62 anos esta noite::Olímpica, mas nem tanto::


Parte II

Tóquio sacode sob o peso de nossas bombas.. Quero deixar claro ao mundo inteiro que esse curso deve ser, e será, mantido, sem alteração ou hesitação … Nossa proposta está feita e não mudará: rendição incondicional. Harry Truman, em sua primeira mensagem dirigida ao Congresso dos EUA, em 16 de abril de 1945.


O cansaço da população civil americana, embora disfarçado pela vitória, que provocou, por todo o lado, grande entusiasmo, já era, em meados de 1945, bastante evidente. Depois de quase quatro anos de mobilização, e um total de mortos nunca antes registrado pela história do país, a chegada do dia V-E tinha inculcado, em todos, a idéia de que o dia V-J se aproximava rapidamente.

Paradoxalmente, os EUA sofreram pouco, durante a guerra. Esta tinha significado, para a sociedade norte-americana, um período de prosperidade excepcional, maculado por algumas restrições que todos viam como temporárias (a falta de bens de consumo duráveis e o rigoroso racionamento de combustíveis). As lembranças do período da Grande Depressão tinham se tornado distantes: haviam empregos em profusão, dinheiro e mercadorias. O povo estava pronto para gozar a boa-vida garantida pelo “Dr. Win-the-War” (em 12 de julho de 1941, Rooselvelt assim se referira a si mesmo, numa possível mudança de rumo do New Deal, em função do envolvimento dos EUA na guerra européia). Só que o dia V-E chegara depois das péssimas novas da campanha de Iwo Jima. A disputa por uma ilha perdida mais de mil quilômetros a sudeste de Tóquio, tinha custado, em pouco mais de um mês, quase 7.000 baixas aos Marines, das quais 2.000 fatais. A reação da população foi de desalento e desconfiança. A guerra não estava quase acabada?

A pior notícia é que começava a faltar homens: os EUA chegaram, em 1945, no limite de sua capacidade de mobilização. Virtualmente toda a população adulta, entre 17 e 45 anos tinha sido engajada no esforço de guerra, fosse nas forças armadas, fosse na produção, isto numa população total de uns 140 milhões de habitantes. Doze milhões de homens e mulheres estavam engajados nas forças armadas, sessenta por cento deles no estrangeiro. Não havia mais de onde tirar gente, e a população estava ansiosa pelo retorno de seus filhos, maridos e pais para casa.

Embora em meados de julho de 1945, o Japão já não tivesse a menor perspectiva de conseguir outra saída que não fosse, a exemplo da Alemanha nazi alguns meses antes, a rendição incondicional, isso não significava que a essa fosse ser facilmente aceita pela liderança nacional. Os chefes militares norte-americanos encaravam, embora sem nenhum entusiasmo, a possibilidade de uma invasão das ilhas metropolitanas do Japão. Esse plano, denominado “Queda”, vinha sendo estudado desde o início de 1945 e deveria se dividir em dois estágios, que aconteceriam, o primeiro (codinome, “Olímpico”), em setembro e o segundo, ainda maior (codinome “Diadema”), em dezembro. “Olímpico” desembarcaria um exército, o 6º, na ilha de Kiushu, tendo Okinawa como principal base de operações e as Filipinas como retaguarda – seria, de fato, uma versão ampliada da campanha de Okinawa. “Diadema”, a invasão de Honshu, não estava planejava, e implicava enormes problemas de concepção, já que estava previsto o desembarque de 25 divisões, e essas simplesmente não existiam, pois parte delas ainda estava, naquela época, empenhada no ETO.

Mas esses eram apenas parte do problema geral. Para essa ofensiva final, os norte-americanos contavam com a participação de algo em torno de 5 a 8 divisões aliadas – cinco britânicas, canadenses e australianas, e duas francesas, bem como com os efetivos da RAF liberados pelo fim das hostilidades na Europa. O que ninguém sabia direito era como esse contingente, calculado em quase 900.000 efetivos, e seu equipamento, seria transportado até o teatro do Pacífico, visto que não haviam transportes especializados em número suficiente. A própria transferência do 1º Exército dos EUA, com o quartel-general transferido para Manilha no final de abril de 1945, e os efetivos aquartelados no ETO, não tinha como ser realizada. Outra questão, esta ainda mais delicada, é que quase certamente, tripulações aéreas do Exército e da Marinha, que estavam sendo desmobilizadas na Europa e mandadas rapidamente para casa, certamente teriam de ser novamente convocadas.

A invasão do Japão se configurava, nas palavras do major-general Walter Krueger, comandante do 6º Exército dos EUA, “o pior pesadelo logístico”.

O fato é que não havia nem mesmo a concordância em torno da invasão do Japão. A campanha de Okinawa, cuja duração, investimentos e baixas foram subestimados pela inteligência norte-americana, e a reação adversa da opinião pública nos EUA, dividiram o Estado-maior, além de trazer à discussão a classe política que, até então, tinha-se mantido quieta em função da unidade do front interno. A oposição republicana, rediviva depois da eleição de 1944, começou a questionar a forma como a guerra vinha sendo conduzida pelos Democratas, segundo eles, “muito lenientes com os comunistas”.

Em Washington, parte dos comandantes imaginava a possibilidade de que o Japão fosse estrangulado por um bloqueio coadjuvado por incessantes bombardeios navais e aéreos. Por outro lado, o bloqueio, por mais que poupasse os líderes do desgaste de impor operações com número excessivo de baixas, não resolvia o problema político de que, sem a rendição do governo japonês, nada indicava que as forças imperiais na China – ainda consideráveis, em 1945 – e seus aliados, questionariam ordens de Tóquio para persistir na luta. Fontes diplomáticas deram curso ao boato, surgido nessa época, de que, mesmo em caso de colapso da resistência no território metropolitano, a luta deveria continuar. O novo chefe do governo, almirante Suzuki, mesmo considerado moderado e derrotista, pelas alas militares mais radicais, tinha dito esperar pelo menos mais dois anos de guerra.

E agora, os EUA encaravam a possibilidade de ter exércitos russos de 3 milhões de homens, dez mil tanques e dez mil aviões atravessando a China, onde praticamente não havia tropas norte-americanas empenhadas (de fato, desde março de 1945 os soviéticos já vinham fazendo planos para esse redirecionamento, e começaram a transferir 2 grupos de exército através da Sibéria, em meados de maio). Embora essa perspectiva causasse arrepios a Washington, era vista como necessária, pois os exércitos japoneses na Manchúria e norte da China ainda estavam relativamente intactos e tinham tido uma série de sucessos contra os nacionalistas chineses, em 1944.

Em meados de julho de 1945, um grupo de trabalho da inteligência norte-americana, analisando os relatórios da campanha de Okinawa, havia elaborado um relatório de conteúdo bastante desagradável: a operação “Queda” deveria durar no mínimo seis meses, e não se deveria esperar menos de 300.000 baixas como resultado da invasão do Japão. Cálculos conservadores estabeleciam não menos de dois milhões de militares japoneses aquartelados na metrópole (metade dos quais reservistas da guarda metropolitana), bem provisionados e com moral alto. A paisagem japonesa era semelhante à de Okinawa, e tudo indicava que a estratégia geral japonesa seria uma ampliação daquela utilizada lá, bem como as táticas, baseadas, antes de mais nada, no aferramento ao terreno. Não existem indicações seguras de que Truman tenha tido acesso a esse relatório, mas com toda certeza o vice-presidente e o general Marshall, chefe da Junta de Estado-maior, tiveram. O fato é que, desde 18 de junho, Truman estava informado pelos chefes da JEM sobre as principais características da operação “Queda”. Já nessa oportunidade, ele tinha revelado grande preocupação com o número de baixas, e manifestara claras dúvidas em torno da real necessidade da invasão. Naquele momento, Marshall deu ao presidente uma estimativa (não é conhecida a origem desse estudo) de no mínimo 40.000 baixas norte-americanas. Truman determinou, nessa reunião, que o planejamento do “Olímpico” fosse aprofundado e acelerado, mas postergou sua execução para 1 de novembro de 1945; “Diadema” não teria lugar antes de março do ano seguinte. Curiosamente, a data de 1º de novembro passou a ser tratada como “Dia-X”. Em reuniões posteriores, falava-se em um desembarque envolvendo 800.000 efetivos, ao longo de 4 dias, entre tropas de assalto, tropas de reforço e pessoal aéreo.

Um dos participantes da reunião declarou, anos mais tarde, que, ao final dela, teve a clara impressão que “Olímpico” “tinha se transformado em história”::

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62 anos, esta noite::Okinawa, o moedor de carne

Não sei se as pessoas estão dispostas a comemorar, mas hoje é dia de um aniversário: 62 anos atrás, o recém-empossado Harry Truman decidia pelo alvo japonês a ser engajado por uma nova arma: a bomba nuclear. O alvo? Uma cidade japonesa que, mesmo depois da tempestade de fogo trazida diariamente pelos Boeing B29 sobre as cidades metropolitanas, ainda se encontrava surpreendentemente intacta: Hiroshima.

O desenvolvimento de uma arma nuclear embora seja um dos principais desdobramentos da 2ª Guerra Mundial, é suficientemente conhecido, e não é o objetivo desta postagem. Quero discutir o motivo pelo qual Truman teria resolvido passar para a história como o primeiro – e, até o momento, único – assassino de massas da era nuclear. Até poucos anos atrás, eu mesmo achava que o lançamento da Little Boy sobre Hiroshima, na manhã de 6 de agosto de 1945 foi um desnecessário ato de selvageria, destinado a constituir uma advertência aos soviéticos, no alvorecer da Guerra Fria. Vamos aos meus argumentos, e vamos ver se os leitores concordam comigo::

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O debate em torno desse assunto, quando acontece (o que, apesar do tempo passado, ainda é relativamente comum) costuma a travar-se entre posições expressas em termos absolutamente maniqueístas: o Japão estaria derrotado, bastaria um cerco para minar a resistência da população sem que grande baixas fossem necessárias, em ambos os lados. A ordem de lançamento da bomba teria sido, portanto, um ato de crueldade totalmente desnecessário, provocado por um novo ambiente que se desenhava entre as potências surgidas da guerra.

É uma pergunta cabível, por qualquer critério, se o extermínio repentino e não avisado de quase 200.000 pessoas seria, naquele momento, justificável. Seja qual for o parâmetro de análise, no início de julho de 1945, o Japão tinha perdido a guerra. Sua Marinha está inteiramente destruída; suas forças aéreas, com umas 5.000 aeronaves, sofriam carências crônicas de combustível, munição e pessoal treinado. O bloqueio naval esgotava os recursos da indústria; a fome era uma ameaça real. Três quartos da indústria tinha cessado de funcionar, incendiado junto com as cidades por bombardeios incessantes. Dois milhões de feridos amontoavam-se em hospitais desprovidos de tudo. No início de maio, a capitulação alemã fez o futuro ficar ainda mais negro, pois liberou do ETO (Teatro de Guerra Europeu) parte das forças militares lá empenhadas – uns dois milhões de efetivos, entre ingleses, canadenses e norte-americanos, e 12.000 aeronaves, para o Pacífico. Como cereja do bolo, a 5 de abril, Moscou denunciou o pacto de neutralidade, pressagio da entrada da URSS na guerra. Por todo lado, os exércitos imperiais recuavam: na segunda metade de 1944, MacArthur completou a reconquista das Filipinas. Na Birmânia, lord Mountbatten, o enfant térrible da Família Real, aproximava-se de Rangum. O general Curtis O. LeMay, apóstolo do “bombardeio por área”, futuro comandante da USAF, planejava estender a todas as cidades japonesas suas experiências com bombas incendiárias, que culminaram, em março de 1945, com a quase total destruição de Tóquio, em incêndio apocalítico. E, logo após a conclusão da tomada de Iwo Jima, a esquadra americana deslocava-se para o arquipélago Riu Kiu. Ao alcance da vista, estava o Japão.

Estas ilhas, cerca de 150, constituem uma espécie de “ponte natural” entre Formosa e o extremo sul de Kiu Shiu, no arquipélago japonês. A ilha principal, com uma centena de quilômetros de extensão por 12 km de largura, situa-se no centro, e a partir dela, alcança-se Tóquio, em menos de 3 horas de vôo. É montanhosa, quente e superpovoada. Os planejadores de estado-maior, tanto da Marinha quanto do Exército, observavam-na com ansiosa e sombria expectativa: consideravam que seria um laboratório do desembarque no Japão.

O nome do lugar? Okinawa.

A invasão de da ilha foi a maior das operações militares realizadas no Pacífico. Nimitz, comandante-em-chefe das operações navais, um cultor clássico do poder naval, exige o comando de todas as forças na área, inclusive dos 1500 B-29 de LeMay, naquele momento parecia obcecado por destruir o Japão. Apesar dos protestos irados do general, o almirante pretende, em Okinawa, uma operação combinada clássica, na qual todos os meios disponíveis deverão, sob comando único, ser utilizados para neutralizar as defesas inimigas.

Os japoneses defendem furiosamente o perímetro marítimo de Riu Kiu, e as baixas norte-americanas, surpreendem os comandantes. Um ataque de mais de 100 kamikaze contra os porta-aviões do almirante Mitscher atingem três deles, pesadamente avariados. Ainda assim, a supremacia naval norte-americana é indiscutível, inclusive no momento em que o fim da guerra na Europa liberou 50 navios, inclusive 26 ingleses, para o esforço no Pacífico.

No dia 1o­ de abril, começou a invasão de Okinawa, pelo centro da ilha, na foz de um rio chamado Busha. Mais de 1.200 navios, incluindo 700 transportes de todos os tipos lançam a terra 4 divisões de infantaria, duas do Exército e duas dos Fuzileiros Navais. Num primeiro momento, não se observa qualquer resistência: Okinawa parece abandonada. Para o alívio geral (mas principalmente dos Marines, moídos em Iwo um mês antes), a ilha é atravessada logo no primeiro dia e a conquista dos principais aeródromos acontece sem baixas.

Escondidos em suas fortificações, no entanto, estão 100.000 japoneses, dos quais 24.000 da guarda metropolitana (uma espécie de guarda nacional, formada por reservistas além da idade de convocação, mas com treinamento militar razoável). Seu comandante, o tenente-general Ushijima, renunciara à defesa da totalidade da ilha, concentrando suas forças no sul, em torno das duas principais cidades, Shuri, e a capital, Naha. No norte, cerca de um terço dos efetivos disponíveis defendem a península de Motobu e a ilha de Jima. O resto foi abandonando. Os invasores avançam diretamente para essa linha de defesa.

No Japão, o novo desembarque americano desorganizou o governo, que renunciou coletivamente diante do Imperador Hirohito. O novo chefe do governo, almirante Kantoro Suzuki, de 77 anos, um moderado, foi tirado do ostracismo por parecer um bom instrumento para reunir os meios buscados pelo Imperador para encontrar uma saída honrosa.

Em Okinawa, a 6 de abril é lançada, pelos japoneses, a partir de Kiu Shiu e do Mar Interior, uma contra-ofensiva aeronaval: mais de 1000 aeronaves, boa parte delas kamikaze, lançam-se contra a esquadra americana. Em menos de 12 horas, o custo é estonteante: 355 kamikaze e 444 aeronaves regulares são dadas como perdidas, tendo os invasores sofrido perdas de 16 unidades navais (seis metidas a pique) e 38 aeronaves; um porta-aviões de escolta foi a perda mais significativa. O ataque que deveria se seguir, realizado por um esquadrão naval carente de munição e combustível, encontrou a esquadra norte-americana intacta.

Várias centenas de bombardeiros e de caças norte-americanos alcançam o pequeno grupo de japoneses (cuja capitânea é o enorme – e obsoleto – couraçado Yamato, de 72.000 toneladas) em vagas sucessivas. O Yamato é atingido pela primeira vez às 12h41. Pouco mais de duas horas depois, o esquadrão japonês tinha deixado de existir.

Os dias seguintes são bem mais custosos para os atacantes, sob ataque massivo de kamikaze. Os japoneses usam uma nova tática aérea que se revela, na confusão do combate, bastante eficaz: bombardeiros convencionais, a grande altitude, infiltram-se entre os ataques rasantes de kamikaze. As centrais de direção de tiro não conseguem coordenar a artilharia anti-aérea de modo eficaz, nessa forma de ataque. O resultado: 30 navios afundados, 350 avariados em diferentes graus, entre estes o veterano porta-aviões Enterprise.

O relativo sucesso dos kamikaze, naquele período, cria nos soldados e marinheiros – e no público norte-americano – a impressão de que o Japão só poderá ser vencido pelo extermínio dos japoneses. É, de fato, um engano, cujas proporções são multiplicadas pelo calor do combate. Ataques kamikaze revelam-se muito pouco eficazes, mas provocam, nos atacados, um nível de estresse maior do que o normalmente observado. Mas diante dos radares instalados em aeronaves, coordenando patrulhas de interceptação em diversas camadas e terminado em DCA aperfeiçoada, dificilmente um avião-suicida consegue atingir o alvo. As vítimas são, sobretudo, embarcações leves, menos defendidas: LST, transportes e destróieres. Não se registra a perda de nenhum grande navio.

E o Japão não tinha aviões e combustível para sustentar a orgia suicida. A indústria japonesa foi, ao longo de 1944 e 1945, sistematicamente desorganizada pela campanha naval e aérea norte-americana. Uma campanha submarina, intensificada a partir de 1943, baseada na campanha dos U-boats alemães no Atlântico Norte, levara ao colapso as longas e desprotegidas linhas de suprimentos do Pacífico – como tinha previsto, em 1942, o almirante Yamamoto. Na China, as fontes de matérias-primas, embora mantivessem a produção, não conseguiam fazer chegar seus produtos ao Japão,por obra da eficiente guerrilha comunista, a única que revelava – na visão do general-de-exército Joseph Stiwell, o ácido comandante norte-americano do Teatro China-Burma -, “disposição em matar japoneses”.

A segunda ofensiva, a 12 de abril, reúne 184 kamikaze; daí por diante, os efetivos se reduzem ainda mais. Quase 1.900 kamikaze foram sacrificados durante a batalha de Okinawa sem inflingir ao adversário baixas nem de longe proporcionais. A aviação japonesa perdeu na batalha de Riu Kiu: 7.800 aviões, abatidos ou destruídos no solo. O poder aéreo nipônico deixou de existir.

Em terra, o 3o Corpo Anfíbio alcança, em 4 de abril, o extremo norte da ilha. Isolada a península de Motobu, começam as operações de consolidação. No Sul, a luta foi mais dura. O terreno escarpado foi muito bem fortificado, e serve de base para uma defesa encarniçada. Ushijima ainda imagina ser possível expulsar o inimigo da ilha e, depois de quase um mês, em 4 de maio, lança uma divisão de infantaria completa e bem aprovisionada, mantida em reserva, numa contra-ofensiva, que não leva um dia para falhar. Os norte-americanos continuam, metodicamente, se lançando contra o labirinto de fortificações na península, num tipo de batalha que se assemelha às da 1a. Guerra Mundial. Em 27 de maio, Ushijima resolve abandonar Naha, mas não sem antes tranqüilizar Tóquio: afirma que seu exército está intacto e que a retirada é, na verdade, uma concentração de forças.

Não deixa de ser verdade, embora não nos termos otimistas do comandante japonês. As pesadas baixas obrigam que a população civil seja convocada a combater. São formados “corpo escolares”, com mais de 2.000 rapazes e moças, que, como armas, recebem lanças e porretes. São comandados por instrutores políticos sem formação militar. As privações, a intensificação dos bombardeios sobre a região superpovoada e a desconfiança dos invasores tornam a situação dos civis ainda pior que a dos militares. A infantaria norte-americana começa a testemunhar, com freqüência, suicídios coletivos.

Em 4 de junho, dois terços dos efetivos japoneses já não existem, e o que resta é constituído por milicianos da guarda metropolitana e civis convocados. Apenas um em cada cinco combatentes tem uma arma; não existe mais artilharia. Os americanos arrasam cidades, estradas e instalações; limpam as defesas com lança-chamas e tiros diretos de canhão. Em 22 de junho, ocupam toda a costa, e a resistência japonesa é esparsa e não tem mais coordenação. Os generais em comando, Ushijima e Cho cometem suicídio. As perdas japonesas elevam-se a 131.000 mortos, dos quais 42.000 civis. Os norte-americanos sofreram mais de 14.000 baixas fatais e por volta de 20.000 feridos. Um clamor levanta-se entre a opinião pública norte-americana: como a guerra está sendo conduzida? É possível confiar nos comandantes supremos?

E, sobretudo: pelo número de vidas humanas que devoraram Iwo e Okinawa, quanto custará a invasão do Japão?::

Maus – o pobre monstro::

Esta é para apreciadores do assunto, embora se relacione com o tópico geral que estou discutindo. Um dos assuntos que, no âmbito da história militar, me parece mais fascinante é o desenvolvimento da arma blindada. E é inegável que, apesar da principal ferramenta tecnológica desta ter sido inventada pelos britânicos, em 1915, a arma, em si, foi concebida e desenvolvida pelos alemães, durante a década de 1930.

A grande invenção dos alemães foi reunir os tanques em unidades autônomas, ao mesmo tempo aperfeiçoando uma doutrina de emprego e procedimentos táticos. A arma blindada alemã implicava numa alta mobilização de novidades tecnológicas – o emprego coordenado por rádio em modulação de voz e não em código (ou seja, os tripulantes “falando” uns com os outros), o emprego de aviões no papel de artilharia e o transporte de unidades de infantaria em caminhões ou veículos protegidos.

Os tanques aperfeiçoados pelos alemães, nos anos 1930, entretanto, eram surpreendentemente leves e ligeiramente armados. O principal modelo, em números, era um veículo (os alemães os chamavam de Panzer Kampfwagen, ou seja, “Veículo de Combate Blindado”, e geralmente os modelos eram conhecidos como PzKpfw) considerado, pelos padrões da época, como “leve”, ou “de reconhecimento”, denominado PzKpfw II, de pouco mais de 10 toneladas de deslocamento. Franceses, ingleses e russos já dispunham, nesta época, de veículos bem mais pesados e armados.

Independente dos motivos que fizeram a Wehrmacht começar a guerra com metade de seu inventário composto por um veículo pouco mais pesado que um caminhão (e apenas um pouco mais blindado, também…), a forma de emprego da arma blindada alemã foi a grande vantagem que eles tiveram, no início. Por outro lado, depois de 1941, o contato com os blindados soviéticos, notadamente os da série KV (modelos 1 e 2), pesadamente blindados e armados, fizeram os planejadores alemães levantarem a necessidade de um veículo melhor armado e blindado que os disponíveis, que equilibrasse a desvantagem diante dos soviéticos.

O desenvolvimento de tanques superpesados começou nessa época, com base no exame de veículos soviéticos capturados durante a Barbarossa. No início do ano seguinte, as usinas Krupp propuseram, baseadas em requisições feitas pelo Waffenamt (Departamento de Armamentos do Ministério da Guerra do Reich) desenhos de veículos denominados Tiger-Maus (“Ratazana”) e Löwe (“Leão”). As duas propostas eram desenvolvimentos do PzKpfw VI Tiger, desenho do escritório de projetos do Professor Porsche, que estava então sendo experimentado pelo exército. Entretanto, em meados de 1942, surgiu uma requisição para um veículo ainda mais pesado (os Tigres deslocavam por volta de 60 toneladas). O projeto dos dois veículos foi descontinuado, mas idéias presentes em ambos, principalmente no Löwe, foram aproveitadas na concepção do novo modelo.

No início de 1942, Porsche recebeu um contrato inicial para a um novo tanque deslocando por volta de 100 toneladas. Embora os militares tivessem dúvidas em torno do conceito de um veículo superpesado, este novo tanque era uma demanda estabelecida pelo próprio Hitler. Suas características gerais deveriam torná-lo “definitivo” (se é que isto é possível, no tocante a armamento…): deveria ter um canhão de 150 mm, ser capaz de carregar grande quantidade de munição e ser indestrutível por qualquer armamento então existente. A expectativa era para que o supertanque tivesse atingido o estágio de protótipo na primeira metade de 1943. Desde o início, o veículo passou a ser denominado Maus (“Rato”).

A primeira idéia surgida do escritório de Porsche apresentava um monstro de 188 toneladas, equipado com um canhão de 150 mm e 37 calibres (o comprimento do cano equivaleria a 37 vezes o calibre, ou seja, 37 X 150) e montando ainda um outro, de 105 mm por 70 calibres. Esperava-se que na segunda metade de 1943, as Usinas Krupp pudessem produzir 5 desses carros a cada mês, até um limite de 150 unidades, pelo final de 1945.

Logo ao início do projeto, Hitler começou a imiscuir-se e determinou a diminuição do armamento principal, que passou a ser um canhão anti-aéreo de 128 mm, ladeado por outro menor, de 75 mm. Determinava também que o armamento inicialmente previsto deveria continuar a ser desenvolvido, para uso futuro. Ainda que diminuído o armamento, os projetistas não conseguiram garantir que a quantidade de munição demandada pudesse caber no espaço disponível.

E este não foi o único problema com que os projetistas se depararam. O primeiro protótipo deparou-se com o fato de que não havia motores gerando potência suficiente para deslocar o veículo na velocidade planejada – 20 km/h. Foram apresentados planos que modificavam um motor de avião, mas mesmo este não conseguia levar o veículo a mais que 13 km/h, e isto à custa de um enorme consumo de combustível. O segundo protótipo chegou a ser equipado com um motor a diesel, sem que se obtivesse resultados melhores. Outro problema é que a suspensão convencional dos tanques alemães não funcionava no novo carro de combate, e teve de ser totalmente redesenhada. Também não havia pontes rodoviárias que suportassem o peso do veículo, e seu deslocamento por distâncias mais longas teria de ser feito por via ferroviária ou por espaços abertos, o que comprometeria o desempenho geral do conjunto. No final de 1943 os responsáveis pelo planejamento geral alemão, ligados ao Ministério dos Armamentos do Reich decidiram que o Maus não deveria ser prioridade, dada a enorme quantidade de materiais que teria de ser empenhada, numa época em que a Alemanha já carecia de fontes de diversos deles. Entretanto, foi determinado que os protótipos até então fabricados continuassem a ser avaliados. A ordem de produção, por sua vez, foi cancelada.

Muito pouca documentação sobre o Maus (que recebeu do exército a notação PzKpfw VIII), foi, depois da guerra, localizada, de modo que não se sabe muito sobre como o exército pretendia usá-lo – se é que pretendia usá-lo. Segundo entrevistas feitas depois da guerra, com o professor Porsche, o projeto era uma demanda pessoal de Hitler, que imaginava uma espécie de “fortaleza rolante”, destinada a cobrir espaços vazios nas “muralhas do Reich”, notadamente na “Muralha Atlântica”. Se era realmente esse o objetivo do projeto, o desempenho pobre teria sido um fator limitador, visto que o alcance e mobilidade em combate do veículo eram mínimos. Segundo os cálculos feitos pelos alemães, com o armamento projetado, o PzKpfw VIII seria capaz de superar qualquer tanque em operação em 1944. Entretanto, segundo testes feitos com um protótipo capturado pelo Exército Vermelho em 1945, o que sobrava em proteção e armamento, faltava em desempenho. É muito pouco provável que um veículo daquele tipo fizesse alguma diferença contra forças altamente móveis. O Maus foi concebido, ao que parece, pondo de lado o princípio básico das forças blindadas, o do movimento – o princípio que levou a Alemanha à vitória, na primeira fase da guerra, até 1942. Mas, depois de 1942, a guerra já era outra, e a Wehrmacht também.

Guerra e paz::


Conforme ansiavam meus 17.000 leitores assíduos (minha soberba caminha para um claro apartamento da realidade…), publico a segunda e última parte do texto de Eric Hobsbawn. É interessante observar como análise mostra-se espantosamente precisa, principalmente quando colocamos em tela a situação do Oriente Médio, conforme testemunhamos agora. Fico pensando numa pequena adaptação do clichê que, no início do século passado, dizia-se de nosso: “Muita saúva e pouca saúde os males do Brasil são.”

Adapto o dito para alguma coisa mais atual: “Muita arma e pouco acordo os males do Brasil (e do mundo) são.” é interessante pensar na emergência de grupos armados em nosso país, nos últimos 20 anos, e como esses grupos mostram-se capazes de impor, pela força, sua vontade à grandes parcelas da população.

Nossa sorte (até agora) é que esses grupos (até agora) estão no estágio que o próprio Hobsbawn, em livro publicado em 1959, chamou de “não-político”. São “bandidos”. De toda forma, desfrutam da facilidade de conseguir equipamento militar e financiamento , que ele cita no texto. Esse estágio “não-político” os torna (mais uma vez, para nossa sorte) incapazes de enfrentar, de modo organizado, o estado. Por outro lado, não podemos dizer que o Estado se mostre fraco ou ilegítimo, pois não se observa oposição política armada. Diria que o problema é a ausência de projeto político claro que incorpore, inclusive, esses grupos aos objetivos nacionais.

Essa ausência de projeto faz com que a única resolução possível do conflito seja militarizada – como se observou na invasão do favela carioca Complexo do Alemão, acontecida na semana passada. Novamente podemos vislumbrar os apontamentos de Hobsbawn naquela situação: qual o objetivo daquela operação? Se fosse uma operação policial, o objetivo seria prender os bandidos e levá-los à Justiça. Mas, ao que parece, o objetivo era expulsá-los e como disse o Presidente da República, “disputar” com a organização (seja qual for) o controle do território. A polícia não faz isso – tomar e controlar território é objetivo militar.

Mas essa é outra história…

Guerra e paz::Eric Hobsbawn::Tradução livre do original publicado em The Guardian, 23/02/2002

Parte II

Outra questão é que a distinção entre guerra e paz tornou-se obscura. Exceto por alguns casos isolados, a Segunda Guerra Mundial nem começou com uma declaração de guerra e nem terminou com um grande tratado de paz. O conflito mundial foi seguido por um período de tal modo difícil de classificar como “de guerra” ou “de paz”, no velho sentido da palavra, que o neologismo “guerra fria” teve de ser inventado para descrevê-lo. A cabal obscuridade da distinção desde a Guerra Fria é bem ilustrada pela situação no Oriente Médio. Nem “paz” nem “guerra” descrevem exatamente as relações entre israelenses e palestinos, ou as relações entre Israel e seus vizinhos, Líbano e Síria. Tudo isso é um desafortunado legado das guerras do século XX, mas também da máquina do crescente envolvimento da mídia nos conflitos, e de um período de confrontação entre ideologias incompatíveis e apaixonantes, que trouxeram às guerras um aspecto cruzadista comparável aqueles observados nos conflitos religiosos do passado.

Esses conflitos, diferentemente das guerras tradicionais do sistema internacional de poder, foram travados buscando objetivos não-negociáveis, tais como “rendição incondicional”. Desde que ambas, guerra e vitória, passaram a ser vistas como “totais”, qualquer limitação sobre a capacidade dos beligerantes em vencer, que pudesse ser imposta pelas convenções aceitas para os conflitos travados no estilo dos séculos XVIII e XIX – ainda que fosse a exigência de uma declaração de guerra formal – passou a ser rejeitada. Como também passou a ser rejeitada qualquer limitação à capacidade do vitorioso em impor sua vontade. A experiência mostra que acordos estabelecidos por tratados de paz podem facilmente ser quebrados.

Em épocas mais recentes, a situação tem ficado ainda mais complicada, devido à tendência, observada na retórica pública, em considerar como “guerra” o emprego de força contra diversas espécies de atividade, nacionais ou internacionais, consideradas anti-sociais – por exemplo, “guerra contra a Máfia”, ou “guerra contra os cartéis das drogas”. Nessas situações, observam-se conflitos entre os dois tipos de forças armadas regulares, e a distinção entre as duas se torna obscura. Uma dessas – vamos chamá-los de “soldados” – é dirigido contra o “inimigo” com o objetivo de derrotá-lo. A outra – vamos chamá-los “policiais” – busca manter ou re-estabelecer um grau aceitável de observância da lei e da ordem pública, dentro de uma entidade política pré-existente, tipicamente, um estado. A vitória, que não necessariamente tem conotação moral, é o objetivo dos “soldados”; levar à justiça os ofensores da lei, objetivo este com conotação moral, é o objetivo dos “policiais”. Uma tal distinção é mais fácil de estabelecer na teoria que na prática. Um homicídio praticado por um soldado no campo de batalha não é, em si, uma quebra da lei. Mas como decidir o que é um membro do IRA, que se vê como beligerante, e é visto como homicida pelas autoridades britânicas?

As operações na Irlanda do Norte são uma guerra, como pretende o IRA, ou uma mera ação de foras-da-lei de romper a ordem numa província da Grã-Bretanha? Desde que não apenas uma enorme força policial, mas um exército nacional estão mobilizados contra o Ira ao longo de 30 anos, ou mais, parece que podemos concluir que é uma guerra, mas na qual as operações militares tomam a forma de operações policiais, de modo as evitar baixas e interferir o mínimo possível na vida local. São tais as complexidades e confusões das relações entre paz e guerra no início deste novo século. Tais confusões são muito bem ilustradas pelas operações, militares e não-militares, em que os EUA e seus aliados tem se engajado em tempos recentes.

Observa-se na atualidade, como se observou ao longo de todo o século XX, uma completa ausência de qualquer autoridade efetiva global, capaz de controlar ou arbitrar disputas armadas. A globalização tem avançado em quase todos os aspectos – economicamente, tecnologicamente, culturalmente, e até linguisticamente –, exceto um: política e militarmente, desde que os estados territoriais continuam sendo a única autoridade efetiva. Existem, oficialmente, cerca de 200 estados,mas, na prática, apenas um punhado deles realmente conta, e, dentre estes, os EUA são, indiscutivelmente, o mais poderoso. Entretanto, nenhum estado ou império foi tão grande, rico ou poderosos que pudesse ser capaz de manter a hegemonia política sobre o mundo, ao ponto de poder estabelecer sua supremacia política e militar sobre todos os outros. Uma única superpotência não pode compensar a ausência de autoridades globais,especialmente diante da falta de convenções – relativas ao desarmamento internacional, por exemplo, ou ao controle de armamentos – sólidas o suficiente para que os maiores estados se comprometam voluntariamente aceitas com elas. Pode-se observar a existência de algumas dessas autoridades, notadamente a ONU, secundada por diversos organismos técnicos e financeiros, como o FMI, o Banco Mundial e a OMC, e também alguns tribunais internacionais. Nenhum deles, entretanto, tem qualquer poder efetivo, que não seja o atribuído pelo acordo entre estados, ou graças ao suporte das maiores potências. Infelizmente, tal situação não deverá mudar num futuro previsível.

Desde que somente estados estabelecidos contam com poder real, o risco é que as instituições internacionais, quando tiverem de lidar com ofensas tais como “crimes de guerra”, se mostrem ineficazes, ou careçam de legitimidade universal. Mesmo quando as cortes internacionais são estabelecidas por acordo geral (como foi o caso, por exemplo, do Tribunal Criminal Internacional, estabelecido pela ONU em Rome, em 1998), suas decisões não necessariamente serão aceitas como legítimas e aplicadas, uma vez que estados suficientemente poderosos estão em condições de negá-las. Um consórcio de estados pode ser forte o suficiente para assegurar que ofensores de estados menores sejam levados a esses tribunais, e, desta maneira, talvez a crueldade do certos conflitos armadas travados em áreas menores seja refreada. Entretanto, isso não é um exemplo de exercício da lei internacional, mas de poder e influência, tradicionalmente observado dentro do sistema internacional de estados.

Por outro lado, existe uma grande diferença entre o século XXI e o anterior: a idéia de que a guerra poderá ocorrer em áreas territoriais sob a autoridade de governos efetivos, que detendo o monopólio dos meios de poder e coerção, tenham perdido a capacidade de aplicá-los. Isto não era acontecimento comum em países onde tivessem ocorrido revoluções, ou nos fragmentos de impérios desintegrados. Entretanto, foi apenas recentemente que inúmeros regimes novos, pós-coloniais – a China entre 1911 e 1949 é a principal exceção –, de uma hora para outra emergiram como sucessores mais-ou-menos organizados e funcionais das potências coloniais. Nas últimos 3 ou 4 décadas, diversos estados territoriais, por várias razões, perderam o tradicional monopólio das forças armadas e muito da própria estabilidade e poder. Junto desses elementos, vai, de roldão, o fundamental sentido de legitimidade, ou pelo menos, de aceitação tácita. Desta forma, os governos perdem a capacidade de impor aos cidadãos sob sua autoridade, impostos e outras obrigações. O equipamento material para se travar a guerra, assim como os meios de financiar sua aquisição, são, na atualidade, amplamente disponíveis para grupos privados. O resultado é que o balanço de forças entre as organizações estatais e não-estatais mudou notavelmente.

Conflitos armados dentro de estados têm se tornado mais sérios e podem se prolonger por décadas sem qualquer perspectiva de vitória ou acordo: Cachemira, Angola, Sri Lanka, Chechênia, Colômbia. Em casos extremos, como acontece em certas partes da África, o estado pode, virtualmente, deixar de existir, ou como na Clômbia, não exercer mais o poder sobre partes consideráveis de seu território. Mesmo em estados mais fortes e estáveis, tem se mostrado diícil eliminar pequenos grupo de oposição armada, tal como o IRA, na Grã-Bretanha, e o ETA, na Espanha. A novidade dessa situação é indicada pelo fato de que os estados mais poderosos do planeta, tendo sofrido ataques terroristas, se vêem obrigados a lancer operações militares formais contra pequenas organizações não ligadas a nenhum governo.

Como essas mudanças poderão afetar o balanço entre guerra e paz no século que se inicia? Não quero fazer previsões sobre guerras possivelmente por acontecer, e seus resultados. Entretando, a estrutura do conflito armado e os métodos de arbitragem têm sido profundamente afetados pelas transformações do sistema mundial de estados soberanos.

A dissolução da URSS significou que deixava de existir o sistema de grandes potências que, por quase dois séculos, governou as relações internacionais, e, com exceções óbvias, exerceu o controle sobre o conflito entre estados. Seu desaparecimento removeu as principais restrições sobre a guerra inter-estados, e à intervenção armada direta nos assuntos internos de outros estados – as fronteiras territoriais internacionais, durante a Guerra Fria, eram tacitamente respeitadas. O sistema internacional tornou-se potencialmente instável desde então, como resultado da multiplicação de pequenos estados, algumas vezes muito fracos, que ainda assim eram oficialmente considerados pela ONU como “soberanos”.

O fim dos regimes comunistas europeus contribuiu decididamente para o aumento dessa instabilidade. Tendências separatistas de força variável, em estados-nações até agora estáveis, tais como a Grã-Bretanha, Espanha, Bélgica e Itália podem, mais adiante, crescer. Ao mesmo tempo, o número de atores privados na cena mundial tem se multiplicado. Que mecanismos existem para controlar e arbitrar tais conflitos? O retrospecto não é promissor. Nenhum dos conflitos armados acontecidos nos anos de 1990 alcançou um acordo estável. A sobrevivência das instituições, retórica e suspeitas da Guerra Fria, exacerbou a desintegração pós-comunista da Europa do sudeste e tornou ainda mais difícil um acordo na região antes chamada Iugoslávia.

As desconfianças herdadas da Guerra Fria, ideológicas e políticas, terão de ser ultrapassadas, se pretendemos desenvolver meios de controlar conflitos armados. É também evidente que os EUA estão falhando, e, inevitavelmente, continuarão a falhar, em impor, pela aplicação unilateral de força, uma nova ordem mundial (seja de que tipo for), mesmo que, no presente, a balança de forças tenda em seu favor e mesmo que esteja apoiado por uma aliança internacional (ainda que, inevitavelmente, de curta duração). O sistema internacional continuará multilateral e sua regulação dependerá da habilidade de algumas unidades maiores em concordar umas com as outras, ainda que alguns dentre esses estados sejam militarmente predominantes.

Nesta direção, já ficou claro como as ações militares dos EUA dependem de acordos negociados com outros estados. Também já ficou claro que a decisão política de ir a guerra, mesmo com o envolvimento dos EUA, será tomada depois de negociações, e não de maneira unilateral. A era das guerras encerradas por rendição incondicional, pelo menos em futuro previsível, não retornará.

O papel das instituições internacionais existentes, notadamente da ONU, também terá de ser repensado. Sempre presentes, e usualmente invocadas, essas instituições não tem lugar claro na resolução de disputas. Sua estratégia e aplicação ficam sempre à mercê de poderes políticos cambiantes. A ausência de organismos internacionais intermediários, considerados genuinamente neutros, capazes de agir sem autorização prévia do Conselho de Segurança, tem sido uma falha óbvia do sistema de administração de disputas.

Desde o fim da Guerra Fria, a administração da paz e da guerra tem sido improvisada. Na melhor das hipóteses, como aconteceu nos Balcãs, conflitos armados são interrompidos por intervenções militares, e o status quo e o fim das hostilidades, mantidos por exércitos de terceiros. Se um modelo geral para o futuro controle de conflitos armados poderá surgir dessas intervenções não é, de modo algum, claro.

O balanço da guerra e da paz no século 21 dependerá não da elaboração de mecanismos mais eficazes de negociação e acordo, mas da estabilidade interna das nações e de que se evite os conflitos militares. Com poucas exceções, as rivalidades e atritos entre estados, que, no passado, levaram a conflitos armados, são menos passíveis de acontecer na atualidade. Por exemplo, observa-se, entre governos, comparativamente poucas disputas sérias sobre fronteiras internacionais. Por outro lado, conflitos internos podem, com facilidade, descambar em violência: o principal perigo de guerra reside no envolvimento, nesses conflitos, de outros estados ou atores militares.

Estados com economias estáveis e dinâmicas e uma distribuição de renda relativamente equilibrada são mais difíceis de serem abalados – social e politicamente – do que aqueles pobres, altamente desiguais e economicamente instáveis. O controle da violência armada interna e manutenção da tranqüilidade dependem, mesmo mais imediatamente, do poder e capacidade efetivos dos governos nacionais e de sua legitimidade, aos olhos da maior parte de seus habitantes. Na atualidade, nenhum governo, fora da Europa Ocidental, pode conceber a existência de populações civis desarmadas, ou um grau de ordem pública como aquele que, por longo período, tem sido familiar nessa região do mundo. Da mesma forma, nenhum governo, hoje em dia, está em posição de superar ou eliminar totalmente minorias internas armadas.

Ainda que o mundo seja crescentemente dividido em estados capazes de administrar efetivamente seus territórios e cidadãos, dentro fronteiras internacionais oficialmente reconhecidas, grande número de governos nacionais enfrentam oposição provocada pela fraqueza institucional e corrupção. Essas zonas costumam a ser palco de sangrentas disputas internas e conflitos internacionais, como os que tem acontecido na África Central. Não há, entretanto, nessas regiões, perspectiva imediata de melhorias duradouras, e a possibilidade de enfraquecimento dos governos centrais de países instáveis, ou da balcanização do mapa do mundo, sem dúvida faz crescer o perigo do conflito armado.

Uma tentativa de previsão: a guerra, no século XXI poderá não ser tão sangrenta quanto foi no século passado. Mas a violência armada, criando sofrimento e perdas desproporcionais, continuará onipresente e endêmica – ocasionalmente epidêmica – em grande parte do mundo. A perspectiva de um século de paz é remota.