Doutrinas de emprego de força 2 :: Uma resposta flexível, mas nem tanto::


Bem, minha idéia de permitir a democratização dos conteúdos desses ensaios sem tornar a leitura deles uma tortura deu co´os burros n´água. Por enquanto, fica tudo suspenso, visto que recebi vários conselhos sensatos para desistir, que a idéia parecia ter sido elaborada pela equipe do George Walker… Por muito bem – estou republicando todo o conteúdo. Mas ainda não desisti da idéia de uma biblioteca de acesso público… Mas fica para outra hora::

:: :: :: :: :: :: :: :: :: ::

A necessidade de definir uma concepção de emprego das forças militares norte-americanas, fora da ambiência nuclear, foi identificada durante o governo Kennedy. A curiosa trupe de cientistas políticos, militares e advogados que gravitava em torno da Casa Branca percebeu que o equilíbrio de capacidade de destruir o mundo, conhecido como “doutrina MAD” (Mutual Assured Destruction) era suficiente para equilibrar as relações entre as grandes potências, mas nem sempre se aplicava e nem mesmo era entendida como projeção de poder, em crises localizadas.

Enfim, não oferecia respostas para toda gama de situações militares e, principalmente, políticas. A resposta surgiu sob a forma de uma concepção estratégica que recebeu o nome de “Resposta Flexível”.

Esta doutrina foi desenvolvida desde os anos 1950 pelo Secretário Robert McNamara e sua equipe, chamada pela imprensa de “McNamara Boys”. Era um grupo de profissionais universitários, especializados em Ciência Política, Matemática e Análise de Sistemas – esta uma área ainda muito nova e tida como revolucionária.

A base da teoria estava na possibilidade de que a resposta a uma ameaça pudesse ser considerada segundo uma série de contingências. As alternativas apresentadas durante a crise dos mísseis de 1962 foram o primeiro teste “real” dessa nova doutrina. O emprego de força foi colocado totalmente sob a autoridade do presidente, e foi também subordinado às contingências políticas.

Desde a entrada na Segunda Guerra Mundial, tal situação não ocorria. A partir de 1941, embora a decisão de começar a guerra fosse do presidente, como “comandante-em-chefe”, após o início das hostilidades, as decisões militares ficavam totalmente a cargo dos profissionais (o que, dentre outras conseqüências provocou amargas dissensões dentro da aliança ocidental, visto que os militares americanos costumavam a colocar aspectos técnicos adiante dos políticos). O sucesso da resposta contra a URSS, embora politicamente tenha sido exemplar, levou a uma situação que não agradou aos militares norte-americanos.

Entretanto, segundo diversos analistas, a popularização da “resposta flexível” entre a alta burocracia governamental dos EUA foi motivada por algumas questões que, desde o final da Segunda Guerra Mundial, não estavam bem equacionadas.

A primeira delas vinha desde as negociações do “Tratado de Washington”, que originou a “Carta do Atlântico” (documento que criou a OTAN). O artigo 5º da “Carta”, que estabelecia o  “princípio de defesa coletiva”, foi concebido para demonstrar aos aliados europeus o grau de comprometimento dos EUA com a segurança continental diante da postura expansionista da União Soviética sob Stalin. Por outro lado, parte considerável da opinião pública e do Congresso dos EUA não parecia convencida de que o governo deveria envolver-se automaticamente em outra guerra européia. O artigo 5º foi formulado de maneira a agradar ambos os lados e, desde então, os membros da Aliança Atlântica têm sido obrigados a adaptá-lo às condições contextuais, que, por sua vez, nunca são fixas. De fato, o modo como o compromisso tem sido debatido e implementado parece sempre ser tão importante quanto o teor do artigo em si mesmo.

A segunda questão é o crescimento dos chamados “gastos com defesa” , ou seja, as despesas militares dos EUA, e a má vontade dos aliados europeus em investir recursos nessa área, quer dizer, em se armarem. Em função desse debate – nunca resolvido, e que aparece em diversas outras partes do mundo, notadamente no Japão – a administração Eisenhower começou a insistir que a Aliança Atlântica adotasse o princípio da retaliação nuclear maciça como principal instrumento de defesa. A montagem pela URSS de sistemas de mísseis bastante eficazes, na segunda metade dos anos 1950, adquirindo a capacidade de atingir alvos inclusive nos EUA, pareceu apontar para a “resposta flexível”, que se combinou, nos anos 70, com os tratados de limitação de armas atômicas. Através dela, a OTAN planejaria a resposta a um ataque soviético com forças nucleares ou convencionais, dependendo do grau do ataque.

A resposta flexível, entretanto, nunca satisfez totalmente nem aos EUA nem os aliados europeus. Essa estratégia geral não determinava uma partilha clara de responsabilidades e encargos. Os fóruns da OTAN acabaram se tornando, nos anos 1960 e 70, arenas onde os EUA, sufocado pela crise econômica, reclamava, amargamente, de ser obrigado a arcar com os custos da defesa da Europa e sobre a partilha dos encargos inerentes aos novos sistemas de armas estratégicas. O compromisso do artigo 5º, entretanto, nunca foi posto em questão, visto que, numa guerra convencional generalizada, os EUA teriam a Europa como “primeira linha de defesa”.

Entretanto, a “resposta flexível” não é uma “doutrina de emprego de força”, podendo caber mais na categoria de uma “política” Mas foi sob a égide do Governo Nixon, em 1969, que pela primeira vez, uma doutrina específica de emprego da força foi formulada.

O surgimento, pela primeira vez, de uma “doutrina de emprego de força” caracterizado enquanto tal tem estreita relação com o modo que a alta burocracia norte-americana passou a conceber a ordem internacional, durante o primeiro governo de Nixon. (1969-1974). Esta visão, que se caracteriza pelo pessimismo e por uma perspectiva sombria do futuro, partia do princípio de que os EUA não tinham mais condição de manter a preponderância num sistema internacional em que diversos agentes capazes de se contrapor eficazmente à América tinham se consolidado: União Soviética e China, capazes de se opor militarmente; Europa Ocidental e Japão, adversários econômicos. A concepção bipolar da ordem internacional, surgida da Segunda Guerra Mundial deu lugar à outra, cuja principal característica era a multipolaridade.

A aceitação fatalista da multipolaridade e do declínio da força dos EUA não surgira do nada: os dez anos anteriores tinham sido marcados por uma série de desastres internos e externos: em 1961, o surgimento de um regime socialista a pouco mais de 100 quilômetros dos EUA; em 1962, a proximidade de uma ameaça à segurança q não pudera ser resolvida pelas forças armadas nacionais; em 1963, o assassinato do presidente em condições não bem esclarecidas; durante toda uma década, uma guerra localizada q o país não conseguia vencer. Essa nova realidade parece ter influenciado fortemente as principais decisões de política externa durante o primeiro governo Nixon.

E começou a ficar clara em 1969, da maneira mais improvável possível: em plena a escalada da intervenção no Vietnam (que, aquela altura, já durava oito anos, tinha consumido 540 bilhões de dólares, em valores da época, e mais de 30.000 vidas de jovens norte-americanos). A “doutrina Nixon, enunciada pelo próprio presidente ainda em 1969, no primeiro ano de sua administração. Em plena guerra do Vietnam, Nixon passou a defender a redução da presença direta de tropas dos EUA em auxiliar de seus aliados. Em meados daquele ano, Nixon anunciou que, doravante, os Estados Unidos continuariam a auxiliar na defesa e no desenvolvimento dos países aliados, mas não mais assumiriam a responsabilidade pela defesa das nações livres do mundo. Essas nações teriam de começar a assumir parte da responsabilidade por seu próprio destino.

Trata-se de um dos momentos mais interessantes da história recente dos EUA, talvez a última vez em que o “Império” cedeu à tentação multipolar. Por diversas razões, o governo Nixon entendeu que seria necessário adaptar a política externa do país. Por detrás dessa decisão – que despertou toda espécie de polêmica – subjazia uma visão de que a segurança e os interesses norte-americanos seriam melhor promovidos numa ordem internacional cujas características haviam mudado. Essa nova orientação na política de détente com a União Soviética na aproximação à China, e na transformação das relações com a Europa Ocidental seus aspectos mais determinantes. E também conduziu os EUA, depois de 1972, ao período mais pacíficos que viveram, na segunda metade do século passado.

Mas vamos deixar isso para um próximo capítulo, quem sabe, depois do fim da novela das oito, pois atualmente as pessoas estão, com razão, mais interessadas em “quem matou Taís” do que em “quem acabou com o sossego do mundo”…::

Anúncios

Um pensamento sobre “Doutrinas de emprego de força 2 :: Uma resposta flexível, mas nem tanto::

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s