Uma historinha interessante: os foguetes do Hamas::


Provavelmente, as Forças de Defesa de Israel irão encerrar sua campanha punitiva contra a Faixa de Gaza nos próximos dias. Conforme comentou o analista David Rieff (para quem  tem paciência de ler em inglês, vale uma espiada), provavelmente uma tregua será decretada após a retirada dos israelis, assim que estes possam proclamar que alcançaram, pelo menos, objetivos parciais. A morte, num bombardeio, de Said Siam, a autoridade do Hamas encarregada de articular os serviços civis de Gaza com o braço militar do Hamas, talvez possa servir como justificativa.

Não é novidade para ninguém, que o motivo inicialmente alegado por Israel para a operação foi o fim da trégüa com o Hamas. As brigadas Ezzedine Al´Qassam, braço armado do grupo extremista palestino, anunciaram, em dezembro passado, o encerramento oficial da trégua que vigorava havia seis meses. As brigadas Al´Qods, um outro grupo de combate do Hamas, iniciaram imediatamente o lançamento de foguetes Qassam contra o território israelense. Os projeteis balísticos começaram a cair sobre a área das localidades de Neguev e Eshkol, ambas próximas à faixa de Gaza. De lá para cá, mesmo com a ofensiva militar, os projeteis não pararam de ser lançados, chegando, no auge, uma semana atrás, a mais de quarenta impactos diários.

Mas o que é um “Qassam”, afinal de contas? Lógico que todo mundo sabe, pela imprensa, que é um foguete. Mas representa ameaça ,assim tão grande contra Israel?

Aprofundemos um pouco: trata-se de um projétil balístico não-guiado, ou seja, um artefato que, após lançado, cumpre uma trajetoria azimutal (sobe gradativamente até um ponto máximo e depois desce, de modo mais abrupto) previamente calculada, e atinge uma determinada area de alvo. O alcance de uma arma desse tipo é muito variável, dependendo do tamanho do projétil, quantidade de combustível em relação ao peso total e condições de lançamento: pode ir de poucos quilômetros até varias dezenas de quilômetros. O mais importante é que todos os cálculos de trajetoria tem de ser feitos com a arma no chão. A regulagem do alcance e feita simplesmente alterando a inclinação de lançamento, com cálculos bastante simples. Iniciado o vôo, o foguete cumpre a trajetoria e cai. A precisão é muito baixa, e, além do mais, dependerá de fatores aleatórios, fora de controle dos artilheiros. Assim, a pontaria é feita mais-ou-menos como a de um canhão, estabelecendo-se uma “área de alvo”, um quadrado dentro do qual espera-se que a coisa caia. Esse quadrado geralmente tem algumas dezenas de metros de lado.

Ou seja: uma arma dessas é totalmente “muda”, “surda” e “cega” (não se comunica com a estação de disparo nem “enxerga” a trajetoria”), portanto, burra.  Sua tecnologia é muito rudimentar, e uma de suas vantagens é exatamente essa.

De fato, o desenvolvimento de projeteis balísticos começou no final da Idade Media, e, naquela época, eles não diferiam muito de um foguete junino. Ao longo da Idade Moderna, os foguetes de corpo rígido foram sendo aperfeiçoados e passaram a ser amplamente usados tanto pelos exércitos ,quanto pelas marinhas. No século 19, tinham chegado ao “estado da arte”, e se tornaram figuras comuns  nas guerras de então: até os exércitos brasileiro e paraguaio os utilizaram, em boa quantidade, durante a guerra do Paraguai. Na Primeira Guerra Mundial o foguete voltou ao campo de interesse das potências, embora a tecnologia não tivesse se desenvolvido, desde o século anterior (uma excelente série de artigos sobre o assunto pode ser lida, em formato PDF, aqui). Durante a Segunda Guerra Mundial é que a coisa deslanchou, e todas as potencias envolvidas utilizaram foguetes em grande quantidade, em terra, no mar e no ar, e em diversas versões. Basicamente, eram artefatos não-guiados, usados em certas condições para substituir a artilharia. O mais conhecido deles foi o “Katyusha”, apelido dado pelos soldados aos foguetes BM-8 e BM-13. A partir de trilhos instalados em um caminhão, os “Catarininhas” eram disparados em salvas, com pequenos intervalos entre os disparos. Iniciaram o conceito, amplamente desenvolvido durante toda a guerra, de “foguete livre contra o solo”, (em inglês, FROG), usado ainda hoje. O efeito era aterrorizante, principalmente por causa do barulho, mas todos os usuários concordavam que esse tipo de arma só era eficaz para o chamado (pelos militares) “bombardeio de saturação”. Os alemães desenvolveram os Nebelwerfer, lançadores múltiplos, em variados calibres, usados durante toda a guerra; os americanos também investiram pesadamente nessa tecnologia, e, por volta de 1945, um complexo de 1200 fábricas produzia partes de diversos tipos de foguetes não-guiados (veja aqui alguns deles).

Existe uma certa continuidade entre os Qassam e essas armas da Segunda Guerra Mundial. Mas deixemos para estabelecer qual é na próxima postagem… ;c)

Por enquanto, divirtam-se vendo um filminho especialmente selecionado. Imagine como não deve ser ficar debaixo de uma coisa dessas… ::

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