Uma historinha interessante: os foguetes do Hamas:: O resto da historinha::


Abaixo, quem tiver paciência poderá encontrar alguns detalhes da história dos Qassam palestinos. Nos links se encontram recursos de pesquisa simples, esclarecendo, no nível de mortais comuns, os aspectos mais especializados.  Reuni esses recursos também para demonstrar que construir um foguete viável não é nenhuma tarefa impossível, e qualquer pessoa com algum conhecimento técnico e materiais minimamente adequados (por exemplo, um aeromodelista) pode, em tese, fazer um. Mas, crianças, não tentem em casa: acidentes podem acontecer, como um tiro de canhão “acidental” de um tanque israeli…

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Os foguetes Qassam são, de certa forma, continuadores dessa tradição consolidada durante a Segunda Guerra Mundial. Foram desenvolvidos pelos militantes do Hamas Yahya Ayyash, Adnam al-Ghoul, Nidal Fat´hi Rabah Farahat e Mohamed Khaled, todos já mortos. Esses homens participaram da primeira Intifada, e eram todos especialistas em explosivos e fabricação de bombas. A idéia de uma produção local de armas ofensivas para o Hamas partiu de Ayyash. Engenheiro-eletricista formado em uma universidade de Ramallah, formou um grupo de técnicos sobre o qual não existem maiores informações, mas parecem ter tido formação universitária. Ayyash morreu em 1996, e foi sucedido por Mohiyedine Sharif, um técnico de grande talento em produzir explosivos usando materiais comuns. Morto Sharif, al´Ghoul o sucedeu. Diante da dificuldade de conseguir armamento de maior capacidade destrutiva, imaginou a possibilidade de construir foguetes com materiais disponíveis na própria região de Gaza. Seu primeiro produto foi o foguete anti-tanque al’Bana. Essa arma portátil foi fabricada com materiais trazidos do Egito, e mostrou-se bastante efetiva durante a Intifada de al´Aqsa. O sucesso levou a que Ghoul projetasse um modelo mais potente, denominado Yasin (nesse recurso de pesquisa, o lançador de ombro é um deles). Ambas as armas certamente eram baseadas nos foguetes AT soviéticos RPG2. A segunda diferia da primeira em alcance, bastante melhorado, mas ainda tinha a limitação de necessitar de materiais trazidos de fora.  Com a morte de al´Ghoul, Al-Farahat assumiu o grupo de engenheiros. Especialista em explosivos e em ataques com morteiros, essa experiência o levou, junto com Khaled (sobre o qual quase não existem informações), a imaginar uma arma de maior poder ofensivo: o resultado foi o Qassam.

A produção da primeira versão começou em 2001, durante a Intifada de al´Aqsa. O Qassam-1 tinha um corpo cilíndrico de 80 centímetros de comprimento e 5500 gramas de peso total, com uma pequena cabeça de combate de 500 gramas e era acionada por um fuso de contato – ou seja, explode depois de chocar-se contra o solo. O artefato era impusionado por um motor-foguete de camara simples de combustível líquido monopropelente, estabilizado em voo por quatro aletas e tinha um alcance máximo de 5 quilômetros. Era construído em chapas de aço, latão e plástico. O combustível, líquido, tem água oxigenada (peróxido de hidrogênio) e gasolina como principais ingredientes, e o explosivo é produzido modificando-se a fórmula de fertilizantes agrícolas comuns. É muito provável que o projeto tenha copiado os aspectos básicos do foguete soviético BM-8, muito comum na região desde os anos 1950. Os serviços de informação tanto israelis quanto ocidentais insistem em afirmar o apoio do Irã ao palestinos, mas até agora nada de concreto foi realmente provado. Não provado, mas provável: as ligações entre Hamas e Irã tem sido aprofundadas, e regime fundametalista desse país é o principal financiador da resistência palestina.

O primeiro lançamento real aconteceu em 2002. Com muito pouco alcance, nenhuma precisão e muito pouca confiabilidade, o efeito inicial foi, em grande medida, psicológico, pois mostrou que os palestinos tinham capacidade de construir uma arma capaz de atingir Israel. Junto à essa novidade desagradável, a população israelense  descobriu a dificuldade de suas forças de defesa em interromper a produção.

Os dados técnicos foram obtidos através do exame de fragmentos dos artefatos explodidos e de uns poucos, cuja detonação falhou. Também foram reunidas informações de interrogatório e relatos de informantes. Segundo concluem os oficiais de inteligência de Israel, os Qassam tem, como principal vantagem, a extrema simplicidade: uma oficina de serralheiro (que existe às centenas, em Gaza) podia produzir um foguete em aproximadamente um dia. Facilmente transportáveis, são geralmente colocados em um veículo do porte de uma Kombi, e levados à noite até a área de lançamento. A estativa (rampa de lançamento), feita de metal barato, pode ser re-aproveitada ou simplesmente destruída com um machado. O processo de montagem e lançamento toma uns 15 minutos e exige equipes de 4 homens (esses dados  podem variar um pouco, para cima).

Logo começaram a ser identificadas variantes do Qassam-1. O Qassam-2 surgiu em 2002 e foi usado até 2005. Era bem maior do que a primeira versão, tinha alcance de 8-9.5 km e cabeça de combate de 5-9 kg. Ainda em 2005 foi observado o surgimento do Qassam-3 que pesava até 20 kg e alcance de até 12 km, com 20 kg de explosivos. Melhoramentos na construção do Qassam-3 e na qualidade do combustível levaram ao Qassam 4, com peso de 25 kg, cabeça de combate de até 20 kg e alcance de até 17 km. Em 2006 foram utilizados artefatos que indicavam a instalação de dois motores, o que permitia um alcance de pelo menos 25 km.

A defesa diante dos raids palestinos consistiu em ataques contra locais de produção e a implementação de uma rede de alerta antecipado, denominada Red Color (Bandeira Vermelha), capaz de notificar as trajetórias dos artefatos desde o lançamento, calcular os possíveis locais de queda e alertar as populações no raio de queda. As localidades ameaçadas tiveram implementadas suas instalações de proteção anti-aérea. A instalação de um sistema anti-mísseis tem sido discutida, mas é problemática em função das características dos ataques de Qassam.

Durante todo o período 2002-2007, as FDI se mostraram incapazes de controlar o problema. Em 2006, os artefatos Qassam começaram a cair na cidade de Sderot, nas comunidades próximas e na cidade de Ashkelon, o que demonstrava uma capacidade crescente dos militantes do Hamas em calcular a trajetória do vôo, melhorando o alcance de combate. Militarmente, os Qassam não são capazes de criar problemas para Israel. Entretanto, a persistência do problema é fator de desestabilização para o governo local: cada foguete que explode no solo do estado judeu é demonstração cabal da impossibilidade de que uma paz nos termos dele seja imposta ao adversário. Ou seja – uma guerra praticamente impossível de ser vencida.

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Pois é, de modo muito resumido, essa é a história dos foguetes do Hamas. A questão a perguntar é se os israelis irão conseguir, com essa operação militar (tratá-la de “carnificina” seria mais justo, mas é uma operação militar) interromper o fogueteio de suas cidades. Provavelmente não, pois alcançar esse objetivo implicaria em ocupar a região – o que seria ainda mais contraproducente do que a operação em si. Mas essa é outra história.

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