A estratégia da guerra pós-clausewitziana::


(NYTimes.com)A jihad em imagens(15 de outubro)

Quando Osama Bin Laden divulgou mensagem de vídeo para o povo americano, mês passado, um jovem entusiasta da jihad ajudou a espalhar o conteúdo. “A América precisa ouvir o xeque Usaamah e levar sua mensagem a sério”, escreveu ele em seu blog.

O blogueiro é Samir Khan, um americano de 21 anos, morador na Carolina do Norte, onde montou uma espécie estação distribuidora para produções de grupos islâmicos radicais. Nos últimos dias, a estação de Samir distribuiu as “alegres notícias” sobre a morte de 31 soldados argelinos por um grupo radical do norte da África. Também pode ser baixado um tratado acadêmico que defende a jihad violenta, devidamente traduzido para o inglês. Também estão lá centenas de links para sites violentos contendo imagens da insurgência no Iraque. Nascido na Arábia Saudita e criado em Queens, Nova Iorque, Khan é um soldado do que a al Qaeda chama “mídia jihadista”.

Não há nada que sugira que Khan esteja agindo de forma coordenada com líderes radicais ou infringindo qualquer lei. Ele é parte de um grupo crescente de operadores de mídia que estão transmitindo a mensagem da al Qaeda e de outros grupos, uma mensagem que se dirige cada vez mais ao publico ocidental.

Especialistas em terrorismo da Academia Militar dos Estados Unidos dizem que há cerca de cem sites em inglês, que oferecem a visão de radicais islâmicos. Esses parecem estar criando um canal com jovens muçulmanos americanos e europeus ao jogarem com o ódio que a guerra no Iraque desperta e com a imagem de um Islã sob ataque.

Os textos originais árabes, longos e tediosos para os padrões ocidentais, são retrabalhados, usando técnicas de publicidade. Folhetos de recrutamento são distribuídos e encontra-se até novelas online, todas com temas sobre a jihad. Sites como o YouTube também tem servido como veículo para esse matarial.

A al Qaeda usa a Internet há anos, mas quem acompanha as novas produções concorda que o material melhorou muito em qualidade, e se tornou atraente para um público acostumado com a rapidez da Internet.

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Segundo Rohan Gunaratna, pesquisador-chefe do Centro Internacional de Pesquisa sobre Violência Política e Terrorismo da Universidade Técnica Nanyang, de Singapura, “a al Qaeda é uma organização essencialmente moderna”. É uma declaração surpreendente, embora saibamos que a organização já demonstrou grande habilidade no uso de meios de comunicação de massa e do sistema financeiro internacional da era da globalização. Mas, segundo Gunaratna, não são essas habilidades que demonstram o caráter moderno da al Qaeda, mas o fato de que a organização demonstrou entender perfeitamente que as guerras do século XXI tem na disseminação de imagens espetaculares em tempo real uma estratégia central. No ataque às Torres Gêmeas, a organização de Bin Laden mostrou uma capacidade surpreendente de conceber o uso da televisão via satélite para mobilizar o apoio dos países muçulmanos.

A modernidade da al Qaeda também fica patente conforme sua organização se mostra distante da estrutura centralizada e burocrática dos partidos revolucionários do século XX, e mais próxima da organização celular dos cartéis de distribuição de drogas e das redes planas das empresas virtuais. A al Qaeda assemelha-se à uma multinacional, sugere Gunaratna. Surgida na fase final da Guerra Fria, financiada pelos sauditas e com beneplácito dos EUA e dos governos europeus, terminada a guerra contra os soviéticos, tornou-se o primeiro praticante da guerra não convencional capaz de dar escala mundial às suas operações. “Em vez de resistir à globalização, suas forças estão sendo reunidas por grupos islâmicos contemporâneos, constantemente atrás de novas bases e novos alvos pelo mundo”, diz o pesquisador.

A guerra pós-clausewitziana parece que será travada por pequenas unidades com alto grau de iniciativa, dependendo essas unidades de sua capacidade utilizar localmente recursos levantados em escala global, inclusive comunicando-se através da Internet. Essa aparente flexibilidade, que lança mão tanto da motivação individual mobilizada pela ideologia quanto de recursos tecnológicos bastante sofisticados, mas, ao mesmo tempo, acessíveis a qualquer um com certo grau de conhecimento técnico, mostra sua face na capacidade dos pequenos grupos em colocar forças bem maiores em posição de defesa. O grau de iniciativa também fica patente na capacidade que a rede al Qaeda demonstra em sobreviver ao isolamento de seu líder.

Outra demonstração recente do caráter da guerra pós-clausewitziana foi dada durante a invasão de Israel ao sul do Líbano, com o objetivo de anular o grupo militante xiita Hezbolá. Israel declarou que a responsabilidade sobre as ações do grupo xiita era do governo do Líbano, que estaria permitindo o uso de seu território. Isso demonstrou uma curiosa incapacidade em entender o caráter assimétrico por excelência da guerra pós-clausewitziana. Após mais de 40 dias de operações que provocaram sérios danos à infra-estrutura civil do Líbano, as forças armadas de Israel se retiraram do Líbano sem alcançar nenhum dos objetivos a que haviam sido propostos.

A milícia do Hezbolá mostrou grau de treinamento e disciplina que surpreendeu os israelenses e a maioria dos analistas ocidentais. De fato, alguns falaram em uma vitória parcial do Hezbolá, enquanto outros apontaram uma espécie de “empate técnico”. Usando armas convencionais provavelmente fornecidas pelo Irã e pela Síria, os milicianos xiitas conseguiram ,em algumas ocasiões, interditar o terreno às unidades blindadas de Israel. A utilização de equipamentos como o lança-rojão RPG-29 e óculos de visão noturna mostraram um novo estilo de guerra assimétrica, na qual o lado mais fraco mostra-se capaz de colocar em xeque o lado mais forte. A vulnerabilidade israelense residia exatamente no uso de forças convencionais de difícil operação. Os milicianos, dispersos pelo território, dotados de uma perfeita consciência do terreno e armas adequadas, demonstraram capacidade de tomar decisões mais rapidamente que o exército de Israel.

O uso da população civil como escudo, embora seja bastante cruel, em sua essência, é extremamente eficaz, já que torna as ações militares, principalmente as que envolvem aviação, extremamente antipáticas, e obrigam o adversário a justificar-se perante seus aliados.

A guerra pós-clausewitziana pode significar um retorno à noção de estratégia indireta, teoria formalizada pelo analista inglês Basil Lidell-Hart. Essa idéia faz um certo sentido, diante da posição ocupada hoje pelos EUA, no panorama militar. Após a Segunda Guerra Mundia, a adesão ao princípio de “revolução em questões militares” deu aos EUA a supremacia inquestionável sobre o campo de batalha. Enfrentar uma estrutura assim organizada, diretamente, é impossível. Mas enfrentá-la indiretamente é possível, como temos visto em algumas situações, caso recorramos à história militar. Talvez outro aspecto da guerra pós-clausewitiziana seja exatamente o fato de que forças armadas convencionais estejam se encaminhando para o declínio – estruturas muito dispendiosas, em todos os sentidos, e inúteis, diante da assimetria de poder. Entretanto, não deixa de ser interessante pensar que, aquilo que a URSS não conseguiu (e desapareceu tentando…), bin Laden e seus ativistas têm conseguido. A al Qaeda é o futuro da guerra? Se for, talvez já estejamos vivendo o futuro.

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6 pensamentos sobre “A estratégia da guerra pós-clausewitziana::

  1. Bitt,

    Quanto às consdireações sobre guerra pós-clausewitziana nenhum reparo.

    Mas forças convencionais têm um papel importante na estrutura de poder americano, por exemplo. O complexo industrial militar tem um peso na economia deles simplesmente espantoso. Praticamente toda grande corporação americana tem um braço lá, quando não os dois braços. A Remington era conhecida aqui por fabricar máquinas de escrever, a GE por fabricar lâmpadas, etc. Lá o principal negócio dessas corporações é a produção de armamentos.

    As forças convencionais criam demanda para o complexo industrial militar.

    Agora, quando se trata de operações as forças convencionais não têm vez nem nos US Armed Forces. Há muito tempo que o trabalho pesado e sujo no Iraque está sendo feito por empresas de segurança que utiliza como mão de obra ex-militares remunerando-os muito bem por isso, e forças especiais.

    Não sei se é correto afirmar que a utilização em larga escala desses contingentes armados, no tocante às empresas de segurança, caberia na definição que você esboçou. Mas creio se tratar de um desdobramento da assimetria. o lado mais forte também abandona o aspecto convencional do combate no momento em que terceiriza as tarefas de alto risco e potencial de enfrentamento com forças irregulares aos mercenários vinculados às empresas.

    A convenção de Genebra foi para o vinagre.

  2. Cláudio,
    Temo uma questão bem interessante aí – o fato de que certas atividades militares já estão sendo passadas às mãos de civis. O Iraque talvez seja a primeira campanha militar na qual parte das atividades foram repassadas para empresas particulares de segurança. Segundo andei lendo em blogs de militares americanos, o exército não vê a situação com bons olhos, já aconteceram debates ácidos, mas o governo insiste em manter essas empresas no jogo; na Inglaterra, o treinamento de pilotos de helicoptero foi repassado para uma empresa civil, que treina pilotos envolvidos nas operações de exploração de petróleo. Em ambos os casos, não está funcionando. A corporação militar tem regras q os civis não entendem. O caso do tiroteio da Blackwater foi exemplar – o supervisor mandou cessar fogo e um dos guardas simplesmente continuou atirando.

  3. Alba,
    não consegui encontrar seu comentário, e queria responde-lo, mas uma parte desta interface diz que ele está… e outra diz que … não está… :c( Será q vc pode postá-lo de novo?

  4. É Bitt,

    Mas os “seguranças” e os militares se apóiam. Há uma espécie de sinergia entre uns e outros lá.

    Conheci um desses “seguranças” que atuou no Iraque. Um americano alto e forte, largo como uma porta andou dando um curso por aqui. Ele atuou no Iraque e segundo ele conta, da unidade dele que atuava no Iraque é o único vivo. Não sei se os seguranças entram para as estatísticas de americanos mortos no Iraque.

  5. Bitt,

    Eu, na verdade, nem escrevi alguma coisa assim tão original. Apenas concordei com o Cláudio Melo quando ele observa o peso economico que as Forças Armadas acabam tendo nos EUA porque me lembro de haver lido artigos dando conta de empresas inteiras que literalmente vivem dos equipamentos que fornecem ao Exército.

    No mais e aí peço que me perdoe se estiver completamente errada, mas o texto me pareceu, talvez pelas fontes, talvez por uma leitura apressada, o tipo de de texto que faria a delícia do nosso amigo Mister X por referendar aquela idéia tão cara a ele e a outros da “Ameaça Islâmica”

    Mas que o texto é pra lá de interessanté, é mesmo. Inclusive quando explicita esse casamento insólito entre a mais moderna tecnologia e a ortodoxia ou fundamentalismo islâmico.

    Ainda vou ler o post novo, mas como vê, continuo a mesma zebra quanto a armas. 🙂

    Beijo!

  6. só passando para dar um oi…
    bitt, estou de mal por você sumir e nem dar tchau…
    depois leio o artigo todo…beijim

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