Cultura Material Militar::Bete Marrom, a amiga dos Casacos Vermelhos::


Fábricas de armas e operários especializados são coisas de nossa modernidade, e nossa modernidade começou a ser gerada com a ascensão do capitalismo e com a Revolução Industrial. Até então, desde a Idade Média, o armeiro era o artesão especialista na fabricação de armas e acessórios. Ele dominava todo o processo e somente tratava de aperfeiçoar seu produto quando achava necessário ou quando lhe pediam. E todos pareciam pensar que uma boa arma não precisava de melhoramentos: uma vez pronta e aprovada, os auxiliares e aprendizes podiam dar conta da fabricação de cópias, usando os materiais, modelos e métodos estabelecidos pelo mestre-armeiro.

Um caso exemplar desse tipo de prática, consolidada pela tradição, é o do mosquete Tower, que se tornou o armamento padrão das forças militares inglesas no início do século XVIII, tornando-se amplamente conhecido como Brown Bess – “Bete Marrom”.

“Bete” era um mosquete de pederneira, ou seja, uma arma de fogo longa, carregada pela boca. As armas de fogo portáteis apareceram por volta de final do século XV. Evoluíram muito lentamente, já que melhoramentos só poderiam ser introduzidos caso melhores materiais e melhores máquinas fossem colocados à disposição dos armeiros.

Por volta de 1680, o exército inglês estava muito mal equipado. O rei Guilherme III ordenou, então, que as tropas recebessem mosquetes de pederneira, equipamento já disponível, capaz de disparar muito mais rápido do que os arcabuzes de mecha. Os armeiros londrinos foram incapazes de suprir a quantidade necessária. Foram ,então, enviadas amostras da arma para a cidade de Birmingham, tradicional centro metalúrgico, onde armeiros e metalúrgicos locais fizeram diversos melhoramentos. O resultado foi um mosquete no qual todas as peças eram feitas de ferro, material que tinha sido muito barateado na época. Os artesãos de Birmingham elaboraram um sistema de fecho de pederneira (o mecanismo que fazia a arma disparar, através da fagulha produzida pelo atrito de uma pedra de sílex contra uma peça de metal) que poderia ser adaptado a qualquer arma existente, sem grande trabalho.

Essa nova arma foi introduzida no exército inglês pelo duque de Malbourough e, em 1713, tornada padrão na infantaria britânica. Mais de cem anos depois, os exércitos que combateram contra Napoleão, sob o comando do duque de Wellington, ainda portavam esse mesmo equipamento, sem grandes modificações.

O nome Brown Bess, segundo especialistas, nunca foi oficial. É possível que Bess seja uma corruptela das palavras bus, em holandês e büsse, em alemão, ambas querendo dizer “cano”, embora, na língua inglesa, também seja apelido para Elizabeth (Isabel). Como as guerras civis na Inglaterra tiveram ampla participação de mercenários holandeses e alemães, é possível que a palavra tenha entrado por essa via. Brown (marrom) veio, possivelmente, do tratamento químico contra a ferrugem, descoberto por volta de 1630 (russeting) que dava aos canos uma cor marrom-claro, que também era a da nogueira polida, madeira de que era feita a coronha da arma. Certos relatos falam em brown musket, o faria mais sentido. Entretanto, ao longo do século XVIII, o exército britânico adotou, como padrão, um acabamento metálico polido (segundo se dizia, mantinha o soldado ocupado).

Os primeiros modelos, conhecidos como Long Land Musket tinham mais de 1,80 metro de comprimento, com cano de 117 centímetros. Pouco tempo depois, um cano de 107 cm tornou-se a marca do modelo Short Land Pattern. No final do século XVIII, um cano de 99 cm numa arma com 1,60 metro de comprimento tornou-se o India Pattern, originalmente concebido para a Companhia das Índias Orientais Inglesa.

As armas variavam em pequenos detalhes – forma do guarda-mato e das peças dos mecanismos – mas mantiveram certo padrão: fecho de pederneira, comprimento entre 1,40 e 1,58 metro, peso entre 4,3 e 5,2 kg e calibre de 19 mm, disparando um projétil redondo. Os infantes dispunham de uma baioneta triangular, adaptada ao cano através de uma luva de encaixe (“de alvado”), que trasformava o mosquete em uma pequena lança, para defesa das formações contra cavalaria, enquanto outros soldados carregavam suas armas.

Agora, é preciso esclarecer um ponto difícil de entender, por pessoas que, como nós, vivem numa época de produção industrial automatizada e totalmente estandartizada: embora a concepção do equipamento não variasse, uma dada série de exemplares podia ter diferenças em relação a outra. Isso quer dizer que eram iguais mais não eram idênticas. As técnicas de fabricação da época eram manuais e dependiam de gabaritos bastante irregulares, que geravam diferenças bem notáveis.

Por serem armas de ante-carga e alma lisa (cano sem raiamento), os mosquetes Tower eram imprecisos e de pouco alcance. Ainda assim, eram considerados confiáveis pelos soldados. O desempenho da arma era mais-ou-menos padronizado. Embora o alcance máximo fosse de uns 900 metros, o tiro era tão impreciso que dificilmente alguém conseguia acertar alguma coisa a mais de 200 – e isso se o alvo fosse muito maior que um homem. Eram mais comuns os tiros contra alvos próximos, numa distância não maior que 150 metros. Um atirador muito bom podia manter três salvas por minuto, mas é provável que a arma parasse de funcionar após uns 20 disparos.

Não se sabe direito quantas “Betes” foram produzidas, mas calcula-se que o número suba a mais de um milhão. Essas armas ainda foram adaptadas, na primeira metade do século XIX, para um sistema de fecho que utilizava, ao invés da paderneira, uma cápsula de fulminato de mercúrio, que, atingida por uma espécie de percurssor, gerava um fagulha que incendiava o propelente diretamente dentro do cano. Esse sistema era conhecido como “de fulminante”, e prolongou a vida útil das “Betes” até pelo menos os meados dos oitocentos.

Não sou propriamente especialista em armas antigas, mas é interessante saber alguma coisa sobre como lutavam e de que equipamento dispunham os antigos soldados. Se algum dos leitores se interessar, recomendo esse recurso de pesquisa, o melhor que conheço na Internet brasileira, escrito pelo maior especialista brasileiro em armas portáteis, o Adler Homero.  

Depois de retirada do serviço, essa venerável peça de tecnologia militar continuou sendo distribuída pela periferia do mundo europeu. Ainda hoje, são encontradas, eventualmente, nos cantos de salas de estar, nos fundos de armazéns e largadas em estábulos e galinheiros, por todo o mundo.

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