Um sistema de armas às terças::Wild Weasels – sobre o Vietnam, os primórdios da guerra aérea moderna::

Parte I

Temos falado muito, ao longo das últimas postagens de causa::, na moderna guerra aérea – que, antes de tudo, é uma guerra onde equipamentos eletrônicos e alta capacidade computacional voam de um lado para outro, buscando suprimir a capacidade do inimigo, no chão, se defender. Este por sua vez, usa equipamentos eletrônicos e alta capacidade computacional para tentar manter o atacante longe.

Curiosamente, é uma situação muito similar ao “impasse da couraça”, no século XIX. Na primeira metade do século, a revolução industrial tinha criado tecnologias que possibilitaram a fabricação de chapas de metal de alta resistência e um peso relativamente baixo. Os estaleiros militares ingleses e franceses começaram a produzir “navios couraçados”, cujos cascos eram protegidos por chapas metálicas reforçadas. A indústria de armamentos, diante dessa nova realidade, lançou-se na busca de canhões maiores e mais poderosos, o que levava os projetistas navais a aumentar a espessura das couraças. Essa corrida teve resultados interessantes: por volta de 1850, os arquitetos e engenheiros navais estavam convencidos que o aumento dos canhões tinha chegado ao limite, e acrescentaram nos desenhos mais novos uma “arma” que tinha sido abandonada uns quatrocentos anos antes – o esporão. O abalroamento, o uso da massa dinâmica do navio como elemento ofensivo, tornou-se manobra tática estudada pelas marinhas do mundo. Em 1866, na batalha naval de Lissa, o moderníssimo encouraçado italiano Re d´Italia foi afundado pelo não tão moderno austríaco Ferdinand Maximian – a primeira baixa provocada pela “nova” arma; em 1893, o encouraçado Victoria foi acidentalmente metido à pique pelo esporão do couraçado Campertown, num exercício de esquadra ao largo de Trípoli. Os esporões, que provocavam sérior problemas de manobra para os navios da época, só foram abandonados no início do século XX, com o surgimento dos encouraçados da classe Dreadnought, que seriam os reis do mar nos 50 anos seguintes. Outro resultado interessante do “impasse da couraça” foi o surgimento do torpedo automóvel, inventado pelo engenheiro inglês Whitehead. O torpedo de Whitehead usava outra abordagem – alcançar o inimigo onde ele não estaria protegido – abaixo da linha d´água. Era uma solução indireta, mas que modificou a cara das marinhas, pois os novos torpedo-boats, surgidos por volta de 1870, eram navios pequenos e muito rápidos, mas capazes de colocar em xeque as grandes esquadras de batalha. Quando a eficácia do torpedo ficou provada, uma outra corrida começou, buscando estender a proteção blindada até as obras-vivas (as partes da estrutura que, num navio, ficam sempre sob a água).

Ou seja, para cada inovação, rapidamente era introduzida uma espécie de “contra-inovação”. É uma situação similar a que passaram as forças aéreas, no final dos anos 1940. A introdução de bombardeiros a jato, no final da década, levou as duas superpotências a adquirir aeronaves capazes de voar muito alto e muito rápido, tornando praticamente inúteis as baterias de canhões anti-aéreos orientadas por radar, que tinham sido desenvolvidas a partir do final da Segunda Guerra Mundial. Por volta do final da década, surgiu, nos EUA, uma nova arma. Baseado nos projetos alemães, engenheiros norte-americanos da empresa Martin desenvolveram um míssil guiado. O novo sistema de armas mostrou-se capaz de alcançar bombardeiros a jato voando em alta altitude. Mais-ou-menos na mesma época, na União Soviética, também começou o desenvolvimento de uma arma similar. A introdução desses mísseis guiados de grande eficiência chegou a suscitar, entre os especialistas, a idéia de que o uso tático da aviação tinha chegado a seu limite. O sistema norte-americano era o Nike-Ajax, de 1950, e depois, o Nike-Hercules, em 1954; na União Soviética, o desenvolvimento demorou mais tempo, e somente em 1955 começaram os testes com o míssil superfície-ar Lavochkin S-75, O S-75, que se tornou conhecido, no jargão da OTAN como SAM-2 Guideline, mostrou-se bastante eficiente, e foi responsável, em 1960, pela derrubada da aeronave de reconhecimento estratégico U-2, pilotada pelo major Gary Powers.

O S-75 – ainda em uso, hoje em dia, numa versão bastante modificada, notação S-750 – é, de fato, o vetor de um sistema de armas cujo principal elemento é um radar de banda A (VHF) P-12 (Spoon Rest, no jargão do OTAN) com alcance de 275 quilômetros, destinado a prover alerta antecipado sobre aeronaves não-identificadas. Esses radares, instalados em vagões rebocados por caminhão, determinavam a direção e velocidade aproximada do alvo, mas não a altitude. No passo seguinte, quando a aeronave desconhecida se encontra a aproximadamente 60 quilômetros do sítio de radar, o monitoramento é repassado para um sistema de radar P-8, (Fan Song) de banda E (operando em duas freqüências de ondas ultra-curtas). Instalado num trailer, esse sistema é mais preciso, capaz de determinar direção, altitude e velocidade do alvo. Uma vez iluminada a aeronave hostil pelo Fan Song, o míssil é disparado e viaja para o alvo guiado por sinais de rádio emitidos sob controle de um computador de tiro. O sistema pode operar em 4 canais, o que permite o uso simultâneo de até 4 mísseis, que viajam até o alvo em velocidade Mach 4. (aproximadamente 4600 km/h). Nos sistemas mais antigos, apenas um alvo pode ser monitorado, e o sistema disparava em salvas.

O SAM-2 (como os norte-americamos passaram a denominar cotidianamente o S-75) se mostrou capaz de enfrentar todas as aeronaves ocidentais, devido à experiência na Guerra do Vietnam. Em 1965, com o aumento de volume da ofensiva aérea norte-americana sobre o Vietnam do Norte, o governo local solicitou assistência dos soviéticos, Em abril de 1965, vôos de reconhecimento da Força Aérea dos EUA detectaram a preparação de sítios de lançamento e, no mês de julho seguinte, um F4C Phantom da Marinha tornou-se a primeira aeronave derrubada por um SAM-2. Uma grande operação de ataque foi montada pelos norte-americanos, o que levou os norte-vienamitas a deslocar os mísseis para sítios sem preparação prévia, em grande segredo, e concentrando grande quantidade de canhões AA nas proximidades.

Os norte-americanos já estavam, entretanto, estudando contra-medidas para o S-75, desde que, a partir de 1962, grande quantidade deles tinha começado a ser detectada na Europa Oriental, particularmente na Alemanha Oriental e Polônia. O míssil anti-radiação (ARM) AGM-45 Shrike tornou-se operacional em 1964, e sistemas destinados a interferir nos radares de alerta avançado foram aperfeiçoados. Em meados de agosto, os primeiros Shrike foram distribuídos às unidades de combate, e os resultados se revelaram decepcionantes. A unidade tinha um alcance muito pequeno, e precisava ser lançado por uma aeronave em posição muito vantajosa. Logo, os operadores de radar soviéticos descobriram que era bastante deixar o míssil ser lançado e após alguns minutos, desligar o radar. Sem orientação, o míssil caía por falta de combustível poucos tempo depois. Como os sítios de lançamento situavam-se relativamente próximos uns dos outros, a aeronave atacante tornava-se de caçador em caça, pois, durante as manobras evasivas iniciadas após o disparo do míssil, ou tornava-se presa da artilharia AA ou acabava iluminada por outro radar. Outra descoberta amarga dos pilotos americanos foi a incapacidade do Shrike em distinguir o ângulo de emissão de ondas do radar de alerta antecipado, o que fazia que os mísseis, freqüentemente, buscassem uma posição lateral à estação emissora. Baseados nessas deficiências, os operadores desenvolveram táticas que lhes permitiam inclusive determinar se a onda de ataque incluía aeronaves armadas com mísseis anti-radiação.

Os norte-americanos continuaram a desenvolver sistemas e táticas destinadas a anular a capacidade da defesa anti-aérea baseada em SAM. Os sistemas consistiam nos chamados “pacotes de contra-medidas eletrônicas” (ECM pods), que começaram a ser distribuídos ainda em 1965. A tática, desenvolvida graças a esse equipamento, denomina-se, até hoje, SEAD (Supression, Enemy Air Defense). A arma continuou sendo o AGM-45, mas instalado em uma aeronave especialmente modificada para esse tipo de missão. Era o Wild Weasel. Ainda hoje, passados mais de 40 anos, continua sendo o principal recurso de supressão de defesa dos norte-americanos.

Continuamos na próxima terça, porque não se pode falar pouco de um símbolo erótico como o Wild Weasel. Por agora, vejam o filminho, que mostra uma operação de lançamento de SAM-2::

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A estratégia da guerra pós-clausewitziana::

(NYTimes.com)A jihad em imagens(15 de outubro)

Quando Osama Bin Laden divulgou mensagem de vídeo para o povo americano, mês passado, um jovem entusiasta da jihad ajudou a espalhar o conteúdo. “A América precisa ouvir o xeque Usaamah e levar sua mensagem a sério”, escreveu ele em seu blog.

O blogueiro é Samir Khan, um americano de 21 anos, morador na Carolina do Norte, onde montou uma espécie estação distribuidora para produções de grupos islâmicos radicais. Nos últimos dias, a estação de Samir distribuiu as “alegres notícias” sobre a morte de 31 soldados argelinos por um grupo radical do norte da África. Também pode ser baixado um tratado acadêmico que defende a jihad violenta, devidamente traduzido para o inglês. Também estão lá centenas de links para sites violentos contendo imagens da insurgência no Iraque. Nascido na Arábia Saudita e criado em Queens, Nova Iorque, Khan é um soldado do que a al Qaeda chama “mídia jihadista”.

Não há nada que sugira que Khan esteja agindo de forma coordenada com líderes radicais ou infringindo qualquer lei. Ele é parte de um grupo crescente de operadores de mídia que estão transmitindo a mensagem da al Qaeda e de outros grupos, uma mensagem que se dirige cada vez mais ao publico ocidental.

Especialistas em terrorismo da Academia Militar dos Estados Unidos dizem que há cerca de cem sites em inglês, que oferecem a visão de radicais islâmicos. Esses parecem estar criando um canal com jovens muçulmanos americanos e europeus ao jogarem com o ódio que a guerra no Iraque desperta e com a imagem de um Islã sob ataque.

Os textos originais árabes, longos e tediosos para os padrões ocidentais, são retrabalhados, usando técnicas de publicidade. Folhetos de recrutamento são distribuídos e encontra-se até novelas online, todas com temas sobre a jihad. Sites como o YouTube também tem servido como veículo para esse matarial.

A al Qaeda usa a Internet há anos, mas quem acompanha as novas produções concorda que o material melhorou muito em qualidade, e se tornou atraente para um público acostumado com a rapidez da Internet.

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Segundo Rohan Gunaratna, pesquisador-chefe do Centro Internacional de Pesquisa sobre Violência Política e Terrorismo da Universidade Técnica Nanyang, de Singapura, “a al Qaeda é uma organização essencialmente moderna”. É uma declaração surpreendente, embora saibamos que a organização já demonstrou grande habilidade no uso de meios de comunicação de massa e do sistema financeiro internacional da era da globalização. Mas, segundo Gunaratna, não são essas habilidades que demonstram o caráter moderno da al Qaeda, mas o fato de que a organização demonstrou entender perfeitamente que as guerras do século XXI tem na disseminação de imagens espetaculares em tempo real uma estratégia central. No ataque às Torres Gêmeas, a organização de Bin Laden mostrou uma capacidade surpreendente de conceber o uso da televisão via satélite para mobilizar o apoio dos países muçulmanos.

A modernidade da al Qaeda também fica patente conforme sua organização se mostra distante da estrutura centralizada e burocrática dos partidos revolucionários do século XX, e mais próxima da organização celular dos cartéis de distribuição de drogas e das redes planas das empresas virtuais. A al Qaeda assemelha-se à uma multinacional, sugere Gunaratna. Surgida na fase final da Guerra Fria, financiada pelos sauditas e com beneplácito dos EUA e dos governos europeus, terminada a guerra contra os soviéticos, tornou-se o primeiro praticante da guerra não convencional capaz de dar escala mundial às suas operações. “Em vez de resistir à globalização, suas forças estão sendo reunidas por grupos islâmicos contemporâneos, constantemente atrás de novas bases e novos alvos pelo mundo”, diz o pesquisador.

A guerra pós-clausewitziana parece que será travada por pequenas unidades com alto grau de iniciativa, dependendo essas unidades de sua capacidade utilizar localmente recursos levantados em escala global, inclusive comunicando-se através da Internet. Essa aparente flexibilidade, que lança mão tanto da motivação individual mobilizada pela ideologia quanto de recursos tecnológicos bastante sofisticados, mas, ao mesmo tempo, acessíveis a qualquer um com certo grau de conhecimento técnico, mostra sua face na capacidade dos pequenos grupos em colocar forças bem maiores em posição de defesa. O grau de iniciativa também fica patente na capacidade que a rede al Qaeda demonstra em sobreviver ao isolamento de seu líder.

Outra demonstração recente do caráter da guerra pós-clausewitziana foi dada durante a invasão de Israel ao sul do Líbano, com o objetivo de anular o grupo militante xiita Hezbolá. Israel declarou que a responsabilidade sobre as ações do grupo xiita era do governo do Líbano, que estaria permitindo o uso de seu território. Isso demonstrou uma curiosa incapacidade em entender o caráter assimétrico por excelência da guerra pós-clausewitziana. Após mais de 40 dias de operações que provocaram sérios danos à infra-estrutura civil do Líbano, as forças armadas de Israel se retiraram do Líbano sem alcançar nenhum dos objetivos a que haviam sido propostos.

A milícia do Hezbolá mostrou grau de treinamento e disciplina que surpreendeu os israelenses e a maioria dos analistas ocidentais. De fato, alguns falaram em uma vitória parcial do Hezbolá, enquanto outros apontaram uma espécie de “empate técnico”. Usando armas convencionais provavelmente fornecidas pelo Irã e pela Síria, os milicianos xiitas conseguiram ,em algumas ocasiões, interditar o terreno às unidades blindadas de Israel. A utilização de equipamentos como o lança-rojão RPG-29 e óculos de visão noturna mostraram um novo estilo de guerra assimétrica, na qual o lado mais fraco mostra-se capaz de colocar em xeque o lado mais forte. A vulnerabilidade israelense residia exatamente no uso de forças convencionais de difícil operação. Os milicianos, dispersos pelo território, dotados de uma perfeita consciência do terreno e armas adequadas, demonstraram capacidade de tomar decisões mais rapidamente que o exército de Israel.

O uso da população civil como escudo, embora seja bastante cruel, em sua essência, é extremamente eficaz, já que torna as ações militares, principalmente as que envolvem aviação, extremamente antipáticas, e obrigam o adversário a justificar-se perante seus aliados.

A guerra pós-clausewitziana pode significar um retorno à noção de estratégia indireta, teoria formalizada pelo analista inglês Basil Lidell-Hart. Essa idéia faz um certo sentido, diante da posição ocupada hoje pelos EUA, no panorama militar. Após a Segunda Guerra Mundia, a adesão ao princípio de “revolução em questões militares” deu aos EUA a supremacia inquestionável sobre o campo de batalha. Enfrentar uma estrutura assim organizada, diretamente, é impossível. Mas enfrentá-la indiretamente é possível, como temos visto em algumas situações, caso recorramos à história militar. Talvez outro aspecto da guerra pós-clausewitiziana seja exatamente o fato de que forças armadas convencionais estejam se encaminhando para o declínio – estruturas muito dispendiosas, em todos os sentidos, e inúteis, diante da assimetria de poder. Entretanto, não deixa de ser interessante pensar que, aquilo que a URSS não conseguiu (e desapareceu tentando…), bin Laden e seus ativistas têm conseguido. A al Qaeda é o futuro da guerra? Se for, talvez já estejamos vivendo o futuro.

Os F14 iranianos em ação::

Os Tomcat iranianos logo iriam ser lançados em ação. Os vôos soviéticos sobre território iraniano eram constantes, e, em 1978, começaram a aparecer os MiG25RBS, monitorando o litoral iraniano do Mar Cáspio. Os soviéticos acreditavam que os sistemas iranianos poderiam dar pistas sobre os sistemas eletrônicos norte-americanos, pois a região tinha diversos postos de monitoramento da CIA. Depois de uma série de tentativas, um esquadrão de F14 foi deslocado para a região, juntamente com pessoal de terra e um reabastecedor 707 especialmente desenhado para funcionar como “Comando & Controle”. Uma espécie de cilada foi cuidadosamente arquitetada, com pares de F14 voando cada um armado com dois AIM54. Em 3 de outubro de 1978, um possível alvo soviético foi detectado e chegou a ser iluminado pelos radares de bordo, mas a missão foi abortada antes que qualquer míssil chegasse a ser lançado. Ainda assim, uma série de observações interessantes foi feita a partir dessa missão. A principal delas que o sistema de interferência soviético era incapaz de “jammear” o radar AWG9.

A revolução islâmica de 1979 interferiu com o programa de desenvolvimento dos F14, visto que os norte-americanos não estavam dispostos a permitir que um sistema de armas avançado em mãos hostis. Mas o fato é que já haviam centenas de especialistas treinados nos EUA, inclusive mais de 80 pilotos. Embora técnicos norte-americanos tenham tentado sabotar mísseis AIM54 e motores de reserva, o pessoal iraniano já era capaz de fazer manutenção no equipamento.

Uma boa situação, pois logo a nova força aérea do Irã teria muita ação pela frente.

Os primeiros combates entre Iraque e Irã aconteceram em 4 de setembro de 1980. Imediatamente depois delas, a agora denominada Força Aérea da República Islâmica do Irã começou a recolocar em operação os F14, cujo nível de aprestamento era baixíssimo: as aeronaves apresentavam defeitos, os radares não funcionavam direito e as tripulações ainda eram bastante inexperientes. No início da guerra, o número de unidades em disponibilidade era calculado em 77 unidades, mas apenas 26 eram capazes de entrar em operação, o que colocava uma disponibilidade de oito a dez aeronaves. Os iranianos conseguiam preparar 12 unidades.

Em 22 de setembro, 18 F14 eram considerados aptos para combate, mas não estavam no ar quando aconteceram os primeiros ataques da aviação iraquiana contra bases das forças armadas islâmicas do Irã. No dia seguinte, os F14 decolaram pela primeira vez, escoltando aviões-tanque 707, que abasteciam F4 enviados contra o Iraque. No dia seguinte, um MiG21RF (reconhecedor tático) foi a primeira vitória registrada por um F14A em combate. Ao longo dos dois meses seguintes, 25 outras aeronaves iraquianas seriam derrubadas pelos F14. A maioria foi de MiG23BN, uma versão de exportação do caça soviético. Até dezembro de 1980, outros 34 aviões iraquianos foram apanhados pelos F14. Um destes foi danificado, e foi só.

Seria uma longa guerra.

O filminho mostra um combate entre F14A e MiG23 líbios. As cenas talvez tenham sido próximas ao que aconteceu entre Irã e Iraque::

A guerra pós-clausewitziana::

A guerra pós-clausewitziana

Para Carl Von Clausewitz, oficial prussiano que criou a teoria moderna da guerra, com o fim das guerras napoleônicas e a Paz De Viena em 1815, “guerra” significava conflito armado entre Estados. O padrão de violência organizada que predominou antes de 1648 era irrelevante. Mas, na prática, o monopólio estatal da violência estava longe de ser completo, mesmo na Europa da época em que a obra de Clausewitz, Da Guerra, foi publicada, em 1832. Em muitos países europeus o alcance do poder do Estado não ia muito longe. A maioria dos governos europeus só assumiu o monopólio efetivo da força depois da Primeira Guerra Mundial. Ainda assim, Clausewitz estava certo em ver na guerra entre Estados, o futuro. Ao longo ddos seguintes 170 anos, as guerras travadas o foram entre governos.

Outro pensador seminal para a modernidade, Max Weber, também considerava que o elemento definidor dos Estados modernos é o monopólio da violência organizada. Weber também considerava que o Estado é produto dos métodos racionais de pensamento e ação promovidos pela ciência. No final do século XX, entretanto, esta visão de Estado estaria parcialmente ultrapassada, visto que em muitas regiões do mundo, o monopólio da violência foi quebrado. A difusão da ciência e da tecnologia não correspondeu à promoção de Estados modernos. Ao contrário, produziu um novo tipo de guerra, não previsto pelos teóricos.

No Oriente Médio, na Caxemira, no Afeganistão e em diversas outras zonas de conflito, a guerra não é travada apenas por Estados organizados. Organizações políticas, milícias organizadas e redes fundamentalistas adquiriram poder suficiente para começar e dar continuidade à guerras. Podemos chamar essa nova fase de guerra pós-clausewitiziana.

Isto não significa que a guerra, conforme a teorizou Clausewitz, tenha desaparecido. A maioria das guerras do último quartel do século passado foi travada entre Estados.

O novo tipo de guerra, que pode ser definida como “não-convencional”, desenvolveu-se no contexto de Estados muito enfraquecidos ou colapsados, em nada parecidos com um Estado moderno: África, Afeganistão, Haiti, Bósnia, Chechênia e Albânia podem ser colocadas nesse saco. São regiões nas quais o Estado fracassou, e não mais mostra condições de servir como parâmetro para o conflito. Os envolvidos travam a guerra sem levar em consideração nenhuma autoridade que não a dos líderes de facção ou grupo, e nenhum objetivo que não os próprios.

A guerra não-convencional do tipo praticado pela al-Qaeda também se beneficia da fraqueza dos Estados fracassados de outra maneira. Exércitos irregulares e organizações políticas que praticam a nova forma de guerra costumam a estar ligados à economia criminosa global, conseguindo fundos via atividades ilícitas. Neste ponto, a globalização beneficia a todos quantos tenham uma mínima capacidade de organização: estes se tornam capazes de mover fundos de uma lado para outro, sem o menor empecilho. Neste ponto, pode-se dizer que o “deus-mercado” alimentou o monstro, ao promover a idéia de que o retraimento dos governos seria condição vital para o desenvolvimento econômico, via remoção dos entraves aos fluxos de capital. Na prática, isso significou um a criação de um capitalismo financeiro descontrolado, deslocando-se de um lado para outro e promovendo o enfraquecimento de governos constituídos, via “ataques especulativos” e “abordagens agressivas”. Organizações terroristas aprenderam a usar o cassino global como forma de movimentar e gerenciar seus fundos, muitas vezes sem deixar traços.

Um outro elemento resultante do fracasso dos Estados foi o enfraquecimento do controle sobre os meios de violência. Isto é particularmente verdadeiro com relação à União Soviética e os países da ex-Cortina de Ferro, todos dotados de indústrias bélicas bem estruturadas e tecnologicamente avançadas. Geralmente, fala-se muito sobre armas de destruição em massa, que alguns dos países resultantes da fragmentação da ex-URSS realmente possuíam, mas este problema foi enfrentado com bastante sucesso. A questão principal é que milhares de cientistas e tecnólogos altamente capacitados ficaram à beira da miséria, em fábricas “privatizadas” de uma hora para outra. A ex-Iugoslávia nunca produziu armas nucleares ou estratégicas, mas foi, até os anos 90, quando mergulhou na guerra civil, um player agressivo no mercado de armamentos convencionais. Milhões armas de todos os tipos, de tanques e peças de artilharia até fuzis automáticos e munição continuaram a ser produzidas e abastecem um mercado ávido, dotado de fundos e disposto a comprar. Estados debilitados, como a Bulgária, submetidos a uma transição descontrolada, passaram a vender armas de seus estoques e das fábricas que controlam. Nunca olhavam com muito cuidado quem estaria do outro lado do balcão.

O terrorismo se beneficia da fraqueza dos Estados, o que não significa que Estados fracos não procurem se beneficiar do terrorismo. Sabe-se hoje que Estados negociaram com a rede al Quaeda, oferecendo o uso de seus territórios em troca de fundos. Sabe-se também que a Arábia Saudita e o Paquistão promoveram a guerra contra os soviéticos permitindo o trânsito livre de combatentes por seus territórios – no caso do segundo e fornecendo grande quantidade de fundos – no caso da primeira. Os objetivos eram diversos, mas envolviam sempre a luta contra Estados laicos ou contra grupos buscando objetivos diversos. Entretanto, a negociação com grupos de ativistas armados é sempre problemática, e nada indica que o Estado envolvido vá adquirir algum controle sobre o grupo com o qual negocia.

A guerra pós-clausewitiziana ainda não foi suficientemente estudada, mas já é possível saber que os parâmetros de análise, tanto militar quanto política talvez não se prestem à ela. O que está claro é exatamente seu aspecto mais preocupante: uma guerra pós-clausewitziana é muito difícil de ser travada, e mais difícil ainda de ser vencida.

 

Um sistema de armas às terças::Grumman F14A Tomcat da Força Aérea da República Islâmica do Irã

Pois não é que os israelenses andaram se aventurando pelo espaço aéreo da síria? O motivo, ninguém sabe direito, mas certamente ninguém acreditou no “bombardeio de instalações nucleares mantidas por técnicos da Coréia do Norte” – principalmente agora que os norte-coreanos parecem ter cansado de seus buscapés nucleares.

O mais provável é que estivessem mesmo testando alternativas para uma special op contra o Irã, cuja melhor rota passa pelo espaço aéreo sírio – visto que provavelmente nem Iraque nem Turquia abririam seus espaços aéreos para os aviões israelis, já que ambos não querem problemas com o Irã.

Caso tentem, o que encontrarão pela frente os judeus? A aviação síria não se revelou, em diversas oportunidades, páreo para a Hel´ha´Avir, a força aérea de Israel. A Síria tem recebido alguns MIG29 e sistemas de defesa anti-aérea TOR M1, mas sua capacidade de usá-los eficazmente é uma incógnita. No caso do Irã, a coisa é diferente. Desde a época do Xá, este país desenvolveu uma enorme força aérea, e dispõe de alguns dos itens mais letais do arsenal norte-americano, além de pilotos com grande experiência de combate – contra os iraquianos – e mais recentemente, contra os russos, embora atualmente tenham boas relações com os rapazes de Putin.

Um desses itens é o Grumman F14A. Trata-se de um osso duro de roer, no entender de todos os analistas. Vamos ser apresentados a ele em seguida…

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Na primeira metade dos anos 1970, o Império do Irã era um confiável aliado do Ocidente, considerado como uma “primeira linha” da Guerra Fria. Desde os anos 1950, um dos maiores produtores de petróleo do mundo, o país beneficiou-se indiretamente da crise do petróleo de 1973, aderindo tardiamente ao boicote comandado pela Arábia Saudita. Segundo exportador mundial de petróleo e primeiro fornecedor dos EUA, o Irã não chegou a diminuir suas exportações, mas praticou os aumentos de até 300 por cento no preço do barril, determinados pela OPEP. O resultado foi um fluxo de dinheiro nunca antes imaginado, que o tornou cliente preferencial das indústria norte-americana de armamentos.

Compartilhando extensa fronteira com a então URSS, além de responsabilidades localizadas no Golfo Pérsico, no Oriente Médio e no Oceano Índico. O dinheiro do petróleo permitiu que o Irã, até então cliente de sistemas de armas “tipo exportação” (por exemplo, Sabres F86, F5A Freendom Fighters em 1965 e, a partir de 1967, um pequeno número de F4E Phantom). Com os petrodólares fluindo, o Xá, embora fosse considerado um aliado instável, passou a merecer atenção dos EUA, uma vez que a proximidade da União Soviética, e a inexistência de sistemas defensivos de última geração constituíam, indiretamente, ameaça aos interesses norte-americanos na região.

Dois fatores apressaram a possibilidade da aquisição, pela então Nirouyeh Havaiyeh Shahanshahiye Iran, ou Imperial Força Aérea do Irã, de aeronaves de última geração. Por um lado, a entrada em serviço, no final dos anos 1960, de uma nova geração de aeronaves soviéticas, da classe do MIG23 Flogger e MIG25 Foxbat. Essas aeronaves passaram a sobrevoar o território iraniano freqüentemente, em missões de reconhecimento. Equipadas com radares Lookdown-shotdown e mísseis de longo alcance (“beyond visual range”), os Flogger se revelaram bem superiores aos F4E iranianos, que eram entregues pelos EUA com sensores e armamento de segunda linha. O território do Irã, muito montanhoso, exigia uma complexa cobertura de radar articulada a sistemas de mísseis de defesa aérea de grande altitude, que vinha sendo reivindicada pelos iranianos desde os anos 1960, até então sem resposta. No final da década, os norte-americanos já tinham manifestado simpatia às solicitações iranianas (em 1971, a venda de 1811 mísseis superfície-ar Hawk foi aprovada), o que abriu ao Irã a possibilidade de aquisição de quase todos os sistemas norte-americanos de última geração. O aval oficial, dado pelo presidente norte-americano Richard Nixon, em maio de 1972, foi o passo inicial para que o Xá e seus comandantes começassem a planejar a criação da maior força aérea da região.

Por outro lado, também contribuiu para a decisão norte-americana de abrir ao Irã seu arsenal a aproximação, nos anos 1960, do Iraque com a União Soviética, bem como as manifestações de hostilidade aos EUA, por parte do regime ba´athista. Embora a partir de 1969, o presidente iraquiano Saddam Hussein fizesse uma política pendular, aproximando-se tanto dos EUA quanto da URSS, as fortes aquisições de armamentos, combinadas com uma política externa independente e de caráter terceiro-mundista, e uma política econômica agressiva apressaram a decisão norte-americana de favorecer o Irã. Os dois países não tinham problemas aparentes, mas havia uma disputa não resolvida na região do canal Shat-el-Arab, estuário dos rios Tigre e Eufrates, fronteira territorial mas reivindicado por ambas as nações.

Desde 1971 os iranianos vinham avaliando a aquisição de um novo interceptador para sua força aérea, decisão apressada pelas freqüentes provocações da Força Aérea da URSS, que se tornaram constantes após a entrada em serviço do MIG25 Foxbat. O MIG25 voava muito alto e muito rápido, e os Phantom e F5E Tigers iranianos sequer conseguiam aproximar-se dos incursores soviéticos.

Os motivos pelos quais os F14 foram escolhidos pelos iranianos foram diversos, mas o principal deles é que a geometria variável (que o MIG23 também tinha), uma tecnologia considerada revolucionária, permitia o uso de pistas curtas (tanto que os Tomcat eram aeronaves projetas para uso em navios-aeródromos) e relativamente pouco preparadas. Os sensores dos F14, centrados no radar pulso-Doppler, que utiliza o chamado “efeito Doppler”, uma característica das ondas que distorce sua recepção pelo observador, em relação ao emissor. Esse efeito é muito útil para determinar a distância a que se encontra um alvo. Os F14 estavam equipados com um radar AN/AWG9, fabricado pela Hughes, capaz de rastrear 24 alvos e operar até 6 mísseis Phoenix AIM54 simultaneamente. Até então, os F14 e seus sistemas de armas ainda não haviam sido testados em combate, mas exercícios extensivos feitos no Pacífico pela Marinha dos EUA indicavam que a combinação F14/ AN/AWG9/AIM54 mostravam ser a combinação letal.

Inicialmente, a Imperial Força Aérea Iraniana adquiriu 30 F14A, diversos kits de sobressalentes e 454 AIM54. Esse contrato, conhecido como Persian King e fechado em janeiro de 1974, se afigurava como a maior venda de armamento da história dos EUA, no valor de 320 milhões de dólares. No final do ano, os iranianos manifestaram interesse em adquirir mais 50 F14A e quase 300 mísseis, bem como um sistema de radar terrestre no valor de cerca de 600 milhões de dólares. Toda a encomenda alcançava os 2 bilhões de dólares e era, de fato, a maior venda de armas feita para um único pais, até então.

O Grumman F-14 Tomcat é uma aeronave de geometria variável projetado para operação em navios-aeródromos de esquadra. Trata-se de uma história de sucesso típica da Guerra Fria. Testado diversas vezes em combate, revelou-se, quando bem operado, um sistema de armas eficiente e altamente confiável.
O F14 foi projetado partir do conceito introduzido nos EUA pelo mal-sucedido F111, colocado em serviço em 1967 pela General Dynamics. Originalmente, havia a proposta de se criar uma versão navalizada do F111, que evoluiu para a o conceito de um caça de defesa de esquadra, desenvolvido junto com a Grumman.

Como o F111, o F14 aplica o conceito de “geometria variável”, estudado pela primeira vez pelos alemães, em 1944, e extensivamente pesquisado tanto por norte-americanos, quanto por soviéticos, ao longo dos 30 anos seguintes. A possibilidade de variar o enflechamento das asas possibilita a aeronave aumentar o arrasto aerodinâmico durante a decolagem e o pouso, o que implica em uma maior sustentação em baixa velocidade, tornando possível o aumento do peso do conjunto e o uso de pistas menores – conceito ideal para o uso em navios-aeródromos.

O fracasso do F111, que logo foi relegado à funções de guerra eletrônica, fez com que a GD abandonasse o projeto. Vendo-se sozinha na empreitada, a Grumman resolveu por alterar todo o conceito. Na época (1968), o surgimento do míssil AIM54 e de um radar multi-modo funcional levou a que a companhia modificasse o desenho da aeronave para ser preferencialmente um vetor dessa nova arma. A complexidade do conjunto radar-míssil e o estágio ainda relativamente rudimentar dos computadores de bordo tornou necessária a manutenção de um segundo posto de tripulante, na parte traseira do cockpit,ocupado por um especialista em controle de armas. Posto em serviço em 1971, o F14A mostrou alguns problemas, mas estava claro que o desenvolvimento do conjunto acabaria resultando num sistema de armas de alta confiabilidade.

O F-14A alcançou plena operabilidade por volta dos meados dos anos 1970, chegando, após essa data, a registrar algumas vitórias contra aeronaves líbias e iraquianas. Deve-se destacar que boa parte do desenvolvimento do tipo deveu-se às observações feitas nas operações da versão vendida aos iranianos, que chegou a ser testada contra aeronaves soviéticas de primeira linha.

Alguns dos sistemas instalados no F14 eram muito novos e foram efetivamente testados nas aeronaves entregues ao Irã. Um dos melhores exemplos é o interrogador de IFF (identification, friend or foe) APX82A. Tratava-se de um sistema que, na época, era ultra-secreto, e visava identificar o sinal IFF emitido pelas aeronaves adversárias, possibilitando sua localização precisa em distâncias de até 200 quilômetros. Até então, os sistemas IFF baseavam-se num sinal criptografado, enviado por uma aeronave e captado conforme um radar iluminava essa aeronave. O APX82A permitia que o sinal IFF fosse identificado sem que o radar de bordo tivesse de ser ligado. Esse sistema tinha sido desenvolvido em função do surgimento de mísseis chamados “anti-radiação”, que eram atraídos por emissões de rádio. A versão iraniana desse sistema era programada para identificar apenas sinais com características soviéticas, mas incapaz de decifrar sinais norte-americanos, ingleses ou franceses.

Os norte-americanos também modificaram diversos outros sistemas dos F14A, que se tornaram menos eficazes ou simplesmente foram omitidos: sistemas de navegação inercial, sistemas de orientação por satélite, sistemas de contra-medidas eletrônicas simplesmente desapareceram da versão iraniana. O grupo propulsor formado, na versão norte-americana, por duas turbinas Pratt and Whitney TF30-PW412 foram substituídas por duas TF30-PW414, um pouco menos potentes. O motivo era que as PW412 apresentavam problemas de manutenção, enquanto as 414 eram mais robustas e adequadas para as condições encontradas no Irã.

A ativação das primeiras unidades de F14A iranianas foram cercadas por problemas de todos os tipos. Apesar da permissão para que a aeronave fosse entregue, o acordo de venda continha diversas cláusulas que virtualmente faziam dos norte-americanos “sócios” dos iranianos. Como os sistemas da aeronave, ainda que simplificados, eram extremamente avançados, a manutenção não era feita no Irã, mas nos EUA; e tanto fornecedores quanto os militares norte-americanos não permitiam a presença de iranianos durante o processo. A maioria das partes componentes (inclusive turbinas e atuadores de enflechamento das asas) tinha de ser enviada aos EUA sob responsabilidade de técnicos norte-americanos, que trabalhavam nas bases da RFAI (a principal delas situada na cidade de Esfahan, aproximadamente 400 quilômetros ao sul de Teerã, e a meio caminho entre o Golfo Pérsico e o Mar Cáspio) pagos pelo governo iraniano. Essa situação criava tensão entre iranianos e norte-americanos, além de manter mais da metade dos F14 no chão, a maior parte do tempo. O mesmo acontecia – e de certa forma, de modo ainda mais restritivo – com os AIM54.

Os iranianos adquiriram também mísseis de guiagem IR AIM9P Sidewinder, e também o AIM7 Sparrow, na versões E4 e E2, de guiagem a radar, que não eram versões de último tipo, mas eram compatíveis com o radar AN/AWG9, e também podiam ser usados nos F4E.

Gostaram? Pois os F14A continuam em operação, e, segundo dizem, melhores do que antes. Vamos ver na próxima semana.

O filminho é interessante não tanto pela qualidade – não tem nenhuma – mas por mostrar um panorama bem atual da FARII, inclusive  apresentando os mais de 150 aviões iraquianos que os xiitas da força aérea de Saddam Hussein simplesmente presentearam ao Irã, nas duas Guerra do Golfo. Entravam nos aviões e iam pousar nas bases iranianas – e estão lá até hoje. Notem, no final da peça (bem ruim, por sinal – até o You Tube tem lá seus limites…), o caça que está sendo desenvolvido pela indústria local, com base no F5E::

A Rússia Pós-Putin::

E causa:: retorna, depois de uma longa semana de ausência. O problema é que o redator tem outras atividades, sem dúvida alguma menos interessantes, mas que têm de ser cumpridas.

Imagino a falta que os tarados devem ter sentido da sensualidade dos sistemas de armas das terças – afinal, dizem que armas são uma forma de extensão da potência sexual do homem. Imagino, então, que não exista ninguém na face deste planeta tão atraentequanto George Walker e sua contrafacção russa, Vladímir Vladímirovitch – afinal, os dois dispõem de potência suficiente para detonar o mundo sete vezes… Será que as mulheres ficam excitadas com tamanha sensualidade…

Portanto, vamos ver se colocamos o “Sistema de armas” da terça no ar hoje ou amanhã.

Por ora, vamos nos estimular com uma interessante análise da situação política da Rússia após Putin. Afinal, por mais duvidosas que sejam suas práticas políticas, Putin estabilizou o país, após o fracasso da fórmula “Comunidade de Estados Independentes”. Não sei se a memória política dos leitores chega a tal ponto, mas refiro-me à situação em que se encontrava a URSS logo após o fracasso da tentativa de golpe militar: Gorbatchev presidente da União Soviética e o bêbado pop Bóris Ieltsin como presidente da Rússia. Em setembro de 1991, uma sessão extraordinária do Congresso dos Deputados do Povo reuniu os dois mais os presidentes de nove repúblicas soviéticas, os quais apresentaram um plano de transição que buscava estabelecer os parâmetros para uma nova união entre as diversas repúblicas, extinguindo formalmente a estrutura de poder criada em 1921.

Embora contasse com o apoio dos líderes ocidentais, a posição de Gorbatchev, bastante frágil, era agravada pela situação econômica. A desorganização da economia era visível nas prateleiras vazias dos supermercados e nas filas intermináveis para comprar produtos básicos e no colapso da infra-estrutura. Durante algum tempo, o país parecia destinado a esfacelar-se.

Em 8 de dezembro, numa espécie de golpe branco contra Gorbatchev, os presidentes das repúblicas da Rússia, Ucrânia e Bielo-Rússia, reunidos na cidade de Brest na Bielo-Rússia, criaram a Comunidade de Estados Independentes (CEI), decretando o fim da União Soviética. Alguns dias mais tarde, em 17 de dezembro, Gorbatchev foi comunicado de que a União Soviética seria extinta oficialmente na passagem de Ano Novo.

O resto da história já é mais conhecido: Ieltsin tornou-se governante de fato, mas o modo como o URSS foi desmontada lançou um verdadeiro o país num verdadeiro caos. Ieltsin mostrou-se totalmente inconfiável, e as nações ocidentais não cumpriram as promessas de ajuda econômica, fazendo ao contrário, exigências de desarmamento que não poderiam ser aceitas pois a estabilidade do governo da Rússia dependia do apoio das forças armadas, por um lado, e, por outro, do establishment da burocracia do partido e da comunidade de informações e segurança. Foi desse establishment, que havia aparelhado fortemente o aparato de Estado, na época da URSS, que saiu Vladimir Putin.

Putin tinha sido um funcionário de alto escalão da KGB, durante o período final da URSS. Ligado ao círculo de Iuri Andropov, antecessor de Gorbatchev, renunciou ao cargo de diretor de relações externas da KGB em 1991 para entrar na carreira política. Em 1996 foi nomeado ministro de políticas externas no governo de Ieltsin. Eleito presidente da Federação Russa em março de 2000, desde então tem feito uma política que alterna a modernização do país com o restabelecimento gradual da estrutura política da antiga URSS. A conjuntura econômica extremamente favorável permitiu que a infra-estrutura produtiva fosse reorganizada, utilizando as bases montadas durante o regime comunista. Dentre outros sucessos a Rússia tem se tornado um produtor considerável de tecnologia, principalmente nas áreas de telecomunicações, telemática, química e aeronáutica. A indústria de armamentos tem funcionado como agregadora desse processo.

O artigo abaixo foi publicado pelo excelente Jornal de Defesa e Relações Internacionais, e é de autoria do analista Alexandre Reis Rodrigues. Sofreu algumas adaptações para o “português brasileiro”, mas de resto, não sofreu alterações.

Divirtam-se.

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Para quem se entretém em especular sobre o que poderá vir a ser a Rússia depois de Putin abandonar a Presidência no próximo ano, o espaço para prever mudanças é já quase inexistente. É cada vez mais claro que, mesmo sem Putin na Presidência, a Rússia continuará a ser exatamente aquilo que tem sido sob a sua liderança.

Putin, como sempre disse, vai respeitar a Constituição e nem sequer quer acolher a disponibilidade dos seus correligionários para adaptá-la, permitindo-lhe um terceiro mandato. Contenta-se em aceitar a liderança do partido majoritário “Rússia Unida”, que lhe foi oferecida dias atrás. Essa posição o torna o virtual eleitor de si mesmo para o cargo de primeiro-ministro do futuro governo. Embora tenha dito ser muito cedo para falar nisso, também tem dito ser hipótese “realista”.

Putin, mais uma vez, mostra grande capacidade de surpreender a todos: ninguém chegou a imaginar a possibilidade apresentada pelo partido. Analistas sugerem que Putin se inspirou na trajetória de Deng Xiaoping, que, mesmo fora da presidência do país e do partido, continuou a ser o líder de fato da China, entre 1978 e 1990.

O cargo de primeiro-ministro é geralmente o primeiro passo para ser presidente, mas o contrário não é usual. No entanto, no caso de Putin, vem ao encontro de interesses de médio prazo, para os quais não falta apoio. É a melhor forma de continuar a dirigir ativamente os destinos do país até poder, à luz da Constituição, voltar à Presidência.

A grande maioria na Rússia parece simpatizar com essa solução, por ver em Putin a garantia de um Estado forte, nacionalista, que, baseado nos valores tradicionais russos, continuará a se expandir economicamente. Um exemplo da popularidade de Putin: o Prêmio Nobel Alexandre Soljenitsin, depois de ter recusado de Ieltsin (que responsabilizava pelo estado de miséria do povo russo) uma importante homenagem, não hesitou em aceitá-la de Putin.

Se o seu sucessor for um correligionário absolutamente leal como, por exemplo, Viktor Zubkov, recentemente nomeado para primeiro-ministro, o período de Putin como líder partidário/primeiro-ministro poderá ser mais curto que o esperado. Zubkov, um ilustre desconhecido, aparentemente sem maiores ambições políticas e já com 65 anos, pode dar uma ajuda resignando ao cargo mais cedo.

Se esta hipótese se confirmar, Sergei Ivanov e Dmitri Medvedev, apontados como os mais prováveis sucessores de Putin, serão os maiores prejudicados. Isto, no entanto, interessa muito pouco; Putin pode lidar com estes “problemas”: sua popularidade lhe permite escolher e adotar a estratégia que lhe for conveniente.

Segundo especialistas na Constituição russa, o primeiro-ministro pode exercer o poder efetivamente, relegando o Presidente ao papel de figura simbólica. É o que convém a Putin e Zubkov provavelmente já está ciente que a sua inesperada nomeação para o cargo de primeiro-ministro terá esse preço.

Os EUA não vão ter facilitada a resolução dos graves conflitos em que estão envolvidos, principalmente, o do Iraque e Irã. Já não é questão de ter ajuda da Rússia- é ter que enfrentar a sua oposição. Putin não parece disposto a ver a Rússia perder mais da influência que a ex-URSS teve durante a Guerra Fria. Parte da que já foi perdida – a Europa Oriental – é irrecuperável, mas Ucrânia, Geórgia, Bielorússia ainda são altamente dependentes da Federação Russa. Nos Países Bálticos, Putin pressionará para que cesse o apoio ocidental à hostilidade latente à Rússia, e que haja limites à presença da OTAN. Outro ponto de atrito considerável é o escudo antimíssil planejado pela administração norte-americana para instalação na Polônia e República Tcheca.

Putin sabe que os EUA precisam da Rússia para resolver, entre outros, os problemas do Irã e Iraque. Embora não querendo um Irã com armas nucleares, certamente não se importará se a república islâmica complicar a já difícil vida dos EUA, prolongando a permanência dos norte-americanos no Iraque. Teerã nem precisa ser incentivada, bastando alimentar a hostilidade que, há quase um quarto de século, envenena as relações entre os dois países. O problema é isto implica em que a Rússia conclua da central nuclear de Bushehr, ponto bastante complexo. Pôr a central em funcionamento colocará o Irã a um passo do estatuto de potência nuclear.

Moscou quer atrasar o mais possível a perda do principal instrumento de influência sobre o Irã, o que acontecerá quando a central nuclear começar a funcionar e os iranianos deixarem de precisar da assistência russa; também não quer entrar em atrito com os países árabes sunitas do Médio Oriente, que vêem com apreensão a ajuda dada ao Irã. Em artigo anterior a partir desta hipótese, desenvolvi a idéia de que a central não será concluída no atual mandato de Putin.

No entanto, o problema deverá surgir, fatalmente, em 16 de outubro quando Putin visitar Teerã, quando pretende reunir os outros países banhados pelo mar Cáspio, para discutirem interesses comuns. O que for então decidido dará uma indicação do tipo de equilíbrio que a Rússia vai procurar manter para não perder a atual oportunidade de continuar a dificultar a vida a Bush, de modo a negociar em posição vantajosa e não deixar o Irã enveredar por caminhos que lhe convêm tanto quanto aos EUA. Vai ser interessante acompanhar o processo::