Um sistema de armas (da Segunda Guerra Mundial, é claro) às terças:: O feio, o mau e o bom::


Já que dois de meus fiéis leitores manifestaram desejo de ler algo tanto sobre o Sherman M-4 norte-americano quanto sobre o T-34 soviético, resolvi fazer algo diferente: examinaremos o “feio”, o “mau” e o “bom”*. O “feio” e o “mau” são o M-4 e o T-34 – pois um era feio pra burro e o outro, mau à bessa, tanto com o inimigo quanto com os tripulantes, já que o conforto não era propriamente a maior preocupação dos projetistas de equipamentos militares das fabricas soviéticas. E o “bom” é o SdKfz161/PzKpfw IV, porque esses blindados foram o “burro de carga” da Wehrmacht durante a Segunda Guerra Mundial. Não eram os melhores e não granjearam, de modo algum, a fama dos Tigres e Panteras, mas estiveram presentes, com razoáveis graus de sucesso, em todos os campo de batalha em que os exércitos de Hitler se meteram. Bem, neste último texto comemorativo do final da Segunda Guerra Mundial, examinaremos três “obras-primas” que botaram pra quebrar nos campos europeus e norte-africanos: “feio”, o “mau” e o “bom”. Pois, em três capítulos, vamos tentar estabelecer algumas comparações entre esses três tipos, de modo a tentar relativizar alguns mitos em torno da arma blindada durante a última guerra. E isso sempre dentro da filosofia do redator: por mais sedutores que tenham sido os armamentos, a habilidade e a coragem dos exércitos nazistas, temos de, a cada dia, considerar a sorte que toda a raça humana teve com o fato de que eles não foram nem tão melhores, nem tão mais habilidosos e, muito menos, mais corajosos do que suas contrapartes ocidentais.

Segue-se um breve estudo sobre o “feio” – o tanque médio M-4 Sherman, produzido nos EUA. Logo em seguida publicaremos um artigo sobre o “mau” – o T-34 soviético -, seguido por um texto sobre o “bom” – o Panzer IV alemão. Por último, tentaremos fazer uma comparação razoável de prós e contras dos três tipos.

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*Não, vocês não se enganaram. O título deste post é um trocadilho infame com o nome do conhecido western spaghetti de 1979 – The good, the ugly, the bad (Il buono, il brutto, il cattivo) dirigido por Sergio Leone, com Clint Eastwood, Lee van Cleef e Antonio Casale. Não causará nenhuma estranheza aos leitores do Papo de Homem, porque todo macho assumido gosta de um bom filme de faroeste. Quanto aos leitores do WebLog do PD, do Catatau e do Milliway´s Lounge… Esses aí escondem, mas também gostam… :c)

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O feio

O tanque médio do exército norte-americano M-4 fez seus primeiros testes no campo de provas de Aberdeen, Maryland, em março de 1941 e entrou em produção em outubro do mesmo ano. Onze plantas industriais participaram da fabricação do M-4. O novo veículo blindado entrou em serviço ativo no final do ano seguinte.

O nome “Sherman” foi uma designação britânica, e, ainda que não fosse um nome oficial, tornou-se amplamente difundido entre as tropas norte-americanas. O M-4 foi largamente utilizado pelo Exército dos EUA, Corpo de Fuzileiros Navais, Grã-Bretanha, Canada, Austrália, França Livre, China e, em menor escala, pela União Soviética.

Esse tanque médio resultou da necessidade de substituir o M-3 Lee**. Este tanque, distribuído pelo Exército dos EUA do final dos anos 1930, era aperfeiçoamento de outro desenho, o tanque M-2, sendo basicamente uma versão mais pesada desse último, tanto em blindagem quanto em armamento. O sucesso dos modelos alemães PzKpw III e IV, veículo leves, velozes e de silhueta baixa, fizeram com que os norte-americanos começassem a pensar em um novo modelo, capaz de enfrentar os alemães. Daí resultou a idéia de adotar o armamento principal do M-3, um canhão de baixa velocidade capaz de disparar tanto munição de alto-explosivo quanto perfurante de blindagem, numa torreta de desenho mais moderno. O M-3, seguindo uma tendência inaugurada pelos franceses, tinha um canhão de 75 milímetros instalado num reparo lateral, posicionado no casco do veículo, ao lado da posição do motorista. A desvantagem dessa solução era praticamente eliminar o movimento de conteira (giro de 360 graus), o que tornava a operação do veículo extremante complicada, já que todo o conjunto tinha de se mover, para que o canhão principal fosse apontado. Numa torre convencional, um canhão de 37 milímetros, de alta velocidade, podia ser apontado independente da direção em que o veículo estivesse se movendo.

O desenho do M-4 levava em consideração a doutrina norte-americana que favorecia a velocidade e mobilidade sobre a proteção. Pensavam os teóricos norte-americanos que velocidade e mobilidade, num campo de batalha de máquinas se deslocando em alta velocidade, funcionariam como uma “blindagem extra”. De fato, essa teoria não era nova, e tinha sido elaborada pouco antes da Grande Guerra, pelo almirante britânico lord Fisher, e deu na proposta – totalmente furada – do cruzador-de-batalha. A idéia foi um fiasco, e acabou sendo responsável por alguns dos maiores desastres ingleses nos principais encontros navais daquele conflito. A doutrina do exército norte-americano, no período entre-guerras colocava o tanque como equipamento de suporte de infantaria motorizada, e devia ser capaz de mover-se rapidamente, acompanhando as tropas. Em 1940, examinando a doutrina alemã que estava sendo chamada pela imprensa de blitzkrieg, os norte-americanos concluíram que a grande velocidade impressa pelos alemães às campanhas constituía uma espécie de “proteção adicional” que explicava como veículos tão leves quanto os utilizados pelos alemães conseguiam se sair bem contra unidades mais armadas e protegidas. A soma de equívocos resultou num veículo que, de certa forma, não era concebido para combater outros tanques.

O novo projeto foi apresentado em meados de 1940, mas alguns atrasos aconteceram devido a problemas com o desenho da torreta, destinada a receber um canhão de 75 milímetros de média velocidade de boca e uso geral. O protótipo apresentava diversos elementos comuns com o M-3: casco soldado e rebitado em partes e chassi em peça única alojando um motor Continental R950 e o tanque de combustível (gasolina de baixa octanagem) na parte traseira, e habitáculo da tripulação na metade dianteira. Também foi herdada do M-3 a suspensão de molas verticais e lagartas com elementos de contato em borracha. A roda de tração era dianteira, e a direção era feita através de dupla caixa de mudanças.

A fabricação foi planejada de modo a incorporar a grande experiência da indústria norte-americana de veículos a motor, principalmente o sistema de produção em série em uma mesma unidade industrial. O Sherman foi, praticamente, o modelo-padrão das forças blindadas ocidentais. Sua produção alcançou mais de 40000 unidades, dentre as quais 18000 foram distribuídas entre as forças armadas dos EUA e o restante, aos ingleses, canadenses, australianos, chineses, franceses livres e até mesmo aos soviéticos. A produção se iniciou em três plantas especializadas em equipamentos pesados de transporte – Lima Locomotive Works (Lima, Ohio), Pressed Steel Car Co. (Jersey City, Nova Jersey) e Pacific Car and Foundry (PACCAR – Renton, Washington), mas, ao longo dos anos seguintes, 11 outras instalações passaram a produzir o M-4, entre as quais Baldwin Locomotive Works (Philadelfia, Pensilvania), American Locomotive Co. (ALCO – Schenectady, Nova Iorque), Pullman Standard Car Co.(Pullman City, Illinois), e o estatal Arsenal de Tanques de Detroit (Detroit, Michigan). Inicialmente planejada para 350 tanques por mês, a produção alcançou, em três meses, o nível de 1000 unidades mensais, tendo chegado, no fim da guerra, à 2000 unidades.

A entrada em combate dos EUA, em 1942, mostrou que o Sherman era capaz de enfrentar e superar qualquer dos modelos alemães utilizados no Norte da África. Foi, entretanto, uma impressão totalmente equivocada, provocada pelas condições das forças do Eixo naquele teatro. No teatro italiano, pouco adequado ao uso de blindados, os Sherman norte-americanos e ingleses começaram a encontrar problemas diante dos canhões de assalto e caça-tanques usados pelos alemães (muitas vezes em posições estáticas, devido às características do terreno e à escassez aguda de combustíveis), que, aquela altura – 1943 -, já montavam a versão L40 do canhão anticarro PaK39, de alta velocidade. A artilharia do Sherman não era capaz de penetrar a blindagem frontal de 80 a 100 milímetros incorporada pelos Hertzer e JagdPanzer IV, ao mesmo tempo que sua proteção era vulnerável à distâncias bem superiores, diante dos projéteis de alta performance dos blindados alemães. Depois da invasão da França, quando os M-4 começaram a bater de frente com os últimos modelos de blindados lançados em campo pela Wehrmacht, com base na experiência da Frente Oriental, o desastre foi completo. Diante do modelo L48 do canhão Kwk40 de 75 milímetros, que estava montado na torre das versões H e J do Panzer IV e nos então desconhecidos “Pantera”, o Sherman era simplesmente ineficaz.

Mas, ainda assim, os planejadores norte-americanos souberam tirar vantagens dos Sherman diante de suas contrapartes alemãs. A primeira era, sem dúvida, o grande número deles disponível em campanha (uma divisão blindada norte-americana chegava a ter 260 tanques, enquanto as alemãs dificilmente chegavam a ter 90 deles). A alta velocidade, a confiabilidade mecânica, a simplicidade de manutenção e a facilidade de manejo eram outras. Por fim, tripulações treinadas conseguiam obter considerável cadência de fogo (voltaremos a esse tema). Ainda assim, diante do altíssimo número de baixas diante de seus adversários, no final de 1944 o M-4 começou a ter seu armamento principal substituído por um canhão de 76 milímetros de alta velocidade, além de melhorias na blindagem frontal e na suspensão.

O chassi e o casco do M-4 serviram de base para grande variedade de veículos especializados de assalto e engenharia de combate, incluíndo uma grua para reboque de tanques, um lança-pontes de campanha, o canhão auto-propelido M7, que montava um canhão M2A1 Field Howitzer, o M10 Wolverine (um tank destroyer que montava um canhão de alta velocidade de 76 milímetros e blindagem muito melhorada) e até mesmo desenhos feitos pelos britânicos, que incluem o Sherman Firefly, uma versão do M-4 adaptada para receber o canhão anticarro inglês de 17 libras::

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** Como eu admito que ninguém é obrigado a dominar o inglês ao ponto de ler um texto de dificuldade média, procuro localizar sítios em português, de modo à oferecer informações complementares. Entretanto, sobre o tema “história militar” e “história da tecnologia”, nossos recursos na Internet, temos de admitir, não valem nada. Quem quiser ler algo melhor, terá mesmo de buscar a Wikipedia em inglês, ou os sítios especializados em blindados (este é um que me parece bastante bom, sobre o M-3…) que são milhares. Ou esperar os próximos posts aqui do Causa:: :c)

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6 pensamentos sobre “Um sistema de armas (da Segunda Guerra Mundial, é claro) às terças:: O feio, o mau e o bom::

  1. Renato,
    conheço um Sherman com a blindagem mto reforçada, algumas modificações mecânicas e experimentação de um canhão de 76 mm. Era designado como “tanque de assalto”, seja lá o q isso for. Mas er chamado de Jumbo Sherman. Não consegui encontrar essa nomeação.

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