Algumas observações sobre o início da Segunda Guerra Mundial::


O uso da palavra alemã blitzkrieg (“guerra-relâmpago”) tornou-se quase sinônimo de Segunda Guerra Mundial. Em geral, a blitzkrieg foi muito bem sucedida até 1942, no que pode ser considerada a primeira fase da guerra. Sempre tive curiosidade em entender porque, após todo o sucesso dos primeiros 30 meses, a fantástica Wehrmacht mergulhou de desastre em desastre, até terminar a guerra com a própria extinção. Ler romances sobre a Segunda Guerra Mundial é divertido; também é divertido ver filmes como “Cruz de Ferro” (Cross of Iron, de Sam Peckimpah) e “A raposa do deserto” (The desert fox, de Henry Hathaway); mergulhar no universo de militaria é fascinante. Temos certa tendência a simpatizar com os perdedores. Entretanto, o buraco é mais embaixo: a Wehrmacht era um exército de nazistas, os grandes comandantes alemães ou eram entusiastas ou simpatizantes de Hitler, escondidos atrás do discurso do “patriotismo” e da “honra”.

Tentarei, como parte dessa comemoração pessoal, entender o que significou essa palavrinha, contra o pano-de-fundo da guerra. E tentarei dizer, da melhor maneira que puder, que tivemos sorte que a coisa toda não fosse exclusividade dos alemães e que tenha sido melhor copiada por soviéticos e norte-americanos.

Este texto terá duas partes, e espero que ajude um pouco a esclarecer o fato de que não existem “heróis alemães” injustiçados – existem apenas aqueles que mudaram de idéia após a derrota. Ou simplesmente não mudaram.

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A blitzkrieg (“guerra-relâmpago”, em alemão) é uma doutrina militar geralmente associada à forma como a Wehrmacht (Forças Armadas) lutou na primeira metade da guerra.

Entre os alemães, a principal inspiração para os estudos que culminaram nas táticas de manobra e velocidade que levaram à vitórias incontestáveis não veio do uso – por sinal relativamente pequeno, no Exército Imperial – de veículos motorizados. Os alemães consideravam não muito difícil deter ataques liderados por tanques, máquinas que viam como frágeis e militarmente inócuas. Muito mais interessantes pareceram aos oficiais alemães a guerra de movimento aplicada na Frente Oriental, no início do conflito, e as táticas de infiltração desenvolvidas a partir daquela, e aplicadas na Frente Ocidental depois de 1917. Mesmo sem apelar a motores e veículos, o pensamento militar alemão sempre foi, desde Frederico, o Grande, fortemente influenciado pela aplicação do movimento como forma de alcançar a concentração de forças. “Não importa que marchemos separados, desde que cheguemos juntos”, dizia Frederico, e nessa idéia foi seguido pelos principais teóricos militares prussianos. Esse conceito-matriz alcançou seu maior sucesso na Guerra Franco-Prussiana de 1870, na qual o exército prussiano derrotou o exército francês em pouco menos de 1 ano. Logo no início da Primeira Guerra Mundial, os alemães tentaram uma ampla manobra em arco, o “Plano Schlieffen”, através da qual pretendiam repetir, em escala muito aumentada, as ações da guerra de 1870. O fracasso dessa manobra, no final de 1914, acabou produzindo o impasse e a matança das trincheiras.

No período entre-guerras, o estudo, pelo Estado-maior das reduzidas “Forças Armadas Nacionais” (uma tradução aproximada para a expressão Reichswehr) concluiu que o movimento ofensivo deveria buscar sempre atingir o centro do adversário, visto que, quando o centro se rompia, a frente não demorava a romper-se também. O rápido rompimento da frente permitiria a concentração de forças ao mesmo tempo que negaria ao inimigo concentrar as próprias. Falando de uma forma geral, o tipo de ofensiva desenvolvida a partir dessa doutrina visava, através de penetrações profundas, interromper as comunicações e o contato entre as forças adversárias, impedindo-as, desse modo, de atuar coordenadamente, em termos de comando, controle e logística. Para potencializar a exploração do rompimento, alguns oficiais alemães, o principal deles o tenente-coronel Heinz Guderian, advogavam o uso de veículos motorizados, principalmente dos chamados PanzerKampfwagens (Carros de Combate Couraçados), que nada mais eram do que aperfeiçoamentos dos tanks britânicos e dos chars légers franceses da Grande Guerra.

Esses oficiais, entretanto, não viam os Panzer apenas como máquinas de suporte aos assaltos da infantaria, como era a tendência dos exércitos ocidentais no período entre-guerras. No esboço da nova doutrina alemã, a arma blindada era o centro de uma unidade de todas as armas, com a função de encontrar o ponto de rompimento, que, uma vez fixado, seria explorado e ampliado por artilharia, infantaria mecanizada, forças especiais de engenharia, apoiados, quando necessário, por aviação – bombardeiros médios e de mergulho. Unidades de reconhecimento providas de veículos muito rápidos, principalmente motocicletas e jipes equipados com rádio, comunicando-se com os quartéis-generais regimentais e divisionários em linguagem aberta, metiam-se pelas linhas inimigas, indicando o caminho para postos de comando, cortavam-lhe as comunicações e ajudavam a aprofundar o colapso semeando confusão na retaguarda do inimigo. Unidades avançando em alta velocidade estendiam-se demais e mesmo que o controle fosse estrito, a possibilidade de contra-ataques era uma constante. Esses eram prevenidos através da presença na linha de frente, da Luftwaffe (Arma Aérea) e do deslocamento de artilharia anti-carro, que a partir de 1941, começou a ser montada em carretas sem torre, de silhueta muito baixa, que passaram a ser conhecidas como SturmGeschutz (algo como “canhão de assalto”), e se revelaram extremamente úteis no suporte às operações dos blindados. O controle de todo esse aparato baseava-se em tropas de comunicação organizadas ao nível de batalhão – coisa até então completamente desconhecida -, operando sistemas móveis e portáteis de rádio. Assim, as primeiras divisões blindadas, aparecidas na Alemanha, tornaram-se, depois de 1940, símbolos de poder militar.

Esse novo tipo de guerra, fortemente apoiado em um conjunto de novas tecnologias que ampliavam as dimensões do campo de batalha, exigia um novo tipo de comandante. Instalado em um quartel-general móvel, enxergando o campo de batalha a partir dos olhos de suas unidades de reconhecimento terrestres e aéreas, analisando informações que chegavam através dos equipamentos de telecomunicações, jovens coronéis e generais como Guderian, Erwin Rommel, Erich Hoepner e Felix Steiner, dentre outros, seguiam na frente de suas unidades, de modo a estar nos pontos decisivos, tomar as decisões rapidamente e animar os soldados.

A blitzkrieg alcançou sucesso estrondoso entre 1939 e 1942. Atualmente, quase todos os historiadores especializados concordam que, nessa primeira fase da Segunda Guerra Mundial, o fato de a Alemanha contar com 10 divisões blindadas, 7 divisões de infantaria mecanizada (chamadas pelos alemão de Panzergrenadiern, “Granadeiros couraçados”) e 3 divisões ligeiras (uma divisão blindada com um complemento menor de veículos blindados) foi a diferença que possibilitou uma vitória tão completa em tão pouco tempo, contra algumas das maiores potências militares da época.

Nos anos que antecederam o conflito, diversos países estudaram conceitos semelhantes aos desenvolvidos pelos alemãs. Esses estudos buscavam entender as experiências realizadas na Frente Ocidental, durante a Grande Guerra, especialmente a partir de 1916, com o uso de carros de combate e forças mecanizadas. Se bem que não tenha tido grande influência no desfecho da guerra, esse tipo de nova tecnologia impressionou alguns oficiais ingleses, franceses e soviéticos o suficiente para levá-los a pensar no assunto.

Em 1935, as principais potências da época – Inglaterra, França, União Soviética, EUA e Japão – tinham feito estudos mais-ou-menos aprofundados em torno da aplicações das novas tecnologias militares. São bem conhecidas as idéias dos britânicos Fuller e Liddell-Hart, baseadas na experiência da Grande Guerra. Embora tenham se afastado do exército logo após o fim das hostilidades, e escrevessem livros em linguagem não-técnica, tornaram-se muito populares entre oficiais militares não-teóricos. No lado militar, na década de 1920 os britânicos formaram uma “Força Experimental Motorizada”, unidade de todas as armas extremamente móvel. Em 1928, manobras realizadas na planície de Salisbury demonstraram a efetividade de unidades motorizadas controladas por rádio e a capacidade do tiro em movimento ser eficaz. Apesar do sucesso dessas experiências, a unidade foi debandada nesse mesmo ano. Ainda assim, EUA, URSS e Alemanha observaram cuidadosamente os resultados, e é bem conhecida a influência tanto de Fuller e Liddell-Hart quanto da “Força Experimental Motorizada” sobre as idéias de Guderian e von Thoma.

Na URSS, o marechal Mikhail Nikolaievich Tukhachevski, antigo oficial superior do Exército do Czar, depois comandante do Exército Vermelho durante a Guerra Civil (1920), a Guerra contra a Polônia (1920-21) e a rebelião de Kronstadt (1921), tornou-se um grande estudioso da aplicação da velocidade e do motor à explosão, baseado em sua própria experiência com a guerra de movimento na frente ocidental, durante a Grande Guerra. Entre 1924 e 1931, empenhou-se na modernização e rearmamento das forças terrestres soviéticas, e, em diversos artigos e livros escritos entre 1928 e 1935, delineou uma teoria do emprego de armas combinadas conhecida como “operações profundas”. Nesse esboço de doutrina, formações de armas combinadas, organizadas em torno de unidades motorizadas e blindadas, incursionariam profundamente para dentro das linhas inimigas, de modo a desorganizar-lhes a retaguarda, as linhas de comunicação e de suprimentos. Embora essas idéias sofressem forte oposição do establishment político e militar soviético, tornaram-se muito populares entre a oficialidade de tropa e foram adotadas durante a década de 1930. Seu livro “Instruções sobre as Operações Profundas” tornou-se leitura obrigatória e as teorias expostas nele acabaram convencendo Stalin, que imbuiu-se da idéia de que a modernização do exército poderia ser um fator de aceleração da modernização da URSS, movimento chamado de “industrialização militar”. Em 1931, como comissário para a defesa, Tukhachevski criou não apenas unidades blindadas experimentais, como uma indústria de blindados extremamente avançada. Acabou sendo executado durante os expurgos de Stalin, mas sua doutrina continuou popular entre a oficialidade e não chegou a ser expurgada dos manuais militares soviéticos. Entre agosto e setembro de 1939, a aplicação mitigada das idéias do marechal por seu aluno Georgy Zhukov, na guerra contra o Japão, provocou uma vitória arrasadora sobre forças imperiais muito superiores. Ao longo dos anos seguintes, embora o nome de Tukhachevski não pudesse ser citado, suas idéias podiam ser estudadas, e embora estudadas, não podiam ser aplicadas. As formações de todas as armas, ainda experimentais, foram dissolvidas, restando algumas que continuaram operacionais na fronteira com a China. O resultado do expurgo foi curioso: em 1940, a URSS dispunha de mais de 10.000 tanques, um corpo de oficiais e praças muito bem treinados na operação dessas armas e experiência de combate real, mas não dispunha de uma arma blindada real.

A França liderava, desde a Grande Guerra, o desenho e fabricação de tanques, copiados por norte-americanos, soviéticos e japoneses. Mas, ainda assim os teóricos franceses continuaram a propor que os blindados compusessem uma arma de suporte à infantaria. Os tanques franceses (chamados de “carros de combate”) surgidos nos anos 1920, pesadamente protegidos e armados, eram reunidos em unidades de “cavalaria couraçada” e deveriam buscar romper as linhas adversárias para permitir a passagem local de forças convencionais de infantaria a pé. Os teóricos militares franceses não consideravam o veículo motorizado capaz de provocar o colapso das forças inimigas. Apenas um francês advogava pelas forças blindadas: o coronel Charles De Gaulle. Veterano da Grande Guerra, renomado intelectual militar e oficial de Estado-maior, De Gaulle publicou, em 1934 e 1938, livros no qual defendia como “imprescindível” a criação de um exército profissional, formado por unidades mecanizadas e blindadas. Na contra-mão de seus superiores, tornou-se um adversário ferrenho das idéias de “frente estática” defendidas pelo comando do exército. Essas teorias resultaram, em 1930, na construção da Linha Maginot. Baseada nas idéias de André Maginot, ministro da Defesa entre 1929 e 1931, a “Linha” era, de fato, um elaborado e complexo sistema de fortificações capaz, em teoria, de parar qualquer ataque. As idéias do coronel foram alvo de forte rejeição, sendo colocadas de lado sem sequer serem examinadas. De fato, problemas políticos estavam por trás dos problemas de De Gaulle com seus colegas e até com seus mentores, os marechais Weygand e Petáin. Na Polônia, Vladislau Sikorski, antigo oficial do exército austro-húngaro, engenheiro e ativista pela independência polonesa, tornou-se comandante do exército polonês na guerra contra a União Soviética, contra o qual obteve uma vitória considerada “milagrosa”, mas que, de fato, pode ser atribuída ao treinamento superior dos poloneses e ao uso de veículos motorizados como forma de chegar primeiro ao objetivo e preparar o terreno. Na segunda metade dos anos 1930, exilado em Paris depois de problemas políticos com a ditadura do marechal Pilsudiski, Sikorski, trabalhando como colaborador na Escola Superior de Guerra, escreveu um livro no qual apresentava idéias muito similares aquelas que mais tarde seriam aplicadas pelos alemães.

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7 pensamentos sobre “Algumas observações sobre o início da Segunda Guerra Mundial::

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  2. Que eu me lembre a operação Urano em Stalingrado é um bom exemplo desse ataque em profundidade não?

    Interessante, pois vc coloca que esse desenvolvimento da arma blindada não foi uma exclusividade alemã. E que no exército vermelho já havia um pensamento semelhante, não sendo algo que foi “aprendido” com a invasão alemã, seria isso?

  3. Pingback: Um sistema de armas (da Segunda Guerra Mundial, é claro) às terças:: O feio, o mau e o bom:: « Causa::

  4. Em primeiro lugar, parabéns pelo site. É muito legal.
    Te escrevo para tirar uma dúvida: um amigo meu apostou comigo que a França tinha mais tanques do que a Alemanha em 1939, quando começa a segunda guerra. Busquei o teu site, dentre outros, para tirar a dúvida. Mas não consegui encontrar esta informação. Sabes onde posso obtê-la?
    Carlos Paiva

  5. Pingback: Rodrigo Castilhos » PapodeHomem » Até Fidel mandou fazer um charuto para esse cara!

  6. O que me pode dizer sobre pistolas de oficiais de blindados alemães na primeira guerra mundial?
    obrigado.
    manuel preira

  7. Manuel, não sei se entendi a pergunta. Na 1ª GM os alemães não tinham blindados; se vc está se referindo à 2ª GM, todos os oficiais alemães (o dos blindados não eram diferentes)usavam um arma curta, q, no início era a Luger P08 (aquela q todo mundo conhece), mas q foi substituída, a partir de 1939/40, pela Walther P38. Ambas as armas usavam o projetil Parabellum de 9 mm, jaquetado em cobre. Era uma arma excelente, mas as pistolas semiauto são mais símbolos da autoridade de oficial, visto q, como toda arma curta, têm mto pouca utilidade em combate. Quando na linha de combate (coisa muito comum entre tenentes, capitães e majores, e bem menos entre tenentes-coronéis e coronéis), os oficiais alemães preferiam portar uma submetralhadora, que tamb foi invenção deles. As SM eram armas mais leves e fáceis de usar que um fuzil. Isso se dava em todos os exércitos, tanto é que atiradores de escol em geral procuravam, como alvos, homens portando armas diferentes do grosso dos elementos visíveis – esses eram, geralmente, oficiais ou graduados.

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