A guerra pós-clausewitziana::


A guerra pós-clausewitziana

Para Carl Von Clausewitz, oficial prussiano que criou a teoria moderna da guerra, com o fim das guerras napoleônicas e a Paz De Viena em 1815, “guerra” significava conflito armado entre Estados. O padrão de violência organizada que predominou antes de 1648 era irrelevante. Mas, na prática, o monopólio estatal da violência estava longe de ser completo, mesmo na Europa da época em que a obra de Clausewitz, Da Guerra, foi publicada, em 1832. Em muitos países europeus o alcance do poder do Estado não ia muito longe. A maioria dos governos europeus só assumiu o monopólio efetivo da força depois da Primeira Guerra Mundial. Ainda assim, Clausewitz estava certo em ver na guerra entre Estados, o futuro. Ao longo ddos seguintes 170 anos, as guerras travadas o foram entre governos.

Outro pensador seminal para a modernidade, Max Weber, também considerava que o elemento definidor dos Estados modernos é o monopólio da violência organizada. Weber também considerava que o Estado é produto dos métodos racionais de pensamento e ação promovidos pela ciência. No final do século XX, entretanto, esta visão de Estado estaria parcialmente ultrapassada, visto que em muitas regiões do mundo, o monopólio da violência foi quebrado. A difusão da ciência e da tecnologia não correspondeu à promoção de Estados modernos. Ao contrário, produziu um novo tipo de guerra, não previsto pelos teóricos.

No Oriente Médio, na Caxemira, no Afeganistão e em diversas outras zonas de conflito, a guerra não é travada apenas por Estados organizados. Organizações políticas, milícias organizadas e redes fundamentalistas adquiriram poder suficiente para começar e dar continuidade à guerras. Podemos chamar essa nova fase de guerra pós-clausewitiziana.

Isto não significa que a guerra, conforme a teorizou Clausewitz, tenha desaparecido. A maioria das guerras do último quartel do século passado foi travada entre Estados.

O novo tipo de guerra, que pode ser definida como “não-convencional”, desenvolveu-se no contexto de Estados muito enfraquecidos ou colapsados, em nada parecidos com um Estado moderno: África, Afeganistão, Haiti, Bósnia, Chechênia e Albânia podem ser colocadas nesse saco. São regiões nas quais o Estado fracassou, e não mais mostra condições de servir como parâmetro para o conflito. Os envolvidos travam a guerra sem levar em consideração nenhuma autoridade que não a dos líderes de facção ou grupo, e nenhum objetivo que não os próprios.

A guerra não-convencional do tipo praticado pela al-Qaeda também se beneficia da fraqueza dos Estados fracassados de outra maneira. Exércitos irregulares e organizações políticas que praticam a nova forma de guerra costumam a estar ligados à economia criminosa global, conseguindo fundos via atividades ilícitas. Neste ponto, a globalização beneficia a todos quantos tenham uma mínima capacidade de organização: estes se tornam capazes de mover fundos de uma lado para outro, sem o menor empecilho. Neste ponto, pode-se dizer que o “deus-mercado” alimentou o monstro, ao promover a idéia de que o retraimento dos governos seria condição vital para o desenvolvimento econômico, via remoção dos entraves aos fluxos de capital. Na prática, isso significou um a criação de um capitalismo financeiro descontrolado, deslocando-se de um lado para outro e promovendo o enfraquecimento de governos constituídos, via “ataques especulativos” e “abordagens agressivas”. Organizações terroristas aprenderam a usar o cassino global como forma de movimentar e gerenciar seus fundos, muitas vezes sem deixar traços.

Um outro elemento resultante do fracasso dos Estados foi o enfraquecimento do controle sobre os meios de violência. Isto é particularmente verdadeiro com relação à União Soviética e os países da ex-Cortina de Ferro, todos dotados de indústrias bélicas bem estruturadas e tecnologicamente avançadas. Geralmente, fala-se muito sobre armas de destruição em massa, que alguns dos países resultantes da fragmentação da ex-URSS realmente possuíam, mas este problema foi enfrentado com bastante sucesso. A questão principal é que milhares de cientistas e tecnólogos altamente capacitados ficaram à beira da miséria, em fábricas “privatizadas” de uma hora para outra. A ex-Iugoslávia nunca produziu armas nucleares ou estratégicas, mas foi, até os anos 90, quando mergulhou na guerra civil, um player agressivo no mercado de armamentos convencionais. Milhões armas de todos os tipos, de tanques e peças de artilharia até fuzis automáticos e munição continuaram a ser produzidas e abastecem um mercado ávido, dotado de fundos e disposto a comprar. Estados debilitados, como a Bulgária, submetidos a uma transição descontrolada, passaram a vender armas de seus estoques e das fábricas que controlam. Nunca olhavam com muito cuidado quem estaria do outro lado do balcão.

O terrorismo se beneficia da fraqueza dos Estados, o que não significa que Estados fracos não procurem se beneficiar do terrorismo. Sabe-se hoje que Estados negociaram com a rede al Quaeda, oferecendo o uso de seus territórios em troca de fundos. Sabe-se também que a Arábia Saudita e o Paquistão promoveram a guerra contra os soviéticos permitindo o trânsito livre de combatentes por seus territórios – no caso do segundo e fornecendo grande quantidade de fundos – no caso da primeira. Os objetivos eram diversos, mas envolviam sempre a luta contra Estados laicos ou contra grupos buscando objetivos diversos. Entretanto, a negociação com grupos de ativistas armados é sempre problemática, e nada indica que o Estado envolvido vá adquirir algum controle sobre o grupo com o qual negocia.

A guerra pós-clausewitiziana ainda não foi suficientemente estudada, mas já é possível saber que os parâmetros de análise, tanto militar quanto política talvez não se prestem à ela. O que está claro é exatamente seu aspecto mais preocupante: uma guerra pós-clausewitziana é muito difícil de ser travada, e mais difícil ainda de ser vencida.

 

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2 pensamentos sobre “A guerra pós-clausewitziana::

  1. Bitt,

    Eu incluiria na sua definição de guerra pós-Clausiwitziana o Líbano. O governo libanês é fraco o suficiente para que o território permaneça como palco das disputas entre as várias facções palestinas e árabes, a Síria e Israel. A última guerra travada por Israel no território libanês é a expressão do que se afirma. Não há nem houve nenhum desejo e capacidade do governo libanês de declarar guerra a Israel. O território libanês foi apenas o teatro de operações para forças regulares e irregulares em disputa.

  2. Concordo!
    É que, para não tornar esses textos mto longo, eu os divido, e no próximo post sobre o assunto, direi algo a respeito! ;c)

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