Um sistema de armas às terças::Wild Weasels – sobre o Vietnam, os primórdios da guerra aérea moderna::


Parte I

Temos falado muito, ao longo das últimas postagens de causa::, na moderna guerra aérea – que, antes de tudo, é uma guerra onde equipamentos eletrônicos e alta capacidade computacional voam de um lado para outro, buscando suprimir a capacidade do inimigo, no chão, se defender. Este por sua vez, usa equipamentos eletrônicos e alta capacidade computacional para tentar manter o atacante longe.

Curiosamente, é uma situação muito similar ao “impasse da couraça”, no século XIX. Na primeira metade do século, a revolução industrial tinha criado tecnologias que possibilitaram a fabricação de chapas de metal de alta resistência e um peso relativamente baixo. Os estaleiros militares ingleses e franceses começaram a produzir “navios couraçados”, cujos cascos eram protegidos por chapas metálicas reforçadas. A indústria de armamentos, diante dessa nova realidade, lançou-se na busca de canhões maiores e mais poderosos, o que levava os projetistas navais a aumentar a espessura das couraças. Essa corrida teve resultados interessantes: por volta de 1850, os arquitetos e engenheiros navais estavam convencidos que o aumento dos canhões tinha chegado ao limite, e acrescentaram nos desenhos mais novos uma “arma” que tinha sido abandonada uns quatrocentos anos antes – o esporão. O abalroamento, o uso da massa dinâmica do navio como elemento ofensivo, tornou-se manobra tática estudada pelas marinhas do mundo. Em 1866, na batalha naval de Lissa, o moderníssimo encouraçado italiano Re d´Italia foi afundado pelo não tão moderno austríaco Ferdinand Maximian – a primeira baixa provocada pela “nova” arma; em 1893, o encouraçado Victoria foi acidentalmente metido à pique pelo esporão do couraçado Campertown, num exercício de esquadra ao largo de Trípoli. Os esporões, que provocavam sérior problemas de manobra para os navios da época, só foram abandonados no início do século XX, com o surgimento dos encouraçados da classe Dreadnought, que seriam os reis do mar nos 50 anos seguintes. Outro resultado interessante do “impasse da couraça” foi o surgimento do torpedo automóvel, inventado pelo engenheiro inglês Whitehead. O torpedo de Whitehead usava outra abordagem – alcançar o inimigo onde ele não estaria protegido – abaixo da linha d´água. Era uma solução indireta, mas que modificou a cara das marinhas, pois os novos torpedo-boats, surgidos por volta de 1870, eram navios pequenos e muito rápidos, mas capazes de colocar em xeque as grandes esquadras de batalha. Quando a eficácia do torpedo ficou provada, uma outra corrida começou, buscando estender a proteção blindada até as obras-vivas (as partes da estrutura que, num navio, ficam sempre sob a água).

Ou seja, para cada inovação, rapidamente era introduzida uma espécie de “contra-inovação”. É uma situação similar a que passaram as forças aéreas, no final dos anos 1940. A introdução de bombardeiros a jato, no final da década, levou as duas superpotências a adquirir aeronaves capazes de voar muito alto e muito rápido, tornando praticamente inúteis as baterias de canhões anti-aéreos orientadas por radar, que tinham sido desenvolvidas a partir do final da Segunda Guerra Mundial. Por volta do final da década, surgiu, nos EUA, uma nova arma. Baseado nos projetos alemães, engenheiros norte-americanos da empresa Martin desenvolveram um míssil guiado. O novo sistema de armas mostrou-se capaz de alcançar bombardeiros a jato voando em alta altitude. Mais-ou-menos na mesma época, na União Soviética, também começou o desenvolvimento de uma arma similar. A introdução desses mísseis guiados de grande eficiência chegou a suscitar, entre os especialistas, a idéia de que o uso tático da aviação tinha chegado a seu limite. O sistema norte-americano era o Nike-Ajax, de 1950, e depois, o Nike-Hercules, em 1954; na União Soviética, o desenvolvimento demorou mais tempo, e somente em 1955 começaram os testes com o míssil superfície-ar Lavochkin S-75, O S-75, que se tornou conhecido, no jargão da OTAN como SAM-2 Guideline, mostrou-se bastante eficiente, e foi responsável, em 1960, pela derrubada da aeronave de reconhecimento estratégico U-2, pilotada pelo major Gary Powers.

O S-75 – ainda em uso, hoje em dia, numa versão bastante modificada, notação S-750 – é, de fato, o vetor de um sistema de armas cujo principal elemento é um radar de banda A (VHF) P-12 (Spoon Rest, no jargão do OTAN) com alcance de 275 quilômetros, destinado a prover alerta antecipado sobre aeronaves não-identificadas. Esses radares, instalados em vagões rebocados por caminhão, determinavam a direção e velocidade aproximada do alvo, mas não a altitude. No passo seguinte, quando a aeronave desconhecida se encontra a aproximadamente 60 quilômetros do sítio de radar, o monitoramento é repassado para um sistema de radar P-8, (Fan Song) de banda E (operando em duas freqüências de ondas ultra-curtas). Instalado num trailer, esse sistema é mais preciso, capaz de determinar direção, altitude e velocidade do alvo. Uma vez iluminada a aeronave hostil pelo Fan Song, o míssil é disparado e viaja para o alvo guiado por sinais de rádio emitidos sob controle de um computador de tiro. O sistema pode operar em 4 canais, o que permite o uso simultâneo de até 4 mísseis, que viajam até o alvo em velocidade Mach 4. (aproximadamente 4600 km/h). Nos sistemas mais antigos, apenas um alvo pode ser monitorado, e o sistema disparava em salvas.

O SAM-2 (como os norte-americamos passaram a denominar cotidianamente o S-75) se mostrou capaz de enfrentar todas as aeronaves ocidentais, devido à experiência na Guerra do Vietnam. Em 1965, com o aumento de volume da ofensiva aérea norte-americana sobre o Vietnam do Norte, o governo local solicitou assistência dos soviéticos, Em abril de 1965, vôos de reconhecimento da Força Aérea dos EUA detectaram a preparação de sítios de lançamento e, no mês de julho seguinte, um F4C Phantom da Marinha tornou-se a primeira aeronave derrubada por um SAM-2. Uma grande operação de ataque foi montada pelos norte-americanos, o que levou os norte-vienamitas a deslocar os mísseis para sítios sem preparação prévia, em grande segredo, e concentrando grande quantidade de canhões AA nas proximidades.

Os norte-americanos já estavam, entretanto, estudando contra-medidas para o S-75, desde que, a partir de 1962, grande quantidade deles tinha começado a ser detectada na Europa Oriental, particularmente na Alemanha Oriental e Polônia. O míssil anti-radiação (ARM) AGM-45 Shrike tornou-se operacional em 1964, e sistemas destinados a interferir nos radares de alerta avançado foram aperfeiçoados. Em meados de agosto, os primeiros Shrike foram distribuídos às unidades de combate, e os resultados se revelaram decepcionantes. A unidade tinha um alcance muito pequeno, e precisava ser lançado por uma aeronave em posição muito vantajosa. Logo, os operadores de radar soviéticos descobriram que era bastante deixar o míssil ser lançado e após alguns minutos, desligar o radar. Sem orientação, o míssil caía por falta de combustível poucos tempo depois. Como os sítios de lançamento situavam-se relativamente próximos uns dos outros, a aeronave atacante tornava-se de caçador em caça, pois, durante as manobras evasivas iniciadas após o disparo do míssil, ou tornava-se presa da artilharia AA ou acabava iluminada por outro radar. Outra descoberta amarga dos pilotos americanos foi a incapacidade do Shrike em distinguir o ângulo de emissão de ondas do radar de alerta antecipado, o que fazia que os mísseis, freqüentemente, buscassem uma posição lateral à estação emissora. Baseados nessas deficiências, os operadores desenvolveram táticas que lhes permitiam inclusive determinar se a onda de ataque incluía aeronaves armadas com mísseis anti-radiação.

Os norte-americanos continuaram a desenvolver sistemas e táticas destinadas a anular a capacidade da defesa anti-aérea baseada em SAM. Os sistemas consistiam nos chamados “pacotes de contra-medidas eletrônicas” (ECM pods), que começaram a ser distribuídos ainda em 1965. A tática, desenvolvida graças a esse equipamento, denomina-se, até hoje, SEAD (Supression, Enemy Air Defense). A arma continuou sendo o AGM-45, mas instalado em uma aeronave especialmente modificada para esse tipo de missão. Era o Wild Weasel. Ainda hoje, passados mais de 40 anos, continua sendo o principal recurso de supressão de defesa dos norte-americanos.

Continuamos na próxima terça, porque não se pode falar pouco de um símbolo erótico como o Wild Weasel. Por agora, vejam o filminho, que mostra uma operação de lançamento de SAM-2::

Anúncios

9 pensamentos sobre “Um sistema de armas às terças::Wild Weasels – sobre o Vietnam, os primórdios da guerra aérea moderna::

  1. Espero que os alvos sejam drones. Mas drones voando em formação? Se fossem caças teriam rompido a formação logo após o lançamento dos SAM.

  2. Cláudio, acho que eram drones mesmo. Estava tudo muito calmo na parte de baixo. Interessante é que li uma critíca a revistas de aviação há pouco tempo por suas tendências a supervalorizar os aviões, afinal todo mundo tem anunciantes, e subdimensionar suas falhas.

    Confesso que fiquei surpreso com o texto, afinal já li textos que falavam da “ameaça do SAM´s” mas não das táticas e efetividade dos lançadores e ainda mais das limitações dos wild weasel.

    O que me leva a triste lembrança que nem mísseis antigos como o SA-2 temos por aqui. Só os pequenos Igla e Mistral.

  3. Bitt:

    Não sei se é impressão minha mas, de uns 6 a 8 meses pra cá noto uma retração na quantidade de informações sobre armamento.
    Até o ano passado era muito fácil encontrar na net informações sobre a marinha russa, dos EUA dentre outras, aviões então, nem se fala.
    Tenho cá comigo uma analogia do que aconteceu pouco antes da II Guerra, houve um período em que a troca de informações foi intensa aí, fechou tudo.
    Bom, pode ser só impressão.
    Vai saber…

    :-/

  4. A despeito de posts e mais posts sobre armas de altíssimo poder destrutivo e de tecnologias inimagináveis, eu comungo com meu sargento instrutor de Combate Urbano, que lá nos idos de 78 que afirmava:

    Não interessa o bombardeio, a bomba e o canhão. Quem arranca o inimigo da toca e que com um fuzil encostado na nuca é obrigado a assinar a rendição, ainda é um soldado cançado, sujo e com fome, louco para terminar aquela bagunça e ir para um puteiro…

  5. O Coronel Pires que dava aulas de “Estratégia Urbana” tambem dizia:

    Esqueçam estas merdas todas de ataque. Podem usar todas elas nas cidades do inimigo porque se as coisas derem erradas, vamos acabar mesmo é combatendo em nossas cidades e ninguem vai ser estúpido a ponto de arrasar a própria cidade. Não se acaba com a bicheira matando a vaca. Aprendam a usar direito apenas o que você podem carregar à tiracolo e na mochila – na época era um FAL coronha fixa ou rebatível, uma .45 Imbel de maravilhoso stoping power e granadas. Eu especialmente treinava tambem com carabina Mauser POS para tiros de precisão.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s