Uma comemoração particular que não devia ser – II::


Continuando minha comemoração particular (e atrasada) do final da Segunda Guerra Mundial, publico abaixo um artigo relativamente longo em torno das origens do “Tribunal Internacional para Crimes de Guerra”, que, em 1946, levou a julgamento os doze principais líderes nazistas. O artigo é, na verdade, uma tradução livre de um pequeno trecho da monumental história da Segunda Guerra Mundial escrita pelo professor Gerhard L. Weinberg, A world at arms – A global history of World Word II, publicado em 1994 pela editora Cambridge. Acrescentei algumas “notas ao texto”, que achei que poderiam trazer mais alguma coisa útil ao assunto.

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Em 12 de abril de 1945, perto da cidade de Gotha, na Turíngia, Eisenhower, [Omar] Bradley1 e [George] Patton fizeram uma visita ao campo de trabalhos forçados de Ohrdruf. Eles percorreram os barracões, viram os mortos e os que estavam morrendo. Durante a visita, fotógrafos do Corpo de Comunicações do Exército [U.S. Army Signal Corps] colhiam imagens que, posteriormente, iriam assombrar o povo dos EUA. Civis alemães, bem como os pracinhas do Exército dos EUA foram instruídos à conhecer esse campo, ou outros como ele – e, literalmente, haviam centenas. Nos dias seguintes, tropas norte-americanas e inglesas liberaram outros, bem maiores e muito mais famosos – ou notórios – : Buchenwald, Dachau, Bergen-Belsen, Nordhausen, Manthausen2, e assim por diante. Conforme eram revelados, o impacto era enorme. Numa época em que cine-jornais e revistas ilustradas como a Life distribuíam imagens dos principais eventos, o material feito nos campos levou à “frente interna” uma realidade que, até então, não tinha sido plenamente revelada. As autoridades aliadas e vários representantes da sociedade civil desconfiavam, já fazia tempo, que essas instalações eram apenas a ponta de um enorme iceberg; que talvez houvessem outros lugares onde mais pessoas tivessem sido assassinadas em um dia do que durante toda a existência de Ohrdruf. Mas esse lugar afoi suficiente para deixar a impressão de que havia ali alguma coisa diferente dos muitos massacres específicos acontecidos durante os combates, em situação de combate ou entre militares: Malmédy, Oradour-sur-Gleine, Fossas Ardeatinas, o massacre do StalagLuft III, a “ordem os commandos”, dentre centenas de outros. Ali estavam sinais tangíveis de um horror generalizado, que não poderiam ser ignorados pelas pessoas comuns.

O desenrolar dessa situação criou as bases para que o público apoiasse com crescente furor a proposta norte-americana de que criminosos de guerra fossem levados a julgamento depois do fim das hostilidades. A experiência de permitir que alemães conduzissem o julgamento de criminosos de guerra da Primeira Guerra Mundial tinha dado péssimos resultados: além do mais, em 1945 não havia nenhum governo alemão, como em 1919. Embora tenha sido sugerido, não havia inclinação para delegar a tarefa a governos neutros, como a Espanha ou a Argentina – países que tinham recusado todas as propostas para se juntar à guerra contra a Alemanha – e também não havia indicação de que esses estivessem interessados. Os aliados teriam de fazer o trabalho. A iniciativa foi tomada pelos norte-americanos que, segundo os termos da “Declaração sobre as atrocidades alemãs na Europa Ocupada”, emitida em Moscou, em 1943, queriam que os criminosos envolvidos em delitos praticados uma determinada área fossem julgados no mesmo lugar, e também um tribunal internacional para julgar aqueles cujas ofensas tivessem atingido áreas geograficamente mais amplas. Rooselvelt já tinha divulgado a posição básica dos EUA em Ialta, e Truman, dando continuidade ao processo, designou o juiz da Suprema Corte Robert H. Jackson para representar os EUA numa conferência especial, a ser realizada em Londres em 26 de agosto de 1945.

Sobre o tribunal, não houve concordância entre os Aliados, sendo que a União Soviética estava mais próxima da posição dos EUA do que a Grã-Bretanha. Os britânicos pretendiam declarar os dez principais chefes nazistas – inclusive Hitler – como foras-da-lei, e fuzilá-los assim que fossem apanhados. Essa posição foi confirmada em 12 de abril de 1945 pelo Gabinete.3 Os soviéticos queriam que o julgamento fosse sumário, e não desse aos acusados direito de defesa. Os norte-americanos, com sua objeção fundamental ao justiçamento, que vinha se desenvolvendo desde o século XVIII e estava posta na Constituição do país, eram inflexíveis sobre o tema. Na conferência de Londres, um acordo foi atingido, com o representante dos EUA exercendo forte pressão sobre os britânicos. Os participantes estabeleceram o tribunal, o local onde aconteceria e a decisão sobre a detenção dos principais acusados e sua transferência, logo que fossem capturados.

Juntamente com o estabelecimento do sistema de controle conjunto do espaço aéreo sobre Berlim, o tribunal de Nuremberg foi o último ato de cooperação entre os quatro vencedores da Segunda Guerra Mundial.

  1. Omar Nelson Bradley (1893 – 1981) foi um dos primeiros comandantes de campo das tropas norte-americanas. Liderou a invasão da Sicília e, em janeiro de 1944 foi indicado para o Primeiro Exército dos EUA, maior unidade dos Aliados ocidentais. Em agosto, logo depois da Normandia, recebeu o comando do 12o Grupo de Exércitos, unidade que, na prática, reunia as tropas dos EUA diretamente em combate no teatro europeu. Embora não fosse um comandante particularmente brilhante, era administrador de talento, capaz de lidar com personalidades como as de Patton e Hodges, seus egocêntricos comandantes de campanha. No fim da guerra, liderava quase 1.500.000 efetivos. Em 1950 foi promovido de a general de cinco estrelas, último oficial a receber essa distinção, na história das forças armadas dos EUA. Os outros foram George Marshall (comandante do Exército dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial) Eisenhower (comandante das tropas dos EUA na Frente Ocidental), Henry Arnold (comandante da Força Aérea do Exército) e Chester Nimitz (comandante da Marinha dos EUA). George Washington também recebeu a patente.

  2. O sistema de segurança implantado por Göring em meados dos anos 1930, quando era ministro do Interior da Prússia e chefe de polícia tinha, dentre seus principais elementos, os “campos de concentração” (em alemão Konzentrationlager, ou KZ). Esses campos eram instalações civis administradas sob regime de disciplina militar, e destinavam-se, inicialmente, a receber prisioneiros políticos e “elementos anti-sociais” para reeducação e/ou recolocação pelo Estado. A idéia foi desenvolvida pelos ingleses, durante a Guerra dos Boeres (1900-1902), como forma de negar à guerrilha afrikaaner uma retaguarda que a aplicaram, posteriormente, em outros lugares do Império. Durante a Primeira Guerra Mundial, foram copiados pelos alemães. Em 1933 o primeiro KZ oficial (outros, em miniatura, já tinham sido criados pelas SA nazistas, clandestinamente) foi instalado em Dachau, fábrica abandonada perto de Munique. Em 1939 o sistema contava com seis grandes unidades (Dachau, Sachsenhausen, Buchenwald, Flossenburg, Mauthausen e Ravensbruck) e umas vinte unidades menores, reunindo mais de 200.000 prisioneiros. A administração foi repassada, em 1936, à SS, que criou um ramo especial, conhecido como “Destacamentos Caveira”, comandado pelo general SS Eicke, com a finalidade de guardar as instalações e os prisioneiros. Em 1941 foi decidido que alguns KZs situados na Europa oriental ocupada seriam “unidades de execução da solução final da questão judaica”. As principais dessas unidades situavam-se na Polônia, onde tinham sido implantadas desde 1940 e já cumpriam funções de extermínio de políticos, intelectuais e militares, bem como de minorias etnicas.

  3. De fato era idéia pessoal de Churchill, que não se conformava com atitudes alemãs observadas logo ao início da guerra, como torpedeamento de navios civis sem aviso e incidentes isolados com prisioneiros de guerra. Em 1940, o massacre de alguns prisioneiros de guerra, ocorrido na frente francesa, deixou Churchill irado, e consta que, a partir desse incidente, ele teria começado a falar abertamente em justiçar os líderes nazistas.

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6 pensamentos sobre “Uma comemoração particular que não devia ser – II::

  1. Faz muito tempo que li um bom livro chamado “O Julgamento de Nuremberg”. Não o tenho mais, mas, do que me lembro, era o relato de um jornalista americano que ficou por lá aquele tempo todo. Muito bom.

    A WW2 é uma paixão. Porque? Acredito que porque tenha sido a última guerra que nós, ocidentais, não temos vergonha.

    Um pouco mais além, uma guerra onde nós, que gostamos do assunto, ainda sentimos algum romantismo no seu desenrolar.

    Patton é um exemplo. Um cara veloz e extremamente corajoso, tinha peito para tomar decisões super arriscadas com prêmios grandes. Enfim, parabéns pelo excelente blog. Parabéns não, obrigado é mais apropriado.

    ps.: essa letrinha tá de matar.
    ps2.: veja esse site sobre Guadalcanal http://www.historyanimated.com/GuadalcanalPage.html

  2. Bem, acho q é foi a última guerra em q todos os valores humanos mais essenciais estiveram empenhados: coragem, desprendimento, espírito de sacrifício, solidariedade… Mas isso tamb tem em outras, tipo VIetnam. Mas na IIGM esses valores todos estiveram associados à uma causa nobre.

    Por sinal, fiquei conhecendo seu blog agora a pouco. Vc é mesmo um especialista, mei bom!

  3. Caro mestre, Vietnam foi uma guerra baseada numa mentira, como a do Iraque. Encontrei com um grindo esses dias, numa praia, passamos alguns dias na mesma pousada, um ex capitão da US Army que tem um blog.

    No meio da conversa falei que o Iraque era uma tragédia por conta da mentira e ele respondeu: No Vietnam foi igual.

    Veja o blog dos caras aqui http://www.eagerarms.com/index.html

    O cara é o Peter O´Sullivan – dá uma fuçada, acho que vc vai gostar.

    ps.: o meu é secreto, ou melhor, não é pra espalhar em demasia. Ok? É só uma experiência boba.

  4. Alous Gente, sobre o Julgamento de Nuremberg não li o livro, apenas vi o filme e já achei interessante por oferecer a descrição mais clara e suscinta do que é a maldade humana que eu já vi.

    “O mal é a falta de empatia”, diz o psicólogo que entrevistou os líderes nazistas. Fico curioso pelas abordagens que o livro pode oferecer.

  5. Bitt,

    O Estadão publicou hoje uma resenha sobre a correspondência entre Stalin e Roosevelt. é de de um livro, parece, já publicado no Brasil: “Prezado Sr. Stálin”. MUito interessante.

    Beijo

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