Um sistema de armas (da Segunda Guerra Mundial, é claro) às terças::O feio, o mau e o bom::


Curiosamente, o blog das boas causas, aquelas que têm uma boa guerra por trás, consegue, pelo menos uma vez, nessa comemoração do redator sobre o fim da Segunda Guerra Mundial, sair na data correta, ou seja… terça feira. Dentro de nossa avaliação do “feio”, do “bom” e do “mau”, passemos agora ao “mau”. E logo-logo vamos publicar o último artigo da série, uma análise dos três modelos.

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Memória afogada – um tanque no fundo do lago::

De fevereiro a setembro de 1944, pesados combates foram travados numa faixa de 50 km de profundidade, ao longo do rio Narva, na fronteira entre Estônia e União Soviética. Durante um breve período, no verão e outono, a Wehrmacht conseguiu deter o exército soviético diante da linha de defesa «Tannenberg», ancorada na cidade estoniana de Narva. O Grupo de Exércitos Norte opôs-se com sucesso às “Frentes” (grupos de exércitos) soviéticas «Volkhov» e «Leningrado», e a propaganda nazista chamou essas operações de «Batalha da Europa». Dessa forma, queriam frisar a grande quantidade de voluntários estrangeiros envolvidos nos combates, recrutados pela Waffen SS («SS Armada»). A principal grande-unidade no setor era o 3o Corpo Blindado SS, do Gruppenführer (major-general) Felix Steiner, um dos grandes comandantes de tanques da Segunda Guerra Mundial. Por volta do final de junho, avanços soviéticos na Letônia e Curlândia obrigaram as tropas do 18o Exército alemão a retraírem a frente do Narva, o que significou o abandono da região.

A grande inferioridade alemã em números (a proporção de tanques era da ordem de 12 para 1, e de infantes, de 20 para 1) fazia com que o material soviético capturado nessas operações fosse imediatamente posto em serviço. Parece ter sido esse o caso de um tanque T34/76E modelo 1943 (identificável pelo tipo de torre, incorporando uma cúpula de comando). Posto em ação pelos captores, é possível que, durante a manobra de retirada, sem combustível, tenha sido abandonado e lançado no lago Kurtna Matasjarv.

Em setembro de 2000, o veículo foi localizado numa profundidade de uns 7 metros, por membros do clube de história da guerra da cidade de Otsing, na Estônia. O grupo de entusiastas decidiu trazer o blindado para a superfície, o que foi feito com a ajuda de um trator de 68 toneladas. Detalhes desse fato, narrados com o estilo habitual, podem ser lidos no blog de nosso conhecido KCT.

O tanque estava em boas condições, com muito pouca ferrugem e todos os sistemas, com exceção do motor, em condições de uso. Levado para a cidade de Narva – que foi parcialmente destruída durante os combates entre alemães e soviéticos e cujo centro é mantido nesse estado, como monumento – deverá ser colocado, em breve, num museu dedicado à participação da Estônia na guerra.

O exame do veículo revelou que o tanque estava pintado nas cores usuais da Wehrmacht para a região (verde cinzento) e com marcas que parecem ser do regimento de artilharia da 20a Divisão de Infantaria Waffen SS «Estônia No 1». Possivelmente se trata de equipamento capturado durante a batalha de Sinimäed («Colinas Azuis»), em março de 1944. Nessa operação, tropas alemãs e voluntários locais da SS conseguiram deter temporariamente a vanguarda do exército soviético.

Antecedentes – a cópia::

Não é estranho que um T34 soviético tenha sido encontrado, mais de cinqüenta anos depois de terminada a guerra, no fundo de um lago e nas cores alemãs. Este excelente produto da indústria soviética da era stalinista saiu das fábricas na estonteante quantidade de 35000 unidades, ao longo de toda a guerra, e é considerado por alguns especialistas como o melhor carro blindado a entrar em combate na época.

Seu projeto tem origem no desenho soviético designado «BT» (de Bystrokhodny Tank, ou «Tanque de alta velocidade»), que começou a ser produzido em 1932. Essa série de tanques teve como base um projeto do engenheiro norte-americano John Walter Christie, parcialmente copiado pela URSS em 1931. Os modelos BT2 e BT3, produzidos em pequena quantidade, muito mal armados, apresentavam, entretanto, uma característica extremamente interessante: a blindagem frontal inclinada (sloping armour, em inglês), experimental nos modelos Christie e mantida e aperfeiçoada pelos soviéticos.

Em 1937, a equipe do engenheiro Mikhail Koshkin foi designada para criar um novo modelo BT, já que os anteriores eram muito leves e não aceitavam a nova geração de canhões de uso geral introduzida em 1936 no Exército Vermelho. Koshkin e seu grupo imaginaram um veículo capaz de cumprir todas as funções especializadas que dividiam os blindados soviéticos em «de reconhecimento», «de infantaria» e «cruzadores» (a linha BT), influência das experiências britânicas realizadas nos anos 20. O novo projeto também foi fortemente afetado pelos testes feitos na Guerra Civil espanhola, na qual um batalhão de «cruzadores» BT5 foi empenhado, e no emprego de toda a linha BT contra o Japão, em 1939.

O resultado foram os modelos experimentais A20 e A32, depois modificados para um modelo único, cujos exemplares de teste apareceram no início de 1940. Esse novo blindado foi designado pelo Exército Vermelho «T34» e começou a ser distribuído em pequenas quantidades para as tropas de combate no final daquele ano. Em 1941 as quantidades foram aumentadas e, no início de 1942, as enormes perdas sofridas pelos soviéticos diante da Wehrmacht levaram os Comitês de Coordenação da Indústria de Guerra a resolver que apenas o T34 seria produzido, o que aconteceu ao longo de toda o conflito.

Aspectos técnicos – o definitivo::

Os aspectos do T34 que o tornaram totalmente distintos de qualquer outro veículo blindado disponível, até o surgimento dos Tigres e Panteras alemães, na metade da guerra, eram a blindagem de grande inclinação, as lagartas largas e um motor a óleo diesel bastante potente. Esses detalhes, somados ao canhão L11, que logo seria substituído por uma versão aperfeiçoada, o F34/76, de 76.2 milímetros, o tornavam o veículo blindado mais poderoso disponível até 1943. O motor V2 diesel, de 12 cilindros, refrigerado à água, além da potência de 500 HPs e da relativa simplicidade de manutenção, juntava uma vantagem adicional: o óleo diesel era bem menos inflamável do que a gasolina usada como combustível para as séries anteriores dos BT, além de possibilitar maior raio de ação ao veículo. Deslocando o peso básico de 26,5 toneladas, a velocidade máxima em estrada alcançada pelo novo modelo era de 56 km/h, que caía para algo em torno de 35 km/h em terreno acidentado, com uma autonomia de aproximadamente 300 quilômetros. A blindagem frontal tinha espessura de 52 milímetros, o que era mais ou menos a mesma coisa que tinha o Panzer IV e muito menos do que os 120 milímetros do «Pantera». Entretanto, a diferença é a blindagem inclinada. Além de mais dura, esse tipo de chapa permite uma maior capacidade de deflecção (desvio) do tiro adversário.

Tanque a tanque – o melhor?::

A surpresa dos alemães com o T34 foi tamanha que diversos comandantes de blindados declaravam, abertamente, que «não tínhamos nada nem de longe parecido» (palavras do futuro major-general, então coronel, von Mellethin, no livro Panzer Battles: A Study of the employment of armor in the Second World War , publicado em 1956). O exame do tanque, capturado em grandes quantidades pelos alemães, em todos os estágios da guerra, resultou em mudanças substanciais no projeto do «Tigre», e no projeto do «Pantera», este considerado pela maior parte dos estudiosos como o melhor tanque aparecido durante a guerra. Os planejadores alemães chegaram até mesmo a considerar a produção de uma cópia do T34, que chegou a ser desenvolvida pela empresa Daimler-Benz, em 1942. Entretanto, a mecânica geralmente adotada pelos blindados alemães, a começar pelo motor a gasolina, era incompatível com o desenho russo, e se somava à implicância ideológica com os produtos soviéticos – os alemães tinham dificuldade em admitir que de lá pudesse vir qualquer coisa que fosse comparável aos seus produtos. A empresa MAN apresentou um desenho que incorporava todos os principais aspectos do modelo soviético, com excessão do motor, que continou a ser o Maybach HL230 à gasolina. Tratava-se do «Pantera». Mas, em termos gerais, esse tanque ainda era um espécie de cópia melhorada do T34.

Entretanto, é difícil avaliar qual dos dois era realmente melhor. O aparecimento do «Pantera», assim como a introdução, no Panzer IV e em diversos modelos de canhões de assalto e caçadores de tanques, do excelente canhão KwK40/75mmX48 calibres fez com que os projetistas soviéticos melhorassem a blindagem e a motorização do T34. Mas a principal modificação foi a introdução de um novo modelo de torreta, derivado do projeto, abandonado, do «tanque universal» T43. Essa nova torreta era grande o sufucuente para receber um canhão anti-aéreo de 85 milímetros. Ainda assim, o canhão KwK43, de 75 mmX70 calibres, montado no «Pantera» era superior ao novo canhão do T34, mas como os combates diretos entre tanques na Frente Oriental eram ocorrências relativamente raras, uma avaliação com base em eventos e estatísticas fica difícil. A maioria das perdas sofridas pela arma blindada soviética se deveu a problemas mecânicos, impactos de artilharia e ataques aéreos, e, a partir de 1942, também aos recém-introduzidos «caçadores de tanques», montando canhões iguais aos dos tanques e muito mais manobráveis.

Os números certamente contaram para estabelecer a vantagem soviética. Stalis dizia que «a quantidade, em si mesma, é uma qualidade», de modo que os enormes números de T34 que se tornaram disponíveis a parter de 1943 contibuíram para esmagar as divisões blindadas da Wehrmacht.

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2 pensamentos sobre “Um sistema de armas (da Segunda Guerra Mundial, é claro) às terças::O feio, o mau e o bom::

  1. Que eu me lembre os alemães geralmente tinham canhões melhores o que lhes dava a vantagem de poder engajar de uma distância maior. Tanto que muitas vezes o exército vermelho usava a artilharia e canhões antitanques em emboscadas.

    Os T-34 podiam até engajar Tigers, mas isso se apoiava em sua grande mobilidade e quando conseguiam se aproveitar do terreno para atacar os Tigers nos flancos e atrás. E claro, nas perdas que os russos podiam sustentar e os alemães não.

    E claro, a taxa de disponibilidade do T-34 era bem maior.

    Para ilustrar a diferença: “Em fevereiro de 1944, realizava-se o rearmamento do T-34 com o canhão S-53 de 85 mm e então na metade de 1944 com 85 mm ZIS-S-53. Este novo canhão podia penetrar a blindagem lateral do Tiger I a uma distância de 800 metros e do lado da torreta a distância de 600 metros. Não era suficiente já que o Tiger podia destruí-los a distâncias de 1500 a 2000 metros.”

    Mas pessoalmente continuo achando o título de melhor tanque da segunda guerra para o T-34 justo, considerando o conjunto da obra.

    referência: http://www.grandesguerras.com.br/artigos/text01.php?art_id=228

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