Os limites da blitzkrieg – o auge e o começo da derrocada::


De toda forma, a Segunda Guerra Mundial foi o primeiro dentre os conflitos humanos nos quais a guerra blindada teve papel principal. Como vimos no post anterior, a grande diferença dessa guerra para todas as anteriores foi o papel exercido pela máquina na ampliação das dimensões do campo de batalha. Máquinas de todas as espécies, impulsionadas por motores à explosão mudaram o tempo e o espaço do combate. Era, realmente, uma guerra multidimensional. Outros aspectos também passaram a interferir fortemente na condução e desfecho do combate: a utilização de comunicações eletro-eletrônicas, a interpretação de informações remotas (por exemplo, fotografias e dados meteorológicos) e a rapidez da tomada de decisões.

Podemos dizer que a superioridade da Wehrmacht, na primeira fase da guerra, esteve totalmente relacionada a posse, como núcleo do exército, de 21 divisões mecanizadas (entre blindadas e de infantaria motorizada) e uma doutrina de como utilizá-las. E, principalmente, um corpo de oficiais consciente do que significava a nova forma de guerrear. Entretanto, do ponto de vista alemão, a nova forma logo mostraria seus limites. A segunda fase da guerra seria a da exaustão da blitzkrieg e da ascensão da guerra blindada em estilo soviético e norte-americano.

Os motivos da derrocada da Alemanha nazista são diversos e bem conhecidos. A Alemanha praticou uma guerra realmente clausewitziana – a ocupação do território dos adversários, no todo ou em parte, indica claramente a filiação teórica dos planejadores alemães. Entretanto, segundo as formulações desse filósofo militar, “a guerra é a continuação da política por outros meios”. Isso significa, aproximadamente, que a aplicação da força não é uma interrupção da política, mas que o modelo conceitual de guerra clausewitziano vincula-se à raison d’état e tem como referencial histórico empírico o “concerto” dos Estados-Nações europeus cuja liderança política tem a supremacia frente à liderança militar dos respectivos estados. A partir daí, constrói um modelo teórico onde propõe que a ratio da guerra é a destruição militar do adversário e a sua conseqüente submissão política ao vencedor.

Pois, se pensarmos a primeira fase da Segunda Guerra Mundial e seu desenrolar objetivo, do lado alemão – a blitzkrieg – fica evidente que os planejadores políticos, Hitler à frente, esperavam uma guerra curta, pelo menos no teatro ocidental, e não pensavam na interrupção da política, visto que pretendiam forçar a Inglaterra a negociar. Os planejadores alemães imaginavam que, diante da derrota, a Inglaterra aceitaria uma nova acomodação: a manutenção do império em troca do reconhecimento da supremacia alemã no continente. Com a Inglaterra fora da guerra, os EUA não teriam motivos para imiscuir-se nos assuntos europeus e a máquina militar alemã poderia ser lançada contra a URSS.

A obstinação de Churchill teve as conseqüências bem conhecidas, mas não é o tópico aqui. O que nos importa frisar  é que o modelo de campanha militar resultante da blitzkrieg (as da Polônia, da Escandinávia, dos Países Baixos e da França), não durando mais que 2 meses e nem provocando baixas significativas, escondeu as deficiências do aparato militar montado pelos nazistas. Que, se for observado de perto, revelará, por incrível que possa parecer, uma potência militar relativamente modesta, em comparação, por exemplo, com a União Soviética, França e Inglaterra. Mas, embora superiores em números e, em muitos aspectos, em qualidade do armamento, essas nações estavam, em comparação com a Alemanha, despreparadas para a nova forma de guerra. Inglaterra e França insistiam em manter os blindados como elementos de suporte da infantaria, fosse como apoio direto, fosse numa concepção que substituía os cavalos por blindados ligeiros. Nessa forma de organização, os blindados não tinham funções diretamente ofensivas, não eram capazes de operações independentes e muito menos eram pensados em funções anti-tanque. Os “carros de combate” franceses, particularmente os modelos S-35 e Char B eram muito superiores aos blindados alemães, em termos de armamento e proteção. A forma de organização francesa, entretanto, espalhava os blindados em meio às formações de infantaria e os subordinava à uma organização regimental na qual qualquer vantagem em termos de mobilidade e poder de fogo simplesmente desaparecia. Os tanques alemães, por outro lado, eram concebidos principalmente para serem velozes e manobráveis, em detrimento do armamento e da proteção. Entretanto, agindo de forma coordenada, conseguiam se sobrepor a adversários que os superavam, como sistema de armas.

Os campos de batalha da Europa Ocidental, bem como as extensões planas do norte da África viram o apogeu da arma blindada alemã e de seu estilo de guerra. No norte da África, o mal-treinado, mal-armado e pior comandado exército italiano tornou-se presa fácil para as tropas motorizadas e altamente móveis do general Archibald Wavell. Entretanto, com a chegada, em fevereiro de 1941, de algumas unidades mecanizadas alemãs centradas em uma “divisão ligeira” e lideradas por um dos mais bem-sucedidos comandantes de tanques da Wehrmacht, o general-de-divisão Erwin Rommel, a situação não demorou a mudar. O ex-comandante da Sétima Divisão Blindada alemã no teatro europeu não demorou a perceber que o grande problema dos italianos, além da inadequação dos métodos, era o péssimo comando. Os ingleses utilizavam pequenas unidades com dotação insuficiente de artilharia e infantaria, e a vantagem que conseguiam devia-se ao comando centralizado e exploração da velocidade. Rommel não esperou para lançar uma contra-ofensiva e rapidamente revelou a fraqueza dos britânicos, revertendo toda a vantagem conseguida por aqueles ao longo dos seis meses anteriores.

Pode-se dizer que a guerra no deserto, entre março de 1941 e agosto de 1942 constituiu o auge da aplicação da blitzkrieg. As dificuldades logísticas, além do fato de que a intervenção no norte africano visava dar suporte aos aliados italianos, não sendo prioridade no planejamento alemão, constituíram fatores decisivos para o fracasso daquela frente. A vitória decisiva obtida pelos britânicos na segunda batalha de El Alamein fez com que os remanescentes da força expedicionária alemã e do exército italiano caíssem na defensiva. A intervenção norte-americana, a entrada efetiva dos EUA em combate, selou o destino da frente africana do Eixo.

A blitzkrieg, até então, tinha se mostrado eficiente contra tropas focadas na doutrina da defesa estática, aperfeiçoada pelas principais potências, mas particularmente pela França, após a Grande Guerra. Embora já existissem, mesmo antes da guerra, relatórios sobre as vantagens e limitações dos procedimentos alemães, formulados desde a Guerra Civil Espanhola, o Estado-maior francês insistia em ignorar qualquer formulação que não saísse dos seminários da École Superieur de la Guerre. Basta dizer que em junho de 1940 oficiais alemães se surpreenderam ao encontrar, intocado, um detalhado relatório encaminhado ao Estado-maior francês pelo general-de-brigada polonês Stanislaw Maczek, comandante de uma unidade de cavalaria mecanizada durante a campanha da Polônia, e então exilado na França. Maczek concluiu, depois de sua curta e bem-sucedida ação contra o Décimo-oitavo Corpo Blindado da Wehrmacht, que o ponto fraco da blitzkrieg estava exatamente na velocidade do avanço, que impedia, em certas situações, o desdobramento organizado das colunas pelo terreno. Isso significava que, em algum momento, os flancos ficariam expostos. Posteriormente, tanto os aliados ocidentais quanto os soviéticos perceberam que a melhor resposta aos ataques alemães em velocidade estava na defesa em profundidade, ou seja, na preparação do teatro tático, com o estabelecimento de pontos de fogo de artilharia anti-tanque e posicionamento de forças blindadas e de infantaria nos espaços entre campos minados e terrenos inadequados para veículos. O objetivo deveria ser atingir os flancos e buscar pela retaguarda do atacante. Esse procedimento, chamado de “Ouriço”, foi aperfeiçoado pelos franceses, que não tiveram oportunidade de usá-lo em 1940, mas mostrou-se efetivo em diversas situações posteriores, inclusive na campanha que culminou na segunda batalha de El-Alamein::

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2 pensamentos sobre “Os limites da blitzkrieg – o auge e o começo da derrocada::

  1. Muito bom, especialmente pela parte das limitações da blitzkrieg.

    Que me lembre outra forma de enfrentar os alemães, utilizada pelo russos era tentar lutar próximo ao adversário. O que neutralizaria as vantagens alemãs em termos de mobilidade, precisão das armas e apoio aéreo.

    O problema é que até chegar perto o caminho era bem dolorido.

  2. Sensacional!

    Eu, pessoalmente, acredito que a blitzkrieg teria ido muito mais longe se Hitler tivesse protegido suas linhas de suprimento à altura.

    Quanto a batalha de El Alamein, ao lado de Barbarrossa onde se travou o maior combate de blindados da história, acho que foram alguns dos episódios militares mais impressionantes da segunda guerra.

    Parabéns!!

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