Cultura material militar::Camuflagem – a arte de passar despercebido::


William Shakespeare, em sua monumental peça Macbeth, descreve como um grupo de guerreiros escoceses avançando em colunas, cada um carregando sobre a cabeça um ramo de árvore. De fato, soldados medievais não faziam esse tipo de coisa. Shakespeare, em sua genialidade, antecipou uma prática que só se tornou comum 500 anos depois.

A palavra “camuflagem” tem origem no francês quinhentista camoufler – algo como “véu fechado.” Na atualidade, trata-se das técnicas que buscam encobrir, esconder ou disfarçar um objeto – e que são muito comuns na natureza. No mundo humano, camuflagem tem objetivo de esconder ou disfarçar tropas, equipamentos, navios, aviões ou estruturas militares, de modo a dificultar as atividades inimigas.

Trata-se de técnica relativamente nova, não tendo sido muito usada antes do século 20. Até então, os uniformes e equipamentos militares tinham cores berrantes, ligadas à diversas tradições: por exemplo, as cores das casas nobres que mantinham as tropas, ou à região do qual provinham os comandantes. Cores que disfarçavam um homem contra o terreno eram usadas por caçadores que tinham de se ocultar para não assustar as presas.

Um outro fator que, aos poucos iria mudar a aparência teatral dos campos de batalha foi a introdução do rifle, uma arma cujo cano possuía dois ou três sulcos que faziam o projétil girar em um movimento de hélice, tornando o tiro muito mais preciso. Na guerra de independência dos EUA, camponeses armados com rifles se mostravam de tal forma eficientes que os “casacos vermelhos” ingleses logo formaram suas próprias tropas equipadas com aquelas armas. A habilidade daqueles camponeses com o rifle vinha do fato de que eram caçadores – e as roupas que usavam ajudavam a sumir  na paisagem. Os ingleses também adotaram uma cor que os ajudava a se esconderem. Por volta de 1800, um tom de verde-escuro que passou a ser chamado de Rifle Green (“verde-fuzileiro”), muito parecido com o verde-oliva de hoje em dia, foi introduzido no fardamento de um regimento inglês formado por muitos caçadores de origem – o 95º Regimento de Rifles. Claro que esses soldados passaram a ser chamados “Jaquetas Verdes”.

A Europa Central também tinha fortes tradições de vida camponesa e caça, de modo que a Áustria, na segunda metade do século 18, também formou regimentos de atiradores de elite. Esses soldados passaram a ser chamados Jäger – “caçadores” – e vestiam uniformes feitos de uma mistura de fios de algodão brancos e azuis. O cinza claro resultante dessa combinação mostrou-se altamente eficaz em diminuir a silhueta de um homem a uma distância de 80 metros ou mais.

Outra cor que passou a ser amplamente adotada a partir do século 19 foi o cáqui. Os britânicos, na Índia a partir de meados da década de 50, passaram a tingir suas túnicas e calças, de cores brilhantes, com uma mistura de barro que passou a ser chamada “cáqui”, a partir da palavra urdu khak – ‘empoeirado’. Essa medida, destinada a diminuir a visibilidade dos infantes em campo aberto, diante dos habilidosos atiradores bengalis, acabou gerando uma cor-padrão, adotada para todo o exército em 1896. A Guerra dos Bôeres, em 1902, encontrou todos os britânicos usando roupas nesse tom.

O estudo dos resultados da Guerra dos Boeres levou muitas nações a considerarem a adoção de uniformes e cores padronizados. Os Estados Unidos adotaram o padrão britânico, baseado na cor cáqui também em 1902; o Império Russo adotou outro tom de cáqui, mais claro, em 1908; os italianos vestiram suas tropas com um tipo de verde, o “verde-cinzento”, em 1909. Os alemães adotaram o feldgrau (“cinza de campo” – de fato uma cor parecida com o verde-oliva) em 1910.

O exército francês continuou a usar uma túnica azul-ferrite (um azul muito escuro) e calças vermelhas, em função da resistência de políticos e generais em mudar as cores dos uniformes, consideradas tão importantes para “o moral nacional” quanto as da bandeira tricolor. O resultado foi o de baixas pesadas, no início da Primeira Guerra Mundial. A partir de 1915, o vermelho foi abandonado por um padrão de cor denominado horizon bleu (“azul-horizonte”), um tipo de azul acinzentado, considerado bastante eficiente.

Também é interessante observar que, em 1915, o exército francês criou a Section de Camouflage (Departamento de Camuflagem), colocando para chefiá-la o pintor Eugene Corbin, que recebeu a patente de capitão. O serviço recrutou pintores e escultores modernistas, e cenógrafos de teatro. Esses começaram a experimentar padrões inusitados, baseados em peles de animais, cores de plantas e da paisagem. Os padrões não eram produzidos industrialmente, mas modelados e pintados individualmente. Eram destinados a atiradores de elite, controladores avançados de fogo e outros especialistas envolvidos em funções arriscadas na linha de frente.

Um outro fato aumentou o interesse pela camuflagem: com o surgimento da aviação e de equipamentos óticos muito avançados, as dimensões do campo de batalha aumentaram, tanto em extensão quanto em proximidade. A observação a partir de balões e aeronaves tornou-se importante instrumento de levantamento de informações, permitindo aos planejadores uma visão muito mais abrangente do que estava acontecendo na frente de batalha. Não bastava mais esconder soldados de atiradores inimigos: tornou-se necessário disfarçar grandes artefatos – canhões e veículos – e estruturas militares completas. O uso de “redes” começou a se tornar comum em 1915, com base nas técnicas de cenografia teatral. As redes se tornaram a principal forma de esconder posições militares e até mesmo civis. A eficiência da camuflagem aumentou, e com ela, as requisições dessas “redes”, e também da pintura de canhões, veículos e até prédios. Em meados de 1915 a Section de Camouflage tinha quatro oficinas, uma em Paris, onde eram desenvolvidos trabalhos de pesquisa, e três próximas da frente de batalha – produzindo inclusive “redes de camuflagem” conforme eram solicitadas pelas unidade em combate.

Unidades especializadas em camuflagem também foram formadas na Inglaterra, em 1916. Nos EUA, Alemanha, Itália, Bélgica e Rússia também foram formadas seções especializadas em disfarçar homens e equipamentos. Os soldados alemães aderiram rapidamente ao uso de camuflagem, chegando inclusive a criar padrões próprios, acrescentados à túnicas e capacetes, com base nos que eram vistos em canhões, veículos e aeronaves. A partir do final de 1916, a distribuição em massa do stahlhelm, o “capacete de aço” pintado na cor base feldgrau levou a que os soldados, notando que o novo equipamento produzia reflexos que os tornavam desagradavelmente visíveis, começaram a cobri-los com terra, óleo e depois com pano. Essa cobertura tornou-se parte do equipamento a partir de 1918.

Entretanto, a primeira produção em massa de um tecido especificamente em padrão camuflado se deu na Itália. Em 1929, o exército italiano adotou o telo mimetico (“pano camuflador”)  cujo padrão copiava, com adaptações, aquele adotado nas redes de camuflagem feitas para cobrir abrigos e posições de artilharia. A produção em massa desse tecido permitiu que uniformes passassem a ser feitos com eles, e se difundissem durante a Segunda Guerra Mundial.

Continuaremos  falar no assunto, em breve::

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3 pensamentos sobre “Cultura material militar::Camuflagem – a arte de passar despercebido::

  1. Muito valiosa a materia, achei interessantissima, pois me interreso pelo assunto por ser millitar e andava pesquisando sobre o tema; o assunto é muito raro.
    obrigado pela publicação, e mande ilustrações e matérias recentes.
    Muito Bom! mesmo

  2. Quais são suas referências Bibliográficas para a realização de tal pesquisa?
    Gostaria Muito de saber pois estou desenvolvendo um trabalho científico sobre camuflagem e gostaria de citar este artigo.
    Agrardo retorno.

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