Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::

E já que estamos falando no assunto…

"Homem de preto, qual é sua missão? Entrar pela favela e deixar corpo no chão. Homem depreto, o que é vc faz? Eu faço coisas que assustam Satanás."

"BOPE vai te pegar... Pega daqui, pega de lá! Homem de preto, o que é vc faz? Eu faço coisas que assustam Satanás."

Esses aí nunca andam sozinhos… O modelito preto, complementado por colete a prova de balas, proteções articulares (joelheiras e cotoveleiras de plástico de alto impacto) e a tal “touca ninja” (proteção facial inteiriça), é considerado traje ideal para combate urbano.  

Uma fortificação, posto que é Segunda:: Forte Niagara::

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O Forte Niagara começou a ser construído na segunda metade do século XVII, tendo como pano de fundo as guerras coloniais entre França e Inglaterra na fronteira entre a Nova França (Quebéc) e as Treze Colônias da América do Norte. Instalado na foz do rio Niagara, visava modo a controlar o acesso às rotas dos Grandes Lagos e  para o interior do continente. Ao longo de sua existência, o forte foi controlado sucessivamente pela França, Inglaterra e Estados Unidos. A França instalou baterias provisórias de madeira num terreno elevado, em 1679 , que permitia a vigilância tanto aos acessos do lago quanto dos acessos terrestres. A primeira construção era, de fato, uma paliçada (alta cerca de madeira) reforçada. O segundo forte, de 1687, embora obra bem mais complexa, ainda era feito de madeira. Alojamentos, cozinhas, depósitos e outras instalações eram cercadas por estacadas de madeira e obras defensivas (bastiões e fossos) de terra. Em 1726, a França eregiu uma instalação permanente, o “Castelo Francês”, situado dentro de muralhas de pedra compondo quatro bastiões, cuja linha externa era formada por paliçadas de madeira. A obra definitiva situava-se, provavelmente, no mesmo lugar que a anterior. A Grã-Bretanha conquistou o forte em 1759, controle que mantiveram mesmo durante a Revolução Americana. Mas, pelos termos do tratado de 1796, teve de cede-lo aos norte-americanos, retomando-o em 1813, durante a 2ª Guerra da Independência. Em 1815, o tratado de paz previa sua posse pelos EUA. Com a construção do canal do Erie, em 1825, o valor estratégico do forte diminuiu, embora persistindo como posto militar ativo. Durante a Guerra Civil, funcionou como quartel e centro de treinamento de tropas, função que conservou ao longo do século 20. Foi desativado em 1963.::

“Tropa de elite” ou “Bandido se combate com forças especiais?”::

O Rio de Janeiro esteve, esta semana, pela enésima vez nos últimos anos, em estado de choque, em função de outra batalha urbana ocorrida no bairro de Copacabana. Nem vamos entrar no mérito de que, na “Cidade (nem-tão) Maravilhosa” de hoje em dia, batalhas urbanas acontecem todos os dias. Talvez o “choque” se deva ao fato de que a guerra já chegou e se instalou nos domínios da elite da pequena-burguesia local.

Não é o assunto e nem sei se vale à-pena discutir essas coisas; prefiro deixar a que meu amigo blogueiro Pax fomente esse debate (taí minha sugestão…), uma vez que uma coisa tem tudo com a outra.

O que me importa aqui é o fato de que toda vez que acontece uma confusão dessas, os primeiros policiais a serem lançados no fogo são os “caveiras” – ou “bruxas”, como a rapaziada do tráfico os chama -, os homens do Batalhão de Operações Policiais Especiais – o BOPE.

Como tudo no Rio de Janeiro acaba se tornando rotina, a população está, atualmente, acostumadas a presença ostensivas dos “caveiras” – e do “caveirão”, um tipo de blindado desenhado para operações em favelas. O que a população parece não notar é que a própria existência de uma tropa como o BOPE aponta para um grau de militarização da segurança urbana que enfatiza a repressão e a intervenção pontual, sem chegar a propor soluções que previnam o surgimento do crime e a execução da ação criminosa.

O BOPE é a tropa de choque da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Sua origem recua ao ano de 1978, ainda em plena ditadura militar, quando as secretarias de segurança estaduais eram filiais do sistema de repressão política e as polícias militares estavam sob controle de um órgão do Exército. A situação da segurança na cidade era completamente diferente: o “crime organizado” de então era formado principalmente pelas “famílias” do jogo do bicho, que mantinham relação estreita com a política da cidade, e uma até hoje não bem explicada simbiose com os órgãos de segurança do regime. A preocupação maior era a “segurança nacional” e o MCI (Movimento Comunista Internacional), que, segundo o imaginário militar da época, tinha sido derrotado pelas forças armadas na batalha pelo Brasil. As polícias civis, militares e até mesmo o corpo de bombeiros (!!!) eram parte da “repressão”.

O surgimento do BOPE está ligado ao então Secretário de Segurança do Rio de Janeiro, general-de-brigada Nílton Albuquerque Cerqueira, que sancionou a criação do Núcleo da Companhia de Operações Especiais – NuCOE. A idéia partiu do então Capitão PM Paulo César Amendola, que propôs ao comandante da corporação, coronel Mário Sotero de Menezes, a criação de uma força de elite PM. Essa tropa deveria ser composta por 86 oficiais e praças voluntários, que receberiam treinamento especial para operações de “combate urbano”. Não se pode saber até que ponto Amendola, um personagem até hoje controverso, inspirou-se nas formações SWAT da polícia norte-americana, mas diz a lenda que o capitão tinha se impressionado com um seriado norte-americano de grande popularidade na TV brasileira, “S.W.A.T.”.

Mas a idéia já vinha sendo cultivada desde 1974, em função de um episódio em que a PM, através de uma unidade chamada “Destacamento de Atividades Especiais” (DAE) – que, apesar do nome, não tinha treinamento especial algum – falhou no resgate de um major, feito refém e morto numa rebelião de presos no Rio. O general-de-brigada Cerqueira, figura notória no bestiário da ditadura brasileira, se destacou nas operações de contra-insurgência e chegou ao Rio depois de carreira nos órgãos de informação do exército. Ao que parece, sua idéia de ordem pública era a de enfrentamento, o que ficava claro na política de emprego da nova unidade: operações policiais militares não-convencionais, missões de contraguerrilha urbana ou rural e missões envolvendo efetivos de grande preparo técnico, tático e psicológico, dotados de armamento e equipamentos especiais. Também ficava claro que a unidade seria afastada do policiamento de rotina – ou seja, ficaria afastada da missão de polícia.

Os elementos que se voluntariavam para a unidade tinham de ter passado por unidades de primeira linha das forças armadas, e passavam por um curso que nada mais era do que um estágio de operações especiais misturado ao treinamento do pessoal do Batalhão de Polícia de Choque, baseado em uma doutrina conhecida, na época como “Controle de Distúrbios Civis”.  

Logo de início o general envolveu-se numa polêmica estéril em torno do símbolo adotado pelo NuCOE, inspirado no distintivo de todas as formações de forças especiais militares: uma caveira trespassada por uma faca de trincheira. O símbolo fica sobre as duas pistolas de pederneira cruzadas da PM. Os grupo de direitos humanos implicaram com a proposta, associada ao fascismo (para piorar, o desenho ficava sobre um fundo preto). Após mais de dez anos, o BOPE foi criado em 1991, destinado a desenvolver “Operações de Policiais Especiais”.

O que é isso? Boa pergunta. Vejam o depoimento de um ex-oficial, e me digam se isso parece tarefa de polícia.

A Força de Incursão e Contato estava dividida em três patrulhas de combate: ALFA, BRAVO E CHARLIE, formadas por oito combatentes portando armas automáticas, como metralhadoras de mão e fuzis. A vanguarda tinha uma ponta-dupla, ou seja, dois homens seguiam sempre um pouco à frente, fazendo papel de reconhecedores-esclarecedores, uma missão mortal.

É como o nome diz, mesmo: “operações especiais”, de caráter totalmente militar. O jargão acima poderia perfeitamente descrever uma operação dos “Rangers” do Exército dos EUA, nas montanhas Tora-Bora (onde a lambança foi semelhante aquelas que o BOPE apronta, de vez em quando, por aqui) ou do SAS, na Guerra das Malvinas.

Vamos continuar no assunto depois, mas acho que já ficou claro que o pessoal dessa unidade se vê como se estivesse envolvido numa guerra, e parte considerável da população do Rio de Janeiro fosse constituída de inimigos a submeter. Quando pesquisava para esse post, descobri uma  entrevista de quatro anos atrás, com aquele capitão Pimentel, o tal da “Elite da tropa” (que deu origem ao filme), que me parece ainda um tanto atual, visto que mostra onde levou a militarização da questão da segurança pública.  Ou onde não levou.::

Duas frases para pensar::Afinal, é Sexta-feira::

Saiu tarde, mas… Ainda é Sexta-feira… E por sinal, com notícias de nossa guerra particular, e uma homenagem ao amigo distante o Pax, comandante da nau Notícias da corrupção. Eu entendo do assunto – admiro os bons soldados. (Ambas as frases foram cortadas do blog  do PD, mas poderiam ter sido ditas por Lucian K. Truscott Jr.)::

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 Tá tudo caindo na rede. E tá duro de acompanhar. Mas vamos lá.

Aponte tua metralhadora desengonçada, a la Mr X, pros alvos certos.

Para comparar, duas frases de Truscott.

Temos de ir adiante. E – homem, acredite – iremos!

Deixe-me dizer- lhe uma coisa, e trate de não se esquecer disso: … você luta guerras para vencer.::

Cultura material militar::Capacetes::

Nunca imaginei que o assunto “capacetes” fosse tão interessante. O que sei é que a cultura material militar é assunto bastante variado, e inúmeros interessados. Acho Muitos dos que escrevem sobre o assunto são historiadores da tecnologia, que buscam aprofundar todos os aspectos dessa questão. Mas boa parte dos interessados escritores e leitores são, por exemplos, colecionadores de “militaria”, ou seja, de antiguidades produzidas pela atividade militar, seja na guerra ou fora dela; outros, também extremamente ativos, são os artesãos produtores e colecionadores de soldadinhos de brinquedo e modelismo militar em geral. Essas práticas, apesar do nome, não são coisa de criança, mas um dos hobbies mais praticados no mundo, que envolve um mercado de bilhões de dólares e milhões de aficcionados.::

 

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parte2/3O capacete francês tipo “Adrian” foi, então, distribuído a outros exércitos, mesmo antes da 1a GM terminar. Grande número deles chegou até as tropas russas destacadas para servir na Frente Ocidental. Os russos se interessaram pela proteção individual, e consta que tinham tentado introduzir chapas de metal sob seus tradicionais quépis. Os primeiros capacetes entregues às tropas do czar eram de fabicação francesa e tinham a águia de duas cabeças da dinastia Romanov estampada na metade anterior.

 

Não levou muito tempo para que os russos começassem a produzir seus capacetes na indústria local. Tratava-se de uma cópia simplificada do “Adrian”, e foi introduzida em 1916. Nessa versão, a ventilação (constituída, nos exemplares franceses, por orifícios localizados por baixo de uma “crista” metálica situada no topo da carapaça), era menos definida, tornando o equipamento um tanto desconfortável de usar. O item era distribuído às tropas sem insígnias ou distintivos.

 

A Revolução de Outubro de 1917 tirou a Rússia da Guerra, sem que houvesse acontecido qualquer outra medida que não o tratado de Brest-Litovski, o que deixou os enormes exércitos russos mais-ou-menos intocados, embora bastante maltratados pelas condições da paz. A Guerra Civil que estourou logo a seguir colocou lançou, uns contra os outros, vários exércitos e milícias razoavelmente dotados de efetivos, armamentos e suprimentos: diversas facções de partidários do czar (geralmente conhecidos como “brancos”), simpatizantes liberais, milicianos religiosos e anarquistas e o Exército Vermelho. Poucas dessas tropas, entretanto, tinham, em seu equipamento individual padrão algum tipo de capacete. É certo que muitos dos “Adrian” de fabricação local estavam em mãos das diversas tropas, mas também eram vistos, em alguma quantidade, capacetes alemães capturados e, em menor número, o modelo usado pelo exército austro-húngaro.

 

Depois da vitória do Exército Vermelho, e da consolidação da União Soviética, em dezembro de 1922, o novo governo começou a reorganizar as forças militares. Essa reorganização significou um novo ordenamento na distribuição de armas e equipamentos, e os capacetes disponíveis foram padronizados, sendo mantidos apenas os “Adrian” locais, nos quais a estrela vermelha, símbolo do novo estado substituiu a águia Romanov.

O período entre-guerras testemunhou a reorganização social, econômica e militar do país, mas, em termos gerais, os uniformes de campanha da época do Império Russo foram mantidos, exceto pelo abandono de cores que, como o branco, remetiam à casa Romanov. Alguns experimentos com novos modelos de capacete foram feitos, mas em pequena escala e sem grande conseqüência. Um dos modelos testados, do qual restou certo número de exemplares, tinha formato semelhante ao modelo 1916 alemão. Em 1936, entretanto, foi introduzido um modelo que seria padronizado, conhecido como Kaska M36, também chamado SSh36 (de Stalnoy Shlyem – capacete de aço) ou, menos frequentemente, “Schvartz” (em função do desenhista, Aleksandr Shvartz), trata-se de um modelo que os especialistas entendem como de transição, conservando certas características da versão russa do “Adrian”, como o sistema de ventilação tipo “crista” – embora alguns digam que também seria projetado para suportar golpes de sabre, mas já com o desenho que se consolidaria na 2a GM. Em 1940, esse modelo começou a ser substituído pelo Kaska M40, que já tinha o desenho que, em fotografias e filmes, reconhecemos como “capacete russo”.  

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Equipe de lança-chamas, Berli, 1945. Os dois combatentes usam o capacete SSh40; o soldado em primeiro plano usa um tipo primitivo de colete à prova de balas.

Um dado interessante é o fato de que os capacetes russos, desde o “Schvartz”, eram usados pelos soldados junto com o casquete militar (pilotka), que, colocado sob a armação interna de lona, tornava o conjunto mais confortável.

O M40 tinha, no interior de sua armação, espaço suficiente para que o casquete fizesse parte do conjunto. Em 1941, quando da invasão da URSS, o SSh36 já estava em processo de substituição, nas tropas de linha de frente. Pequenas modificações, introduzidas ao longo da guerra (em função do grande número de fábricas dedicadas a produzir esse item de equipamento) não mudaram o desenho, considerado, ainda hoje, muito bom. Esse modelo continuaria em serviço, nas diversas nações do Pacto de Varsóvia, até os anos 1990.

Acabou? Não – essa conversa de capacetes ainda vai durar. Esperem pela próxima semana ou mandem mensagens pedindo pelamordedeussss que o redator mude de assunto…:: 

Um rapaz (das Forças Especiais) às Terças::

No caso, dois rapazes. Essa coluna (quando é que alguém irá me explicar se blog tem “coluna”?..) é boba p´ra caramba, mas muito divertida. Só espero que não acabe me comprometendo…:: Agradeço a atençaõ do Diogo que me impediu de colocar “navais” brasileiros na floresta temperada de coníferas…

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Atiradores de escol (o mesmo que "elite"), Batalhão de Operações Especiais, Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha Brasileira.

Atiradores de escol (o mesmo que "elite"), Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha dos EUA.

Já que o Renato levantou um ponto que me pareceu pertinente, lá vai uma “segunda edição”…
Esse tipo de roupa é chamado “traje ghillie”, e passou a ser usado pelos atiradores de elite na 2a GM, embora já se registre seu uso esporádico na 1a GM, na Guerra dos Boeres e na Índia, no século XIX. É composto por duas peças, calça e casaco, vestidas por sobre o uniforme de combate. A textura é parecida com a de uma rede, e permite a aplicação de elementos que ajudam a esconder o usuário na paisagem, ao contrário da camuflagem “disruptiva”, cuja função não é esconder, mas diluir a silhueta do combatente contra o fundo. Esse traje foi herdado de auxiliares de caça q orientavam os caçadores até a presa com sinais sonoros, no século XVII.

Uma fortificação, posto que é Segunda::Forte da Laje, Rio de Janeiro::

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Oficialmente denominado “Forte Tamandaré”, o Forte da Laje encontra-se instalado na ilhota do mesmo nome. De fato se trata de um afloramento de rocha na baía de Guanabara, que na baixa-mar tem aproximadamente 100 metros de comprimento por 60 metros, em sua parte mais larga. A primeira referência ao lugar como sítio adequado à uma obra defensiva é da década de 80 do século 16. A iniciativa da contrução aconteceria 60 anos mais tarde, mas o surgimento da fortificação só iria se concretizar quase 150 anos depois. Apesar da posição estratégica, voltada para a entrada da baía, era considerada de pouca valia, por sua silhueta baixa e interior descoberto o que a tornava bastante vulnerável a tiros de artilharia embarcada -, artilhada com 20 peças de antecarga consideradas, em 1845, como obsoletas. Em 1863, em função da questão Christie, foi proposta a instalação de uma torre blidada, montando canhões de grosso calibre.  Logo após a proclamação da República, em 1892, sua guarnição, juntamente com a da Fortaleza de Santa Cruz, levantou-se contra o governo, incidente de curta duração que não teve conexão com a Revolta da Armada, no ano seguinte. Duramente bombardeada durante o levante de 1893, foi modernizada a partir de 1896. Em 1901 foi concluída a montagem de cúpulas de aço de procedência alemã e pouco depois, a artilharia foi melhorada, com a instalação de dois canhões de 240mm e dois de 150mm, em torres girantes, e dois de 75mm, acasamatados. A ilha foi dotada de instalação elétrica e as obras foram completadas em 1906. Ao longo do século, foi recebendo pequenas melhorias (como aperfeiçoamento do controle de fogo e instalações de renovação de ar). Em 1997 ainda era sede de uma bateria de artilharia de costa. Com a extinção desse ramo da artilharia no Exército Brasileiro, foi afinal desativada.

Duas frases para pensar::Afinal, é Sexta-feira::

Duas só, não, quatro – semana passada não teve…

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O poder em vontade, a vontade em ambição/E a ambição, lobo universal,/Duplamente acompanhada de vontade e de poder,/Precisa fazer uma vítima/E, por fim, se autodevorar.

William Shakespeare (1554-1616), Troilus and Cressida

Em vez de unidade entre as grandes potências – tanto política quanto econômica – depois da guerra, há desunião completa entre a União Soviética e seus satélites de um lado, e o resto do mundo de outro. Em suma, são dois mundos, em vez de um.

Charles E. Bohlen (1904-1974), 1947

O poder militar que ocupava o alto do sistema deparou … com poder ainda maior baseado na vontade popular na base. Como no jogo de crocket em Alice no País das Maravilhas, em que os malhos eram flamingos e as bolas eram ouriços, os peões no jogo da Guerra Fria, erroneamente vistos como objetos inanimados pelas superpotências, ganharam vida em suas mãos  e começaram, universalmente e sem interrupção, a tratar de seus planos e ambições.

Jonathan Schell (1943), 2003

Um mundo melhor será aquele em que as promessas de desarmamento se realizem, os preceitos do Direito Internacional sejam obedecidos pelas grandes potências, as diferenças econômicas entre os Estados se reduzam e o meio ambiente seja preservado.

Samuel Pinheiro Guimarães Neto (1939), 2007

Cultura material militar::Capacetes::

Capacetes militares talvez estejam dentre os itens mais representativos dos exércitos. Embora sejam uma peça de equipamento militar e um item de proteção individual, a utilidade desses artefatos transcende sua mera materialidade. Capacetes praticamente simbolizam a atividade militar por excelência. Quando um general quer parecer combatente, põe na cabeça um capacete de aço (basta lembrar da famosa fotografia de Patton, fazendo pose com um capacete cromado). Mais do que isso, capacetes representam, através de uma operação lingüística chamada metonímia, a própria guerra. Afinal, o que vem à cabeça de todo mundo, diante da simples silhueta de um Stahlhelm M1935?.. O que é um Stahlhelm?.. É o que vamos ver, em seguida.

 

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Capacetes feitos de metal, madeira ou couro, foram usados desde a Antigüidade, para proteger a cabeça dos combatentes. Podem ser considerados a primeira forma de proteção corporal, juntamente com os escudos, e certamente antecederam outras peças como peitorais, perneiras e manoplas. Mas o surgimento da arma de fogo tornou esse tipo de proteção inócuo, visto que a metalurgia da época não oferecia materiais resistentes contra um tiro de pólvora. Os capacetes acabaram relegados a funções cerimoniais, .

Até o final do século 19, as “coberturas” (como os militares chamam, até hoje, qualquer tipo de chapéu) tinham a função de proteger o soldado contra condições climáticas (sol, chuva, etc.) e compor o uniforme (são ótimo lugar para se usar distintivos, insígnias, cores…). Com a eclosão da 1ª GM, as novas condições de combates nas trincheiras da Frente Ocidental provocaram enorme número de ferimentos na cabeça, em ambos os lados. Ficou evidente que era necessário algum tipo de equipamento para, pelo menos, diminuir o grau de incidência daquele tipo de casualidade.

 

 O desastre do Marne, em setembro de 1914, precipitou a mudança dos uniformes franceses, que, até aquele ano ainda eram compostos por uma túnica azul-ferrite (um azul quase negro) e calças… vermelhas (acreditem vocês  ou não). No final do ano, começaram a ser distribuídos entre as tropas os uniformes horizon-bleu (“azul-celeste”), e, junto com eles, os soldados franceses começaram a receber um novo tipo de quépi. Esses quépis trouxeram algumas tentativas de aumentar a proteção ao soldado: pequenas placas e carapaças de metal adaptadas ao interior do chapéu.

 

 Conforme a guerra avançava, os especialistas médicos notaram que a maioria dos ferimentos na cabeça não eram provocados por balas, mas por pedaços de metal pequenos, de baixa velocidade e trajetória irregular (“estilhaços”), resultantes da fragmentação de projéteis de artilharia. Contra uma bala de rifle moderna, ogival (pontiaguda) e impulsionada por pólvora química (“sem fumaça”), não havia proteção possível – a não ser que o soldado estivesse disposto a usar na cabeça uma carapaça de quatro ou cinco quilos; já contra estilhaços, uma chapa de metal relativamente delgada poderia ser suficiente.

 

 Pouco depois do Marne, pelo final do ano, surgiu o boato de que os soldados estavam usando panelas e sopeiras de metal na cabeça. Essa história talvez tenha resultado da confusão provocada, em observadores da imprensa, pelo surgimento de uma carapaça de metal, distribuída aos soldados pelo intendente-geral do exército, general Agust Louis Adrian, em 1914. Segundo se conta, essa desconfortável peça de equipamento passou a ser usada principalmente para tomar sopa. Longa vida ao sempre criativo soldado de linha, independente da nacionalidade…

 

Ainda assim, durante algum tempo, o exército francês insistiria em distinguir, em combate, tropas especiais através de elmos coloridos e brilhantes: dragões e couraceiros, sapadores e artilheiros. Esses artefatos cerimoniais, sobrevivências de uma época em que espadas e lanças eram armas efetivas, dificilmente serviam no ambiente da guerra industrial plena. Logo seriam eclipsados pelos “cascos de aço”.

 

O modelo francês, denominado “Adrian”, aperfeiçoamento do equipamento distribuído em 1914, passou a fazer parte do equipamento padrão da infantaria. Isso foi em meados de 1915. Oficialmente denominado “M15” o modelo “Adrian” era baseado no capacete usado pelos bombeiros franceses, embora sua construção fosse muito mais complexa, devido à necessidade de aumentar a funcionalidade. Várias peças de metal estampado, muito delgadas (no máximo 0,7 mm de espessura) eram soldadas e rebitadas juntas. O resultado era uma carapaça de tamanho padrão, dotada de abas, frontal e traseira, e um tipo de crista, que protegia orifícios de ventilação (quatro ou cinco, dependendo da origem). A armação interna consistia em dois anéis de tiras de couro, em forma de “D”, presos ao corpo de metal por alças. Essa estrutura, provida de cadarços, apoiava o conjunto no alto da cabeça do usuário, que o regulava para seu tamanho apertando ou afrouxando os cadarços. Esse sistema tinha a vantagem de prover alguma ventilação, pois mantinha a carapaça de metal ligeiramente afastada do couro cabeludo do usuário. O conjunto era preso à cabeça por uma alça (“jugular”), regulada por fivela deslizante. O conjunto pesava aproximadamente 1000 gramas, o que tornava seu uso um tanto desconfortável.

Cinco fábricas foram montadas para fabricar capacetes, e calcula-se que, pelo final de 1915, uns três milhões já estivessem disponíveis.

 

O “Adrian” era entregue aos soldados em acabamento horizon-bleu, semelhante ao do uniforme M14. Como a pintura, esmaltada, tendia a refletir luz, por volta do final do ano os franceses introduziram uma cobertura de tecido, azul-claro ou cáqui. Embora a idéia fosse boa, oficiais médicos imaginaram que o tecido, introduzido em ferimentos na cabeça, pudesse provocar complicações sérias, e aconselharam que fosse abandonada, o que aconteceu pouco depois.

 

O enorme número de capacetes fabricado durante a guerra (estima-se que tenha alcançado mais de seis milhões de unidades) fez com que o “Adrian” continuasse a ser utilizado também no período entre-guerras. E que fosse adotado, ainda durante a guerra, por outras nações, tão díspares quanto a Bélgica e o Brasil (que recebeu alguns em 1917, trazidos pelos observadores enviados à Europa, mas não o adotou). Os mais improváveis soldados a usar o “Adrian”, entretanto, foram os russos – tanto dos do exército do czar quanto seus sucessores comunistas.

Vamos ver este ponto depois. Como essa matéria é longa, vamos dividi-la em caítulos, para que o redator e os leitores tenham mais diversão… Ah, até lá, vejam esse filminho recolhido no… Vocês sabem onde. Eu mesmo nunca tinha visto nada tão didático…::