Cultura Material Militar::Bete Marrom, a amiga dos Casacos Vermelhos::

Fábricas de armas e operários especializados são coisas de nossa modernidade, e nossa modernidade começou a ser gerada com a ascensão do capitalismo e com a Revolução Industrial. Até então, desde a Idade Média, o armeiro era o artesão especialista na fabricação de armas e acessórios. Ele dominava todo o processo e somente tratava de aperfeiçoar seu produto quando achava necessário ou quando lhe pediam. E todos pareciam pensar que uma boa arma não precisava de melhoramentos: uma vez pronta e aprovada, os auxiliares e aprendizes podiam dar conta da fabricação de cópias, usando os materiais, modelos e métodos estabelecidos pelo mestre-armeiro.

Um caso exemplar desse tipo de prática, consolidada pela tradição, é o do mosquete Tower, que se tornou o armamento padrão das forças militares inglesas no início do século XVIII, tornando-se amplamente conhecido como Brown Bess – “Bete Marrom”.

“Bete” era um mosquete de pederneira, ou seja, uma arma de fogo longa, carregada pela boca. As armas de fogo portáteis apareceram por volta de final do século XV. Evoluíram muito lentamente, já que melhoramentos só poderiam ser introduzidos caso melhores materiais e melhores máquinas fossem colocados à disposição dos armeiros.

Por volta de 1680, o exército inglês estava muito mal equipado. O rei Guilherme III ordenou, então, que as tropas recebessem mosquetes de pederneira, equipamento já disponível, capaz de disparar muito mais rápido do que os arcabuzes de mecha. Os armeiros londrinos foram incapazes de suprir a quantidade necessária. Foram ,então, enviadas amostras da arma para a cidade de Birmingham, tradicional centro metalúrgico, onde armeiros e metalúrgicos locais fizeram diversos melhoramentos. O resultado foi um mosquete no qual todas as peças eram feitas de ferro, material que tinha sido muito barateado na época. Os artesãos de Birmingham elaboraram um sistema de fecho de pederneira (o mecanismo que fazia a arma disparar, através da fagulha produzida pelo atrito de uma pedra de sílex contra uma peça de metal) que poderia ser adaptado a qualquer arma existente, sem grande trabalho.

Essa nova arma foi introduzida no exército inglês pelo duque de Malbourough e, em 1713, tornada padrão na infantaria britânica. Mais de cem anos depois, os exércitos que combateram contra Napoleão, sob o comando do duque de Wellington, ainda portavam esse mesmo equipamento, sem grandes modificações.

O nome Brown Bess, segundo especialistas, nunca foi oficial. É possível que Bess seja uma corruptela das palavras bus, em holandês e büsse, em alemão, ambas querendo dizer “cano”, embora, na língua inglesa, também seja apelido para Elizabeth (Isabel). Como as guerras civis na Inglaterra tiveram ampla participação de mercenários holandeses e alemães, é possível que a palavra tenha entrado por essa via. Brown (marrom) veio, possivelmente, do tratamento químico contra a ferrugem, descoberto por volta de 1630 (russeting) que dava aos canos uma cor marrom-claro, que também era a da nogueira polida, madeira de que era feita a coronha da arma. Certos relatos falam em brown musket, o faria mais sentido. Entretanto, ao longo do século XVIII, o exército britânico adotou, como padrão, um acabamento metálico polido (segundo se dizia, mantinha o soldado ocupado).

Os primeiros modelos, conhecidos como Long Land Musket tinham mais de 1,80 metro de comprimento, com cano de 117 centímetros. Pouco tempo depois, um cano de 107 cm tornou-se a marca do modelo Short Land Pattern. No final do século XVIII, um cano de 99 cm numa arma com 1,60 metro de comprimento tornou-se o India Pattern, originalmente concebido para a Companhia das Índias Orientais Inglesa.

As armas variavam em pequenos detalhes – forma do guarda-mato e das peças dos mecanismos – mas mantiveram certo padrão: fecho de pederneira, comprimento entre 1,40 e 1,58 metro, peso entre 4,3 e 5,2 kg e calibre de 19 mm, disparando um projétil redondo. Os infantes dispunham de uma baioneta triangular, adaptada ao cano através de uma luva de encaixe (“de alvado”), que trasformava o mosquete em uma pequena lança, para defesa das formações contra cavalaria, enquanto outros soldados carregavam suas armas.

Agora, é preciso esclarecer um ponto difícil de entender, por pessoas que, como nós, vivem numa época de produção industrial automatizada e totalmente estandartizada: embora a concepção do equipamento não variasse, uma dada série de exemplares podia ter diferenças em relação a outra. Isso quer dizer que eram iguais mais não eram idênticas. As técnicas de fabricação da época eram manuais e dependiam de gabaritos bastante irregulares, que geravam diferenças bem notáveis.

Por serem armas de ante-carga e alma lisa (cano sem raiamento), os mosquetes Tower eram imprecisos e de pouco alcance. Ainda assim, eram considerados confiáveis pelos soldados. O desempenho da arma era mais-ou-menos padronizado. Embora o alcance máximo fosse de uns 900 metros, o tiro era tão impreciso que dificilmente alguém conseguia acertar alguma coisa a mais de 200 – e isso se o alvo fosse muito maior que um homem. Eram mais comuns os tiros contra alvos próximos, numa distância não maior que 150 metros. Um atirador muito bom podia manter três salvas por minuto, mas é provável que a arma parasse de funcionar após uns 20 disparos.

Não se sabe direito quantas “Betes” foram produzidas, mas calcula-se que o número suba a mais de um milhão. Essas armas ainda foram adaptadas, na primeira metade do século XIX, para um sistema de fecho que utilizava, ao invés da paderneira, uma cápsula de fulminato de mercúrio, que, atingida por uma espécie de percurssor, gerava um fagulha que incendiava o propelente diretamente dentro do cano. Esse sistema era conhecido como “de fulminante”, e prolongou a vida útil das “Betes” até pelo menos os meados dos oitocentos.

Não sou propriamente especialista em armas antigas, mas é interessante saber alguma coisa sobre como lutavam e de que equipamento dispunham os antigos soldados. Se algum dos leitores se interessar, recomendo esse recurso de pesquisa, o melhor que conheço na Internet brasileira, escrito pelo maior especialista brasileiro em armas portáteis, o Adler Homero.  

Depois de retirada do serviço, essa venerável peça de tecnologia militar continuou sendo distribuída pela periferia do mundo europeu. Ainda hoje, são encontradas, eventualmente, nos cantos de salas de estar, nos fundos de armazéns e largadas em estábulos e galinheiros, por todo o mundo.

Duas frases para pensar:: Afinal, é sexta-feira::

Pensar? Não, para rir – afinal, é véspera de carnaval…

 

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– Como está, Massu? Sempre idiota?

– Sempre gaullista, meu comandante…

– E aqueles ali? (aponta para a tropa formada) Todos gaullistas?

– Todos idiotas, meu comandante!

 

Diálogo entre o marechal De Gaulle e o general-de-exército Jacques Massu, então comandante das forças francesas na Alemanha, acontecido em Baden-Baden, em maio de 1968. Consta que De Gaulle foi conferir se poderia contar com a lealdade do Exército, caso a situação na França assim o exigisse.

 

 

– Ei, não vê que estou dormindo?!?

– Pelo menos alguém aqui sabe o que está fazendo.

 

Diálogo entre um soldado e o general-de-divisão George S. Patton, quando este inspecionava posições do Segundo Corpo do Exército do EUA, no Marrocos, em novembro de 1942.

Cultura material militar::Toques para olhar fotos da 2ª Guerra Mundial::

Quer o redator queira, quer não, os leitores eventuais estão muito mais interessados em generalidades bélicas (tipo as tais armas portáteis e sistemas de armas) do que em reflexões superficiais sobre política e estratégia. “Cultura material” significa, de forma genérica, uma disciplina acadêmica que se ocupa em interpretar artefatos e tentar entender o contexto que os gerou e como eles interagem com seus contextos. Assim, essa “coluna” irá incorporar as armas portáteis e trará outras inserções, que tornarão a temática mais abrangente. Isso não significa que causa:: vá deixar de lado a política internacional e a estratégia. Temas assim continuarão a aparecer com certa freqüência porque gosto deles, e isto aqui serve principalmente para me divertir durante algumas horas por semana. Vamos ver no que dá…::

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O Luiz Neto, confrade lá do Weblog do Pedro Doria enviou-me, tem alguns dias, uma sequência bastante interessante de fotos de tropas da Wehrmacht em diversas situações de campanha. As fotos, coloridas, foram em sua maior parte provavelmente cortadas da revista Signal, uma espécie de “Fatos & Fotos” nazista (de fato, era baseada no formato da revista Life, que também foi inspiração de Fatos & Fotos), publicada entre 1940 e 1945. Achei as fotos muito interessantes por mostrarem uma visão um tanto sanitizada da guerra, característica da propaganda nazista (na verdade, de qualquer propaganda sobre a guerra, na época). Embora as fotos não sejam identificadas, é possível deduzir que dizem respeito à primeira fase do conflito (1939-1942). Essa dedução é possível em função da observação do que aparece nas imagens: armamento, paisagens e, principalmente, uniformes.

Os uniformes de combate usados pelas tropas alemãs variaram bastante ao longo da guerra, em função de diversos fatores, mas em geral foram sendo simplificados devido à falta de matérias-primas e simplificação dos processos industriais. Quando você abrir o link indicado, tenha em mente que estaremos nos referindo às fotos sempre de cima para baixo.

O que identificamos como “uniforme nazista” é, de fato, o padrão de vestimenta adotado a partir de 1935-1936, no bojo do rearmamento alemão. Embora essa série de uniformes fosse bastante diferente daquela adotada pela Reichswehr, manteve certas características que tinham sido herdadas do exército prussiano, particularmente as cores e distintivos de corpo, posto e função. O colarinho, no modelo 1936, tinha uma cor bem notável, verde-escuro, e os corpos de tropas eram identificados por cores: verde para a infantaria, vermelho para artilharia, cor-de-rosa para as forças blindadas, preto para pioneiros (engenheiros de combate), amarelo para comunicações, azul para corpos de saúde. Na foto em que vemos um primeiro-cabo (em alemão, obergefreiter) da infantaria com uma submetralhadora ERMA MP38, o uniforme pode ser examinado em alguns detalhes importantes. O primeiro é a cor: trata-se do feldgrau, o verde-acinzentado. O modelo é posterior a 1939, visto que o colarinho da túnica é da mesma cor do resto do traje. O tecido é lã de mescla, e é possível notar os bolsos chatos, e a “águia com hérnia”, o símbolo nazista que os generais concordaram em introduzir no uniforme em 1935. O posto pode ser visto na ombreira – o vivo na cor prata, no ombro e na gola, indica um graduado. O capacete é o tipo “balde de carvão”, o modelo 1935, que substituiu o modelo 1917 ainda usado pela Reichswehr – pode ser identificado pelos rebites e pelo acabamento das bordas. O desenho mudou consideravelmente depois de 1942, e o acabamento passou a ser bem mais grosseiros. O outro soldado é, provavelmente, um Obergrenadier, posto que não existia em outros exércitos. Por sinal, assim como no exército norte-americano o soldado de infantaria é chamado rifleman (fuzileiro) na Wehrmacht, após a reforma feita pelos nazistas em 1934, o soldado de infantaria passou a ser chamado de grenadier (granadeiro), denominação atribuída no Königsheer e na Reichswehr apenas a membros de unidades de infantaria de elite.

As três fotos seguintes mostram prisioneiros de guerra, provavelmente russos, dois tanques do exército vermelho (note que um deles é um M-4 fabricado nos EUA) diante do que aparentemente são os montes Sudetos, na fronteira entre a Tchecoeslováquia e a Alemanha, e oficiais soviéticos diante de tropas perfiladas (o uniforme do Exército Vermelho adotava a cor cáqui). A foto seguinte mostra uma esquadra de infantaria alemã, e deve ter sido feitano final de 1941. O lugar é, certamente, a Rússia. Os soldados usam Sumpfmuster, casacos de inverno acolchoados de dupla face (método muito comum na Wehrmacht). O chute quanto ao ano é pelo fato de que o metralhador carrega uma MG-34, arma que deixou de ser distribuída em meados de 1942, substituída pela MG-42. Todos os infantes usam feldmütze (boné de campanha) modelo 1934, e não se vêem capacetes.

As duas fotos seguintes mostram infantes em marcha, equipados no padrão anterior a 1943: todos portam fuzis Mauser KAR98K e o metralhador transporta uma MG34. Depois de 1943, se tornou comum que a infantaria recebesse submetralhadoras e a MG42 se tornou onipresente. Um detalhe importante é o fato de que os infantes (são todos grenadieren, soldados rasos) usam as conhecidas marschstiefeln, botas de marcha. Em boa parte dos filmes de guerra, os soldados alemães usam esse tipo de calçado, que se tornou mais raro depois de 1943, por ser difícil de fazer e precisar de muito material – principalmente couro. A foto seguinte é mais interessante, porque parece ter sido feita em 1939 ou no início de 1940 – basta observar o colarinho do infante no fundo, verde escuro, que deixou de ser usado depois da campanha do Ocidente. As fotos seguintes não fogem do padrão das anteriores: equipamentos do padrão 1936-1942 (inclusive um canhão anticarro PAK 37, que se mostrou inútil até contra os tanques soviéticos mais leves), botas de marcha e capacetes modelo 1935. É interessante observar a túnica regular modelo 1940, que, com exceção do colarinho, é idêntica ao modelo 1936. O comprimento foi diminuído nesse desenho, pois se imaginava que fosse mais adequada para uso em transporte motorizado. O tecido é de fibras naturais – provavelmente algodão e lã. Depois de 1943, e a fortemente em 1944, o material usado em uniformes passou a ser principalmente sintético, devido à escassez de algodão.

Devemos notar que todas as fotos mostram tropas  integrantes de divisões de infantaria. É notável o uso de transporte hipomóvel – carroças a cavalo – que, até o final da guerra foi o principal meio de transporte da Wehrmacht.

Também se deve observar que não aparecem uniformes camuflados, que se tornaram comuns após 1943-44. O único pano camuflado aparece cuidadosamente enrolado (cuidadosamente demais) no equipamento de um infante ao lado de uma MG-34 em reparo pesado. Aparentemente se trata de um Zelthbahn, um tipo de poncho que, reunido com outros três formava uma tenda de campanha. O padrão, embora pouco visível, deve ser o splittermuster modelo 1931, único padrão de camuflagem usado pela Wehrmacht antes de 1942::

Um sistema de armas às… (Ahhh, quando der… Não tenho tanto tempo quanto gostaria)::A arma submarina alemã: o argumento do mais fraco (no mar)

Nosso amigo Pax, um interessado em sistemas de armas, postou, outro dia, uma interessante nota aqui no causa::  – a “batida”, em pleno oceano, de dois submarinos nucleares, um francês e outro inglês (andam dizendo que os submarinos ingleses rodam Windows… Deve ser maldade, não?..). Eu sempre disse que o sistema de armas estratégicas britânico e francês é, mais que uma política de dissuação, e junto com as ilhas Malvinas e a Guiana Francesa, a última e nostálgica referência ao tempo em que essas duas “potências” não dependiam dos EUA para se defender. Mas submarinos são submarinos, e um submarino nuclear (segundo apurei, a Marinha Real tem 11 deles e a Marine Nationale, 13) não é pouca coisa. Hoje em dia, não são, de modo algum, os sistemas de armas navais mais avançados, mas ainda mantêm uma capacidade de causar danos inversamente proporcional a seu tamanho e custo. Antigamente se dizia que a arma submarina era “a arma do mais fraco”. Não deixa de ser verdade – na guerra das Malvinas, a existência de dois submarinos classe IKL-209 na Marinha Argentina foi a única ameaça que os britânicos não puderam deixar de considerar – o que alterou de forma notável a organização da força tarefa britânica. Vamos, então, falar alguma coisa sobre submarinos. Não os nucleares, nem os convencionais. Falemos daqueles que ainda hoje atraem muita atenção – os da Kriegsmarine, a marinha de guerra alemã. E já que é quase carnaval, podem tomar esse post como homenagem às papagaiadas imperiais franco-britânicas dignas de um bloco de sujos – como uma batida entre submarinos…::

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Qualquer pessoa que conhece alguma coisa sobre a Segunda Guerra Mundial sabe da importância que, nesse conflito, teve a arma submarina. O “barco submarino” era uma arma nova, então – fez sua estréia na Grande Guerra, e, ainda assim, sob as discussões de se as regras do corso, elaboradas no século XVIII, ainda valeriam nesse novo tipo de guerra contra as rotas mercantes.  As “boas normas” até então usuais diziam que um navio suspeito seria abordado, passaria por inspeção e, caso se encontrasse carga de utilidade bélica, tripulação e passageiros seriam desembarcados e só então, afundado o navio. Depois que a Alemanha resolveu mandar às favas esse “costume tradicional e usual da guerra naval”, o resultado foram quase três milhões de toneladas de navios afundados em pouco mais de um ano, por umas 150 unidades de diversas classes.

O Tratado de Versalhes proibiu a Alemanha de fabricar e possuir armas ofensivas, e os submarinos eram considerados, dentre essas, uma das principais.  Curiosamente, as restrições foram parcialmente suspensas com o Tratado Naval Anglo-Germânico, de 1935. A Alemanha pôde restabelecer uma esquadra que incluía certo número de submarinos. No ano seguinte, quando Hitler determinou o rearmamento pleno, militares e industriais aderiram gostosamente à orgia armamentista que se seguiu, mas a Marinha de Guerra era a menor prioridade, em função da complexidade da construção de navios e das limitações econômicas da Alemanha.

A coisa é mais-ou-menos assim: embora não incorporasse diretamente muita tecnologia, a indústria naval da época era dispendiosa, para qualquer sistema econômico. Um vaso de guerra, não importa o tamanho, agregava pouco mais da metade do peso em em ligas metálicas especiais: metais de alta taxa de dureza, materiais resistentes à corrosão, materiais resistentes ao calor, e por aí vai. Além do mais, um estaleiro exige grande aporte de mão-de-obra especializada, uma logística industrial complicada e instalações difíceis de construir e manter. E a marinha de guerra disputava espaço com a marinha mercante, porque os navios de carga, embora muito menos complexos e dispendiosos, também exigiam investimento razoável.

 

 O início da 2a GM pegou a esquadra alemã com apenas 25 por cento dos navios planejados e ficou claro que não seria possível colocar rapidamente um número de vasos de superfície que possibilitasse participação efetiva na guerra. Assim, foi dada prioridade à construção de submarinos. O alto comando nazista considerava que esses poderiam ser muito mais efetivos  contra os interesses britânicos que os navios de superfície. A participação pífia da Marinha na campanha de 1940 mostrou que a avaliação não era absurda.

 

Os submarinos começaram a guerra sem restrições. Poucos dias após o início do conflito, uma ação espetacular mostrou aos britânicos o tamanho da bobagem que tinham feito em 1935: o submarino U-47 penetrou as defesas (frouxas) de Scapa Flow e afundou um couraçado – velho, mas uma unidade da Marinha Real… E na principal base da Esquadra Metropolitana. Quase seis anos depois, 784 afundamentos e cerca de 28.000 marinheiros mortos, a arma submarina alemã afundara junto com a Alemanha nazista. Não é, entretanto, nosso objetivo contar essa história – existem fontes muito boas, na Grande Rede, e o interessado em submarinos e na guerra que eles travaram pode começar a pesquisar aqui.

 

 Entretanto, um dado sempre despertou minha curiosidade: dentre a enorme quantidade de artefatos gerados pela Segunda Guerra Mundial, alguns itens existem aos milhares: por exemplo, armamento portátil, uniformes, equipamentos de campanha. Outros itens são um tanto mais raros, como por exemplo, tanques e outros veículos de combate. Os navios de guerra estão dentre os mais raros.

 

O motivo é simples: navios de uma nação derrotada não tem muita utilidade, uma vez que precisam do apoio constante de uma estrutura industrial (as bases navais são o que de mais próximo existe de um complexo industrial adaptado para fins militares). Encerrada a guerra, os navios inimigos ou são transformados em sucata ou relegados a usos secundários. Ou descartados: usados como alvos de exercício ou simplesmente afundados.

 

Foi o caso de quase todos os submarinos alemães, após a rendição: a operação Deadlight, conjunto de ações planejadas pelas marinhas norte-americana e inglesa, destinou-se a dar fim aos submarinos entregues pelas tripulações. Calcula-se que um número próximo a 220 unidades tenham sido afundadas pelas próprias tripulações. Outros 39 foram usados em diversos tipos de testes.

 

Restam hoje apenas três submarinos alemães dessa época. Um deles, o mais notório, tem a triste memória de ter sido o único a ser render em combate: o U-505, que atualmente repousa no Museu de Ciência e Indústria de Chicago. O U-2540, depois rebatizado “Wilhem Bauer” encontra-se exposto na cidade de Bremen. O terceiro e mais recente é o U-534, retirado do fundo do mar no final os anos 1990 e atualmente transformado no objeto mais importante em exposição no Museu Naval de Birkenhead Docks, em Liverpool:: 

Uma fortificação, posto que é segunda::Eben-Emael::

Está bem, é terça… Mas ninguém é perfeito, não é?::Por sinal,

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Imagem esquemática da fortaleza de Eben-Emael e dos pontos de pouso dos planadores alemães.

Imagem esquemática da fortaleza de Eben-Emael e dos pontos de pouso dos planadores alemães.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na década de 1930, as lembranças da Primeira Guerra Mundia e da “perda do movimento” na Frente Ocidental ainda eram fortes. A paralisação de milhões de homens e de centenas de milhares de peças de armamento de todos os tamanhos, uns diante dos outros, num terreno atravessado por estreitas linhas de fortificações efêmeras formadas por valas, acantonamentos e postos de fogo – as trincheiras -, pesava na imaginação de militares, políticos e do cidadão comum. Assim, muitos países europeus se iludiram achando que linhas de trincheiras tornadas permanentes por meio de aço e concreto desencorajariam qualquer inimigo. Diversos desses sistemas de fortificações foram construídos, entre os anos 1920 e o final dos anos 1930. O mais conhecido deles foi a linha Maginot, sistema articulado de fortificações e obras defensivas cobrindo a fronteira franco-alemã; a linha Siegfried planejada para cobrir a fronteira ocidental da Alemanha; o sistema de fortificações na fronteira entre a URSS e a Polônia nem sequer foi completado. Em 1932, os militares belgas, conscientes da vulnerabilidade do vale do rio Maas, iniciaram a construção de uma gigantesca fortificação, na forma aproximada de um triângulo isósceles. A fortaleza de Eben-Emael, como foi chamado o complexo, ocupava uma área total de uns 7.500.000 m2: cobria o canal Albert, entre Liège e Antuérpia, e deveria tornar a fronteira belgo-germânica impenetrável. As principais construções eram subterrâneas: postos de comando, depósitos, alojamentos, cozinhas, latrinas, enfermarias, situadas até 60 metros no subsolo. Os postos de combate eram construídos em aço e concreto, e a artilharia principal foi postada nos pontos mais elevados de uma colina situada no centro da área, dominando as vias de acesso, o rio Maas e o Canal Albert. Os canhões mais leves e postos de metralhadora foram instalados nas linhas exteriores, em profundidade – uns cobriam os outros. O lado leste do triângulo era garantido pela presença do canal Albert, que atravessava a colina, observado por muralhas de até 60 metros de altura; o lado oeste possuía um sistema de canais, que, a partir do rio Maas permitia o rápido alagamento de uma grande área, adjacente aos acessos principais; o lado sul, que corresponderia ao menor do triângulo, era garantido por obstáculos contra infantaria e fossas anti-tanques. Mais de cinco quilômetros de corredores e túneis interligavam os diversos postos. Como obra militar, era realmente impressionante (clique aqui e aqui, para algumas vistas da fortificação na atualidade); quando deveria ter sido ativada, em 10 de maio de 1940, não serviu para nada: uma companhia de tropas aeromóveis (85 efetivos), muito bem equipada, treinada e comandada, levou apenas algumas horas para dominar e render um efetivo dez vezes maior (1200 defensores). Ambos os lados não sabiam, mas estavam testemunhando o fim de uma era iniciada quinhentos anos antes, com o ocaso dos castelos e a difusão definitiva da arma de fogo::

Por sinal, uma boa história do assalto aero-terrestre a Eben-Emael pode ser lida no ótimo blog Memórias do Front – que aconselho para os que gostam particularmente da 2a Guerra Mundial::

Duas frases para pensar::Afinal, é sexta-feira::

O Führer está extremamente intrigado com a persistente falta de disposição da Grã-Bretanha em fazer a paz. Ele suspeita (como nós) que a resposta esteja nas esperanças que os reacionários ingleses depositam na Rússia e, portanto, espera, pela força, faze-los aceitar a paz. (Franz Halder, anotação de diário, 13 de julho de 1940)

Acho que não sabíamos o que esperar dos russos, mas quando a gente olhou bem para eles, podiam ser uma coisa ou outra, sabe? Se botar um uniforme americano neles, podiam ser americanos! (Al Aronson 69ª Infantaria, Exército dos EUA, abril de 1945)::

Cultura material militar::Walther PP::A arma do comandante James Bond::

Não é exagero dizer que o surgimento da Walther PP, em 1929, tornou todas as pistolas semi-automáticas existentes, se não obsoletas, no mínimo meio sem-graça. Essa arma lançou o conceito moderno de arma para defesa pessoal, incorporando todos os recursos que seriam padrão nas décadas seguintes. Causa:: como sempre faz o deleite de seus 21 leitores fanáticos por tecnologia militar::

 

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O engenheiro Carl Walther fundou, em 1886, na cidade de turingiana de Zella-Mehlis, a Waffenfabrik Walther. Depois de uns vinte anos produzindo armas de caça, na primeira década do século XX começou a fabricar de pequenas pistolas calibre 6,35mm e 7,65mm, ambos do padrão ACP. O que transformou suas armas num sucesso quase imediato foi a alta portabilidade: cabiam facilmente num bolso de calça. Mas não eram propriamente armas militares, mas pessoais, e se tornaram muito populares entre oficiais e graduados do Königswehr, o Exército Imperial.

Pode-se dizer que essa virada foi obra de Fritz Walther, filho de Carl. Fritz estava interessado em pistolas semi-automáticas. Ele se empenhou em convencer o pai de que aquele era o futuro das armas de fogo. Em 1908 a empresa apresentou o Model 1, primeira arma com aquela tecnologia.

Nesse momento, apesar da qualidade excepcional de seus produtos, eles em nada se diferenciavam daqueles comercializados pelas dezenas de outros produtores de armas que existiam na Alemanha na década de 1920. As armas militares e armas de caça tem de ter um grande “poder de parada” – a capacidade de derrubar o adversário. Ninguém sabia como determinar o “poder de parada” de uma arma, mas a experiência de campo (além de alguns experimentos bizarros) mostrava que calibres pequenos (pouca potência e baixo peso do projétil) provocavam pouco dano em uma pessoa, que assim podia ser controlada sem necessariamente ser morta. Esses se mostravam apropriados para tarefas policiais e defesa pessoal. Um deles era o .32 ACP (ou 7.65X17 mm), popular entre as polícias européias. Desenhado nos EUA por John M. Browning, foi utilizado pela Fabrique Nationale Herstal, da Bélgica, a partir de 1899. Seu baixo peso e pequeno porte permitiram o surgimento de uma série de armas semi-automáticas de “ação dupla” baseadas no princípio de “recuo curto do cano”, sistema idealizado no final do século XIX para armas militares.

Na Europa, desde princípio do século XX, as polícias vinham adotando armas semi-automáticas de calibres intermediários (principalmente o 7,65X17 mm e o .38 ACP – também conhecido como 9X17mm Short), em substituição aos revólveres de ação simples. Entretanto, as pistolas semi-automáticas disponíveis, apesar de relativamente leves, ainda eram consideradas canhestras e pouco confiáveis.

Finda a Grande Guerra, a Walther continuou no ramo, e lançou uma pistola – Model 8, calibre 6,35mm Browning – que incorporava um sistema bastante eficaz de desmontagem. Com a arma descarregada, o guarda-mato era puxado para baixo e para a esquerda. Liberado, o conjunto do ferrolho desloca-se para a frente, soltando a mola de recuperação. O cano, fixo ao chassi da arma, permanecia no lugar. A montagem implicava no procedimento inverso.

Esse foi o sistema adotado na walther-pp2Polizei Pistole, lançada em 1929. Mas a grande inovação trazida pelo modelo PP foi o sistema de “ação dupla” bem sucedido, aliado à uma trava de segurança muito eficaz, o que permitia que as PP fossem transportadas com um cartucho na câmara. Além disso, se distinguiam pelo desenho altamente funcional, muito compacto e fácil tanto de transportar quanto de usar. A PP pesava 660 gramas, tinha o cumprimento total de 17 cm, com o cano de 9,8 cm, com um cartucho na câmara e sete no carregador.

O enfoque da companhia na área de segurança era grande, e apenas dois anos depois, em 1931, era lançada a 200px-walther_ppk2PPK, significando Polizei Pistole Kurz (“curta”). Não considerando o peso de aproximadamente 520 gramas, comprimento de 15,5 cm (e uma carga a menos disponível – 1+6), a PPK era exatamente igual a sua antecessora, só que ainda mais fácil de portar – e esconder. O sucesso foi imediato.

Pouco antes da Segunda Guerra Mundial, a Walther ainda iria lançar outra arma curta destinada a tornar-se um clássico: a P-38. Essa, entretanto, era uma arma militar, projetada em torno do cartucho Parabellum, padrão na Wehrmacht. Os modelos PP e PPK continuaram a ser distribuídos entre as forças policiais e oficiais civis do Partido Nacional-Socialista. Adolf Hitler tinha uma, com a qual colocou fim à própria vida, em abril de 1945::

Um sistema de armas às terças::Atomic Annie::A bomba-A chega ao varejo::

Já que a bomba nuclear iraniana volta à baila, agora sob outra perspectiva (segundo agências de inteligência dos EUA, o Irã não estaria nem perto de conseguir um artefato nuclear…), vamos aproveitar para lembrar o arsenal nuclear também tem “primos pobres”, armas que foram concebidas, testadas, mas, mesmo bem sucedidas, foram relegadas a segundo plano pelos planejadores::

 

 

 

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As primeras bombas atômicas foram desenvolvidas pelos EUA, e tornadas operacionais em 1945. Em função de problemas industriais, sua fabricação foi, a princípio, lenta: a obtenção de matéria físsil era complicada e, sobretudo, muito cara, e não se mostrou suficiente para a fabricação de um número razoável de artefatos. Entre 1945 e 1947, as que foram sendo fabricadas foram reservadas para finalidades estratégicas, ou seja, que pudessem afetar a condução da guerra como um todo, e não o campo de batalha. Outra questão foi considerada: a detonação de explosivo nuclear suficiente para produzir uma explosão de potência equivalente a 20.000 toneladas de TNT (20 quilotons) bastou para arrasar uma cidade de 340.000 habitantes, matando aproximadamente 250.000 deles. A explosão atômica era incontrolável, e não podia ser aplicada de forma a produzir danos calculados. 

Essa não é uma questão pouco importante. Uma regra clássica do planejamento militar de campo diz que a força deve ser usada na medida necessária para submeter o adversário – independente de que medida for essa. A ampliação das dimensões do campo de batalha, observada na guerra moderna e particularmente a partir das duas guerras mundiais, obrigou mudanças no cálculo da aplicação de força necessária. Fatores antes não levados em consideração – como a capacidade econômica do adversário, sua infra-estrutura industrial e de comunicações – passaram a constituir parte importante do planejamento militar. Após o lançamento das bombas atômicas contra o Japão, o que ficou patente foi o fato de que cidades poderiam ser arrasadas muito rapidamente a um custo relativamente baixo. Depois da guerra, oficiais da Força Aérea do Exército dos EUA perceberam que efeitos semelhantes ao da bomba lançada contra Nagasaki exigiriam ataques aéreos envolvendo duzentos bombardeiros pesados durante vários dias, lançando principalmente bombas incendiárias. O explosivo atômico deveria, então, ter seu uso restrito ao campo de batalha estratégico, em função do custo de sua fabricação e dos efeitos que causava.

 Mas o fato é que, logo após o fim da Guerra, a URSS, apesar de economicamente arrasada, dispunha de um exército de dois milhões de efetivos, apoiados por 20.000 tanques e 20.000 canhões de campanha. Isso era suficiente para atravessar a Europa, até as margens do Canal, em dois dias. A superioridade ocidental em aeronaves táticas não chegava a compensar (a experiência dos nazistas e dos soviéticos, amplamente estudadas, tinha mostrado que aeronaves não eram eficazes contra concentrações de blindados bem protegidas por artilharia anti-aérea. A solução talvez fosse, no caso de invasão soviética, disponibilizar armamento nuclear para a defesa.

 

No final do ano de 1949, o Chefe do Equipamento de Artilharia (em inglês, Chief of Ordnance), de acordo com instruções recebidas do Chefe do Estado-maior do Exército, ordenou que fossem feitos estudos para que tubos de 280 mm do tipo M-65, que estavam em desenvolvimento, baseado em modelos alemães capturados, passassem por modificações, de modo a que pudessem disparar projéteis nucleares.

Nessa época, tanto os EUA quanto a URSS já estavam avançados em estudos teóricos para determinar se armas nucleares teriam utilidade no campo de batalha tático (na verdade, a URSS não tinha tido muito sucesso em seus testes nucleares e os EUA dispunham de cerca de 200 artefatos montados em bombas de queda livre). Desde a fase final da Segunda Guerra Mundial, o Exército dos EUA estabeleceu a necessidade de um sistema móvel de artilharia de longo alcance, capaz de atingir alvos estratégicos atrás das linhas inimigas (como centros de comunicações, posições fortificadas, posições inimigas de artilharia de longo alcance, e outros alvos dessa categoria). Pouco depois do fim da guerra, o Pentágono fez uma consulta em torno da possibilidade de artilharia pesada disparar projéteis nucleares, ao invés de grandes cargas de alto-explosivo (como TNT, por exemplo). A inexistência tanto de peças de artilharia para a função – os maiores calibres efetivamente disponíveis (155 mm e 203 mm) não eram adequados – quanto de um artefato nuclear pequeno o suficiente para ser colocado em uma granada de artilharia, atrasaram o desenvolvimento. Além do mais, diversos problemas teóricos e práticos inexistentes num artefato de queda livre, comprometiam o surgimento desse tipo de munição.

Mas não por muito tempo: a miniaturização de artefatos atômicos, tornada possível pela introdução do material denominado Oralloy como matéria físsil, resolveu o problema. O peso do artefato foi reduzido de algumas toneladas para algumas centenas de quilos e, em 1953 surgiu um artefato de aproximadamente 130 centímetros de comprimento, pesando uns 365 quilos, denominado W-9. Era do tipo “pistola”, o mesmo detonado sobre Hiroshima, e gerava uma explosão de potência equivalente. Depois de instalada em uma granada de artilharia, a coisa foi denominada AFAP (Artillery-Fired Atomic Projectil) MK-9. Era disparada por carga de propelente ensacada até uma distância máxima de uns 25 quilômetros, e detonava no ar, a uns 200 metros de altura.
Paralelamente foi desenvolvido o “canhão nuclear”. Tratava-se, de fato, de um tubo calibre 280 mm, assentado em um reparo de recuo hidropneumático de duplo êmbolo capaz de levantar o tubo até uma inclinação de 55 graus. O conjunto era fixado numa carreta de oito rodízios duplos, deslocada por dois tratores de artilharia, um rebocando e outro empurrando. O conjunto todo (tubo, reparo, carreta e tratores) pesava 75,5 toneladas. Não se sabe o motivo, mas a unidade de teste foi apelidada de Atomic Annie. Era, possivelmente, referência à uma peça de artilharia alemã similar que tinha infernizado a cabeça-de-praia de Anzio, e era chamada pelos infantes americanos atolados lá de Anzio Annie.

Em 1952 a geringonça estava pronta, mas a granada nuclear só ficou disponível no ano seguinte. Inicialmente, foram produzidas 80 unidades e o primeiro teste foi programado para o dia 25 de maio de 1953, na instalação militar denominada, na época, Las Vegas Bomb and Gunnery Range, campo de testes situado em Nevada, na localidade chamada Frenchman´s Flat. Era parte de um grande teste denominado Shot GRABLE, que envolvia diversas detonações na atmosfera, partindo de aviões e torres estáticas. Somente um projétil Mk-9 foi disparado nessa ocasião, sendo considerado um sucesso. Os especialistas que estudaram o sistema calcularam que uma detonação similar, em condições reais, poderia arrasar uma área de 10 quilômetros de diâmetro – dimensões maiores do que as do envelope de deslocamento de uma divisão blindada soviética. Esses mesmos especialista consideraram, entretanto, que a distância de 25 quilômetros era muito pequena para assegurar que as posições de defesa ficariam incólumes (de fato, disparar uma bomba atômica e sair inteiro sempre foi um problema…).

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O trabalho de desenvolvimento continuou e resultou no artefato W-19, disparado por um canhão de 280 mm modificado. O problema é que o sistema era canhestro, difícil de colocar em bateria e de esconder. Em 1963, o desenvolvimento do artefato W-48, com cerca de 85 centímetros de comprimento e pesando quase 58 quilos possibilitou o desenvolvimento da granada tipo AFAP  M-45, adequada para o uso pela peça-padrão da artilharia divisionária do Exército dos EUA, o Fieldhowitzer 155 mm. Outra vantagem da granada M-45 era o método de detonação do explosivo nuclear, que resultava numa explosão de menos de 0,1 quiloton (100 toneladas de TNT), totalmente adequada para uso tático.
O W-48 permaneceu em uso até 1968, sendo então substituído pela variante W-48-1. Pouco depois, uma nova versão, denominada W-74 foi projetada tendo em vista os novos canhões de 203 mm autopropulsados. Em 1978, toda a munição W-48, W-48-1 e W-74 foi recolhida, dando lugar à versão W-82, adequada às novas peças de artilharia tipo M-785, de 155 mm e capaz de gerar uma explosão de potência aproximada de 2 quilotons. Em 1983, o avanço das conversações SALT II interrompeu o desenvolvimento da artilharia nuclear.
Em 1991 os EUA recolheram definitivamente os projéteis atômicos, no que foi seguido pela Rússia em 1992. Calcula-se que, nessa época, houvesse nos arsenais por volta de 1500 granadas nucleares.
Em seguida, o filminho de sempre. Em geral, o redator sempre faz alguma gracinha com o conteúdo… Por algum motivo, desta vez, ele perdeu o senso de humor…::

 

 

 

 

Uma fortificação, posto que é segunda::Krak des Chevaliers::

Embora nós os conheçamos como casa da Bela Adormecida, castelos são fortificações. O nome vem do latim castrum (plural castra), construção ou parcela de terra usada para fins militares normalmente nas fronteiras do império.  O desenvolvimento dos castelos, desde a Alta Idade Média, é importante capítulo do desenvolvimento da arquitetura militar no Ocidente::(De fato, hoje é terça, mas… O redator tem outras atividades…)::

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O Krak des Chevaliers krak_chev1(“Fortaleza dos Cavaleiros”, sendo que a palavra krak vem do siriano karak, significando “forte”, ou “fortaleza”) é um castelo do final da Idade Média, quando esse tipo de fortificação tinha alcançado o auge. Situa-se a leste de Trípoli, no atual Líbano. Foi construído pela Ordem dos Cavaleiros Hospitalários, para a defesa da rota entre o principado de Antioquia e o condado de Beirute (estados latinos estabelecidos pelos cruzados) contra incursões dos islâmicos vindos do emirado de Damasco. Era o maior de uma rede de castelos que defendia os acessos ao Mediterrâneo. Composto por vários anéis concêntricos de muralhas de pedra, a primeira muralha cerca um segundo anel construído em volta da corte (habitação) central. As muralhas do anel interior eram mais altas do que as externas, para que os defensores sempre estivessem em vantagem devido a posição superior. Outras obras defensivas incluíam fossos, rampas íngremes, pontes levadiças, portões e grades de ferro. Os acessos eram projetados de tal forma que obrigavam uma possível formação invasora a ter de marchar lentamente, sem possibilidade de usar suas armas. Os Hospitalários resistiram aos árabes por mais de 100 anos, e entregaram o castelo em 1271, depois de um breve cerco de um grande exército muçulmano::

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Recordar é viver::Como o Ocidente constuma a tratar as nações árabes::

Agora que os EUA parecem dispostos a abrir negociações com Irã, e agora que Israel, desde sempre, vitupera tendo como fundo musical o tiroteio de suas armas de última geração (em boa parte financiadas pelos EUA), talvez algumas pessoas tenham a curiosidade aguçada por saber quais são os antecedentes históricos dessa situação. Já falamos alguma coisa em torno da Guerra dos Seis Dias, quando todos os problemas da região parecem ter começado. Digamos que começou uma espécie de “segundo capítulo” uma vez que Israel, então, conseguiu aquilo que os especialistas militares chamam de “vitória decisiva”. O primeiro capítulo começa em 1948, e o enredo apresenta a nação judia “lutando pela sobrevivência” contra vizinhos reconhecidos (ainda hoje, por grande parte da imprensa ocidental…) como odientos e incivilizados. Esse “primeiro capítulo” teve várias “cenas”. Escolhemos uma delas. Recordar é viver…::

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A descolonização do Império Britânico veio relativamente rápido após a Segunda Guerra Mundial. Em 1947 foi concedida a independência a Índia, ao Paquistão e a Birmânia; no ano seguinte, foi a vez do Ceilão. O processo não deixou de ser sangrento – milhões de hindus e mulçumanos foram massacrados em faxinas étnicas e nos subseqüentes deslocamentos populacionais -, mas a potência colonial em si recuou relativamente ilesa. Um levante comunista, na vizinha Malásia, no entanto, levou o governo britânico, em junho de 1948, a declarar um estado de emergência que só seria suspenso doze anos mais tarde, com a derrota dos rebeldes. Mas, de modo geral, e apesar da retirada de residentes e administradores coloniais da Índia e de países vizinhos, a saída da Grã-Bretanha do sul da Ásia foi menos traumática do que se poderia esperar.

No Oriente Médio, a situação foi mais complicada. No território da Palestina, sob mandato britânico, a Grã-Bretanha, em 1948, declinou de suas responsabilidades – ainda que sem grandes tribulações. No Iraque, Grã-Bretanha e EUA tinham interesses em comum, relacionados ao petróleo, mas, finda a guerra, os EUA, progressivamente  substituíram o Reino Unido na condição de potência dominante. Mas foi num país que jamais tinha sido colônia britânica onde a Grã-Bretanha, paradoxalmente, vivenciou todas as ironias dramas da descolonização, colhendo, como “cereja do bolo”, uma derrota acachapante: o Egito. Essa história toda se passou ao longo de alguns anos, entre 1954 e 1956, e recebeu o nome de “Crise do Canal de Suez”. Foi quando a Grã-Bretanha, pela primeira vez, passou por um tipo de humilhação internacional que já era bem conhecida pelos franceses.

O interesse britânico no Egito tinha dois nomes (talvez “tags”, como dizemos nesses blogues…): subcontinente indiano e necessidade de petróleo. Os britânicos tomaram o Cairo em 1882, em plena época de ouro do imperialismo, treze anos depois da abertura do Canal de Suez. Até a Primeira Guerra Mundial, o Egito foi comandado, de fato, por um residente britânico (durante a maior parte do período o temível lorde Cromer). De 1914 a 1922, o Egito foi protetorado britânico, antes de se tornar independente. As relações entre os dois países permaneceram estáveis, por algum tempo, sendo formalizadas através de um tratado em 1936. Todavia, em outubro de 1952, o novo governo do Cairo revogou o referido tratado. Em resposta, os britânicos, receosos de perder o acesso privilegiado a um curso de água, estrategicamente crucial, reocuparam a Zona do Canal.

Dois anos depois, o então tenente-coronel Gamal Abdel Nasser, tornou-se chefe de governo e passou a exigir a retirada dos britânicos do Egito. Cada vez mais dependente do petróleo barato e pago em libras, transportado através do Canal , os britânicos tentaram transigir. Conforme Anthony Eden, então ministro das Relações Exteriores, advertiu em fevereiro de 1953, ao Conselho Ministerial Britânico, “a ocupação militar pode ser mantida à força, mas, no caso do Egito, a base que apóia tal ocupação será de pouca utilidade, se não houver mão-de-obra local que a sustente.”

O resultado foi que, em outubro de 1954, Londres assinou um acordo para evacuar a base militar de Suez em dois anos. Mas o acordo previa que a presença militar britânica no Egito poderia ser retomada caso seus interesses na região fossem ameaçados. O acordo foi cumprido e em 13 de junho de 1956 os últimos soldados britânicos deixaram Suez. Aquela altura, o Nasser já se tornava um problema. Seu carisma funcionava como um imã para os radicais árabes da região. Como se isto já não fosse suficiente, apareceram os soviéticos: em setembro de 1955, o Egito anunciou uma grande transação de armas com a Tchecoslováquia, satélite da URSS. Eden e seus assessores começaram a comparar Nasser a Hitler: uma ameaça diante que era preciso enfrentar, e não se curvar. Paris tinha a mesma visão, embora a insatisfação francesa tivesse motivos diversos: Nasser era um a influência negativa sobre os súditos franceses do norte da África. Os americanos também não nutriam nenhuma simpatia pelo presidente do Egito. Durante uma reunião com Tito, na Iugoslávia, em julho de 1956, Nasser lançou uma declaração de “não-alinhamento”, explicitamente declarando o Egito independente do Ocidente. Os norte-americanos sentiram-se ofendidos,e interromperam as conversações sobre o financiamento para a represa de Assuan, a ser construída no Nilo. Uma semana depois, Nasser nacionalizou a Companhia do Canal de Suez. O motivo é fácil de entender: o Canal era em território egípcio, porém a maior parte das receitas recolhidas nele destinava-se à companhia de capital estrangeiro com sede em Londres. A reação das potências ocidentais foi o estabelecimento de uma frente, convocando uma reunião em Londres para decidir a resposta a Nasser. Realizada em 23 de agosto, dela resultou um “plano”, a ser apresentado ao governo egípcio pelo primeiro-ministro australiano Robert Menzies, um liberal extremamente pró-britânico e pró-ocidental (em seu segundo período d governo, a Austrália envolveu-se na Guerra do Vietnam). Todos pareciam esperar que a proposta fosse rejeitada, como de fato, foi. Os delegados que haviam comparecido ao encontro em Londres voltaram a se reunir entre 19 e 21 de setembro, e criaram a Associação dos Usuários do Canal de Suez. Nesse ínterim os britânicos anunciaram que encaminhariam a disputa à plenária das Nações Unidas.

Até aquela altura os britânicos procuravam alinhar sua reação às posições de Washington, mas suspeitavam, desde antes da Segunda Guerra, das motivações  norte-americanas quanto à região e ao império, como um todo. Era crença corrente em Londres que Washington pretendia substituir a Grã-Bretanha no Oriente Médio, e a retórica norte-americana sobre a “autodeterminação dos povos” e o “livre comércio” era interpretada pelos britânicos como recurso para seduzir elites locais. Ainda assim as relações entre os dois países mantinham-se, de modo geral, boas. A dinâmica da Guerra Fria encobria os ressentimentos mútuos e os britânicos achavam que a conversa de Eisenhower sobre um “excesso de preocupação com Nasser” era retórica para o público externo mas, na hora do “ora, veja”, poderiam contar com a simpatia dos EUA.

Foi nesse contexto que o primeiro-ministro britânico  resolveu dar uma lição no egípcio mal-comportado. Até então, a ONU vinha sendo vista como fórum para discussão da questão, e tanto britânicos como franceses levavam a suas querelas à Assembléia Geral. Mas de fato as duas potências não queriam uma solução diplomática – consideravam a organização internacional morosa, pouco enérgica e incapaz de entender os interesses dos dois países. O governo britânico então, deu início a conversações secretas com a França, para buscar uma solução militar conjunta: a invasão do Egito. Em 21 de outubro, os planos foram ampliados com a inclusão dos israelenses. Estes tinham interesses bastante claros: uma linha precária de cessar-fogo tinha sido estabelecida entre Egito e Israel, em fevereiro de 1949, através de um armistício. Ambos os lados, entretanto, a consideravam inaceitável, e as hostilidades eram freqüentes principalmente na região de Gaza. Desde julho de 1951 os egípcios bloqueavam o golfo de Aqaba, restringindo o comércio e a locomoção dos israelenses. Israel pretendia reduzir a esfera de ação de Nasser e garantir os interesses territoriais e de segurança nacional do país, no Sinai e nas áreas circunvizinhas. O grupo reunido secretamente chegou a um acordo. Israel atacaria o exército egípcio no Sinai, avançando para ocupar toda a península, inclusive o Canal de Suez, no limite ocidental. Franceses e britânicos expediriam um ultimato, exigindo que os dois lados recuassem e então, comoforças neutras, em nome da comunidade internacional, atacariam o Egito. A ofensiva começaria pelo ar e continuaria por mar. Assumiriam o controle do Canal, sob a alegação de que o Egito não tinha competêcia para controlar um recurso tão importante. O plano foi mantido em absoluto segredo. A princípio, tudo pareceu correr bem. Em 29 de outubro, as forças israelenses avançaram pelo Sinai. Ao mesmo tempo, de Malta, uma força tarefa britânica que incluía dois navios-aeródromos e forças aeromóveis zarpou em direção ao Egito. A agressão israelense foi levada ao Conselho de Segurança em 30 de outubro, e, no dia seguinte, Grã-Bretanha e França vetaram uma moção que determinava o recuo de Israel. Ao mesmo tempo, expediram ultimato conjunto aos beligerantes, exigindo que  cessassem as hostilidades e aceitassem a ocupação militar anglo-francesa da Zona do Canal. No outro dia, aviões britânicos e franceses atacaram campos de aviação egípcios. Em 48 horas os israelenses concluíram a ocupação do Sinai e de Gaza, ignorando a determinação de cessar-fogo expedida pela Assembléia Geral da ONU. Por sua vez, os egípcios afundaram navios no Canal de Suez, impedindo qualquer navegação. Dois dias depois, em 5 de novembro, as primeiras tropas anglo-francesas de infantaria desembarcaram na região. Aí as coisas então começaram a dar errado. A resistência egípcia foi maior do que o esperado, e apesar dos ataques aéreos vindos de três direções, aeronaves egípcias, provavelmente pilotadas por soviéticos e tcheco-eslovacos, teimavam em contra-atacar. Para piorar, os israelenses não conseguiram alcançar todos os objetivos propostos. A coisa acabou de azedar depois de 6 de novembro, quando Eisenhower foi reeleito presidente dos EUA. Não demorou dois dias para que Washington reagisse com indignação inesperada, e declarasse a operação anglo-franco-israelense como uma conspiração. Londres e Paris haviam intencionalmente violado a carta e o espírito da Declaração Tripartite de 1950, tratado que comprometia Grã-Bretanha, França e EUA a agirem contra o agressor, na eventualidade de qualquer conflito entre Israel e os árabes. Os EUA passaram a exercer dura pressão sobre os britânicos, exigindo que  sustassem a invasão do Egito. Para desgosto dos britânicos, chegaram a ameaçar suspender o apoio a libra esterlina. Uma eventual desvalorização de sua moeda os britânicos não poderiam encarar, pois traria conseqüências internas e possivelmente derrubaria o governo.  Eden teve de ceder e em 7 de novembro, apenas dois dias após a descida de tropas aero-transportadas britânicas em Port Said, as hostilidades cessaram. No mesmo dia, a ONU autorizou o embarque de uma Força de Paz para o Egito, aceita por Nasser, em 12 de novembro, desde que a soberania egípcia não fosse violada. Três dias depois, a Força de Paz da ONU chegou ao Egito, e em 4 de dezembro avançou para o Sinai. Lá permaneceria durante 10 anos.

O Brasil integrou, ao longo desse tempo, a Força de Emergência das Nações Unidas, com o 3° Batalhão do 2º Regimento de Iinfantaria, cuja base ficava na Vila Militar, Rio de Janeiro. A unidade integrava a 1ª Força de Emergência das Nações Unidas (UNEF 1). Foi a primeira experiência das Forças Armadas brasileiras em uma missão de paz da ONU. O batalhão, que, pelas regras da organização, não tinha armamento pesado, ficou baseado na Faixa de Gaza, entre 1957 e 1967. Sua missão era patrulhar a linha de cessar-fogo, monitorando o trânsito de pessoas e equipamentos. Era  integrado por aproximadamente 600 efetivos, que se revezavam em períodos de aproximadamente 6 meses. Passaram por Suez uns 6.000 oficiais e praças brasileiros. O Brasil exerceu o comando operacional da UNEF 1 em duas oportunidades: de janeiro a agosto de 1964, com o general-de-brigada Carlos Paiva Chaves, e de janeiro de 1965 a janeiro de 1966, com o general-de-divisão Sizeno Sarmento::