A verdadeira história do radicalismo islâmico::


“Para mim, a visão da chuva de bombas de fragmentação caindo sobre os morros secos afegãos [em Tora Bora] fora profundamente chocante. … De fato, viver e trabalhar na região por tanto tempo tornaram esse choque ainda mais forte. Ao dirigir meu carro pela pequena e conhecida estrada que leva de Jalalabad ao ponto de fronteira em Torkham, eu estava profundamente perturbado com o que tinha visto. Nos anos que passei entrando e saindo do Afeganistão e do Paquistão, vi execuções e bombardeios, fiquei sob a mira de armas e quase morri em vários helicópteros. Ouvi pais descreverem a morte de seus filhos em ataques de mísseis ou nas mãos de bandidos, di bebês em estágios terminais por doenças causadas pela fome … e fugi de incontáveis situações de dor e privação. Mas tudo que testemunhei, embora terrível, parecia fazer sentido. Era, em parte, o que tinha me atraído inicialmente para o Afeganistão. Parecia, de alguma forma, pertencer à essência do lugar. O que vi em Tora Bora não fazia nenhum sentido e eu queria desesperadamente entender como isso havia acontecido.

Estava claro que era impossível explicar o ocorrido simplesmente observando o desenrolar dos fatos no Afeganistão e no Paquistão. Quando comecei a olhar para além da região, logo se tornou muito óbvio que o que acontecera em Tora Bora fora a culminação de um processo histórico gigantesco e complexo. Os homens atingidos pelo bombardeio nos cumes acima de nós eram do Iêmen, do Egito, do Sudão e da Argélia, e também do Sudoeste da Ásia. O motivo do que ocorrera em Tora Bora envolvia suas histórias tanto quanto as dos afegãos.

Eu também desejava responder a outras perguntas. Tal como tantos outros, eu estava com medo. Qual era a natureza da ameaça que agora confrontava minha vida, minha cultura, meus valores, minha segurança pessoal e a daqueles a quem amo? Será que eu realmente deveria ter medo de bombas no metrô de Londres, seqüestros em Paris, ataques com gás em Los Angeles ou bombas sujas em Chicago?

Com o passar dos meses, percebi que nenhuma dessas perguntas estava sendo respondida pela miríade de artigos e livros publicados sobre a “guerra contra o terrorismo” e seus supostos alvos, Fiquei cada vez mais preocupado com as concepções equivocadas que estavam ganhando aceitação. Entre elas se destacava a idéia de que Bin Laden liderava uma organização terrorista coesa e estruturada chamada ´Al-Qaeda’. Todas as evidências com as quais me deparei em meu próprio trabalho contradiziam essa noção de uma Al Qaeda como o “império do mal”, tendo à frente uma malévola inteligência superior. Tal idéia era, sem dúvida, reconfortante – destrua o homem e seus fiéis ajudantes e os problemas desaparecerão – mas claramente equivocada. Como conseqüência, o debate sobre a atual “guerra contra o terrorismo” era distorcido. Em vez de examinarem de forma honesta e sensata as raízes do radicalismo islâmico que ressurgia, a discussão das estratégias na guerra contra o terror tinha sido quase inteiramente dominada pelos ‘especialistas em antiterrorismo’, com sua linguagem de armamento de alta tecnologia, militarismo e erradicação. Isso pode ser útil para tratar o sintoma, mas não consegue, e jamais conseguirá, tratar a doença.

O que há de mais próximo da ‘Al Qaeda’, tal como é popularmente entendida, existiu por um curto período, entre 1996 e 2001. Sua base ficava no Afeganistão, e o que vi em Tora Bora foram as cenas finais de sua destruição. …”

Jason BURKE. Al Qaeda. A verdadeira história do radicalismo islâmico (p. 16-17)

Rio de Janeiro, Zahar, 2007.

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Um pensamento sobre “A verdadeira história do radicalismo islâmico::

  1. Olha bitt, acho que é a descrição mais sintética e real sobre a Al Quaeda e o “terrorismo islâmico” que eu já li.
    Esse cara tem o pé no chão.

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