Cultura material militar::Fuzil de assalto: a origem de uma linhagem::


Terceira e última parte:: Sempre é bom lembrar – o começo está lá embaixo::

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O cartucho Polte e o surgimento do fuzil de assalto. A primeira providência foi estabelecer requisitos para uma nova arma, que foram estabelecidos em 1941: deveria ser um fuzil automático, do mesmo peso ou, preferencialmente mais leve, e mais curto que o KAR98K, deveria ter um alcance de aproximadamente 600 metros e ter uma cadência de fogo igual a de uma submetralhadora (350-450 salvas por minuto). Essa nova arma, segundo o Departamento de Armamentos do Exército, deveria, em prazo máximo de um ano, substituir fuzis de ferrolho, submetralhadoras e metralhadoras ligeiras. No início de 1942, as empresas Karl Walther e C. G. Hänel apresentaram protótipos, designados Machinenkarabine (algo como “carabina-metralhadora”) 1942, ou MKb 42(W) e MKb42(H). Ambos os protótipos tinham sido desenhados em torno de um novo tipo de cartucho, chamado Polte, nome da firma em que foi desenvolvido, por requisição direta do HwA, a partir de 1938.

O problema do desenvolvimento de um cartucho totalmente novo – partido adotado por todas as empresas – era que os novos calibres não saíam da prancheta para o estágio de protótipo funcionando bem. A fase de experiência se prolongava, sem a garantia de que o resultado fosse satisfatório. A Polte, por sua vez, adotou um conceito que era um verdadeiro “ovo de Colombo”: já que o 7.92 IS funcionava bem, a solução talvez fosse criar uma espécie de “irmão menor”, que manteria integralmente os desenhos do projétil e do estojo, mas com comprimento, peso e potência diminuídos. Por volta do início de 1941 as dimensões de 7.92X33 mmX125 grãos (8 gramas) de pólvora sem fumaça pareceram as ideais, conseguindo que a velocidade de boca do disparo, em banco de provas, chegasse a pouco mais de 650 metros por minuto.

Os testes iniciais apontaram a MKb.42(H), desenhada por Hugo Schmeisser (bem sucedido desenhista de submetralhadoras, equivocadamente apontado como idealizador das ERMA) como a melhor dentre as concorrentes. O exército encomendou alguns exemplares para avaliação, que foram denominados MP43, notação usada para submetralhadoras. O motivo é bastante curioso: na segunda metade de 1942, um exemplar da MKb42(H) foi apresentada a Hitler. Ao contrário do que era esperado, o ditador teceu uma série de comentários sobre a superioridade das submetralhadoras e, diante dos desconsertados membros do HwA, proibiu qualquer investimento sobre a arma. A partir de então, por sugestão de um projetista da Hänel, a notação MP43 passou a constar dos relatórios. Até o ano de 1944, quando Hitler foi finalmente convencido, todas as referências à ela apareciam como MP.

Certa quantidade de “MP43” foi entregue para avaliação às tropas empenhadas na frente oriental, e logo começaram a chegar pedidos de todos os lados. No final do ano de 1943, uma nova versão, denominada MP44, já trazia as características do fuzil de assalto que se tornaria padrão. O nome SturmGewehr (StG) 44 foi adotado por questões de propaganda. Embora essa designação não coubesse nas normas de referência do exército, soava bem e teve a aprovação entusiástica de Hitler, a partir de uma demonstração um tanto teatral montada por generais do exército em junho de 1944.

Infantaria motorizada da Divisão Escola Blindada (Panzer Lehr Division). O infante no centro, à esquerda tem uma MP42 à bandoleira.

Infantaria motorizada da Divisão Escola Blindada (Panzer Lehr Division). O infante no centro, à esquerda tem uma MP42 à bandoleira.

É claro que a arma tinha problemas: ainda era considerada um tanto pesada e os infantes reclamavam do fato de que o longo carregador tornava problemático o disparo deitado. Curiosamente, embora considerada pesada, a fabricação quase totalmente feita em metal estampado e plástico a tornava relativamente frágil para as condições de campanha; outra reclamação constante era o excesso de saliências, que tornava difícil carregar tanto em descanso de ombro quanto “à bandoleira” (pendurada nas costas através da correia).

StuG44 com o número de carregadores recebidos por um soldado de infantaria regular.

StuG44 com o número de carregadores recebidos por um soldado de infantaria regular.

Independente do nome, a arma mostrou-se totalmente eficaz. A cadência de fogo de uma submetralhadora, com a potência e alcance de um fuzil de ferrolho. O desenho ogival do projétil, somado à potência, eliminavam grande parte dos problemas de estabilidade e precisão observados nas submetralhadoras, permitindo manter, sem grandes alteração de peso – a KAR98K pesava cerca de 4 quilos, no StG o peso, com o carregador de 30 cargas subia a pouco mais de 5 quilos. Este, entretanto, era significativamente mais curto do que o fuzil de ferrolho, e dotado de uma ergonomia que facilitava o disparo em movimento: é significativo o fato de que os StG44 não dispunham de bipé.

Atirador de elite Waffen-SS usando um StuG44 equipado com luneta.

Atirador de elite Waffen-SS usando um StuG44 equipado com luneta.

Foram fabricadas pouco mais de 500.000 StGs, entre 1944 e 1945. Ainda escondidos sob a notação de submetralhadora, MKb42 e StG44 estavam disponíveis em meados de 1944, em número bastante limitado. Encaminhados à Frente Oriental, eram suficientes apenas para a infantaria das divisões blindadas de elite do exército e da Waffen-SS. Mesmo assim, alguns exemplares foram capyutados pelos russos em 1943 e os deixaram bastante impressionados com o desempenho. Também foram encontrados alguns exemplares nas operações que se seguiram à invasão da Normandia. No final daquele ano, entretanto, a produção da nova arma aumentou em níveis que vieram a permitir distribuição em escala mais ampla. Durante a contra-ofensiva das Ardenas, quantidade razoável de infantes já dispunha de fuzis de assalto, incluíndo algumas de Volksgrenadier (siga até a página 2 desse excelente recurso de pesquisa), recentemente formadas e que, depois da “operação Valquíria”, gozavam da confiança do partido nazista. No fim da guerra, as operações em torno de Berlim, comandada pelo general-de-exército Waffen-SS Steiner, viram violentos combates nos quais os infantes alemães estavam armados extensivamente com StG44.

Entretanto, na situação caótica dos meses finais da guerra, grandes estoques da nova arma não alcançaram a frente de batalha ou, quando alcançavam não podiam ser utilizados por falta de munição. Entretanto, unidades de elite as receberam em quantidades razoáveis, e chegaram a ser formados estoques de munição Kurz razoáveis. Documentos da Wehrmacht examinados pelos norte-americanos indicam que os alemães pretendiam, a partir dos meados de 1945, começar a distribuir a nova arma de forma exptensiva, e foi encontrado ferramental de produção já preparado para distribuição.

Relatórios feitos tanto pelos aliados quanto pelos russos indicam que um dos motivos que permitiram a unidades alemãs muito inferiorizadas em números combater com certo sucesso foi a superioridade dada a elas pelo fuzil de assalto. O maior alcance e peso de fogo combinados com precisão comparável à dos fuzis de ferrolho davam ao infante alemão vantagem tanto em campo aberto quanto em áreas fechadas – as cidades arruinadas da Alemanha. Em certas situações, a arma mostrou poder funcionar inclusive como metralhadora ligeira para prover cobertura próxima à infantaria.

 

Após a guerra, tanto aliados quanto russos examinaram o StG44, mas não manifestaram interesse em colocá-lo em produção. Em 1947 os soviéticos lançaram o AK47, que tinha começado a ser concebido durante a guerra e que, apesar de extremamente parecido com o StG, tinha, com relação ao mesmo, grandes diferenças. Nos anos seguintes surgiriam o FN Herstal, belga (adotado nos anos 60 pelo exército brasileiro), o Heckler-Koch G3 (adotado no final dos anos 60 pela infantaria da FAB) e o M14 (até hoje usado como arma de parada pelos aspirantes a oficial da Escola Naval).

Essa foi a primeira geração de um artefato que sem dúvida indicava o futuro. Mas essa é outra história::

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8 pensamentos sobre “Cultura material militar::Fuzil de assalto: a origem de uma linhagem::

  1. Bitt,

    Um pequeno off topic – me perdoe – mas quero te mostrar esse link aqui

    http://www.eagerarms.com/

    Conheço o Peter O´Sullivan, todo ano nos encontramos e falamos um monte, principalmente do Vietnan onde ele atuou bastante.

    Acho que vc vai gostar do site.

    Um abraço

  2. Bitt, quinta feira vou encontrar com o Peter O´Sullivan. Será que você não teria uns dias de folga?

    Cara, ele explica tim tim por tim tim como eram as operações, é muito interessante.

    A história é mais ainda. Contou que ficou anos sem querer falar do Vietnan, até que uma filha veio lhe pedir material para um trabalho da escola. Nesse momento aceitou e começou a se lembrar, a escrever, e aí entrou em contato com seus ex-colegas e eles se juntaram no site. Hoje em dia promovem encontros e tudo mais.

    Bora nessa cara. A gente se conhece pessoalmente e passa uns 2 dias de papo com o Peter. É gente finíssima, ele e sua mulher, a Beck.

    Destino: Paraty. Vou na quinta de manhã e volto no domingo.

    • Caro, se tem uma coisa que não tenho tido é tempo para férias, mesmo que curtas. Viagens são mtas, mas todas a trabalho. :c( Mas certamente gostaria de publicar algo do seu amigo. Poderia ter o end eletr dele?

  3. Não consegui ver o filme.

    Interessante as reclamações do pessoal de frente. Carregador alto, saliências, peso.

    Acho que nessa categoria a AK 47 foi imbatível como sucessora. Ou há coisa melhor?

  4. Pingback: Cultura material militar::A linhagem AK:: « Causa::

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