Um sistema de armas às terças Krupp Fliegendabwehrkanonne 8,8::

O Fliegendabwehrkanonne 8,8 cm, mais conhecido entre as tropas da Wehrmacht como “acht-acht”, e entre os aliados como “88”, surgiu em 1928, como Flak 18, desenhado pelas Usinas Krupp, de Essen, na Alemanha. A origem dessa arma remonta à Guerra Franco-Prussiana de 1870. Durante o sítio de Paris, os franceses lançaram mão de alguns balões aerostáticos para observação do movimento das tropas prussianas. O exército imperial solicitou às Usinas Krupp que providenciassem uma arma eficaz contra o equipamento francês, e o resultado foi o BAK 37 (de Balone Abwehrkanonne, “canhão de defesa contra balões”). Tratava-se de uma peça de campanha de 3,7 cm que, perdendo as rodas e ganhando traves de madeira, era montada em uma carroça, num reparo que permitia uma elevação de aproximadamente 60 graus. Esse modelo continuou em atividade após o fim das hostilidades.

Em 1909, quando começaram a ser introduzidas na Alemanha as primeiras aeronaves de uso militar, o exército observou que, a uma altura de mais de 2500 metros (teto máximo das aeronaves daquela época), tanto o BAK 37 quanto as metralhadoras usando o cartucho IS 7,92 mm eram totalmente ineficazes. Entretanto, aquela altura, as aeronaves não eram consideradas ameaça, de modo que, no início da Primeira Guerra Mundial, o exército alemão não dispunha de nenhuma arma genuinamente anti-aérea.

O desenvolvimento da aviação, durante a Grande Guerra, foi notável. Todos os beligerantes perceberam a superioridade do avião sobre o balão, como meio de observação, e logo essas aeronaves começaram a ser caçadas tanto por aeronaves especialmente concebidas (os “caças”), quanto por salvas disparadas do chão. Ainda assim, o armamento anti-aéreo que começou, então, a ser desenvolvido constituía-se de tubos de canhões de campanha de médio calibre montados sobre reparos que permitiam uma ampla elevação. Para aeronaves que voavam no máximo a 3000-3500 metros de altitude, isso parecia ser suficiente.

Entretanto, a partir de 1916 começaram a surgir aeronaves multi-motores, capazes de alcançar um teto máximo de 4500 m a uma velocidade de 120 km/h – eram os primeiros bombardeiros pesados. Em vista dessa nova ameaça, em 1916 a Krupp adaptou o canhão de campanha de 8,8 cm colocando-o sobre numa plataforma com rodas, rebocada por um caminhão. Para ser colocada em “bateria” (posição de tiro) as rodas eram removidas e quatro braços dotados de macacos estabilizavam o conjunto, que pesava uns 7300 kg. A elevação máxima chegava a 70 graus, pois descobriu-se que um valor maior poderia desestabilizar a arma durante o disparo. Essa, de ação semi-automática (expulsava o cartucho vazio da câmara sem necessidade de ação humana), foi denominada Geschütze 8,8 Flak (Flug Abwehr Kanonne, “canhão de defesa contra vôo”). Utilizava munição de 9500 g, sendo que o projétil de alto explosivo pesava 2770 g, com uma velocidade de boca de 785 m/s, o que permitia que atingisse a altitude de 3850 m (a mesma peça, empregada em terra, tinha alcance de 10.800 m).







Um dos primeiros exemplares de Geschütze 8,8 Flak Flug Abwehr Kanonne em testes de fábrica, por volta de 1916



 

 

 

Durante a guerra, o 8,8 cm foi utilizado na defesa dos parques industriais do Reno e do Rhür, sendo que alguns chegaram a ser instalados em Berlim. Depois do final da guerra, o Tratado de Versalhes proibiu a Alemanha de desenvolver e fabricar armas anti-aéreas, de modo que os novos desenhos que estavam sendo concebidos foram abandonados.

Durante o período entreguerras, o desenvolvimento da aviação militar foi notável. Nos anos 1920 começaram a aparecer aviões que facilmente superavam a velocidade de 350 km/h e alcançavam um teto máximo de 6000 m. A velocidade de boca do projétil passou a ser crucial, visto que era necessário um projétil que não desacelerasse muito rapidamente devido à força da gravidade.

A resposta dos engenheiros alemães seria o Flak 18 (o “F” mudado para Fliegend “equipamento voador”, ou “aeronave”; hoje em dia, a palavra “Flak” é uma espécie de gíria para “defesa anti-aérea”). Este começou a ser concebido na primeira metade dos anos de 1920, quando o Reichswehr, o exército nacional que havia sido organizado após a guerra, realizando estudos chegou a conclusão de que havia necessidade de uma artilharia anti-aérea pesada. Os militares alemães concluíram que o menor calibre aceitável era o 7,5 cm, e uma arma começou a ser concebida na Suécia, junto com os arsenais Bofors. Na fase de protótipo, os engenheiros perceberam que o desenvolvimento desse projétil para maiores velocidades de boca seria problemático. O exército então solicitou um calibre maior, demanda atendida tanto pela Krupp quanto pela Rheinmetall.

O calibre 8,8 foi considerado ideal, mas se teve de desenhar um novo cartucho. Essa nova munição, de projétil ogival, montada junto com o estojo, pesava 10400 g e tinha uma velocidade de boca de 820 m/s, alcançando um teto máximo de 8900 m. Empregado como peça de artilharia de campanha, tinha um alcance de 14800 m. Os protótipos não poderiam ser testados na Alemanha, de modo que a equipe de projeto transferiu-se para a Suécia, iniciando o projeto de um canhão em torno desse novo cartucho.

O resultado foi um canhão cujo tubo era forjado em uma única peça, de 56 calibres de comprimento, com câmara de operação semi-automática, que permitia a extração do estojo vazio e introdução de um novo independente da parada do recuo. Isto permitia uma cadência de fogo de 15 a 20 disparos por minuto, dependendo da habilidade da tripulação. O conjunto era montado sobre um reparo cruciforme, que permitia conteira de 360 graus com uma elevação de 77 graus. Uma vez posto em bateria, ficava fixado sobre macacos reguláveis. Para transporte os braços laterais da “cruz” eram rebatidos e dois eixos de rodas, introduzidos. O peso do conjunto era de 4985 kg. Ficou pronto por volta de 1929.







As duas primeiras versões do acht-acht, em primeiro plano o Flak 18 e Flak 36, ao fundo. Note as diferenças no cano das duas versões



 

 

 

A construção e testes dos protótipos cercou-se de segredo, visto que a remilitarização alemã ainda não tinha acontecido. O cano era fabricado em uma peça única, o que tornava o conjunto extremamente difícil de reparar, e muito dispendioso. Isso se devia ao fato de que, em função da rapidez da cadência de fogo, o desgaste do cano mostrou-se muito maior do que o esperado, sendo que a taxa maior acontecia na região imediatamente anterior à boca. A enorme pressão aplicada ali pela alta velocidade e alta taxa de giro axial do projétil e pela saída dos gases provocava atrito no raiamento, que acabava por perder a eficiência. Esse problema não foi corrigido imediatamente, pois a nova peça pareceu muito eficaz. Começou a ser distribuída em 1933, como Flak 18 8.8 cm.

Diversas modificações foram sendo introduzidas, conforme a peça ia sendo testada pelo exército. A principal delas consistiu na divisão do cano em três peças separadas: câmara, seção central e seção de boca, unidos por uma espécie de jaqueta. A divisão tornava a manutenção mais fácil e diminuía o custo do conjunto. Essa modificação teve de ser acompanhada por outras, no reparo, na plataforma e na carreta de transporte.

Testes de campo realizados em 1935 e 1937 mostraram que a nova arma poderia ser empregada como canhão de apoio à infantaria, além de estabelecer a precisão e potência do projétil AAe. Embora o tubo continuasse o mesmo, diversas mudanças no reparo e na plataforma foram feitas ,de modo a tornar o conjunto mais estável durante o tiro. Uma nova carreta de transporte for desenhada, na qual a posição das rodas foi abaixada e o mecanismo de fixação da plataforma na carreta, modificado, de modo que a altura do conjunto canhão,
reparo-plataforma podia ser regulada antes da remoção da carreta. Essa nova plataforma, denominada Sonderanhänger 201 (“carreta especial 201”) se mostrou eficaz o suficiente para permitir o tiro em ângulos fechados de elevação, sem a remoção da plataforma da carreta, o que permitiu o uso do canhão contra alvos terrestres. Essa nova versão foi distribuída como Flak 36.

A Guerra Civil espanhola iria prover um vasto campo de testes para as novas armas alemãs. Hitler resolveu, por questões políticas, enviar um corpo de voluntários, que nada mais eram do que especialistas das forças armadas, cujo maior contingente pertencia à Luftwaffe. Como a artilharia anti-aérea era responsabilidade desse ramo da Wehrmacht, alguns Flak 18 e 36 foram acrescentados ao inventário de armamentos levados para a Espanha.

Algumas modificações de projeto foram acrescentadas os novos canhões, em função da experiência espanhola. A carreta e a plataforma se tornaram ainda mais estáveis. Essas modificações não chegaram a resultar em uma nova versão, mas confirmaram as potencialidades do projetil 8,8, inclusive como munição antitanque. Na Espanha, o canhão foi utilizado nesta função em algumas oportunidades, mas o número de peças disponíveis era muito pequeno para possibilitar testes de campo efetivos, embora alguns tanques republicanos e pontos fortificados tenham sido destruídos através do chamado “tiro tenso”. Para essa função foi aperfeiçoado um mecanismo de pontaria baseado em um visor telescópico, que passou a ser distribuído em 1938.








Vista lateral e superior do Flak 37. Observe-se a versão final da plataforma



 

 

 

 

O Flak acht-acht constituiu um autêntico sistema de armas. Ainda que o canhão (o sistema tubo-reparo-plataforma) tivesse atingido um ponto de razoável eficácia, não constituía, por si só, um real sistema de defesa anti-aérea. O passo seguinte foi o aperfeiçoamento do sistema de pontaria, que passou a ser integrado a um sistema de controle de fogo. O centro desse sistema de controle de fogo era o aparelho conhecido como Übertragung 30 (“transportador 30”). Um computador de dados analógico, conhecido como Voraussichter (“preditor”) compilava dados de telemetria, constituídos por velocidade aproximada, altitude e direção da aeronave inimiga, levantados através de observação via instrumentos óticos. Compilados os dados, eram convertidos em sinais elétricos e transmitidos para um sistema de lâmpadas situado na plataforma do canhão. O impulso elétrico acendia uma lâmpada, e o operador da peça tinha então de mover ponteiros correspondentes, até que estes cobrissem a lâmpada acesa. O sistema, lançado no início dos anos 1930, se demonstrou insatisfatório, e, em em 1939 surgiu o “Transportador 39”, que introduzia motores elétricos sincronizados, operando um conjunto de ponteiros a partir de sinais elétricos enviados pelo “preditor”. Outro conjunto de ponteiros era ligado mecanicamente à plataforma. O apontador operava estes últimos por meio de rotores mecânicos, de modo que coincidissem com aqueles que indicavam os dados compilados pelo previsor. Os dados para ajuste de pontaria eram, então, transmitidos à plataforma, permitindo que o canhão fosse colocado em posição de disparo. Este sistema revelou-se extremamente preciso, e foi a base da defesa anti-aérea da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Durante a guerra, aperfeiçoamentos consistindo na ligação do “preditor” com aparelhos de radar melhoraram consideravelmente a eficácia do sistema.

Em 1940, todas as versões do acht-acht instaladas em “Carretas especiais 201” receberam escudos para dar às tripulações alguma proteção, quando o canhão estivesse atuando como peça terrestre.

No início da guerra, a Luftwaffe previu a necessidade de contar com um Flak cujo teto de emprego fosse ainda maior, visto que os bombardeiros quadrimotores ingleses e norte-americanos podiam operar a 8000 metros de altura. Esse canhão precisaria, portanto, ter uma velocidade de boca inda maior, o que implicava num novo tubo e nova plataforma. A Rheinmetall-Borsig começou a estudar o projeto por volta do final de 1941, e os primeiros exemplares começaram a ser distribuídos em no início de 1943, designados como Flak 41. A nova versão tinha peso total de 11240 kg e peso de combate de 7800 kg. O projétil também foi totalmente redesenhado, de modo a atingir uma velocidade de boca de cerca de 1000 m/s, o que o fazia alcançar 6336 m, com um projétil de 9200 g. Incorporava um mecanismo de disparo elétrico, operacional quando o canhão estivesse sendo usado contra alvos terrestres. Neste caso, seu alcance chegava a 15000 m, eficaz até 10000m, o que o tornava uma arma antitanque imbatível: o projétil perfurante podia penetrar blindagens de até 210 mm, com inclinação de 50 graus. O Flak 41 deu origem à primeira versão do canhão 8,8 especializada para luta antitanque: o PAK 43/41 (Panzer Abwehrkanonne, “canhão de defesa contra blindados”).





Flak 36 como canhão de apoio terrestre, no norte da África, 1941. Note-se o escudo protetor da guarnição


 

 

A carreira do acht-acht abrangeu toda a guerra, e esse se tornaria praticamente sinônimo de canhão alemão. A última versão especializada seria produzida, com pequenas modificações, para instalação como armamento de blindados, denominada KwK 36 (KampfwagenKanonn, “canhão de carro de combate”), de 56 calibres.


O projetil 8,8 cm AAe, visto em corte. Note-se o fuso de pressão e o receptáculo interior, capaz de conter mais de três quilos de alto explosivo


 

 

Dados não muito precisos indicam que por volta de 17000 tubos calibre 8,8 cm tenham sido produzidos durante a guerra, número que sobre a cerca de 19000 tubos caso sejam somados aqueles especialmente projetados para uso em veículos blindados::

A Guerra do Vietnam – Sobre boas e más analogias::

Ao que parece, Geoge W. resolveu extrapolar. Talvez tenha tido um dia pior dos que os habituais; talvez tenha se engasgado com algum pretzel. Engasgado, certamente ele está, com sua confusa “guerra contra o terror”. Tão engasgado que saiu-se com uma que dificilmente conseguirá superar: mexer com o vespeiro do Vietnam.

Porque o Vietnam, mesmo passados mais de 30 anos desde o fim da guerra, ainda é um vespeiro: um vespeiro do imaginário nacional norte-americano. Basta dizer que sucessivas presidências, republicanas e democratas, não conseguiram provar ao país o argumento de que foi uma causa nobre. Ao contrário da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Coréia, últimos conflitos legais em que o país se envolveu, o Vietnam continua sendo a guerra injusta que os EUA perdeu.

Não é pouca coisa, visto que até mesmo o historiador Arthur Schlesinger Jr., modelo, nos anos 1960, de crítica liberal ao governo norte-americano, afirmava que os EUA nunca tinham perdido uma guerra. Schlesinger passou anos clamando pela necessidade de uma saída negociada para o envolvimento norte-americano no Vietnam, e se tornou, no final dos anos 60, um dos principais ativistas contra a guerra. Porque o Vietnam não era uma guerra justa.

A noção de “guerra justa” é muito forte entre os norte-americanos. Além do persistente mito de que “os EUA nunca começaram uma guerra” (veiculado desde o século XIX por políticos e historiadores acadêmicos, e tornado assunto público durante a campanha de Hearst pela intervenção em Cuba), é extremamente arraigada a idéia de que, representando os mais fortes valores do Ocidente e da cristandade, a nação norte-americana pega em armas sempre que esses valores estão ameaçados. Foi assim na Segunda Guerra; foi assim na Coréia, foi assim até mesmo na invasão do Kwait por Sadam.

O fato é que o uso de analogias, pelos governantes dos EUA não é novidade. Certamente George W., nisso, não está inovando em nada. Os políticos de lá invocam, com freqüência, as “lições da história”, como já explicou, de forma brilhante, o historiador Yuen Foong Khong, autor de um livro quase definitivo sobre o assunto. Khong argumenta que o levantamento de analogias tem mais do que a função de justificar políticas de difícil explicação pública. Trata-se de um processo mental destinado a facilitar o processamento cognitivo e informacional presente na tomada de decisões políticas. Assim, analogias com a Segunda Guerra Mundial, a Guerra da Coréia e a derrocada francesa na Indochina tiveram lugar fundamental na decisão norte-americana de intervir no Vietnam e, depois, não apenas na de permanecer, mas de escalar a intervenção. O uso da analogia entretanto, tende a resultar em uma argumentação pobre. Para ser eficaz, deveria levantar fatos de amplo transito entre aqueles que serão alcançados pela mensagem. Desta forma, nem sempre podem ser mobilizadas as melhores comparações, ou por não existirem ou por não apresentarem similaridades perfeitas com a situação que está posta em pauta.

Ou seja, a analogia faz parte de um processo mental normalmente presente na tomada de decisão dos políticos norte-americanos e pode virar uma enorme casca de banana. Aparentemente, foi exatamente nessa que George W. escorregou, embora não possa ser acusado de inventar um absurdo ou ser o primeiro a distorcer a história.

A armadilha fica bem clara na análise feita no dia 23 passado, no NY Times por Thom Shanker. Sumarizada em um de meus blogs do coração, por Thomas de Zengotita, a conversa de George W. com veteranos de guerra (outra importante figura do imaginário nacional norte-americano), mostra uma tentativa de “manipular o patriotismo nato [dos veteranos]”. Segundo Zengotita, “Shanker corretamente chama atenção para a ridícula afirmação de Bush de que a carnificina promovida pelo Khmer Vermelho no Camboja foi conseqüência da retirada Americana do Vietnam, quando, de fato, foi a invasão americana que, em primeiro lugar, inspirou a formação daquela quadrilha insana.” E nem mesmo os argumentos que levaram ao envolvimento norte-americano, que formavam a “teoria do dominó”, mostraram-se corretos, no fim. “Bush disse que nós tínhamos de vencer porque se falhássemos, os comunistas tomariam o poder na Indonésia e nas Filipinas, e quem sabe onde mais. Talvez no Havaí. Foi o que disseram na época. Eu estava lá. Eu lembro. De fato, quando nós finalmente nos retiramos, nada disso aconteceu. O que de fato ocorreu foi que as diferenças sino-soviéticas, postas artificialmente de lado por nossa invasão, explodiram. O que aconteceu foi que a China comunista evoluiu para o bizarro híbrido entre tirania e capitalismo que conhecemos hoje em dia e a União Soviética, para o auto-inflingido copapso.”

Parece que George W. buscava uma analogia que mobilizasse o patriotismo dos veteranos como uma espécie de expressão amplificada do patriotismo nacional, um valor absoluto que conteria a boa disposição do povo norte-americano para as “guerras justas”. Ainda segundo Zengotita, Bush contava com a ignorância sobre história, característica marcante da maioria da população dos EUA. Não acho que tenha sido apenas isso. O presidente ao tentar mobilizar uma analogia, não contava com o fato de que o Vietnam é um vespeiro imaginário. Para o resto da sociedade norte-americana, uma péssima analogia.

Mas, de fato, o que é o Vietnam? Para os norte-americanos, claro, uma lembrança amarga – uma guerra que não resultou em nada. Para George W. deveria ser uma lição de história política.

Pensando bem, talvez George W. leia esse blog… Ahnnnn… Vamos lhe oferecer, então, uma lição de história do Vietnam…

Em seguida::

Guerra sem limites::

O jornal o Globo, em seu caderno Prosa&Verso, no último sábado (18 de agosto), publicou um dossíê, editado pela jornalista Raquel Bertol, intitulado “Baixas da guerra”, cujo subtítulo apresentava “Confrontos no Iraque destroem, além de vidas, paradigmas da modernidade e são vistos como ´laboratório´ de transformações.” O dossiê parece destinado a fazer propaganda da conferência que será proferida dentro de um mês pelo professor Frédéric Gross, no âmbito do ciclo de palestras “Mutações: novas configurações do mundo”, organizado pelo filósofo Adauto Novaes. Segundo explica a jornalista, o ciclo tem por objetivo “entender as grandes mutações do pensamento”.

Não imagino que o respeitável Adauto iria reunir um monte de pesos-pesados da inteligência nacional e internacional perseguindo um objetivo imbecil como esse. Mas isso não importa. O programa está disponível na Grande Rede e quem quiser (e tiver paciência para tanto) poderá até assistir as conferências em tempo real. O que realmente importa, para as reflexões deste pesquisador-amador e domingueiro é o conteúdo do dossiê. O corpo principal apresenta algumas intervenções de especialistas de alto-coturno, como o sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein (um dos espantalhos mais assustadores do indômito site Mídia sem Máscara) e os brasileiros João Camilo Penna e Francisco Carlos Teixeira da Silva, professores da UFRJ.

O texto mais interessante me pareceu ser o do professor Teixeira da Silva, especialista em História Contemporânea. Embora a abertura peque por algumas imprecisões, o texto é bastante interessante e introduz para nós, não-especialistas ou pouco-especialistas (os populares “curiosos”, do qual sou o exemplo mais acabado que conheço), um aspecto novo da guerra contemporânea, que chamo “expansão da noção clausewitziana de guerra”.

Em breve escreverei um comentário sobre o texto do professor Teixeira da Silva em que explicarei essa minha idéia::

Da guerra total à guerra sem limites

O conceito de “guerra total” estrutura-se no século XIX, quando o general Sherman, na Guerra Civil Americana (1861-65), ataca indistintamente alvos civis e militares, destruindo casas, campos agrícolas, indústrias e bens particulares. Ao mesmo tempo, utilizou-se dos novos meios da Revolução Industrial Americana para superar os Confederados, culminando no incêndio de Atalnta e na “Grande Marcha para o Mar”. Estratégias similares foram utilizadas na Guerra da Criméia (1853-56), na Guerra Franco-Prussiana (1870-71) e na Guerra dos Bôeres (1900-02). Na Primeira Guerra (1914-18), o conceito de “guerra total” psaria a desempenhar papel central.

O General Luddendorf no Estado-Maior alemão, adotou tal estratégia, resultando no uso de gases venenosos, ataques maciços contra cidades e a guerra submarina irrestrita (atingindo navios cargueiros e de passageiros). Nesse momento, os progressos tecnológicos constituíram um setor próprio da preparação bélica, ampliando a letalidade da guerra moderna.

A Segunda Guerra (1939-45) viu a tecnologia – transportes, com a aviação; rádio e radar; o poder nuclear; a gestão fordista do abastecimento e da produção bélica – servir-lhe diretamente. Travou-se, no conjunto, todo tipo de guerra. Houve desde guerrilhas, na ex-Iugoslávia ou na Rússia, guerra química (japoneses contra chineses), até o ataque nuclear contra Hiroshima e Nagasaki, e o Holocausto, com sua gestão altamente tecnológica. A indistinção entre alvos civis e militares tornou-se corrente: uma fábrica ou um entrocamento rodoferroviário é uma planta civil ou militar? Quando trens transportam tropas ou fábricas de tecidos produzem materiais para fardamentos, muitos estrategistas alegam tratar-se de legítimos alvos militares – mesmo atingindo centenas de civis. O mesmo ocorre com os meios de comunicação. A TV e as rádios iraquianas em 1991, na Primeira Guerra do Iraque, foram alvos iniciais da colifação da ONU, e a TV nacional da Sérvia, em 1999, foi atacada pelos EUA, morrendo vários jornalistas, sob a acusação de propaganda pró-governo…

A Guerra do Iraque, de 1991, e do Kosovo, de 1999, geraram imensas preocupações no âmbito do pensamento militar. Os estrategistas passaram a temer o chamado “excedente” de poder dos EUA. Buscou-se uma forma de dissuadir ações bélicas americanas, mesmo com recursos inferiores aos acumulados pelos EUA. Assim, dois estretegistas chineses, os coronéis Qiano Liang e Wang Xiang-sui, publicaram o livro “Guerra sem limites” (publicação eletrônica pela Escola de Guerra Naval, Rio, 2003). Trata-se da aplicação da nova noção de “guerra nas condições de alta tecnologia”.

Estratégia revolucionária em seus preceitos que abandona as noções de guerra de massas e de caráter classista, típicas do maoísmo, para pensar a guerra ”como a síntese das técnicas e da mundialização”, e centrar a ênfase na dominância das ações “não-guerreiras” – como uso dos meios econômicos, computacionais, psicológicos. Da mesma forma, a condução da guerra pode e deve, segundo eles, “ultrapassar todas as fronteiras e todos os limites”, incluindo aí a indistinção entrecivis e militares – mesmo no tocante a médicos, jornalistas ou diplomatas. Na nova estratégia, “todos os meios serão disponíveis, a informação será geral e o campo de batalha será difuso”. Não se trata de retorno às formas de guerra irregular, como guerrilhas. Agora, a ênfase é na alta tecnologia, incluindo hackers e a manipulação do fluxo de capitais, disseminação de zoonoses e de epidemias.

Desde então, a noção de “guerra assimétrica” – a guerra do fraco contra o mais forte – passa a estar inteiramente assimilada ao conceito de “guerra sem limites”. A guerra do mais fraco será, no século XXI, sempre irrestrita, utilizando-se de meios não-convencionais. Evidentemente, isto explica o temor das grandes potências acerca da proliferação das chamadas armas de destruição “em massa”. Porém, armas podem ser construídas a partir da tecnologia disponível no cotidiano dos países mais avançados. O uso de tecnologias domésticas (laptops, celulares, aparelhos de radiologia médica, GPS) e de meios civis (aviões de carreira, trens e metrôs) passam a desempenhar um papel central nesta nova e cruel forma de estratégia de guerra. Seqüestros e execuções, com transmissão garantida pela internet, levam a guerra ao coração dos países mais poderosos, servindo simultaneamente para dissuadir empresas a se instalarem num país conflitado e desencorajar suas populações a apoiar as ações militares dos governos. Nessas novas condições de guerra, todos são alvos potenciais.

Hoje, o Iraque é seu grande laboratório::

Um sistema de armas às terças::F-16 Fighting Falcon

Certos blogueiros adoram mulher, ao ponto de colocá-las no seus blogs como assunto… Nada contra. Tendo a concordar – mulher é bom, bonito e… ahnnn… interessante (digamos assim). Mas neste blog, lamento: elas só entrarão caso estejam relacionadas com uma guerra qualquer. Quem sabe… Golda Meir; ou Margaret Tatcher… Condi Rice (tem caras por aí tarados o suficiente para querer ver a Condi pelada).

Não, não. Não farei isso com os leitores. Melhor eleger um bom sistema de armas, que seja altamente sofisticado, lindo. Sexy.

Está combinado, então – toda terça-feira, um sistema de armas. :c) Sempre os meus favoritos.

 








Lockheed-Martin F-16 Fighting-Falcon

Tipo: Caça

 Ano: 1976 

Operadores: Bélgica, Chile, Cingapura, Coréia do Sul, Dinamarca, Egito, Emirados Árabes, Estados Unidos, Grécia, Holanda, Indonésia, Israel, Noruega, Nova Zelândia, Paquistão, Portugal, Tailândia, Taiwan, Turquia, Venezuela 

Motorização: 1 turbofan Pratt & Whitney F100-PW-220 ou General Eletric F110-GE-129 (últimas versões), com pós-combustão 

Pesos: Vazio, 8.433 kg; Máximo na decolagem, 19.187 kg 

Dimensões: Altura, 5,09 m; Envergadura, 9,45 m; Comprimento, 15,03 m 

Performance: Vel. Máxima, Mach 2.05 a 16.000 m; Vel. máxima ao nível do mar, Mach 1.2; Teto de serviço, 16.750 m; Carga G máxima em curva estreita +9 

Autonomia: Máxima (com tanques externos), 3.891 km; Raio de ação,547 km

Armamento: 1 canhão rotativo multicanos Vulcan M61 20 mm com 860 salvas; Mísseis: AAM – IR AIM-9 Sidewinder, ASRAAM; médio/longo alcance guiado por radar – AIM -7 Sparrow, AIM-120 AMRAAM; ASM AGM-84E SLAM, AGM-154A/B JSOW e AGM-65 Maverick, ARM AGM-88 Harm e Shrike; anti-navio, AGM-65 Harpoon, bombas guiadas a laser, guiadas por GPS, JDAM e queda livre.

 

 

Histórico e aspectos técnicos gerais

Mesmo com quase pouco mais de 25 anos de serviço, o Lockheed-Martin F-16 Fighting Falcon (“Falcão-caçador”) continua sendo uma dos principais aeronaves de combate do mundo, e provavelmente ainda permanecerá em atividade no mínimo pelas próximas duas décadas. Suas origens remontam aos primeiros anos da década de 1970, resultantes do programa LWF (Light-Weight Fighter, ou “Aeronave de Caça Leve”). Inicialmente, tratava-se de um estudo da Força Aérea dos EUA destinado a demonstrar a viabilidade de uma aeronave leve, com boa capacidade de combate e baixo custo. Transformado em RFP (Request for Proposals – “Solicitação de Propostas”), o programa despertou interesse em cinco empresas, das quais duas foram selecionadas pela USAF em abril de 1972: Northrop, com o Project 600 Cobra Concept (designado YF-17 pela USAF) e General Dynamics (depois adquirida pela Lockheed) com o Model 401 (para a USAF, YF-16). O YF-16 revelou-se, na fase de protótipo, superior ao YF-17 em quase todos os parâmetros: aceleração, autonomia e raio de ação. Em janeiro de 1975 a USAF declarou o avião da General Dynamics vencedor, anunciando, em julho, uma aquisição inicial de 650 unidades do F-16A (monoposto) e F-16B (biposto).

 

O objetivo do projeto era fornecer um equipamento destinado a complementar as capacidades do F-15A Eagle da McDonnel-Douglas, que tinha entrado em serviço em 1974 e era um caça de superioridade aérea.

O F-16A/B de série era equipado com o radar AN/APG-66, e aviônicos, equipamentos eletrônicos e plataforma de tiro bem mais modernos do que os das versões de teste. O canopí “bubble” de plexiglass de alta densidade proporciona ao piloto amplo campo de visão para o piloto. O assento ejetável ACES II zero-zero inclinado a 30º possibilita alta tolerância a cargas g e escape em altas velocidades. O F16 foi o primeiro caça norte-americano equipado com o sistema HOTAS (hands on throttle and stick), sistema que substituí o tradicional manche central e permite ao piloto realizar as principais operações de controle com uma única mão.

O armamento principal constitui-se de um canhão GE M61A1 Vulcan de 20mm, de uso múltiplo. Para missões ar-ar são utilizados mísseis aam (air-to-air míssil) IR AIM-9 Sidewinder, de guiagem infravermelha, capazes de engajar alvos a curto alcance e numa posição de no máximo 15 graus em relação à proa da plataforma. Posteriormente, uma versão dos A/B conhecida como Block 15 recebeu radares que permitiram a utilização do míssil BVR (beyond visual range – “fora do alcance visual”) AIM-7 Sparrow. Atuando como aeronave tática, o F-16A/B pode ser dotado de bombas tipo cluster, guiadas a laser, de queda livre e mísseis anti-radar Maverick.

Tendo sido adquirido em grandes quantidades pelos EUA e por diversos países aliados, os lotes iniciais de F-16A e B passaram por várias melhorias logo ao início de sua vida operacional, que atingiram os sistemas da aeronave, estrutura, equipamentos defensivos, radar, capacidade de manobra e motorização. Muitas vezes, essas mudanças resultavam num equipamento totalmente recondicionado, em “estado de arte”. Entretanto, mesmo depois dos upgrades, a aeronave mantinha a designação F-16A ou B, mas adicionava um novo block number (número de lote): Block 5, Block 10, Block 15, dependendo da época e intensidade das modificações. Em 1982, a partir da série “lote” 25, mudanças mais profundas, projetadas para aeronaves novas de fábrica introduziram outra notação: F-16C (monoposto) e F-16D (biposto). Essas aeronaves foram as primeiras a operar o míssil ar-ar AIM-120 AMRAAM (Advanced Medium-Range Air-to-Air Missile – “Míssil ar para ar avançado de médio alcance”). Trata-se de um vetor super-sônico com alcance de 60 quilômetros e incorporando o conceito fire and forget (“atire e esqueça”), ou seja, guiagem totalmente independente de três fases: lançamento orientado pelo computador da aeronave; fase de vôo, com sistema de navegação inercial totalmente passivo, imune à contramedidas; engajamento do alvo, guiado por radar ativo. Os F-16C/D podiam realizar missões ar-ar e ar-terra com alto índice de eficiência, o que os tornava superiores aos F-16A/B, otimizados apenas para missões ar-ar, tendo as missões ar-terra como complementares, ou seja – não podiam ser considerados verdadeiros caças táticos.

Os F-16C/D são, de fato, novas aeronaves que utilizam a plataforma F-16. Receberam um novo radar, o AN/APG-68, HUD (head-up display, um sistema que projeta dados no visor do capacete do piloto, permitindo-lhe olhar para a frente durante 85 por cento do tempo de missão) de ângulo aberto, GPS, MFD (multi-frequency discriminator, um tipo de localizador de freqüências que permite à aeronave identificar de que tipo de rastreamento está sendo alvo) e capacidade de ECM – contramedidas eletrônicas.

Nos anos 90, a plataforma passou por novos aperfeiçoamentos, baseados principalmente na experiência de combate real obtida na Guerra do Golfo e nas sugestões feitas pelos israelenses (tidos pelos próprios norte-americanos como os melhores pilotos de F-16 do mundo). O resultado foram os F-16CG/DG “lote” 40/42, equipados com nova motorização e um controle de vôo digital integrado totalmente novo, incorporando capacidade de combate all-weather (“qualquer tempo”, que permite ao piloto voar em visibilidade 0-2, ou seja, nenhuma) obtida através de acompanhadores de terreno look-down (radares secundários que “enxergam” a altitude graças a interpretação de ondas de freqüência altíssima lançadas diretamente ao solo) e designadores de alvo a laser. A partir dessa versão, os Fighting-Falcon passaram a ser totalmente pilotados por 16 computadores integrados, que tanto conduziam a plataforma quanto monitoravam e engajavam os alvos. O piloto apenas supervisionava o conjunto, determinando direção, velocidade e despacho do armamento. Quando a velocidade supera os 1320 km/h ou em certas situações (por exemplo, curvas de alto g) é “impedido” de pilotar, total ou parcialmente, pelo computador.

A série atual do F-16 é o “lote” 50/52. A variação da numeração indica a motorização (50 – Pratt&Whittney; 52 General Eletric). Os novos F16CJ/DJ incorporam melhorias consideráveis em seus equipamentos. O radar AN/APG-68V.5 é capaz de operar em 25 modos ar-ar e ar-superfície – quer dizer, monitora 25 alvos ao mesmo tempo, no ar e na superfície, podendo “enxergar” alvos no ar a distâncias que chegam a 296 km e alvos de superfície em movimento e cursos discrepantes.

A versão F-16CJ/DJ “lote” 50/52 foi oferecida ao Programa F/X da FAB, no início da década de 2000. Não tinha grandes chances, visto que, apesar da previsão de longa vida útil, essas aeronaves já eram consideradas ultrapassadas. Entretanto, agora essa situação mudou um pouco. Com as dificuldades observadas na adaptação do novíssimo Raptor F-22 e os atrasos no programa JSF, que incorporará o F-35 como substituto do F-16, a USAF contratou, junto à Lockheed-Martin um programa de modernização de todos os seus F-16, que permitirá a incorporação de alguns dos componentes do F-35 e da nova geração de armamentos planejados para essa nova aeronave. Alguns especialistas consideram que, lá pelo ano 2025, a USAF talvez ainda esteja operando o F-16, o que o fará uma das aeronaves de vida útil mais longa da história do poderio aéreo.