A Guerra dos Seis Dias::O início dos problemas?::Que vitória foi essa, afinal?::

parte2Até hoje é questão de debate entre historiadores e cientistas políticos, se a guerra era mesmo necessária. De fato, analistas israelenses admitem que, desde 1956, os judeus foram responsáveis por 80% dos incidentes de fronteira com a Síria (embora aleguem o contrário) e também que o serviço de informações de Israel, o Mossad sabiam que Nasser não tinha condições políticas nem militares de se lançar numa guerra. Embora o historiador israelense Tom Segev (autor de um ótimo estudo sobre a sociedade israelense do pós-guerra: Israel in 1967. And the land changed its visage) admita essas possibilidades, alega em seu livro que “os israelenses estavam convencidos que ele queria destruir Israel”. Era o que aparecia na imprensa estrangeira, alimentada pela Agência Judaica. Mas até então, a política agressiva de Israel tinha sido contraproducente, em termos de resultados.

Seguev também alega que a agressividade árabe fortaleceu, no governo de Israel, a idéia de uma “defesa preventiva”, baseada em dois princípios: ataques aéreos preemptivos e movimentos rápidos de tropas blindadas e motorizadas, criando zonas de defesa avançadas. Estrategicamente, a guerra foi um sucesso estrondoso: Israel atingiu todos os objetivos, e ainda se viu em posição de grande vantagem estratégica. A imagem de Davi derrotando Golias atraiu alguma simpatia para a nação judaica, da opinião pública internacional, e particularmente nos EUA.

Em seu livro, Segev lista o que considera as principais consequências da guerra: os judeus orientais, fortemente marginalizados na sociedade israelense, mas parte importante das FDI, tiveram seu papel reconhecido e foram plenamente integrados. Muitos desses israelenses, entretanto, acabaram reforçando o o nacionalismo de direita, que, antes minoritário, passou a ser visto como legítimo por boa parte da população. A ascensão política de Menachem Begin (em certa feita chamado de “nazista” por ben Gurion) começou então). Os israelenses descobriram os palestinos; Israel, até então um estado fundamentalmente laico, se abriu ao judaísmo, a religião.

Entretanto, a vitória parece ter desorientado mesmo a população de Israel. Nos anos seguintes, começou a ser observado um resultado curioso: uma parcela considerável, não apenas dos habitantes de lá, como dos judeus por todo o mundo, viu a vitória-relâmpago como um sinal de que o povo de Deus estava finalmente reconquistando a simpatia do Criador.

De início, parece que nem todos os os israelenses perderam a cabeça: depois da vitória, o general Moshe Dayan, foi à Mesquita Dourada de Jerusalém e tirou os sapatos, cumprindo o ritual muçulmano em sinal de respeito. Em junho de 1967, no início das operações militares, Dayan tinha dito que aquela não era “uma guerra de conquista”. O general, ao que parece, tinha consciência de que uma disputa militar e política não poderia se transformar numa guerra religiosa, visto que esta seria muito mais difícil de resolver. Essa idéia, aparentemente, não se sustentou por muito tempo e, já no fim daquele ano, o governo israelense tinha abandonado o projeto de devolução integral dos territórios árabes ocupados.
 
 A interpretação da vitória estimulou o judaísmo, gerando uma forma local de fundamentalismo. Seguev observa que, logo depois da guerra, a maioria dos israelenses acreditava que “a ocupação seria apenas temporária”, mas o próprio governo passou a estimular a idéia de uma guerra perpétua sem solução diplomática possível. Essa idéia fortaleceu setores de direita, que, por volta dos anos 1970, começaram a se entender com o movimento fundamentalista que, a partir dos EUA, ganhava força. Um dos melhores exemplos dessa ascensão foi o movimento do rabino ortodoxo Meir Kahane, que se tornou, tanto nos EUA quanto em Israel, conhecido por promover a idéia de uma “Grande Israel” que seria a expressão política da Israel Bíblica. O movimento de Kahane não era, entretanto, nem o único nem o mais barulhento. Movimentos nacionalistas deram força para o radicalismo que se recusava a discutir a devolução de Jerusalem, e passaram a falar na cidade unificada como capital do estado judeu.Esses movimentos condenam o acordo de paz entre palestinos e israelenses, que prevê a devolução dos territórios conquistados por Israel. Para eles, a entrega de terras bíblicas, como Hebron, Jericó e Nablus, na Cisjordânia, é uma afronta à vontade de Deus. Ela contraria a aspiração judaica do retorno a uma época similar à do do rei Davi, que por volta de 1000 a.C. pacificou a região e transformou Jerusalém em centro religioso. A efervescência dessas idéias levou ao assassinato, em 1995, do primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Rabin, mentor do acordo de paz ao lado de Yasser Arafat. O culpado, Yigal Amir, era membro de um grupo fundamentalista, o Eyal, e justifica sua atitude afirmando que Rabin era um traidor do ideal judaico por devolver regiões ocupadas aos palestinos. 
Seguev considera que “o sionismo deu um tiro no pé quando o governo decidiu anexar o setor oriental de Jerusalém, sem consultar um jurista. Com este gesto, impediu qualquer possibilidade de paz. Seguiu-se a colonização”. Segev rejeita o argumento do historiador israelense Benny Morris, de lamentar hoje que Israel não tenha “concluído a tarefa”, expulsando os palestinos da Cisjordânia em 1967: “Essa questão é moralmente ilegítima… Seria um crime contra a humanidade”. Seguev também levanta a questão de que o sionismo usou a religião como argumento nacionalista de modo a consolidar a própria posição, e o fizeram antes de que árabes e palestinos descobrissem essa retórica. De toda forma, Morris tem contribuído para a revisão (ver a página 45 e as seguintes desse recurso de pesquisa, em espanhol) dos mitos fundadores do estado de Israel. Essa linha provavelmente ainda dará muito o que falar, agora que os historiadores dessa corrente – Avi Shlaim, Ilan Pappé, Simcha Flapan, além de Morris e Seguev,  promovem uma reescrita da história, se tornam mais conhecidos. Quem sabe, qualquer hora dessas, a Guerra dos Seis Dias também acabará revista, não como vitória militar, mas como origem dos problemas atuais da região::

Cultura material militar::Sterling::Uma obra de arte quase desconhecida::

É interessante como certas armas portáteis se tornam bem conhecidas do grande público. Milhões de pessoas sabem identificar uma ERMA MP38/40, embora grande parte dessas pessoas a chamem de “Schmeisser” (nome totalmente equivocado, devido aos filmes de guerra); outros milhões conhecem a Thompson M1928, a “arma de gangster”.  Muito menos gente sabe nomear uma Sten, apesar de reconhece-la como “metralhadora inglesa”, devido ao desenho característico.

Entretanto, os milhões de apreciadores do assunto, por todo o mundo, desconhecem a existência de algumas armas que foram verdadeiras obras-primas, peças de engenharia de primeira qualidade, produtos industriais destacados e equipamentos de combate notáveis. Vamos apresentar uma delas: a Sterling. Ela até aparece em alguns filmes: nos de James Bond, os mercenários da Spectre as portam em diversos títulos da série; em “Guerra nas Estrelas”, as armas BlasTech E11 das “tropas de assalto” do Império do Mal são Sterlings com maquiagem. Assim, para que o leitor de causa:: não pague mico diante da namorada, identificando-a (a arma, não a namorada…) como Sten, vamos conhecer alguma coisa sobre essa obra-prima.

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Em 1944 o Estado-maior britânico lançou uma proposta de especificação para uma nova submetralhadora. A arma proposta não poderia pesar mais do que 2700 gramas, deveria utilizar a munição padrão Parabellum (9X19 mm), ter uma cadência de fogo de pelo menos 500 disparos por minuto e ser suficientemente precisa para acertar um alvo de pouco mais de 90 centímetros quadrados a distância de 90 metros.

A única empresa a apresentar um projeto foi a Companhia de Engenharia Sterling, da cidade de Dageham, Essex, que o submeteu ao avaliação do Estado-maior britânico, ainda naquele ano (o engenheiro-chefe George W. Patchett vinha projetando uma “carabina-metralhadora” desde 1941). A Segunda Guerra Mundial se aproximava do fim, mas as potencialidades da arma foram comprovadas em testes de combate, com alguns exemplares distribuídos entre as tropas pára-quedistas que participaram da operação Market-garden. Uma das vantagens observadas é que a nova arma podia usar os carregadores da submetralhadora Sten, que então existia aos milhões, no lugar do carregador desenhado especialmente, de linhas curvas, ainda um tanto raro.

Fora essa, eram poucas as semelhanças.  Embora a nova arma adotasse o sistema convencional de ação de recuo para carga-ejeção-recarga, apresentava algumas inovações que a tornava diferentes dos modelos anteriores: por exemplo, o carregador, encaixado à esquerda do corpo da arma, recebia 34 cartuchos. Na Sten, a inserção era pela direita, enquanto na maioria dos modelos em serviço, se fazia por baixo do corpo, e a capacidade nunca excedia 31 cartuchos. O mecanismo de carga dispunha de pequenos roletes, que visavam diminuir o atrito entre o estojo dos cartuchos e o alimentador. O percussor era instalado de forma que não se alinhava com a espoleta até que o cartucho estivesse acomodado na câmara.

engenharia de primeira, design elegante, alta eficiência...

Sterling L2A1: engenharia de primeira, design elegante, alta eficiência...

 

O problema é que, terminada a guerra, as forças armadas britânicas ainda tinham mais de 500.000 Sten Gun em estoque, e os problemas econômicos desaconselhavam a substituição. Apenas em 1951 o projeto da empresa Sterling, que já tinha passado por inúmeros testes, tanto diante da Sten quanto de outras propostas, foi adotado pelo exército britânico. Em 1953 a vetusta Sten Gun começou a ser substituída pela submetralhadora L2A1. Diversos outros detalhes, como uma coronha rebatível e um silenciador que realmente funcionava sem estragar a arma (problema nunca resolvido na Sten), deram à Sterling uma reputação de precisão e confiabilidade nas mais diversas condições de combate. Um problema de manejo, entretanto, era constantemente relatado: a ejeção do estojo vazio dava-se pelo lado direito. Essa característica eventualmente provocava ferimentos nos atiradores quase sempre destros, e obrigava o uso de óculos de proteção. Essa característica, entretanto, não diminuiu a popularidade da Sterling entre os usuários das forças armadas britânicas. Entre todas as diversas versões da L2A, foram fabricadas cerca de 450.000 unidades, entre 1953 e 1987. Algumas ainda são observadas em uso por forças especiais britânicas, como o Special Air Service, o Special Boat Service e as tropas pára-quedistas::  

Um sistema de armas às terças::Centurion-Sh´ot::Se não o melhor, um dos melhores::

E causa:: volta com a mais popular das colunas (essa coisa chama “coluna”..? Socorro, alguém que entenda do assunto!!!): “Uma sistema de armas as terças”, para quem já se deliciou com “Uma moça às segundas“, lá no PD. Sinceramente? A moça é jóia, mas sou mais o tanque… Divirtam-se! 

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Em 1943, o Departamento de Projetos de Tanques do Exército britânico foi consultado sobre um novo tanque pesado, designado A41. A preocupação maior do alto comando era a ameaça dos canhões alemães de 88 mm, e o Ministério da Guerra demandava um aumento da resistência geral, confiabilidade,  e a capacidade de resistir ao impacto direto de um “eight-eight“. Tudo isso sem superar o peso de 40 t – capacidade máxima das carretas de transporte usadas na época…

O DPT respondeu apresentando um desenho no qual uma suspensão de seis rodetes de retorno, em que o espaço entre o segundo e o terceiro rodetes era aumentado. A suspensão adotada foi do tipo Horstman, com molas horizontais externas. O casco foi desenhado em torno da blindagem inclinada (sloop armor) preparado para receber uma torre parcialmente fundida montando um canhão de alta velocidade e 76,2 mm (“17 libras”, na referência inglesa). A planta de potência era a Rolls-Royce Meteor, uma versão para tanques do motor Merlin de 20 cilindros.

Logo ficou claro que um veículo de 40 toneladas ,não seria capaz de resistir a impactos de 88 mm. Fora isso, o desenho mostrou-se soberbo, nos testes, de modo que o projeto de uma versão mais pesada logo foi iniciado. O A41 mostrava ter a resistência dos tanques de infantaria e a velocidade e agilidade dos tanques-cruzadores. Seu desempenho acabou convencendo o alto comando britânico a criar designação de “tanque universal”, que eliminava a diferença entre os dois tipos de veículo. O protótipo de 40 t foi denominado “Centurion Mark I”.

O Mark I apresentava certas características de desenho que o igualavam ao Pantera alemão e ao T-34 soviético: blindagem muito dura com desenho sloop em todas as superfícies frontais, e uma torre com forte proteção. Ainda assim, mostrou-se razoavelmente veloz e muito manobrável. Logo surgiu uma versão Mark II, com blindagem aumentada. Foi essa versão que entrou em produção de série, embora não a tempo para participar de qualquer das frentes da Segunda Guerra Mundial.

Pouco antes da entrada em serviço, a Real Fábrica de Artilharia completou os testes de um canhão de 84 mm (“20 libras”), que se mostrou extremamente potente. Esse foi o armamento principal da versão Mark III do Centurion, montado numa torre totalmente fundida. A nova versão também incorporou um sistema de estabilização automatizado para o canhão, de modo a possibilitar tiros mais precisos em movimento, motor mais potente e novo sistema de pontaria. A produção do Mark III começou em 1948-49, tornando-se a versão padrão do exército britânico.

Centurion Mk II em exposição no Museu Militar do Reduto, nos EUA

Centurion Mk II em exposição no Museu Militar do Reduto, nos EUA

 

 

Em meados dos anos 1950, o aparecimento do tanque soviético T-54 levou a que os britânicos se convencessem da necessidade de redesenhar o Centurion, de modo a dota-lo da versão L/7 (para tanques) do canhão L/52 de 105 mm. Este projeto, completado poucos anos antes, se mostrou extremamente bem-sucedido. Todas as versões do tanque, nos vinte anos seguintes, utilizaram o canhão L/7 como armamento principal.

O Centurion foi produzido até 1962, e continuou em serviço, no exército britânico e nos países da Commonwealth até 1980. Variantes especializadas (veículos de engenharia de combate e de manutenção de campanha) estiveram na ativa até 1994. Os Centurions participaram da Guerra da Coréia e da Guerra do Vietnam (em unidades autralianas) e estiveram nos regimentos aquartelados na Alemanha durante a Guerra Fria. A versão de demolição viu ação na operação “Tempestade no Deserto”, em 1991.

Um lote de Centurions Mark III foi entregue a Israel em 1963, dos estoques ingleses. Até então, o principal tanque do inventário israeli era o Sherman M-50, norte-americano, que tinha passado por diversas adaptações locais. A opção pelo Centurion foi feita depois que os norte-americanos recusaram-se a fornecer os tanques M-48 Patton, capazes de fazer frente aos T-54 e T-55 entregues pela URSS aos exércitos do Egito e Síria.

As FDI tiveram, no início, grandes problemas de treinamento e manutenção com os Centurions. O sistema, projetado tendo em vista as condições européias, mostrou-se muito frágil para o tipo de terreno encontrado no Oriente Médio. As constantes falhas mecânicas acabaram por levar os israelis a recolherem todos os Centurions disponíveis e proceder uma completa reengenharia da parte mecânica. Além do mais, os próprios norte-americanos afirmavam que o canhão de 84 mm da versão Mark III era insuficiente para encarar a blindagem de mais de 100 mm dos novos tanques soviéticos. Em 1965, Israel adquiriu alguns M-48 da Alemanha e várias centenas de canhões L7 diretamente dos britânicos, peças instaladas nos Centurions. O resultado foi um tanque bastante diferente da versão original, razão pela qual foi re-designado de

Concepção artistica da primeira versão do Sh´ot, estando bem visivel o canhão L/7
Concepção artística da primeira versão do Sh´ot, estando bem visível o canhão L/7

Sh´ot (“Açoite”) pelas FDI. Em 1966, as dificuldades financeiras britânicas os fizeram aceitar a participação de Israel no projeto do tanque de batalha (Main Battle Tank, ou MBT, em inglês) Chieftain. Além da participação no projeto, os ingleses abriram aos judeus a oportunidade de adquirir mais três centenas de Centurions Mark V disponíveis em seus estoques. Todos esses foram convertidos para a versão Sh´ot, e tiveram participação destacada na Guerra dos Seis Dias: os M-48 jordanianos foram amplamente derrotados pelos tanques israelis repotenciados. Depois da guerra, os M-48 e até mesmo os Sherman M-50 receberam o upgrade planejado para os Centurion. Por outro lado, a superioridade de desempenho do motor Continental instalado nos M-48 norte-americanos levou Israel a substituir a planta de potência original de seus Mark III e V por versões importadas desse motor.

Depois de 1967, entretanto, o governo britânico, seguindo a tendência européia, passou a não entregar sistemas de armas de última geração aos países do Oriente Médio. O resultado foi o cancelamento da participação de Israel no projeto do novo  tanque de batalha britânico. Prevendo a dificuldade em conseguir, futuramente, armamento de primeira qualidade, o governo determinou que a indústria militar local iniciasse o projeto para dotar as FDI de um tanque totalmente fabricado nacionalmente. Essa foi a origem do projeto Merkava, mas enquanto este não era posto em serviço (o que só iria acontecer no início dos anos 1980), a solução foi a compra de todos os lotes disponíveis de Centurions, e do M-60 (uma versão muito melhorada do M-48) diretamente dos EUA.

A experiência militar de Israel resultou em diversas modificações nos aproximadamente 550 Centurions que passaram por suas unidades blindadas. A disponibilidade, pelos principais adversários árabes, dos mais modernos blindados do arsenal soviético obrigou a constantes respostas, em termos de modernização e aumento do armamento. Em meados dos anos 1990, dificilmente os projetistas do A41 de 1945 reconheceriam seu projeto; mesmo a silhueta do tanque tinha mudado fortemente. Foi nessa época que ampla disponibilidade do modelo local Merkava levou à retirada de serviço dos últimos Centurions.

O filminho a seguir é muito interessante, por mostrar as capacidades de manobra e velocidade do Centurion, e, no final, o método de pontaria desenvolvido pelos ingleses no final dos anos 1950 e que se tornou padrão até o surgimento dos telêmetros a laser.

http://www.youtube.com/watch?v=STSJdT2Ih_o

 

A Guerra dos Seis Dias::O início dos problemas?::

A trégua foi declarada unilateralmente pelos dois oponentes, o que parece um paradoxo. E é: tanto Israel quanto o Hamas consideram que “o outro lado” ainda está em posição beligerante, embora, tecnicamente, não haja guerra…E os dois lados estão mesmo. É difícil de entender, mas para infantes israelis, militantes do Hamas e os civis dos dois lados, pelo menos é possível relaxar. E, para nós aqui, é possível voltar a uma tentativa de análise minimamente desapaixonada.

 

O redator fanático por tecnologia e doutrinas militares tentará incursionar pela política e pela história – embora reconheça que tem gente mais qualificada para tanto… No caso desse caldeirão que é o a Palestina, pode-se até escolher uma data e um evento. Todos eles se misturam para delinear a tragédia atual. Vamos então escolher uma e ir adiante.

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Consideremos então a Guerra dos Seis Dias, entre os dias 5 e 10 de junho de 1967.  Num exemplo brilhante de guerra de movimento, Israel derrotou os exércitos do Egito, Síria e Jordânia, ocupou a Península do Sinai e Faixa de Gaza, do primeiro, a Cisjordânia e o setor oriental de Jerusalém, da segunda e as colinas de Golã, da terceira. O mapa geopolítico do Oriente Médio viu mudar o traçado estabelecido entre 1948 e 1956. De quebra, o embargo de armas pelos tradicionais fornecedores europeus, particularmente a França, tornou a nação judia ainda mais dependente da simpatia americana. E abriu o problema dos territórios árabes ocupados. Pode-se dizer que Israel ganhou a guerra e perdeu a paz.

Essa vitória inaugurou o mito da invencibilidade israelense. Segundo se costuma ler por aí (existem muito material acessível na Internet…), depois de uma série de provocações da Síria, estimuladas pela União Soviética, o presidente da República Árabe Unida, Nasser, pediu a retirada da força de paz das Nações Unidas na Península do Sinai (estava lá desde 1956) e fechou o Estreito de Tiro, em 22 de maio, bloqueando o acesso marítimo israelense ao Mar Vermelho. Ao mesmo tempo, grandes deslocamentos de tropas egípcias da RAU colocaram exércitos às portas de Israel num total de mais de 600.000 efetivos. O governo israelense tomou essas ações como atos de guerra e lançou um ataque aéreo preventivo, destruindo as forças aéreas inimigas no solo, em menos de três horas.

Neste primeiro dia, os árabes perderam mais de 400 aviões; Israel perdeu 22, abatidos pela defesa anti-aérea. Privando o adversário de apoio aéreo aproximado, adquiriu uma vantagem decisiva nas batalhas de movimento acontecidas em seguida, no deserto. Embora a superioridade numérica árabe fosse teoricamente esmagadora, a situação tática era totalmente favorável aos judeus. A hipótese de destroçar as forças de defesa árabes não tinha sido considerada até então, mas a desorientação que se seguiu, particularmente no Egito, levou a que as Forças de Defesa de Israel considerassem afastar os adversários de suas fronteiras, ocupando parcelas do território daqueles.

Assim, as forças blindadas e a infantaria motorizada de Israel deslocaram-se rapidamente para a Península do Sinai e Faixa de Gaza, cercando a maioria do exército egípcio, que se viu isolado de suas bases – naquele momento debaixo de forte pressão pela Força Aérea de Israel – e sem acesso a reforços e suprimentos. No segundo dia, quando o desastre já estava desenhado, o presidente do Egito telefonou ao rei Hussein, encorajando-o a lutar, alegando que as forças egípcias estavam penetrando o território de Israel desde a manhã daquele dia. Nasser vinha recebendo informes incorretos de seu Estado-maior, que não queria admitir a falta de informações e a confusão na linha de frente. A Jordânia acabou derrotada em pouco mais de 24 horas, mas foi o único dentre os aliados árabes que ensaiou ações ofensivas contra Israel e, nos últimos dois dias, conseguiu impedir que Israel tomasse Aman.

O resultado foi a ocupação da metade oriental de Jerusalém e a Cisjordânia.

A Jordânia não era o adversário principal, e Israel apressou-se a aceitar o cessar- fogo proposto pelas Nações Unidas. A ofensiva jordaniana tinha obrigado as FDI a dividir forças. Acordado o cessar-fogo, Israel tratou de redirecionar forças blindadas e infantaria para o Sinai, iniciando uma grande ofensiva no final do dia seguinte, concentrando com três brigadas blindadas, duas motorizadas e uma de paraquedistas, além de grande quantidade de infantaria convencional (transportada em todos os veículos motorizados que podiam andar, em Israel, boa parte deles dirigidos por civis convocados às pressas). Debaixo do forte embargo europeu, Israel tinha problemas de suprimentos, principalmente gasolina e lubrificantes, importados em grande quantidade da Itália. Assim, a guerra só poderia durar poucos dias. Todos os recursos das FDI forma lançados no Sinai. Os egpcios recuaram desordenadamente para a margem oriental do Canal, abandonando virtualmente todo seu equipamento. No final do dia 10, as FDI controlavam toda a Península do Sinai e o Egito aceitou o cessar-fogo. A Síria aceitou em seguida, o que para Israel foi providencial, visto que as bem entrincheiradas forças sírias, aferradas ao terreno acidentado da região, ofereceram maior resistência do que era esperado.

Foi realmente uma vitória avassaladora: a guerra foi decidida em quatro dias, e somente não acabou antes devido à inesperada resistência do exército jordaniano (Israel não esperava que o rei Hussein cerrasse fileiras com seus parceiros republicanos e nacionalistas). O resultado lançou a população de Israel num estado de euforia coletiva. O esfacelamento da coalizão árabe trouxe, como uma espécie de “bônus extra” a conquista do setor árabe de Jerusalém e de todo o território da “Israel Bíblica”, e estimulou interpretações religiosas da guerra e a fantasia de uma “Grande Israel”, estabelecida no território bíblico.

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Pois é, essa passou a ser uma fonte de problemas, ou, quem sabe, uma das fontes de problemas… Em breve, vamos, continuaremos o assunto. Não é pouco assunto…

Uma historinha interessante: os foguetes do Hamas:: O resto da historinha::

Abaixo, quem tiver paciência poderá encontrar alguns detalhes da história dos Qassam palestinos. Nos links se encontram recursos de pesquisa simples, esclarecendo, no nível de mortais comuns, os aspectos mais especializados.  Reuni esses recursos também para demonstrar que construir um foguete viável não é nenhuma tarefa impossível, e qualquer pessoa com algum conhecimento técnico e materiais minimamente adequados (por exemplo, um aeromodelista) pode, em tese, fazer um. Mas, crianças, não tentem em casa: acidentes podem acontecer, como um tiro de canhão “acidental” de um tanque israeli…

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Os foguetes Qassam são, de certa forma, continuadores dessa tradição consolidada durante a Segunda Guerra Mundial. Foram desenvolvidos pelos militantes do Hamas Yahya Ayyash, Adnam al-Ghoul, Nidal Fat´hi Rabah Farahat e Mohamed Khaled, todos já mortos. Esses homens participaram da primeira Intifada, e eram todos especialistas em explosivos e fabricação de bombas. A idéia de uma produção local de armas ofensivas para o Hamas partiu de Ayyash. Engenheiro-eletricista formado em uma universidade de Ramallah, formou um grupo de técnicos sobre o qual não existem maiores informações, mas parecem ter tido formação universitária. Ayyash morreu em 1996, e foi sucedido por Mohiyedine Sharif, um técnico de grande talento em produzir explosivos usando materiais comuns. Morto Sharif, al´Ghoul o sucedeu. Diante da dificuldade de conseguir armamento de maior capacidade destrutiva, imaginou a possibilidade de construir foguetes com materiais disponíveis na própria região de Gaza. Seu primeiro produto foi o foguete anti-tanque al’Bana. Essa arma portátil foi fabricada com materiais trazidos do Egito, e mostrou-se bastante efetiva durante a Intifada de al´Aqsa. O sucesso levou a que Ghoul projetasse um modelo mais potente, denominado Yasin (nesse recurso de pesquisa, o lançador de ombro é um deles). Ambas as armas certamente eram baseadas nos foguetes AT soviéticos RPG2. A segunda diferia da primeira em alcance, bastante melhorado, mas ainda tinha a limitação de necessitar de materiais trazidos de fora.  Com a morte de al´Ghoul, Al-Farahat assumiu o grupo de engenheiros. Especialista em explosivos e em ataques com morteiros, essa experiência o levou, junto com Khaled (sobre o qual quase não existem informações), a imaginar uma arma de maior poder ofensivo: o resultado foi o Qassam.

A produção da primeira versão começou em 2001, durante a Intifada de al´Aqsa. O Qassam-1 tinha um corpo cilíndrico de 80 centímetros de comprimento e 5500 gramas de peso total, com uma pequena cabeça de combate de 500 gramas e era acionada por um fuso de contato – ou seja, explode depois de chocar-se contra o solo. O artefato era impusionado por um motor-foguete de camara simples de combustível líquido monopropelente, estabilizado em voo por quatro aletas e tinha um alcance máximo de 5 quilômetros. Era construído em chapas de aço, latão e plástico. O combustível, líquido, tem água oxigenada (peróxido de hidrogênio) e gasolina como principais ingredientes, e o explosivo é produzido modificando-se a fórmula de fertilizantes agrícolas comuns. É muito provável que o projeto tenha copiado os aspectos básicos do foguete soviético BM-8, muito comum na região desde os anos 1950. Os serviços de informação tanto israelis quanto ocidentais insistem em afirmar o apoio do Irã ao palestinos, mas até agora nada de concreto foi realmente provado. Não provado, mas provável: as ligações entre Hamas e Irã tem sido aprofundadas, e regime fundametalista desse país é o principal financiador da resistência palestina.

O primeiro lançamento real aconteceu em 2002. Com muito pouco alcance, nenhuma precisão e muito pouca confiabilidade, o efeito inicial foi, em grande medida, psicológico, pois mostrou que os palestinos tinham capacidade de construir uma arma capaz de atingir Israel. Junto à essa novidade desagradável, a população israelense  descobriu a dificuldade de suas forças de defesa em interromper a produção.

Os dados técnicos foram obtidos através do exame de fragmentos dos artefatos explodidos e de uns poucos, cuja detonação falhou. Também foram reunidas informações de interrogatório e relatos de informantes. Segundo concluem os oficiais de inteligência de Israel, os Qassam tem, como principal vantagem, a extrema simplicidade: uma oficina de serralheiro (que existe às centenas, em Gaza) podia produzir um foguete em aproximadamente um dia. Facilmente transportáveis, são geralmente colocados em um veículo do porte de uma Kombi, e levados à noite até a área de lançamento. A estativa (rampa de lançamento), feita de metal barato, pode ser re-aproveitada ou simplesmente destruída com um machado. O processo de montagem e lançamento toma uns 15 minutos e exige equipes de 4 homens (esses dados  podem variar um pouco, para cima).

Logo começaram a ser identificadas variantes do Qassam-1. O Qassam-2 surgiu em 2002 e foi usado até 2005. Era bem maior do que a primeira versão, tinha alcance de 8-9.5 km e cabeça de combate de 5-9 kg. Ainda em 2005 foi observado o surgimento do Qassam-3 que pesava até 20 kg e alcance de até 12 km, com 20 kg de explosivos. Melhoramentos na construção do Qassam-3 e na qualidade do combustível levaram ao Qassam 4, com peso de 25 kg, cabeça de combate de até 20 kg e alcance de até 17 km. Em 2006 foram utilizados artefatos que indicavam a instalação de dois motores, o que permitia um alcance de pelo menos 25 km.

A defesa diante dos raids palestinos consistiu em ataques contra locais de produção e a implementação de uma rede de alerta antecipado, denominada Red Color (Bandeira Vermelha), capaz de notificar as trajetórias dos artefatos desde o lançamento, calcular os possíveis locais de queda e alertar as populações no raio de queda. As localidades ameaçadas tiveram implementadas suas instalações de proteção anti-aérea. A instalação de um sistema anti-mísseis tem sido discutida, mas é problemática em função das características dos ataques de Qassam.

Durante todo o período 2002-2007, as FDI se mostraram incapazes de controlar o problema. Em 2006, os artefatos Qassam começaram a cair na cidade de Sderot, nas comunidades próximas e na cidade de Ashkelon, o que demonstrava uma capacidade crescente dos militantes do Hamas em calcular a trajetória do vôo, melhorando o alcance de combate. Militarmente, os Qassam não são capazes de criar problemas para Israel. Entretanto, a persistência do problema é fator de desestabilização para o governo local: cada foguete que explode no solo do estado judeu é demonstração cabal da impossibilidade de que uma paz nos termos dele seja imposta ao adversário. Ou seja – uma guerra praticamente impossível de ser vencida.

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Pois é, de modo muito resumido, essa é a história dos foguetes do Hamas. A questão a perguntar é se os israelis irão conseguir, com essa operação militar (tratá-la de “carnificina” seria mais justo, mas é uma operação militar) interromper o fogueteio de suas cidades. Provavelmente não, pois alcançar esse objetivo implicaria em ocupar a região – o que seria ainda mais contraproducente do que a operação em si. Mas essa é outra história.

Uma historinha interessante: os foguetes do Hamas::

Provavelmente, as Forças de Defesa de Israel irão encerrar sua campanha punitiva contra a Faixa de Gaza nos próximos dias. Conforme comentou o analista David Rieff (para quem  tem paciência de ler em inglês, vale uma espiada), provavelmente uma tregua será decretada após a retirada dos israelis, assim que estes possam proclamar que alcançaram, pelo menos, objetivos parciais. A morte, num bombardeio, de Said Siam, a autoridade do Hamas encarregada de articular os serviços civis de Gaza com o braço militar do Hamas, talvez possa servir como justificativa.

Não é novidade para ninguém, que o motivo inicialmente alegado por Israel para a operação foi o fim da trégüa com o Hamas. As brigadas Ezzedine Al´Qassam, braço armado do grupo extremista palestino, anunciaram, em dezembro passado, o encerramento oficial da trégua que vigorava havia seis meses. As brigadas Al´Qods, um outro grupo de combate do Hamas, iniciaram imediatamente o lançamento de foguetes Qassam contra o território israelense. Os projeteis balísticos começaram a cair sobre a área das localidades de Neguev e Eshkol, ambas próximas à faixa de Gaza. De lá para cá, mesmo com a ofensiva militar, os projeteis não pararam de ser lançados, chegando, no auge, uma semana atrás, a mais de quarenta impactos diários.

Mas o que é um “Qassam”, afinal de contas? Lógico que todo mundo sabe, pela imprensa, que é um foguete. Mas representa ameaça ,assim tão grande contra Israel?

Aprofundemos um pouco: trata-se de um projétil balístico não-guiado, ou seja, um artefato que, após lançado, cumpre uma trajetoria azimutal (sobe gradativamente até um ponto máximo e depois desce, de modo mais abrupto) previamente calculada, e atinge uma determinada area de alvo. O alcance de uma arma desse tipo é muito variável, dependendo do tamanho do projétil, quantidade de combustível em relação ao peso total e condições de lançamento: pode ir de poucos quilômetros até varias dezenas de quilômetros. O mais importante é que todos os cálculos de trajetoria tem de ser feitos com a arma no chão. A regulagem do alcance e feita simplesmente alterando a inclinação de lançamento, com cálculos bastante simples. Iniciado o vôo, o foguete cumpre a trajetoria e cai. A precisão é muito baixa, e, além do mais, dependerá de fatores aleatórios, fora de controle dos artilheiros. Assim, a pontaria é feita mais-ou-menos como a de um canhão, estabelecendo-se uma “área de alvo”, um quadrado dentro do qual espera-se que a coisa caia. Esse quadrado geralmente tem algumas dezenas de metros de lado.

Ou seja: uma arma dessas é totalmente “muda”, “surda” e “cega” (não se comunica com a estação de disparo nem “enxerga” a trajetoria”), portanto, burra.  Sua tecnologia é muito rudimentar, e uma de suas vantagens é exatamente essa.

De fato, o desenvolvimento de projeteis balísticos começou no final da Idade Media, e, naquela época, eles não diferiam muito de um foguete junino. Ao longo da Idade Moderna, os foguetes de corpo rígido foram sendo aperfeiçoados e passaram a ser amplamente usados tanto pelos exércitos ,quanto pelas marinhas. No século 19, tinham chegado ao “estado da arte”, e se tornaram figuras comuns  nas guerras de então: até os exércitos brasileiro e paraguaio os utilizaram, em boa quantidade, durante a guerra do Paraguai. Na Primeira Guerra Mundial o foguete voltou ao campo de interesse das potências, embora a tecnologia não tivesse se desenvolvido, desde o século anterior (uma excelente série de artigos sobre o assunto pode ser lida, em formato PDF, aqui). Durante a Segunda Guerra Mundial é que a coisa deslanchou, e todas as potencias envolvidas utilizaram foguetes em grande quantidade, em terra, no mar e no ar, e em diversas versões. Basicamente, eram artefatos não-guiados, usados em certas condições para substituir a artilharia. O mais conhecido deles foi o “Katyusha”, apelido dado pelos soldados aos foguetes BM-8 e BM-13. A partir de trilhos instalados em um caminhão, os “Catarininhas” eram disparados em salvas, com pequenos intervalos entre os disparos. Iniciaram o conceito, amplamente desenvolvido durante toda a guerra, de “foguete livre contra o solo”, (em inglês, FROG), usado ainda hoje. O efeito era aterrorizante, principalmente por causa do barulho, mas todos os usuários concordavam que esse tipo de arma só era eficaz para o chamado (pelos militares) “bombardeio de saturação”. Os alemães desenvolveram os Nebelwerfer, lançadores múltiplos, em variados calibres, usados durante toda a guerra; os americanos também investiram pesadamente nessa tecnologia, e, por volta de 1945, um complexo de 1200 fábricas produzia partes de diversos tipos de foguetes não-guiados (veja aqui alguns deles).

Existe uma certa continuidade entre os Qassam e essas armas da Segunda Guerra Mundial. Mas deixemos para estabelecer qual é na próxima postagem… ;c)

Por enquanto, divirtam-se vendo um filminho especialmente selecionado. Imagine como não deve ser ficar debaixo de uma coisa dessas… ::