Guerra sem limites::


O jornal o Globo, em seu caderno Prosa&Verso, no último sábado (18 de agosto), publicou um dossíê, editado pela jornalista Raquel Bertol, intitulado “Baixas da guerra”, cujo subtítulo apresentava “Confrontos no Iraque destroem, além de vidas, paradigmas da modernidade e são vistos como ´laboratório´ de transformações.” O dossiê parece destinado a fazer propaganda da conferência que será proferida dentro de um mês pelo professor Frédéric Gross, no âmbito do ciclo de palestras “Mutações: novas configurações do mundo”, organizado pelo filósofo Adauto Novaes. Segundo explica a jornalista, o ciclo tem por objetivo “entender as grandes mutações do pensamento”.

Não imagino que o respeitável Adauto iria reunir um monte de pesos-pesados da inteligência nacional e internacional perseguindo um objetivo imbecil como esse. Mas isso não importa. O programa está disponível na Grande Rede e quem quiser (e tiver paciência para tanto) poderá até assistir as conferências em tempo real. O que realmente importa, para as reflexões deste pesquisador-amador e domingueiro é o conteúdo do dossiê. O corpo principal apresenta algumas intervenções de especialistas de alto-coturno, como o sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein (um dos espantalhos mais assustadores do indômito site Mídia sem Máscara) e os brasileiros João Camilo Penna e Francisco Carlos Teixeira da Silva, professores da UFRJ.

O texto mais interessante me pareceu ser o do professor Teixeira da Silva, especialista em História Contemporânea. Embora a abertura peque por algumas imprecisões, o texto é bastante interessante e introduz para nós, não-especialistas ou pouco-especialistas (os populares “curiosos”, do qual sou o exemplo mais acabado que conheço), um aspecto novo da guerra contemporânea, que chamo “expansão da noção clausewitziana de guerra”.

Em breve escreverei um comentário sobre o texto do professor Teixeira da Silva em que explicarei essa minha idéia::

Da guerra total à guerra sem limites

O conceito de “guerra total” estrutura-se no século XIX, quando o general Sherman, na Guerra Civil Americana (1861-65), ataca indistintamente alvos civis e militares, destruindo casas, campos agrícolas, indústrias e bens particulares. Ao mesmo tempo, utilizou-se dos novos meios da Revolução Industrial Americana para superar os Confederados, culminando no incêndio de Atalnta e na “Grande Marcha para o Mar”. Estratégias similares foram utilizadas na Guerra da Criméia (1853-56), na Guerra Franco-Prussiana (1870-71) e na Guerra dos Bôeres (1900-02). Na Primeira Guerra (1914-18), o conceito de “guerra total” psaria a desempenhar papel central.

O General Luddendorf no Estado-Maior alemão, adotou tal estratégia, resultando no uso de gases venenosos, ataques maciços contra cidades e a guerra submarina irrestrita (atingindo navios cargueiros e de passageiros). Nesse momento, os progressos tecnológicos constituíram um setor próprio da preparação bélica, ampliando a letalidade da guerra moderna.

A Segunda Guerra (1939-45) viu a tecnologia – transportes, com a aviação; rádio e radar; o poder nuclear; a gestão fordista do abastecimento e da produção bélica – servir-lhe diretamente. Travou-se, no conjunto, todo tipo de guerra. Houve desde guerrilhas, na ex-Iugoslávia ou na Rússia, guerra química (japoneses contra chineses), até o ataque nuclear contra Hiroshima e Nagasaki, e o Holocausto, com sua gestão altamente tecnológica. A indistinção entre alvos civis e militares tornou-se corrente: uma fábrica ou um entrocamento rodoferroviário é uma planta civil ou militar? Quando trens transportam tropas ou fábricas de tecidos produzem materiais para fardamentos, muitos estrategistas alegam tratar-se de legítimos alvos militares – mesmo atingindo centenas de civis. O mesmo ocorre com os meios de comunicação. A TV e as rádios iraquianas em 1991, na Primeira Guerra do Iraque, foram alvos iniciais da colifação da ONU, e a TV nacional da Sérvia, em 1999, foi atacada pelos EUA, morrendo vários jornalistas, sob a acusação de propaganda pró-governo…

A Guerra do Iraque, de 1991, e do Kosovo, de 1999, geraram imensas preocupações no âmbito do pensamento militar. Os estrategistas passaram a temer o chamado “excedente” de poder dos EUA. Buscou-se uma forma de dissuadir ações bélicas americanas, mesmo com recursos inferiores aos acumulados pelos EUA. Assim, dois estretegistas chineses, os coronéis Qiano Liang e Wang Xiang-sui, publicaram o livro “Guerra sem limites” (publicação eletrônica pela Escola de Guerra Naval, Rio, 2003). Trata-se da aplicação da nova noção de “guerra nas condições de alta tecnologia”.

Estratégia revolucionária em seus preceitos que abandona as noções de guerra de massas e de caráter classista, típicas do maoísmo, para pensar a guerra ”como a síntese das técnicas e da mundialização”, e centrar a ênfase na dominância das ações “não-guerreiras” – como uso dos meios econômicos, computacionais, psicológicos. Da mesma forma, a condução da guerra pode e deve, segundo eles, “ultrapassar todas as fronteiras e todos os limites”, incluindo aí a indistinção entrecivis e militares – mesmo no tocante a médicos, jornalistas ou diplomatas. Na nova estratégia, “todos os meios serão disponíveis, a informação será geral e o campo de batalha será difuso”. Não se trata de retorno às formas de guerra irregular, como guerrilhas. Agora, a ênfase é na alta tecnologia, incluindo hackers e a manipulação do fluxo de capitais, disseminação de zoonoses e de epidemias.

Desde então, a noção de “guerra assimétrica” – a guerra do fraco contra o mais forte – passa a estar inteiramente assimilada ao conceito de “guerra sem limites”. A guerra do mais fraco será, no século XXI, sempre irrestrita, utilizando-se de meios não-convencionais. Evidentemente, isto explica o temor das grandes potências acerca da proliferação das chamadas armas de destruição “em massa”. Porém, armas podem ser construídas a partir da tecnologia disponível no cotidiano dos países mais avançados. O uso de tecnologias domésticas (laptops, celulares, aparelhos de radiologia médica, GPS) e de meios civis (aviões de carreira, trens e metrôs) passam a desempenhar um papel central nesta nova e cruel forma de estratégia de guerra. Seqüestros e execuções, com transmissão garantida pela internet, levam a guerra ao coração dos países mais poderosos, servindo simultaneamente para dissuadir empresas a se instalarem num país conflitado e desencorajar suas populações a apoiar as ações militares dos governos. Nessas novas condições de guerra, todos são alvos potenciais.

Hoje, o Iraque é seu grande laboratório::

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6 pensamentos sobre “Guerra sem limites::

  1. Creio que a fonte foi o tal “Livro Branco” do exército chinês não? Já leu a opinião da opinião do John Keegan. Do que entendi creio que problema dessa história de guerra sem limites é que pode nos levar simplesmente a extinção. IMHO Ao contrário do que Clausewitz gostaria, a guerra acaba não sendo uma continuação da política ou uma forma drástica de solução de conflitos, elas deixam de ser decisivas e se extendem por décadas como a maioria das que ocorreram depois da segunda guerra mundial e com um estrago imensurável. Como o que aconteceu com Angola, Palestina, Líbano. Segundo o Keegan alguns povos da antiguidade continham o conceito de guerra em certos limites justamente para evitar isso. O que diria clausewitz da doutrina MAD, por exemplo?

  2. Droga, tenho de editar melhor o que escrevo. O livro do Keegan que me referi foi “Uma história da Guerra”, se já não tiver lido eu recomendo.

    E sim, creio que a guerra acaba sendo uma continuação da política minha dúvida é se é eficiente. Ou a guerra assimétrica seria uma readptação de clausewitz para os novos tempos?

  3. Bitt,

    O artigo é interessantíssimo quando explora as várias possibilidades de guerra moderna. A propósito, você leu um artigo na Diplô, falando sobre um relatório da Associação Médica Britânica que aponta novas drogas que podem conferir maior resistência a soldados e apagar memórias indesejadas? Parece enredo de distopia..

    Beijo

  4. Renato, sds.

    Li o Keegan sim, é um dos meus “manuais”. Recomento mto um livro chamado “O belo futuro da guerra”, de Phillipe Delmas. Nçao sei se o livro dos chineses é o tal livro branco, mas o interessante dele é o fato de q aponta precisamente algumas das fraquezas da atual doutrina dos EUA.

    Alba, olá!

    O uso de estimulantes nao é novidade. Certa vez conversei com um piloto de planador de assalto q contava histórias de arrepiar, de como passava 36 hs sem dormir às custas de pervertin, amplamente distribuído pela Luftwaffe aos seus pilotos.

  5. Vou guardar a sugestão de livro para uso futuro. Li uma versão do livro no site da defesanet, achei muito interessante a análise da evolução das doutrinas militares, das doutrinas mecanicistas como o “soldado-operário” (acho que a famosa “besta de omaha” é um bom exemplo) até a informatização da guerra que assistimos hoje.

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