Recordar é viver::Como o Ocidente constuma a tratar as nações árabes::


Agora que os EUA parecem dispostos a abrir negociações com Irã, e agora que Israel, desde sempre, vitupera tendo como fundo musical o tiroteio de suas armas de última geração (em boa parte financiadas pelos EUA), talvez algumas pessoas tenham a curiosidade aguçada por saber quais são os antecedentes históricos dessa situação. Já falamos alguma coisa em torno da Guerra dos Seis Dias, quando todos os problemas da região parecem ter começado. Digamos que começou uma espécie de “segundo capítulo” uma vez que Israel, então, conseguiu aquilo que os especialistas militares chamam de “vitória decisiva”. O primeiro capítulo começa em 1948, e o enredo apresenta a nação judia “lutando pela sobrevivência” contra vizinhos reconhecidos (ainda hoje, por grande parte da imprensa ocidental…) como odientos e incivilizados. Esse “primeiro capítulo” teve várias “cenas”. Escolhemos uma delas. Recordar é viver…::

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A descolonização do Império Britânico veio relativamente rápido após a Segunda Guerra Mundial. Em 1947 foi concedida a independência a Índia, ao Paquistão e a Birmânia; no ano seguinte, foi a vez do Ceilão. O processo não deixou de ser sangrento – milhões de hindus e mulçumanos foram massacrados em faxinas étnicas e nos subseqüentes deslocamentos populacionais -, mas a potência colonial em si recuou relativamente ilesa. Um levante comunista, na vizinha Malásia, no entanto, levou o governo britânico, em junho de 1948, a declarar um estado de emergência que só seria suspenso doze anos mais tarde, com a derrota dos rebeldes. Mas, de modo geral, e apesar da retirada de residentes e administradores coloniais da Índia e de países vizinhos, a saída da Grã-Bretanha do sul da Ásia foi menos traumática do que se poderia esperar.

No Oriente Médio, a situação foi mais complicada. No território da Palestina, sob mandato britânico, a Grã-Bretanha, em 1948, declinou de suas responsabilidades – ainda que sem grandes tribulações. No Iraque, Grã-Bretanha e EUA tinham interesses em comum, relacionados ao petróleo, mas, finda a guerra, os EUA, progressivamente  substituíram o Reino Unido na condição de potência dominante. Mas foi num país que jamais tinha sido colônia britânica onde a Grã-Bretanha, paradoxalmente, vivenciou todas as ironias dramas da descolonização, colhendo, como “cereja do bolo”, uma derrota acachapante: o Egito. Essa história toda se passou ao longo de alguns anos, entre 1954 e 1956, e recebeu o nome de “Crise do Canal de Suez”. Foi quando a Grã-Bretanha, pela primeira vez, passou por um tipo de humilhação internacional que já era bem conhecida pelos franceses.

O interesse britânico no Egito tinha dois nomes (talvez “tags”, como dizemos nesses blogues…): subcontinente indiano e necessidade de petróleo. Os britânicos tomaram o Cairo em 1882, em plena época de ouro do imperialismo, treze anos depois da abertura do Canal de Suez. Até a Primeira Guerra Mundial, o Egito foi comandado, de fato, por um residente britânico (durante a maior parte do período o temível lorde Cromer). De 1914 a 1922, o Egito foi protetorado britânico, antes de se tornar independente. As relações entre os dois países permaneceram estáveis, por algum tempo, sendo formalizadas através de um tratado em 1936. Todavia, em outubro de 1952, o novo governo do Cairo revogou o referido tratado. Em resposta, os britânicos, receosos de perder o acesso privilegiado a um curso de água, estrategicamente crucial, reocuparam a Zona do Canal.

Dois anos depois, o então tenente-coronel Gamal Abdel Nasser, tornou-se chefe de governo e passou a exigir a retirada dos britânicos do Egito. Cada vez mais dependente do petróleo barato e pago em libras, transportado através do Canal , os britânicos tentaram transigir. Conforme Anthony Eden, então ministro das Relações Exteriores, advertiu em fevereiro de 1953, ao Conselho Ministerial Britânico, “a ocupação militar pode ser mantida à força, mas, no caso do Egito, a base que apóia tal ocupação será de pouca utilidade, se não houver mão-de-obra local que a sustente.”

O resultado foi que, em outubro de 1954, Londres assinou um acordo para evacuar a base militar de Suez em dois anos. Mas o acordo previa que a presença militar britânica no Egito poderia ser retomada caso seus interesses na região fossem ameaçados. O acordo foi cumprido e em 13 de junho de 1956 os últimos soldados britânicos deixaram Suez. Aquela altura, o Nasser já se tornava um problema. Seu carisma funcionava como um imã para os radicais árabes da região. Como se isto já não fosse suficiente, apareceram os soviéticos: em setembro de 1955, o Egito anunciou uma grande transação de armas com a Tchecoslováquia, satélite da URSS. Eden e seus assessores começaram a comparar Nasser a Hitler: uma ameaça diante que era preciso enfrentar, e não se curvar. Paris tinha a mesma visão, embora a insatisfação francesa tivesse motivos diversos: Nasser era um a influência negativa sobre os súditos franceses do norte da África. Os americanos também não nutriam nenhuma simpatia pelo presidente do Egito. Durante uma reunião com Tito, na Iugoslávia, em julho de 1956, Nasser lançou uma declaração de “não-alinhamento”, explicitamente declarando o Egito independente do Ocidente. Os norte-americanos sentiram-se ofendidos,e interromperam as conversações sobre o financiamento para a represa de Assuan, a ser construída no Nilo. Uma semana depois, Nasser nacionalizou a Companhia do Canal de Suez. O motivo é fácil de entender: o Canal era em território egípcio, porém a maior parte das receitas recolhidas nele destinava-se à companhia de capital estrangeiro com sede em Londres. A reação das potências ocidentais foi o estabelecimento de uma frente, convocando uma reunião em Londres para decidir a resposta a Nasser. Realizada em 23 de agosto, dela resultou um “plano”, a ser apresentado ao governo egípcio pelo primeiro-ministro australiano Robert Menzies, um liberal extremamente pró-britânico e pró-ocidental (em seu segundo período d governo, a Austrália envolveu-se na Guerra do Vietnam). Todos pareciam esperar que a proposta fosse rejeitada, como de fato, foi. Os delegados que haviam comparecido ao encontro em Londres voltaram a se reunir entre 19 e 21 de setembro, e criaram a Associação dos Usuários do Canal de Suez. Nesse ínterim os britânicos anunciaram que encaminhariam a disputa à plenária das Nações Unidas.

Até aquela altura os britânicos procuravam alinhar sua reação às posições de Washington, mas suspeitavam, desde antes da Segunda Guerra, das motivações  norte-americanas quanto à região e ao império, como um todo. Era crença corrente em Londres que Washington pretendia substituir a Grã-Bretanha no Oriente Médio, e a retórica norte-americana sobre a “autodeterminação dos povos” e o “livre comércio” era interpretada pelos britânicos como recurso para seduzir elites locais. Ainda assim as relações entre os dois países mantinham-se, de modo geral, boas. A dinâmica da Guerra Fria encobria os ressentimentos mútuos e os britânicos achavam que a conversa de Eisenhower sobre um “excesso de preocupação com Nasser” era retórica para o público externo mas, na hora do “ora, veja”, poderiam contar com a simpatia dos EUA.

Foi nesse contexto que o primeiro-ministro britânico  resolveu dar uma lição no egípcio mal-comportado. Até então, a ONU vinha sendo vista como fórum para discussão da questão, e tanto britânicos como franceses levavam a suas querelas à Assembléia Geral. Mas de fato as duas potências não queriam uma solução diplomática – consideravam a organização internacional morosa, pouco enérgica e incapaz de entender os interesses dos dois países. O governo britânico então, deu início a conversações secretas com a França, para buscar uma solução militar conjunta: a invasão do Egito. Em 21 de outubro, os planos foram ampliados com a inclusão dos israelenses. Estes tinham interesses bastante claros: uma linha precária de cessar-fogo tinha sido estabelecida entre Egito e Israel, em fevereiro de 1949, através de um armistício. Ambos os lados, entretanto, a consideravam inaceitável, e as hostilidades eram freqüentes principalmente na região de Gaza. Desde julho de 1951 os egípcios bloqueavam o golfo de Aqaba, restringindo o comércio e a locomoção dos israelenses. Israel pretendia reduzir a esfera de ação de Nasser e garantir os interesses territoriais e de segurança nacional do país, no Sinai e nas áreas circunvizinhas. O grupo reunido secretamente chegou a um acordo. Israel atacaria o exército egípcio no Sinai, avançando para ocupar toda a península, inclusive o Canal de Suez, no limite ocidental. Franceses e britânicos expediriam um ultimato, exigindo que os dois lados recuassem e então, comoforças neutras, em nome da comunidade internacional, atacariam o Egito. A ofensiva começaria pelo ar e continuaria por mar. Assumiriam o controle do Canal, sob a alegação de que o Egito não tinha competêcia para controlar um recurso tão importante. O plano foi mantido em absoluto segredo. A princípio, tudo pareceu correr bem. Em 29 de outubro, as forças israelenses avançaram pelo Sinai. Ao mesmo tempo, de Malta, uma força tarefa britânica que incluía dois navios-aeródromos e forças aeromóveis zarpou em direção ao Egito. A agressão israelense foi levada ao Conselho de Segurança em 30 de outubro, e, no dia seguinte, Grã-Bretanha e França vetaram uma moção que determinava o recuo de Israel. Ao mesmo tempo, expediram ultimato conjunto aos beligerantes, exigindo que  cessassem as hostilidades e aceitassem a ocupação militar anglo-francesa da Zona do Canal. No outro dia, aviões britânicos e franceses atacaram campos de aviação egípcios. Em 48 horas os israelenses concluíram a ocupação do Sinai e de Gaza, ignorando a determinação de cessar-fogo expedida pela Assembléia Geral da ONU. Por sua vez, os egípcios afundaram navios no Canal de Suez, impedindo qualquer navegação. Dois dias depois, em 5 de novembro, as primeiras tropas anglo-francesas de infantaria desembarcaram na região. Aí as coisas então começaram a dar errado. A resistência egípcia foi maior do que o esperado, e apesar dos ataques aéreos vindos de três direções, aeronaves egípcias, provavelmente pilotadas por soviéticos e tcheco-eslovacos, teimavam em contra-atacar. Para piorar, os israelenses não conseguiram alcançar todos os objetivos propostos. A coisa acabou de azedar depois de 6 de novembro, quando Eisenhower foi reeleito presidente dos EUA. Não demorou dois dias para que Washington reagisse com indignação inesperada, e declarasse a operação anglo-franco-israelense como uma conspiração. Londres e Paris haviam intencionalmente violado a carta e o espírito da Declaração Tripartite de 1950, tratado que comprometia Grã-Bretanha, França e EUA a agirem contra o agressor, na eventualidade de qualquer conflito entre Israel e os árabes. Os EUA passaram a exercer dura pressão sobre os britânicos, exigindo que  sustassem a invasão do Egito. Para desgosto dos britânicos, chegaram a ameaçar suspender o apoio a libra esterlina. Uma eventual desvalorização de sua moeda os britânicos não poderiam encarar, pois traria conseqüências internas e possivelmente derrubaria o governo.  Eden teve de ceder e em 7 de novembro, apenas dois dias após a descida de tropas aero-transportadas britânicas em Port Said, as hostilidades cessaram. No mesmo dia, a ONU autorizou o embarque de uma Força de Paz para o Egito, aceita por Nasser, em 12 de novembro, desde que a soberania egípcia não fosse violada. Três dias depois, a Força de Paz da ONU chegou ao Egito, e em 4 de dezembro avançou para o Sinai. Lá permaneceria durante 10 anos.

O Brasil integrou, ao longo desse tempo, a Força de Emergência das Nações Unidas, com o 3° Batalhão do 2º Regimento de Iinfantaria, cuja base ficava na Vila Militar, Rio de Janeiro. A unidade integrava a 1ª Força de Emergência das Nações Unidas (UNEF 1). Foi a primeira experiência das Forças Armadas brasileiras em uma missão de paz da ONU. O batalhão, que, pelas regras da organização, não tinha armamento pesado, ficou baseado na Faixa de Gaza, entre 1957 e 1967. Sua missão era patrulhar a linha de cessar-fogo, monitorando o trânsito de pessoas e equipamentos. Era  integrado por aproximadamente 600 efetivos, que se revezavam em períodos de aproximadamente 6 meses. Passaram por Suez uns 6.000 oficiais e praças brasileiros. O Brasil exerceu o comando operacional da UNEF 1 em duas oportunidades: de janeiro a agosto de 1964, com o general-de-brigada Carlos Paiva Chaves, e de janeiro de 1965 a janeiro de 1966, com o general-de-divisão Sizeno Sarmento::

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2 pensamentos sobre “Recordar é viver::Como o Ocidente constuma a tratar as nações árabes::

  1. bitt,

    Uma aula! Realmente aprendi, ainda que sempre fique perplexa com as justificativas de bolso de colete, usadas até hoje, quando se passaram tantos anos. E, sim, é melancólico observar o fato de Israel, potência militar que é, seguidamente arguir o lema do povo “vítima”.

    Não sei sobre o fôlego desse tipo de discurso, mas suspeito de que ele venha sendo cada vez mais relativizado, como convém, aliás.

    Temos que lidar com problemas contemporâneos, embora sem esquecer jamais, as matanças que ocorreram no passado.

    O fato é que o passado não pode servir de salvo-conduto para a execução de políticas assassinas. Só isso.

    • Mas não é?.. A diferença, me parece, é q na época, de fato, Israel tinha mns influência dos gpos religiosos fundamentalistas. Agora, é interessante como boa parte da imprensa é comprometida com Israel. Será pq parte considerável do gde capital internacional é controlado por judeus?

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