Uma comemoração particular, que não devia ser::


Meu detestado amigo, ou talvez, estimado inimigo, o Mr X (conheçam o Mister no ótimo blog que ele pilota, ou no blog do Pedro Dória, onde é um dos debatedores mais entusiasmados), vive aproveitando todas as oportunidades para falar bem dos EUA. Nada contra e tudo contra, mas devo dizer, pelo menos uma vez, ele comeu mosca: teria tido uma ótima oportunidade para elogiar, e com a maior justeza, os norte-americanos, caso tivesse lembrado do dia 8 de maio.

Certamente, todos sabemos o que significa essa data: o fim da guerra no chamado (pelos militares) ETO (European Theater of Operations). De fato, Berlim foi tomada pelos russos em primeiro de maio, um dia após o suicídio de Hitler, em seu bunker. Mas a capitulação alemã aconteceu em prestações: já no final de abril, as tropas alemãs na Itália abaixaram as armas, depois de negociações independentes entabuladas por iniciativa do SS Gruppenführer (general-de-divisão) Wolff. Em 7 de maio, representantes do sucessor de Hitler, Grande-almirante Dönitz (que ficou na chefia do governo por meros oito dias) assinaram a rendição incondicional. A cerimônia, diante de chefes militares norte-americanos, ingleses, franceses e soviéticos, não teve lugar em Berlim, mas na cidade francesa de Reims. No dia seguinte, a Wehrmacht (forças armadas alemãs, incluindo as unidades Waffen-SS, forças policiais e milícias populares) depôs as armas em cerimônias de capitulação localizadas. Calcula-se que tenham acontecido mais de 50, por todo o teatro. Também nessa data, por exigência do alto comissariado do Exército Vermelho, foi assinada nova rendição incondicional, na capital do Reich. Embora a guerra estivesse então oficialmente encerrada, as hostilidades só terminaram, de fato, em 13 de maio seguinte, quando a última força militar alemã capitulou, na Tchecoslováquia: tratava-se dos restos de unidades motorizadas da Wehrmacht e grande número de combatentes de outras nacionalidades, que, à revelia da rendição, ainda combatiam os soviéticos, esperando entregar-se aos norte-americanos.

Sabemos do terror que desceu sobre o mundo a partir de 3 de setembro de 1939; sabemos (e não podemos esquecer) dos sacrifícios impostos à toda humanidade em função de ambições insanas de um regime ensandecido e dos equívocos cometidos, por todo o lado, ao longo da década de 1930. Espero ser opinião geral que, não importa o preço, a derrota dos fascismo, produto de todo esse sacrifício foi uma causa nobre. Cada um dos aliados fez sua parte: a Inglaterra, como último bastião da Europa e depois, como o “porta-aviões insubmersível”; os EUA como o “arsenal da democracia”; a União Soviética como “o peito de aço que parou o fascismo”.

É outra história, e não importa, o que aconteceu depois, produto de ambições políticas, econômicas, militares, talvez pouco razoáveis, mas praticadas por homens que pela razão ou pela ameaça, sempre puderam ser chamados ao juízo. O fascismo jamais aceitaria discussão – apenas a força.

Um mundo sob o tacão fascista só pode ser imaginado por escritores de ficção – e, certamente seria bem mais sombrio do que qualquer imaginação pode conceber.

Nas próximas postagens, este blog, expressão das idéias utópicas e muitas vezes irrazoáveis de seu redator, irá comemorar essa data, que, com toda certeza, é de toda humanidade::

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9 pensamentos sobre “Uma comemoração particular, que não devia ser::

  1. Olá Bitt. 🙂
    Eu, elogiar os EUA? Quem disse?
    Mas obrigado pelo de “ótimo blog”. Vou colocar um link pro seu lá. Tenho que atualizar a blogrolllllll….

  2. Bitt, querido,

    É sempre benvinda uma análise realmente informada e que só nos acrescenta. Espero pelos pr´ximos posts.

    Beijos

  3. Albinha,
    obrigado pela visita. Sei q vc é professora de história, de modo q, tenho certeza não perderá oportunidade pra lembrar a tanta gente qto possível, do que escapamos todos por pouco, 60 anos atrás. :c|

  4. Bitt, queridíssimo,

    Confesso, envergonhada, que só agora li os posts anteriores, magnificamente escritos, como sempre. Concordo integralmente com você quando afirma que um mundo sob o nazismo seria intolerável, pior do que qualquer distopia. Aliás, seu post me inspirou a rever um classicão de guerra – “A Cruz de Ferro”, de Sam Peckinpah. A barbárie está toda ali, talvez mais do que em títulos mais recentes, como “A Queda”. É verdade que, sob muitos pontos de vista, o que o filme descreve não é diferente daquilo que acontece em qualquer guerra, mas a violência, desculpando-me pelo off-topic, bate qualquer Tarantino pelo impacto que causa. (isso sem falar do oficial junker covarde e mesquinho, off-course)

    Por outro lado, o nazismo não se esgota na questão do Holocausto. Era, e corrija-me se estiver errada, um sistema fechado, em que tudo e todos eram catalogados e tinham seu lugar devidamente determinado na ordem social, o que é assustador. De alguma forma, os tempos que vivemos, sempre me lembram o título do livro de Hobsbawn de memórias – “Tempos Interessantes”. Sem duvida, são tempos interessantes, mas também, são tempos assustadores.

    Quando se lê que a Europa mobiliza alta tecnologia (satélites, por exemplo) para barrar a entrada de imigrantes, discursos de Berlusconi sobre expulsar ciganos e outras amostras de medo, que conduz à intolerância, é mesmo de assustar.

    E os EUA, gestão Arbusto à parte, têm sua parte grande de responsabilidade nessa encrenca, porque, como você aponta, vêem se dedicando, há várias décadas, em carimbar como “Hitler de ocasião”, qualquer tiranete que os incomode. E, nisso, mobilizam a imensa máquina de propaganda para o desserviço de “banalizar o mal”, de uma forma talvez não pensada por Hannah Arendt. Noriega é Hitler, Saddam Hussein é Hitler – falando nisso, no filme “Bob Roberts”, o Gore Vidal fala muitissimo bem sobre isso. Mas é, repito, um desserviço, principalmente para as novas gerações.

    E, sim, fico preocupada com o extremo conservadorismo que encontramos entre nós: nada mais fácil do que encontrar quem defenda fuzilamento sumário de bandidos, piadas recorrentes contra homossexuais que, além de ser humor fácil demais, suspeito encobrir uma matriz de violência beeem grande. Isso, como se não bastasse a nossa gloriosa estatística de linchamentos. Impressionante, como o José de Souza Martins chegou a publicar um tempo atrás. Além de não combinar com o “brasileiro cordial”, mostra um deserto de várias coisas básicas, reduzindo tudo à defesa do “meu contra o seu” ou alguma coisa nesse sentido. Dá vontade de chorar.

    E, bão, só saiu esse tratado todo porque o tema é bom e porque, uma vez você disse que gostava de mensagens grandes. Então, não me sinto culpada. :))

    P.S. Se necessário, posso usar seu texto com minhas turmas? Claro que com os devidos créditos.

    Beijo grande

    Alba

  5. Bitt, depois da Alba fica meio difícil dizer alguma coisa. (Ô Alba, é elogio viu?)
    Como ia falando, muito bom você estar de volta.
    Passarei mais vezes.

    🙂

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