro de um grupo fundamentalista, o Eyal, justifica sua atitude afirmando que Rabin era um traidor do ideal judaico por devolver regiões ocupadas aos palestinos.    

 

Não todos os israelenses: depois da vitória, o general Moshe Dayan, foi à Mesquita Dourada de Jerusalém e tirou os sapatos, cumprindo o ritual muçulmano em sinal de respeito. Dayan devia ter certa consciência de que uma disputa militar e política não poderia se transformar numa guerra religiosa. Em junho de 1967, no início das operações militares, ele tinha dito a jornalistas que aquela não era “uma guerra de conquista”. Essa opinião parece não ter fincado raízes na liderança política e, já no fim daquele ano, o governo israelense aparentava ter abandonado a idéia de devolução integral dos territórios árabes ocupados.

Entretanto, a interpretação da vitória estimulou o judaísmo (a religião), gerando uma forma local de fundamentalismo. Seguev observa que, logo depois da guerra, a maioria dos israelenses acreditava que “a ocupação seria apenas temporária”, mas o próprio governo passou a estimular a idéia de uma guerra perpétua sem solução diplomática possível. Essa idéia fortaleceu setores de direita, que, por volta dos anos 1970, começaram a se entender com o movimento fundamentalista que, a partir dos EUA, ganhava força. Seguev considera que “o sionismo deu um tiro no pé quando o governo decidiu anexar o setor oriental de Jerusalém, sem consultar um jurista. Com este gesto, impediu qualquer possibilidade de paz. Seguiu-se a colonização”.

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