Cultura material militar::Fuzil de assalto: a origem de uma linhagem::


Segunda parte do posto mais popular do blog das boas causas. Por sinal: não deixem de ler de baixo para cima::

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1939-1940: novo do campo de batalha, velhas armas. A concepção do fuzil de assalto expressa a evolução das doutrinas aplicadas ao campo de batalha e seus desdobramentos durante a guerra. Na primeira fase da 2a GM (campanhas da Polônia, Noruega, Países Baixos e França) rapidez da vitória alemã ocultou problemas, um deles a inadequação do armamento de infantaria. Essa primeira fase da guerra foi travada por exércitos equipados e treinados para uma luta no estilo da GM. Inglaterra e França estavam às voltas com estoques de armamentos herdados da última guerra e, por problemas econômicos, não investiram no reequipamento das forças terrestres. Nos anos 1930, blindados e aviões observaram grandes avanços, mas apenas a Alemanha formulou uma doutrina e táticas que lhe permitiram explorar as potencialidades das novas tecnologias.

Os militares alemães perceberam  que o movimento coordenado, baseado em veículos a motor e grande disponibilidade de combustível mudaria o combate, que perderia seus aspectos estáticos e linhas de frente bem definidas. O tiro – fosse de artilharia ou de armas portáteis – não mais se caracterizaria pelos disparos de longo alcance. A guerra de movimento impedia a colocação de tropas em posições estáticas, que eram facilmente ultrapassadas pelos blindados, acompanhados à curta distância por infantaria transportada em veículos protegidos ou caminhões. Aproximando-se rapidamente do inimigo, já desestabilizado pelo fogo aéreo e dos canhões dos blindados, os “infantes blindados” combateriam a uma distância menor – por vezes tendo o inimigo diretamente à vista.

A maximização do movimento exigia o uso de estradas, o que implicava na possibilidade da entrada em cidades – onde geralmente estavam instaladas pontes, entroncamentos e facilidades rodoviárias, mas as cidades se constituíam em um campo de batalha pouco conhecido e estudado, até então. Nas cidades, os defensores podiam movimentar-se e se ocultar facilmente, expondo-se por curto período de tempo. Posições fixas de artilharia e metralhadoras eram, nessa tal condição, impensáveis.

As armas disponíveis em 1939 não consideravam nem uma nem outra situação. Basicamente, as que estavam disponíveis eram adaptações feitas ainda durante a 1a GM. As metralhadoras, para ganhar maior mobilidade, passaram a ser equipadas com bipés e serem desenhadas como um fuzil, dotadas de coronha e carregadores tipo “caixa”. Essas modificações visavam dotar os infantes de maior poder de fogo, para conseguir superar posições defensivas – eram adaptações derivadas das condições da guerra de trincheiras. Ainda durante a 1a GM tinha sido examinada a possibilidade da substituir do fuzil G98, por um fuzil semi-automático. Por motivos óbvios, a discussão não foi levada adiante.

Nas submetralhadoras os especialistas enxergaram as armas ideais para o novo campo de batalha: fogo supressivo instantâneo e em grande volume, grande capacidade de munição e pequenas dimensões. Armas como os semi-automáticos Garand M1 e Tokarev, disponíveis em grande quantidade no início da 2a GM, embora projetos posteriores à Grande Guerra, tinham tido em vista as condições daquela. Eram muito mais rápidos de usar do que os fuzis de ferrolho, mas não eram totalmente adequados ao uso nos novos campos de batalha.

A pouca eficiência das armas existentes foi constatada pelos alemães ainda em 1940. Na segunda metade desse ano, o Heereswaffen Amt elaborou uma requisição para uma arma longa semi-automática projetada em torno do cartucho IS convencional. O resultado foi o pouco eficaz G41. Na mesma época em que o G41 entrou em testes, a Luftwaffe, sob cujo controle estavam as tropas aerotransportadas, solicitou uma arma portátil totalmente automática, também projetada para munição IS. A resposta dos projetistas foi o FG42 (de Fallschirmjager Gewehr – “fuzil de pára-quedista”) que, apresentava algumas características de fuzil de assalto, mas resultou pesado, difícil de produzir e com alguns problemas que não chegaram a ser resolvidos.

 

O cerne do problema: munição do século XIX para uma guerra do século XX. O principal problema era a potência excessiva do cartucho IS, que gerava um violento recuo, tornando o disparo em rajadas muito difícil de executar, e dessa forma, obrigando o aumento do peso da arma. Essa dificuldade já tinha sido constatada e em 1935 o Heereswaffen Amt considerou a adoção de um fuzil semi-automático, ou mesmo totalmente automático. Esse debate surgiu na fase inicial do rearmamento alemão, e foi acompanhado da proposta de se desenvolver um cartucho menos potente. Mas o exército, aferrado às táticas que privilegiavam o tiro à longa distância, encarava a idéia com antipatia; as fábricas, totalmente ocupadas com a produção de armamento para dar conta da expansão da Wehrmacht, e produzindo munição IS e armas concebidas para ela, não viam na economia de material uma vantagem determinante.

As experiências que foram feitas eram iniciativas de algumas empresas, e não resultaram em nada concreto. Essas experiências visavam criar uma munição totalmente nova, o que significaria, a médio prazo, a substituição de todos os gabaritos, ferramental e processos utilizados pela indústria alemã de munições – bem como, é claro, das armas que as utilizariam.  

A invasão alemã da União Soviética encontrou o Exército Vermelho em processo de distribuir os fuzis semi-automáticos Tokarev, em números não muito altos, e submetralhadoras, cujos números já eram muito maiores do que em qualquer outro país – inclusive a Alemanha. As derrotas iniciais, entretanto, fizeram com que os russos perdessem enormes quantidades de armas. Em função da situação crítica daí resultante, no final de 1941, as tropas começaram a receber uma submetralhadora que, embora concebida tendo em vista a produção em massa, era extremamente bem projetada. Tratava-se da PPSh 41 (de pistolet pulemyot Shpagina – de Giorgy Shpagin, o projetista). Fácil de fabricar, feita em metal estampado e sem parafusos, essa arma tinha uma alta cadência de fogo. Graças à munição utilizada, calibre 7.62X25, podia utilizar um carregador circular (do tipo conhecido pelos colecionadores brasileiros como “lata de goiabada”) de 71 cargas, copiado da submetralhadora finlandesa Suomi. A combinação dessa arma com táticas que juntavam infantaria e blindados foi suficiente para convencer os alemães da superioridade de tropas totalmente equipadas com armas automáticas, e da necessidade de tomar providências urgentes para preencher essa lacuna::

Infantes soviéticos em Berlim, com suas PPSh, maio de 1945.

Infantes soviéticos em Berlim, com suas PPSh, maio de 1945.

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