Cultura material militar::Fuzil de assalto: a origem de uma linhagem::


Este post foi publicado tem uns dois anos. Por algum motivo um tanto misterioso para mim, é o mais acessado do blog das boas causas. Os posts sobre tecnologia militar são, modéstia à parte, bastante razoáveis (se não acreditam em mim, perguntem ao Pax, ao Bruno Mota, ao JBarone… – Bem, não precisam perguntar…). Mas, como todo mundo parece gostar deste texto, o redator resolveu revê-lo e publicar uma, digamos “segunda edição” – e mais até, dar seguimento ao assunto. Divirtam-se, pois:: 

:: :: :: :: :: :: :: :: :: ::  

O “fuzil de assalto” (SturmGewehr – StuG) 44 é reconhecido como tendo sido a primeira arma dessa classe surgida no mundo. De certa forma, é uma das conseqüências mais duradouras da Segunda Guerra Mundial. Sua introdução no e, posteriormente, seu exame pelas principais forças armadas do mundo trouxe modificações duradouras nas doutrinas, treinamento e indústria militar. O termo “fuzil de assalto” está, hoje em dia, em desuso, substituído por “fuzil automático” (AR, Automatic Rifle, em inglês, ou FAL, de “Fuzil Automático Leve”, em nossa língua). Nos estágios finais da 2a GM, designava uma arma longa portátil de infantaria, distribuída aos pelotões de choque das companhias de granadeiros da Wehrmacht. Hoje em dia, “fuzis automáticos”, armas capazes de disparar em rajadas contínuas, como uma metralhadora, ou em salvas simples, são a arma-padrão dos infantes em todos os exércitos do mundo. Produzidos em massa e bastante simples de usar, também são encontrados nas mãos de forças irregulares, policiais e do crime organizado.

O desenvolvimento dessa arma tem alguns aspectos interessantes. Como diversas outras tecnologias decorrentes da 2a GM, resultou dos equívocos cometidos no início daquela conflagração.

Os antecedentes::

A infantaria do exército alemão entrou na 2a GM equipada com uma miscelânea de armas portáteis: o rifle de ferrolho (“de repetição”) KAR98K, a metralhadora ligeira MG34 e diversos modelos de submetralhadoras, o principal deles a ERMA MP38/40. As duas primeiras usavam a munição Mauser Patrone 1888 7.92X57 mm, desenhada no final do século 19 para fuzis de ferrolho Mauser M1888. O 7,92X57 IS (Infanterie, Spitz, ou “Infantaria, ponteado”) foi padronizado pela Alemanha em 1905, com a adoção do fuzil Mauser G98 como fuzil do Exército Imperial. A partir de então, as armas do exército alemão passaram a ser projetadas em torno desse cartucho, inclusive as metralhadoras usadas na 1a GM. A ERMA MP38/40 era produto do desenvolvimento, iniciado no final da 1a GM, da pistola-metralhadora, arma concebida para disparar projeteis Parabellum 9X19 mm, desenhados originalmente para pistolas semi-automáticas.

O poder de fogo do infante era comprometido pelo fato de que a maioria deles transportava fuzis cujo tiro era disparado em posição deitada ou ajoelhada, e a arma tinha de ser apontada para que essa única salva não se perdesse. Essa seqüência de operações resultava numa cadência de fogo baixa (um atirador mediano conseguia disparar as cinco cargas contidas no clipe de munição do KAR98K em cerca de um minuto), que tornava esse tipo de arma completamente inadequada para as novas condições do campo de batalha. A ampla difusão da metralhadora “pesada”, a partir de dezembro de 1914, mostrou as limitações do “fuzil de repetição”, e militares e engenheiros começassem a pensar em soluções para contornar o problema. Uma delas foi tentar diminuir o tamanho das metralhadoras, de modo que essas pudessem ser operadas por um único atirador, se deslocando e atirando ao mesmo tempo. Essas “metralhadoras ligeiras” ainda eram muito pesadas e, na prática, obrigavam o atirador a parar para disparar.

Os alemães tiveram uma idéia que parecia melhor: criaram uma arma automática disparando munição de pistola, que chamaram maschinepistole (pistola-metralhadora). Essa arma, surgida em 1917 e distribuída em 1918, tinha vantagens e desvantagens: era leve (pesava cerca de 4 quilos), tinha o desenho parecido com o de um fuzil, podia ser disparada em movimento, tinha uma cadência de tiro alta e, graças a um carregador parecido com o usado em pistolas semi-automáticas, alojando 28 cargas, podia ser rapidamente remuniciada; entretanto, o cartucho usado, 9X19, igual ao das pistolas, era pouco potente e, por esse motivo, seu alcance era pequeno. O pior é que as características da munição de pistola faziam com que o disparo em rajadas curtas fosse totalmente impreciso.

A guerra acabou antes que um novo uso fosse dado às novas submetralhadoras (forças especiais chamadas “Tropas de choque”, criadas no último ano da guerra, foram equipadas com elas), embora tivessem sido produzidas umas 100.000 dessas armas.

Um paradoxo interessante: as duas Wehrmacht::

A reorganização das Forças Armadas Alemãs (Deutsche Wechmacht), a partir de 1935, não se deu sem alguns problemas. O Tratado de Versalhes tinha imposto restrições militares ao país, a principal delas a limitação de efetivos e equipamento. A Alemanha imediatamente começou a burlar essas condições. O Tratado de Rapallo, estabelecido em 1923, iniciou uma colaboração secreta com a URSS, naquela época também à margem da comunidade internacional. Uma comissão de oficiais alemães viajou a Moscou naquele ano para negociar os termos do acordo, e foi estabelecida a colaboração Alemanha-URSS no treinamento de pessoal e acesso a campos de provas. Milhares de especialistas em blindados treinaram nos campos de Lipetsk e Kazan. O acordo com os russos – a contrapartida era o fornecimento de tecnologia industrial e supervisão técnica – permitiu que a Wehrmacht desenvolvesse novas tecnologias e formasse um núcleo de pessoal familiarizado com as novas armas e treinado nas novas táticas. Dentre essas encontrava-se uma nova forma de combinar o uso de veículos blindados e infantaria.

A introdução de elementos mecanizados como transportadores de infantaria – caminhões e carros blindados – apontou a necessidade de novas armas de infantaria. Dois resultados logo apareceram: a metralhadora MG34, lançada em 1934 e distribuída em 1935, e a submetralhadora MP38, lançada em 1938 e distribuída em 1939, pouco antes do início do conflito. A MG34 era uma adaptação das metralhadoras ligeiras da Primeira Guerra Mundial, com a diferença de que foi concebida para uso por todo o exército, e até mesmo pela força aérea. A MP38 era um redesenho da submetralhadora, que perdeu a ergonomia de “arma longa”, sendo encurtada (com a coronha rebatida, tinha 63 centímetros de comprimento) e adaptada para tropas motorizadas e pára-quedistas. Pouco depois de distribuída, sofreu adaptações para torná-la mais barata e fácil de produzir: as peças em metal usinado deram lugar, tanto quanto possível, ao metal estampado, o uso de parafusos foi reduzido ao mínimo e a madeira foi substituída por plástico.

Pouco antes da guerra, foi discutida a distribuição de submetralhadoras para todo o exército. Essa idéia foi entravada por dois problemas. Um era conceitual: mesmo com o sucesso das novas experiências, a doutrina alemã enfatizava o tiro individual à longa distância. Vários infantes disparando ao mesmo tempo, apoiados por uma ou mais metralhadoras, criavam o peso de fogo necessário para superar o adversário. O outro era econômico: os estoques de carabinas KAR98K, herdadas da 1ª GM eram enormes. Depósitos tinham sido preservados pelas tropas francas que proliferaram pelo país após 1918. Em 1935, com a retomada da conscrição universal, o aumento repentino do tamanho do exército, que foi ampliado para 550.000 efetivos, exigiu que houvesse equipamento para todos esses soldados. Essas armas herdadas da Grande Guerra, recolhidas pelas autoridades, foram distribuídas às tropas, e as fábricas continuaram a utilizar a tecnologia, gabaritos e ferramental já disponíveis, visto que não haveria tempo para desenhar e colocar em produção uma nova arma-padrão.

Na prática, a Wehrmacht de 1939 dispunha de duas categorias de tropas bem diferenciadas: as forças motorizadas e o resto do exército. As primeiras, compostas por 10 divisões blindadas, 7 divisões de infantaria motorizada e 3 divisões “ligeiras” (divisões blindadas com um efetivo menor de tanques e veículos motorizados), representavam apenas 7% do efetivo total, mas eram novas tropas, resultado da introdução dos blindados sobre lagartas, apoio logístico motorizado, e aplicação de interdição e apoio aéreo aproximado. Essas tropas receberam uma quantidade maior de submetralhadoras (1 em cada 4 armas), mas mesmo elas continuaram a ser dotadas com os fuzis de repetição convencionais. O resto do exército, cuja organização e armamento não eram muito diferentes da guerra anterior, compunha-se de divisões de infantaria, deslocando-se a pé e, quando necessário, em carroças ou de trem. Nessas unidades, o armamento continuou a ser o convencional, com a diferença de que a esquadra de combate passou a ser equipada com uma metralhadora ligeira.

Esses conceitos duraram até 1941. O choque com as tropas soviéticas armadas de submetralhadoras com carregadores de 70 cargas e fuzis semi-automáticos, como o excelente Tokarev, deixaram evidente a necessidade de uma nova arma para as tropas alemãs.

Infantes motorizados Waffen-SS equipadas com pistolas-metralhadoras MP38/40.

Infantes motorizados Waffen-SS equipadas com pistolas-metralhadoras MP38/40.

Em 1941, as principais fábricas de armas longas da Alemanha, Mauser e Walther, apresentaram o desenho de um fuzil semi-automático, concebido em torno do cartucho IS. A primeira versão, denominada G41, foi distribuída em pequenas quantidades e, em combate, revelou-se pouco eficiente em todos os parâmetros testados. Diante do desinteresse do exército, a Mauser abandonou o projeto. Walther, entretanto, continuou avaliando o Tokarev STV40, e rapidamente seus engenheiros notaram que o fuzil soviético, de ação a gás (o cartucho vazio é eliminado e o mecanismo de culatra, rearmado através do aproveitamento de parte da energia do disparo, sob a forma da expansão do gás criado pela explosão do propelente), oferecia grandes vantagens sobre o G41. A produção do G41 foi suspensa e o projeto, amplamente modificado, resultando no G43(W), mais simples e barato. Foram introduzidas muitas peças em metal forjado e uma coronha em madeira laminada, bem como a introdução de um carregador destacável de dez cargas, carregadas a partir dos clips convencionais usados na KAR98K. O G43(w), revelou-se razoável, mas teve sua produção em massa atrasada pela implicância do exército com armas semi-automáticas.

Certa quantidade chegou a ser distribuída (calcula-se um número entre 350.000 e 400.000 unidades). O Gewehr 43 Walther, G43(W) em sua versão carabina, foi distribuído às tropas a partir do final de 1944. Ao ter contacto com essa arma, os infantes norte-americanos a chamaram de “Hitler´s Garand“. No entanto, o Garand M1, arma-padrão dos GIs, era superior em diversos pontos, em comparação com a arma alemã.

Gewehr 43, desenho Walther. Tentativa alemã de um fuzil semi-automático.

Gewehr 43, desenho Walther. Tentativa alemã de um fuzil semi-automático.

 

 

Mas, naquela altura, tanto militares quanto engenheiros alemães já estavam interessados em outro conceito. Este sim, irá se revelar, com o tempo, revolucionário::

Anúncios

4 pensamentos sobre “Cultura material militar::Fuzil de assalto: a origem de uma linhagem::

  1. Pingback: Cultura Material militar::A linhagem FAL:: « Causa::

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s