Cultura material militar::Sterling::Uma obra de arte quase desconhecida::


É interessante como certas armas portáteis se tornam bem conhecidas do grande público. Milhões de pessoas sabem identificar uma ERMA MP38/40, embora grande parte dessas pessoas a chamem de “Schmeisser” (nome totalmente equivocado, devido aos filmes de guerra); outros milhões conhecem a Thompson M1928, a “arma de gangster”.  Muito menos gente sabe nomear uma Sten, apesar de reconhece-la como “metralhadora inglesa”, devido ao desenho característico.

Entretanto, os milhões de apreciadores do assunto, por todo o mundo, desconhecem a existência de algumas armas que foram verdadeiras obras-primas, peças de engenharia de primeira qualidade, produtos industriais destacados e equipamentos de combate notáveis. Vamos apresentar uma delas: a Sterling. Ela até aparece em alguns filmes: nos de James Bond, os mercenários da Spectre as portam em diversos títulos da série; em “Guerra nas Estrelas”, as armas BlasTech E11 das “tropas de assalto” do Império do Mal são Sterlings com maquiagem. Assim, para que o leitor de causa:: não pague mico diante da namorada, identificando-a (a arma, não a namorada…) como Sten, vamos conhecer alguma coisa sobre essa obra-prima.

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Em 1944 o Estado-maior britânico lançou uma proposta de especificação para uma nova submetralhadora. A arma proposta não poderia pesar mais do que 2700 gramas, deveria utilizar a munição padrão Parabellum (9X19 mm), ter uma cadência de fogo de pelo menos 500 disparos por minuto e ser suficientemente precisa para acertar um alvo de pouco mais de 90 centímetros quadrados a distância de 90 metros.

A única empresa a apresentar um projeto foi a Companhia de Engenharia Sterling, da cidade de Dageham, Essex, que o submeteu ao avaliação do Estado-maior britânico, ainda naquele ano (o engenheiro-chefe George W. Patchett vinha projetando uma “carabina-metralhadora” desde 1941). A Segunda Guerra Mundial se aproximava do fim, mas as potencialidades da arma foram comprovadas em testes de combate, com alguns exemplares distribuídos entre as tropas pára-quedistas que participaram da operação Market-garden. Uma das vantagens observadas é que a nova arma podia usar os carregadores da submetralhadora Sten, que então existia aos milhões, no lugar do carregador desenhado especialmente, de linhas curvas, ainda um tanto raro.

Fora essa, eram poucas as semelhanças.  Embora a nova arma adotasse o sistema convencional de ação de recuo para carga-ejeção-recarga, apresentava algumas inovações que a tornava diferentes dos modelos anteriores: por exemplo, o carregador, encaixado à esquerda do corpo da arma, recebia 34 cartuchos. Na Sten, a inserção era pela direita, enquanto na maioria dos modelos em serviço, se fazia por baixo do corpo, e a capacidade nunca excedia 31 cartuchos. O mecanismo de carga dispunha de pequenos roletes, que visavam diminuir o atrito entre o estojo dos cartuchos e o alimentador. O percussor era instalado de forma que não se alinhava com a espoleta até que o cartucho estivesse acomodado na câmara.

engenharia de primeira, design elegante, alta eficiência...

Sterling L2A1: engenharia de primeira, design elegante, alta eficiência...

 

O problema é que, terminada a guerra, as forças armadas britânicas ainda tinham mais de 500.000 Sten Gun em estoque, e os problemas econômicos desaconselhavam a substituição. Apenas em 1951 o projeto da empresa Sterling, que já tinha passado por inúmeros testes, tanto diante da Sten quanto de outras propostas, foi adotado pelo exército britânico. Em 1953 a vetusta Sten Gun começou a ser substituída pela submetralhadora L2A1. Diversos outros detalhes, como uma coronha rebatível e um silenciador que realmente funcionava sem estragar a arma (problema nunca resolvido na Sten), deram à Sterling uma reputação de precisão e confiabilidade nas mais diversas condições de combate. Um problema de manejo, entretanto, era constantemente relatado: a ejeção do estojo vazio dava-se pelo lado direito. Essa característica eventualmente provocava ferimentos nos atiradores quase sempre destros, e obrigava o uso de óculos de proteção. Essa característica, entretanto, não diminuiu a popularidade da Sterling entre os usuários das forças armadas britânicas. Entre todas as diversas versões da L2A, foram fabricadas cerca de 450.000 unidades, entre 1953 e 1987. Algumas ainda são observadas em uso por forças especiais britânicas, como o Special Air Service, o Special Boat Service e as tropas pára-quedistas::  

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4 pensamentos sobre “Cultura material militar::Sterling::Uma obra de arte quase desconhecida::

  1. Maravilhoso post, fazia um tempo que pedia um sobre armas leves e a entrega foi melhor que a encomenda. Muito lega essa metralhadora. Acho que nem tão eficiente, mas barata e suficientemente boa para a época.

  2. Dúvida: no site da CBC, na tabela, tem uma linha de Peso da Munição e outra de Peso do Projétil. Qual a diferença?

    • Seguinte: o peso da munição incluí o peso do estojo/espoleta e do propelente mais o projetíl (que é o q realmente faz estrago). Mas o peso da munição fará diferença com relação ao peso da arma, pq o soldado não carrega só o projetil, mas a arma (espera-se) carregada. :c)

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