Um sistema de armas às terças::KNM Skjold::


Nosso símbolo sexual de hoje vem diretamente da terra do amor livre, a Escandinávia. A exemplo de outros símbolos sexuais que andam por aí, e chamam atenção pelo bronzeado perfeito, também vai à praia. Ou melhor: chega pertinho da praia, mas prefere ficar dentro d´água. No seu domínio, o mar. Não pega bronzeado, mas… Podem acreditar, quando ela chega, o tempo esquenta. Como esquenta!

Dêem uma chegadinha e conheçam a dama do futuro, hoje::

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Por volta dos meados dos anos 1990, um grupo de trabalho da Departamento da Marinha dos EUA começo a fazer estudos visando determinar quais seriam as características da marinha do futuro. Esses estudos objetivam determinar as características de alguns tipos de navios: um vaso de grande porte (CG-X), com as características de um cruzador, um vaso de porte médio (DD-X), com as características de um contratorpedeiro ou fragata, e um vaso de pequeno porte, com as características de um MPB (Missile Patrol Boat – Navio de Patrulha Porta-Mísseis). Este não seria próximo do conceito europeu de MPB, mas um navio de tamanho maior, capaz de certa autonomia, que foi denominado “navio de combate litorâneo” (LCS – Litoral Combat Ship). Esse tipo de navio seria usado de forma escalonada com os novos contratorpedeiros da classe Zumwalt – então já em projeto – e os navios que começavam a ser concebidos, para, por volta de 2010-2015, substituir os cruzadores porta-mísseis da classe Ticonderoga.

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Em 2000, quando o conceito já estava praticamente pronto, o grupo de trabalho foi informado da existência, na Noruega, de um Navio de Patrulha Rápido (NaPaRa, no jargão da Marinha Brasileira) recém posto em serviço, com características que estavam despertando a atenção das principais marinhas da Europa: eram capazes de alcançar mais de 50 nós de velocidade máxima, velocidade de cruzeiro de 45 nós e tinham capacidade oceânica. Examinados alguns relatórios técnicos através da OTAN, as características do modelo geraram surpresa na comissão, de modo que, em 2002, a Marinha dos EUA patrocinou uma visita do vaso de guerra à America do Norte, com a duração de um ano, para cuidadosa avaliação operacional. Ao fim do período, a surpresa era ainda maior: no dizer de analistas norte-americanos, o barco era “mais evolucionário que revolucionário”, pois não incorporava nem desenho nem tecnologias radicalmente novos, mas conjugava, de maneira brilhante, aspectos de desenho e tecnologia já existentes.

Tratava-se do primeiro exemplar da classe Skjold (em norueguês, “Escudo”).

Lançado ao mar em 1999, como primeiro exemplar de uma encomenda inicialmente planejada para cinco unidades, o KNM Skjold visava atender demandas imediatas e de médio prazo da Marinha Real da Noruega (Kongeliege Noerske Marine, em norueguês). Essa classe de navios, de projeto totalmente nacional, incorpora tecnologia multi-nacional, e não pode ser chamada de “experimental”, visto que todas as suas características já se encontram plenamente testadas e operacionais, e seus projetistas o apresentaram como sendo capaz de entrar em serviço ativo imediatamente após o lançamento.

A Noruega é um país bastante particular, mesmo no panorama da Escandinávia. Tem uma população de aproximadamente 4,5 milhões de habitantes, distribuídos por um território de 386.000 quilômetros quadrados, montanhoso e pouco fértil, com um clima que é tão rigorosos quanto o do Canadá e da Rússia. Embora não possa ser considerado rico, pelos padrões europeus, adota um sistema de cooperativismo que, redistribuindo riquezas pela via da cobrança de impostos e reaplicação dos recursos segundo demanda direta, privilegia necessidades públicas e individuais. O resultado é o mais alto índice de desenvolvimento humano do mundo e um alto padrão de vida para toda a população. Monarquia constitucional desde o século XIX, a Noruega se caracteriza pela estabilidade política, pouca disposição por envolver-se em disputas internacionais e, por outro lado, uma posição estratégica que torna o país ator de peso em todas as disputas internacionais européias desde o século XVII. O motivo é sua longa costa, voltada para o Mar do Norte e por ser área de acesso tanto ao Mar Báltico quanto aos acessos árticos da Rússia. Nos últimos vinte anos, ainda tornou-se produtor e exportador de petróleo, em parceria com o Reino Unido, devido à descoberta de grandes jazidas nos bancos submersos da plataforma que divide como “território comum” com as Ilhas Britânicas. Membro da OTAN desde o estabelecimento dessa aliança militar, a Noruega tem a característica de não permitir, por lei, o aquartelamento de tropas estrangeiras em seu território.

As forças armadas norueguesas sempre tiveram suas capacidades limitadas pela pequena população (cujo índice de crescimento é estável desde os anos 1920). Em tempos de paz, o efetivo total situa-se em torno de 39.000 homens e mulheres (20.000 no exército, 9.000 na marinha e 10.000 na força aérea). Em caso de emergência, são capazes de mobilizar algo em torno de 200.000 reservistas em 48 horas, dos quais 140.000 para o exército. Esses reservistas não podem ficar mobilizados por mais de três semanas, visto que constituem a maior parte da força de trabalho nacional.

Esta questão coloca um limite decisivo na conformação das forças armadas: em tempo de paz, suas tarefas devem ser cumpridas com meios bastante escassos. Outro limite é a possibilidade de projeção – quer dizer, onde elas podem intervir efetivamente. No caso da Marinha, o litoral norueguês, bastante longo (em linha reta, algo em torno de 1700 quilômetros) e extremamente recortado (aproximadamente 400 fiordes podem receber navios de grande porte) é o principal teatro de operações. A defesa dos acessos a esse litoral, sua principal tarefa. A interdição, ou seja, impedir que um inimigo se aproxime dos pontos principais (algumas cidades com capacidade portuária e o acesso marítimo à capital, Oslo, feito pelo estreito de Skagerraek), ou trafegue pelas águas territoriais, é atribuída, primariamente, a submarinos e fragatas. A Real Marinha Norueguesa possui, como elementos de linha de frente seis submarinos e 5 fragatas, que, em caso de guerra, deverão tentar impedir que uma força inimiga se aproxime do litoral. A segunda linha de defesa é composta por esquadrões de MPBs, que deverão negar ao atacante o acesso à costa.

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A classe Skjold foi desenhada com essa função. Adotando uma configuração de catamarã (casco duplo), esse tipo de MPB é construído em materiais leves e absorventes de energia. O desenho do casco visa incorporar o princípio de “efeito de superfície”, ou seja, uma área mínima das obras vivas (no jargão naval, a parte de um navio que fica em contato com a água) se mantêm em contato com a superfície do meio aquático, visando diminuir ao mínimo possível o arrasto. Essa diminuição é conseguida dando-se à quilha uma forma que, conforme aumenta a velocidade, faz o conjunto “subir” num colchão de fluído turbilhonado (misturado com ar). Essa característica possibilita que os vasos da classe Skjold alcancem uma velocidade de até 55 nós (100 km/h), podendo operar em águas com calado de pouco mais de 1 metro.

Com deslocamento de pouco mais de 600 toneladas, o Skjold é capaz de, quando em velocidade, manter até 70 por cento de seu peso fora da água. Mesmo assim, o “efeito de superfície” faz com que parte considerável das obras vivas mantenha-se sempre em contato com o meio aquático. Essa diminuição do coeficiente de contato, ao mesmo tempo que reduz o arrasto, não compromete a dirigibilidade do conjunto. O resultado é que os vasos da classe Skjold, apesar de seu calado reduzido, possuem boas “características marinheiras”, ou seja, se comportam bem em mar aberto, sendo, portanto, capazes de travessias oceânicas.

A propulsão principal é por jato d’água, o que permite o navio operar que em áreas de calado muito raso, mostrando manobrabilidade inimaginável num navio de propulsão à hélice. Os jatos d’água são acionados por turbinas de gás quando em velocidade, e por motores a diesel de baixa rotação, o que reduz a assinatura infravermelha do conjunto. Este sistema de propulsão, denominado CODAG (Combined Diesel And Gas Turbine), reúne dois motores de turbina à gás Rolls Royce Allison 571KF, gerando, cada um, 6.000 kW (8.160 hp), acionando dois jatos d’água Kamewa. Os motores diesel são os alemães MTU 6R 183 TE52, gerando cada um 275 kW. Em testes em águas rasas e superfície de baixa ondulação, a velocidade máxima alcançada chegou a 100 quilômetros por hora. Segundo informações, o grupo moto-propulsor pode ser baseado em sistemas de outras fábricas, o que tornaria o navio um item de potencial interesse para exportação.

Os jatos d´água são projetados por saídas instaladas em aletas escaláveis (podem ter a altura regulada em relação ao casco), de movimento independente, o que permite ao Skjold curvas em ângulo muito fechado, mesmo quando em alta velocidade.

A função do Skjold é o combate litorâneo e de superfície. Conforme declarou seu comandante, capitão-de-corveta Rune Andersen, durante a visita ao EUA, “na atualidade, o poder naval não é mais usado para combater esquadras no mar, mas para projetar poder do mar sobre a costa. E em alguns conflitos, a linha costeira tem se mostrado um desafio.” A capacidade dos MPB Skjold de operar muito próximos da linha costeira pode vir a ser uma contribuição significativa da Noruega à aliança atlântica, de acordo como o comandante Andersen.

Em termos de armamento, a classe Skjold não difere dos MPBs convencionais – dois quais a Real Marinha Norueguesa possuí oito unidades. Seu armamento principal constitui-se de dois lançadores quádruplos de mísseis superfície-superfície e um canhão automático de 76 mm, instalado numa torre a vante; mísseis superfície-ar e dois sistemas de defesa de ponto baseados em canhões giratórios constituem o armamento de autodefesa.

Ou seja: a classe Skjold incorpora tecnologias plenamente testadas – portanto, altamente confiáveis – numa plataforma de alta velocidade, com características “furtivas” (stealth), e dotada de armamento letal. A própria tecnologia q torna esse navio singular, o desenho de duplo casco, não é nova, mas, combinada com certas características do desenho de casco único, oferece possibilidades que não poderiam ser alcançadas com o catamarã clássico.

Os teóricos e planejadores estão, no momento, tendendo a considerar que o desenho convencional de vaso de guerra, de casco único e múltiplas super-estruturas, feitos em metal ou material metálico, tenderão, ao longo do século 21, a dar lugar a navios feitos em material composto, de múltiplos cascos (catamarãs ou trimarãs). Os novos navios deverão ter a capacidade “furtiva” expandida, através da incorporação do armamento e das antenas ao casco. Essa incorporação possibilitaria não apenas a redução do perfil do navio, mas também o “adocicamento” dos ângulos e superfícies verticais, características básicas do desenho “furtivo”.

A classe Skjold, nesse sentido, é quase uma visão do futuro. De acordo com o comandante Andersen, “materiais compostos usados na construção do navio são a chave para o protótipo do projeto e para o próprio conceito dessa classe de navios de combate costeiro. De longe, são os materiais mais fortes e leves existentes.” E ele completa – “Se você viaja tão rápido quanto nós, e o faz com mau tempo, você irá submeter o navio a certa quantidade de stress. Você precisará de um navio que seja muito rápido, que se recupere efetivamente e ainda seja capaz de suportar ainda mais castigo. E os materiais compostos são materiais ´mortos´: eles não estalam, enferrujam ou envelhecem da mesma forma que os metais de todos os tipos.”

As vantagens dos materiais compostos são as mais diversas. Além do menor desgaste, os reparos são mais simples e mesmo um acidente mais grave, como um encalhe ou colisão não significam o afundamento do navio. Mesmo os reparos estruturais, quando necessários, são relativamente simples de fazer.

Armamentos e tecnologia de última geração, embarcados no Skjold, têm de ser suplementados por treinamento constante, baseado no desenvolvimento do conceito de combate litorâneo, coisa que, para a Real Marinha da Noruega, é absolutamente familiar.

O pacote de armamentos projetado para o Skjold é baseado nessa experiência. Os principais armamentos ofensivos do navio são os mísseis superfície-superfície Kongsberg NSM (Nye Sjoemaals Missiler, “Míssil norueguês de ataque”), que foram desenvolvidos para os Skjold e para as novíssimas fragatas classe Fritjof Nansen . Desenhados especialmente para a luta litorânea, esses mísseis, equipados com sensores ativos de alta resolução e passivos de infravermelho, são capazes de discriminar alvos numa área litorânea acidentada, como, por exemplo, um arquipélago. Tem um alcance de aproximadamente 150 quilômetros.

O canhão principal é o Oto Melara Super Rapid 76 mm. Trata-se de uma arma de uso múltiplo (contra alvos de superfície e aéreos), operada por controle remoto, com uma cadência de fogo de 120 salvas por minuto, e alcance superfície-superfície de 16 quilômetros. A defesa anti-aérea é provida por mísseis antiaéreos de longo alcance Mistral, guiados por infravermelho, fabricados pela francesa MBDA, com alcance de 4 quilômetros.  

O armamento é coordenado pelo sistema de controle de fogo SaabTech Ceros 200, que controla os mísseis e o canhão. A Thales Naval, da França, fornecerá o radar MRR3D-NG G-band e os sistemas  IFF (bandas de identificação de indivíduos hostis). O sistema MRR3D-NG é capaz de detectar alvos nivelados de baixo e médio perfil (por exemplo, um míssil anti-navio voando em altitude 0-3, ou seja, até 3 metros sobre a água) num raio de até 140 quilômetros, e em busca de longo alcance (um navio de pequeno porte com capacidade “furtiva” ou uma aeronave), de até 180 quilômetros; na modalidade “autodefesa”, pode detectar e seguir alvos em alta velocidade num raio de 60 quilômetros. Embora o sistema de armas não esteja instalado, notícias indicam que o MRR-3D-NG irá coordenar um sistema de defesa ativa baseado em canhões de fogo ultra-rápido da Rheinmetall (quem quiser informações sobre esse sistema, pode recuar algumas postagens e ler sobre o canhão Oerlikon 35 mm). Essa arma destina-se a deter mísseis anti-navio.

 

Os Skjold serão equipados com sistemas de suporte eletrônico, contra-medidas eletrônicas e alerta anti-radar. Os sensores serão todos acoplados ao casco, de modo a não projetar superfícies angulares. Os principais estarão baseados em antenas circulares fixas.

 

Parece, enfim, ser o navio do futuro, navegando hoje. Certos problemas foram observados, como um alto consumo de combustível quando em modo de propulsão a gás, bem como instabilidade em situações de mar grosso. O pequeno número de tripulantes (4 oficiais e dez graduados e marinheiros) divide alojamentos exíguos, em função da arquitetura “tudo no casco”, e, para além, o grande número de sistemas, embora controlados por computadores, precisam de atenção constante, o que sobrecarrega a tripulação. Outra questão é que o conceito norte-americano de “navio de combate costeiro” exigiria uma unidade maior, com qualidades marinheiras mais desenvolvidas que o Skjold demonstra.A doutrina norueguesa, entretanto, não prevê projeção de poder naval à grande distância da costa nacional. Isso explica as características do projeto.

Mas se trata de um projeto novíssimo, com características não observáveis em nenhum outro vaso de guerra em serviço. Por certo as unidades da classe, que deverão estar todas em serviço até o final de 2008, oferecerão uma soberba plataforma de testes e desenvolvimento de doutrina. É esperar para ver::

Veja em seguida um video repidinho, com um teste de armamento do Skjold.

 

Deslocamento

Máximo: 602 tons; Carga útil: 270 tons

Dimensões

Comprimento total: 47,5 m; Boca: 13,5m; Altura máxima: 15,0 m; Borda livre média: 2,3 m; Calado: 0,9 m

Desempenho

Velocidade máxima: 100 km/h (55 nós); Velocidade econômica: 14.8 km/h (8 nós); Alcance máximo: 1600 milhas náuticas (3000 km)

 

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3 pensamentos sobre “Um sistema de armas às terças::KNM Skjold::

  1. Bitt,

    Eu ainda não havia entrado no “Causa” novo. Como dizer? Está supimpa! Tanto a diagramação, como as imagens, tudo! Agora não terei tempo de ler os textos novos, mas prometo lê-los e comentá-los.

    Beijo!

  2. Bitt,

    Gostei muito desse post, mais leve e mais facil de se ler, para mim pelo menos. Mesmo tendo sendo uma atiradora no passado, acho armamentos um tema um tanto quanto pesado…claro que muito interessante
    Desculpas escrever aqui, e que nao achei um email address para escrever para voce. Assistindo a um documentario na BBC sobre a costa da Inglaterra e Escocia (chamado Coast, voce pode ver aqui http://www.bbc.co.uk/coast/programmes/09-john-o-groats-berwick.shtml

    foi mostrado o detetor de minas que foi uma descoberta que salvou muitas vidas.
    Sera que nao daria um post interessante?? Ele foi inventado por um oficial polones que estavam defendendo costa da Escocia contra uma invasao alema.
    …”Mine detector

    During World War II the Fife Coast was the only place to be defended solely by foreign forces. Because of the pressures of the war there were no British troops available to defend this part of the country. It was Winston Churchill who came up with the solution – he drew up an agreement with the Polish government in exile to use their troops to defend our coastline against German invasion. Anti-tank blocks can still be seen strung out along these beaches but the threatened invasion never happened.

    However, the Polish troops made a more lasting contribution to warfare in general. Lieutenant Josef Stanislaw Kosacki came up with the invention would go on to save countless lives all over the world – the mine detector. Mark Horton talks to Lech Muszynski, who was a member of these Polish forces, about the difference this invention made.

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