62 anos esta noite::Olímpica, mas nem tanto::



Parte II

Tóquio sacode sob o peso de nossas bombas.. Quero deixar claro ao mundo inteiro que esse curso deve ser, e será, mantido, sem alteração ou hesitação … Nossa proposta está feita e não mudará: rendição incondicional. Harry Truman, em sua primeira mensagem dirigida ao Congresso dos EUA, em 16 de abril de 1945.


O cansaço da população civil americana, embora disfarçado pela vitória, que provocou, por todo o lado, grande entusiasmo, já era, em meados de 1945, bastante evidente. Depois de quase quatro anos de mobilização, e um total de mortos nunca antes registrado pela história do país, a chegada do dia V-E tinha inculcado, em todos, a idéia de que o dia V-J se aproximava rapidamente.

Paradoxalmente, os EUA sofreram pouco, durante a guerra. Esta tinha significado, para a sociedade norte-americana, um período de prosperidade excepcional, maculado por algumas restrições que todos viam como temporárias (a falta de bens de consumo duráveis e o rigoroso racionamento de combustíveis). As lembranças do período da Grande Depressão tinham se tornado distantes: haviam empregos em profusão, dinheiro e mercadorias. O povo estava pronto para gozar a boa-vida garantida pelo “Dr. Win-the-War” (em 12 de julho de 1941, Rooselvelt assim se referira a si mesmo, numa possível mudança de rumo do New Deal, em função do envolvimento dos EUA na guerra européia). Só que o dia V-E chegara depois das péssimas novas da campanha de Iwo Jima. A disputa por uma ilha perdida mais de mil quilômetros a sudeste de Tóquio, tinha custado, em pouco mais de um mês, quase 7.000 baixas aos Marines, das quais 2.000 fatais. A reação da população foi de desalento e desconfiança. A guerra não estava quase acabada?

A pior notícia é que começava a faltar homens: os EUA chegaram, em 1945, no limite de sua capacidade de mobilização. Virtualmente toda a população adulta, entre 17 e 45 anos tinha sido engajada no esforço de guerra, fosse nas forças armadas, fosse na produção, isto numa população total de uns 140 milhões de habitantes. Doze milhões de homens e mulheres estavam engajados nas forças armadas, sessenta por cento deles no estrangeiro. Não havia mais de onde tirar gente, e a população estava ansiosa pelo retorno de seus filhos, maridos e pais para casa.

Embora em meados de julho de 1945, o Japão já não tivesse a menor perspectiva de conseguir outra saída que não fosse, a exemplo da Alemanha nazi alguns meses antes, a rendição incondicional, isso não significava que a essa fosse ser facilmente aceita pela liderança nacional. Os chefes militares norte-americanos encaravam, embora sem nenhum entusiasmo, a possibilidade de uma invasão das ilhas metropolitanas do Japão. Esse plano, denominado “Queda”, vinha sendo estudado desde o início de 1945 e deveria se dividir em dois estágios, que aconteceriam, o primeiro (codinome, “Olímpico”), em setembro e o segundo, ainda maior (codinome “Diadema”), em dezembro. “Olímpico” desembarcaria um exército, o 6º, na ilha de Kiushu, tendo Okinawa como principal base de operações e as Filipinas como retaguarda – seria, de fato, uma versão ampliada da campanha de Okinawa. “Diadema”, a invasão de Honshu, não estava planejava, e implicava enormes problemas de concepção, já que estava previsto o desembarque de 25 divisões, e essas simplesmente não existiam, pois parte delas ainda estava, naquela época, empenhada no ETO.

Mas esses eram apenas parte do problema geral. Para essa ofensiva final, os norte-americanos contavam com a participação de algo em torno de 5 a 8 divisões aliadas – cinco britânicas, canadenses e australianas, e duas francesas, bem como com os efetivos da RAF liberados pelo fim das hostilidades na Europa. O que ninguém sabia direito era como esse contingente, calculado em quase 900.000 efetivos, e seu equipamento, seria transportado até o teatro do Pacífico, visto que não haviam transportes especializados em número suficiente. A própria transferência do 1º Exército dos EUA, com o quartel-general transferido para Manilha no final de abril de 1945, e os efetivos aquartelados no ETO, não tinha como ser realizada. Outra questão, esta ainda mais delicada, é que quase certamente, tripulações aéreas do Exército e da Marinha, que estavam sendo desmobilizadas na Europa e mandadas rapidamente para casa, certamente teriam de ser novamente convocadas.

A invasão do Japão se configurava, nas palavras do major-general Walter Krueger, comandante do 6º Exército dos EUA, “o pior pesadelo logístico”.

O fato é que não havia nem mesmo a concordância em torno da invasão do Japão. A campanha de Okinawa, cuja duração, investimentos e baixas foram subestimados pela inteligência norte-americana, e a reação adversa da opinião pública nos EUA, dividiram o Estado-maior, além de trazer à discussão a classe política que, até então, tinha-se mantido quieta em função da unidade do front interno. A oposição republicana, rediviva depois da eleição de 1944, começou a questionar a forma como a guerra vinha sendo conduzida pelos Democratas, segundo eles, “muito lenientes com os comunistas”.

Em Washington, parte dos comandantes imaginava a possibilidade de que o Japão fosse estrangulado por um bloqueio coadjuvado por incessantes bombardeios navais e aéreos. Por outro lado, o bloqueio, por mais que poupasse os líderes do desgaste de impor operações com número excessivo de baixas, não resolvia o problema político de que, sem a rendição do governo japonês, nada indicava que as forças imperiais na China – ainda consideráveis, em 1945 – e seus aliados, questionariam ordens de Tóquio para persistir na luta. Fontes diplomáticas deram curso ao boato, surgido nessa época, de que, mesmo em caso de colapso da resistência no território metropolitano, a luta deveria continuar. O novo chefe do governo, almirante Suzuki, mesmo considerado moderado e derrotista, pelas alas militares mais radicais, tinha dito esperar pelo menos mais dois anos de guerra.

E agora, os EUA encaravam a possibilidade de ter exércitos russos de 3 milhões de homens, dez mil tanques e dez mil aviões atravessando a China, onde praticamente não havia tropas norte-americanas empenhadas (de fato, desde março de 1945 os soviéticos já vinham fazendo planos para esse redirecionamento, e começaram a transferir 2 grupos de exército através da Sibéria, em meados de maio). Embora essa perspectiva causasse arrepios a Washington, era vista como necessária, pois os exércitos japoneses na Manchúria e norte da China ainda estavam relativamente intactos e tinham tido uma série de sucessos contra os nacionalistas chineses, em 1944.

Em meados de julho de 1945, um grupo de trabalho da inteligência norte-americana, analisando os relatórios da campanha de Okinawa, havia elaborado um relatório de conteúdo bastante desagradável: a operação “Queda” deveria durar no mínimo seis meses, e não se deveria esperar menos de 300.000 baixas como resultado da invasão do Japão. Cálculos conservadores estabeleciam não menos de dois milhões de militares japoneses aquartelados na metrópole (metade dos quais reservistas da guarda metropolitana), bem provisionados e com moral alto. A paisagem japonesa era semelhante à de Okinawa, e tudo indicava que a estratégia geral japonesa seria uma ampliação daquela utilizada lá, bem como as táticas, baseadas, antes de mais nada, no aferramento ao terreno. Não existem indicações seguras de que Truman tenha tido acesso a esse relatório, mas com toda certeza o vice-presidente e o general Marshall, chefe da Junta de Estado-maior, tiveram. O fato é que, desde 18 de junho, Truman estava informado pelos chefes da JEM sobre as principais características da operação “Queda”. Já nessa oportunidade, ele tinha revelado grande preocupação com o número de baixas, e manifestara claras dúvidas em torno da real necessidade da invasão. Naquele momento, Marshall deu ao presidente uma estimativa (não é conhecida a origem desse estudo) de no mínimo 40.000 baixas norte-americanas. Truman determinou, nessa reunião, que o planejamento do “Olímpico” fosse aprofundado e acelerado, mas postergou sua execução para 1 de novembro de 1945; “Diadema” não teria lugar antes de março do ano seguinte. Curiosamente, a data de 1º de novembro passou a ser tratada como “Dia-X”. Em reuniões posteriores, falava-se em um desembarque envolvendo 800.000 efetivos, ao longo de 4 dias, entre tropas de assalto, tropas de reforço e pessoal aéreo.

Um dos participantes da reunião declarou, anos mais tarde, que, ao final dela, teve a clara impressão que “Olímpico” “tinha se transformado em história”::

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2 pensamentos sobre “62 anos esta noite::Olímpica, mas nem tanto::

  1. Perfeito o seu BLog…
    Me interessei mto pelos seus textos, estou fazendo uma tese sobre conflitos internacionais e meios de resolução tanto as pacíficas, como diplomacia, como as não pacíficas , como a guerra…
    UM abraço!

  2. Creio que creio é melhor que “acho”! :o) Creio que você antepõe um adendo ao estudo de Mick Hume. O Pedro Dória fez bem em ter juntado os dois. E, sem querer dar uma de “Alba” eu fico com os dois!

    Ahahahha…..

    Não, não! Desculpe bagunçar um relato tão bem desenhado por você, não é de má-fé que faço isso. Gostei muito do estudo.

    Abração, Bitt!

    Claro que, na decisão sobre as bombas, foi um motivo a mais haver um racismo intrínsico nas mentes ocidentais. Nem é uma tese nova, pelo que me consta. Concordo com ela, mesmo porque até o fim da adolescência eu ainda era, de alguma maneira, racista. Entaum….

    Abs.

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