A Guerra dos Seis Dias::O início dos problemas?::


A trégua foi declarada unilateralmente pelos dois oponentes, o que parece um paradoxo. E é: tanto Israel quanto o Hamas consideram que “o outro lado” ainda está em posição beligerante, embora, tecnicamente, não haja guerra…E os dois lados estão mesmo. É difícil de entender, mas para infantes israelis, militantes do Hamas e os civis dos dois lados, pelo menos é possível relaxar. E, para nós aqui, é possível voltar a uma tentativa de análise minimamente desapaixonada.

 

O redator fanático por tecnologia e doutrinas militares tentará incursionar pela política e pela história – embora reconheça que tem gente mais qualificada para tanto… No caso desse caldeirão que é o a Palestina, pode-se até escolher uma data e um evento. Todos eles se misturam para delinear a tragédia atual. Vamos então escolher uma e ir adiante.

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Consideremos então a Guerra dos Seis Dias, entre os dias 5 e 10 de junho de 1967.  Num exemplo brilhante de guerra de movimento, Israel derrotou os exércitos do Egito, Síria e Jordânia, ocupou a Península do Sinai e Faixa de Gaza, do primeiro, a Cisjordânia e o setor oriental de Jerusalém, da segunda e as colinas de Golã, da terceira. O mapa geopolítico do Oriente Médio viu mudar o traçado estabelecido entre 1948 e 1956. De quebra, o embargo de armas pelos tradicionais fornecedores europeus, particularmente a França, tornou a nação judia ainda mais dependente da simpatia americana. E abriu o problema dos territórios árabes ocupados. Pode-se dizer que Israel ganhou a guerra e perdeu a paz.

Essa vitória inaugurou o mito da invencibilidade israelense. Segundo se costuma ler por aí (existem muito material acessível na Internet…), depois de uma série de provocações da Síria, estimuladas pela União Soviética, o presidente da República Árabe Unida, Nasser, pediu a retirada da força de paz das Nações Unidas na Península do Sinai (estava lá desde 1956) e fechou o Estreito de Tiro, em 22 de maio, bloqueando o acesso marítimo israelense ao Mar Vermelho. Ao mesmo tempo, grandes deslocamentos de tropas egípcias da RAU colocaram exércitos às portas de Israel num total de mais de 600.000 efetivos. O governo israelense tomou essas ações como atos de guerra e lançou um ataque aéreo preventivo, destruindo as forças aéreas inimigas no solo, em menos de três horas.

Neste primeiro dia, os árabes perderam mais de 400 aviões; Israel perdeu 22, abatidos pela defesa anti-aérea. Privando o adversário de apoio aéreo aproximado, adquiriu uma vantagem decisiva nas batalhas de movimento acontecidas em seguida, no deserto. Embora a superioridade numérica árabe fosse teoricamente esmagadora, a situação tática era totalmente favorável aos judeus. A hipótese de destroçar as forças de defesa árabes não tinha sido considerada até então, mas a desorientação que se seguiu, particularmente no Egito, levou a que as Forças de Defesa de Israel considerassem afastar os adversários de suas fronteiras, ocupando parcelas do território daqueles.

Assim, as forças blindadas e a infantaria motorizada de Israel deslocaram-se rapidamente para a Península do Sinai e Faixa de Gaza, cercando a maioria do exército egípcio, que se viu isolado de suas bases – naquele momento debaixo de forte pressão pela Força Aérea de Israel – e sem acesso a reforços e suprimentos. No segundo dia, quando o desastre já estava desenhado, o presidente do Egito telefonou ao rei Hussein, encorajando-o a lutar, alegando que as forças egípcias estavam penetrando o território de Israel desde a manhã daquele dia. Nasser vinha recebendo informes incorretos de seu Estado-maior, que não queria admitir a falta de informações e a confusão na linha de frente. A Jordânia acabou derrotada em pouco mais de 24 horas, mas foi o único dentre os aliados árabes que ensaiou ações ofensivas contra Israel e, nos últimos dois dias, conseguiu impedir que Israel tomasse Aman.

O resultado foi a ocupação da metade oriental de Jerusalém e a Cisjordânia.

A Jordânia não era o adversário principal, e Israel apressou-se a aceitar o cessar- fogo proposto pelas Nações Unidas. A ofensiva jordaniana tinha obrigado as FDI a dividir forças. Acordado o cessar-fogo, Israel tratou de redirecionar forças blindadas e infantaria para o Sinai, iniciando uma grande ofensiva no final do dia seguinte, concentrando com três brigadas blindadas, duas motorizadas e uma de paraquedistas, além de grande quantidade de infantaria convencional (transportada em todos os veículos motorizados que podiam andar, em Israel, boa parte deles dirigidos por civis convocados às pressas). Debaixo do forte embargo europeu, Israel tinha problemas de suprimentos, principalmente gasolina e lubrificantes, importados em grande quantidade da Itália. Assim, a guerra só poderia durar poucos dias. Todos os recursos das FDI forma lançados no Sinai. Os egpcios recuaram desordenadamente para a margem oriental do Canal, abandonando virtualmente todo seu equipamento. No final do dia 10, as FDI controlavam toda a Península do Sinai e o Egito aceitou o cessar-fogo. A Síria aceitou em seguida, o que para Israel foi providencial, visto que as bem entrincheiradas forças sírias, aferradas ao terreno acidentado da região, ofereceram maior resistência do que era esperado.

Foi realmente uma vitória avassaladora: a guerra foi decidida em quatro dias, e somente não acabou antes devido à inesperada resistência do exército jordaniano (Israel não esperava que o rei Hussein cerrasse fileiras com seus parceiros republicanos e nacionalistas). O resultado lançou a população de Israel num estado de euforia coletiva. O esfacelamento da coalizão árabe trouxe, como uma espécie de “bônus extra” a conquista do setor árabe de Jerusalém e de todo o território da “Israel Bíblica”, e estimulou interpretações religiosas da guerra e a fantasia de uma “Grande Israel”, estabelecida no território bíblico.

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Pois é, essa passou a ser uma fonte de problemas, ou, quem sabe, uma das fontes de problemas… Em breve, vamos, continuaremos o assunto. Não é pouco assunto…

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