Um sistema de armas (da Segunda Guerra Mundial, é claro) às terças::O feio, o mau e o bom::


Continuaremos, a seguir, com o exame de três blindados que representam perfeitamente o panorama militar e  tecnológico da Segunda Guerra Mundial – o feio, o bom e o mau. Neste post, que deveria ser postado na terça-feira (digamos que não é terça, mas estamos perto…) examinaremos o bom: o tanque que carregou a arma blindada alemã nas costas.

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O bom::

Diante do volume da produção ocidental e soviética durante a guerra, os números apresentados pela Alemanha, no que diz respeito a produção de tanques, são surpreendentemente modestos: embora não hajam registros confiáveis, calcula-se que tenham alcançado 22000 unidades de todos os tipos. Entretanto, esse número é enganoso. Vejamos o motivo.

A infantaria das divisões blindadas era transportada em veículos motorizados – caminhões convencionais ou transportadores blindados de pessoal, que não tinham capacidade de engajar tanques ou posições defensivas fortificadas. Esse problema, que já tinha sido formulado desde a Grande Guerra, levou os planejadores alemães a pensar em um veículo dotado de armamento pesado, com a função de ficar próximo e apoiar diretamente as tropas motorizadas. Esses veículos não teriam de manobrar como os tanques, podiam ser mais lentos e não precisariam apontar suas armas para todos os lados quando em movimento. Podiam se aproximar do alvo e disparar diretamente sobre ele e, estando cobertos pela infantaria, podiam se colocar em bateria manobrando o conjunto inteiro. Os primeiros veículos dessa categoria surgiram pouco antes da guerra e eram, basicamente, um canhão protegido por uma cúpula blindada, montado no chassi de um tanque. Nas divisões blindadas, substituíram boa parte da artilharia convencional, rebocada ou auto-propulsada; nas divisões de infantaria mecanizada, geralmente constituíam o elemento blindado.

Por volta de 1940, as diversas vezes em que os tanques alemães se viram encrencados com blindados franceses e ingleses muito mais protegidos e armados, levou a Wehrmacht a introduzir nas divisões blindadas um novo tipo de veículo. A função deste seria proteger os flancos das unidades de assalto em movimento. Esse novo veículo foi chamado “caçador de tanques” (Jagdpanzer), e era, basicamente, um canhão de alta velocidade de boca montado num chassi de tanque obsoleto, de onde eram retirados a torre e o sistema de acionamento e estabilização desta. A blindagem do conjunto também era diminuída, de modo que o resultado era um tanque sem torre, com muito menos proteção e grande velocidade (resultante da diminuição do peso do conjunto mantendo-se o mesmo motor e suspensão). Esses primeiros “caçadores de tanques” sofriam do problema da baixa proteção (a equipagem do canhão ficava totalmente exposta, protegida apenas pelo escudo, que era um pouco estendido) e silhueta muito alta.

Assim, por volta de meados da guerra, a Wehrmacht dispunha de três tipos de veículos blindados: o tanque propriamente dito, o canhão de assalto e o caça-tanques. Calcula-se que a produção dos três tipos tenha alcançado 45000 unidades, o que coloca a inferioridade alemã em termos de blindados em uma perspectiva totalmente diversa.

O desenrolar da guerra fez com que a diferença entre canhões de assalto e caça-tanques diminuísse até quase desaparecer. Em meados de 1943, o fato de a Alemanha ter decididamente caído na defensiva forçou o surgimento de novas táticas, que implicavam no uso massivo de canhões de assalto e caça-tanques.

No caso alemão (soviéticos e norte-americanos também utilizaram esses veículos), esses sub-tipos eram sempre decorrentes da reconversão de um tanque considerado obsoleto, solução adotada em grande medida para os caça-tanques; para os canhões de assalto, era geralmente criada uma versão de um tanque convencional, que tinha o casco modificado, perdendo a torre e ganhando uma cúpula, o que resultava numa espécie de “casamata móvel”. Quase todos os blindados alemães concebidos ao longo da guerra tiveram versões “canhão de assalto” e “caça-tanques”, e, em certos casos, chega a ser difícil perceber a diferença entre um e outro. Um desses casos é o do Panzer IV.

Essa é a designação comumente atribuída a um tanque médio/leve que começou a ser desenvolvido na segunda metade dos anos 1930. Disponível em pequenas quantidades no início da guerra, acabou se tornando o único blindado no inventário da Wehrmacht presente em todas as frentes, em quantidades razoáveis, entre 3 de setembro de 1939 e 8 de maio de 1945.

Inicialmente, foi projetado como um “veículo blindado médio de suporte à infantaria” (Infanterie Begleitwagen, Mittlerer Panzer, ou Bgtwg). Mais lento e mais fortemente armado que o PzKpfw III, deveria cumprir uma função parecida com a de um canhão de assalto, enquanto o outro modelo seria encarregado de engajar tanques inimigos. Essa primeira concepção ficava patente no tipo de armamento incorporado às primeiras versões do Panzer IV – um canhão de 75 milímetros de baixa velocidade e uso geral, designado Kwk37 L24 (ou seja, o comprimento do cano era 24 vezes o calibre), capaz de disparar munição de alto explosivo (“anti-infantaria”), enquanto as primeiras versões do Panzer III saíam de fábrica equipadas com um canhão L46 de 37 milímetros, disparando munição penetrante de blindagem.

No início da guerra, as divisões blindadas alemãs incorporavam somente uma companhia equipada com este tanque em cada batalhão, ao passo que dispunham de duas ou três companhias equipadas com o Panzer III, dedicado à função anti-tanque e destinado a atacar os veículos blindados inimigos. Essas divisões eram, entretanto, unidades de todas as armas, colocadas sob um comando fortemente centralizado e coordenado, de modo que, com freqüência os veículos “BW” eram chamados a cooperar com as unidades de assalto. Os Panzer III, levemente blindados e armados não eram páreo para os Char B e Matildas que encontraram pela frente durante a campanha do Ocidente, de modo que os BW eram freqüentemente mobilizados para cobrir as unidades de assalto das divisões blindadas.

A experiência de combate adquirida em 1940 fez com que todos os veículos blindados alemães passassem por modificações. Receberam proteção mais pesada, modificações mecânicas que incluíam lagartas mais largas e suspensão reforçada e, no caso do Panzer III, armamento mais pesado (um canhão de 50 milímetros). O Panzer IV viria a passar por um upgrade completo em 1942, com base na experiência adquirida no deserto e na frente oriental.

Um sistema mecânico, não importa se for um automóvel, tanque de guerra, guindaste ou qualquer outra coisa, é desenhado de modo que suas partes cumpram tarefas que, integradas, dão conta de uma função. É possível modificar partes do sistema até certo ponto, sem fazer com que a parte modificada se torne incompatível com as outras. Assim, não é possível fazer com que um guindaste planejado para erguer, digamos, dez toneladas, passe a erguer vinte apenas aumentando a potência do motor, pois a estrutura não suportará o maior peso; entretanto, é possível fazer com que o peso erguido passe a 13 toneladas, pois a estrutura geralmente possuí certa capacidade de tolerar maior esforço. Por outro lado, a mudança irá diminuir a vida útil do conjunto, o que certamente forçará, a médio prazo, a aquisição de novos guindastes.

Foi mais ou menos o que aconteceu com o Panzer IV, em 1942. Embora fosse o mais pesado carro de combate alemão até 1941, a série Ausf D do Panzer IV foi, aos poucos, se revelando ineficaz contra os modelos ingleses e russos. Como a função inicial desses veículos não era combater tanques inimigos, os táticos alemães de guerra blindada (como Rommel e von Manstein) tinham de contar cada vez mais com apoio aéreo aproximado, o que nem sempre era possível. Nas amplas extensões abertas do deserto, não era incomum que posições inglesas dispondo do inadequado canhão anticarro de 2 libras (40X304 milímetros) atrasassem o progresso das unidades alemãs do Afrika Korps. Quando das primeiras ações da Operação Barbarossa, no segundo semestre de1941, os 580 Panzer IV das séries D e F se mostraram os únicos tanques alemães capazes de alguma reação contra os surpreendentes modelos  soviéticos KV e T-34. Nesse período, o controle do espaço aéreo pela Luftwaffe empurrava os blindados para a frente. Mas as enormes extensões “tanqueaveis” do território da Rússia Européia e a habilidade que os soviéticos demonstraram em recuar deixando bolsões na retaguarda do exército alemão mostraram-se além da capacidade das armas de que dispunha a Wehrmacht. O guindaste se mostrou, afinal, incapaz de levantar o peso que estava sendo pendurado nele…

No final de 1941, as reclamações por parte das tripulações de combate sobre a ineficácia das lagartas e da suspensão dos tanques alemães, que já eram grandes vindas da África, se multiplicaram por dez. Na Europa Ocidental, as formações motorizadas eram transportadas até o teatro de operações de trem, e, uma vez em combate, podiam contar com uma rede razoável de estradas de rodagem. O maior problema era a capacidade das pontes em suportar o peso dos veículos blindados, dificuldade facilmente superada pela engenharia de combate.

No deserto e na estepe, a situação mudou. Os tanques tinham de cobrir extensões enormes por conta própria, e então a corda começou a rebentar do lado mais fraco – o sistema mecânico. O motor Maybach de 12 cilindros e 350 CV podia levar o veículo de 20 toneladas até 40 km/h numa estrada de terra socada (como era a maioria, na frente francesa), mas mostrou-se fraco para terrenos não-preparados; para piorar as coisas, as lagartas de 36 centímetros e a suspensão de barras de torção e quatro roletes de retorno desperdiçava a já pouca potência do motor.  Enguiçados ou atolados na areia ou no solo mole de turfa os Panzer IV Ausf D, F e F1 constituíam alvos estupendos para tripulações decididas de tanques-cruzadores tais como o Cruiser Mark I ou de posições preparadas de artilharia. Como se já não fosse suficiente estar dentro de um tanque atolado, o canhão L24 de baixa pressão disparava um projetil que até podia ser eficiente contra veículos pouco protegidos e contra infantaria, mas tinha dificuldade em perfurar a blindagem dos tanques pesados britânicos e mal arranhava a dos soviéticos.

A providência alemã foi um redesenho das séries D e, principalmente, F. O chassi foi alongado, de modo a receber uma nova torre e nova suspensão, capaz de acionar lagartas mais largas. A principal modificação dessa versão (que foi denominada Ausf G), foi a introdução do canhão KwK40 L48, baseado no excelente canhão anti-carro PaK40/75 milímetros, de alta pressão e alta velocidade de boca. Esse novo canhão podia superar, a 1800 metros de distância, qualquer tanque soviético ou ocidental.

Por outro lado, o PaK40 tinha o problema do peso, que, na versão “de campanha”, rebocada, já tinha obrigado a modificações na forma de operação em combate. Quando modificado para ser instalado em tanques, exigiu que todo o sistema de torre fosse modificado, aumentando o peso do conjunto em quase 4 toneladas. A essa altura, a urgência do problema impediu que outras modificações fossem feitas, e o motor Maybach, produzido em enormes quantidades foi mantido. O resultado é que a velocidade do Panzer IV Ausf G diminuiu, embora a manobrabilidade tenha melhorado, em função da nova suspensão e das novas lagartas. A blindagem também foi mantida basicamente a mesma, visto que o casco não chegou a ser redesenhado. O escudo frontal, mantelete (escudo do canhão), placas laterais da torreta e laterais do casco tiveram a espessura um pouco aumentada, mas não muito: o motor não iria suportar um conjunto muito mais pesado.

Ainda assim, o modelo Ausf G deu às divisões blindadas um veículo capaz de engajar, de igual para igual, os modelos adversários, particularmente os soviéticos. Distribuído em quantidades razoáveis – embora longe de serem suficientes -, a série G viria a dar lugar, no início de 1943, à série H, que também foi a de maior produção, com quase 3800 unidades entregues (embora existam outras informações que contradizem, para baixo, esse número). A série H viria a receber uma caixa de marchas de 6 velocidades, que melhorava um pouco o desempenho do motor Maybach. Mudanças no sistema de injeção de combustível melhoraram um pouco a potência do motor, sem chegar a melhorar a velocidade tanto em estrada quanto fora-de-estrada. Essa modificação tornou-se necessária devido a um aumento da espessura do escudo frontal do casco, que passou a ter 80 milímetros. Ainda que aumentando consideravelmente o peso do veículo, que chegou a 26 toneladas, essa modificação tornou-se necessária devido  ao aparecimento do T34/85, que quebrou o equilíbrio tão duramente conseguido pelos alemães. Modificações menores incluíram, no final de 1943, a introdução de um reparo para metralhadora anti-aérea montado na cúpula do comandante.

Outra modificação notável que caracterizou a série H foi a introdução do uso de “saias” (em alemão, schürtzen) tanto nas laterais do casco quanto na torre. A “saia” é uma placa de metal de baixa espessura (no caso, não mais de 10 milímetros). Sua função era prover proteção extra contra armas anti-carro leves e, principalmente, contra projéteis anti-carro de carga oca.  Em última análise, não passava de uma admissão da fragilidade da proteção do casco do véiculo.

O uso desse tipo de munição tornou-se comum, dos dois lados, em meados do conflito. Sua difusão foi o resultado da tentativa de dotar o infante a pé de um armamento portátil eficaz. Em 1942, a distribuição do lança-rojão modelo M1A1, de 60 milímetros constituiu a primeira arma eficaz baseada em granada propelida a foguete (em inglês, RPG). Quase na mesma época, os alemães começaram a distribuir o Faustpatrone, Klein 30m, que logo deu lugar ao Faustpatrone 2, ou Gross, e, no ano seguinte, os ingleses distribuíram seu Projector, Infantry, Anti-Tank, ou PIAT. Os soviéticos desenvolveram uma cópia do Faustpatrone (ao pé da letra, em alemão, “projetil-punho”) amplamente distribuída a partir de 1944. Embora bem menos efetivo que os similares alemães e norte-americanos, o RPG (em russo, Reaktivnyy/Ruchnoy Protivotankovyy Granatomyot), quando nas mãos de tropas de infiltração bem treinadas, tornou-se um problema . O princípio básico dessa munição (que é mais bem descrito nesse recurso complementar) faz com que a blindagem do tanque seja literalmente rachada, e, através da fenda um jato de gás super-aquecido penetre no interior do blindado. Baratos e altamente efetivos, os projeteis tipo “carga-oca” também tinham suas limitações. A principal delas era a baixíssima potência, decorrente da baixa velocidade de trajetória, algo da ordem de 30-40 metros por segundo. No momento em que se chocava com a saia, o jato de chama se tornava inócuo, distribuindo-se pelo espaço entre a saia do tanque e o casco. Por outro lado, a fragilidade da saia, montada no casco através de braçadeiras, acabava se tornando um estorvo para o tanque em operação, visto que caía com freqüência, e obrigava, muitas vezes, a que o tanque tivesse de parar para retirar esses acessórios.

O Panzer IV ainda veria, no segundo semestre de 1944, surgir uma versão “J” que, em alguns exemplares, montava o canhão KwK42 L70 de 75 milímetros, o mesmo que   equipava os “Pantera”. Seria a última delas, e, nessa época, ocorriam intensas discussões no interior do Alto-comando do exército alemão (OKH – Oberkommando des Heeres) em torno da manutenção da produção do modelo. Os principais tanques alemães, nessa época, já eram o PzKpfWg V, o “Pantera”, e o PzKpfWg VI, o “Tigre”. Ambos os modelos foram lançados às pressas em combate, e mostravam problemas sérios de desenvolvimento. O “Pantera”, considerado por muitos especialistas como o melhor tanque surgido na Segunda Guerra Mundial, custou a tornar-se operacional e, devido à certas características, era difícil de fabricar e nunca chegou a alcançar números satisfatórios de produção.

Assim, o Panzer IV ainda seria, no dia 8 de maio de 1945, o principal tanque da Wehrmacht. Distribuído também aos renitentes aliados da Alemanha, Hungria e Romênia, ao longo da guerra, chegou a ser usado pelos soviéticos e franceses, e terminou sua carreira, por incrível que pareça, em 1967, no exército sírio. O último exemplar operacional foi capturado pelos israelenses nas colinas de Golã e desfruta, atualmente, de uma improvável aposentadoria no Museu das Forças Blindadas da Fortaleza de Latrun, em Israel. De certa maneira, trata-se de uma espécie de “justiça poética”: o Panzer IV encontra-se agora exposto à curiosidade do povo mais oprimido por seus criadores::

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