Um sistema de armas às… (Ahhh, quando der… Não tenho tanto tempo quanto gostaria)::


Outro dia recebi um interessante comentário, redigido pelo Paulo Carvalho, que, pelo que parece, faz parte do clube de pesquisadores sobre sistemas de armas avançados. Disse o Paulo (sobre o posto em torno do XB70): “o XB-70 … foi cancelado por causa dos custos astronômicos e pela competição com o SR-71 já que havia planos para uma versão de reconhecimento designada RS-70. Como ambos voavam a mesmas velocidades e altitudes e como o SR-71 foi um sucesso estrondoso (nunca fora abatido apesar dos milhares de mísseis lançados contra ele) a ineficácia contra os mísseis antiaéreos definitivamente não foi a causa do fim do XB-70.”

Possivelmente o Paulo tem razão quanto ao fator “custos”, embora eu não concorde quanto aos mísseis. Entretanto, quando fui verificar informações, descobri que o XB-70 tem uma história muito mais interessante do que supunha minha vã filosofia. De fato, o Paulo, como todos nós, nesse ramo, tinha e não tinha razão. O RS-70 não era uma versão de reconhecimento do Valkyrie, mas uma tentativa feita pela Força Aérea dos EUA de salvar o projeto, criando um “reconhecedor de ataque”, uma aeronave capaz de cumprir ambas as funções em condições de campo de batalha nuclear. De fato, essa geringonça e o SR-71 tinham, em comum, apenas o preço astronômico (voltaremos a falar sobre o “Pássaro Negro” em breve). Para esta edição de Um sistema de armas às terças:: (que não é mais às terças, mas sempre que surgir um tema interessante) levantei um artigo antigo da revista Time onde o debate em torno de gastar ou não uma fortuna com esse novo sistema de armas está colocado. Divirtam-se!::

 

:: :: :: :: :: :: :: :: :: ::

 

RS-70: embuste ou superavião?

Time, 30 de março de 1962

 As últimas duas semanas foram tomadas por manobras entre o senador Carl Vinson e a administração Kennedy, mas o bombardeiro que foi a causa do fracasso foi quase ignorado. O que é o RS-70? Por que ele desperta tanta emoção no Pentágono, na Casa Branca e no Congresso? É um embuste ou um superavião?

O RS-70 é o novo “reconhecedor de ataque” da Força Aérea, versão do super-bombardeiro B-70, que vem sendo projetado desde 1953.  Deveria ser uma aeronave verdadeiramente revolucionária, voando a 2.000 mph em altitudes de até 80.000 pés, em distâncias de até 6.000 milhas, sem reabastecimento. A Força Aérea quer gastar US$ 491 milhões no próximo ano fiscal (iniciando em 1o de julho) num programa que poderá colocar os primeiros RS-70 em operação em 1967, até alcançar 150 unidades por volta de 1970, a um custo total que poderá chegar a US$ 10 bilhões. Já o Secretário de Defesa Robert McNamara quer gastar US$ 171 milhões no próximo ano, para colocar no ar três protótipos do RS-70. A discussão entre a Força Aérea e McNamara desenvolve-se em torno de conceitos basicamente diferentes de defesa nacional. Ambos os lados clamam que o outro está totalmente errado. De fato, nenhum dos dois está totalmente certo.

Os argumentos pró. O general Curtis LeMay, chefe do Estado-maior da Força Aérea voou B-17 sobre a Europa, dirigiu os ataques de B-29 contra o Japão, criou o Strategic Air Command como mola-mestra da dissuassão nuclear, e ainda guarda profunda fé  nas aeronaves  pilotadas manualmente , não importa o quanto se desenvolva a tecnologia de mísseis. LeMay argumenta que um homem pode administrar melhor que o cérebro-robô de um míssil a inevitável confusão de um combate. Para exemplificar as vantagens das aeronaves pilotadas, ele pode apontar a recente experiência do astronauta John Glenn, que assumiu o controle do Friendship 7  quando o equipamento automatizado mostrou defeito. Ainda mais importante, se o radar estivesse apontando sinais de um ataque contra os EUA, um RS-70 poderia ser enviado  na direção contrária e avisado a tempo, em caso de alarme falso. Um míssil não retorna: ou vai ou fica.

Os defensores do RS-70 sustentam que a dissuassão nuclear deve  combiner bombardeiros e mísseis para confrontar o inimigo como uma variedade de sistemas de armamentos. Se um não funcionar, o outro funcionará—e o RS-70 é um sistema de armas completo em um só. Esses mesmos defensores apontam que, este ano, cessará a produção dos dois últimos bombardeiros da Força Aérea—o subsônico B-52 e o super-sônico B-58. Se o RS-70 for descontinuado, dizem eles, toda a frota de bombardeiros dos EUA estará eventualmente obsoleta.

A Força Aérea argumenta que o RS-70 será um alvo difícil de acertar. Ainda que os russos construam um caça que possa voar a 2.000 mph, interceptar um RS-70 capaz de cobrir 30 milhas por minuto seria uma tarefa ingrata.  Uma das defesas do RS-70 contra mísseis anti-aéreos seriam as contramedidas eletrônicas altamente secretas. A Força Aérea admite que alguns RS-70 poderiam ser derrubados, mas muitos poderiam passar e aniquilar o inimigo.

O caso contrário. O Secretário de Defesa McNamara acredita em suas planilhas, gráficos e projeções econômicas, tanto quanto o general LeMay crê em suas experiências e intuições. Os dados de McNamara indicam que o dinheiro a ser gasto com o RS-70 poderia ser melhor aplicado em outro lugar. Pelos US$10 bilhões que a Força Aérea quer  gastar no RS-70 até 1970, McNamara diz que os EUA poderiam comprar 2.000 mísseis Minutemen e instalá-los em silos de concreto profundamente enterrados no solo. E, melhor ainda, manter esses 2.000 Minutemen custaria US$2 bilhões nos próximos 5 anos, contra  US$ 3 bilhões pela frota de RS-70.

McNamara também argumenta que os RS-70 não terão utilidade, a menos que sejam equipados com detetores de radar e mísseis nucleares para auto-defesa, ambos ainda não desenhados—e que provavelmente não serão. Um radar do tipo proposto teria de varrer 100.000 milhas quadradas por hora enquanto o avião estivesse viajando a 2.000 m.p.h. a uma altitude de 70.000 pés. Para separar dois pontos a essa distância, afirma McNamara, uma tela de radar teria de ter 15 pés de altura.  Pelo final da década de 1960, McNamara imagina que o trabalho de reconhecimento será feito por versões avançadas do satélite-espião Samos.

Apesar desses argumentos, McNamara admite que as circunstâncias podem mudar  e tornar o RS-70 necessário no futuro. O secretário agora planeja gastar US$52 milhões, no próximo ano fiscal, para verificar se os equipamentos altamente sofisticados requeridos pelo RS-70 podem ser construídos. E, mais ainda, McNamara prometeu a Vinson que parte do dinheiro aprovado pelo Congresso poderá ser gasto na aeronave, “se a tecnologia avançar mais rapidamente do que foi antecipado.

Tanto McNamara quanto a Força Aérea são convincentes em seus argumentos sobre o RS-70. Retirando sua pretendida diretiva congressional ao Presidente, Carl Vinson evita um argumento potencialmente debilitador. Ainda que Bob McNamara esqueça sua promessa de reabrir e reestudar o caso RS-70, ele poderá ter de contar a história::

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Um pensamento sobre “Um sistema de armas às… (Ahhh, quando der… Não tenho tanto tempo quanto gostaria)::

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s