Um sistema de armas (da Segunda Guerra Mundial, é claro) às terças:: O feio, o mau e o bom::

Já que dois de meus fiéis leitores manifestaram desejo de ler algo tanto sobre o Sherman M-4 norte-americano quanto sobre o T-34 soviético, resolvi fazer algo diferente: examinaremos o “feio”, o “mau” e o “bom”*. O “feio” e o “mau” são o M-4 e o T-34 – pois um era feio pra burro e o outro, mau à bessa, tanto com o inimigo quanto com os tripulantes, já que o conforto não era propriamente a maior preocupação dos projetistas de equipamentos militares das fabricas soviéticas. E o “bom” é o SdKfz161/PzKpfw IV, porque esses blindados foram o “burro de carga” da Wehrmacht durante a Segunda Guerra Mundial. Não eram os melhores e não granjearam, de modo algum, a fama dos Tigres e Panteras, mas estiveram presentes, com razoáveis graus de sucesso, em todos os campo de batalha em que os exércitos de Hitler se meteram. Bem, neste último texto comemorativo do final da Segunda Guerra Mundial, examinaremos três “obras-primas” que botaram pra quebrar nos campos europeus e norte-africanos: “feio”, o “mau” e o “bom”. Pois, em três capítulos, vamos tentar estabelecer algumas comparações entre esses três tipos, de modo a tentar relativizar alguns mitos em torno da arma blindada durante a última guerra. E isso sempre dentro da filosofia do redator: por mais sedutores que tenham sido os armamentos, a habilidade e a coragem dos exércitos nazistas, temos de, a cada dia, considerar a sorte que toda a raça humana teve com o fato de que eles não foram nem tão melhores, nem tão mais habilidosos e, muito menos, mais corajosos do que suas contrapartes ocidentais.

Segue-se um breve estudo sobre o “feio” – o tanque médio M-4 Sherman, produzido nos EUA. Logo em seguida publicaremos um artigo sobre o “mau” – o T-34 soviético -, seguido por um texto sobre o “bom” – o Panzer IV alemão. Por último, tentaremos fazer uma comparação razoável de prós e contras dos três tipos.

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*Não, vocês não se enganaram. O título deste post é um trocadilho infame com o nome do conhecido western spaghetti de 1979 – The good, the ugly, the bad (Il buono, il brutto, il cattivo) dirigido por Sergio Leone, com Clint Eastwood, Lee van Cleef e Antonio Casale. Não causará nenhuma estranheza aos leitores do Papo de Homem, porque todo macho assumido gosta de um bom filme de faroeste. Quanto aos leitores do WebLog do PD, do Catatau e do Milliway´s Lounge… Esses aí escondem, mas também gostam… :c)

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O feio

O tanque médio do exército norte-americano M-4 fez seus primeiros testes no campo de provas de Aberdeen, Maryland, em março de 1941 e entrou em produção em outubro do mesmo ano. Onze plantas industriais participaram da fabricação do M-4. O novo veículo blindado entrou em serviço ativo no final do ano seguinte.

O nome “Sherman” foi uma designação britânica, e, ainda que não fosse um nome oficial, tornou-se amplamente difundido entre as tropas norte-americanas. O M-4 foi largamente utilizado pelo Exército dos EUA, Corpo de Fuzileiros Navais, Grã-Bretanha, Canada, Austrália, França Livre, China e, em menor escala, pela União Soviética.

Esse tanque médio resultou da necessidade de substituir o M-3 Lee**. Este tanque, distribuído pelo Exército dos EUA do final dos anos 1930, era aperfeiçoamento de outro desenho, o tanque M-2, sendo basicamente uma versão mais pesada desse último, tanto em blindagem quanto em armamento. O sucesso dos modelos alemães PzKpw III e IV, veículo leves, velozes e de silhueta baixa, fizeram com que os norte-americanos começassem a pensar em um novo modelo, capaz de enfrentar os alemães. Daí resultou a idéia de adotar o armamento principal do M-3, um canhão de baixa velocidade capaz de disparar tanto munição de alto-explosivo quanto perfurante de blindagem, numa torreta de desenho mais moderno. O M-3, seguindo uma tendência inaugurada pelos franceses, tinha um canhão de 75 milímetros instalado num reparo lateral, posicionado no casco do veículo, ao lado da posição do motorista. A desvantagem dessa solução era praticamente eliminar o movimento de conteira (giro de 360 graus), o que tornava a operação do veículo extremante complicada, já que todo o conjunto tinha de se mover, para que o canhão principal fosse apontado. Numa torre convencional, um canhão de 37 milímetros, de alta velocidade, podia ser apontado independente da direção em que o veículo estivesse se movendo.

O desenho do M-4 levava em consideração a doutrina norte-americana que favorecia a velocidade e mobilidade sobre a proteção. Pensavam os teóricos norte-americanos que velocidade e mobilidade, num campo de batalha de máquinas se deslocando em alta velocidade, funcionariam como uma “blindagem extra”. De fato, essa teoria não era nova, e tinha sido elaborada pouco antes da Grande Guerra, pelo almirante britânico lord Fisher, e deu na proposta – totalmente furada – do cruzador-de-batalha. A idéia foi um fiasco, e acabou sendo responsável por alguns dos maiores desastres ingleses nos principais encontros navais daquele conflito. A doutrina do exército norte-americano, no período entre-guerras colocava o tanque como equipamento de suporte de infantaria motorizada, e devia ser capaz de mover-se rapidamente, acompanhando as tropas. Em 1940, examinando a doutrina alemã que estava sendo chamada pela imprensa de blitzkrieg, os norte-americanos concluíram que a grande velocidade impressa pelos alemães às campanhas constituía uma espécie de “proteção adicional” que explicava como veículos tão leves quanto os utilizados pelos alemães conseguiam se sair bem contra unidades mais armadas e protegidas. A soma de equívocos resultou num veículo que, de certa forma, não era concebido para combater outros tanques.

O novo projeto foi apresentado em meados de 1940, mas alguns atrasos aconteceram devido a problemas com o desenho da torreta, destinada a receber um canhão de 75 milímetros de média velocidade de boca e uso geral. O protótipo apresentava diversos elementos comuns com o M-3: casco soldado e rebitado em partes e chassi em peça única alojando um motor Continental R950 e o tanque de combustível (gasolina de baixa octanagem) na parte traseira, e habitáculo da tripulação na metade dianteira. Também foi herdada do M-3 a suspensão de molas verticais e lagartas com elementos de contato em borracha. A roda de tração era dianteira, e a direção era feita através de dupla caixa de mudanças.

A fabricação foi planejada de modo a incorporar a grande experiência da indústria norte-americana de veículos a motor, principalmente o sistema de produção em série em uma mesma unidade industrial. O Sherman foi, praticamente, o modelo-padrão das forças blindadas ocidentais. Sua produção alcançou mais de 40000 unidades, dentre as quais 18000 foram distribuídas entre as forças armadas dos EUA e o restante, aos ingleses, canadenses, australianos, chineses, franceses livres e até mesmo aos soviéticos. A produção se iniciou em três plantas especializadas em equipamentos pesados de transporte – Lima Locomotive Works (Lima, Ohio), Pressed Steel Car Co. (Jersey City, Nova Jersey) e Pacific Car and Foundry (PACCAR – Renton, Washington), mas, ao longo dos anos seguintes, 11 outras instalações passaram a produzir o M-4, entre as quais Baldwin Locomotive Works (Philadelfia, Pensilvania), American Locomotive Co. (ALCO – Schenectady, Nova Iorque), Pullman Standard Car Co.(Pullman City, Illinois), e o estatal Arsenal de Tanques de Detroit (Detroit, Michigan). Inicialmente planejada para 350 tanques por mês, a produção alcançou, em três meses, o nível de 1000 unidades mensais, tendo chegado, no fim da guerra, à 2000 unidades.

A entrada em combate dos EUA, em 1942, mostrou que o Sherman era capaz de enfrentar e superar qualquer dos modelos alemães utilizados no Norte da África. Foi, entretanto, uma impressão totalmente equivocada, provocada pelas condições das forças do Eixo naquele teatro. No teatro italiano, pouco adequado ao uso de blindados, os Sherman norte-americanos e ingleses começaram a encontrar problemas diante dos canhões de assalto e caça-tanques usados pelos alemães (muitas vezes em posições estáticas, devido às características do terreno e à escassez aguda de combustíveis), que, aquela altura – 1943 -, já montavam a versão L40 do canhão anticarro PaK39, de alta velocidade. A artilharia do Sherman não era capaz de penetrar a blindagem frontal de 80 a 100 milímetros incorporada pelos Hertzer e JagdPanzer IV, ao mesmo tempo que sua proteção era vulnerável à distâncias bem superiores, diante dos projéteis de alta performance dos blindados alemães. Depois da invasão da França, quando os M-4 começaram a bater de frente com os últimos modelos de blindados lançados em campo pela Wehrmacht, com base na experiência da Frente Oriental, o desastre foi completo. Diante do modelo L48 do canhão Kwk40 de 75 milímetros, que estava montado na torre das versões H e J do Panzer IV e nos então desconhecidos “Pantera”, o Sherman era simplesmente ineficaz.

Mas, ainda assim, os planejadores norte-americanos souberam tirar vantagens dos Sherman diante de suas contrapartes alemãs. A primeira era, sem dúvida, o grande número deles disponível em campanha (uma divisão blindada norte-americana chegava a ter 260 tanques, enquanto as alemãs dificilmente chegavam a ter 90 deles). A alta velocidade, a confiabilidade mecânica, a simplicidade de manutenção e a facilidade de manejo eram outras. Por fim, tripulações treinadas conseguiam obter considerável cadência de fogo (voltaremos a esse tema). Ainda assim, diante do altíssimo número de baixas diante de seus adversários, no final de 1944 o M-4 começou a ter seu armamento principal substituído por um canhão de 76 milímetros de alta velocidade, além de melhorias na blindagem frontal e na suspensão.

O chassi e o casco do M-4 serviram de base para grande variedade de veículos especializados de assalto e engenharia de combate, incluíndo uma grua para reboque de tanques, um lança-pontes de campanha, o canhão auto-propelido M7, que montava um canhão M2A1 Field Howitzer, o M10 Wolverine (um tank destroyer que montava um canhão de alta velocidade de 76 milímetros e blindagem muito melhorada) e até mesmo desenhos feitos pelos britânicos, que incluem o Sherman Firefly, uma versão do M-4 adaptada para receber o canhão anticarro inglês de 17 libras::

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** Como eu admito que ninguém é obrigado a dominar o inglês ao ponto de ler um texto de dificuldade média, procuro localizar sítios em português, de modo à oferecer informações complementares. Entretanto, sobre o tema “história militar” e “história da tecnologia”, nossos recursos na Internet, temos de admitir, não valem nada. Quem quiser ler algo melhor, terá mesmo de buscar a Wikipedia em inglês, ou os sítios especializados em blindados (este é um que me parece bastante bom, sobre o M-3…) que são milhares. Ou esperar os próximos posts aqui do Causa:: :c)

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Um sistema de armas (da Segunda Guerra Mundial, é claro) às terças::Escolha sua arma!

O blog das boas causas – aquelas que têm uma guerra melhor ainda por trás – virou bagunça. O único culpado é o redator, que não consegue organizar seu tempo… Bem, os posts que, meses atrás, com vontade de implicar com o Pedro Doria (reconhecidamente, meu ídolo blogueiro – seja lá o que isso for…), denominei Um sistema de armas às terças, e tinham por objetivo fazer picuinha com Uma moça às segundas (coluna religiosamente âpiloudeada pelo PD nas noites de segunda) podem sair todos os dias da semana, menos na terça-feira. Quero dizer que ainda acho que o tipo de cara que lê o Causa:: gosta mais de mulher do que de arma, e prova acabada foi a excelente minibiografia de nosso herói Winston Churchill, publicada no não menos excelente Papo de homem. Fiquei tão animado com a referência feita pelo pessoal do “Papo” (que não tenho o prazer de conhecer), que resolvi, agora, fazer uma votação. Meus quatro ou cinco leitores de fé (não preciso citá-los…) poderão escolher entre o próximo “sistema de armas das terças”… Que provavelmente sairá lá pela quinta ou sexta…

Os dois concorrentes são popularíssimos nos arraiais especializados: O T-34 soviético e o Sherman M-4 norte-americano. Ambos tiveram grande importância para a vitória aliada; ambos têm qualidades técnicas que os distinguiram durante décadas, no panorama mundial dos blindados; ambos moram nos sonhos eróticos de boa parte dos armchair generals que conheço – a maior parte adoraria ter um deles em casa.

Bom, agora é com vocês. Coloquem o voto na área de comentários. Na quinta-feira darei o resultado::

Os limites da blitzkrieg – o auge e o começo da derrocada::

De toda forma, a Segunda Guerra Mundial foi o primeiro dentre os conflitos humanos nos quais a guerra blindada teve papel principal. Como vimos no post anterior, a grande diferença dessa guerra para todas as anteriores foi o papel exercido pela máquina na ampliação das dimensões do campo de batalha. Máquinas de todas as espécies, impulsionadas por motores à explosão mudaram o tempo e o espaço do combate. Era, realmente, uma guerra multidimensional. Outros aspectos também passaram a interferir fortemente na condução e desfecho do combate: a utilização de comunicações eletro-eletrônicas, a interpretação de informações remotas (por exemplo, fotografias e dados meteorológicos) e a rapidez da tomada de decisões.

Podemos dizer que a superioridade da Wehrmacht, na primeira fase da guerra, esteve totalmente relacionada a posse, como núcleo do exército, de 21 divisões mecanizadas (entre blindadas e de infantaria motorizada) e uma doutrina de como utilizá-las. E, principalmente, um corpo de oficiais consciente do que significava a nova forma de guerrear. Entretanto, do ponto de vista alemão, a nova forma logo mostraria seus limites. A segunda fase da guerra seria a da exaustão da blitzkrieg e da ascensão da guerra blindada em estilo soviético e norte-americano.

Os motivos da derrocada da Alemanha nazista são diversos e bem conhecidos. A Alemanha praticou uma guerra realmente clausewitziana – a ocupação do território dos adversários, no todo ou em parte, indica claramente a filiação teórica dos planejadores alemães. Entretanto, segundo as formulações desse filósofo militar, “a guerra é a continuação da política por outros meios”. Isso significa, aproximadamente, que a aplicação da força não é uma interrupção da política, mas que o modelo conceitual de guerra clausewitziano vincula-se à raison d’état e tem como referencial histórico empírico o “concerto” dos Estados-Nações europeus cuja liderança política tem a supremacia frente à liderança militar dos respectivos estados. A partir daí, constrói um modelo teórico onde propõe que a ratio da guerra é a destruição militar do adversário e a sua conseqüente submissão política ao vencedor.

Pois, se pensarmos a primeira fase da Segunda Guerra Mundial e seu desenrolar objetivo, do lado alemão – a blitzkrieg – fica evidente que os planejadores políticos, Hitler à frente, esperavam uma guerra curta, pelo menos no teatro ocidental, e não pensavam na interrupção da política, visto que pretendiam forçar a Inglaterra a negociar. Os planejadores alemães imaginavam que, diante da derrota, a Inglaterra aceitaria uma nova acomodação: a manutenção do império em troca do reconhecimento da supremacia alemã no continente. Com a Inglaterra fora da guerra, os EUA não teriam motivos para imiscuir-se nos assuntos europeus e a máquina militar alemã poderia ser lançada contra a URSS.

A obstinação de Churchill teve as conseqüências bem conhecidas, mas não é o tópico aqui. O que nos importa frisar  é que o modelo de campanha militar resultante da blitzkrieg (as da Polônia, da Escandinávia, dos Países Baixos e da França), não durando mais que 2 meses e nem provocando baixas significativas, escondeu as deficiências do aparato militar montado pelos nazistas. Que, se for observado de perto, revelará, por incrível que possa parecer, uma potência militar relativamente modesta, em comparação, por exemplo, com a União Soviética, França e Inglaterra. Mas, embora superiores em números e, em muitos aspectos, em qualidade do armamento, essas nações estavam, em comparação com a Alemanha, despreparadas para a nova forma de guerra. Inglaterra e França insistiam em manter os blindados como elementos de suporte da infantaria, fosse como apoio direto, fosse numa concepção que substituía os cavalos por blindados ligeiros. Nessa forma de organização, os blindados não tinham funções diretamente ofensivas, não eram capazes de operações independentes e muito menos eram pensados em funções anti-tanque. Os “carros de combate” franceses, particularmente os modelos S-35 e Char B eram muito superiores aos blindados alemães, em termos de armamento e proteção. A forma de organização francesa, entretanto, espalhava os blindados em meio às formações de infantaria e os subordinava à uma organização regimental na qual qualquer vantagem em termos de mobilidade e poder de fogo simplesmente desaparecia. Os tanques alemães, por outro lado, eram concebidos principalmente para serem velozes e manobráveis, em detrimento do armamento e da proteção. Entretanto, agindo de forma coordenada, conseguiam se sobrepor a adversários que os superavam, como sistema de armas.

Os campos de batalha da Europa Ocidental, bem como as extensões planas do norte da África viram o apogeu da arma blindada alemã e de seu estilo de guerra. No norte da África, o mal-treinado, mal-armado e pior comandado exército italiano tornou-se presa fácil para as tropas motorizadas e altamente móveis do general Archibald Wavell. Entretanto, com a chegada, em fevereiro de 1941, de algumas unidades mecanizadas alemãs centradas em uma “divisão ligeira” e lideradas por um dos mais bem-sucedidos comandantes de tanques da Wehrmacht, o general-de-divisão Erwin Rommel, a situação não demorou a mudar. O ex-comandante da Sétima Divisão Blindada alemã no teatro europeu não demorou a perceber que o grande problema dos italianos, além da inadequação dos métodos, era o péssimo comando. Os ingleses utilizavam pequenas unidades com dotação insuficiente de artilharia e infantaria, e a vantagem que conseguiam devia-se ao comando centralizado e exploração da velocidade. Rommel não esperou para lançar uma contra-ofensiva e rapidamente revelou a fraqueza dos britânicos, revertendo toda a vantagem conseguida por aqueles ao longo dos seis meses anteriores.

Pode-se dizer que a guerra no deserto, entre março de 1941 e agosto de 1942 constituiu o auge da aplicação da blitzkrieg. As dificuldades logísticas, além do fato de que a intervenção no norte africano visava dar suporte aos aliados italianos, não sendo prioridade no planejamento alemão, constituíram fatores decisivos para o fracasso daquela frente. A vitória decisiva obtida pelos britânicos na segunda batalha de El Alamein fez com que os remanescentes da força expedicionária alemã e do exército italiano caíssem na defensiva. A intervenção norte-americana, a entrada efetiva dos EUA em combate, selou o destino da frente africana do Eixo.

A blitzkrieg, até então, tinha se mostrado eficiente contra tropas focadas na doutrina da defesa estática, aperfeiçoada pelas principais potências, mas particularmente pela França, após a Grande Guerra. Embora já existissem, mesmo antes da guerra, relatórios sobre as vantagens e limitações dos procedimentos alemães, formulados desde a Guerra Civil Espanhola, o Estado-maior francês insistia em ignorar qualquer formulação que não saísse dos seminários da École Superieur de la Guerre. Basta dizer que em junho de 1940 oficiais alemães se surpreenderam ao encontrar, intocado, um detalhado relatório encaminhado ao Estado-maior francês pelo general-de-brigada polonês Stanislaw Maczek, comandante de uma unidade de cavalaria mecanizada durante a campanha da Polônia, e então exilado na França. Maczek concluiu, depois de sua curta e bem-sucedida ação contra o Décimo-oitavo Corpo Blindado da Wehrmacht, que o ponto fraco da blitzkrieg estava exatamente na velocidade do avanço, que impedia, em certas situações, o desdobramento organizado das colunas pelo terreno. Isso significava que, em algum momento, os flancos ficariam expostos. Posteriormente, tanto os aliados ocidentais quanto os soviéticos perceberam que a melhor resposta aos ataques alemães em velocidade estava na defesa em profundidade, ou seja, na preparação do teatro tático, com o estabelecimento de pontos de fogo de artilharia anti-tanque e posicionamento de forças blindadas e de infantaria nos espaços entre campos minados e terrenos inadequados para veículos. O objetivo deveria ser atingir os flancos e buscar pela retaguarda do atacante. Esse procedimento, chamado de “Ouriço”, foi aperfeiçoado pelos franceses, que não tiveram oportunidade de usá-lo em 1940, mas mostrou-se efetivo em diversas situações posteriores, inclusive na campanha que culminou na segunda batalha de El-Alamein::

Algumas observações sobre o início da Segunda Guerra Mundial::

O uso da palavra alemã blitzkrieg (“guerra-relâmpago”) tornou-se quase sinônimo de Segunda Guerra Mundial. Em geral, a blitzkrieg foi muito bem sucedida até 1942, no que pode ser considerada a primeira fase da guerra. Sempre tive curiosidade em entender porque, após todo o sucesso dos primeiros 30 meses, a fantástica Wehrmacht mergulhou de desastre em desastre, até terminar a guerra com a própria extinção. Ler romances sobre a Segunda Guerra Mundial é divertido; também é divertido ver filmes como “Cruz de Ferro” (Cross of Iron, de Sam Peckimpah) e “A raposa do deserto” (The desert fox, de Henry Hathaway); mergulhar no universo de militaria é fascinante. Temos certa tendência a simpatizar com os perdedores. Entretanto, o buraco é mais embaixo: a Wehrmacht era um exército de nazistas, os grandes comandantes alemães ou eram entusiastas ou simpatizantes de Hitler, escondidos atrás do discurso do “patriotismo” e da “honra”.

Tentarei, como parte dessa comemoração pessoal, entender o que significou essa palavrinha, contra o pano-de-fundo da guerra. E tentarei dizer, da melhor maneira que puder, que tivemos sorte que a coisa toda não fosse exclusividade dos alemães e que tenha sido melhor copiada por soviéticos e norte-americanos.

Este texto terá duas partes, e espero que ajude um pouco a esclarecer o fato de que não existem “heróis alemães” injustiçados – existem apenas aqueles que mudaram de idéia após a derrota. Ou simplesmente não mudaram.

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A blitzkrieg (“guerra-relâmpago”, em alemão) é uma doutrina militar geralmente associada à forma como a Wehrmacht (Forças Armadas) lutou na primeira metade da guerra.

Entre os alemães, a principal inspiração para os estudos que culminaram nas táticas de manobra e velocidade que levaram à vitórias incontestáveis não veio do uso – por sinal relativamente pequeno, no Exército Imperial – de veículos motorizados. Os alemães consideravam não muito difícil deter ataques liderados por tanques, máquinas que viam como frágeis e militarmente inócuas. Muito mais interessantes pareceram aos oficiais alemães a guerra de movimento aplicada na Frente Oriental, no início do conflito, e as táticas de infiltração desenvolvidas a partir daquela, e aplicadas na Frente Ocidental depois de 1917. Mesmo sem apelar a motores e veículos, o pensamento militar alemão sempre foi, desde Frederico, o Grande, fortemente influenciado pela aplicação do movimento como forma de alcançar a concentração de forças. “Não importa que marchemos separados, desde que cheguemos juntos”, dizia Frederico, e nessa idéia foi seguido pelos principais teóricos militares prussianos. Esse conceito-matriz alcançou seu maior sucesso na Guerra Franco-Prussiana de 1870, na qual o exército prussiano derrotou o exército francês em pouco menos de 1 ano. Logo no início da Primeira Guerra Mundial, os alemães tentaram uma ampla manobra em arco, o “Plano Schlieffen”, através da qual pretendiam repetir, em escala muito aumentada, as ações da guerra de 1870. O fracasso dessa manobra, no final de 1914, acabou produzindo o impasse e a matança das trincheiras.

No período entre-guerras, o estudo, pelo Estado-maior das reduzidas “Forças Armadas Nacionais” (uma tradução aproximada para a expressão Reichswehr) concluiu que o movimento ofensivo deveria buscar sempre atingir o centro do adversário, visto que, quando o centro se rompia, a frente não demorava a romper-se também. O rápido rompimento da frente permitiria a concentração de forças ao mesmo tempo que negaria ao inimigo concentrar as próprias. Falando de uma forma geral, o tipo de ofensiva desenvolvida a partir dessa doutrina visava, através de penetrações profundas, interromper as comunicações e o contato entre as forças adversárias, impedindo-as, desse modo, de atuar coordenadamente, em termos de comando, controle e logística. Para potencializar a exploração do rompimento, alguns oficiais alemães, o principal deles o tenente-coronel Heinz Guderian, advogavam o uso de veículos motorizados, principalmente dos chamados PanzerKampfwagens (Carros de Combate Couraçados), que nada mais eram do que aperfeiçoamentos dos tanks britânicos e dos chars légers franceses da Grande Guerra.

Esses oficiais, entretanto, não viam os Panzer apenas como máquinas de suporte aos assaltos da infantaria, como era a tendência dos exércitos ocidentais no período entre-guerras. No esboço da nova doutrina alemã, a arma blindada era o centro de uma unidade de todas as armas, com a função de encontrar o ponto de rompimento, que, uma vez fixado, seria explorado e ampliado por artilharia, infantaria mecanizada, forças especiais de engenharia, apoiados, quando necessário, por aviação – bombardeiros médios e de mergulho. Unidades de reconhecimento providas de veículos muito rápidos, principalmente motocicletas e jipes equipados com rádio, comunicando-se com os quartéis-generais regimentais e divisionários em linguagem aberta, metiam-se pelas linhas inimigas, indicando o caminho para postos de comando, cortavam-lhe as comunicações e ajudavam a aprofundar o colapso semeando confusão na retaguarda do inimigo. Unidades avançando em alta velocidade estendiam-se demais e mesmo que o controle fosse estrito, a possibilidade de contra-ataques era uma constante. Esses eram prevenidos através da presença na linha de frente, da Luftwaffe (Arma Aérea) e do deslocamento de artilharia anti-carro, que a partir de 1941, começou a ser montada em carretas sem torre, de silhueta muito baixa, que passaram a ser conhecidas como SturmGeschutz (algo como “canhão de assalto”), e se revelaram extremamente úteis no suporte às operações dos blindados. O controle de todo esse aparato baseava-se em tropas de comunicação organizadas ao nível de batalhão – coisa até então completamente desconhecida -, operando sistemas móveis e portáteis de rádio. Assim, as primeiras divisões blindadas, aparecidas na Alemanha, tornaram-se, depois de 1940, símbolos de poder militar.

Esse novo tipo de guerra, fortemente apoiado em um conjunto de novas tecnologias que ampliavam as dimensões do campo de batalha, exigia um novo tipo de comandante. Instalado em um quartel-general móvel, enxergando o campo de batalha a partir dos olhos de suas unidades de reconhecimento terrestres e aéreas, analisando informações que chegavam através dos equipamentos de telecomunicações, jovens coronéis e generais como Guderian, Erwin Rommel, Erich Hoepner e Felix Steiner, dentre outros, seguiam na frente de suas unidades, de modo a estar nos pontos decisivos, tomar as decisões rapidamente e animar os soldados.

A blitzkrieg alcançou sucesso estrondoso entre 1939 e 1942. Atualmente, quase todos os historiadores especializados concordam que, nessa primeira fase da Segunda Guerra Mundial, o fato de a Alemanha contar com 10 divisões blindadas, 7 divisões de infantaria mecanizada (chamadas pelos alemão de Panzergrenadiern, “Granadeiros couraçados”) e 3 divisões ligeiras (uma divisão blindada com um complemento menor de veículos blindados) foi a diferença que possibilitou uma vitória tão completa em tão pouco tempo, contra algumas das maiores potências militares da época.

Nos anos que antecederam o conflito, diversos países estudaram conceitos semelhantes aos desenvolvidos pelos alemãs. Esses estudos buscavam entender as experiências realizadas na Frente Ocidental, durante a Grande Guerra, especialmente a partir de 1916, com o uso de carros de combate e forças mecanizadas. Se bem que não tenha tido grande influência no desfecho da guerra, esse tipo de nova tecnologia impressionou alguns oficiais ingleses, franceses e soviéticos o suficiente para levá-los a pensar no assunto.

Em 1935, as principais potências da época – Inglaterra, França, União Soviética, EUA e Japão – tinham feito estudos mais-ou-menos aprofundados em torno da aplicações das novas tecnologias militares. São bem conhecidas as idéias dos britânicos Fuller e Liddell-Hart, baseadas na experiência da Grande Guerra. Embora tenham se afastado do exército logo após o fim das hostilidades, e escrevessem livros em linguagem não-técnica, tornaram-se muito populares entre oficiais militares não-teóricos. No lado militar, na década de 1920 os britânicos formaram uma “Força Experimental Motorizada”, unidade de todas as armas extremamente móvel. Em 1928, manobras realizadas na planície de Salisbury demonstraram a efetividade de unidades motorizadas controladas por rádio e a capacidade do tiro em movimento ser eficaz. Apesar do sucesso dessas experiências, a unidade foi debandada nesse mesmo ano. Ainda assim, EUA, URSS e Alemanha observaram cuidadosamente os resultados, e é bem conhecida a influência tanto de Fuller e Liddell-Hart quanto da “Força Experimental Motorizada” sobre as idéias de Guderian e von Thoma.

Na URSS, o marechal Mikhail Nikolaievich Tukhachevski, antigo oficial superior do Exército do Czar, depois comandante do Exército Vermelho durante a Guerra Civil (1920), a Guerra contra a Polônia (1920-21) e a rebelião de Kronstadt (1921), tornou-se um grande estudioso da aplicação da velocidade e do motor à explosão, baseado em sua própria experiência com a guerra de movimento na frente ocidental, durante a Grande Guerra. Entre 1924 e 1931, empenhou-se na modernização e rearmamento das forças terrestres soviéticas, e, em diversos artigos e livros escritos entre 1928 e 1935, delineou uma teoria do emprego de armas combinadas conhecida como “operações profundas”. Nesse esboço de doutrina, formações de armas combinadas, organizadas em torno de unidades motorizadas e blindadas, incursionariam profundamente para dentro das linhas inimigas, de modo a desorganizar-lhes a retaguarda, as linhas de comunicação e de suprimentos. Embora essas idéias sofressem forte oposição do establishment político e militar soviético, tornaram-se muito populares entre a oficialidade de tropa e foram adotadas durante a década de 1930. Seu livro “Instruções sobre as Operações Profundas” tornou-se leitura obrigatória e as teorias expostas nele acabaram convencendo Stalin, que imbuiu-se da idéia de que a modernização do exército poderia ser um fator de aceleração da modernização da URSS, movimento chamado de “industrialização militar”. Em 1931, como comissário para a defesa, Tukhachevski criou não apenas unidades blindadas experimentais, como uma indústria de blindados extremamente avançada. Acabou sendo executado durante os expurgos de Stalin, mas sua doutrina continuou popular entre a oficialidade e não chegou a ser expurgada dos manuais militares soviéticos. Entre agosto e setembro de 1939, a aplicação mitigada das idéias do marechal por seu aluno Georgy Zhukov, na guerra contra o Japão, provocou uma vitória arrasadora sobre forças imperiais muito superiores. Ao longo dos anos seguintes, embora o nome de Tukhachevski não pudesse ser citado, suas idéias podiam ser estudadas, e embora estudadas, não podiam ser aplicadas. As formações de todas as armas, ainda experimentais, foram dissolvidas, restando algumas que continuaram operacionais na fronteira com a China. O resultado do expurgo foi curioso: em 1940, a URSS dispunha de mais de 10.000 tanques, um corpo de oficiais e praças muito bem treinados na operação dessas armas e experiência de combate real, mas não dispunha de uma arma blindada real.

A França liderava, desde a Grande Guerra, o desenho e fabricação de tanques, copiados por norte-americanos, soviéticos e japoneses. Mas, ainda assim os teóricos franceses continuaram a propor que os blindados compusessem uma arma de suporte à infantaria. Os tanques franceses (chamados de “carros de combate”) surgidos nos anos 1920, pesadamente protegidos e armados, eram reunidos em unidades de “cavalaria couraçada” e deveriam buscar romper as linhas adversárias para permitir a passagem local de forças convencionais de infantaria a pé. Os teóricos militares franceses não consideravam o veículo motorizado capaz de provocar o colapso das forças inimigas. Apenas um francês advogava pelas forças blindadas: o coronel Charles De Gaulle. Veterano da Grande Guerra, renomado intelectual militar e oficial de Estado-maior, De Gaulle publicou, em 1934 e 1938, livros no qual defendia como “imprescindível” a criação de um exército profissional, formado por unidades mecanizadas e blindadas. Na contra-mão de seus superiores, tornou-se um adversário ferrenho das idéias de “frente estática” defendidas pelo comando do exército. Essas teorias resultaram, em 1930, na construção da Linha Maginot. Baseada nas idéias de André Maginot, ministro da Defesa entre 1929 e 1931, a “Linha” era, de fato, um elaborado e complexo sistema de fortificações capaz, em teoria, de parar qualquer ataque. As idéias do coronel foram alvo de forte rejeição, sendo colocadas de lado sem sequer serem examinadas. De fato, problemas políticos estavam por trás dos problemas de De Gaulle com seus colegas e até com seus mentores, os marechais Weygand e Petáin. Na Polônia, Vladislau Sikorski, antigo oficial do exército austro-húngaro, engenheiro e ativista pela independência polonesa, tornou-se comandante do exército polonês na guerra contra a União Soviética, contra o qual obteve uma vitória considerada “milagrosa”, mas que, de fato, pode ser atribuída ao treinamento superior dos poloneses e ao uso de veículos motorizados como forma de chegar primeiro ao objetivo e preparar o terreno. Na segunda metade dos anos 1930, exilado em Paris depois de problemas políticos com a ditadura do marechal Pilsudiski, Sikorski, trabalhando como colaborador na Escola Superior de Guerra, escreveu um livro no qual apresentava idéias muito similares aquelas que mais tarde seriam aplicadas pelos alemães.

Um sistema de armas (da Segunda Guerra Mundial, é claro) às terças::Supermarine Sptfire, a ferramenta dos “poucos”::

Se você pensar em um ramo da aviação de combate que pudesse ser dado como charmoso, provavelmente pensaria na aviação de caça, não pensaria? E alguém lhe pedir para lembrar de alguns dos modelos que viram ação, em qualquer época e em qualquer céu, provavelmente uma dúzia deles lhe viria à cabeça: MiGs, Mirages, Starfighters, Mustangs… Mas, dentre eles com certeza estaria o Supermarine Spitfire. Se é que um avião pode representar o espírito dos primeiros tempos da guerra, esse avião é ele. A coragem, a tenacidade, a galanteria dos “famosos poucos” encontrou sua perfeita expressão nos céus das cidades britânicas, à bordo dessas belas aeronaves.

O Spitfire foi o único caça do Ocidente a operar durante todo o conflito e em todos os teatros, inclusive na frente oriental e no Pacífico. Produzido em diversas versões e em grandes números, seu desenho revolucionário lhe garantiu uma longevidade surpreendente: vinte anos depois do surgimento da primeira versão, ainda estava em ação, em diversas forças aéreas do mundo.

Nessa comemoração particular do final da Segunda Guerra, este blogueiro com mania de tecnologia continua achando que, infelizmente, as armas ainda representam o melhor da inventividade e criatividade humana. E, se não podemos negar que seja assim, pelo menos podemos imaginar que alguns sistemas de armas foram bem usados, contribuindo decididamente para parar as hordas “do mal”. Resumo justíssimo para carreira do Spitfire, a arma da primeira grande derrota dos nazistas.

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A origem do Spitfire remonta aos anos 1920, quando o projetista Reginald Mitchell, da empresa Supermarine Aviation Works, instalada em Woolston, Southampton, liderou a equipe de engenheiros que desenhou a aeronave de competição S6. Esse elegante protótipo destinava-se a disputar o Troféu Schneider, um dos muitos prêmios para aviões de alto desempenho, disputados na época, e que contribuíram fortemente para o desenvolvimento da ciência e da engenharia aeronáutica. O S6 iniciou uma carreira de sucesso, e levou os ingleses à conquista de duas edições do prêmio.

O outro lado da história é bem menos elogiável. Na segunda metade dos anos 1920 a Royal Air Force (Real Força Aérea) e a defesa aérea britânica estavam em estado precário. As dificuldades econômicas por que passava o império nos anos 1920 – 1930 eram parcialmente responsáveis por essa situação. Mas havia um outro motivo, que remontava à Primeira Guerra Mundial: a “mania do bombardeio estratégico”. Alguns teóricos (que, justiça seja feita, não se encontravam apenas na Grã-Bretanha), achavam que nada poderia deter os bombardeios, e que as cidades estavam condenadas, e a melhor resposta à essa ameaça seria ameaçar os inimigos potenciais. Essa postura levou o governo britânico a negligenciar a defesa aérea do país como “inútil”. Mas, um oficial que pensava diferente foi alçado ao comando da RAF, e propôs-se a mudar essa situação: tratava-se do marechal-do-ar Sir Edward Ellington. Entre 1934 e 1937, durante sua gestão a RAF foi profundamente reestruturada, e é muito pouco provável que, sem a intervenção desse aviador dinâmico e taciturno, a Inglaterra tivesse conseguido sair-se bem da ofensiva alemã de 1940-1941. Ellington foi responsável por constatar o atraso tecnológico da RAF, no início dos anos trinta, depois de algumas experiências junto ao governo da Austrália. Elevado ao cargo de chefe do estada-maior da RAF em 1933, mudou radicalmente a doutrina de que apenas o ataque importava. Em meados dos anos 1930 estabeleceu as requisições das aeronaves que venceriam, poucos anos depois, a Batalha da Inglaterra. Dentre elas, o Spitfire.

Curiosamente, a trajetória dessa aeronave “para derrubar qualquer coisa que estivesse no ar” começou com o fracasso de um outro projeto da equipe de Mitchell, um monoplano com carlinga aberta e trem de pouso fixo, designado “Tipo 224”. Visando atender à requisição do Ministério do Ar por uma aeronave capaz de alcançar 400 km/h em vôo nivelado num teto operacional de mais-ou-menos 6000 metros, esse protótipo perdeu em todos os quesitos para um desenho bem mais conservador, o biplano Gladiator, da empresa Gloster. O fracasso foi, em grande medida, atribuído ao mau uso de uma sistema experimental de resfriamento a líquido evaporado, disponibilizado pela empresa Rolls-Royce e instalado no motor Kestrel. Diante do insucesso, Mitchell e seus engenheiros tomaram a iniciativa de redesenhar o “224”. A idéia básica foi utilizar a experiência adquirida com o vitorioso modelo S6B, vencedor, em 1931, do Troféu Schneider. Mitchell decidiu procurar Henry Royce da Rolls Royce, que possuía algumas idéias para um novo motor V12, e que estava trabalhando em um projeto próprio. Dessa entrevista nasceu a idéia de adotar um motor de desenho “em linha”.

Os motores até então considerados padrão eram os radiais da série Mercury, da empresa Bristol Aeroplane Company, adotados no Gladiator e considerado extremamente confiáveis. Mitchell, entretanto, optou pelo Kestrell, da Rolls-Royce, baseado num bloco de motor fundido em peça única e 12 cilindros em “V” com 22000 cm3 de capacidade. Embora muito potentes, os motores “em linha” eram considerados frágeis, por esquentarem muito, ao contrário dos radiais, refrigerados a ar. Ao longo dos anos 1930, entretanto, a Rolls-Royce insistiu no desenvolvimento de uma série de motores dessa classe, até chegar ao modelo PV-12, uma iniciativa experimental da empresa, destinada a testar o sistema de resfriamento a líquido evaporado e os “super-compressores” aperfeiçoados. Embora tenha sido amplamente testado no caça Huricane da empresa Hawker (surgido em 1935), esse sistema de resfriamento foi posteriormente abandonado pelo sistema de água “líquida” esfriada com etileno-glicol, idéia adotada com sucesso nos EUA. A junção dos blocos sólidos e cilindros de 45ode inclinação, da Rolls-Royce, com o sistema de resfriamento a líquido esfriado resultou, em 1936, no motor Merlin, amplamente adotado nos caças ocidentais, durante toda a Segunda Guerra Mundial.

A aeronave que decolou em março de 1936 pode ser descrita, tecnicamente, como um monoplano de alto desempenho, asa baixa, fuselagem e asas em metal rebitado, utilizando técnicas de construção monocoque e hélices de passo fixo.

O desenho de Mitchell era literamente concebido em torno do motor Merlin, que, em 1936, já se mostrava altamente promissor. Para explorar toda a potência desse grupo propulsor, a equipe de projeto adotou uma estrutura bastante avançada, para a época, baseada em uma composição semi-monocoque totalmente feita de duralumínio. A estrutura era dividida em 19 partes, todas elas em formato ovalado e se reduzindo suavemente em tamanho, de maneira a compor curvas longitudinais muito pouco acentuadas, reduzindo, dessa forma, o arrasto aerodinâmico do conjunto. Todas as peças tinham numerosos buracos redondos, posicionados de modo a, sem diminuir a resistência do sistema, diminuir-lhe o peso. O conjunto era unido por cabos metálicos e longarinas longitudinais, e apresentava grande resistência estrutural ao mesmo tempo que deixava muito espaço interno disponível para alojar combustível extra, câmeras fotográficas, equipamento de navegação ou mesmo pequenas quantidades de carga. Também incorporava vários detalhes que ainda não eram considerados confiáveis pelos militares, como trens de pouso escamoteáveis, cabine fechada e sistema de oxigênio para o piloto.

A asa era um dos pontos fortes do projeto: um conjunto de formato elítico, adotando um modelo de aerofólio desenvolvido nos EUA. Uma única longarina atravessava toda as seções, dividida em cinco partes unidas, que resultava num conjunto leve e muito forte. O desenho era concebido para reduzir ao máximo o arrasto aerodinâmico sem comprometer a chamada “carga alar”. O desenho elítico também foi adotado para os estabilizadores e o leme.

O primeiro desenho do que viria a ser o Spitfire foi o chamado “Tipo 300”, e saiu da prancheta em novembro de 1934. A Supermarine, empresa de pequeno porte, estava metida em dificuldades financeiras em função do projeto S6 e das iniciativas militares fracassadas e dificilmente teria conseguido levar o projeto de Mitchell adiante. Mas, no início da década de 1930, foi adquirida pela Vickers-Armstrong, grande conglomerado de tecnologia aeronáutica, que resolveu continuar apoiando o projeto, como iniciativa de risco. Em janeiro de 1935, com o Ministério do Ar tendo formalizado a requisição para o protótipo, o detalhamento – a fase mais cara – teve início. Logo ao abrir-se o ano seguinte, estava tudo pronto para o primeiro vôo.

Por volta de meados do mês de junho seguinte, com os testes revelando um verdadeiro “puro-sangue”, a notação “Tipo 300” foi oficialmente substituída pelo nome definitivo: Spitfire (“Cospe-fogo”). Ao que parece, a origem do nome deve-se à uma sugestão de Sir Robert McLean, diretor-presidente da Vickers-Armstrong. McLean tinha uma irmã que, segundo contava, na adolescência era uma “cospe-fogo”. Essa palavra já tinha sido usada pela equipe de Mitchell, embora este preferisse o nome Schrew (“Mussaranho”, um mamífero aquático extremamente feroz).

A aeronave foi aprovada pela RAF no fim do mês de junho de 1936, recebendo a designação MK I. A primeira encomenda montava 310 unidades, e foi feita logo depois. O avião exigia um processo construtivo bastante complexo, especialmente por causa da asa, que misturava rebites aplainados nas partes externas e parafusos de madeira no cavername. Isso exigia ferramental especial e causou numerosos problemas quando da produção em massa, pela Supermarine. A produção do Hurricane era muito mais fácil, principalmente no que diz respeito a sua estrutura, o que se refletiu no grande número desses caças disponíveis nos primeiros dois anos da guerra.

Apenas em meados de 1938 o Spitfire começou a ser produzido em quantidade suficiente para ser entregue à RAF. Em fins de 1938, a RAF possuía dois esquadrões equipados com o novo caça, cada um com 100% de aeronaves de reserva. Um ano depois, no início da guerra, já havia nove esquadrões, com pouco mais de 300 Mk I em operação.

Esses primeiros exemplares ainda eram equipados com o motor Rolls Royce Merlin II, de 1050 hp. Esse motor tinha um problema – a injeção carburada. O sistema carburado fora planejado para melhorar o desempenho do motor a grande altitude, visto que aumentava a densidade da mistura ar-combustível, mas falhava quando a aeronave entrava em mergulho muito acentuado. Nesta situação, a força anti-G em que se encontrava o avião lançava o combustível para fora da câmara do carburador, de volta à bomba. Esse problema não seria plenamente resolvido até a invenção de um carburador mais eficiente, no início de 1941. Até lá, prevaleceu a inventividade dos pilotos britânicos: toda vez que entravam em mergulho, os “poucos” efetuavam um “meio-tunneau” (curva sobre a asa, para a esquerda ou direita, sem completar o giro), que forçava o combustível para dentro da câmara devido à força centrífuga.

Os primeiros Mk I também eram equipados com hélice de duas pás, de passo fixo, totalmente inadequadas para explorar a potência do Merlin. As aeronaves produzidas depois passaram a ser equipadas com hélices De Havilland ou Rotol, de três pás e passo variável. Essa nova hélice aumentou consideravelmente o desempenho de decolagem e a razão de subida, mas tinha um problema: exigia que o piloto verificasse se o passo estava corretamente ajustado para decolagem. A freqüência de acidentes levou a que mais tarde, fossem adotadas hélices de passo fixo.

Essa primeira versão era equipada com 4 metralhadoras Browning .303, o que pode ser considerado armamento muito leve, considerando o peso de fogo da rajada-padrão de 3 segundos. O motivo era a baixa disponibilidade de metralhadoras, o que foi resolvido no início do ano seguinte. A partir de então, a variante IA sairia da fábrica equipada com 8 metralhadoras; a IB recebia 2 canhões de 20 mm e 4 metralhadoras .303.

Outra modificação notável foi a substituição da capota da carlinga. Inicialmente, era lisa e muito baixa, o que comprometia não apenas a visão do piloto, mas o conforto deste, cuja cabeça batia constantemente na capota. Logo foi substituída por uma versão mais larga, semi-esférica, que melhorava a visibilidade e deixava mais espaço para o piloto. Outros melhoramentos introduzidos foram um pára-brisa frontal à prova de balas e uma blindagem de 6 mm atrás do motor e do assento do piloto.

Essa foi a configuração da versão que adquiriu fama durante a Batalha da Inglaterra. De fato, os primeiros Spitfires não eram superiores aos Messerschmitt Bf109E, que foram seus principais opositores ao longo das 20 semanas de encarniçados combates aéreos. A questão central é que a RAF se encontrava grandemente inferiorizada, depois do desgaste sofrido durante os dois meses anteriores, particularmente na Batalha da França. Contra aproximadamente 900 caças alemães monopostos, os britânicos podiam alinhar cerca de 550 monopostos e 69 caças noturnos. Metade deste número estava dispersa pelos aeródromos do sul da ilha: Biggin Hill, Kenley, Croydon, Hornchurch, Manston e Tangmere. Essas bases formavam um anel defensivo em torno de Londres e do estuário do Tâmisa. Também era importante o fato de que a defesa aérea das costas meridional e oriental eram coordenadas por uma rede de estações de radar plenamente operacional, codinome Chaim Home. Essa rede podia detectar aeronaves inimigas a uma distância de quase 160 km, o que dava aproximadamente uns 15 minutos de vantagem para a defesa. Além disso, havia sido desenvolvido um sistema de controle que permitia melhor uso dos caças disponíveis. Entretanto, a principal vantagem era o fato de ilhéus estarem lutando pela sobrevivência de sua nação, sobre território doméstico. Um piloto abatido, que saísse vivo de um salto, voltava a voar no dia seguinte; um alemão passaria o resto da guerra amargando um campo de prisioneiros.

Os dados técnicos do Spitfire variaram bastante ao longo da guerra, visto que aproximadamente 40 versões ou variantes foram introduzidas entre 1939 e 1945. Os das primeiras versões, entre Mk I e Mk III eram os seguintes (com pequenas alterações, entre uma versão e outra).

Peso vazio: 5280 libras (2394 kg)

Área alar: 242 pés quadrados (22,48m2)

Potência máxima: 1050 hp

Velocidade máxima: 355 mph (570 km/h)

Velocidade máxima em mergulho: 450 mph (724 km/h)

Alcance máximo: 395 m (634 km)

Taxa de subida: 2500 pés p/min (76,2 m/min)

Teto máximo: 20000 pés (6000 m em aproximadamente 9,4 min)

Capacidade de combustível: 85 galões imperiais (386 litros)

A produção do Spitfire cessou em 1948. Foram construídas 20.351 unidades, em 44 versões, que podem ser divididas em três grandes categorias: equipadas com as diversas versões do motor Merlin, equipados com o motor Rolls-Royce Griffon e a versão naval Seafire. As versões mais comuns na guerra foram a MK I a MK V, surgida em 1941 (com motor Merlin III), a MK XX, de 1943 (em que foi introduzido o motor Griffon), a MK XVI, a primeira concebida como caça-bombardeiro, capaz de levar duas bombas de 250 lb (113 kg) e a versão MK XIX, desarmada, a mais veloz do modelo, equipado com hélices contra-rotativas.

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Uma comemoração particular que não devia ser – II::

Continuando minha comemoração particular (e atrasada) do final da Segunda Guerra Mundial, publico abaixo um artigo relativamente longo em torno das origens do “Tribunal Internacional para Crimes de Guerra”, que, em 1946, levou a julgamento os doze principais líderes nazistas. O artigo é, na verdade, uma tradução livre de um pequeno trecho da monumental história da Segunda Guerra Mundial escrita pelo professor Gerhard L. Weinberg, A world at arms – A global history of World Word II, publicado em 1994 pela editora Cambridge. Acrescentei algumas “notas ao texto”, que achei que poderiam trazer mais alguma coisa útil ao assunto.

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Em 12 de abril de 1945, perto da cidade de Gotha, na Turíngia, Eisenhower, [Omar] Bradley1 e [George] Patton fizeram uma visita ao campo de trabalhos forçados de Ohrdruf. Eles percorreram os barracões, viram os mortos e os que estavam morrendo. Durante a visita, fotógrafos do Corpo de Comunicações do Exército [U.S. Army Signal Corps] colhiam imagens que, posteriormente, iriam assombrar o povo dos EUA. Civis alemães, bem como os pracinhas do Exército dos EUA foram instruídos à conhecer esse campo, ou outros como ele – e, literalmente, haviam centenas. Nos dias seguintes, tropas norte-americanas e inglesas liberaram outros, bem maiores e muito mais famosos – ou notórios – : Buchenwald, Dachau, Bergen-Belsen, Nordhausen, Manthausen2, e assim por diante. Conforme eram revelados, o impacto era enorme. Numa época em que cine-jornais e revistas ilustradas como a Life distribuíam imagens dos principais eventos, o material feito nos campos levou à “frente interna” uma realidade que, até então, não tinha sido plenamente revelada. As autoridades aliadas e vários representantes da sociedade civil desconfiavam, já fazia tempo, que essas instalações eram apenas a ponta de um enorme iceberg; que talvez houvessem outros lugares onde mais pessoas tivessem sido assassinadas em um dia do que durante toda a existência de Ohrdruf. Mas esse lugar afoi suficiente para deixar a impressão de que havia ali alguma coisa diferente dos muitos massacres específicos acontecidos durante os combates, em situação de combate ou entre militares: Malmédy, Oradour-sur-Gleine, Fossas Ardeatinas, o massacre do StalagLuft III, a “ordem os commandos”, dentre centenas de outros. Ali estavam sinais tangíveis de um horror generalizado, que não poderiam ser ignorados pelas pessoas comuns.

O desenrolar dessa situação criou as bases para que o público apoiasse com crescente furor a proposta norte-americana de que criminosos de guerra fossem levados a julgamento depois do fim das hostilidades. A experiência de permitir que alemães conduzissem o julgamento de criminosos de guerra da Primeira Guerra Mundial tinha dado péssimos resultados: além do mais, em 1945 não havia nenhum governo alemão, como em 1919. Embora tenha sido sugerido, não havia inclinação para delegar a tarefa a governos neutros, como a Espanha ou a Argentina – países que tinham recusado todas as propostas para se juntar à guerra contra a Alemanha – e também não havia indicação de que esses estivessem interessados. Os aliados teriam de fazer o trabalho. A iniciativa foi tomada pelos norte-americanos que, segundo os termos da “Declaração sobre as atrocidades alemãs na Europa Ocupada”, emitida em Moscou, em 1943, queriam que os criminosos envolvidos em delitos praticados uma determinada área fossem julgados no mesmo lugar, e também um tribunal internacional para julgar aqueles cujas ofensas tivessem atingido áreas geograficamente mais amplas. Rooselvelt já tinha divulgado a posição básica dos EUA em Ialta, e Truman, dando continuidade ao processo, designou o juiz da Suprema Corte Robert H. Jackson para representar os EUA numa conferência especial, a ser realizada em Londres em 26 de agosto de 1945.

Sobre o tribunal, não houve concordância entre os Aliados, sendo que a União Soviética estava mais próxima da posição dos EUA do que a Grã-Bretanha. Os britânicos pretendiam declarar os dez principais chefes nazistas – inclusive Hitler – como foras-da-lei, e fuzilá-los assim que fossem apanhados. Essa posição foi confirmada em 12 de abril de 1945 pelo Gabinete.3 Os soviéticos queriam que o julgamento fosse sumário, e não desse aos acusados direito de defesa. Os norte-americanos, com sua objeção fundamental ao justiçamento, que vinha se desenvolvendo desde o século XVIII e estava posta na Constituição do país, eram inflexíveis sobre o tema. Na conferência de Londres, um acordo foi atingido, com o representante dos EUA exercendo forte pressão sobre os britânicos. Os participantes estabeleceram o tribunal, o local onde aconteceria e a decisão sobre a detenção dos principais acusados e sua transferência, logo que fossem capturados.

Juntamente com o estabelecimento do sistema de controle conjunto do espaço aéreo sobre Berlim, o tribunal de Nuremberg foi o último ato de cooperação entre os quatro vencedores da Segunda Guerra Mundial.

  1. Omar Nelson Bradley (1893 – 1981) foi um dos primeiros comandantes de campo das tropas norte-americanas. Liderou a invasão da Sicília e, em janeiro de 1944 foi indicado para o Primeiro Exército dos EUA, maior unidade dos Aliados ocidentais. Em agosto, logo depois da Normandia, recebeu o comando do 12o Grupo de Exércitos, unidade que, na prática, reunia as tropas dos EUA diretamente em combate no teatro europeu. Embora não fosse um comandante particularmente brilhante, era administrador de talento, capaz de lidar com personalidades como as de Patton e Hodges, seus egocêntricos comandantes de campanha. No fim da guerra, liderava quase 1.500.000 efetivos. Em 1950 foi promovido de a general de cinco estrelas, último oficial a receber essa distinção, na história das forças armadas dos EUA. Os outros foram George Marshall (comandante do Exército dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial) Eisenhower (comandante das tropas dos EUA na Frente Ocidental), Henry Arnold (comandante da Força Aérea do Exército) e Chester Nimitz (comandante da Marinha dos EUA). George Washington também recebeu a patente.

  2. O sistema de segurança implantado por Göring em meados dos anos 1930, quando era ministro do Interior da Prússia e chefe de polícia tinha, dentre seus principais elementos, os “campos de concentração” (em alemão Konzentrationlager, ou KZ). Esses campos eram instalações civis administradas sob regime de disciplina militar, e destinavam-se, inicialmente, a receber prisioneiros políticos e “elementos anti-sociais” para reeducação e/ou recolocação pelo Estado. A idéia foi desenvolvida pelos ingleses, durante a Guerra dos Boeres (1900-1902), como forma de negar à guerrilha afrikaaner uma retaguarda que a aplicaram, posteriormente, em outros lugares do Império. Durante a Primeira Guerra Mundial, foram copiados pelos alemães. Em 1933 o primeiro KZ oficial (outros, em miniatura, já tinham sido criados pelas SA nazistas, clandestinamente) foi instalado em Dachau, fábrica abandonada perto de Munique. Em 1939 o sistema contava com seis grandes unidades (Dachau, Sachsenhausen, Buchenwald, Flossenburg, Mauthausen e Ravensbruck) e umas vinte unidades menores, reunindo mais de 200.000 prisioneiros. A administração foi repassada, em 1936, à SS, que criou um ramo especial, conhecido como “Destacamentos Caveira”, comandado pelo general SS Eicke, com a finalidade de guardar as instalações e os prisioneiros. Em 1941 foi decidido que alguns KZs situados na Europa oriental ocupada seriam “unidades de execução da solução final da questão judaica”. As principais dessas unidades situavam-se na Polônia, onde tinham sido implantadas desde 1940 e já cumpriam funções de extermínio de políticos, intelectuais e militares, bem como de minorias etnicas.

  3. De fato era idéia pessoal de Churchill, que não se conformava com atitudes alemãs observadas logo ao início da guerra, como torpedeamento de navios civis sem aviso e incidentes isolados com prisioneiros de guerra. Em 1940, o massacre de alguns prisioneiros de guerra, ocorrido na frente francesa, deixou Churchill irado, e consta que, a partir desse incidente, ele teria começado a falar abertamente em justiçar os líderes nazistas.

Uma comemoração particular, que não devia ser::

Meu detestado amigo, ou talvez, estimado inimigo, o Mr X (conheçam o Mister no ótimo blog que ele pilota, ou no blog do Pedro Dória, onde é um dos debatedores mais entusiasmados), vive aproveitando todas as oportunidades para falar bem dos EUA. Nada contra e tudo contra, mas devo dizer, pelo menos uma vez, ele comeu mosca: teria tido uma ótima oportunidade para elogiar, e com a maior justeza, os norte-americanos, caso tivesse lembrado do dia 8 de maio.

Certamente, todos sabemos o que significa essa data: o fim da guerra no chamado (pelos militares) ETO (European Theater of Operations). De fato, Berlim foi tomada pelos russos em primeiro de maio, um dia após o suicídio de Hitler, em seu bunker. Mas a capitulação alemã aconteceu em prestações: já no final de abril, as tropas alemãs na Itália abaixaram as armas, depois de negociações independentes entabuladas por iniciativa do SS Gruppenführer (general-de-divisão) Wolff. Em 7 de maio, representantes do sucessor de Hitler, Grande-almirante Dönitz (que ficou na chefia do governo por meros oito dias) assinaram a rendição incondicional. A cerimônia, diante de chefes militares norte-americanos, ingleses, franceses e soviéticos, não teve lugar em Berlim, mas na cidade francesa de Reims. No dia seguinte, a Wehrmacht (forças armadas alemãs, incluindo as unidades Waffen-SS, forças policiais e milícias populares) depôs as armas em cerimônias de capitulação localizadas. Calcula-se que tenham acontecido mais de 50, por todo o teatro. Também nessa data, por exigência do alto comissariado do Exército Vermelho, foi assinada nova rendição incondicional, na capital do Reich. Embora a guerra estivesse então oficialmente encerrada, as hostilidades só terminaram, de fato, em 13 de maio seguinte, quando a última força militar alemã capitulou, na Tchecoslováquia: tratava-se dos restos de unidades motorizadas da Wehrmacht e grande número de combatentes de outras nacionalidades, que, à revelia da rendição, ainda combatiam os soviéticos, esperando entregar-se aos norte-americanos.

Sabemos do terror que desceu sobre o mundo a partir de 3 de setembro de 1939; sabemos (e não podemos esquecer) dos sacrifícios impostos à toda humanidade em função de ambições insanas de um regime ensandecido e dos equívocos cometidos, por todo o lado, ao longo da década de 1930. Espero ser opinião geral que, não importa o preço, a derrota dos fascismo, produto de todo esse sacrifício foi uma causa nobre. Cada um dos aliados fez sua parte: a Inglaterra, como último bastião da Europa e depois, como o “porta-aviões insubmersível”; os EUA como o “arsenal da democracia”; a União Soviética como “o peito de aço que parou o fascismo”.

É outra história, e não importa, o que aconteceu depois, produto de ambições políticas, econômicas, militares, talvez pouco razoáveis, mas praticadas por homens que pela razão ou pela ameaça, sempre puderam ser chamados ao juízo. O fascismo jamais aceitaria discussão – apenas a força.

Um mundo sob o tacão fascista só pode ser imaginado por escritores de ficção – e, certamente seria bem mais sombrio do que qualquer imaginação pode conceber.

Nas próximas postagens, este blog, expressão das idéias utópicas e muitas vezes irrazoáveis de seu redator, irá comemorar essa data, que, com toda certeza, é de toda humanidade::