Sim, foi uma boa guerra::


Semanas atrás foi comemorada uma das datas que, realmente, podem ser chamadas, sem dúvidas nem tergiversações, “da humanidade”: o fim da Segunda Guerra Mundial, na Europa – oito de maio de 1945. No que me diz respeito, não consigo pensar em nenhuma outra guerra que possa ser chamada, de modo tão completo, de “uma boa causa”. Guerras são sempre “o último argumento dos reis” – de modo que sempre discutíveis, em princípio. A Segunda Guerra Mundial, não. O regime nazista foi a mais perfeita encarnação do mal jamais vista, desde a Inquisição Católica. Não há como discutir tal afirmação. A obstinada resistência de Winston Churchill, que acabou empolgando, na segunda metade de 1940 (their finest hour, como esse período ficou conhecido, a partir do título de um dos mais eletrizantes discursos do primeiro-ministro ao Parlamento britânico), o povo das ilhas, e, no fim, gerou uma espécie de cruzada leiga. Como dizia o historiador Stephen Ambrose (autor de bons livros de guerra e maus estudos de história): uma “tarefa sagrada”.

Entretanto, curiosamente, mesmo a Segunda Guerra Mundial tem atraído sobre si a praga do revisionismo (leia um texto da historiadora brasileira Rachel Mizrahi sobre o assunto). Depois da França e da Inglaterra, agora, surpreendentemente, nos EUA. Como aponta o autor do comentário que traduzi (sem grande rigor, reconheço) e publico abaixo, o colunista Richard Cohen, o “grande e bizarro equívoco” é um dentre os inumeráveis efeitos do desastre iraquiano. Uma má política e seus desdobramentos – más estratégias, mau planejamento, más iniciativas – pode ter efeitos cáusticos sobre os valores e sobre a consciência de um país. Sobre tal, existem exemplos e mais exemplos, mas as elites dos EUA parecem não aprender nunca.

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Sim, foi uma boa causa

Por Richard Cohen

The Washington Post, Terça-feira, 1 de abril de 2008; página A17

Nicholson Baker, um novelista muito talentoso, escreveu um surpreendente livro de não-ficção, intitulado Human Smoke. É composto, antes de tudo, por notas levantadas em jornais de época, sobre escalada em direção à Segunda Guerra Mundial. Baker levanta um argumento surpreendente, em torno do tema: nossa suposta “boa guerra” não foi assim tão boa – nós não deveríamos tê-la lutado.

Em minha opinião, o livro é um grande e bizarro equívoco. Esse fato, entretanto, não impediu que ganhasse as primeiras páginas dos mais importantes cadernos literários do país – Mark Kurlansky, da “Revista Literária” do Los Angeles Times, anotou: “Pode ser um dos mais importantes livros que você já leu” – ou alcançasse as listas de “mais lidos” – no New York Times, logo galgou a 15ª posição entre os bestsellers. Baker é um sucesso.

É preciso muita audácia para desafiar o juízo comum sobre a Segunda Guerra Mundial. Este é justamente o caso, uma vez que a guerra está associada ao Holocausto, o mal supremo com o qual não se pode argumentar. Se, por outro lado, pensarmos nas atrocidades cometidas pelos japoneses – dos massacres à reunião de mulheres nos países ocupados para servirem como escravas sexuais – então a Segunda Guerra Mundial não só parecerá, para a época, uma boa e urgente causa, como parecerá ter sido travada muito tarde. Hitler poderia ter sido detido antes.

Baker, temos de saber, é um pacifista. Ele dedica seu livro “à memória dos pacifistas britânicos e norte-americanos” que, escreve, nunca, realmente, foram devidamente reconhecidos. “Eles tentaram salvar refugiados judeus, alimentar a Europa, reconciliar os EUA com o Japão e impedir a guerra de acontecer. Eles falharam, mas eles estavam certos.”

Não, eles não estavam, não. Mas, no momento, isso se torna um ponto. O contexto contemporâneo para o livro de Baker não é a Segunda Guerra Mundial, mas a Guerra no Iraque. A primeira foi, é, claro, uma boa guerra, e a outra, uma das más, mas, do ponto de vista de Baker, ambas são, sem dúvida, guerras que tornaram as coisas piores, não melhores. Para fazer uma conexão adicional, muitos neoconservadores citaram os acordos de Munique de 1938 – apaziguamento! – para sugerir o que teria acontecido caso o regime de Saddam Hussein não tivesse sido confrontado e derrubado. O Iraque teria se tornado outra boa guerra.

Os paralelos, forçados como eles podem ser, não terminam por aí. Não só o termo “fascista” foi aplicado a Hussein mas é agora também lançado sobre grande número de militantes e islâmicos anti-americanos: “islamofascistas” é como eles são chamados. Isso diz alguma coisa sobre a durabilidade e plasticidade do termo, cunhado por Benito Mussolini na Itália, no início do século 20, mas que ainda pode ser usado para descrever um pastor de cabras, no Afeganistão do século 21.

A questão, é claro, é se há alguma coisa pela qual valha à pena lutar. Inicialmente, eu achava que retirar Saddam Hussein do poder foi uma boa causa. Eu estava errado – não sobre a causa, mas sobre sua praticabilidade. Eu ainda acho que, se pudermos impedir alguém de matar outra pessoa, em qualquer época, devemos tentar fazê-lo. Sou também de opinião que tais tentativas ajudam a estabelelecer o preceito de que qualquer abuso dos direitos humanos não será tolerado.

O que é preocupante em torno do livro de Baker não apenas a atenção que ele atrai – uma boa parte crítica -, que pode ser o testamento de sua reputação como escritor, mas também as questões que levanta sobre a guerra em si. Qualquer guerra, ainda que de auto-defesa, vale à pena ser lutada? Baker sugere que mesmo a Segunda Guerra Mundial não teria valido – que os judeus pereceriam de qualquer maneira e que mais vidas foram consumidas do que qualquer um teria podido imaginar e que, de alguma forma, o pacifismo teria feito sua mágica. (Ghandi, numa citação que levantei em outra fonte, sugeriu, em 1938, que os judeus alemães deveriam cometer suicídio em massa. Isso ” teria levantado, no mundo e no povo alemão, a consciência sobre a violência de Hitler.”)

Dentre as baixas de uma má guerra como a do Iraque, uma é o crescente sentimento de que nenhuma guerra vale mais que seu custo. Esse foi um importante sentimento na Europa, depois dos horrores da Primeira Guerra Mundial, que, em geral, levou à apatia diante de Hitler e, em particular, à celebrada declaração, feita em 1933 pelos jovens debatedores da União de Oxford de “que, em nenhuma circunstância, esta Casa lutará por seu rei e seu país.” No fim das contas, é claro, eles o fizeram porque tinha de faze-lo.

O mais horrível armamento em qualquer arsenal é a insanidade humana. Constatamos isso vezes e mais vezes, e, em alguns casos, a única forma de detê-la é pela guerra. “A Guerra é uma coisa horrível,” – escreveu John Stuart Mill – “mas não é a mais horrível das coisas. Muito mais horrível”, – continua ele, “é o sentimento de que não há nada na vida pelo qual valha à pena lutar.” A Segunda Guerra Mundial foi travada por muitas razões mas, sobretudo – e orgulhosamente – porque a única maneira de parar a matança é parar os matadores.

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7 pensamentos sobre “Sim, foi uma boa guerra::

  1. Bem vindo Bitt!

    A blogosfera floresce cada vez que você retorna com seus posts.

    Estou no aguardo da sua análise sobre os A29. Foi a primeira ação “de fato” deles fora do Brasil?

    Abraços!

  2. Bem vindo de volta Bitt. Acho que você sintetizou seu argumento muito bem na sua última oração. E compartilho de sua idéia.

    Agora me surpreende que depois de tantas comparações ruins entre a guerra do iraque e a segunda guerra cheguemos a tamanha inversão de raciocínio. questionar até a segunda guerra.

    Inclusive estou com um blog agora, sobre tecnologia e educação. Convido você e a todos para frequentar o meu deserto. 🙂

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