Maus – o pobre monstro::


Esta é para apreciadores do assunto, embora se relacione com o tópico geral que estou discutindo. Um dos assuntos que, no âmbito da história militar, me parece mais fascinante é o desenvolvimento da arma blindada. E é inegável que, apesar da principal ferramenta tecnológica desta ter sido inventada pelos britânicos, em 1915, a arma, em si, foi concebida e desenvolvida pelos alemães, durante a década de 1930.

A grande invenção dos alemães foi reunir os tanques em unidades autônomas, ao mesmo tempo aperfeiçoando uma doutrina de emprego e procedimentos táticos. A arma blindada alemã implicava numa alta mobilização de novidades tecnológicas – o emprego coordenado por rádio em modulação de voz e não em código (ou seja, os tripulantes “falando” uns com os outros), o emprego de aviões no papel de artilharia e o transporte de unidades de infantaria em caminhões ou veículos protegidos.

Os tanques aperfeiçoados pelos alemães, nos anos 1930, entretanto, eram surpreendentemente leves e ligeiramente armados. O principal modelo, em números, era um veículo (os alemães os chamavam de Panzer Kampfwagen, ou seja, “Veículo de Combate Blindado”, e geralmente os modelos eram conhecidos como PzKpfw) considerado, pelos padrões da época, como “leve”, ou “de reconhecimento”, denominado PzKpfw II, de pouco mais de 10 toneladas de deslocamento. Franceses, ingleses e russos já dispunham, nesta época, de veículos bem mais pesados e armados.

Independente dos motivos que fizeram a Wehrmacht começar a guerra com metade de seu inventário composto por um veículo pouco mais pesado que um caminhão (e apenas um pouco mais blindado, também…), a forma de emprego da arma blindada alemã foi a grande vantagem que eles tiveram, no início. Por outro lado, depois de 1941, o contato com os blindados soviéticos, notadamente os da série KV (modelos 1 e 2), pesadamente blindados e armados, fizeram os planejadores alemães levantarem a necessidade de um veículo melhor armado e blindado que os disponíveis, que equilibrasse a desvantagem diante dos soviéticos.

O desenvolvimento de tanques superpesados começou nessa época, com base no exame de veículos soviéticos capturados durante a Barbarossa. No início do ano seguinte, as usinas Krupp propuseram, baseadas em requisições feitas pelo Waffenamt (Departamento de Armamentos do Ministério da Guerra do Reich) desenhos de veículos denominados Tiger-Maus (“Ratazana”) e Löwe (“Leão”). As duas propostas eram desenvolvimentos do PzKpfw VI Tiger, desenho do escritório de projetos do Professor Porsche, que estava então sendo experimentado pelo exército. Entretanto, em meados de 1942, surgiu uma requisição para um veículo ainda mais pesado (os Tigres deslocavam por volta de 60 toneladas). O projeto dos dois veículos foi descontinuado, mas idéias presentes em ambos, principalmente no Löwe, foram aproveitadas na concepção do novo modelo.

No início de 1942, Porsche recebeu um contrato inicial para a um novo tanque deslocando por volta de 100 toneladas. Embora os militares tivessem dúvidas em torno do conceito de um veículo superpesado, este novo tanque era uma demanda estabelecida pelo próprio Hitler. Suas características gerais deveriam torná-lo “definitivo” (se é que isto é possível, no tocante a armamento…): deveria ter um canhão de 150 mm, ser capaz de carregar grande quantidade de munição e ser indestrutível por qualquer armamento então existente. A expectativa era para que o supertanque tivesse atingido o estágio de protótipo na primeira metade de 1943. Desde o início, o veículo passou a ser denominado Maus (“Rato”).

A primeira idéia surgida do escritório de Porsche apresentava um monstro de 188 toneladas, equipado com um canhão de 150 mm e 37 calibres (o comprimento do cano equivaleria a 37 vezes o calibre, ou seja, 37 X 150) e montando ainda um outro, de 105 mm por 70 calibres. Esperava-se que na segunda metade de 1943, as Usinas Krupp pudessem produzir 5 desses carros a cada mês, até um limite de 150 unidades, pelo final de 1945.

Logo ao início do projeto, Hitler começou a imiscuir-se e determinou a diminuição do armamento principal, que passou a ser um canhão anti-aéreo de 128 mm, ladeado por outro menor, de 75 mm. Determinava também que o armamento inicialmente previsto deveria continuar a ser desenvolvido, para uso futuro. Ainda que diminuído o armamento, os projetistas não conseguiram garantir que a quantidade de munição demandada pudesse caber no espaço disponível.

E este não foi o único problema com que os projetistas se depararam. O primeiro protótipo deparou-se com o fato de que não havia motores gerando potência suficiente para deslocar o veículo na velocidade planejada – 20 km/h. Foram apresentados planos que modificavam um motor de avião, mas mesmo este não conseguia levar o veículo a mais que 13 km/h, e isto à custa de um enorme consumo de combustível. O segundo protótipo chegou a ser equipado com um motor a diesel, sem que se obtivesse resultados melhores. Outro problema é que a suspensão convencional dos tanques alemães não funcionava no novo carro de combate, e teve de ser totalmente redesenhada. Também não havia pontes rodoviárias que suportassem o peso do veículo, e seu deslocamento por distâncias mais longas teria de ser feito por via ferroviária ou por espaços abertos, o que comprometeria o desempenho geral do conjunto. No final de 1943 os responsáveis pelo planejamento geral alemão, ligados ao Ministério dos Armamentos do Reich decidiram que o Maus não deveria ser prioridade, dada a enorme quantidade de materiais que teria de ser empenhada, numa época em que a Alemanha já carecia de fontes de diversos deles. Entretanto, foi determinado que os protótipos até então fabricados continuassem a ser avaliados. A ordem de produção, por sua vez, foi cancelada.

Muito pouca documentação sobre o Maus (que recebeu do exército a notação PzKpfw VIII), foi, depois da guerra, localizada, de modo que não se sabe muito sobre como o exército pretendia usá-lo – se é que pretendia usá-lo. Segundo entrevistas feitas depois da guerra, com o professor Porsche, o projeto era uma demanda pessoal de Hitler, que imaginava uma espécie de “fortaleza rolante”, destinada a cobrir espaços vazios nas “muralhas do Reich”, notadamente na “Muralha Atlântica”. Se era realmente esse o objetivo do projeto, o desempenho pobre teria sido um fator limitador, visto que o alcance e mobilidade em combate do veículo eram mínimos. Segundo os cálculos feitos pelos alemães, com o armamento projetado, o PzKpfw VIII seria capaz de superar qualquer tanque em operação em 1944. Entretanto, segundo testes feitos com um protótipo capturado pelo Exército Vermelho em 1945, o que sobrava em proteção e armamento, faltava em desempenho. É muito pouco provável que um veículo daquele tipo fizesse alguma diferença contra forças altamente móveis. O Maus foi concebido, ao que parece, pondo de lado o princípio básico das forças blindadas, o do movimento – o princípio que levou a Alemanha à vitória, na primeira fase da guerra, até 1942. Mas, depois de 1942, a guerra já era outra, e a Wehrmacht também.

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