Um sistema de armas às terças::Atomic Annie::A bomba-A chega ao varejo::


Já que a bomba nuclear iraniana volta à baila, agora sob outra perspectiva (segundo agências de inteligência dos EUA, o Irã não estaria nem perto de conseguir um artefato nuclear…), vamos aproveitar para lembrar o arsenal nuclear também tem “primos pobres”, armas que foram concebidas, testadas, mas, mesmo bem sucedidas, foram relegadas a segundo plano pelos planejadores::

 

 

 

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As primeras bombas atômicas foram desenvolvidas pelos EUA, e tornadas operacionais em 1945. Em função de problemas industriais, sua fabricação foi, a princípio, lenta: a obtenção de matéria físsil era complicada e, sobretudo, muito cara, e não se mostrou suficiente para a fabricação de um número razoável de artefatos. Entre 1945 e 1947, as que foram sendo fabricadas foram reservadas para finalidades estratégicas, ou seja, que pudessem afetar a condução da guerra como um todo, e não o campo de batalha. Outra questão foi considerada: a detonação de explosivo nuclear suficiente para produzir uma explosão de potência equivalente a 20.000 toneladas de TNT (20 quilotons) bastou para arrasar uma cidade de 340.000 habitantes, matando aproximadamente 250.000 deles. A explosão atômica era incontrolável, e não podia ser aplicada de forma a produzir danos calculados. 

Essa não é uma questão pouco importante. Uma regra clássica do planejamento militar de campo diz que a força deve ser usada na medida necessária para submeter o adversário – independente de que medida for essa. A ampliação das dimensões do campo de batalha, observada na guerra moderna e particularmente a partir das duas guerras mundiais, obrigou mudanças no cálculo da aplicação de força necessária. Fatores antes não levados em consideração – como a capacidade econômica do adversário, sua infra-estrutura industrial e de comunicações – passaram a constituir parte importante do planejamento militar. Após o lançamento das bombas atômicas contra o Japão, o que ficou patente foi o fato de que cidades poderiam ser arrasadas muito rapidamente a um custo relativamente baixo. Depois da guerra, oficiais da Força Aérea do Exército dos EUA perceberam que efeitos semelhantes ao da bomba lançada contra Nagasaki exigiriam ataques aéreos envolvendo duzentos bombardeiros pesados durante vários dias, lançando principalmente bombas incendiárias. O explosivo atômico deveria, então, ter seu uso restrito ao campo de batalha estratégico, em função do custo de sua fabricação e dos efeitos que causava.

 Mas o fato é que, logo após o fim da Guerra, a URSS, apesar de economicamente arrasada, dispunha de um exército de dois milhões de efetivos, apoiados por 20.000 tanques e 20.000 canhões de campanha. Isso era suficiente para atravessar a Europa, até as margens do Canal, em dois dias. A superioridade ocidental em aeronaves táticas não chegava a compensar (a experiência dos nazistas e dos soviéticos, amplamente estudadas, tinha mostrado que aeronaves não eram eficazes contra concentrações de blindados bem protegidas por artilharia anti-aérea. A solução talvez fosse, no caso de invasão soviética, disponibilizar armamento nuclear para a defesa.

 

No final do ano de 1949, o Chefe do Equipamento de Artilharia (em inglês, Chief of Ordnance), de acordo com instruções recebidas do Chefe do Estado-maior do Exército, ordenou que fossem feitos estudos para que tubos de 280 mm do tipo M-65, que estavam em desenvolvimento, baseado em modelos alemães capturados, passassem por modificações, de modo a que pudessem disparar projéteis nucleares.

Nessa época, tanto os EUA quanto a URSS já estavam avançados em estudos teóricos para determinar se armas nucleares teriam utilidade no campo de batalha tático (na verdade, a URSS não tinha tido muito sucesso em seus testes nucleares e os EUA dispunham de cerca de 200 artefatos montados em bombas de queda livre). Desde a fase final da Segunda Guerra Mundial, o Exército dos EUA estabeleceu a necessidade de um sistema móvel de artilharia de longo alcance, capaz de atingir alvos estratégicos atrás das linhas inimigas (como centros de comunicações, posições fortificadas, posições inimigas de artilharia de longo alcance, e outros alvos dessa categoria). Pouco depois do fim da guerra, o Pentágono fez uma consulta em torno da possibilidade de artilharia pesada disparar projéteis nucleares, ao invés de grandes cargas de alto-explosivo (como TNT, por exemplo). A inexistência tanto de peças de artilharia para a função – os maiores calibres efetivamente disponíveis (155 mm e 203 mm) não eram adequados – quanto de um artefato nuclear pequeno o suficiente para ser colocado em uma granada de artilharia, atrasaram o desenvolvimento. Além do mais, diversos problemas teóricos e práticos inexistentes num artefato de queda livre, comprometiam o surgimento desse tipo de munição.

Mas não por muito tempo: a miniaturização de artefatos atômicos, tornada possível pela introdução do material denominado Oralloy como matéria físsil, resolveu o problema. O peso do artefato foi reduzido de algumas toneladas para algumas centenas de quilos e, em 1953 surgiu um artefato de aproximadamente 130 centímetros de comprimento, pesando uns 365 quilos, denominado W-9. Era do tipo “pistola”, o mesmo detonado sobre Hiroshima, e gerava uma explosão de potência equivalente. Depois de instalada em uma granada de artilharia, a coisa foi denominada AFAP (Artillery-Fired Atomic Projectil) MK-9. Era disparada por carga de propelente ensacada até uma distância máxima de uns 25 quilômetros, e detonava no ar, a uns 200 metros de altura.
Paralelamente foi desenvolvido o “canhão nuclear”. Tratava-se, de fato, de um tubo calibre 280 mm, assentado em um reparo de recuo hidropneumático de duplo êmbolo capaz de levantar o tubo até uma inclinação de 55 graus. O conjunto era fixado numa carreta de oito rodízios duplos, deslocada por dois tratores de artilharia, um rebocando e outro empurrando. O conjunto todo (tubo, reparo, carreta e tratores) pesava 75,5 toneladas. Não se sabe o motivo, mas a unidade de teste foi apelidada de Atomic Annie. Era, possivelmente, referência à uma peça de artilharia alemã similar que tinha infernizado a cabeça-de-praia de Anzio, e era chamada pelos infantes americanos atolados lá de Anzio Annie.

Em 1952 a geringonça estava pronta, mas a granada nuclear só ficou disponível no ano seguinte. Inicialmente, foram produzidas 80 unidades e o primeiro teste foi programado para o dia 25 de maio de 1953, na instalação militar denominada, na época, Las Vegas Bomb and Gunnery Range, campo de testes situado em Nevada, na localidade chamada Frenchman´s Flat. Era parte de um grande teste denominado Shot GRABLE, que envolvia diversas detonações na atmosfera, partindo de aviões e torres estáticas. Somente um projétil Mk-9 foi disparado nessa ocasião, sendo considerado um sucesso. Os especialistas que estudaram o sistema calcularam que uma detonação similar, em condições reais, poderia arrasar uma área de 10 quilômetros de diâmetro – dimensões maiores do que as do envelope de deslocamento de uma divisão blindada soviética. Esses mesmos especialista consideraram, entretanto, que a distância de 25 quilômetros era muito pequena para assegurar que as posições de defesa ficariam incólumes (de fato, disparar uma bomba atômica e sair inteiro sempre foi um problema…).

atomannie

O trabalho de desenvolvimento continuou e resultou no artefato W-19, disparado por um canhão de 280 mm modificado. O problema é que o sistema era canhestro, difícil de colocar em bateria e de esconder. Em 1963, o desenvolvimento do artefato W-48, com cerca de 85 centímetros de comprimento e pesando quase 58 quilos possibilitou o desenvolvimento da granada tipo AFAP  M-45, adequada para o uso pela peça-padrão da artilharia divisionária do Exército dos EUA, o Fieldhowitzer 155 mm. Outra vantagem da granada M-45 era o método de detonação do explosivo nuclear, que resultava numa explosão de menos de 0,1 quiloton (100 toneladas de TNT), totalmente adequada para uso tático.
O W-48 permaneceu em uso até 1968, sendo então substituído pela variante W-48-1. Pouco depois, uma nova versão, denominada W-74 foi projetada tendo em vista os novos canhões de 203 mm autopropulsados. Em 1978, toda a munição W-48, W-48-1 e W-74 foi recolhida, dando lugar à versão W-82, adequada às novas peças de artilharia tipo M-785, de 155 mm e capaz de gerar uma explosão de potência aproximada de 2 quilotons. Em 1983, o avanço das conversações SALT II interrompeu o desenvolvimento da artilharia nuclear.
Em 1991 os EUA recolheram definitivamente os projéteis atômicos, no que foi seguido pela Rússia em 1992. Calcula-se que, nessa época, houvesse nos arsenais por volta de 1500 granadas nucleares.
Em seguida, o filminho de sempre. Em geral, o redator sempre faz alguma gracinha com o conteúdo… Por algum motivo, desta vez, ele perdeu o senso de humor…::

 

 

 

 

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2 pensamentos sobre “Um sistema de armas às terças::Atomic Annie::A bomba-A chega ao varejo::

  1. (segundo agências de inteligência dos EUA, o Irã não estaria nem perto de conseguir um artefato nuclear…)

    Bitt, acho que você não está atualizado, essa idéia foi revisada, aliás pelo próprio governo Obama…

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